quinta-feira, agosto 05, 2010

Os próximos dias

Esta é a previsão do vento daqui a 24 horas. E é a mesma, mais coisa menos coisa, para Sábado. E reflecte uma tendência que se vai acentuar a partir de hoje ao fim da manhã, princípio da tarde. Domingo vai amenizando e sobretudo Segunda e Terça podem dar algum descanso.
Durante algum tempo participei nas reuniões semanais (não em todas) do Comando Nacional das Operações de Socorro que condensa o essencial da informação sobre fogos e devo dizer que as ligações ao Instituto de Meteorologia eram para mim frustrantes porque as previsões eram bem menos explícitas que coisas destas que se encontram facilmente na Internet.
A confirmarem-se estas previsões (e são coerentes em vários sites de previsões que consultei, incluindo o do Instituto de Meteorologia), o Norte de Portugal (o Nororeste seguramente, o Nordeste penso que também) irão viver dias de aflição, hoje, mas sobretudo amanhã e Sábado. O resto do País terá um fogo aqui e outro ali, mas geríveis. Duvido que todos os fogos do Norte (e por Norte não entendo a região administrativa mas uma zona geográfica com limite Sul razoavelmente impreciso mas que andará por Aveiro) sejam geríveis por estes dias.
Acontece que a sucessão de dias quentes e mais ou menos secos (desde o fim de semana passado a situação tem sido difícil, mas não preocupante e os fogos têm sido extintos em prazos mais ou menos razoáveis) tem um efeito potenciador dos efeitos do agravamento das condições que se irão verificar nos próximos dias, se as previsões se confirmarem.
Neste momento não há muito a fazer a não ser planear o combate com o objectivo claro de protecção de pessoas e infra-estruturas. A protecção da floresta é, nestas condições, uma segunda prioridade.
Mas vale a pena estar atento porque será uma boa demonstração de que melhorar o sistema de combate sem gerir os combustíveis não é uma solução possível. É apenas adiar, aumentando, o problema.
Diz o Paulo Fernandes (um dos mais lúcidos analistas de fogo em Portugal e que felizmente vai comentando o que aqui no blog se diz sobre o assunto, para compensar o facto de não ter tempo para se juntar a nós a fazer posts) num comentário a este post que Portugal será dos países do mundo com um maior rácio de custo/ benefício em matéria de combate a incêndios. Devo dizer que acho normal que Portugal tenha o maior rácio de custo/ benefício porque estou convencido de que Portugal é mesmo o país do mundo em que o problema dos fogos é maior. Por um lado não tem o efeito de diluição dos números que têm outros países que tendo situações geográficas complicadas, têm também muitas outras áreas onde não se passa nada de especial. Por outro estou mesmo convencido de que as condições de combinação do Mediterrâneo e Atlântico com abandono rural que se verificam em Portugal não existem em mais lado nenhum do mundo e que somos campeões de fogos como somos campeões de produção de cortiça e pinhões. Compararmo-nos com os outros nesta matéria redundará sempre em frustração porque temos mesmo uma situação mais difícil.
O que remete para a questão do Luís Lavoura (e em parte do Henk Feith) sobre o que fazer na gestão de combustiveis, nestas circunstâncias.
Aparentemente é uma tarefa insustentável economicamente e para a qual falta gente, pelo que não nos resta se não investir no combate e rezar à Senhora de Fátima para que anos com dias desfavoráveis (80% da área ardida concentra-se em 12 dias no ano) só apareçam muito de quando em vez.
Não estou de acordo.
Tradicionalmente três fileiras económicas se encarregaram de gerir os combustiveis: a produção de estrumes (ou a produção de fertilidade, como se lhe queira chamar); o aquecimento (incluindo a cozinha) e a produção de pequenos ruminantes (que se relaciona com a produção de estrumes também).
Não vejo nenhuma razão para não investir na criação de valor nestas três fileiras. E não vejo nenhuma razão para que qualquer delas não tenha competitividade. Mesmo sem o apoio do Estado.
henrique pereira dos santos

3 comentários:

Paulo disse...

Henrique, estes meteogramas para 7 dias também dão jeito:
http://freemeteo.com/default.asp?pid=156&gid=2732438&la=18
Mais do que ver de onde sopra o vento importa conjugar a humidade do ar e a velocidade do vento. Humidade baixa está geralmente associada a vento leste, claro, mas nota que este ano o 2º e 3º maiores incêndios à data (Alcácer do Sal e Albergaria-a-Velha) desenvolveram-se respectivamente com vento de sudoeste e norte.

P. Fernandes

Henrique Pereira dos Santos disse...

Paulo,
Esses meteogramas fazem parte dos que costumo consultar, exactamente porque dão uma informação regional detalhada que é difícil o Instituto Meteorológico perceber que interessa às pessoas.
Repara, eu uso o vento Leste como o sinalizador de determinadas condições meteorológicas, não como um fetiche. Depois há variações e adaptações.
O facto é que o uso deste sinalizador tem funcionado muito bem (mais até do que alguma vez pensei).
Repara, fui agora ver a página da protecção civil, e lá estão sinalizados 9 fogos de 24, todos eles exactamente onde eram expectáveis. E, do meu ponto de vista, a situação vai piorar. O vento Leste antecipa muito bem ests situações e vou fazer um post só a falar do índice de risco de incêndio (um post curto).
henrique pereira dos santos

Luís Lavoura disse...

"não vejo nenhuma razão para que qualquer [dessas fileiras] não tenha competitividade"

A produção de estrumes não tem competitividade quando os adubos são baratos, como agora (há dois anos atrás foram extremamente caros).

A produção de pequenos ruminantes não é competitiva quando a carne de vaca é abundante e barata. Hoje em dia ninguém quer comer cabra, a carne de vaca é muito mais fácil.

Repare o Henrique: há três decénios não havia tratores e as pessoas criavam vacas para tração (puxar carros de bois). Praticamente não se comia carne de vaca (o bife era um luxo de ricos). Hoje em dia há tratores e adubos para fazer crescer erva. O consumo per capita de carne de vaca cresceu umas seis vezes ou mais. Perante tal realidade, ninguém quer comer ovelha ou cabra. Em muitos talhos já praticamente não se encontra borrego (no Sul ainda se encontra, devido às tradições herdadas dos árabes, mas no Norte não), e cabrito ainda menos.

Veja também o Henrique o seguinte: nos EUA usa-se cabras para limpar os terrenos - mas paga-se por esse serviço!!! Há empresa que criam rebanhos de cabras e que os alugam a proprietários que querem limpar os seus terrenos - os proprietários têm que pagar para que lhes ponham cabras nos seus terrenos! A criação de cabras não é rentável, trata-se apenas de um meio menos caro (e ambientalmente menos impactante) de limpar os terrenos.