quinta-feira, janeiro 07, 2010

Assim se constroem mitos climáticos

De vez em quando dou uma espreitadela ao blogue dos mitos climáticos. Desta vez encontrei lá esta peça divertida: "De facto, estes estranhos cientistas pensam que sabem explicar subidas de temperaturas. Na realidade, não sabem, mas não são só eles. Por cá também temos émulos dos redactores destes emails, que afirmam que uma série de 10 anos não pode refutar a tese do global warming. Ou seja, estaríamos perante um milagre da Física, pois teríamos uma lei que seria interrompida durante 10, ou mais anos, mas que, pasme-se, continuaria válida!".

Esta frase é possivelmente uma reacção ao meu post sobre validação de modelos. Não vou voltar a repetir o conteúdo do post pois nenhum argumento avançado até agora contraria o que lá foi dito mas vale a pena colocar aqui um dos gráficos do último relatório do IPCC, com umas pequenas edições minhas.


Este gráfico mostra o que eu expliquei por palavras numa resposta a um comentador do referido post. Ou seja, que na série temporal dos últimos ca. 170 anos há uma tendência de aumento de temperatura mas que essa tendência não é monótona, ou seja, regista aumentos de temperatura, reduções de temperatura e momentos de estabilidade (mas com tendência para aumento acentuado, primeiro, a partir da revolução industrial e, depois, a partir dos anos 60 do século XX). O que eu chamei um aumento em "escada". Com um pouco de imaginação detecta-se uma possível regularidade nestes momentos de estabilidade (ver rectângulos vermelhos e imaginar outro eventual rectângulo vermelho no final da série da temporal) mas obviamente esta é uma especulação. Não obstante existe de facto a possibilidade que alguns mecanismos de "feed-back" tenham um carácter regular. Se assim for, não será de estranhar que dentro de alguns anos se consigam prever estas oscilações de temperatura com alguma precisão.

Mas no meu entender o essencial da figura, para o actual debate, é que demonstra, melhor do as minhas palavras, que não faz qualquer sentido usar os últimos 10 anos de aparente estabilidade da temperatura para refutar a tese de que as temperaturas do planeta estão, globalmente, em fase ascendente. Nem os últimos 10 anos, nem os anteriores períodos de estabilidade ou arrefecimento contrariam a tendência global pelo que insistir neste argumento parece ser como aquele que dá um tiro no seu próprio pé para combater o adversário. Além do mais, se as previsões dos climatólogos estiverem correctas, tudo indica que nos próximos anos se voltarão a registar recordes de temperatura elevada no contexto do registo histórico. Que dirá o autor dos mitos climáticos num ou dois anos, então?

Lendo o resto do post dos Mitos Climáticos percebe-se mal, aliás, a insistência nos últimos 10 anos. Se de facto Rui Moura acredita que os climatólogos usam a seguinte fórmula matemática para modelar o clima do planeta, "∆t = Ti – To = α . ln (Ci/Co)", em que se faz depender o aumento de temperatura, exclusivamente, dos aumentos de CO2eq, esperando-se portanto uma relação monótona entre as duas variáveis, existem muitos períodos que poderiam ser usados para refutar a tese. Acontece, obviamente, que este é um argumento "straw man" pois qualquer pessoa minimamente informada sabe que a climatologia actual não se baseia numa formulação tão simplificada para simular a tendência climática do planeta.

O argumento é aliás repetido por Jorge Oliveira, noutro post também nos Mitos Climáticos, que reconhecendo que o clima do planeta não se pode resumir a tão singela equação, insiste na falácia que "os teóricos do global warming têm recorrido a uma expressão logarítmica (vide os relatórios do próprio IPCC) em que a variação da temperatura é condicionada por uma única variável independente, a concentração do CO2". Convido o Jorge Oliveira que, por vezes aqui escreve, a indicar aos leitores do blogue ambio em que parte do relatório do IPCC encontrou a afirmação de que a variação da temperatura do planeta (obviamente não estamos a falar de um sistema experimental fechado) é condicionada por uma única variável independente.

17 comentários:

Lowlander disse...

Caro Miguel,

Se me permite acrescento que este tipo de argumento revela unicamente ignorancia sobre o ABC da analise estatistica de series de dados.
Com uma serie de dados como as temperaturas de superficie globais, perorar sobre as "tendencias" em series de dados com 10 anos de extensao nada mais e que perorar sobre as qualidades do ruido estatistico, ou seja, verborreia completamente esvaziada de proposito ou sentido.

Miguel B. Araujo disse...

Caro Lowlander,

Tenho em crer que os conhecimentos estatística e análise de séries temporais não são o forte destas pessoas. Em todo o caso só hoje percebi o "strawman" no seu esplendor quando fui ler as duas peças que referi no meu post. Toda a narrativa se baseia na simplificação do argumento contrário, i.e.:

se CO2eq controla as temperaturas, então CO2eq a subir e temperatura a descer quer dizer que CO2eq não controla temperaturas

É de facto um raciocínio lógico. O que estas pessoas parecem não entender --o que é preocupante dado o tempo que dedicam ao assunto-- é que toda gente reconhece que o sistema climático é um sistema complexo em que interactuam múltiplas variáveis ("forcings") e existem múltiplos "feedbacks". Portanto no silogismo acima referido deveria substituir-se a palavra "controlar" por "afectar", ou seja, substituir-se a lógica do sistema fechado pela lógica do sistema aberto. Os AOGCM (Atmosphere-Ocean-Coupled General Climate models) que se usam para simular climas presentes, passados e futuros incorporam muitas componentes desta complexidade sendo, porém, óbvio que não incorporam nem incorporarão TODA a complexidade do sistema climático. E não o fazem porque:

1) Modelos são abstracções da realidade, ou seja são formalizações simplificadas sobre o conhecimento da realidade e não a realidade per se. Isto é uma tirada de manual!

2) Mesmo que fosse desejável incorporar a realidade nos modelos climáticos, o grau de ignorância que possuímos sobre os mecanismos que moldam o sistema climático é ainda apreciável. Facto, aliás, amplamente reconhecido pelos climatólogos.

3) Mesmo assumindo que a ignorância pudesse ser reduzida (e será com o tempo), existem limitações computacionais que impedem o lançamento de modelos cada vez mais complexos. E é improvável que o aumento da capacidade computacional através de sistemas de "grid computing" resolva todos os problemas.

A questão de fundo, para um modelador, é qual o grau de complexidade que o modelo precisa para gerar projecções que se ajustam razoavelmente aos dados de calibração dos modelos sendo o conceito de "razoável" algo que fica ao critério do próprio modelador. Este processo de calibração, verificação, re-calibração, verificação, etc, é um processo heurístico, de tentativa-erro, que tem pouco ou nada a ver com a caricatura que no blogue mitos climáticos se faz da ciência climática.

Bom e com esta me despeço por alguns dias...

Olympus Mons disse...

Caro Miguel, lá vamos nós outra vez…
Primeiro deixe-me abordar a questão pelo gráfico e depois pelo conteúdo.

1. Usando a sua argumentação visual do Gráfico então podemos (bastando mover os quadradinhos ligeiramente para o lado) com a mesma propriedade afirmar que o aquecimento de 70-00 não tem nada de invulgar tendo em conta o período 1910-1945. Veja no seu gráfico (IPCC). Já reparou? Veja. Aliás se alguma coisa, o de 1910-1945 é ainda mais íngreme! Chica naquela altura deviam todos andar de SUV de certeza (ironia).
A primeira coisa que salta á vista do gráfico é a falta gritante de honestidade intelectual (para dizer o mínimo e deixar o climategate sossegado) ao não colocar uma linha de tendência nesse mesmo período de 1910-45, não acha? Pois, pondo essa “trendline” qualquer um começa a coçar a cabeça, certo?

Olympus Mons disse...

2 - Já que estamos numa de raciocínios lógicos…Com pouco mais de 10 anos de aumento de temperatura, após os receios de arrefecimento global, estava o James Hansen no congresso americano a oficializar a abertura da “era” do aquecimento global. Para esse efeito, presumo que estaria a fazer análises a datasets de 10 anos, certo?

OLympus Mons disse...

Lowlander,
Gosta de estatística, especialmente a robusta, cheia de regressões lineares; publicada em revistas da especialidade e “peer review?
E , lowlander, não me parece que a conversa destes senhores seja “verborreia completamente esvaziada de proposito ou sentido.” , mas isso lá está, devo ser eu…
Ok, pode ir ler em http://arxiv.org/abs/0907.1650

David R.B. Stockwell, Anthony Cox
(Submitted on 9 Jul 2009 (v1), last revised 12 Jul 2009 (this version, v3))
Abstract: A Chow test for structural breaks in the surface temperature series is used to investigate two common claims about global warming. Quirk (2009) proposed that the increase in Australian temperature from 1910 to the present was largely confined to a regime-shift in the Pacific Decadal Oscillation (PDO) between 1976 and 1979. The test finds a step change in both Australian and global temperature trends in 1978 (HadCRU3GL), and in Australian rainfall in 1982 with flat temperatures before and after. Easterling & Wehner (2009) claimed that singling out the apparent flatness in global temperature since 1997 is 'cherry picking' to reinforce an arbitrary point of view. ON THE CONTRARY, WE FIND EVIDENCE FOR A SIGNIFICANT CHANGE IN THE TEMPERATURE SERIES AROUND 1997, CORROBORATED WITH EVIDENCE OF A COINCIDENT OCEANOGRAPHIC REGIME-SHIFT. WE USE THE TRENDS BETWEEN THESE SIGNIFICANT CHANGE POINTS TO GENERATE A FORECAST OF FUTURE GLOBAL TEMPERATURE UNDER SPECIFIC ASSUMPTIONS.
Comments: Submitted to the International Journal of Forecasting on 5 July 2009
Subjects: Atmospheric and Oceanic Physics (physics.ao-ph)

Miguel B. Araujo disse...

Caro Olympus,

Vou mesmo despedir-me pois tenho que dedicar tempo a outros assuntos que são mais urgentes. Voltarei mais tarde mas antes respondo-lhe rapidamente ao que escreveu no primeiro comentário (o segundo não creio que valha a pena pois não me interessa discutir intenções de pessoas):

"Usando a sua argumentação visual do Gráfico então podemos (bastando mover os quadradinhos ligeiramente para o lado) com a mesma propriedade afirmar que o aquecimento de 70-00 não tem nada de invulgar tendo em conta o período 1910-1945. Veja no seu gráfico (IPCC). Já reparou? Veja. Aliás se alguma coisa, o de 1910-1945 é ainda mais íngreme!"

Não me parece que a diferença entre a hipotética inclinação da recta entre 1910-55 e 1970-00 seja marcadamente diferente. Ao meu olho são semelhantes e tendo em conta a amplitude das "error bars" não me parece prudente concluir demasiado sobre as diferenças entre as duas rectas. Em todo o caso note que este é um gráfico de anomalias e se é interessante discutir a velocidade com que as mudanças se dão face a um período de referência, é bem mais interessante considerar a magnitude dessas anomalias. E a magnitude da anomalia de 1970-00 (ca. -02/0.6) é indiscutivelmente superior à magnitude da anomalia 1910-45 (ca. -0.6/0.1). Quanto a mim este é o aspecto essencial da figura.

"A primeira coisa que salta á vista do gráfico é a falta gritante de honestidade intelectual (para dizer o mínimo e deixar o climategate sossegado) ao não colocar uma linha de tendência nesse mesmo período de 1910-45, não acha? Pois, pondo essa “trendline” qualquer um começa a coçar a cabeça, certo?"

Podemos colocar "trend lines" onde quisermos e obteremos rectas para todos os gostos: planas, descrescentes, crescentes, etc. O que é importante é perceber porque que puseram as "trend line" como se puseram e perguntar se faz sentido. Se a pergunta for "como varia tendência dos últimos 25 anos face à tendência do último século e meio?", faz sentido segmentar as rectas tendo como ponto de origem o final do período de observação do registo histórico. Se a pergunta for "é o incremento das anomalias dos últimos 25 anos o maior observado no registo histórico?" não faz pois ter-se-ia que procurar ("fishing") períodos de 25 anos que igualam ou superam esta taxa de crescimento da anomalia. Se for esse o objectivo, então o período que refere seria o mais adequado.

Em todo o caso meu caro Olympus, deixemos as "trend lines" que são apenas representações simplificadas de dados de base. Os dados de base (médias anuais) estão na figura e falam por si: há oscilações mas há uma tendência geral ponham-se as "trend lines" onde se puserem.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Olympus,
Eu cito a conclusão final do estudo: "Figure 3 illustrates the prediction for temperatures to 2100following from our structural break model, the assumptions of continuous underlying warming, regime-shift from 1978 to 1997, and no additional major regimeshift.
The projections formed by the trend to 1978 (presumed AGW warming, green) and the trend in the current regime (AGW offset by regime-shift, cyan) predicts constant temperatures for fifty years to around 2050, similar to the period of flat temperatures from 1930-80, then increasing to about 0,2ºC above present by 2100. It must be kept in mind that this extrapolation is based on greatly simplified assumptions regarding regime-shifts and trends, and does not incorporate many of the complexities and natural forcing factors operating to produce climate change in the real world Marsh, 2009).
These results justify further development of more complex regime-shift models of temperature and rainfall for forecasting purposes, including attempting to decompose global climate into temporally and spatially differentiated regime-shift models."
Para além da clareza dos limites das conclusões, e para além dessas conclusões não invalidarem o que é dito nos relatórios do IPCC, mas simplesmente porem a hipótese de ser necessário olhar com mais detalhes alguns aspectos específicos, convém olhar bem para os grau de fiabilidade destas novas previsões, expressas no gráfico apresentado na tal figura 3. Aconselho vivamente a consulta ao artigo, com olhar atento à incerteza associada ao previsto.

Olympus Mons disse...

Caro HPS,
Se prever as tendências climáticas fosse tão simples como fazer o que estes senhores fizeram…

Contudo do ponto de vista estatístico é um trabalho bem feito. Duvido é que sirva para alguma coisa no contexto em que está. Aliás. O mesmo (eu sei que estou a simplificar) pode ser dito dos modelos climáticos.

Olympus Mons disse...

Miguel, nem vou abordar o que concordo consigo (que se fosse por esse caminho nem comentava nada) e o problema que eu tenho com o seu post é que entrámos, em parte e já explico porque não na totalidade, num campo muito complicado do “tudo é compatível com”:
a. Parece (meramente contextualizante) alguns comentários que se lêem por aí que se tem vaga de calor é AGW, se tem vaga de frio é AGW, se a temperatura em datasets mais longos (e no caso 10 anos é relevante) indica aumento da temperatura está de acordo com AGW, se pára de subir, como o Miguel faz “está de acordo”. Diabo, ou as teorias e análises realizadas, sobre os mecanismos subjacentes aos feedback estão correctas ou não estão. Assim não dá!
Mostre-me lá um artigo, um resultado de modelo, um relatório (e não é irónico) anterior aos últimos 2 anos em que os outputs mostrassem períodos de 10 anos de estabilidade? --- Agora já mostram? Não é aceitável que se diga isso sem mostrar claramente como “agora” passou a mostrar. È que a única estabilidade climática prevista era a o arrefecimento global de 45-70 (passado) por introdução arbitrária de valores de Aerossóis para arrefecer o planeta. Vai de adicionar a quantidade necessária até representar o arrefecimento registado no período mencionado. Isto roça algo muito feio. Como é que agora (também após evento realizado, olha que curioso) se está a ter resultados de estabilidade climática de períodos de 10 anos? Como? Se o Miguel souber (quais os valores e quais as variáveis) eu agradeço!

b. Duas coisas são certas. Uma que se a variabilidade natural do clima, consegue concretizar a subida de temperatura registada de 1910-45 e nós não sabemos ainda quais os mecanismos subjacentes, então não sabemos rigorosamente nada relativamente ao clima que nos permita concluir seja o que for (o que é a posição de muitos). A segunda é que hoje (Dezembro 2009) a anomalia climática dos últimos 30 anos está em 0,280C, dando um aumento de temperatura na ordem de 0,13C por década que está clara, óbvia e notoriamente dentro da variabilidade natural (leia-se aquecimento natural que se regista desde o fim da ultima glaciação) ou pelo menos de um aquecimento SEM feedbacks “net” positivos (o que torna toda esta questão um grande bocejo) e corra uma média a 24 meses e fica sem aumento nenhum nos últimos 11 anos, isto tendo em conta que nestes 11 anos foram emitidas quantidades enormes de CO2 para a atmosfera. E a 0,280C num ano em que se regista um considerável El nino é relevante (porque devia ter evidenciado a anomalia). Se a teoria está correcta, com o aumento de emissões de CO2 registado na última década, existe uma quantidade enorme de energia escondida algures no sistema climático e é uma quantidade que começa a ser demasiado grande (já é convenhamos) para que se diga que está por aí algures no sistema climático escondido (insondáveis caminhos do senhor). Não pode. Qualquer variabilidade do clima que consiga “esconder” tão grande desequilíbrio radiativo indicia que é um sistema climático muito pouco sensível á adição de CO2 na atmosfera (o que não quer dizer que é completamente insensível, claro).

Olympus Mons disse...

Parte II
c. A parte que coloco de “não na totalidade” e a parte que eu gosto do seu post que é quando o Miguel fala da “Além do mais, se as previsões dos climatólogos estiverem correctas, tudo indica que nos próximos anos se voltarão a registar recordes de temperatura elevada no contexto do registo histórico. Que dirá o autor dos mitos climáticos num ou dois anos, então…” Ora, desta forma posso inferir que se esse retomar do aquecimento global não ocorrer nos próximos 5 anos o Miguel considera invalidade a teoria, correcto? (ou a seguir os modelos começam a revelar períodos de 15, 20 anos,etc?) Eu confesso que com este “El nino” já se deveria registar essa pequena subida, mas verdade é que nem assim. Que o planeta vai aquecendo não temos dúvida porque o está a fazer desde á 13 mil anos e mais observável desde o LIA com o mínimo de Maunder e Dalton, Ora se está a subir não surpreende que as temperaturas mais altas se registem, pasmem-se nos últimos anos do dataset. Ora devia ser a onde? No inicio? (isto não é, obviamente, para si que sabe isto tão bem como eu). Aquilo que tem que aparecer (e que não há) são muitos dos claros “fingerprinting” do desequilíbrio radiativo.

d. Eu, pela minha parte só quero, como sempre deve a acontecer com a ciência, que me digam como se falseia a teoria que não é do aquecimento por indução de CO2, que isso nunca esteve sequer em questão, mas sim a teoria de que o sistema climático é hipersensível á adição de CO2 na atmosfera, essa sim a verdadeira teoria e aquela que está em debate – Sensibilidade do sistema climático. Nenhuma teoria se prova, simplesmente se falseia ou não! Viver uma teoria em que “tudo é compatível com” uma teoria em que tudo está “consistente com” mesmo que só seja em “hindsight” concordará é tramado! Porque ficam pessoas como eu no mesmo enlear argumentativo que ficamos quando se tenta debater a existência de Deus com amigos que são muito religiosos (que não digo que seja o seu caso, ou o da Maria ou do Manuel, digo que a nível se progresso no debate acaba-se nos mesmos becos).

Olympus Mons disse...

E uma pequena provocação ao titulo deste post que aborda a questão de mitos. Mitos mesmo aparecem nestas circunstâncias. Isto vem reportado no newscientist, que de céptico climático nem as virgulas tem!

Debate heats up over IPCC melting glaciers claim
 17:06 08 January 2010 by Fred Pearce
 For similar stories, visit the Climate Change Topic Guide
Glaciologists are this week arguing over how a highly contentious claim about the speed at which glaciers are melting came to be included in the latest report of the Intergovernmental Panel on Climate Change.
In 1999 New Scientist reported a comment by the leading Indian glaciologist Syed Hasnain, who said in an email interview with this author that all the glaciers in the central and eastern Himalayas could disappear by 2035.
Hasnain, of Jawaharlal Nehru University in Delhi, who was then chairman of the International Commission on Snow and Ice's working group on Himalayan glaciology, has never repeated the prediction in a peer-reviewed journal. He now says the comment was "speculative".
Despite the 10-year-old New Scientist report being the only source, the claim found its way into the IPCC fourth assessment report published in 2007. Moreover the claim was extrapolated to include all glaciers in the Himalayas.

Muito se fala aqui do IPCC, mas convém recordar que no IPCC estas coisas acontecem e serve para contextualizar a “ciencia” que por lá fica canonizada, contra balançando a excelente ciência que por lá também é reportada.

Isto é o climategate e está só a começar.

Eduardo F. disse...

Existe a possibilidade...; a probabilidade da ocorrência é elevada...; a evolução [da temperatura] dos últimos 10 anos não pode fazer esquecer a tendência dos últimos 170... (mas já pode se a tendência fôr, por exemplo, de 10 mil anos). Afirmações deste tipo são, claro está, irrefutáveis.

As advinhações do MET têm falhado nos últimos 3 anos estrondosa e sistematicamente. Quer as de Verão (anunciadas em Janeiro), quer as de Inverno (publicadas em Julho). Situação até algo azarenta pois a probabilidade de acertar num universo de três acontecimentos é de 33%, como é de 50% em caso de duas, ou de 25%, caso seja de 4 acontecimentos possíveis que estejamos a falar.

Não sei (alguém saberá?) se os fenómenos económicos têm uma complexidade maior, menor ou semelhante aos fenómenos climáticos. Sei, isso sim, que à escala global 2010 pode ser um ano melhor, pior ou muito semelhante a 2009. À partida, ao afirmá-lo, tenho uma probabilidade de 33% de acertar, situação em que um risk-taker estará provavelmente disponível para fazer apostas com significado caso o mercado de apostas esteja de feição.

Miguel B. Araujo disse...

Caro Olympus:

"e o problema que eu tenho com o seu post é que entrámos, em parte e já explico porque não na totalidade, num campo muito complicado do “tudo é compatível com”:

Não é isso que eu digo. Quando falo em verificação por oposição a falsificação é que o primeiro é um processo heurístico de aproximação do conhecimento que funciona em ciências que representam sistemas complexos e que usam dados compilados de forma não controlada. O segundo processo estuda, tipicamente, sistemas simples e usa dados devidamente controlados e replicados. Neste caso avança-se fechando portas (hipótese refutadas) e abrindo novas. Este processo de refutação de hipóteses leva-nos à aceitação provisória de hipóteses como válidas. No caso na climatologia (mas também da ecologia e da evolução) o conhecimento avança acumulando evidências independentes sobre um dado fenómeno balizado por uma teoria que prevê um determinado resultado em função de um ou mais mecanismos. Com acumulação de evidência num dado sentido ganha-se confiança na teoria mas esta nunca é realmente falsificada usando os métodos tradicionais preconizados por Popper. É um processo inerentemente estatístico e como existe ruído (inerente a qualquer sistema complexo) e como os dados nunca são controlados e devidamente replicados, os ajustes dos fenómenos às teorias nunca são perfeitos. Sem ter presente estas nuances epistomológicas será difícil entender o debate actual e será fácil dizer disparates como o que por mim é citado de Rui Moura sobre falsificação de uma teoria global sobre o funcionamento do clima com base numa série de 10 anos (a WMO trata séries climáticas de 30 anos para reduzir o ruído inerente a séries temporais e desta forma separar ruído meteorológico de tendências climáticas).

"a. Parece (meramente contextualizante) alguns comentários que se lêem por aí que se tem vaga de calor é AGW, se tem vaga de frio é AGW, se a temperatura em datasets mais longos (e no caso 10 anos é relevante) indica aumento da temperatura está de acordo com AGW, se pára de subir, como o Miguel faz “está de acordo”. Diabo, ou as teorias e análises realizadas, sobre os mecanismos subjacentes aos feedback estão correctas ou não estão. Assim não dá!"

Não terá sido de mim que ouviu os comentários citados. É verdade que 10 anos é mais 1 ano mas 10 anos é menos que 20, ou 50, ou 100. Ora tendo nós um registo histórico razoável no último século e meio qual é a relevância de fazer um zoom nos últimos 10 anos e descontextualizar toda a tendência que está para trás e que inclui outros períodos de estabilidade que intercalam uma tendência de subida? Se o argumento "straw man" de alguns negacionistas estivesse correcto e os climatólogos parametrizassem os seus modelos como se CO2eq fosse a única variável a controlar o sistema climático o argumento teria lógica mas esta é uma caricatura do estado da ciência climática actual. Por outro lado se é verdade que a tendência de aumento de temperaturas estabilizou nos últimos 10 anos (mas prevê-se que tenha parado aqui por um tempo), também é verdade que as temperaturas da última década continuaram a situar-se entre as mais quentes do registo histórico. Se não perdermos de vista a "big picture" não se encontram, de facto, razões para atirar a teoria do AGW fora com a água da banheira. O que estes 10 anos nos recordam, é que o sistema é complexo, que há outros mecanismos que afectam as temperaturas e que existem "feed-backs". Ou seja, são oportunidades para refinar a compreensão sobre o sistema climático e não para descartar o conhecimento acumulado.

Miguel B. Araujo disse...

Caro Olympus (cont),

"Mostre-me lá um artigo, um resultado de modelo, um relatório (e não é irónico) anterior aos últimos 2 anos em que os outputs mostrassem períodos de 10 anos de estabilidade?"

Caro Olympus, Estamos em 2010 e não me peça para fazer o trabalho de casa por si. Comece pelo relatório do IPCC (de há 3 anos atrás) e que se refere a dados anteriores a esta data. O gráfico que está neste post é de lá tirado!! Não me force a pedir a mudança do seu nome para Fenix Mons!!!

"b. Duas coisas são certas. Uma que se a variabilidade natural do clima, consegue concretizar a subida de temperatura registada de 1910-45 e nós não sabemos ainda quais os mecanismos subjacentes, então não sabemos rigorosamente nada relativamente ao clima que nos permita concluir seja o que for (o que é a posição de muitos)."

Tanto quanto me é dado conhecer a posição de muitos outros, nomeadamente de várias academias de ciências e especialistas credenciados, é que a variação pre-1950 se deveu factores naturais como radiação solar e vulcanismo.

"A segunda é que hoje (Dezembro 2009) a anomalia climática dos últimos 30 anos está em 0,280C, dando um aumento de temperatura na ordem de 0,13C por década que está clara, óbvia e notoriamente dentro da variabilidade natural (leia-se aquecimento natural que se regista desde o fim da ultima glaciação)"

Se não for muito incómodo pode-me indicar a fontes dos dados que lhe permite fazer semelhante afirmação? Estou particularmente interessado na sua série paleoclimática.

"c. a parte que eu gosto do seu post que é quando o Miguel fala da “Além do mais, se as previsões dos climatólogos estiverem correctas, tudo indica que nos próximos anos se voltarão a registar recordes de temperatura elevada no contexto do registo histórico. Que dirá o autor dos mitos climáticos num ou dois anos, então…” Ora, desta forma posso inferir que se esse retomar do aquecimento global não ocorrer nos próximos 5 anos o Miguel considera invalidade a teoria, correcto?

Não. Se ler bem reparará que eu afirmo que me parece um tiro no pé fazer este género de comentários.

"Que o planeta vai aquecendo não temos dúvida porque o está a fazer desde á 13 mil anos e mais observável desde o LIA com o mínimo de Maunder e Dalton, Ora se está a subir não surpreende que as temperaturas mais altas se registem, pasmem-se nos últimos anos do dataset."

Caro Olympus eu não usaria um argumento dessa natureza pois existe considerável incerteza na reconstrução das temperaturas durante o Holoceno. Aliás, as reconstruções que conheço não mostram um aumento sistemático das temperaturas ao longo dos últimos 13000 anos e tudo indica que terão havido períodos mais quentes que o actual neste intervalo de tempo. Ver por exemplo, aqui: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/ca/Holocene_Temperature_Variations.png

"d. Eu, pela minha parte só quero, como sempre deve a acontecer com a ciência, que me digam como se falseia a teoria que não é do aquecimento por indução de CO2, que isso nunca esteve sequer em questão, mas sim a teoria de que o sistema climático é hipersensível á adição de CO2 na atmosfera, essa sim a verdadeira teoria e aquela que está em debate – Sensibilidade do sistema climático. Nenhuma teoria se prova, simplesmente se falseia ou não!"

Se fosse meu aluno e depois de ter gasto tanto latim sobre este tema ter-lhe-ia que dar uma nota negativa. Como trabalho de casa sugiro que pense em quais as teorias que se falseiam e quais as que não se falseiam mas que se verificam. Sobre isto nada mais direi a não ser que é um raciocínio errado.

Miguel B. Araujo disse...

Caro Eduardo F.,

"Não sei (alguém saberá?) se os fenómenos económicos têm uma complexidade maior, menor ou semelhante aos fenómenos climáticos"

Se me permite respondo-lhe dizendo que até o paladino da incerteza e o teórico da incapacidade de fazer previsões, o economista e filósofo, Nassim Nicholas Taleb, autor do best seller "The Black Swan, The Impact of the Highly Improbable" reconhece que a sua teoria sobre a importância dos "outliers", de impossível previsão e que determinam o curso da história das sociedades, não se aplica aos modelos de previsão em ciências naturais.

Jorge Oliveira disse...

Caro Miguel Araújo

De facto, houve alturas em que eu passava repetidamente pelo Ambio e deixava alguns comentários, habitualmente dirigidos ao Henrique Pereira dos Santos. Desisti. Primeiro dos comentários e depois das próprias visitas. Não por falta de argumentos, mas pela inutilidade de os expender.

Como já muitos outros referiram, a (pseudo) teoria do aquecimento global tornou-se uma espécie de religião, cujos adeptos se comportam como os crentes de qualquer religião, que são cegos e surdos a qualquer argumento contra, mas mudos é que não, porque nunca se calam.

Um dia caí na asneira de entrar em debate com o João César das Neves acerca da existência de Deus. Após mais de uma dúzia de e-mails trocados nesse dia e no seguinte, acabei por desistir. Ele está sinceramente convencido de que Deus existe. Bom, eu não esperava o contrário. Aquilo não passou de uma malandrice minha para lhe moer o juízo, por causa daqueles inconcebíveis artigos que ele escreve acerca da senhora de Fátima e dos três pastorinhos. Paciência. Continuo a lê-lo quando escreve sobre Economia e Finanças. Não leio quando escreve sobre os pastorinhos. O problema é que, se ele acredita em pastorinhos e senhoras de Fátima, estará mesmo bom do juízo para falar de Economia e Finanças? Aquela eterna dúvida...

Pois hoje voltei aqui porque me disseram que o meu nome tinha sido novamente referido num post do Ambio. Fui ler e deparei com um convite seu para responder a uma pergunta. Lamento dizer-lhe que não estou disponível para responder a perguntas, nem para debater seja o que for acerca de uma teoria que o escândalo do Climategate veio demonstrar, a quem ainda não tinha percebido, que tudo não passava de uma treta, por sinal mal amanhada, para meter medo ao gentil público e daí tirar os dividendos e vantagens que qualquer campanha intimidatória costuma proporcionar.

Eu costumo dizer que, após o Climategate, esta teoria está morta e enterrada mas, aqui para nós, sabemos que não é bem assim. Há mortos muito teimosos que resistem ao enterro e insistem em deitar a mão para fora do caixão. Por isso, nós, os execráveis negacionistas, temos ainda muito trabalho a fazer.

Repare no êxito desta última acção. Encomendámos ao São Pedro um nevão dos diabos, um daqueles a cobrir quase todo o Hemisfério Norte, como há muito não se via, e pusemos uns quantos milhões de pessoas a formular um desejo : “Volta aquecimento global, que estás perdoado!”.

Fique bem e agasalhe-se.

Miguel B. Araujo disse...

Caro Jorge Oliveira,

Agradeço os 6 parágrafos que dedica ao post. Pena ter optado por não fornecer a referência do IPCC que cita no seu post (bastaria uma linha) e que está na base da sua afirmação que o IPCC preconiza que a "variação no clima do planeta se deve a uma única variável independente, a concentração de CO2".