quinta-feira, setembro 09, 2010

Testando pela enésima vez


O gráfico de cima mostra como anteontem e ontem o número de fogos diário foi muito baixo (menos de vinte em cada dia). E já agora mostra como a percentagem de ignições nocturnas se mantém, salvo aquele pico de 50% anteontem, provavelmente porque começou a chover de dia e não de noite. Mas não tem significado. O único significado é o de demonstrar que só com incendiários muito, muito estúpidos, tão estúpidos que já teriam sido todos apanhados, é que se pode continuar a interpretar as ignições nocturnas como demonstrações da actividade dos incendiários, que insistem em pôr fogos em dias em que manifestamente não vai arder.
Dir-se-ia que com esta chuva se alteraram muito as condições de ignição.
Pois, eu acredito que sim, que dificilmente se chega nos próximos dias aos 500 fogos num dia. Mas se as previsões estiverem certas, eu diria que entre amanhã e terça feira haverá alterações importantes no número de fogos diários.
Porque comando uma organização de terroristas incendiários?
Não, simplesmente porque tudo me leva a crer que a meteorologia tem muito mais importância que os incendiários, quando o combustível existe.
É ela que explica quase tudo nos números dos fogos, volto a repisar, quando o combustível está disponível.
Claro que a previsão do que acontecerá em matéria de fogos nestes dias só é válida se se concretizarem as previsões de que o vento vai mudar e começar a soprar de Leste outra vez.
As precisões não são muito claras quanto ao momento e ao espaço em que se sentirá esse vento e não me parece que haja previsões de mais de três dias deste vento, que é verdadeiramente quando ele se torna perigoso. Também é verdade que apesar da direcção do vento estão previstas humidades atmosféricas maiores que o que é costume com vento daquela direcção. Mas as várias previsões que vi foram consistentes a assinalar um ou dois dias, pelo menos em alguns sítios, de vento Leste.
O suficiente para o número de fogos diário dar outro salto.
Tanto de dia, como de noite.
Adenda
henrique pereira dos santos

11 comentários:

Anónimo disse...

O problema parece ser a justificação das ignições nocturnas.
Elas são devidas a quê?(ou a quem?)

DuK disse...

Caro Henrique Pereira dos Santos,

A minha pergunta não difere muito da pergunta acima feita, mas o que provoca a ignição (já que o que prolonga / intensifica os incendios o Henrique tem vindo a explicar).
Não será a autocombustão um factor muito reboscado? Até os proprios vidos casualmente deixados no chão necessitam de ter a orientação certa para dar origem a uma ignição e à noite isso não acontece...

Cumps

Henrique Pereira dos Santos disse...

Quando falei em auto-combustão foi a propósito dos matos acumulados nos parques de combustíveis das centrais de biomassa. Nas matas não faz sentido pôr essa hipótese.
Sobre as ignições nocturnas apenas sei três coisas:
1) Ninguém, que eu saiba, estudou o assunto;
2) Variam com a meteorologia, logo, o mais provável é não serem fogo posto, pelo menos de forma sgnificativa, sendo mais provável que tenham na sua origem o mesmo tipo de coisas que as ignições diurnas (o que explica que a percentagem no total seja sempre mais ou menos a mesma);
3) Isto é possível de repararmos que aquilo a que chamamos ignições não são as verdadeiras ignições mas o momento em que a chama se torna visível, o que significa que é possível que a verdadeira ignição se tenha dado horas antes (um cigarro, um fogo mal apagado, uma faísca de uma máquina, etc.), tenha ficado a morrinhar até ao momento em que um factor qualquer (uma mudança de vento, o contacto com um combustível mais inflamável, o aumento progressivo de temperatura naquele processo mais ou menos larvar) faz deflagrar uma chama visível para o sistema de alerta.
Mas repito, ninguém estou o assunto, simplesmente eu não acredito que em dias como os dois que passaram haja gente pelos montes a ver se o fogo pega quando está a chuviscar ou quase.
E que todos os dia do ano, entre 30 a 40% dos fogos sejam postos por um exército de zombies que anda pelo país fora às tantas da madrugada.
henrique pereira dos santos

Miguel B. Araujo disse...

Henrique,

Os teus argumentos sobre as ignições nocturnas continuam sem me convencer.

Basicamente, parece-me muito improvável que hajam ignições nocturnas sem ajuda humana. E as ignições naturais (p.e., ignições em zonas de rescaldo) tenderiam a depender fortemente das condições meteorológicas. Ora, o gráfico que nos mostras indica que a associação entre ignição nocturna e diurna verifica-se em menos de metade dos dias referenciados. Na outra metade (especialmente no final da série temporal) perde-se a relação o que sugere que factores não meteorológicos poderão estar na origem das ignições nocturnas.

"2) Variam com a meteorologia, logo, o mais provável é não serem fogo posto, pelo menos de forma sgnificativa, sendo mais provável que tenham na sua origem o mesmo tipo de coisas que as ignições diurnas (o que explica que a percentagem no total seja sempre mais ou menos a mesma);"

Variam com a meteorologia apenas parcialmente. Nota que mesmo que a variação fosse maior, correlação não é prova de causalidade!! Falta de correlação, essa sim, permite descartar hipóteses.

"3) Isto é possível de repararmos que aquilo a que chamamos ignições não são as verdadeiras ignições mas o momento em que a chama se torna visível, o que significa que é possível que a verdadeira ignição se tenha dado horas antes (um cigarro, um fogo mal apagado, uma faísca de uma máquina, etc.), tenha ficado a morrinhar até ao momento em que um factor qualquer (uma mudança de vento, o contacto com um combustível mais inflamável, o aumento progressivo de temperatura naquele processo mais ou menos larvar) faz deflagrar uma chama visível para o sistema de alerta."

Não digo que não seja possível que isso aconteça mas parece-me uma explicação pouco parcimoniosa e dificilmente generalizável. Muitos destes fogos ocorrem longe de vias de comunicação, a altas horas da madrugada, longe de rescaldos, etc. A probabilidade que um factor estocástico de origem natural cause um incêndio nestas circunstâncias é próximo (mas diferente) de zero o que não impede que aconteçam mas dificilmente explica a abundância destas ignições.

"Mas repito, ninguém estou o assunto, simplesmente eu não acredito que em dias como os dois que passaram haja gente pelos montes a ver se o fogo pega quando está a chuviscar ou quase."

Sinceramente, parece-me mais plausível que andem uns quantos loucos pelos montes, a altas horas da noite, a brincar ao fogo posto do que surjam fogos naturais a estas horas e em dias de chuvisco.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Miguel,
O teu comentário tem dois equívocos:
1) a correlação é sempre a mesma em toda a série: a percentagem de fogos iniciados à noite é sempre numa banda entre os 30 e 40% (um bocadinho acima ou abaixo, já expliquei porquê), portanto a correlação mantém-se sempre. Vou fazer uma adenda com o mesmo gráfico apresentado de forma diferente;
2) Eu nunca falei em causas naturais de ignição, falei sempre em causas acidentais que existem todos os dias ao milhares, sem importância nenhuma. Nalgumas circustâncias passam a ter importância. O que digo é que o facto de um fogo ser detectado à noite não quer dizer que essa causa acidental não tenha ocorrido umas horas antes.
Para além destes dois equívocos, partir do princípio de que todos os dias andam uns tipos pelos montes, em terras pequenas, a chegar fogo é uma hipótese absurda, parece-me.
Mas o essencial é que ninguém sabe o que se passa e não chega dizer que o fogo começou à noite, então é fogo posto, pelas razões que invoquei.
henrique pereira dos santos

Paulo disse...

Henrique e Miguel,

É bastante plausível que as ignições nocturnas sejam fogo posto (com dolo). Mas é igualmente plausível, e mais prosaico, que correspondam a usos do fogo. A intensidade actual da vigilância é, ou pode ser, brutal e à noite é mais fácil passar despercebido...

P. Fernandes

DuK disse...

Caro Henrique,

Obrigado pela resposta.

Ha uma coisa que sempre me intrigou... por que é que no PNM tanto o nº de ignições como a area ardida é manifestamente inferior à restante zona centro e norte?

(http://3.bp.blogspot.com/_DWeyF8nsMmw/TIYY0GG-_dI/AAAAAAAAAW8/bxYN5gA_RmI/s1600/ff2010.bmp)

Cumps
Pedro

Manuel Rocha disse...

Em 12 Set 2003 o segundo grande incendio desse ano ano em Monchique deflagrou cerca das 16 horas proximo do Alferce, na Vertente norte da serra, a cerca de 12 km do local onde habito, na vertente sul. Não havia vento nesse dia. Cerca das 18 horas "choviam" nas imediações da minha propriedade folhas e pedaços de casca de eucalipto queimadas e muitas delas ainda incandescentes nos bordos. Ao cair da noite, levantou-se uma aragem fraca de NE. Entre as 23h e as 2h , apaguei tres ignições em pastos vizinhos, quando a frente de fogo ainda nem ao Alferce tinha chegado ( 6 km ). Entretanto, a vertente sul já estava a arder.

Manuel Rocha disse...

Mais uma achega.
No final de Agosto de 2005, na habitual volta da noite com os cães, passava por uma estrada adjacente a um corte de eucaliptal recente qd me chamou a atenção um brilhosinho no meio de umas pedras. Fui ver de perto e deparei com musgo seco em combustão lenta dentro de uma fractura de um bloco de sientito. Apaguei e na manhã seguinte voltei ao local . Não encontrei restos de fósforo, pontas de cigarro ou vidros. Eram apenas 11 horas , mas bastava apoiar a mão na superficie exposta da pedra recentemente quebrada para "queimar".

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Manuel Rocha,
Agradeço-lhe imenso estes exemplos concretos. Até eu tenho alguma dificuldade e tenho de usar alguma disciplina intelectual para não embarcar na explicação do fogo posto, de tal forma parece evidente.
E por isso perguntei um dia destes a uma pessoa com larga experiência de fogos e com responsabilidades na gestão da informação neste sector no seu concelho, como explicava as ignições nocturnas.
A resposta foi tão clara e simples como a os seus exemplos: "há com certeza fogos postos, mas a verdade é que quando temos uma ignição nocturna muitas vezes (não me lembro agora se este muitas vezes era mais próximo do quase todas as vezes ou se mais próximo do também acontece) verificamos depois que na zona da ignição andou alguém a trabalhar no dia anterior.
Já agora, e na sequência do comentário do Paulo Fernandes, ouvi recentemente, mas antes desta época dos fogos, alguém questionar a regulamentação excessiva do uso do fogo no Verão exactamente porque tinha como efeito levar algumas pessoas, que não estavam para aturar licenças e proibições, a fazer à noite actividades que toda a vida se fizeram de dia (como queimar sobrantes da exploração). Disseram-me inclusivamente (não sei com que fundamento real) que morrem duas ou três pessoas por ano, normalmente velhotes que toda a vida queimaram coisas e que agora o fazem pela calada, nomeadamente à noite, porque descontrolando-se o fogo e faltando-lhes a força que tinham há anos, acabam queimados e sem qualquer hipótese de auxílio.
Insisto que ninguém estudou o assunto e se assume uma hipótese, sedutora, mas não suportada em evidências empíricas.
henrique pereira dos santos

Manuel Rocha disse...

Mais um contributo.

Em finais de setembro de 2008, depois de uma noite de chuva grossa, resolvi queimar um monte de cardos que tinha roçado. Sabia que estava na época de interdição de queimadas ? Sabia. E tb sabia que estava tudo tão molhado que nada ardia, nem os cardos secos. Deixei para depois do almoço. Mas a coluna de fumo branco....Quinze minutos depois chegou a "cavalaria", helis, canarinhos, GIPS, sapadores, GNR, bombeiros, Florestais...um festival! Este ano em Fev recebi a factura: 450 € de multa. Em 2003 esta quinta e a dos vizinhos das extremas foram a unica coisa que ficou por arder nesta vertente da serra ( só se chamuscou um poste de vedação ),tipo ilha verde ( os sobreiros estão cá para evidência ) pois para evitar sarilhos na minha limpo tb as dos vizinhos, metade dos quais nem sei quem são. Alguém me propos uma compensação, tipo subsidio para a gasolina? Algum dos vizinhos que este ano tiraram a cortiça que não deixei arder me ofereceram um cerveja? Preciso responder ?
:)
Houve uma tarde de Agosto de 75 em que os sinos das igrejas de Torgueda e arrabaldas tocaram a rebate. Andava por ali e fui com todos os que desabelharam dos recantos dos lameiros de enxada ás costas. Havia um fogo de copas a galgar Marão acima. Onde cheguei não fui capaz de vislumbrar o principio nem o fim do cordão humano que asseirava a cumieira, antes de abrir em contra fogo. Não havia helis, estradas, GIPS, bombeiros...mas à hora da janta já estavam todos de volta do caldo. Um ano antes um parente da familia onde estava instalado tinha sido internado no Porto com traumatismos graves, provocados por uma sacholadas de um vizinho, na sequencia de um disputa de caruma !!!
Por muito que nos esforcemos a espremer certos assuntos, estão instaladas disfunções sociais que funcionam como bloqueios para perspectivar outras abordagens das coisas. Os fogos de grande dimensão são apenas a cremação de um defunto: o mundo rural. Depois de se perceber isso talvez seja possivel procurar novos equilibrios neste habitar mediterrãnico.