domingo, janeiro 24, 2010

business as usual ?



Há algumas semanas atrás, a SPEA lançou um inquérito ao sócios sobre qual deveria ser a ave do ano. Existiam três propostas disponibilizadas, uma das quais a Cegonha-preta. Como existiam vários erros na página daquela espécie, publicada no website da SPEA, entendi contactar o Director Executivo da SPEA, Luís Costa. Eis a troca de e-mails:

04.01.2010
Olá,
Para além de outras incorrecções/imprecisões no texto aqui publicado, chamo à atenção que o nome ciêntífico da Cegonha-preta não é, evidentemente, Phoenicopterus ruber...
Gonçalo Rosa

05.01.2010
Obrigado, Gonçalo, já mandei rectificar o nome, e a o parágrafo das ameaças fica assim, vê lá o que achas:
A Cegonha-preta encontra-se em perigo?
Esta espécie está classificada com o estatuto de ameaça de “Vulnerável”, pelo Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, enfrentando algum risco de extinção na natureza.
As maiores ameaças à sua sobrevivência são a perturbação humana, especialmente devido a actividades de recreio e de turismo em áreas de nidificação. A colisão com linhas eléctricas é também uma ameaça a considerar.
Abraço
Luís

05-01-2010
Olá,
Não há nenhuma informação que suporte a afirmação que a colisão com linhas eléctricas é uma ameaça a considerar. As principais ameaças são a perda de habitat de nidificação (p. ex. construção de barragens) e a perturbação humana em áreas de nidificação e de concentração pós-nupcial (p. ex. actividades de recreio e de turismo, actividades florestais, entre outras).
1 abraço,
Gonçalo

Depois deste email, não recebi resposta/contestação ao que afirmei. O primeiro erro que apontara foi corrigido, o restante, não.

Hoje, no Público (ver aqui), fiquei a saber que a Ave do Ano eleita pela SPEA foi mesmo a Cegonha-preta. A notícia cita a SPEA, referindo que “A maior ameaça à sua sobrevivência é a perturbação humana, especialmente devido às actividades de recreio e de turismo em áreas de nidificação. A colisão com linhas eléctricas, a florestação com espécies exóticas e a poluição dos rios e ribeiras são também ameaças consideráveis”.

Tendo trabalhado vários anos, enquanto técnico do então ICN, precisamente com Cegonha-preta, não seria razoável a SPEA questionar a pertinência da minha correcção contrapondo-a com evidências ou provas do contrário, assim sustentando o que insistem em afirmar? Em busca de resposta para esta insistência e silêncio, não encontro nada de muito agradável. Deve ser da minha mente perversa, ferina e sempre desconfiada da candura natural das coisas...

Gonçalo Rosa

18 comentários:

trepadeira disse...

Olá.

Pedindo desculpa porque o assunto não é propriamente o mesmo.
Existe um problema grave nesta zona do PNSE/REDE NATURA 2000,Vale do Mondego-guarda.Por altura da Pascoela,fazem uma pequena festa religiosa no meio do monte com grande foguetório,mais de meia hora de foguetes de grande intensidade (morteiros).
Tratando-se da época de nidificação de um grande número de espécies,é,assim,destruida a capacidade germinativa de todos os ovos em choco.
Monitorizamos,o ano passado 11 ninhos.Apenas um de "Phoenicuros ochruros" logrou,dos cinco ovos,criar 3 aves.Talvez porque o ninho estava na parede da adega,o que terá diminuido a onda de choque.
Acresce,a capela enquadra-se numa Zona de Intervenção Específica,de acordo com o PO do parque.
Haverá alguma legislação,ou algo,que possa ser invocado para evitar tal massacre?
Sensibilização é difícil.Por aqui,dizem os caciques "borboletas e passarada é para matar tudo".
Muito grato.
cordial abraço,
mário

joserui disse...

Declaração de interesses: nenhum interesse na Spea.

Caro Gonçalo Rosa, como por coincidência isto vem na sequência de moer a Quercus, vamos lá então comentar o moer a Spea...
Primeiro questiono a publicação da troca de mails... realmente quando se comunica por mail, nunca se sabe onde eles vão acabar.

De resto não coloco em questão a pertinência da sua correcção, mas também não vimos aqui a sua sustentação para além das suas credenciais. Argumento de autoridade?
Ou seja, depois detectar aquilo que julga que é um erro, contrapõe sem aquilo que pede à Spea — as evidência, provas em contrário — a sustentação.

Dito isto, se há estudos no seu sentido, a minha opinião é que devia ter sido corrigido. Se é uma questão de opinião, tanto está bem de uma forma, como de outra. E há mais opiniões (Parque de Noudar). Arkive, onde se refere as linhas de AT. A Red List IUCN também refere as colisões ocasionais com as linhas.

A Spea, quando muito, dá um tiro de pólvora seca num pé, se tanto (o da Quercus é com uma pistola de pressão de ar). Vem o GR ou o HPS, rebentam o outro a tiros de canhoeira. Em face de tantos problemas e de tanto tratante a minar tudo o que pode, isto no máximo é um problema menor.

Já percebi para que serve o post do HPS. E este para que serve? -- JRF

Anónimo disse...

Parece-me que não consultou a bibliografia, caro Gonçalo Rosa... Quanto à publicação da troca de mails, não havia necessidade...

Gonçalo Rosa disse...

JRF: "como por coincidência isto vem na sequência de moer a Quercus, vamos lá então comentar o moer a Spea..."

Não é como... é mesmo coincidência. Ou acha que somos algum grupo de amigos com estratégias montadas? E não se trata de "moer a SPEA", trata-se de criticar uma posição da SPEA em concreto. Como bem vê, fiz o que pude para que este equívoco fosse evitado.

JRF: "Primeiro questiono a publicação da troca de mails... realmente quando se comunica por mail, nunca se sabe onde eles vão acabar."

Os emails são entre mim, e o Director Executivo da SPEA e abordam exclusivamente questões técnicas.

JRF: "De resto não coloco em questão a pertinência da sua correcção, mas também não vimos aqui a sua sustentação para além das suas credenciais. Argumento de autoridade?"

Que grande confusão. Quando disse que tinha trabalhado vários anos com Cegonha-preta, disse-o no sentido que é normal que se preste mais alguma atenção a um tipo que andou uns anos a estudar cegonhas-pretas que a um outro que nunca se tenha dedicado ao assunto. Coisa distinta é dar por correcto tudo o que o primeiro diz e por errado tudo o que o segundo afirma.

JRF: "Ou seja, depois detectar aquilo que julga que é um erro, contrapõe sem aquilo que pede à Spea — as evidência, provas em contrário — a sustentação."

Mas qual sustentação??? O que eu disse é que não há informação que sustente o que a SPEA diz, que é coisa bem distinta de afirmar que a colisão com linhas eléctricas não representa qualquer ameaça para a Cegonha-preta. Ainda assim, entre trabalhos publicados e casos conhecidos pela equipa que trabalha com cegonha-preta desde 1995 (também não é um argumento de autoridade, é só para entender que estamos a falar de 15 anos), há registos para 3 cegonhas-pretas mortas por colisão/electrocussão. Acha que com isto se pode afirmar estarmos perante uma "ameaça considerável" para uma população nidificante que está estável e não andará muito longe da centena de casais nidificantes? Eu não.

JRF: "Dito isto, se há estudos no seu sentido, a minha opinião é que devia ter sido corrigido."

Estamos completamente de acordo, só lamento que não tenha sido feito.

JRF: "Se é uma questão de opinião, tanto está bem de uma forma, como de outra. E há mais opiniões (Parque de Noudar). Arkive, onde se refere as linhas de AT. A Red List IUCN também refere as colisões ocasionais com as linhas.

Estamos esclarecidos quanto à questão de opinião, não estamos?
Quanto ao Parque de Noudar, não posso deixar de referir e lamentar que se tenham esquecido de referir que a construção de empreendimentos hidro-eléctricos e a destruição de habitat de nidificação que isso implica é, essa sim, uma ameaça a considerar. Alqueva é um excelente exemplo disso mesmo.

E o que a Red List da UICN diz aplica-se integralmente em Portugal. Há colisões OCASIONAIS com linhas.

JRF: "Já percebi para que serve o post do HPS. E este para que serve?"

Devo confessar-lhe que quando escrevo posts no Ambio estou pouco preocupado para que servem. Mas se este tipo de posts der um contributo para fazer com que os visados se inibam de escrever disparates destes e permitir discutir/levantar estas questões na opinião pública, já me dou por muito satisfeito. Neste sentido, obrigado pelo seu contributo.

Gonçalo Rosa

Gonçalo Rosa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gonçalo Rosa disse...

Anónimo: "Quanto à publicação da troca de mails, não havia necessidade..."

... uma lição de ética de quem não assina o que escreve.

Se quiser discutir o conteúdo do post, assine, se faz favor. Vai ver que não custa nada.

Gonçalo Rosa

Luis disse...

Fui alertado pelo Gonçalo Rosa de que tinha publicado a nossa troca de mails neste forum, por isso vim aqui ver porque seria isso. Realmente, a publicação destas mensagens não traz grande mal ao mundo mas era de bom tom pedir antes e não depois de publicar. É uma questão de etiqueta.

Depois disso, a que nem quero dar importância, vem a discussão sobre a ameaça ou não da colisão de linhas eléctricas sobre a cegonha-preta e a insinuação aborrecida de que isso poderá estar relacionado com 'business as usual' e os logotipos de EDP e REN. Não sei por que se insiste neste tipo de insinuações nem porque se procuram estas formas de escrita, sinceramente. A informação foi retirada do LIvro Vermelho editado pelo ICNB, como se pode ver aqui: http://portal.icnb.pt/NR/rdonlyres/3B764928-1C38-43E1-BE41-59258C501771/3256/LVVP_Aves_Ciconianigra.pdf.Tudo o mais que queiram dizer não passa de insinuações e agradeço que não usem mais os meus mails para dizer o que eu não disse nem pensei.
Obrigado
Luís Costa

joserui disse...

Caro Gonçalo Rosa, não passe do moer a Spea para o moer o José Rui. Eu sei que é coincidência, dizer "como por coincidência", quer dizer isso mesmo, não o contrário. Mas entendo que nos comentários, o que é ironia é levado à letra (ver o seu comentário ao comentário anónimo disparatado de ontem, esse sim, com ironia do tamanho de um super-petroleiro) e o que não é como se fosse. Numa palavra: não era.

Mails: mantenho. Nem acho bem. Só se estivessem os dois de acordo.

Eu entendi que eram linhas eléctricas não significativas vs. as causas que apontou — julgo que devia sustentar porque não são e as suas preferenciais são. Tendo lido o que li, acho que não caem os parentes na lama a ninguém por a Spea declarar que a colisão com linhas eléctricas é uma ameaça "a considerar".
Três de facto é pouco. Mas é o registo, não as eventuais mortes efectivas. Parafraseando o HPS, sendo eu um ignorante, a título de comparação, das outras espécies quantas mortes existem registadas para que as linhas passem a ser uma ameaça não a considerar, mas de facto?
Por outro lado... diz nem 200 exemplares? Isto é que eu acho importante: a conservação hoje resume-se contas de merceeiro na ordem das dezenas ou poucas centenas de exemplares (só para evitar mal entendidos — refiro-me ao que se conserva). Nesse caso, estamos a falar de 2% da população em Portugal, provavelmente mais. Não acha significativo? Eu acho.

Eu li o que a UICN diz, e coloquei o link por isso mesmo. Não exactamente para reforçar a minha posição. As linhas são referidas, a Spea resolveu destacar também essa ameaça. Lá está, juntando o que disse acima, não vejo grande mal. Ou nenhum mal.

Estes posts não levantam estas questões na opinião pública. Quando muito, levantam dúvidas na opinião pública. E se juntar os Tretas, Dentes, Lidadores et al, não são grande serviço. Para mim, a conversa continuava por e-mail e nesse aspecto dou-lhe razão — porque acho inadmissível alguém que perde o seu tempo a contactar a Spea com um assunto pertinente, não merecer resposta. JRF

Anónimo disse...

A obrigação de me identificar aplica-se apenas aos seus posts, não? Já agora, porquê? Desenvolvi algum argumento de tipo "ad hominem"?
Por uma questão ética, vou poupá-lo à referência de todas as fontes que contradizem a sua infeliz versão.

Gonçalo Rosa disse...

Luis,

Foste alertado uma hora após publicado o post e não o foste antes porque não consegui contactar-te por telemóvel. Ainda assim, as minhas desculpas.

O Livro Vermelho refere uma série de factores de ameaça. São 13 linhas de texto. A última das quais, referindo que "as infra-estruturas da rede eléctrica constituem também uma ameaça pelo perigo de colisão". Trata-se de uma mera opinião não sustentada, já que não há indícios com o mínimo de consistência que assim o seja.

Se deres uma olhada neste post:

http://ambio.blogspot.com/2009/11/ainda-questao-da-mulher-de-cesar.html

...que história que, entre outras, certamente conheces, perceberás que a leitura que sugeri é mais do que legítima.

Gonçalo Rosa

Gonçalo Rosa disse...

OK. Não levo a mal em usar ironia. Mas neste caso, é óptimo que seja claro.

JRF: "Eu entendi que eram linhas eléctricas não significativas vs. as causas que apontou — julgo que devia sustentar porque não são e as suas preferenciais são. Tendo lido o que li, acho que não caem os parentes na lama a ninguém por a Spea declarar que a colisão com linhas eléctricas é uma ameaça "a considerar".

A SPEA refere em comunicado de imprensa mais do que isso. Considera-a uma ameaça considerável.

JRF: "Três de facto é pouco. Mas é o registo, não as eventuais mortes efectivas. Parafraseando o HPS, sendo eu um ignorante, a título de comparação, das outras espécies quantas mortes existem registadas para que as linhas passem a ser uma ameaça não a considerar, mas de facto?
Por outro lado... diz nem 200 exemplares? Isto é que eu acho importante: a conservação hoje resume-se contas de merceeiro na ordem das dezenas ou poucas centenas de exemplares (só para evitar mal entendidos — refiro-me ao que se conserva). Nesse caso, estamos a falar de 2% da população em Portugal, provavelmente mais. Não acha significativo? Eu acho."

Não vou entrar na discussão de números em concreto. Três aves é de facto o registo, o que não quer dizer que não sejam mais. Seguramente, serão. O que questione é que esta mortalidade ameace a população de cegonhas-pretas em Portugal e o facto da SPEA a considerar uma "ameaça considerável", nem sequer referindo, por exemplo, a construção de empreendimentos hidro-eléctricos.

JRF: "Eu li o que a UICN diz, e coloquei o link por isso mesmo. Não exactamente para reforçar a minha posição. As linhas são referidas, a Spea resolveu destacar também essa ameaça. Lá está, juntando o que disse acima, não vejo grande mal. Ou nenhum mal."

Ao considerar uma "ameaça considerável" uma factor para o qual não há indícios que o seja, a SPEA dá enfoque a determinado "problema" atirando reais problemas sem aspas para a sombra. E eu vejo mal nisso.

JRF: "Estes posts não levantam estas questões na opinião pública. Quando muito, levantam dúvidas na opinião pública. E se juntar os Tretas, Dentes, Lidadores et al, não são grande serviço. Para mim, a conversa continuava por e-mail e nesse aspecto dou-lhe razão — porque acho inadmissível alguém que perde o seu tempo a contactar a Spea com um assunto pertinente, não merecer resposta."

Quando refiro "levantar questões", incluo dúvidas. Adiante na semântica. E discordo de si quanto à utilidade do post embora, como lhe disse, não seja essa a minha especial preocupação quando aqui escrevo.

Por mera justiça e sabendo que não corro o risco de cometer nenhuma indelicadeza, por motivo que desconheço, soube agora que a SPEA não recebeu o meu último e-mail, pelo que era impossível responder-me.

Cumprimentos,

Gonçalo Rosa

Gonçalo Rosa disse...

Anónimo,

Anónimo: "A obrigação de me identificar aplica-se apenas aos seus posts, não? Já agora, porquê? Desenvolvi algum argumento de tipo "ad hominem"?"

Não é uma questão de obrigação mas de ética. Se eu "dou a cara", é de bom tom que não se esconda atrás do anonimato.

"Por uma questão ética, vou poupá-lo à referência de todas as fontes que contradizem a sua infeliz versão."

Sim, sim...

Gonçalo Rosa

joserui disse...

Por mera justiça e sabendo que não corro o risco de cometer nenhuma indelicadeza, por motivo que desconheço, soube agora que a SPEA não recebeu o meu último e-mail, pelo que era impossível responder-me.
O mail de facto é terrível... Eu não consigo deixar de ter essa dúvida quando mando um mail e não me respondem. E esse facto também é aproveitado por muita gente (para evitar interpretações — estou só a pensar alto para o meu caso).
Estava na hora de o mail avançar para o século XXI! Evitavam-se muitos mal entendidos.

Quanto ao resto ok. Apenas não estou convencido que os verdadeiros problemas tenham sido atirados para a sombra. E mesmo que fossem, os problemas à sombra ou ao Sol, são aos montes. -- <a href="http://www.sargacal.com/>JRF</a>

Anónimo disse...

Gonçalo, não vou entrar nesta polémica embora me reveja na maioria dos argumentos enunciados por ti.
Quero apenas dizer que eu também e por regra acho no mínimo infeliz a publicação de correspondência sem a autorização expressa de todas as partes envolvidas.

alexandre vaz

Gonçalo Rosa disse...

Caro José Rui,

Novo reparo. A SPEA confirmou-me agora que recebeu mesmo o email.

Gonçalo Rosa

Gonçalo Rosa disse...

Alexandre,

A correspondência que publiquei trata apenas de um assunto técnico, entre mim e um funcionário de uma instituição. Não me sinto na obrigação de pedir autorização para publicar o email, embora reconheça que deveria ter informado o mesmo antes da publicação do post. Já assumi o erro e pedi desculpa a quem de direito.

Gonçalo

joserui disse...

Novo reparo. A SPEA confirmou-me agora que recebeu mesmo o email.
Ora aí está. Era merecida resposta, ficou em falta a Spea na minha opinião. -- JRF

Anónimo disse...

já em2010 ele era tretas e continua...não vele uma beata