quarta-feira, dezembro 09, 2009

As alterações climáticas desviam a atenção de problemas ambientais urgentes

Com a conferência de Copenhaga a decorrer penso ser apropriado fazer uma pequena reflexão sobre a forma como o movimento ambientalista, os media, e até a sociedade em geral têm focado toda a sua atenção nas alterações climáticas. Para alguns, como Achim Steiner (Director da UNEP) é bom que as alterações climáticas tenham captado a atenção da sociedade pois agora outras questões ambientais podem ser comunicadas ao público por associação às alterações climáticas. Para outros, nos quais me incluo, o foco excessivo nas alterações climáticas desvia perigosamente a atenção da sociedade de vários problemas ambientais graves, como a perda da biodiversidade, a poluição do ar das nossas cidades, a sobreexploração de recursos biológicos, entre outros. Darei um exemplo muito concreto associado à qualidade do ar.
Hoje qualquer cidadão em Portugal que decida comprar um automóvel encontrará no prospecto publicitário do veículos à venda informações sobre emissões de CO2. Para carros com característica semelhantes, por exemplo em termos de potência ou de dimensão, poderá então ser levado a adquirir aquele que apresenta menos emissões de CO2 convencido que está a tomar a melhor decisão para o ambiente. Infelizmente é muito provável que tal não aconteça. Considere-se dois veículos com emissões na casa dos 100 g-120g CO2/km, um a gasóleo e outro a gasolina (veja-se por exemplo a base de dados em http://www.vcacarfueldata.org.uk/downloads/). O veículo a gasóleo poderá emitir 0.025 g PM10/km e 0.25 g NOx/km. O veículo a gasolina terá emissões nulas de PM10 (partículas), e emissões de NOx (óxidos de azoto) tipicamente dez a vinte vezes inferiores. Estes são precisamente os poluentes na base dos problemas de qualidade do ar das nossas cidades (ver o Relatório do Estado do Ambiente 2007, APA), associados a ultrapassagens dos valores considerados seguros para PM10, NO2 e Ozono (o ozono troposférico é resultado de reacções fotoquímicas do NOx)!
Aliás, dá-se um fenómeno curioso na Europa. Apesar de os standards de emissões de veículos automóveis terem vindo a ser cada vez mais apertados (o actual é o Euro V), em muitos casos não tem havido uma melhoria significativa na qualidade do ar. Alguns especialistas atribuem este facto precisamente ao aumento da percentagem de veículos com motores a gasóleo. Em Portugal o problema é particularmente grave dado o gasóleo ter uma taxação inferior à gasolina, fazendo os carros "amigos do ambiente" ainda mais atractivos.
E quais são os problemas causados por uma má qualidade do ar? São uma maior incidência de doenças do foro respiratório, tais como a asma, de doenças cardiovasculares, e de cancros. A mortalidade anual na Europa associada a estes problemas de qualidade do ar será da ordem das dezenas de milhares (ver por exemplo J Epidemiol Community Health 2004;58:831-836), já para não falar nos impactes na qualidade de vida dos cidadãos europeus. Penso que se os media não tivessem tão concentrada no problema das alterações climáticas, já teriamos feitos mais progressos no sentido de resolver os problemas associados às emissões poluentes dos automóveis, incluindo a correcção da taxação do gasóleo em relação à gasolina, o desenvolvimento de standards de emissões ainda mais apertados para os carros a gasóleo, e a proibição de circulação de veículos a gasóleo antigos (ainda mais poluentes) nas zonas centrais das cidades. Aliás, certamente que muitos não escolheriam o carro com menos 10% de CO2 mas vinte vezes mais poluente em termos de NOx e partículas.

14 comentários:

José M. Sousa disse...

Confesso que não entendo este "post". Então as Alterações Climáticas não têm nada a ver com o problema da perda de biodiversidade e muitos outros problemas ambientais, como a falta de água, a desertificação, saúde pública, etc, etc.? É evidente que não são o ÚNICO factor, mas são certamente um factor da maior importância.

Sobre saúde pública, ver LANCET:

The Lancet’s landmark Health Commission: “Climate change is the biggest global health threat of the 21st century”

Sugiro também esta recensão de Global Warming and the Political Ecology of Health

Lowlander disse...

Caro Henrique,

Bom argumento.
Eu, pessoalmente, admitindo a partida que ainda nao pensei muito profundamente (se bem que ja o seu argumento ou coisas muito parecidas) sobre este tema tendo a concordar mais com Achim Steiner.

E acrescentaria outra razao: e que o aquecimento global, no minimo, se deixado em redea livre (como ate agora) piora quase todos os aspectos ambientais que refere.

Por outro lado, grande parte das solucoes apresentadas para mitigar emissoes de CO2 tem externalidades positivas em muitos (admitidamente nao todos) dos temas que refere exemplos:

1 - os veiculos de combustao interna actuais sao considerados insustentaveis, a prazo, em termos de emissoes. O diesel de facto emite ligeiramente CO2 por Km que a gasolina mas nao chega. A possivel solucao e o carro electrico, pelo menos no interior dos centros urbanos com obvias vantagens para a qualidade do ar como externalidade positiva.

2 - as centrais termoelectricas de gas metano emitem menos CO2 que o carvao por Kw produzido (principal solucao adoptada pelo Reino Unido para cumprir Quioto a par da deslocalizacao da sua industria pesada) mas nao chega. A prazo, ou alteramos a infraestrutura electrica ou capturamos os CO2 destas centrais que usam combustiveis fosseis. Uma vez instalados estes filtros de CO2 torna-se mais economico e politicamente facil dar mais um empurrao e comecar a filtrar outras emissoes.
3 - Uma das medidas mais urgentes para mitigar emissoes e travar a destruicao das florestas virgens tropicais, por um lado porque sao sumidouros (se bem que autenticos anoes comparadas com os Oceanos), acima de tudo porque sao reservatorios imensos de CO2 e CH4 ali imobilizados ha milhares de anos. Esta calculado e publicado pelo IPCC que 20% das emissoes antropogenicas tem simples origem na destruicao destas florestas. A externalidade positiva esta que sao tambem o maior reservatorio de biodiversidade.

Anónimo disse...

curiosamente a administração Obama acaba de declarar as emissões de CO2 um problema de saúde pública e é com base nisso que podem tomar decisões na ausência de aprovação do senado.

José Matias disse...

O problema do aquecimento global sobrepõe-se a todos os outros pois as suas consequências, a serem reversíveis, sê-lo-ão no muito longo prazo, e trarão, no entretanto, o colapso e a degradação de todas as ecologias do planeta, e por outro lado, como é referido nalguns dos outros comentários, as soluções para obviá-lo, tenderão a atenuar, ou a resolver os outros problemas ambientais.
É necessário nunca esquecer quem é o "inimigo principal" e não cair em "erros de análise" tipo Bjorn Lomborg.

Range-o-Dente disse...

"Para outros, nos quais me incluo, o foco excessivo nas alterações climáticas desvia perigosamente a atenção da sociedade de vários problemas ambientais graves,"

É verdade. Pena é, como dizia James Corbett ...

http://fiel-inimigo.blogspot.com/2009/12/aprender-com-os-velhos.html

... que as organizações ambientalistas se tenham deixado abocanhar pelo neo-marxismo.

E o maior problema não é sequer o desvio de atenção. O maior problema é que as reais organizações ambientalistas arriscam-se a ser trucidadas como, tudo indica (felizmente), será a paranóia aquecimentista-CO2.

Felizmente por um lado infelizmente por outro, há poucas. Poucas, por exemplo, que reconheçam o homem como um habitante da Terra também a ser respeitado.

Miguel B. Araujo disse...

Henrique, Tens razão que uma excessiva focalização sobre alterações clmáticas distrai de outros problemas candentes. E também é verdade que algumas soluções para resolver o problema são elas próprias geradoras de problemas. Isto é particularmente verdade em temas que versam sobre a conservação da biodiversidade como tive oportunidade de escrever aqui conjuntamente com outros colegas:

http://www.biochange-lab.eu/wordpress/wp-content/uploads/paterson-et-al-cb2008.pdf

É bom não perder isto de vista!

José M. Sousa disse...

Acho que o ponto aqui é

«algumas soluções para resolver o problema»

O problema é que muitas das "soluções" não o são verdadeiramente, são apenas um simulacro, como se viu com os bio e agrocombustíveis, por exemplo. E julgo que quem as apresentou sabia que não eram verdadeiras soluções. Mas aqui estamos a discutir políticas públicas erradas; isto em nada devia desviar as atenções do problema e da busca de soluções apropriadas.

Range-o-Dente disse...

"O problema é que muitas das "soluções" não o são verdadeiramente, são apenas um simulacro,"

São "a solução final" para milhões de esfaimados. Foram "a solução final" para milhões de esfaimados.

E a proibição do DDT quantos matou? 50.000.000?

Quantas organizações ambientalistas defenderam a reintrodução do DDT como forma de defender o homem, um dos bichos habitantes da Terra.

Anónimo disse...

Range-o-Dente vem para aqui defender o DDT? E quantas pessoas morreram e vão morrer por complicações relacionadas com a acumulação deste pesticida no sistema nervoso? E os incontáveis danos provocados sobre os ecossistemas, que prejudicaram directamente as pessoas, a nível alimentar?

Para mais, nos 50 e 60 foram documentados muitos casos de espécies praga que tinham desenvolvido resistência ao DDT! Daí se vê a falta que o DDT faz a toda gente.

Ou acha que este pesticida foi proibido por algum grande conluio de ambientalistas radicais?

Lowlander disse...

Repito este meu comentario:

Caros comentadores,

Aconselho que deixem de responder a comentadores que tem comportamento tipico de

Troll

Lembrem-se:

Don't feed the troll!


Caro Miguel e demais gestores deste blogue:

Aconselho vivamente a enfrentarem este comportamento disruptor da discussao equilibrada e racional nas vossas caixas de comentarios determinadamente e o mais rapido possivel porque este tipo de fenomeno tende a se comportar como uma bola de neve.

PS: se acharem que esta minha repeticao de comentarios e incorrecta, sintam-se a vontade para eliminar comentarios redundantes. Sinto apenas que e necessario alertar todos para um tipo de comportamento inaceitavel neste blogue que se pretende de discussao honesta e racional.

Range-o-Dente disse...

"Range-o-Dente vem para aqui defender o DDT?"

Defender quando e defensável, atacar quando não for. As 'contas' têm que ser feitas (incluindo margem de erro) e têm que ser, claramente, apresentadas publicamente porque os seus efeitos (ou falta deles) afectam todos.

"E quantas pessoas morreram e vão morrer por complicações relacionadas com a acumulação deste pesticida no sistema nervoso?"

E quantas pessoas têm morrido pelo ataque de malária?

"E os incontáveis danos provocados sobre os ecossistemas, que prejudicaram directamente as pessoas, a nível alimentar?"

E os incontáveis benefícios provocados pelo dizimar de gente que já na qualidade de cadáveres deixam de carregar os ecossistemas?

"Para mais, nos 50 e 60 foram documentados muitos casos de espécies praga que tinham desenvolvido resistência ao DDT!"

E, entretanto, foi documentado o genocídio provocado pelo não uso de DDT. E quantas mais pragas nunca tiveram resistência ao DDT? Foi também documentado, ou isso não interessava?

"Daí se vê a falta que o DDT faz a toda gente."

Ora vê?

"Ou acha que este pesticida foi proibido por algum grande conluio de ambientalistas radicais?"

Sim. O ambientalista standard dá mais valor ao mosquito e ao protozoário que ao bicho homem. Preocupa-se mais com os primeiros que com o último.

joserui disse...

Já só cá faltava o relambório fanático e radicalmente ignorante do Junk Science e do desinformador profissional Milloy. Não há pachorra.
Nem que lhe caíssem na sopa o senhor era capaz de distinguir entre um protozoário, um mosquito e um ambientalista.
Quando se parte para a Lei de Goodwin é sinal que os argumentos já são poucos. Não que fossem muitos. O Lowlander tem razão, é fazer um ponto de ordem. -- JRF

Anónimo disse...

Concordo em absoluto com o Henrique

1. Está demonstrado que no período quente medieval (800-1300) a Gronelândia foi colonizada pelos povos nórdicos da Europa.
2. A temperatura amena que aí se viveu, permitiu o desenvolvimento de actividade agrícola e de produção animal.
3. Hoje isso não é possível, o que permite concluir que as "nunca vistas elevadas temperaturas actuais" afinal são inferiores às do período quente medieval (quem e porque nos andam a mentir?).
4. Não havendo actividade antropogénica emissora de CO2 no período anterior ao aquecimento medieval, temos de concluir que houve ciclos naturais de variação climática que nada tiveram a ver com a actividade humana.
5. Por outro lado, ao tomar erradamente o CO2 como o indicador das alterações climáticas, estamos a usar um elemento não poluente como indicador da poluição local, o que é errado como muito bem disse o Henrique.
6. Persistindo na posição errada das quotas de CO2, o IPCC está a impedir que se desenvolvam e apliquem energias alternativas que, embora tenham poluição zero possam originar um aumento das emissões de CO2. (ex.: Hidrogénio).

É urgente fazer a distinção entre as causas da poluição local (antropogénica) e as das alterações climáticas (não antropogénica) para haver um verdadeiro desenvolvimento e aplicação de energias alternativas eficientes e limpas nas nossas cidades.

O conhecimento científico não é uma emanação das maiorias nem de crenças

Range-o-Dente disse...

DDT:

http://www.youtube.com/watch?v=aSYla0y9Wcs

Resolvemos o nosso problema, que de danem os que sobram e que sobrem menos.