quinta-feira, agosto 05, 2010

O índice de risco de incêndio

Este é o risco de incêndio para amanhã, calculado pelo Instituto de Meteorologia, com base no índice canadiano.
Longe de mim discutir o índice (o Paulo Fernandes dirá o que achar, que é um especialista na matéria).
O que é que a mim, pobre homem da Póvoa, me faz confusão?
É que eu sentado aqui, sem especiais meios, aposto que os fogos de amanhã (sobretudo os mais dificeis de parar) se localizarão sobretudo a Norte de Aveiro/ Coimbra/ Guarda, com especial incidência no Minho e Trás-os-Montes, tal como está a acontecer hoje.
Fiz esta aposta sozinho dezenas de vezes contra o índice do instituto de meteorologia e tenho ganho em toda a linha. Não porque não arda em toda a área que está classificada como de risco máximo, mas sim porque dentro da área de risco máximo há áreas que têm um risco acima do máximo.
E com a simples introdução da direcção do vento essas áreas aparecem de forma evidente.
Não percebo por que razão ninguém se interessa pela demonstração disso e, sobretudo, pela evidente utilidade de distinguir o dramático do máximo.
Ao meter no mesmo saco o Pinhal Interior (que pode arder aqui e ali, mas não está a ser afectado pelas condições meteorológicas que se verificam no Norte) e o Minho estamos a induzir decisões erradas de planeamento e combate aos fogos que por aí vão lavrando.
E isto ano, após ano, após ano.
Eu não compreendo.

Adenda: Depois de dar uma volta pelas previsões de hoje, sexta feira dia 6, admito que a linha de fogo desça para a zona de Castelo Branco (mas não no litoral) que curiosamente aparece neste mapa reproduzido como menos preocupante para hoje. Veremos
henrique pereira dos santos

9 comentários:

Anónimo disse...

Henrique, do que sei, o FWI canadiano é do melhorzinho que há, pelo menos há uns anos atrás, não sei se entretanto apareceram melhores.

O sistema até foi introduzido na Europa via Portugal, onde foram testados vários sistemas cujas conclusões foram depois recomendadas para outros países.

Sempre ouvi dizer que nessa área tínhamos algum know how, sobretudo de malta da Universidade e Coimbra, knowhow que se calhar noutros países seria melhor aproveitado.

Numas pesquisas do google encontrei estes papers:

http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/slu/v12n1/12n1a07.pdf
http://www.fs.fed.us/psw/publications/4451/psw_2009_4451-001_471-498.pdf
http://www.firelab.utoronto.ca/pubs/2008%20Carvalho%20et%20al%20IJWF.pdf
http://www.cifap.utad.pt/A%20fire%20danger%20classification%20for%20maritime%20pine.pdf

Eu compreendo o seu post, e até concordo até certo ponto com ele.

Não sei é se você compreende porque ele dá aqueles resultados. Repare numa coisa, você acha que o risco é muito maior a norte, e julga que este deveria ter por exemplo "dramático" a norte e apenas "máximo" no pinhal interior. (escala imaginária).

Mas o pinhal interior hoje/amanhã estão previstos temperaturas a rondar os 40, enquanto no norte se calhar apenas uns 35. E provavelmente haverá menos humidade no centro. Julgo que seria uma estupidez um FWI não colocar essa região em nível máximo.

Muito provavelmente um mau produto deste tipo com equações simplistas, até colocaria o Pinhal interior com um risco maior do que o norte, o que não é o caso.

Depois, as coisas muitas vezes não são tão simples, há vento nordeste, mas por exemplo tem havido bastantes incêndios mais próximos do litoral, e o vento durante a tarde nessas zonas até roda para noroeste devido à depressão térmica que se forma.

A ideia que tenho destes produtos é que são bons em dias normais de verão, mas nos tais dias "especiais", calor extremo com uma lestada, talvez faça falta o tal nível "dramático" que julgo ter compreendido no seu post.

Mas penso eu, isso também é um bocado óbvio também para as pessoas experientes ligadas a esta área (Prot.Civil, bombeiros, etc) que não são nenhuns totós.

Há muita coisa que funciona terrivelmente mal em Portugal, mas nesta área por via das infelizes circunstâncias, penso que não estamos assim tão mal.

Dê também uma olhadela nas actividades do CEIF:
´http://adai.pt/v3/index2.php?m1=2

Luís Lavoura disse...

Mas qual seria a diferença prática entre dizer "risco máximo" e "risco dramático"?

Estas classificações destinam-se a orientar os bombeiros sobre qual deve ser o seu nível de alerta. Sendo o risco "máximo", os bombeiros já sabem que devem estar em alerta máximo - e mais alerta do que isso não poderão estar, mesmo que o risco venha a ser classificado como "dramático".

Luís Lavoura disse...

De acordo com estas previsões, o maior incêndio desta manhã é em Carrazeda de Ansiães (Trás-os-Montes).

Mas o que arde? Mato com algum pinho. Que interessa isso? Nada. Ardem terrenos abandonados, encostas impenetráveis e sem caminhos, que estão a mato com alguns pinheiros nascidiços (i.e. não plantados), que nenhum valor têm para os proprietários.

Qual seria o proprietário que iria gastar dinheiro a contratar um cabreiro para limpar tais terrenos? Nenhum proprietário razoável faria tal coisa.

O terreno arde porque o seu destino é arder, ninguém chora por isso. O fogo em tais terrenos faz parte da normal evolução ecológica e nenhum prejuízo económico acarreta.

Luís Lavoura disse...

É de assinalar que, com a introdução em Portugal do nemátodo do pinheiro (pine wilt), as florestas de pinheiro bravo perderam radicalmente o valor. A madeira de pinho portuguesa tem agora que ser fervida para esterilização antes de poder ser exportada. Já ninguém hoje planta pinheiros.

Da mesma forma, com a introdução de plantações de eucalipto em climas tropicais (Brasil p.ex.), o preço do eucalipto desceu. O plantio de eucaliptos hoje em dia em Portugal já só é rentável se se deixar as árvores dar dois cortes de madeira - o primeiro corte não chega para pagar a plantação.

Tudo se conjuga assim para que cada vez mais haja abandono destas espécies altamente combustíveis e sua substituição por mato, terras ao abandono - que arde muito, mas sem prejuízo económico.

Progressivamente, os carvalhos e os sobreiros voltam a tomar conta do país - vão crescendo nascidiços aonde menos se espera.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Anónimo (mais ou menos),
Não duvido que o índice canadiano seja o melhor que há.
O que não compreendo é por que razão não se usa esse índice, mas com uma adaptação para situação portuguesa onde há um factor de previsão, fácil, simples e barato que pode ajudar a distinguir situações difíceis de situações muito difíceis.
O que estou a dizer é que o índice para a escala cedo demais. Há imensos dias de alerta máximo, mas há muito poucos dias em que realmente arde a sério.
Identificar previsionalmente esses dias parecer-me-ia de interesse óbvio.
Já agora, o vento que roda para Noroeste é numa fatia finíssima do território (ao contrário dos quinze dias em que ardeu em 2003 que até chuviscos, nevoeiros e névoas havia até bem para o interior) e o que está a arder no Noroeste não é bem, bem litoral.
Luís,
A minha questão não é semântica, é de fundo. Há uma dúzia de dias por ano que são diferentes dos outros. Nessa meia dúzia de dias arde 80% da área ardida anual.
Diluir essa dúzia de dias em 40 ou cinquenta de alerta máximo parece-me um erro de planeamento.
A tua análise económica é defensável se a levares até ao fim: o esforço de combate concentra-se em salvar pessoas e bens e deixar arder. Doutra forma não faz sentido dizer que nenhum mal vem ao mundo por causa dos incêndios e depois gastar milhões de euros na sua estrutura de combate. Por mim não tenho nada contraq uma lógica claramente liberal nesta matéria: os proprietários que tratem dos seus bens, o Estado limita-se a proteger pessoas e infra-estruturas numa lógica de protecção civil. Acho-a no entanto social e politicamente insustentável.
henrique pereira dos santos

Paulo disse...

Henrique,

Temos que estar bem cientes da utilidade e finalidade dos índices de risco de incêndio. O mapa de risco diário do IM mistura alhos com bugalhos, ou seja combina a informação meteorológica (FWI) com um risco "estrutural" relacionado com o histórico de incêndios e outros factores. É por isso que há sempre umas zonas verdes e amarelas no pico do Verão, ou seja não têm tradição de fogo.
Passemos ao FWI. O índice representa a intensidade potencial do fogo, tal como determinada pela meteorologia, num tipo florestal standard. O 1º trabalho feito com o sistema Canadiano em Portugal foi nos 1950's (!!!) pelos Serviços Florestais. Em Portugal a ADAI/IM calibrou o FWI para responder ao nº de fogos diários à escala distrital, ou seja valores de FWI iguais tinham significados diferentes em regiões diferentes. Esta forma de calibração faz pouco sentido e trai a filosofia do sistema FWI e foi abandonada mais tarde pelo IM. Na sequência de um trabalho que a extinta APIF me encomendou, e em colaboração com o Pedro Palheiro e o Miguel Cruz (na altura trabalhadores da ADAI), calibrou-se o FWI para Portugal para representar a intensidade do fogo em pinhal bravo susceptível de fogo de copas, ou seja, aquilo que considerámos ser o worst-case scenario. O índice expressa portanto a dificuldade de combate em pinhal bravo. Com base nesta escala o IM produz mapas dessa dificuldade diariamente e com previsão para 24 e 48 h, não disponíveis para o público em geral.
A moral da história é que o índice não pretende prever onde vai haver fogo, mas sim onde o fogo, se ocorrer, vai ser mais severo e difícil de combater. Outros componentes do FWI (são 6 índices no total) servem outros propósitos operacionais (facilidade de ignição, consumo de biomassa, velocidade de propagação, dificuldade de rescaldo).
Quanto às comparações que fazes: ontem o FWI foi substancialmente mais elevado no pinhal interior (valores à volta de 50-60) que no norte (30-40); hoje os valores são muito similares nas 2 regiões, à volta de 50 (o extremo começa em 40).

Henrique Pereira dos Santos disse...

Paulo,
Conheço esse trabalho que fizeste (confesso que me falta bagagem para o entender totalmente), reconheço a solidez do trabalho académico em torno disso.
Mas a minha pergunta mantém-se.
Sendo útil um índice de severidade potencial do fogo, no caso de ocorrer, por que razão o assumimos como um índice de fogo potencial?
Ou dito de outro modo: se eu sei que o cenário vai ser o que está a ocorrer hoje (trinta fogos por hora, a maior parte e os mais dificeis de combater na mancha que se vê no mapa que ilustra um dos posts) por que razão não é produzido um mapa dizendo que nestas áreas a situação vai ser explosiva?
Ou ainda de outro modo: se eu sei que 80% da área ardida se concentra numa dúzia de dias, por que razão não me preparo para distinguir esses doze dias dos muitos mais em que índice entra no máximo (e já agora, as regiões onde é expectável que aconteça, porque de maneira geral não é uma situação generalizada, é uma situação concentrada, embora em grandes manchas)?
Eu não percebo. Não é o trabalho da academia, é o uso que lhe é dado (enfim, a academia também se poderia esforçar mais por ser mais útil, mas é perigoso generalizar neste assunto e não quero ser injusto).
henrique pereira dos santos

Paulo disse...

Henrique,

Para identificar os dias explosivos, separando-os dos dias em que o índice é extremo, utiliza-se (não cá) informação meteorológica que permite classificar a instabilidade meteorológica (o índice de Haines, usado na América do N).
A razão pela qual os fogos se concentram numas regiões e não noutras não é explicável pela meteorologia se a meteorologia for similar, como tem sucedido. No pinhal interior não há garranos como no Alto Minho onde o uso do território está ligado ao fogo, por ex. A grande densidade de ignições levará forçosamente a diferenças regionais no nº de fogos que escapam ao ataque inicial. Mas seria interessante dispor de mapas com a localização dos cerca de 400 fogos diários...

PF

Henrique Pereira dos Santos disse...

Paulo, Também gostava de ter mapas diários de localização dos fogos. Há alguma razão para que não existam?
Tenho verificado que quando arde, arde por regiões. Basta pores as áreas ardidas por anos para veres isso de forma muito nítida.
O que te digo é que as condições meteorológicas não foram iguais no Pinhal Interior e no Minho por estes dias. De tal maneira que ao olhar para as previsões eu previ onde ia arder.
Apenas com base na direcção do vento, que era diferente num e noutro lado.
henrique pereira dos santos