quinta-feira, janeiro 07, 2010

Perplexidades de um ignorante

Um dia destes à conversa com João César das Neves vi este gráfico que representa o preço do petróleo a preços de 2008 (ou seja, limpo do efeito da inflação).
Acho o gráfico muito interessante, acho interessante que João César das Neves (se bem interpreto a conversa) não veja no gráfico qualquer aumento do preço do petróleo, apenas volatilidade (eu não sei contrapôr, a volatilidade é indiscutível, se desde o contra-choque petrolífero de 1986 a tendência é de estabilidade volátil ou se é de aumento suave acho que não se pode dizer com segurança a partir deste gráfico).
Mas este gráfico relaciona-se com outra ideia muito difundida nos meios nuclearistas, que em grande medida coincidem com os opositores das renováveis (há uns poucos que não são nem contra nem a favor de renováveis, limitam-se a discutir a racionalidade económica de as tratar excepcionalmente no tarifário): a energia cara tem custos económicos insuportáveis.
O exemplo que é dado para o efeito negativo das renováveis é a Dinamarca, que tem o custo de produção mais alto da Europa (dizem, não vou verificar).
E daí? Não é a Dinamarca muito mais rica que muitos outros que produzem electricidade a preços mais baixos?
Alguém conhece um estudo concreto que relacione o custo de produção da electricidade num país com o seu desempenho económico?
henrique pereira dos santos

17 comentários:

Lowlander disse...

Boa pergunta. Ate porque os reais custos de qualquer forma de energia utilizada estao todos eles substimados porque de uma forma geral, quase todas as formas de energia tiveram fortes intervencoes dos Estados para construir infra-estrutura por exemplo, como grande parte dos seus custos ambientais sao/foram sistematicamente nao contabilizados e liminarmente classificados de "externalidades negativas".

José M. Sousa disse...

Os preços constantes são utilizados para se ter uma noção da evolução do poder de compra; como o poder de compra em 2008 é, sem dúvida, superior ao de 1860, para usar um extremo, de facto em termos relativos, os preços do petróleo caíram muito. Se escolhessemos um período mais curto e um ano base para os preços cujo poder de compra fosse supeior ao de 2008, porventura o gráfico teria uma configuração diferente.

José Matias disse...

Caro HPS

É muito curioso e interessante (mas, não inesperado) que eu olhe para o gráfico e veja outra coisa que o Professor JCN: corrigindo a série do periodo outlier inicial - explicado, muito possivelmente, pelo processo de arranque do mercado do petróleo: estabilização da trajectórias da exploração/oferta versus da procura - e do período outlier dos anos 70, onde a situação no mercado foi determinado por choques exógenos ao mesmo (Yom Kippur e Irão), eu vejo dois períodos claramente definidos: tendência decrescente do preço real do petróleo até inícios dos anos 70; tendência crescente do preço real do petróleo a partir daí.

Aliás, mesmo descontando a tese do "pico do petróleo", o certo é que a tendência é de se ter de extrair petróleo de poços com custos de exploração cada vez maiores. Articulado com isso, surge do lado da procura, a evolução em crescendo, de que não se necessita lembrar as determinantes. O que resulta daqui é aquilo que qualquer um sabe sobre o comportamento do preço das batatas, face ao comportamento da sua oferta e procura.

Quanto ao resto,o custo das renováveis, continua a ser uma questão de economia comezinha. Mesmo não entrando em linha de conta com "aquecimentos globais","picos do petróleo", e coisas semelhantes (Ah, fala-se também do "pico do carvão") - que sendo aceites como preocupações sérias e reais, sublinham os motivos de precaução, de segurança, mas também de pura rendibilidade ecómica e financeira, a médio e longo prazo, para o desenvolvimento das renováveis, "já e em força" - há a interrogação inescapável de saber se o preço dos combustíveis fósseis (e, já agora, da nuclear) está a ser determinado de modo correcto e exacto pelos mercados. É óbvio que não está: mesmo descartando os custos ambientais, temos de saber, e entrar em linha de conta com a dimensão efectiva dos custos incorridos pelos Estados na subsidiação da exploração, na criação de condições de acesso às zonas de exploração (creio não ser preciso dar exemplos), no apoio ao consumo, e por aí adiante. Todas as contas feitas - já estão feitas, nalguns casos, e em alguns países - haveriam muitas surpresas ao fim do dia, e as renováveis (algumas delas para já) não ficariam mal na fotografia, mesmo que a fotografia seja contemporânea do seu período de arranque e desenvolvimento tecnológico.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro José Matias,
Não há preços de mercado certos e errados, há preços de mercado.
As subidas anteriores a 1986 correspondem aos dois choques petrolíferos que liquidaram o cartel das sete irmãs refinadoras que controlaram os preços até 1973. Esse cartel foi na prática substituído por outro, o da OPEP, cuja mudança de política em 1986 provocou o contra-choque dessa altura.
Tendências a partir desse momento parecem-me mesmo dificeis de ver, tanto mais que os dois pivos seguintes coincidem com as duas guerras do Iraque e a queda recente com a crise actual.
No que me parece que é legítimo ter dúvidas é nas razões pelas quais as quedas nunca são até ao nível anterior mais baixo mas ficam sempre um pouco acima, mas é cedo para perceber o que se está a passar com a tendência.
henrique pereira dos santos

José M. Sousa disse...

Julgo poder haver um problema com a aplicação destes deflatores ao preço do petróleo, ainda por cima usando o mesmo ano base por tão longos períodos. Como o preço do petróleo é um factor importante na determinação do Índice Geral de Preços, quando estamos a converter preços correntes em constantes estamos a corrigir os preços do petróleo por um meio que foi ele próprio influenciado pelo aumento do preço do petróleo.

José Matias disse...

Caro HPS
Mantenho o que disse, mas tentarei explicar-me melhor.

1 - O custo económico de qualquer actividade económica (o custo de oportunidade dos recursos lá utilizados) só é dado de modo "correcto" pelo preço de mercado, em situações excepcionais (em mercados em que exista concorrência pura e perfeita, diz a teoria). Normalmente, os mercados serão mais ou menos eficazes [efficients]: conseguirão, em maior ou menor grau , produzir preços mais ou menos próximos dos efectivos custos de oportunidade. Isto, devido a fenómenos como: as externalidades (positivas e negativas: educação versus a poluição, as emissões de gases de estufa, etc.); o poder de mercado das empresas (capacidade de influenciar o preço de mercado:e,g, caso dos monopólios, dos cartéis, e ...); a intervenção subsidiadora do Estado de apoio à produção e ao consumo. Repito, todo esse conjunto de factores e intervenções faz com que os preços de mercado [e.g. preço do petróleo, do carvão, da nuclear...]não sejam "correctos", no sentido preciso, de que não medem os custos efectivos da sua produção e oferta. Esta questão está no âmago da abordagem económica de todos os problemas com que o Ambio se preocupa. Se os mercados fossem mais eficazes na determinação rigorosa dos preços - por exemplo, conseguindo reflectir neles, não só o acima apontado, mas também, aspecto decisivo, a informação disponível sobre a escassez relativa futura dos recursos com que lidam, ou sobre as consequências das alterações climáticas - então os preços de mercado das fósseis seriam (muito) mais elevados, a necessidade da eficiência energética mais clara , as energias renováveis mais competitivas, e o quadro de discussão muito diferente. Repito, na discussão da competitividade das renováveis versus as fósseis, os preços de mercado são, no máximo, aproximações dos efectivos custos económicos, pelo que, para efeitos da análise em causa, devem ser revistos, têm de ser corrigidos - tem sido argumentado que o poder de mercado da Arábia Saudita tem sido utilizado de forma a desencorajar o desenvolvimento das renováveis. Como se comportaria o preço de petróleo, se amanhã, a Arábia Saudita admitisse que as suas reservas declaradas estão sobredimencionadas ? muitos afirmam que estão, e a capacidade disso ser escamoteado ao escrutínio do mercado, a ser verdade, é também outra forma de poder de mercado.

2 - O que diz sobre o Cartel e a OPEP substantiva (a meu ver)tudo aquilo que disse. O poder de mercado do Cartel, dos países produtores, das petrolíferas, faz com os preços de mercado do petróleo não reflictam a efectiva "saúde" do sector, actual e futura. Preços de mercado determinados em mercados eficazes, expressam os efectivos custos económicos (custos de oportunidade) da actividade económica, e são o instrumento mais adequado para informar a trajectória desta e dos seus agentes. Todo o economista aceita isto. O que acontece é que uns são mais papistas do que o Papa (no caso, a teoria económica) no grau de aceitação, no grau do reconhecimento, de qual é o efectivo nível de imperfeição (ineficácia) do funcionamento dos mercados:viu-se nesta crise!

3 - Quanto à leitura do gráfico, é simples: se se admitir (aí é que bate o ponto) que os dois períodos são outliers, e podem (devem)ser excluídos da análise de longo prazo do fenómeno - é uma procedimento comum estatístico e econométrico - na série expurgada, podem ser ajustadas duas linhas lineares de tendência (com o Excel isso é "tiro e queda") nos períodos e com as características que apontei.

4- Aquilo que o José M.Sousa diz é pertinente, merece consideração, mas arriscaria que, até até uma melhor inspeccção que provasse o contrário, não invalida o interesse do gráfico.

PS:
À margem desta questão chamava (vivamente) a vossa atenção para esta nota, de hoje, do blogue do economista Brad DeLong, NOT GOOD, NOT GOOD: http://delong.typepad.com/sdj/2010/01/not-good-not-good.html.

José Matias disse...

Bem, não resisto, a chamar-vos a atenção - enfim, eu sou humano: houve gente, irritantemente aborrecida com o facto de eu ter transcrito (parte) de uma nota do Climate Progress sobre o senhor - também, para esta notícia de um blogue do New York Times sobre a recepção (científica) que teve um paper de Luntzen: http://dotearth.blogs.nytimes.com/2010/01/08/a-rebuttal-to-a-cool-climate-paper/.

À luz do caso dos e-mails isto tem uma piada do caraças.

José Matias disse...

É Lindzen e não Lundzen. Irra!

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro José Matias,
Obrigado pelos comentários. A questão é que quando se começam a calcular preços sem ser os que o mercado reconhece saímos rapidamente do que é objectivo para o que achamos que é objectivo.
Podem-se identificar externalidades e etc., que nos fazem tomar opções políticas.
Ao querer que essas externalidade entrem na formação do preço por essa via para corrigir o mercado é bom mantermos bem presente que são distorções do mercado (eu até posso concordar com elas, o que não posso é confundi-las com o mercado).
É nesse sentido que preços de mercado, são preços de mercado, não estão certos nem errados.
henrique pereira dos santos

José M. Sousa disse...

E não apenas isso (Lowlander e José Matias). A verdade é que aquilo a que se chama preço de mercado (sem as ditas "distorções") é, na verdade, uma abstracção, não resulta da livre interacção da oferta e da procura. O preço internacional do petróleo, por exemplo, foi e é, do lado da oferta, influenciado por pressões diplomáticas e militares e por subsídios "escondidos", nomeadamente, para garantir a segurança da extracção e trânsito. O enquadramento institucional (relação de poderes entre os agentes) é sempre um factor a ter em conta. Não há mercados "impessoais".

José Matias disse...

Caro HPS

Bem, percebo a sua preocupação de nos atermos aos dados (neste caso, os preços) tais como são apresentados à discussão pública, de modo a não se incorrer em custos de credibilidade, e na imputação de falta de objectividade.

[A discussão, tal como está, é já bastante difícil - a prova feita é dada em alguns dos comentários às vossas notas, e nas acusações de irrealismo, falta de pragmatismo, radicalismo, etc. assacadas aos soi-disant ambientalistas (toda a gente que reconhece a gravidade da situação climática: do Hansen e Al Gore, até ao Nobel de Economia, Paul Krugman). Não basta ter razão: é necessário cuidado táctico na apresentação dos nossos argumentos - percebe-se que a Ambio tem essa preocupação, e estou de acordo com ela]

Mas aquilo que faço, ao correr da pena, e logo com as limitações inerentes a esse facto, é a afirmação de conceitos standard na análise económica destas, e doutras, coisas. Eu seria, como qualquer outro economista, a última pessoa a descartar a informação carreada pelos preços de mercado, qualquer que sejam as suas suas limitações e distorções, mas não se pode deixar de qualificar essa informação, logo que o procedimento não seja ad-hoc, ou não fundamentado, do ponto de vista da teoria económica. Ora, acontece, que na famigerada análise custo-benefício isso é feito de modo sistemático, como condição imprescindível da sua adequação. A fazer-se uma análise custo-benefício da competitividade económica energia-carvão versus energia-vento, em qualquer país, seria grave erro técnico não "corrigir", "não qualificar" o preço de mercado do carvão da subsidiação governamental da sua exploração e comercialização.

[A "economia" não tem boa imprensa em alguns meios - e.g. a análise "soi-disant" "economicista"; e é verdade que nas matérias do aquecimento global (não tanto do ambiente) levou algum tempo a acordar, mas já é um interlocutor muito poderoso na mudança da opinião pública - pelo menos nos EUA.]

No entretanto, do diccionário do The Economist, este conceito [no comentário seguinte transcreverei o conceito de custo de oportunidade:

Shadow price

The true economic PRICE of an activity: the OPPORTUNITY COST. Shadow prices can be calculated for those goods and SERVICES that do not have a market price, perhaps because they are set by GOVERNMENT [ou, como o disse, tudo o resto]. Shadow pricing is often used in COST-BENEFIT ANALYSIS, where the whole purpose of the analysis is to capture all the variables involved in a decision, not merely those for which market prices exist [ora aqui está!].

PS:
Obviamente, subscrevo, em princípio, e na generalidade, aquilo que o JMS diz [na especialidade, pode haver qualificações, etc, etc] - aliás, na última nota do seu blogue dá conta da dimensão da subsidiação das petrolíferas norte-americanas. Mas, eu estou convencido que o preço de mercado do petróleo está - note-se: em termos relativos - mais próximo do seu verdadeiro preço económico do que acontece com o carvão (EUA) e a nuclear (em todo o lado).

José Matias disse...

Conforme o prometido no anterior comentário, aí vai, o conceito mais importante da análise económica - a sua base:

Opportunity cost

The true cost of something is what you give up to get it. This includes not only the money spent in buying (or doing) the something, but also the economic benefits (UTILITY) that you did without because you bought (or did) that particular something and thus can no longer buy (or do) something else. For example, the opportunity cost of choosing to train as a lawyer is not merely the tuition fees, PRICE of books, and so on, but also the fact that you are no longer able to spend your time holding down a salaried job or developing your skills as a footballer. These lost opportunities may represent a significant loss of utility. Going for a walk may appear to cost nothing, until you consider the opportunity forgone to use that time earning money. Everything you do has an opportunity cost (see SHADOW PRICE). ECONOMICS is primarily about the efficient use of scarce resources, and the notion of opportunity cost plays a crucial part in ensuring that resources are indeed being used efficiently.

Eduardo F. disse...

Caro Henrique Pereira dos Santoa

«E daí? Não é a Dinamarca muito mais rica que muitos outros que produzem electricidade a preços mais baixos?
Alguém conhece um estudo concreto que relacione o custo de produção da electricidade num país com o seu desempenho económico?»

Sem ironia, aconselhá-lo-ia a ter mais conversas com o Prof. César das Neves. Ele explicar-lhe-á o conceito económico de custos de oportunidade. E ainda a razão pela qual um país com o grau de desenvolvimento de Portugal não pode ter cargas fiscais semelhantes às dos países nórdicos.

Cordiais cumprimentos.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Eduardo,
Já me explicou, o que eu não consigo perceber (e não é com certeza por falta de capacidade pedagógica do João César das Neves) é o que é o ovo e a galinha: os preços altos de energia levam ao uso eficiente do recurso (aumentando a competitividade) ou a competitividade devida a outros factores permite acomodar o preço alto da energia?
Em qualquer caso ainda ninguém me disse onde encontro um estudo maisou menos como o green and competitive, do Porter e Class van der linde, que foi feito para a regulamentação ambiental, aplicado a preço da energia.
henrique pereira dos santos

José M. Sousa disse...

Talvez este relatório: A will to compete:a competitive, clever and clean Europe esteja mais ou menos dentro daquilo que o Henrique pretende.

Anónimo disse...

Caro HPS,
O sistema de distribuição de electricidade da Dinamarca, só se aguenta à custa da electricidade de origem nuclear produzida na Suécia.
A utilização da energia nuclear é inevitável. Para obter água potável (consumo e agrícola) em grande quantidade à custa de água salgada, ou o faz por aquecimento ou por arrefecimento. Nos dois casos terá de usar muita energia.
Conforme alguém já lhe referiu no blog «A ciência não é neutra», se você fosse um camponês da China ou um intocável da Índia, com filhos para alimentar em casa, a sua apreciação deste problema seria muito diferente. Esta é, aliás, a melhor das razões para o Irão ter centrais nucleares, por muito que isso perturbe os EUA.
Mas concordo parcialmente consigo: porque não defendo a construção duma central nuclear em Portugal. De facto a ideia de ter lá a trabalhar, «engenheiros» formados ao Domingo, com conhecimentos de «inglês técnico», é verdadeiramente arrepiante.
Atentamente
JM

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro JM,
A quantidade de inevitabilidades históricas que nunca se realizaram não tem conta. De qualquer maneira só falei sobre o preço, e o da energia nuclear, uma vez internalizadas as externalidades que o Estado tem assumido como suas, é razoavelmente semelhante aos das renováveis.
Caro José M. Sousa,
Obrigado, quando tiver tempo irei dar uma vista de olhos.
henrique