sexta-feira, fevereiro 11, 2011

E agora, aviões

"Explique lá que mecanismos legais é que utilizaria para fazer o desvio "das low cost para outros aeroportos".
Nestes dias tenho aqui escrito sobre comboios, matéria de que percebo pouco.
E agora, com este comentário, vou acabar a escrever sobre aviões, matéria sobre a qual ainda sei menos.
E por que razão escrevo sobre isso?
Porque o dinheiro envolvido nestas coisas é meu, porque quem paga a infra-estruturação do país são pessoas medianamente ignorantes no assunto como eu e porque a paisagem onde se localizam estas coisas, que é alterada por elas, também faz parte do património comum das pessoas comuns.
Mas deixo claro que posso dizer aqui asneiras várias, umas mais básicas, outras menos relevantes que isso não diminui um átomo o meu direito de perceber por que razão se tomam decisões cuja conta me é apresentada a mim, quer sobre a forma de uma dívida que põe em causa a autonomia do país, quer sob a forma de degradação do património comum.
Quem gasta o meu dinheiro é que tem obrigação de explicar essa opção de modo a que as pessoas comuns percebam as opções feitas, não sou eu que tenho de tirar um doutoramento em transportes para poder discutir políticas públicas.
Aqui chegado retomo então a questão de cima sobre aeroportos.
E retomo-a começando por estranhar a forma como ela é colocada. Porquê mecanismos legais? Por mim, há questões legais com certeza a tratar, mas essas não são as relevantes porque são instrumentais.
Desviar as low cost é fácil: é oferecer-lhes taxas mais baixas noutros aeroportos.
A história do novo aeroporto e da minha incompreensão sobre a decisão de fazer um novo aeroporto em Lisboa começa muito atrás.
Tanto quanto percebi o novo aeroporto de Lisboa nasce de algumas dificuldades operacionais do aeroporto da Portela, enormemente potenciadas por um sonho: o de criar um grande aeroporto português para competir com Barajas, Londres, Amesterdão, Frankfurt, Paris, e por aí fora.
Se Portugal conseguir criar esse grande aeroporto, o benefício económico será brutal (as contas, mais uma vez, devem ter sido feitas por Marvão Pereira e Jorge Andraz).
Note-se que o se não é um pormenor. Este se implica mobilizar investimento público e desviar capacidade de investimento público e privado para este objectivo, num país fortemente endividado e carente de investimento. E por outro lado implica assumir um risco do tamanho do sonho que alimenta o aeroporto de Lisboa.
Experimentemos olhar para o assunto fora desta ideia de pôr o desenvolvimento do país assente em grandes desígnios estratégicos alimentados com dinheiros públicos.
Comecemos a tentar aumentar o tempo de vida do aeroporto da Portela, redesenhando a infra-estrutura militar.
Não sei o suficiente sobre a defesa nacional para ter nenhuma certeza sobre o assunto, mas tenho as maiores dúvidas de que seja necessário concentrar no litoral, e em volta de Lisboa, grande parte dessa infra-estrutura no que diz respeito a bases aéreas.
Não tenho a certeza de que a nossa Defesa precise do aeroporto militar de Figo Maduro, de que a base do Montijo tenha de estar no Montijo, que o campo de tiro de Alcochete tenha de ser ali, de que a base militar de Monte Real e São Jacinto tenham de ser onde são, e por aí fora.
Portanto, sendo certo que deslocar infra-estruturas militares não é fácil, a verdade é que é possível. E mais que isso, que me pareceria lógico que o Estado Português se empenhasse em empurrar para o interior uma boa parte destas infra-estruturas militares, contribuindo dessa forma para o equilíbrio populacional e económico do país.
O que aparentemente uma estratégia deste tipo permitiria era ir respondendo à evolução da procura disponibilizando alternativas à medida das necessidades, deixando aos privados o investimento de transformação de bases militares em aeroportos civis secundários, ficando o Estado com o investimento na criação de novas bases militares, coisa ainda assim bastante menos onerosa que construir aeroportos.
Encerremos esta questão, que gostaria de perceber se faz algum sentido ou não, e retomemos o assunto na base civil.
Portugal tem um aeroporto com problemas de sobrecarga, em Lisboa, e um aeroporto sub-utlilizado no Porto. Prevê-se, com a alta velocidade que estes dois aeroportos fiquem separados por qualquer coisa como duas horas de distância.
Mas mesmo não contando com a futura alta-velocidade Lisboa/ Porto, já hoje estes aeroportos estão ligados pelo metro do Porto, que liga directamente o aeroporto a Campanhã e pela CP. E funciona de facto como constata qualquer pessoa que use frequentemente o metro do Porto e saia em Campanhã. Um dia também o metro de Lisboa chegará ao aeroporto da Portela (supõe-se que ainda seja este ano, a menos que os planos de expansão do metro de Lisboa também tenham sido alterados).
Ora nestas circunstâncias o que parece lógico a quem não tenha um desígnio estratégico de condução da economia, mas apenas o objectivo ter uma economia a funcionar eficientemente na resolução das necessidades das pessoas?
Naturalmente que o reforço da operação no aeroporto do Porto captaria tráfego desviando-o de Lisboa. O que, do meu ponto de vista, significaria pôr os dois aeroportos em concorrência, retirando o aeroporto do Porto da tutela da ANA (aliás acusada de fazer exactamente o contrário para justificar o novo aeroporto, mas admito que seja uma acusação infundada) e concessionando-o em concurso público, vedado à ANA naturalmente.
O mesmo se diria de alguns pequenos aeroportos secundários que se poderiam fazer a partir de algumas das bases militares existentes (há quem se tenha mostrado interessado em Monte Real, que poderia ajudar a encher a auto-estrada vazia que passa ao lado e a mobilizar esforços para o investimento na via férrea do oeste, mas o mais óbvio parece-me ser o Montijo).
Já sei que me vão argumentar com as aves e etc., mas isso é treta. Não que a concentração de aves não seja um problema de segurança nos aeroportos, não que o Montijo não tenha as suas pistas muito próximas de áreas importantes para a avifauna, mas porque a segurança dos aviões não é substancialmente diferente nas localizações alternativas de que se fala e a conservação não é um valor absoluto, devendo ser ponderada em confronto com outros valores públicos. Incluindo a cada vez mais difícil situação financeira do país e o desperdício de recursos que pode existe se o tal grande aeroporto europeu se ficar pelo único verdadeiro aeroporto nacional de dimensão média, como tem sido até hoje o aeroporto da Portela.
henrique pereira dos santos

8 comentários:

Anónimo disse...

LOL. Só perólas. Por exemplo em Monte Real (por onde aviões civis nem sequer podem passar POR CIMA da base aérea e da zona envolvente) seria brilhante por lá aviões civis a conviver com os dois F-16 e os 4 pilotos em prontidão 24/horas/dia, 365/dias/ano. Estou a imaginar a cena: «avião desgovernado em direcção a uma multidão de 50.000 pessoas no Terreiro Paço, possível desvio por terroristas». Preparam os 2 F-16, pedem permissão à torre para levantar e ouvem «só 1 minutinho que vêm aí um Ryanair Frankfurt-Monte Real».

Sobre os meios legais dizer «taxas mais baratas» também roça o absurdo. Tirando a Ryanair, não há nenhuma companhia aérea europeia que voe para determinando aeroporto só pelas taxas. Por isso fico à espera dos meios legais que usaria para obrigar as companhias a sair da Portela se esta permanecesse aberto com outro aeroporto em Lisboa.

Eu sinceramente espero que o Henrique quando fala sobre fogos e gestão de território e os outros temas «principais» deste blogue fale com um bocado mais de conhecimento do que quando fala sobre transportes, porque se as bojardas nos outros temas são ao nível das que manda neste, então ponho tudo o que li aqui em causa e que tinha como sendo escrito por alguém que percebesse do que fala.

Não admira que até o Ecotretas goste das coisas que escreve. O grau de conhecimento sobre esta matéria está sensivelmente ao mesmo nível e «great minds think alike».

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Anónimo,
Sou, já o disse e repito, assumidamente ignorante na matéria.
Por isso agradeço correcções.
Confesso no entanto que este seu comentário me deixou perplexo.
Nunca em nenhum momento me viu defender a coexistência de uma base militar e um aeroporto civil em lado nenhum (ignorante, com certeza, mas não exageremos, ainda assim para alguma coisa me haveria um dia ter feito a tropa na artilharia anti-aérea).
O que eu disse é que as bases aéreas que estão em zonas que poderiam ser úteis à aviação civil talvez (até sublinhei o talvez) pudessem ser deslocadas para outras partes do território. Se me tivesse dito que era impossível deslocar a base de monte real com argumentos que eu percebesse eu metia a viola no saco.
Agora contestar um argumento que não usei a mim espanta-me.
Também me espanta a sua afirmação de que taxas mais baixas de aeroporto (e já agora, aeroportos menos congestionados que permitem menos tempo entre a aterragem de vôo e o levantament com a mesma aeronave no vôo seguinte) são irrelevantes para as low cost, excepto para a Ryanair. Ainda que isso fosse verdade, o que significaria que tudo o que tenho lido sobre o modelo de negócio está errado, a Ryanair tem uma quota de mercado que já pesa na saturação de um aeroporto.
Mas tenho sobretudo pena que não tenha respondido à autonomização do aeroporto do Porto e à verdadeira concorrência entre os dois. Nem à saída do aeroporto militar de Figo Maduro.
Enfim, se quiser ter o trabalho de me explicar quais são as bojardas e porquê eu agradeço. Só dizer que sou ignorante do assunto, não acrescenta nada que foi exactamente por aí que comecei o post.
henrique pereira dos santos

Manuel Silva disse...

Caro Anónimo,

Ajudaria à qualidade da sua crítica uma leitura um pouco mais atenta, para não falar na aparente má fé e no tom deseducado com que escreve. A ideia de reutilizar as bases militares implicaria a sua prévia substituição por outras no interior do país. Isso é mais do que óbvio para qualquer leitura minimamente atenta do texto.

Claramente, a questão das taxas é um importante critério para as linhas aéreas, e é por essa razão que existem antigas bases militares convertidas em aeroportos low-cost, como no caso do de Frankfurt Hahn, que fica bastante longe de Frankfurt propriamente dita. A grande maioria dos aeroportos “low-cost”, mesmo quando não derivam de adaptações de instalações antigas como bases ou aeródromos, são caracterizados por oferecerem serviços mínimos de funcionalidade. Muitas vezes, os próprios “edifícios” correspondem a estruturas leves “low-cost”, quase do tipo “pavilhão”. Veja-se também como um exemplo interessante o caso do aeroporto de Bordeús, que abriu recentemente um módulo “low-cost” (com serviços mínimos e uma espécie de pavilhão) em anexo às estruturas principais, com serviços mais alargados. Poderia dar muitos outros exemplos, a questão é que tudo isto tem impacto sobre as taxas, que têm impacto sobre as escolhas de exploração das linhas aéreas.

O resto do post faz sentido, e vai tocando em algumas questões e sugestões que valerão a pena trazer para o debate público e administrativo. Já o seu comentário teria ficado melhor por escrever. Porque não relê o texto, prestando atenção à primeira parte que diz respeito à mentalidade por aí abundante — que reza que o cidadão comum não pode discutir questões comuns que lhe dizem respeito sem antes ter dominado as questões técnicas inerentes — ? É que por essa lógica, talvez lhe exijam em breve credenciais também para comentar...

Já agora, HPS, porque é que considera a questão das aves “treta”? Colocando a questão da segurança das aeronaves à parte, coloca-se a questão da conservação que, tal como no caso das eólicas, pode ser fortemente minimizada ao optar por localizações que interfiram o menos possível com as rotas de migração das aves, a quais não são assim tão flexíveis. A maior parte das aves selvagens que ocorrem cá são migratórias, e a eventual perturbação das principais rotas deve claramente constituir um factor de ponderação. E essa ponderação não significa que se secundarize os critérios económicos numa situação de escassez, mas tem que ser equacionada, principalmente numa perspectiva de longo prazo que transcenda o contexto imediato da decisão. Concordo que a questão da imediaticidade do retorno é importante, mas também ela tem que ser enquadrada sustentavelmente ao nível da conservação.

Cumprimentos,

M. Silva

Henrique Pereira dos Santos disse...

Treta no sentido em que tem sido utilizada na discussão: uma questão de valor absoluto incontornável.
É um critério de ponderação, entre outros, que tem um determinado enquadramento legal e técnico a que é preciso responder, só isso, não é por si determinante de coisa nenhuma.
henrique pereira dos santos

EcoTretas disse...

Mais uma boa provocação HPS. No dia em que o aeroporto sair da Portela, Lisboa perde metade das suas potencialidades turísticas e de negócios!

É muito simples: Low-costs para ALverca. Excelente infra-estrutura. Ligação por comboio 5 estrelas a Lisboa! Auto-estrada mesmo ao lado. A única coisa que conseguem dizer é que está próxima do enfiamento da pista principal da Portela, mas falando com os controladores e conhecendo os aviões das low-costs, esse é um não problema!

Com uns milhões de euros, muito poucos, punha-se o aeroporto operacional em 1 ou 2 anos. Como fizeram os espanhóis aqui ao lado em Espanha.

O problema é que a cambada do betão não ganha nada com esta opção...

Ecotretas

G.E. disse...

"Já sei que me vão argumentar com as aves e etc., mas isso é treta. Não que a concentração de aves não seja um problema de segurança nos aeroportos, não que o Montijo não tenha as suas pistas muito próximas de áreas importantes para a avifauna, mas porque a segurança dos aviões não é substancialmente diferente nas localizações alternativas de que se fala e a conservação não é um valor absoluto, devendo ser ponderada em confronto com outros valores públicos."

Relativamente à questão das aves, devo dizer que sempre tive muitas dúvidas sobre o impacto de um aeroporto sobre a conservação das ditas aves nas zonas adjacentes. Muito se tem escrito sobre a ameaça potencial que o novo aeroporto de Lisboa representa, mas é bom lembrar que em Portugal existe um aeroporto situado no coração de uma zona húmida importantíssima para as aves (refiro-me naturalmente ao aeroporto de Faro e à Ria Formosa) e que eu saiba não existe qualquer estudo ou sequer uma evidência de que a existência deste aeroporto - cujo tráfego tem vindo a aumentar substancialmentemente nos últimos anos - tenha tido um impacto negativo nas populações de aves da zona ou mesmo que as aves tenham representado qualquer problema para a navegação aérea. Aliás, algumas aves que há vinte anos estavam à beira da extinção (como é o caso do Caimão), são hoje abundantes no Algarve central, nomeadamente na ria Formosa.

Penso que seria de facto útil que o caso do aeroporto de Faro e do seu impacto sobre as aves fosse analisado em mais detalhe no âmbito de qualquer análise do impacto do novo aeroporto de Lisboa, pois poderia fornecer informação muito útil sobre o impacto de uma infra-estrutura desta natureza sobre as populações de aves selvagens.

Gonçalo Elias

Luís Lavoura disse...

Excelente post.

Mas vem atrasado. O novo aeroporto de Lisboa está prestes a sair da discussão pública. Por um lado, porque o Estado português, falido como está, e queimado como está com parcerias público-privadas, já percebeu que não o poderá construir. Por outro lado, porque se torna crescentemente evidente para todos (para mim já o é há mais de uma década) que o tráfego aéreo na Europa vai em breve dar o estouro, devido ao aumento galopante do preço dos carburantes.

E é pena que o Henrique não tenha referido estes dois factos neste post.

incitador@gmail.com disse...

O Luís Lavoura tem toda a razão. Brevemente, vamos entrar numa nova fase da história humana. O fim do festim do petróleo vai mudar muita coisa nas nossas vidas. (A maioria ignora esse facto.)
Sobre o impacto na aviação, podem ler este meu post:

http://incitador.blogspot.com/2009/08/transporte-aereo.html