quinta-feira, julho 29, 2010

Boas intenções, inferno e drama


Ouvi o comandante Gil Martins, que conheço e por quem tenho respeito, dizer que o problema destes dias de fogos eram as mais de 400 ignições diárias.
É uma ideia simples, convincente, mas errada.
As ignições registadas pela protecção civil não são as ignições quimicamente consideradas (isto é, o input de energia necessário para desencadear a reacção química exotérmica que caracteriza um incêndio) mas sim as ignições que progrediram o suficiente para serem registadas no sistema.
Isto é, as ignições não passam de 100 para quatrocentas em poucos dias. O mais natural é que todos os dias sejam mais ou menos as mesmas, mas em alguns dias rapidamente ganham uma dimensão que as torna adminsitrativamente registáveis.
Portanto o problema não é o número de ignições mas o facto delas progredirem facilmente até se tornarem visiveis (por isso o seu número varia consideravelmente apesar dos comportamentos culturais serem os mesmos todos os dias e por isso se agrupam geograficamente como acontece com os fogos, que desta vez se concentraram entre Aveiro e Caminha, na faixa litoral).
Pretender que o número de ignições tem alguma relação com a área ardida, como é frequente, é um erro que não tem qualquer base objectiva empírica.
Por isso apagar muitos fogos nascentes é uma vitória de Pirro.
As boas intenções inegaveis de Gil Martins desmbocarão forçosamente num inferno quando as condições forem efectivamente favoráveis ao desenvolvimento dos fogos.
Repito o que tenho dito vezes sem conta: o problema não é discutir como começam os fogos, mas porque razão não param em alguns dias.
Li também uma notícia notável no Público de hoje, em que finalmente se começa a dizer o que disse aqui no blog: os efeitos do derrame da BP afinal parecem ser muito menores que o previsto.
É assim, temos tendência para o dramatismo. Daí não viria mal ao mundo se não se desse o caso de gastarmos demasiados recursos no teatro que depois nos fazem falta na vida real.
Os comentários do Henk e do Luís Lavoura nos posts sobre fogos levam-me a querer escrever sobre a questão de combustiveis e a gestão do fogo. Mas fica para outro dia, espero eu.
Mas ainda tenho espaço para dizer que embora o tempo se vá manter quente, os fogos vão passar a ser controlados sem dramas, porque o vento mudou.
henrique pereira dos santos

7 comentários:

Anónimo disse...

Quanto á progressão de algumas ignições permita que discorde da sua tese. Veja, por exemplo, na passada 2ª feira, o Distrito de Viana do Castelo chegou a ter 37 ignições em simultâneo. Algumas tiveram que ficar em lista de espera porque não havia meios de combate para todas elas. E quando isto acontece, e acontece muitas vezes em dias dias de muito calor, pouca humidade e algum vento, como têm sido os últimos dias, estão criadas as condições para que o fogo tome as rédeas e siga o caminho que quiser, porque combustiveis tem ele à sua frente com fartura. Será esta a principal razão, para além do desordenamento florestal, que está na raiz dos grandes incêndios.

Anónimo disse...

Não sou perito em incêndios nem no combate aos mesmos mas creio que o excesso de zelo no combate pode ser contra producente e ser apenas o artilhar de uma bomba relógio que pode rebentar num ano em que as condições climatéricas sejam favoráveis.

Explico-me: ao combater todo e qualquer incêndio independentemente da sua intensidade, época do ano/condições meteorológicas impede-se que pequenos incêndios inofensivos mas extremamente úteis na eliminação da matéria mais combustível se propaguem limpando assim a floresta do seu excesso. Estes incêndios podem ocorrer de forma natural através dos relâmpagos ou porque não referi-lo, através das tradicionais queimadas, prática que pelo que consta a humanidade efectuou durante milhares de anos mas que agora está proibida sob pena de ver o sol aos quadradinhos.

Mas claro, ao plantar o país de pinheiro$ e eucalipto$, árvores que segundo consta em caso de incêndio ajudam a propaga~lo dificilmente existirá uma solução a não ser gastar fortunas do erário publico para proteger propriedade privada.

Assim temo que com tanto excesso o feitiço ainda se volte contra o feiticeiro e em algum ano assistamos a um espectáculo, triste, pior do que o de 2003. Oxalá esteja enganado.

Paulo disse...

A forma como o nº de fogos é contabilizado em Portugal distorce a discussão. Dos 300-400 que têm ocorrido por dia uma % (desconhecida, mas tudo indica bastante substancial) corresponde a reacendimentos. Outra % corresponde a ignições em ambiente sub-urbano ou periurbano e sem qualquer hipótese de expansão.

A maioria da área ardida (>80%, por vezes mais de 90%) resulta de uma pequena % dos fogos (<5%). Por isso não é de modo nenhum líquido que da redução do nº de fogos advenha a redução da área ardida. Muitos fogos simultâneos implicam a dispersão dos meios de combate o que implica um aumento da área ardida média por fogo. Mas aqueles poucos fogos com potencial para se tornarem enormes (devido à conjugação de combustível, meteorologia e topografia adversas), muito provavelmente enormes se tornarão. Dito doutra forma, se os esforços de prevenção reduzissem o nº de ignições em x por cento isto corresponderia a uma redução muito menos que proporcional no nº de grandes fogos.

Paulo Fernandes

Anónimo disse...

Com algum jeito - e umas massas passadas da BP para as mãos certas - ainda acabamos todos a ler que afinal o derrame no golfo não foi na plataforma da BP: foi na Venezuela e a culpa é da política do Chavez...!
Parafraseando o K. Godel: não foi grave significa exactamente o quê? Que não aconteceu nada? Ou que o que aconteceu não foi tão grave como as previsões mais severas sugeriram? E sendo como está à vista (admitindo que não se querem negar as evidências) não é grave? Não é mesmo muito grave? Ò HPS vá lá tomar um banho de imersão numa praia do golfo, e aproveite para engolir uns pirolitos, pode ser que finalmente veja a luz.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro primeiro anónimo, em Viana houve muito mais que 37 ignições simultâneas, 37 foi o número das que eram suficientemente grandes para serem registadas. E chegaram a ser 37 porque as condições meteorológicas favorecem o desenvolvimento rápido do fogo (naturalmente porque existe muito combustível).
Paulo, estou de acordo contigo, hoje fui ver se um pequeno terreno que tenho tinha ardido, e ficava exactamente no limite de um fogo que foi parado há quatro dias. Ainda hoje eram inúmeras as fumarolas no perímetro do fogo, quatro dias depois de ter sido apagado o fogo. Só não há um reacendimento porque as condições climáticas mudaram e com estas condições mesmo que aquilo progrida apaga-se num repente.
Último anónimo,
É mais difícil argumentar que insultar não é? O que disse é que o que se verifica, como habitualmente, é muito menos impactante que o previsto.
Tem alguma indicação em contrário?
Infelizmente não posso ir dar um mergulho no Golfo do México porque 99% das praias não têm o menor sinal do derrame.
henrique pereira dos santos

Lowlander disse...

Quanto aos fogos, totalmente de acordo.
Quanto ao derrame. Repito. O henrique so nao ve os impactos do derrame porque nao quer, ja lhe indicaram noutros posts estudos que apontam para o que aconteceu e continua a acontecer com o Exxon Valdez. Houve ate ha umas semanas atras uma reportagem muito boa na BBC dos impactos na economia local da regiao do Alaska atingida onde ainda hoje nao se pode pescar arenque (nao tenho a certeza quanto peixe terei de confirmar) que era a base da economia local a altura do acidente. E aqui estou apenas a falar de impactos economicos que acabam por ser os mais faceis de contabilizar.
Acredite quem quiser que o mesmo ou bem pior nao ocorrera nas comunidades da foz do Mississipi... e quanto a impactos ecologicos, tambem se vera quando os estudos de longo prazo sairem(bom, admitidamente talvez nao o Henrique que so le o que lhe da jeito)

PS: dizer que 99% das praias do Golfo nao estao afectadas e de uma demagogia atroz. Porque nao dizer tambem que mais de 99% do rio Missipi nao esta afectado? Ou que as populacoes afectadas pelo derrame sao menos de 1% da populacao americana? E pena este tipo de perolas nao pagar imposto...

Henrique Pereira dos Santos disse...

Lowlander,
Li os links (eu leio tudo, não só o que me convém) e tive o cuidado de desmontar inclusivamente a forma como muitos textos são construídos de forma a criar uma ideia errada sobre o que efectivamente é dito e tem na base factos. Sobre a desmontagem que fiz não vejo argumentos contrários mas apenas afirmações não fundamentadas.
Em todos, repito, todos os estudos que li não há um único que aponte para efeitos verificados de longo prazo muito significativos em valores naturais. Existem muitos que põem hipóteses lógicas nunca verificadas.
Quanto aos impactos económicos nunca mos viu negá-los. O exemplo do Golfo é aliás muito bom. O impacto económico na exploração do camarão é brutal. Mas, e é essa a questão, essa é uma boa notícia para os valores naturais porque o balanço entre os efeitos nas comunidades biológicas existentes do derrame parece ser bastante mais pequeno que o impacto sda exploração do camarão (e outras actividades ligadas à pesca).
Aliás não me viu diminuir uma única vez os efeitos do derrame, o que não me vê porque eu não faço é alinhar no discurso catastrofista porque o considero uma das principais causas do enfraquecimento da influência social das ONGs. Para quem tiver dúvidas leiam bem o que aconteceu com as campanhas contra a SHELL pelo afundamento de uma plataforma petrolífera e o efeito que isso teve na credibilidade do Greenpeace.
Quanto à questão da afectação do golfo e do mississipi vou fazer um pequeno post para se esclarecer.
henrique pereira dos santos