quinta-feira, junho 23, 2011

Bilhetes de avião e chicharro



Peixe Seco from Digital Impulse on Vimeo.



Luis Grave Rodrigues comenta no facebook: "Qual o significado prático de um primeiro-ministro viajar em turística? E o significado político? Nenhum! É uma miséria pindérica, artificial e hipócrita ... E para ser coerente, o que é que se vai seguir? Vai andar de Fiat Punto? Vai aproveitar as costas dos papeis do despacho para rascunho? Vai servir chicharro aos chefes de Estado estrangeiros que nos visitem? Vai trocar o papel higiénico do palácio por uma marca de uma só folha?".
Tendo a concordar com o Luís Rodrigues quando diz que a decisão tomada (e o esforço para a divulgar) decorrem mais do populismo que de verdadeira substância política do actual primeiro ministro. Vai ser preciso tempo para saber.
Não concordo é na ausência de significado político de ter os governantes a viajar em turística, de viajarem de fiat punto, de aproveitar as costas dos papéis para rascunho ou de servir chicharro aos chefes de estado que nos visitem (não me pronuncio sobre papel higiénico, se não para lembrar que a maior parte da população do mundo desconhece o que isso seja e que vale a pena lembrarmo-nos o que signfica, de pressão sobre os recursos, o progressivo acesso desta população a bens que consideramos indiscutivelmente básicos).
O valor dos símbolos (ou da sua ausência) na afirmação do poder é reconhecido desde sempre.
Escuso de lembrar a Rainha Vitória ataviada com as suas mais opulentas jóias quando ia visitar pobres, justificando com a sua convicção de que essa era a melhor forma de respeitar as pessoas que esperavam a visita da sua rainha e não de uma mulher qualquer. Ou a famosa fotografia da então namorada do príncipe Carlos da Inglaterra, saindo do palácio no seu pequeno carro urbano e plebeu, que contribuiu para o título informal de princesa do povo que traduziria a maior proximidade da casa real inglesa com as pessoas comuns, condição essencial para a sua aceitação em sistemas democráticos modernos. Ou os espartanos meios de uso pessoal colocados pela sociedade à disposição dos deputados de parlamentos nórdicos, como forma de afirmação da condição de homens e mulheres vulgares temporariamente representantes de outros homens e mulheres comuns, por contraste com a arquitectura nazi ou estalinista.
A ideia de que viajar em primeira é uma condição básica de prestígio do primeiro ministro de um país é uma ideia muito "antigo regime", em que a legitimidade do poder provinha da distinção imanente do governante e não do voto das pessoas comuns. Basta ver hoje quem são os mais ostensivos utilizadores do luxo como símbolo do seu poder e quem são os governantes mais frugais no uso do dinheiro dos contribuintes.
Lembro-me de um responsável numa unidade hoteleira ocupada por uma delegação extensa e de alto nível numa cimeira mundial em Lisboa me dizer que era de longe mais rentável receber a delegação russa que a delegação americana porque os americanos tinham tudo negociado pelo mínimo e não gastavam um tostão em extras, ao contrário dos russos, traduzindo as diferentes culturas sobre a origem do dinheiro que gastavam: os americanos obcecados com o dinheiro dos contribuintes, os russos (tal como os portugueses) convencidos de gastavam dinheiro público proveniente de um Estado abstracto.
Ora o que me faz escrever sobre isto num blog ambiental é a minha convicção de que Eugénio de Andrade tinha essencialmente razão: "todo o luxo é uma forma de degradação".
No meu trabalho com o chef António Alexandre uma das coisas que mais me impressionam e me agradam é a sua capacidade de usar produtos simples e desvalorizados para criar verdadeira sofisticação: a partilha de alguma coisa tornada única pela inteligência, gosto e capacidade de uma pessoa. O trabalho do António Alexandre com o carapau seco da Nazaré, documentado no video que ilustra o post, demonstra bem como é possível servir chicharro aos chefes de estado sem qualquer perda de prestígio e sem ser pindérico.
O projecto eat the view pretende exactamente acabar com o estigma que o novo riquismo burguês criou sobre a pequena produção própria, sobre a dignidade do trabalho manual, sobre a indignidade da proximidade com o estrume das pessoas mais próximas do poder e da riqueza.
Ao contrário do que sempre foi a tradição dos jardins em Portugal, que essencialmente eram espaços produtivos arranjados para servirem simultaneamente objectivos lúdicos e de recreio, mantendo as funções de gestão da água e da circulação nas hortas mas com soluções formais mais elaboradas, hoje toda a gente escarnece a Maria de Salazar que criava, e bem, galinhas, nos jardins de S. Bento.
É tempo de reabilitar a frugalidade, deixando à inteligência e ao bom gosto dar-lhe o toque de sofisticação que distingue os espíritos superiores, evitando confundir a ostentação do luxo material com dignidade pessoal e institucional.
Se viajar em económica (e, espero eu, viajar de comboio para o Porto) for só uma cartada inconsequente e populista é pena.
Terá sido uma oportunidade perdida para começar a reabilitar a frugalidade, essencial à sustentabilidade e ao respeito pelo dinheiro dos contribuintes.
Ler os doze césares de Suetónio é a esse título muito instrutivo porque a esta distância da história podemos comparar com clareza o prestígio que a história atribui aos césares glutões e que optaram por se rodear do luxo ostensivo, dos césares que, como Augusto, eram conhecidos pela frugalidade "Na sua mesa ... era muito sóbrio e de paladar por assim dizer comum. Preferia acima de tudo o pão caseiro, peixe miúdo, queijo de vaca prensado à mão, figos frescos, desses que há duas vezes por ano".
Esperemos, mesmo sem grande esperança, que viajar em económica seja assumidamente um gesto simbólico que leve, entre outras coisas, à criação de hortas no palácio de S. Bento (e, já agora, no de Belém também), para que se tragam à mesa dos chefes de estado grelos acabados de colher, fertilizados com estrume e diminuídos pela parte que coube às lagartas e aos pássaros, mesmo que seja para acompanhar chicharro cozinhado por quem seja capaz de ser sofisticado a partir de qualquer ingrediente, como o abade de priscos que deu ao seu pudim de ovos uma textura difícil de obter sem a banha de porco que usou na receita original.
Isso sim, é um luxo que não está ao alcance de todos os chefes de estado.
Não se trata de recuperar o "viver como habitualmente" de Salazar, trata-se isso sim de perceber que provavelmente não nos será possível viver como habitualmente.
henrique pereira dos santos

terça-feira, junho 21, 2011

Um carvalhal maduro ou um campo agrícola?

Esta é uma pergunta clássica que faço aos estudantes que arquitectura paisagista quando tenho de dar uma aula e os coloco perante a posição de ter de decidir a expansão de um aglomerado urbano para a qual só existem duas opções: destruir um carvalhal com duzentos anos ou solo agrícola de primeira qualidade.

Tirando os que procuram fugir da pergunta dizendo que arranjavam outra solução, a distribuição dos alunos que preferem uma ou outra opção anda perto dos 50% para cada lado (se forem dos últimos anos, nos primeiros, com quem contacto menos, calculo que a destruição da área agrícola para proteger o carvalhal ganha folgadamente).

Lembrei-me disto ao ler uma notícia (não disponível na internet) sobre a possível destruição de parte da campina de Faro com dois loteamentos.

Se fossem sobreiros, teríamos as ONGs aos gritos. Todos nós conhecemos vários processos que implicam abate de sobreiros mediatizados, e por vezes travados ou alterados, por acção das ONGs. Mas destruição de solos agrícola que as ONGs mediatizem e combatam juridicamente não me lembro de nenhuma (às vezes há processos combatidos por outras razões em que é utilizada a RAN para engrossar o molho, mas não é desses que falo).

Os sobreiros são um recurso renovável, em expansão e abundante no país.

Os solos agrícolas de elevada qualidade (e raras são as situações como as da campina de Faro, da baixa de Loures, das terras da Costa, da veiga de Chaves e dos mais emblemáticos solos cerealíferos do país, na envolvente de Oeiras, tão bons que até o betão cresce) são raros, não renováveis e em contracção.

Eu acho que a esmagadora maioria dos dirigentes de ONGs em Portugal, e de jornalistas da área do ambiente, optaria por destruir os solos agrícolas para preservar o carvalhal.

Chumbariam se fossem meus alunos.

Viva o meu colega Henrique Cabeleira que quer conservar a campina de Faro como espaço agrícola de excelência.

Abaixo o meu colega Macário Correia que preside à Câmara de Faro e acha que não pode fazer nada porque os loteamentos estão no PDM.

Suspenda o PDM. Só depende de si. Ao lado, em Loulé, o Governo suspendeu o PDM para aprovar um hotel. A si com certeza não lhe seria difícil suspender o PDM para não aprovar os loteamentos.

Sempre se lhe reconheceriam as características em que fundou a sua carreira política aos comandos de caterpillers para demolir construções ilegais e demonstraria que o seu compromisso com o bem público não foi simplesmente um devaneio de juventude.

henrique pereira dos santos

segunda-feira, junho 20, 2011

Da fé


A discussão sobre caça e conservação é uma discussão difícil para quem resolva avaliar racionalmente a informação existente.

Nos meios conservacionistas a caça é considerada um elemento muito relevante na conservação das espécies. Depois há duas linhas de pensamento: os que acham que a caça deve ser banida (com argumentos filosóficos ou técnicos) e os que acham que a caça deve ser regulamentada de modo a evitar os problemas que causa e potenciar alguns aspectos positivos (de maneira geral incluem-se nestes os económicos, os mecanismos de gestão associados que podem ser usados positivamente para a conservação e os de relação com as populações).

Mas conservacionistas como eu, que atribuem pouca relevância à caça na dinâmica das espécies (com as excepções e ressalvas que já fiz antes), somos de facto poucos e com uma vida difícil nestas discussões.

O curioso é que a teoria evolucionista aponta exactamente no mesmo sentido que eu (é a inversa, evidentemente, eu é que aponto no sentido da teoria): os grandes riscos que correm os genes no seu objectivo de reprodução vêm dos organismos patogénicos e dos companheiros que competem por reprodução, abrigo e alimentação. Não vêem dos predadores.

O que os conservacionistas fazem para sustentar ao mesmo tempo o evolucionismo e o que dizem sobre a caça é eleger a espécie humana como uma espécie fora do jogo da sobrevivência e da evolução, postulando, sem demonstração, que as regras gerais que se aplicam às dinâmicas das outras espécies não se aplicam a nós. Ou seja, a caça não é uma actividade de predação, é uma coisa muito mais eficaz e letal porque temos instrumentos de transformação do mundo muito mais poderosos.

Ora o que é poderoso em nós é a capacidade do mudar o mundo para o tornar mais favorável para a nossa espécie, não é a nossa capacidade de sermos supercaçadores.

Vejamos os casos concretos referidos pelo Alexandre Vaz nos comentários ao post anterior (o Alexandre, que nunca responde aos meus argumentos, limitando-se a ir buscar argumentos novos de cada vez que os anteriores são rebatidos, acha que eu quero simplesmente ganhar um combate retórico. Eu, que analiso cada um dos argumentos do Alexandre, que vou ler sobre as espécies de que fala, que vou estudar os assuntos para poder argumentar com coisas concretas, acho que o Alexandre não sabe o que é retórica).

Pinguinus impennis. Volto a notar que esta espécie cai integralmente numa das excepções em que admito que a caça possa ser relevante: a dependência da espécie de ilhas e ilhéus. Mas o Alexandre resolve omitir um aspecto que está à distância de um clik: os marinheiros que começaram a explorar as zonas onde estes pinguins existiam, introduziram nestas ilhas os ratos, que como se sabe podem ter um efeito devastador em posturas que não co-evoluíram tendo de defender-se dessa ameaça. O artigo da wikipedia discute também o eventual efeito de alterações climáticas na conservação da espécie. A última colónia islandesa desapareceu submersa por uma erupção vulcânica. É por essas e por outras que o resumo de um dos livros citados nas referências é o seguinte: "But as Gaskell shows, the extinction of the Great Auk was not a straightforward tale of overhunting. In this subtle, nuanced book, he reveals the ways in which its fate was inextricably bound up with the social, economic, and political history of the time. ". Exactamente o essencial do meu argumento. Volto a repetir, nas condições desta espécie, isto é, estritamente dependente de ilhas, a caça pode desempenhar um papel mais relevante que o habitual na dinâmica da espécie, mas essa é a excepção, não a regra. A página 18 desse livro, disponibilizada na net, é notável na descrição da catástrofe ecológica (e económica) associada a erupções de vulcões em 1783 (bem como dos efeitos da guerra entre franceses e ingleses, na página anterior). A introdução é aliás notável, como apoio ao meu argumento: "over the centuries so many creatures have suffered progressive decimation of their numbers through incessant slaughter that we are apt to forget that, as a rule, it is difficult to drive animals and birds to extinction by that means alone: in the great majority of cases the loss or degration of natural habitat is the primary cause of a species' desappearance from the face of the earth".

Vou passar por cima da Cabra do Gerês porque é um absurdo completo pretender que a cabra do gerês foi extinta por causa da caça e não pelas alterações de habitat que se acentuam a partir do século XVIII e que levam à extinção do urso e à redução acentuada de todas as espécies mais dependentes da mata e menos dependente da clareira. A cabra do gerês simplesmente foi substituída pela pressão do pastoreio.

Todos os ungulados citados nos comentários do Alexandre, quer sejam no Sahel ou na África do Sul, em condições ecológicas aliás idênticas (e que dependem da circulação geral da atmosfera) têm a mesma dinâmica populacional que pode ser entrevista nesta síntese: " few causes that contributed to the extinction of scimitar-horned oryx in the wild include climate change, human encroachment on their habitat for agriculture, hunting, and excessive domestic livestock grazing on limited vegetation."

Uma mera volta pela internet permite perceber que os problemas associados à conservação dos ungulados das zonas áridas estão muito longe de se restringir, ou mesmo de ter como primário, o problema da caça. A caça, comparada com o aumento do pastoreio nessas áreas, é uma brincadeira de crianças para a conservação destes ungulados.

Ora em lado nenhum se diz, como se diz da caça, que o habitat destas espécies foi pastoreado até à extinção das espécies.

Para quem quiser deixar destes jogos florais e perceber o que realmente se passa o melhor mesmo é dar uma vista de olhos aqui.

Mais uma vez lá aparece a caça como responsável: "The main threats identified were still as follows: poaching, constant hunting, drought and desertification, the loss of favourable habitats, a lack of resources and commitment, and some indifference on the part of the international community in regard to a region that does not hold a high concentration of the world’s biodiversity." Mas lendo este parágrafo, alguém no seu perfeito juízo, e sabendo como estas declarações oficiais são negociadas para não ferir susceptibilidades políticas, compreende que na "perda de habitat favorável" não esteja implicada a forma como essas paisagens são geridas pela economia, em especial o pastoreio? O que provoca essa perda de habitat favorável? A seca? Pois em parte será. A desertificação? Pois é uma consequência da seca com certeza, pelo menos parcialmente. Mais nada? A forma como se gere a economia da região não tem nada que ver com esta perda de habitat?

Talvez ao olhar para documentos menos comprometidos politicamente se faça alguma luz sobre o assunto.


...

Grassland in semi-arid regions has been desertified under excessive human pressure. The 1977 UN Conference on Desertification indicated that, in general, 6% of the world’s area is ‘man-made desert’, and 25% is threatened by desertification. The annual degradation of land to ‘desert-like’ conditions is estimated by UNEP (1992) as 60,000 km2. Mackinon & Mackinon (1986) indicate that 65% of the original ecosystems south of the Sahara have been subject to major ecological disturbance.

...

"Dregne & Chou (1992) estimate that 70% of the land (921 million ha) in the Arab countries, is moderately desertified. Of the rangelands, which represent 42% of the total area, 330 million ha are either severely or very severely desertified, and 150 million ha are moderately desertified. The overall proportion of desertification is more than 80% of these rangelands, while in the rain-fed agricultural land, it is 67%, and in irrigated agricultural land, 34%. These high percentages of desertification give an impression of the severe deterioration of biodiversity in the arid regions of the Arab countries, and the extinction of many plant and animal species. But, little information is available on the relationship between the degradation of these drylands and loss of biodiversity. How- ever, it is well known that many species found in deserts are highly endangered: desert tortoises, Asian and African wild asses, sundry species of cactus, and a variety of antelopes such as the addax, scimitar-horned oryx and the Arabian oryx, to name some of the better-known endangered taxa (Hunter, 1996)."

Perante descrições como esta há quem se entretenha a falar de caça.

Eu acho uma conversa chilra.

A conservação não é uma questão de fé e moral, é uma chatice económica que começa nos nossos consumos.

henrique pereira dos santos

sexta-feira, junho 17, 2011

Ciência e ideologia



Este post é dedicado aos meus amigos conservacionistas que me fazem lembrar o genial pessimista que definiu a vida como sendo uma doença sexualmente transmissível, sempre fatal.

Diz Alexandre Vaz num seu comentário ao post anterior: "A extinção ou redução crítica de populações de animais selvagens em consequência da actividade cinegética está bastante bem documentada. O caso do Ectopistes migratorius é um bom exemplo.".
É bem possível que o Alexandre tenha razão.
Simplesmente eu tenho dúvidas. Dúvidas, não certezas.
A situação deste pombo cai numa das poucas situações em que admiti explicitamente, no post anterior, que a caça pudesse ter um efeito relevante na extinção ("Mesmo em situações de abate indiscriminado e em massa, como aconteceu com os bisontes americanos, seria uma longa e difícil discussão saber se foi esse factor que quase levou à extinção da espécie ou sobretudo a alteração profunda da forma de exploração das pradarias americanas.", digo eu depois de antes ter identificado a chegada de uma nova população tecnologicamente evoluída a um novo sítio como uma das poucas situações em que a caça pode ser um factor relevante de extinção).
Isso não desarma a argumentação militante sobre a relação da caça com a extinção das espécies por uma razão simples: essa argumentação militante é mais ideológica que científica, e por isso a racionalidade da discussão é-lhe estranha.
Parece razoável admitir que o último bando de 250 000 pombos tenha sido dizimado pelos caçadores, sabendo que era o último bando, e não tenha sobrado nada para semente? Sim, eu sei que existe a questão da colonialidade, mas veremos este argumento à frente.
As minhas dúvidas sobre isto têm eco no artigo da wikipedia sobre este pombo. Vale a pena lê-lo despido de preconceitos e seguindo as fontes indicadas no artigo.
Será que uma frase destas "The extinction of the passenger pigeon is a poignant example of what happens when the interests of man clash with the interests of nature.", que não é da wikipedia mas de uma fonte de credibilidade indisputada, o smithsonian institute, pode ser lida como ciência e não como ideologia? Existe "o interesse da natureza", ou o que se pretende definir como o interesse da natureza é apenas um dos vários interesses do homem? É a discussão sobre esta pergunta uma discussão científica?
No excelente artigo da enciclopedia Smithsonian de que retirei a frase acima, verifica-se que a principal área de criação do pombo era a região dos grandes lagos, a este de Nova Yorque, ou seja, o coração industrial dos EUA do século XX e em grande parte integrando o famoso corn belt americano, sujeita a uma profunda alteração de paisagem ao longo de todo o século XIX e XX, em particular com um surto de desenvolvimento brutal após a guerra civil, exactamente o período da queda brusca no número de pombos.
"The interests of civilization, with its forest clearing and farming, were diametrically opposed to the interests of the birds which needed the huge forests to survive. The passenger pigeons could not adapt themselves to existing in small flocks. When their interests clashed with the interests of man, civilization prevailed. The wanton slaughter of the birds only sped up the process of extinction. The converting of forests to farmland would have eventually doomed the passenger pigeon."
A síntese feita pelo departamento de zoologia do museu nacional de história natural dos Estados Unidos da América parece longe da afirmação claramente ideológica do Alexandre Vaz. Tal como eu suspeitava (por razões que se prendem mais com as dinâmicas da paisagem que outras quaisquer, matéria a que grande parte da escola conservacionista portuguesa se mantém militantemente relapsa) o problema central é a alteração de habitat. É certo que essa alteração, se não fosse acompanhada pela matança desregrada dos pombos (evidentemente não se pode chamar caça à utilização de métodos como fumigações nas zonas de nidificação para os pássaros cairem tontos e serem apanhados), talvez, sublinho o talvez, tivesse permitido a não extinção do pombo.
Mas não se deve confundir a possibilidade de um elemento complementar da dinâmica das espécies (cuja eficácia no abate dos animais é aliás muito, muito aumentada pela concentração das áreas de nidificação a que a destruição das matas obriga) com a identificação da causa de extinção da espécie.
A causa é o arroteamento das imensas matas dos grandes lagos, o abate, mesmo que lhe queiram chamar caça, é simplesmente um elemento complementar do processo. E muito menos se deve, com base em distorções destas (a que se alude como sendo processos bem documentados, sabendo que pouca gente tem paciência e tempo para ir ler as fontes), eleger a caça como um problema de conservação que não é (para ser mais preciso, que de maneira geral, não é).
O problema é que muitos e muitos conservacionistas, muitos deles responsáveis nas suas organizações, estão mais emocionalmente ligados a argumentações simples que confirmam as suas convicções que à discussão racional de processos complexos.
Para além disso é muito mais difícil admitir que a extinção de espécies está muito mais relacionada com as opções alimentares das pessoas comuns (incluindo cada um de nós) que com uns energúmenos insensíveis que gostam de sangue (na cabidela o sangue é óptimo, mas umas morcelas também marcha bem) para quem é fácil passar responsabilidades que doutra maneira seriam nossas.

É tão prático quando é possível estabelecer uma fronteira moral entre os puros (nós) e os impuros (os outros, com frequência, nesta discussão, os caçadores)
Na verdade muitas destas discussões são mais do domínio da moral que da ciência.
henrique pereira dos santos

PS Não nasci caçador, não sou caçador e a caça pessoalmente interessa-me pouco. O que não estou disponível é para pactuar, ainda que seja só por estar calado, com a imposição de uma moral minoritária a terceiros, descartando um poderoso instrumento de gestão da biodiversidade, a pretexto de argumentos técnicos mal amanhados

segunda-feira, junho 06, 2011

Desfazendo mitos sobre caça e conservação



Filipe Nunes Vicente é um bloguer que leio com muita, muita frequência, muitas vezes concordando, outras nem tanto, mas sempre com gosto e atenção.
Neste post a que fui buscar o video que ilustra este post (cujos primeiros seis segundos são fantásticos) estamos mesmo em desacordo. Não porque subscrevo o que é dito pelo narrador do video (curiosamente mais preocupado com a exploração turística que com a conservação em si mesma), mas porque a crítica ideológica que lhe é feita fica a meio caminho.
Não estou convencido, e não vi evidência empírica sólida, de que a caça seja um factor determinante de extinção de uma espécie, excepto eventualmente em ilhas ou quando existe uma chegada repentina de uma população tecnologicamente mais evoluída a um novo destino.
Ainda assim, neste último caso, será muito difícil determinar em que medida é a caça ou a alteração de habitat (de maneira geral isso quer dizer, alteração da base da cadeia trófica) a principal causa de diminuição da espécie.
Mesmo em situações de abate indiscriminado e em massa, como aconteceu com os bisontes americanos, seria uma longa e difícil discussão saber se foi esse factor que quase levou à extinção da espécie ou sobretudo a alteração profunda da forma de exploração das pradarias americanas.
Muito menos me parece sustentável a ideia de que uma caça dirigida, como foi a que foi feita aos grandes mamíferos africanos, possa ser uma ameaça determinante na diminuição das espécies.
As razões para o meu cepticismo, para além da falta de evidência empírica (não se deve confundir a evolução paralela de duas tendências com evidência empírica, sendo bom mantê-la como o que é: uma correlação estatística que deve ser compreendida nas suas relações de causa/ efeito), é que não vejo como pode um predador continuar a ser eficiente na perseguição da sua presa à medida que ela escasseia.
Isso é tanto mais verdade quanto espécies como leões e elefantes se reproduzem com alguma facilidade e portanto qualquer canto menos batido pelos caçadores (e haverá sempre muitos) rapidamente se transforma num local de elevada densidade da espécie.
Aqui fica o que diz a UICN sobre o leão, embrulhado na costumada ideologia que contamina a discussão sobre conservação da natureza: especulações sobre a caça e, sempre em segunda nota, a preocupação com a deplecção das populações presa (isto é, provavelmente, o resultado da manipulação dos habitats).
Estou convencido de que para a grande maioria das espécies selvagens, e sobretudo para os predadores de topo ou os grandes herbívoros, o caçador, por mais exímio que seja, é muito menos perigoso que o amante da natureza, por mais bem intencionado que seja, que se senta no seu sofá a ver documentários sobre vida selvagem comendo uns snacks que sustentam o alargamento das áreas agrícolas e bebendo uns sumos naturais que aprofundam a transformação das paisagens africanas.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, junho 03, 2011

Trabalho

Há trabalho que gosto mais e menos de fazer.
Este, desta fotografia tirada no Domingo passado, é dos que melhor me sabem.
Em grande plano, António Alexandre, o verdadeiro artista deste projecto.
Atrás da máquina fotográfica, Luis Jordão, da Desafio das Letras, um parceiro fundamental nos últimos desenvolvimentos do projecto.
E algures na cozinha, fora do ângulo de visão, a Ângela, da Moinho da Serra, o parceiro mais recente.
A concepção inicial do projecto foi feita durante a minha colaboração com a ATN e já falei sobre ele, por exemplo, aqui.
Mais tarde, através da Desafio das Letras, o projecto integrou uma componente de formação para restaurantes locais e a acção levada a cabo deu também origem ao livro "O gosto de Sicó".
Nesta altura o projecto está a desenvolver-se para as Aldeias do Xisto e a fotografia é da primeira acção concreta, que decorreu no Domingo, integrando duas novas valências: a abertura da formação para o público em geral (de manhã, para o público, à tarde para profissionais de restauração, que é o que retrata a fotografia do post) e a capacitação de agentes locais que possam ter um efeito multiplicador, nomeadamente usando o conceito "experience nature", um produto de turismo de natureza da Desafio das Letras.
O meu papel no projecto acaba por ser limitado, tenho sobretudo que produzir informação sobre a paisagem que se trabalha e a forma como isso se relaciona com a alimentação.
Como colaboro com a Aguiar Floresta, também interessada na valorização de produtos que garantam sustentabilidade à gestão do território, estamos a conversar sobre a possibilidade de estender o projecto à zona de Vila Pouca de Aguiar e Vila Real.
O simples facto dessa possibilidade existir influencia já o trabalho que fazemos (neste caso, o António Alexandre): ao discutir a hipótese de trabalho e o contributo que se poderia dar para a valorização dos produtos locais, foi-nos referido que os restaurantes locais usam menos o cabrito do que gostariam (e do que seria desejável para a valorização do produto e a produção dos serviços de ecossistema associados à pastorícia) por uma razão prática de gestão.
Se ao fazer um bacalhau cozido o prato não sair tão bem, qualquer restaurante aproveita as refeições que não foram vendidas, mas que foram meias preparadas, para uns pastéis de bacalhau ou umas pataniscas, mas se for cabrito, que na região só se serve ou assado ou em ensopado (penso que se trata de uma adaptação a tempos modernos, o mais natural é que tradicionalmente fosse em caldeirada ou com castanha) não sabem o que fazer ao cabrito que tenha sido cozinhado e não servido.
António Alexandre, com as batatinhas que se vêem na fotografia, e muitas mais coisas, preparou uma deliciosa salada de borrego (pode ser de cabrito, pode ser de coelho), com uma vinagreta de frutas (de manhã framboesas, à tarde, cerejas, mas pode ser outra qualquer, eu fiz ontem com damascos, e se eu fiz, qualquer nabo na cozinha consegue fazer) que permite aos restaurantes variar e gerir mais eficientemente, com menos desperdício económico e ambiental, os produtos locais.
O efeito multiplicador deste tipo de projectos é muito difícil de medir, mas duas das pessoas que atentamente seguem a formação (não vêem só, mexem, temperam, cozinham, discutem alternativas) são elas próprias formadoras em escolas técnicas locais.
Como digo, este é, de entre os trabalhos que faço, um dos que melhor me sabem.
E fico com a nítida sensação que mais pessoas hoje sabem como tirar partido de produtos locais e de elevado conteúdo de biodiversidade.
Parece-me um caminho (caminhito, pequenino, é certo) bem melhor que o que tem conduzido a situações como esta o nosso mundo rural e a gestão da nossa biodiversidade.
henrique pereira dos santos