sábado, agosto 14, 2010

Resolver o problema ou andar melhorzinho?


Áreas ardidas até ontem. Falta a base geográfica (resolvido com a ajuda do Paulo Fernandes) mas imagine-se que os grandes fogos mais acima são dos do Gerês e Peneda, a meio mais a Norte no Alvão, o da Gralheira a meio Sul e a Estrela mais abaixo. Sei que a geografia não é muito forte em Portugal porque ouvi na rádio um locutor dizer que "a população de Vilar Soente tinha sido evacuada para a povoação do Mezio que era no sopé da serra do Gerês", sendo que Mezio não é povoação, e é uma portela (portanto na linha de alturas) que separa a serra da Peneda da serra do Soajo, que estão separadas da serra do Gerês pelo vale do Lima e pela serra Amarela
A indecorosa tentativa de colagem das condições meteorológicas deste ano às de 2003 para dizer que o dispositivo de combate está melhor (curiosamente, coisa que ninguém nega) tem sido a forma como o Governo tem tentado evitar a discussão política (não partidária, diga-se) sobre como gerir o problema dos fogos.
Mais tarde, que agora não tenho tempo, farei um post sobre o comentário de Pedro Vieira sobre os ventos, por agora transcrevo dois comentários suscitados pelo post anterior, por me parecerem muito úteis, com um pequeno comentário meu no fim.
Paulo Fernandes continua sempre atento ao que aqui se vai dizendo, corrigindo e melhorando muito a informação que aqui passa:
"Falta dizer que em 2003 a severidade foi média até aquela data no gráfico, depois começou tudo a arder no início de Agosto. Creio que no cômputo geral, e analisando a média à escala nacional, 2003 foi o 2º ano mais severo depois de 2005.É também importante referir que há uma dimensão da meteorologia do fogo que os índices de perigo não reflectem: em 2003 a instabilidade atmosférica foi brutal, o que gerou incêndios dominados pela convecção e com vida própria, e esteve associada a muita trovoada seca que causou incêndios enormes no Alto Alentejo e Ribatejo."
Um leitor anónimo faz um extenso comentário muito esclarecedor:
"Na minha opinião, tão importante como o vento é tudo o que se passou a nível de massas de ar. No início de Julho tivemos uma primeira entrada de ar africano quente e seco, e no final de Julho outra, dessa vez um misto de ar seco e quente do interior da própria península e africano também. Finalmente a semana passada tivemos mais uma entrada africana, as poeiras do Sahara chegaram até ao norte do país:http://www.meteopt.com/forum/meteorologia-geral/imagens-de-satelite-interessantes-3031-5.html#post223615Quando há dias atrás referia que eram uns poucos dias do ano que acabavam por gerar a maior parte dos incêndios importantes, eu penso que esses dias especiais estão intimamente associados a estas massas de ar quente e seco de origem africana, e que merecem portanto especial atenção. E julgo que assim será, até porque estão na origem das nossas ondas de calor.Em relação a 2003, penso que este ano não está ao nível desse, foi algo de raro e excepcional, talvez ao próximo do que se tem passado nas últimas semanas na Rússia por exemplo, e esperemos que não se repita nunca mais. De qualquer forma, não está propriamente a ser um ano meigo, antes pelo contrário. Não tenho todos os dados, mas julgo que apesar de Julho deste ano ter tido médias das máximas mais alta desde 1931, as mínimas penso que foram mais modestas. Em 2003 foi algo infernal, por exemplo a Amareleja esteve 17 dias seguidos com uma máxima >=40ºC, 24 dias >=35ºC ou 29 dias >=30ºC. Castelo Branco também foi infernal, quase todo interior centro e sul sobretudo. Em 2003 bateu-se o recorde nacional da temperatura, 47.3ºC na mesma Amareleja, este ano em Julho a mais alta foram 43ºC em Coruche em Julho e em Agosto até agora 42,3ºC na Amareleja. Mas como referi, penso que este ano não está nada meigo, talvez não seja tão evidente nos extremos, mas o seja nas médias. Será mais fácil perceber quando houver mais dados.Sobre as declarações dos políticos, bem, sempre foi assim, e é uma coisa reciproca. As populações e media acusam políticos, muitas vezes injustamente pois nestas alturas criticas por muito que se faça, não há volta a dar, e os políticos respondem por vezes coisas que podem não corresponder inteiramente à verdade. É um bocado do circo habitual destas tristes circunstâncias, nos anos em que as condições meteorológicas são meigas elogia-se os bons resultados, quando são adversas diz-se que a situação é radical.Pessoalmente até acho que as coisas estão de facto melhores hoje em dia a nível de organização, prontidão e formação do que estavam em 2003, mas eu olho para isto tudo de uma forma bastante critica pois não é na vertente da luta contra o incêndio que se tem que canalizar os esforços. Mas os erros do passado são tantos, que partilho um pouco a opinião do João Miranda do Blasfémias, com este tipo de floresta e a realidade social actual das mesmas, quanto mais incêndios se combatem hoje, mais biomassa acumulará para o ano em que as condições meteorológicas adversas surgem. E acabam sempre por surgir um dia, e nas alturas criticas por muitos meios que existam, o desfecho é sempre o mesmo. Sem medidas de fundo, estaremos eternamente neste ciclo. Provavelmente nem haverá solução para isto. Sobre a questão do vento "Suão" falada ontem, pois não sei, eu já tenho essa dúvida há imensos anos. Da adolescência recordo sempre o vento suão como o vento quente e seco de algumas noites de Verão que geralmente era sueste ou leste, mas não obrigatoriamente, as populações acabavam por chamar suão sempre ao vento seco e quente, mesmo que este viesse por exemplo de nordeste, embora esse fosse menos habitual. Mas posso estar enganado.Nos últimos anos tentei perceber a origem do nome, pois este à partida significaria "sul" como você refere, e tudo indica que de facto é mesmo isso. O Instituto de meteorologia no seu site diz:«Vento suão é a designação que habitualmente é dada em Portugal (em especial no sul) a um vento de sul ou sueste que transporta uma massa de ar quente e seco.»Do qual retenho o "quente e seco", que penso que é mesmo o mais importante, ou seja, será o vento associado às entradas de ar quente e seco proveniente do norte de África (e não associado a trovoadas como referiu, que esse é mais sudoeste), e no fundo é o tipo de situação sinóptica que tivemos algumas vezes nos últimos tempos, e que noutras partes do país acaba por corresponder a vento seco não necessariamente proveniente de sul, embora a massa de ar efectivamente o seja, bem como do interior da península quando ela consegue aquecer bem. A Madeira nos últimos dias também foi afectada por este tipo de massa de ar, lá chamam a isto o "Tempo de Leste", e curiosamente hoje tornou-se palco das chamas:http://www.meteopt.com/forum/seguimento-meteorologico/seguimento-incendios-2010-a-4567-14.html#post224414Julgo portanto que mais importante que o quadrante exacto do vento, as populações acabam por relacionar o vento mais ao quente e seco do que propriamente ao quadrante exactoTive esta discussão há poucos anos com uma pessoa, e ela até me disse que suão não era de "sul", mas de suor :-) Ahh, e para aumentar ainda mais a confusão, já vi um algarvio chamar suão ao característico vento norte :) que por vezes ocorre no litoral a sotavento das serras quando o vento de norte empurra o ar quente do Alentejo para sul, e este ar quente por efeito Foehn aquece e seca ainda mais, gerando uns característicos "bafos" bastante insuportáveis trazendo temperaturas por vezes surpreendentes a meio da manhã ou ao final da tarde.Já agora, como referiu, temos tido bastante vento nordeste e não tanto aquele leste ou sudeste que eu normalmente associo a estas situações de calor e incêndios, nas últimas semanas tem-me intrigado a razão porque houve tanta concentração de incêndios no noroeste do país, quando o mesmo vento, de nordeste e leste, também existia noutras regiões como o interior norte e centro. Não sei se é disparate, mas depois de pensar um pouco sobre o assunto, até foi por isso que descobri este blogue e reparei que falava também do vento nordeste e do facto dos incêndios estarem remetidos a uma região, dizia eu, pode também haver aqui um efeito Foehn, das serras espanholas e das portuguesas do noroeste do país, ou mesmo mais a sul como Montemuro, etc.O vento de nordeste que transportava ar já bastante seco ainda perde mais humidade e aquece a sotavento das serras:http://en.wikipedia.org/wiki/Foehn_windPor exemplo nesta estação meteorológica particular em Melgaço, é impressionante a baixa humidade da mesma nesta região (não é propriamente o Alentejo...) durante imensos dias com vento nordeste:http://www.wunderground.com/weatherstation/WXDailyHistory.asp?ID=IRNAMELG2&day=13&year=2010&month=8&graphspan=monthPeço desculpa pelo longo testamento, cumprimentos."
Há aspectos deste comentário que retomarei no post sobre os ventos que farei posteriormente, mas faço notar que a imagem que encima este post, e que de facto é estranha como geografia dos fogos deste ano (por favor imaginem o mapa da Península por baixo, que não consegui reproduzir tudo do site do EFFIS) é bastante explicada pelo efeito de Fohen referido.
Não conheço tão bem a geografia da Estrela para dizer que é o que se passa também ali, mas a verdade é que o essencial do que ardeu são vertentes Sul e Sueste (talvez até mais Sueste) de serras (Meio/ Soajo/ Vilar Soente, Vilarinho das Furnas, S. Cristovão/ Gralheira). Isso explica porque razão não ardeu também a Galiza e porque razão não ardeu o interior de Trás-os-Montes.
Por enquanto é uma explicação lógica, se é verdadeira ou não só pode verificar-se com análises de mais detalhe e, sobretudo, se se fizesse o que já propus noutros posts: uma investigação séria e detalhada das condições meteorológicas locais dos sítios onde está a arder mais em cada ano (suspeito que bastaria medir com rigor a humidade atmosférica).
Veja-se a distância intelectual entre quem anda a tentar compreender isto para encontrar soluções tecnicamente sustentadas para um problema difícil e complexo, e o pessoal que adoptou nos últimos dias um estribilho que todos conhecemos em Portugal: não sei qual é o problema, o médico até me disse que deve ser qualquer coisa nova, por isso ainda não sabe bem como resolver, mas o que sei é que desde que tomei estes comprimidos que a minha vizinha lá tinha, vou andando melhorzinho, obrigado.
henrique pereira dos santos

1 comentário:

Paulo disse...

É agradável ler a opinião de alguém que interpreta os acontecimentos com base em conhecimento meteorológico. É bem conhecido o efeito Foehn e a sua relação com o fogo e admito que esteja envolvido no que se tem passado. Mas para que este efeito se dê a cadeia montanhosa terá que estar entre centros de altas e baixas pressões.
Portugal não tem especialistas (operacionais, não académicos) em meteorologia do fogo. Para os eventuais interessados no tema a referência básica (em inglês, "Fire Weather" já de 1970) pode ser descarregada daqui:
http://firemodels.fire.org/content/view/34/43/

P. Fernandes