quinta-feira, Dezembro 22, 2011

O conservador contraditório




Ontem tive uma troca de argumentos com o Gonçalo Elias no Facebook sobre esta acção da EDP. Não é sobre essa troca de argumentos que quero escrever, mas sobre as intervenções de larga escala nas paisagens protegidas.
Inicialmente tinha sobre este tipo de matérias uma posição mais ou menos semelhante ao que em média se ouve por aí sobre esta intervenção.
É certo que já quando me tinham dito que a Clara Menéres teria pensado pintar o caracol que fez no Parque dos Candeeiros de cor-de-rosa, com um claro tom de chacota, me tinha parecido que talvez tivesse razão.
Mas foi sobretudo com os meus colegas do Porto, que me pediram colaboração na elaboração de um guia de boas práticas de integração paisagística de infraestruturas eléctricas que percebi que grande parte da minha posição nesta matéria era puro reaccionarismo.
Ser reaccionário não me incomoda por aí além, excepto quando me impede de ter ao cabeça ao contrário para ver também um pouco do lado do adversário, como diria o Sérgio Godinho. Verifiquei nesse trabalho que pelo mundo fora, mesmo no coração de áreas protegidas, há mais mundo do que eu conhecia em matéria de integração de infraestruturas na paisagem.
Claro que há o óbvio, fazer desaparecer a infraestrutura, há o menos óbvio, conseguir colocar a infraestrutura no contexto da paisagem mas há ainda o pesadelo: a infraestrutura que claramente se destaca da paisagem, por contraste irrenunciável e que é de tal maneira nova e estranha à sua envolvente que é sempre uma ruptura.
Aprendi com os meus colegas, e com os exemplos que me mostraram que nessas circunstâncias não há maneira de reduzir impactos, a única saída é prescindir da infraestrutura ou mudar a natureza do impacto. Olhar o touro nos olhos e simplesmente aceitar que já que temos de provocar uma ruptura, ao menos que valha a pena.
É nessa lógica que entroncam as intervenções de arte pública, como é o caso retratado neste video, e as intervenções de design industrial que criam valor cultural na intervenção.
A minha alma de conservador contraditório fica sempre como o tolo na ponte, sem saber para lado ir nestas circunstâncias, mas ao menos aprendi a não reagir às primeiras emoções, as que rejeitam sempre o que é novo e inseguro, e falta-me segurança e bagagem cultural para olhar para estas intervenções sem dúvidas.
Também sei que parte do ruído da discussão se prende com a mitificação do fundamento das áreas protegidas (por favor, antes de reagir a esta frase leiam isto), o que dificulta muito a gestão racional de áreas protegidas em Portugal.
Dito isto há uma coisa que não percebo: por que raio a EDP não fez o que se faz em países civilizados em que o espaço público é tratado como isso mesmo, público? Porque raio não lançou a EDP umas discussões públicas sobre as intervenções.
Eu sei, o país é assim, nem no Terreiro do Paço se lançaram concursos públicos para os projectos e continua a ser tabu discutir a criação de conforto naqueles quatro hectares desabrigados e sem sombras (sim, é o mesmo reaccionarismo perante as fachadas do Paço que impede a discussão racional da introdução de vegetação no terreiro do paço que impede a discussão racional do amarelo na paisagem do Estado Novo (como bem a caracteriza Teresa Andresen) do Douro Internacional), quanto mais discutir umas fragas perdidas atrás do sol posto.
Mas eu não me conformo com a falta de racionalidade nas discussões.
Como diria o Pinheiro de Azevedo a propósito de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia, pá.


henrique pereira dos santos

4 comentários:

aeloy disse...

No Terreiro do Paço o projecto foi seleccionado num concurso e esteve em discussão publico, que lhe introduziu algumas alterações e, é certo, pequenas modificações.
Eu próprio fiz a sugestão de reaborizar (como já esteve!) a praça, entre muitas outras que não foram acolhidas.
Mas houve período de discussão pública e incorporação de sugestões.
Não quero com isto avalisar o processo que acho que teve vários e "discretos" entorses.
António Eloy

Henrique Pereira dos Santos disse...

António,
Teve discussão, sim senhora, a proposta apresentada, não houve discussão de propostas na realidade. Concurso de ideias para a intervenção? Houve sim senhor há muito tempo, mas não foi assim que foi escolhido o projectista, podes ter a certeza. Ou eu estou muito enganado, o que também acontece.
henrique pereira dos santos

G.E. disse...

Estamos perante um claro problema de comunicação... ou de falta dela...



ICNB perguntou à EDP porque pintou barragem da Bemposta de amarelo choque mas não obteve resposta
23.12.2011
Lusa

O presidente do Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade afirmou nesta sexta-feira que tentou apurar junto da EDP os motivos que levaram a eléctrica a pintar a barragem de Bemposta de “amarelo choque” que mas não obteve resposta.

“Quando o ICNB teve conhecimento da intervenção nos paredões da barragem enviou uma missiva à EDP, no sentindo de conhecer melhor o sentido da intervenção e os seus objectivos e poder analisar em conjunto o assunto com a empresa”, disse Tito Rosa.

O responsável pelo ICNB admitiu que ao abrigo do plano de ordenamento do Parque Natural do Douro Internacional (PNDI) o instituto não tem de dar pareceres à intervenção numa barragem do ponto de vista estético.

Recentemente a associação ambientalista Quercus alertou para o facto de a EDP estar a pintar partes do paredão da barragem de Bemposta de “amarelo choque” sem que para o efeito haja autorização do ICNB.

“Como gestores do PNDI, enviámos a carta à EDP informando que gostaríamos, em conjunto, de coordenar e encontrar as melhores soluções para a intervenção. No entanto, formalmente não temos de dar nenhum parecer e apenas perguntámos no início de Dezembro o que se iria fazer na barragem”, frisou o Tito Rosa.

Porém, a Quecus garante que há no processo um “claro abuso” no ato de pintar parte dos paredões da barragem de amarelo choque, tanto mais que, diz, se trata de uma paisagem internacional protegida.

“A Barragem da Bemposta, em Mogadouro, está neste momento a ser pintada de amarelo choque, numa intervenção artística de 150 mil euros, com elevadíssimo impacto em termos paisagísticos e que acentua ainda mais o descontínuo no Parque Natural do Douro Internacional, já afectado pela existência da referida Barragem”, acrescentam outras associações ambientalistas como a LPN e o GEOTA.

Para o presidente da freguesia de Bemposta, António Martins, toda a intervenção nos paredões da barragem “é uma autêntica aberração”.

“As pessoas estão habituadas a ver a barragem pintada com a sua cor natural há mais de 40 anos e não aceitam atitude de bom grado”, frisou o autarca de freguesia, frisou o autarca.

A junta de Freguesia de Bemposta em conjunto com a população de região pondera, agora, tomar medidas reivindicativas para “anular” a pintura que foi efectuada, apenas do lado português.

A central hidroeléctrica de Bemposta está na fase final de obras de reforço, cujo investimento total ronda os 130 milhões de euros para aumentar em 80% a sua potência.

Thiago disse...

Uma nova linguagem musical da Amazônia para o mundo.
A Música Universal das Linguagens (baseada nas vocalizações dos animais - Sem plagiá-los) é um pequeno ramo da “Música Transmórfica". A Música Transmórfica, foi criada pelos compositores paraenses, Albery Albuquerque e Thiago Albuquerque que se manifesta sobre, através e além das formas percebidas e não percebidas pela consciência humana. Este novo e gigantesco sistema musical transmórfico, trabalha com a simultaneidade entre arte e ciência.
Quem estiver interessado em conhecer essa nova música, ou quiser ouvir alguma conferência, ou audições comentadas (que como já dissemos, tem uma de suas vertente que é essencialmente ecológica e ambientalista) entre em contato pelo nosso e-mail:

guirapuru@gmail.com

Links que demonstram a música transmórfico em nível ecológico e ambientalista:
http://www.youtube.com/watch?v=Yty2_aAMcGw

http://www.youtube.com/watch?v=VVXeIcHpQZA

http://www.youtube.com/watch?v=6HAeYagbka8

http://www.myspace.com/alberyalbuquerque