sábado, agosto 15, 2009

Balanço do primeiro teste


Previ aqui que se se confirmasse o episódio de vento Leste que se iniciaria na Segunda Feira dia 10, o sistema de combate aos fogos iria ter o seu primeiro teste ao fim de dois dias e ao fim de cinco o país estaria a arder por todo o lado.
Esta previsão não se concretizará (provavelmente, a menos que a velocidade do vento venha a aumentar, o que não está previsto) em relação à dimensão do problema ao fim de cinco dias, mas aparentemente foi um primeiro teste para o sistema de combate aos fogos, embora ainda em regime de treino.
Na realidade é muito evidente o aumento do número de fogos diários durante o episódio em que estamos, mas é também muito clara a capacidade para os apagar depressa.
Esta situação deve-se provavelmente a dois factores: 1) o sistema de combate regista melhorias e parece adequado a estas condições (lembremos que o conceito base que foi desenvolvido é o da chegada ao fogo no mais curto espaço de tempo para o poder apagar ainda nascente); 2) o vento fraquíssimo (em muitas alturas tecnicamente calmaria) permitiu uma progressão muito lenta do fogo e ajudou o conceito base do despositivo de combate a incêndios.
Ainda assim estamos já com mais de duzentos fogos diários e os meios existentes esticam mais ou menos até aos 250 (se não forem muito concentrados).
Naturalmente vai ser impossível manter os valores de área ardida ao nível do ano passado (que são claramente uma anomalia, semelhante à de 2003, mas agora de sentido inverso) mas se a velocidade do vento se mantiver baixa as perspectivas para este ano melhoram bastante.
O que significa maior acumulação de combustível para anos seguintes em que a sorte possa não estar deste lado da Europa, como este ano não tem estado noutras regiões europeias.
henrique pereira dos santos

10 comentários:

Miguel B. Araujo disse...

Caro Henrique,

Sugiro que nas tuas análises e previsões incluas o que se passa em Espanha. Ao que parece, Espanha tem ardido mais este ano que em anos anteriores e Portugal ardeu mais em anos que Espanha ardeu pouco. Sendo que as condições climáticas de ambos Países são semelhantes, seria interessante entender porque é que existe esta falta de sincronia nos padrões.

Pedro Almeida Vieira disse...

Na minha opinião, a semana que passou ainda não reunia as condições de risco para testar o sistema de combate. Apesar dos ventos de leste e a humidade relativa baixa com temperaturas acima dos 30 graus, tinha chovido há pouco mais de uma semana em praticamente todo o território.

Acresce ainda que houve um factor azar/sorte que acabou por descair para a sorte. Por exemplo, na zona centro (que é um autêntico barril de pólvora) a meio desta semana verificaram-se uma série de ignições provocadas por trovoadas, mas seguiu-se depois uma chuvada forte que extinguiu esses incêndios. Vd aqui: http://jn.sapo.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Leiria&Concelho=Leiria&Option=Interior&content_id=1334457

Portanto, não embandeiremos em arco relativamente á eficácia do combate.

Paulo disse...

Concordo com o Pedro A. Vieira, mas não pelo mesmo motivo. A chuva que caiu exerceu o seu efeito durante 2-3 dias, se tanto. Os índices de perigo de incêndio mostram que à excepção do Noroeste a secura da vegetação é comparável à de 2003 ou 2005. Mas não é possível ter incêndios como os de 2003 e 2005 (ou 1998) sem que se somem mais 3 condições: combustível abundante (que continua a faltar em muitas regiões), vento q.b. (não tem havido) e humidade do ar bastante baixa (tem sido apenas moderadamente baixa). Assim, com todo o investimento feito no ataque inicial os fogos vão sendo debelados rapidamente nestas condições.
Mas alguns fogos dão os seus sinais de que pouco mudou no essencial, ou seja na capacidade técnica de enfrentar um incêndio de maiores dimensões. Até agora o maior foi o de Alportel, cerca de 1550 hectares. Um conjunto de fotografias tiradas pelo avião ao serviço da AFN deu-me a oportunidade de ver como o fogo se desenvolveu: em terreno ondulado, com abundância de acessos, pouco vento, num tipo de vegetação (esteva) em que a propagação do fogo é altamente dependente da existência de vento. O fogo evoluiu ao sabor da topografia, auto-extinguindo-se nos flancos ao encontrar caminhos e na ausência de combustível herbáceo. Por que é que alastrou tanto?
Respondendo ao Miguel, os padrões meteorológicos (sinópticos) que condicionam o fogo são regionais. Os padrões de circulação atmosférica em Espanha este ano são comparáveis aos de 2003 em Portugal: a mesma situação sinóptica, com ar muito seco, quente e instável (que dá origem a trovoada seca) proveniente do N. África, mas deslocada para a direita da P. Ibérica. Ao mesmo tempo Portugal ia beneficiando da nortada húmida e fresca.

Paulo Fernandes

Henrique Pereira dos Santos disse...

Miguel,
Ando há anos a dizer (e procurar demonstrar) que é errado pressupor que em matéria de fogos que Portugal e Espanha são semelhantes, chamando a atenção para o facto de 50% dos fogos de Espanha se localizarem na Galiza.
Pedro e Paulo,
O essencial foi que o vento foi fraquíssimo, isto é, que não estivemos sob uma influência das condições sinópticas típicas de uma lestada (como se demonstra pelo teor de humidade atmosférica).
Penso que sobre isto estamos de acordo.
Por isso referi um teste em regime de treino.
henrique pereira dos santos

Miguel B. Araujo disse...

Henrique,

Em termos climáticos, a Galiza é semelhante ao noroeste do País, partes de Castela são semelhantes às beiras, partes da Extremadura e Andaluzia são semelhantes ao Alentejo, etc. O famigerado vento de leste vem de Espanha!! Portanto faz todo o sentido analisar a realidade Portuguesa por comparação com a Espanhola pois, conhecidas as semelhanças e diferenças do ponto de vista climático, sobram os aspectos socio-económicos e de uso de solo. Por outro lado, do ponto de vista de uma análise rigorosa, ou seja estatística, fazem falta pontos de comparação e estes vamos encontrá-los com mais facilidade a Espanha do que na Califórnia.

Miguel B. Araujo disse...

Paulo,

O verão de 2003 foi o ano mais quente dos últimos anos na Europa. Quando dizes: "Os padrões de circulação atmosférica em Espanha este ano são comparáveis aos de 2003 em Portugal", o que queres dizer ao certo:

Que o verão de 2003 em Portugal foi excepcional e não foi análogo às condições meteorológicas verificadas esse ano em Espanha?

Ou simplesmente, que as condições meteorológicas em Espanha deste ano são análogas às que se verificaram em 2003 (também em Espanha).

Se for o último caso , poderás recordar-nos o padrão de fogo em Espanha no verão de 2003?

Tens a certeza que este ano as condições meteorológicas em Espanha são anómalas?

Henrique Pereira dos Santos disse...

Miguel,
Se reparares eu não faço análises estatísticas, procuro interpretar fenómenos e deixo aos investigadores as demonstrações.
A questão é mesmo que as condições para a existência de fogos excepcionais são razoavelmente localizadas, não vale de nada comparares a globalidade do ano 2003 num sítio ou noutro, o que é relevante é se as condições concretas de um determinado tipo ocorrem ou não e onde.
Em rigor o que se procuram são anomalias estatísticas.
Por exemplo, em 2003, enquanto no Centro de Portugal ocorriam condições óptimas para o desenvolvimento de grandes fogos, logo para dentro em Espanha essas condições não se verificavam, e logo para o litoral em Portugal também não (até esteve um tempo farrusco de nuvens, neblinas e chuviscos).
Por isso a análise estatística dos fogos é tão limitada na sua capacidade de gerar compreensão do fenómeno.
Insisto que temos mais fogos pelas mesmas razões que temos mais sobreiros.
O que não impede que este ano quem tenha tido um ano muito mau tenha sido a Catalunha (mesmo que um ano mau na Catalunha dificilmente seja um ano como o de 2003 no interior Centro de Portugal).
henrique pereira dos santos

Paulo disse...

Miguel,

Dito de forma simples , as condições meteorológicas que afectaram Portugal em 2003 são próximas (anómalas ou não...) daquelas que afectaram Espanha em 2009. Em 2003 foi o Oeste da Península, em 2009 foi o Leste, tal como em 2006 foi o Noroeste (os grandes incêndios da Galiza foram síncronos com os do Minho). Era isto que queria dizer com o carácter regional da piro-meteorologia.

É provável que a gravidade dos incêndios que ocorrem em anos anómalos em Espanha dê mais nas vistas, porque Espanha combina territórios florestais menos fragmentados, com mosaicos de fogo menos rendilhados e uma máquina de combate mais possante. Pelo contrário, os fogos de agora vão sendo encaixados na muito notória história recente de incêndios nas montanhas do Portugal (pelo menos onde tenha ardido há 6 e menos anos).

Henrique Pereira dos Santos disse...

Paulo,
Vou ler outra vez o artigo "ATMOSPHERIC CONDITIONS ASSOCIATED WITH THE EXCEPTIONAL
FIRE SEASON OF 2003 IN PORTUGAL" porque tenho ideia de que o que se passou no interior centro de Portugal não se repetiu em mais lado nenhum das Espanhas (independentemente das condições genéricas serem as mesmas). Tanto quanto me parece, pequenas diferenças, como por exemplo, a velocidade do vento na semana que passou que foi entre o fraco e a calmaria, o que já não se verificou hoje o que provocou uma dificuldade acrescida de extinção dos fogos, resultam em grandes diferenças de área ardida.
henrique

Paulo disse...

Concordo. Os fogos têm-me sido descritos como pequenos e redondos, o que atesta a falta de vento.

Paulo Fernandes