sábado, setembro 05, 2009

Balanço do segundo teste

Este é o gráfico do número de fogos diários dos últimos dias. Acrescentei uma linha que é o número médio de bombeiros por fogo.
Gostaria exactamente de começar por esta linha que já usei noutras alturas para caracterizar a dificuldade de extinção dos fogos.
Surpreendentemente para mim, a linha não sobe nos dias mais críticos, como eu esperaria.
A explicação que me parece mais plausível é de que não sobe porque efectivamente há um limite para a mobilização de meios, que vai sendo cada vez mais difícil quanto mais meios já estão mobilizados. É o que pode explicar um número relativo elevado (mas mais baixo em termos absolutos) de bombeiros no primeiro episódio de vento Leste (fraquíssimo ou mesmo com calmarias) que é visível no pico secundário de fogos diários, sem correspondência no número relativo de bombeiros no pico primário de fogos diário.
Este aspecto é importante porque ajuda a explicar os resultados deste segundo teste a que foi sujeito o sistema de combate a incêndios (os puristas estarão a protestar por eu usar fogos e incêndios mais ou menos indistintamente, não tendo em atenção a distinção técnica de uma coisa e outra que passa pela existência ou não de controlo do fogo. Simplesmente essa distinção técnica não tem nenhum eco na linguagem comum).
Ora o balanço que se pode fazer deste segundo teste é que o sistema e o seu pilar base (apagar os fogos nascentes), que passa pela rapidez de ataque inicial e recurso frequente a meios aéreos, não resistiram a condições minimamente desfavoráveis.
Note-se que estas condições nem foram particularmente agrestes, porque o vento era fraco (não tão fraco como no primeiro teste, o que permitiu ao sistema manter uma aparência de eficácia) e porque duraram muito pouco tempo (dois, três, eventualmente quatro dias).
Mesmo assim, com condições dificeis mas não excepcionais, arderam só na zona do Sabugal mais de 10 000 hectares, tendo alguns fogos durado mais de 24 horas.
O que isto quer dizer é que em condições particularmente desfavoráveis o dispositivo de combate não vai ser capaz de dar resposta.
Note-se que isto não é, em si, particularmente grave, o mesmo acontece em Espanha, nos Estados Unidos ou na Austrália.
O que é grave é a crença na ficção de que o problema da gestão eficiente do fogo depende essencialmente da protecção civil e dos sistema de combate e a crença na ideia peregrina de que todos os grandes fogos começam por ser pequenos e portanto o que é preciso é extingui-los nessa fase.
O que este teste permitiu demonstrar, pela enésima vez, quer em Portugal, quer noutro lado qualquer, é que não é possível controlar todos os fogos em fases nascentes e, consequentemente, em algum momento alguns fogos sairão do controlo.
O que é a especificidade portuguesa é que essas condições em que pelo menos um fogo foge de controlo são mais frequentes que noutros países.
O dinheiro que estamos a enterrar na ficção de apagar todos os fogos à nascença, aplicando grande parte dos trinta milhões de euros anuais do fundo florestal e muito mais outros recursos nesta linha estratégica errada, é o dinheiro que nos falta para gerir decentemente os combustiveis num cenário de falência do mundo rural e de não gestão de larguíssimas áreas do território.
O balanço deste segundo teste tem uma conclusão brutal e desagradável, mas infelizmente verdadeira: nunca se deve subestimar a estupidez, a incompetência e a ignorância que pode estar associada à afectação dos recursos públicos para a resolução de problemas complexos com base em ideias simples e apelativas.
henrique pereira dos santos

6 comentários:

EcoTretas disse...

Excelente. Recomendaria também sobre a situação nos EUA:
http://www.google.com/hostednews/ap/article/ALeqM5gNirrGO3UeJug3__BuGV2m6TzUIQD9AFHJG00
Ecotretas

Henk Feith disse...

O raciocínio do Henrique está correto, quando conclui que o dispositivo de combate a incêndios é muito caro, não garante a prevenção de grandes incêndios e desvio fundos que podiam ser utilizados de forma mais inteligente.
O entanto, ainda está longe de comprovada a eficácia da alternativa, que o Henrique não desenvolve neste post, mas que tem-o feito com frequência e muito bem, que é a redução preventiva do estado de combustibilidade do espaço rural Português, nomeadamente através do fomente de usos tradicionais do espaço rural. Por um lado é impensável abdicar da totalidade do dispositivo de combate a incêndios, que teria resultados desastrosos em termos de áreas ardidas, enquanto se verifica o número de ignições que tipificam os verões Portugueses (são dezenas de milhares). Como está comprovado, a quase totalidade destas ignições são de facto extintas na sua fase inicial, o que não aconteceria em caso de ausência de dispositivos de combate. O Henrique aponta a falha da solução atual, mas não evidencia a capacidade da sua alternativa defendida de evitar tais grandes incêndios. E é essa a questão quando de discute qual a estratégia que melhor proteção oferece.
Eu concordo com o Henrique no seu diagnóstico, mas estou em crer que não se pode abdicar desse dispositivo de combate com o Pais que temos atualmente. Mas apoio totalmente a tese que o problema dos incêndios deve ser também combatido através do fomento dos usos tradicionais do espaço rural. Por isso uma estratégia nacional deve basear-se numa solição de "e e" e não de "ou ou".

Henk

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Henk,
Há na caracterização que é feita do meu ponto de vista alguma imprecisão.
Vou procurar clarificar brevemente.
1) Portugal tem um risco de incêndio bastante mais elevado que áreas geograficamente afins, como grande parte de Espanha, sendo por natural que mais dificilmente tenha bons resultados;
2) Os resultados não dvem ser medidos em área ardida ou número de fogos mas em valor destruído;
3) Há muitos fogos que não destroem valor (entendendo-se aqui valor com inclusão de valores naturais e sociais);
4) Como corolário, o sistema de gestão do fogo deve ter como objectivo proteger os valores e não eliminar o fogo;
5) Um sistema público de combate deve pois ter hierarquizadas as prioridades de defesa de valores que são: vidas humanas; infraestruturas de interesse geral; casas; valores ambientais susceptiveis ao fogo; valores económicos;
6) Os sistemas privados de combate terão naturalmente como prioridade os interesses dos seus promotores;
7) Para que o sistema de combate tenha eficácia na obtenção destes objectivos precisa de ser assente numa gestão de combustíveis orientada a partir dos mesmos objectivos;
8) Nessa gestão de combustiveis as actividades que criam valor de mercado são mais eficientes e sustentáveis que as que apenas consomem recursos.
Penso que nada disto permite a conclusão de que se deve prescindir de sistemas de combate, nem que as actividades tradicionais são uma alternativa ao estado actual.
O que se pode concluir é que são uma ferramenta que não tem sido usada como deveria e que há imensas áreas que devem arder sem afectação de recursos à extinção do fogo.
Espero que a minha posição tenha ficado mais clara e no fundo resume-se à discussão da forma mais eficiente de obter um padrão de fogo que seja o menos destruidor de valor possível.
henrique pereira dos santos

Paulo disse...

Henrique,

Enterramos dinheiro no combate e descuramos a raiz do problema, é certo. Mas o que é verdadeiramente trágico é que com o sistema de combate que temos (altamente incompetente nos fogos que escapam ao ataque inicial) não há gestão do território e do combustível que nos valha. Penso assim desde 2003 e ainda não vi motivos para mudar de opinião...

Paulo Fernandes

Henrique Pereira dos Santos disse...

Paulo,
Acredito que o sistema seja incompetente nos fogos que escapam mas acho que será difícil mudar isso enquanto não se clarificar a missão do sistema de combate aos fogos: controlar danos e não apagar fogos. Claro que para controlar danos é muitas vezes preciso apagar fogos e é bom que se seja eficiente nessa tarefa, mas os objectivos e os indicadores têm de estar ligados à perda de valor e não à área ardida, parece-me.
henrique pereira dos santos

Henk Feith disse...

Pois Henrique, voltas a ter razão, num plano bastante teórico. Infelizmente, o dano de um fogo é somente conhecido depois dele ter ocorrido. Não é possível num momento inicial de um fogo, prever qual será o seu dano se ele não for combatido, tipo: deixe arder que aqui não faz mal. Isso é tecnicamente e socialmente inaceitável, porque não se sabe a dimensão que vai alcançar sem combate (também não se sabe sempre com combate, é claro). Não gostava de estar no lugar da pessoa que decidiu "não combater" um incêndio que afinal provovou danos muito sérios a bens a proteger. Portugal não é propriamente Yellowstone Park. Faz lembrar um pouco o treinador de futebol (peço desculpas pelo exemplo popularucho) que disse ao avançado que, em caso de receber a bola na grande área adversária sem saber o que fazer com ela, de primeiro a meter na baliza para depois discutir as opções técnicas. Acho que vale mais apagar fogos que fazem pouco dano que não apagar os que depois venham a ser destruitívas. Mas se calhar estou a ser muito "engenheiro florestal" logo simplista.

Por fim, penso que as prioridades que mencionas no ponto 5 são as que são utilizadas na grande maioria dos combates pelos bombeiros e demais envolvidos (salvo, obviamente, as estruturas privadas de combate a incêndios).

Henk Feith