quinta-feira, junho 29, 2006

“É agora ou nunca”

Num certo meio empresarial e político existe a sensação de “é agora ou nunca”.

A brecha foi aberta pelo próprio Governo (ver “post” anterior do Henrique Pereira dos Santos) e agora assistimos aos soldados que tentam forçar a brecha até aos limites do possível.

A crise económica e a sensação de beco sem saída criou a sensação generalizada de que tudo vale para fazer sair o País da crise. No governo de Durão venderam-se os anéis, ou seja o património do Estado. Agora quer fazer passar-se a ideia que o ambiente é o entrave ao desenvolvimento, ou seja, que deve poder ser desbaratado em nome de um alegado interesse público.

Eles sabem que é agora ou nunca. A crise abriu a brecha e serve para justificar todos os impropérios e faltas de bom senso.

A Comissão Europeia actual é provavelmente a menos “verde” de todas as comissões.

O Governo está dividido sobre a importância do ambiente e a braços com uma crise económica que não sabe resolver.

As contradições inevitáveis num Governo que quer mostrar trabalho mas que se sente preso entre limitações económicas e regras ambientais dá espaço a que aventureiros e oportunistas se apresentem como salvadores da pátria.

Mas até a data o que propõem não é diferente daquilo que sempre fizeram e que contribuiu para chegarmos onde chegamos. Ou seja, varrer para dentro.

Não foi por excesso de regras ambientais que o Algarve tem a crise que tem, apesar da estimada ajuda do terrorismo islâmico.

Não foi o excesso de regras ambientais que permitiu a destruição de Lisboa e a proliferação de prédios, quais cogumelos, muitos deles agora vazios.

Não foi por excesso de regras ambientais que o “el dorado” agrícola de Alqueva será aproveitado fundamentalmente por agricultores estrangeiros.

Não foi por excesso de regras ambientais que os nossos empresários decidiram que a forma de fazer dinheiro com Alqueva era com especulação imobiliária numa charca que se sabe não possuir condições para o turismo de massas.

Não foi por excesso de regras ambientais que os empresários Portugueses não souberam e continuam sem saber aproveitar o País que têm do ponto de vista turístico preferindo continuar a matar a galinha dos ovos de ouro.

Chamemos as coisas pelos nomes.

Os nossos empresários não estão preparados para os desafios do País. Falta-lhes visão, ética e a preparação [escolaridade?] básica para saber mover-se num mundo cada vez mais competitivo.

Sobra-lhes o fácil. Projectos obsoletos. Especulação. Construção civil. Tudo facilitado e generosamente apoiado pelo Estado.

Os lobos andam à solta.

PS. Quanto a Fernando Ruas, o episódio é grotesco e infelizmente revelador da classe política que temos. Episódios assim, num País que não se sabe dar ao respeito (se fosse no Reino Unido o senhor já teria sido mandado para casa) só se resolvem na barra dos tribunais.

10 comentários:

Henrique Pereira dos Santos disse...

Estando genericamente de acordo com o Miguel (vários estudos internacionais identificam os custos de contexto relacionados com a burocracia e o mau planeamento, mas também com a má qualidade dos nossos empreendedores e da gestão que fazem das suas empresas) acho que é preciso não entricheirar a defesa da essência das políticas ambientais não reconhecendo os seus principais pecados: a excessiva carga ideológica de muitos diplomas, sobretudo na área da conservação, a falta de bom senso na definição de regras, a ainda maior falta de equilíbrio e bom senso na sua aplicação e sobretudo a deficientíssima fiscalização que não exerce a fundamental retro-acção sobre as regras no sentido de as melhorar e fazer aderir melhor à realidade.

Nada disso justifica o ataque actual, claro, e o lamentável episódio de Fernando Ruas em pouco a ver com esse contexto e tem tudo a ver com um problema de competitividade muito mais grave que o das regras ambientais: a falta de respeito pela lei profundamente enraízada no país.

Não se trata sequer da fuga à lei, mas da verdadeira falta de reconhecimento da lei como o consenso social e o ponto de equilíbrio dos diferentes interesses.

Talvez fosse possível ir melhorando o panorama se passasse a ser obrigatória a prévia discussão pública dos diplomas legais (se não e todos, pelo menos de uma parte significativa).

henrique pereira dos santos

Pedro Bingre disse...

À medida que o sector imobiliário (e o seu ancilar, o da construção civil) vão entrando em colapso, toda a nossa economia política entra em recessão. Os políticos cuja fortuna depende das licenças de urbanização estão a entrar em pânico e precisam de um bode expiatório; os movimentos ambientalistas são o alvo mais fácil.

Não é por acaso que o nosso primeiro-ministro provém do ministério do ambiente e do ordenamento do território. Nos tempos do "boom" imobiliário, essa era a pasta que mais poder oferecia. Agora que assistimos ao "crash" imobiliário, todos vão querer amaldiçoá-la.

Anónimo disse...

Como dizem por ai, para bom entendedor meia palvra basta e acho que este artigo é excelente nesse aspecto.

É evidente a falta de apetência para ver para além do horizonte. Só assim se compreende todos os anos de construção civil, como genero de máquina a vapor do nosso pais.

Realmente poucos olham para as potencialidades das tecnologias limpas, como grandes potenciais para a criação de empregos (que exigem qualificações acima da média), ninguém vê o valor da Terra como eterna fonte de produção de energia se for respeitada e bem tratada, (claro pela agricultura biológica que exige...qualificações).

Aqui neste pais impera o fácil. Começa logo em casa dos portugueses onde tudo se cimenta para ter menos trabalho.

Pedro M. Rocha disse...

O Post anterior é meu.

Luis Matos disse...

Como tive a oportunidade de referir em posts anteriores, o país encontra-se bloqueado solidariamente, i.e. social, política e economicamente bloqueado. Nenhum sector do estado português se pode considerar como parte não integrante deste bloqueio, incluindo naturalmente a sociedade civil nas suas mais diversas vertentes. Naturalmente que os ambientalistas também darão aqui o seu contributo na tensão crescente que se faz sentir sobre o nó.
Intriga-me particularmente a questão relacionada com o projecto da Mata de Sesimbra, promovido pelo grupo Pelicano e com o patrocínio the instituições internacionais como a WWF e a BioRegional.
Por aquilo que tenho lido, parece-me , em princípio, um projecto bastante interessante, e cujo impacto poderia certamente ir muito para além das consequências económicas de um projecto turístico daquela envergadura. Teria certamente um efeito pedagógico, no sentido de vir a constituir um modelo a seguir em futuros projectos.
O que é que se passa com este projecto ?
É ou não importante do ponto de vista ambiental – visto no seu conjunto -, tendo em consideração o seu carácter piloto ?

Pedro Almeida Vieira disse...

O problema do projecto Pelicano é apenas um: a localização. De resto, bato palmas à concepção e às promessas. Alguém poderia saber por que razão o projecto Pelicano não pode ser feito noutro local. Será que só funciona se ficar na mata de Sesimbra? Não me parece...

VCM disse...

Caro Pedro,

Tenho todoo prazer em explicar-lhe e demonstrar-lhe que a localizaçao do projecto é a melhor possivel.

O projecto nasce com base no PDM de Sesimbra que atribuiu direitos de construcao aos varios proprietarios da mata. A ser seguido esta visao a mata teria sido retalhadas por redes de acesso aos varios projectos.

O que o plano de pormenor da mata faz é usar o mecanismo de perequaçao e concentrar a construcao na zona da Quinta do Valbom e dos areiros deixando as varzeas intactas bem como os corredores ecologicos principais e secundarios aumentando ate a sua zona de proteccao.

Nao há qualquer afectacao de habitats de rede natura.

E existe um plano de gestao ambiental para reconverter a mata de sesimbra em zonas de pinheirnho manso e carvalhos como era originalmente.

Os sistema de finaciamento atraves do principio do utlizador pagador permite que os proprietarios mantenham as sua propriedades intactas sem recorrer a contrucao ou plantacao de eucaliptos.

Mudar a localizacao para fora de Sesimbra seria juridicamente impossivel.


Se consultar o site www.matadesesimbra.com.pt pode encontrar mais informacao.

com os melhores cumprimentos,

Anónimo disse...

As elites portuguesas, á boa maneira latina/árabe, foram competentes em manter as classes populares na inanidade sócio cultural: «Quem comeu a carne que rôa os ossos».

Joao Soares disse...

Com as atitudes crescentes de autoritarismo e ausência de mão-pesada sobre os delitos cometidos por alguns autarcas e afrimações retrogradas de núcleos duros de empresários nacionais é o todo que é sacrificado, seja ambientalista, técnico do Ambiente, crianaças, vivendo no interior ou nas cidades, etc...Como eles querem teremos depois máscaras de gás à venda por privados, garrafas de oxigénio à venda por privados,etc...
Que retrocesso...não pode ser possível...estes senhores têm que abrandar, os juízes não devem ser tão brandos, obrigá-los a pôr a mão na consciência e obrigaram-se a ser mais filantrópicos, a bem das oportunidades que souberam aproveitar e dar continuidade e oportunidade a todos de lucrar um bem maior: patrimonio natural e cultural livres!!

mafalda disse...

Caro Pedro Almeida Vieira
Não bata palmas ao projecto da Pelicano...
Não,sem antes visitar outro empreendimento da mesma empresa.
Sugiro o mui turístico e inacabado Palmela Village
(se a Pelicano permitir, claro)
E tenha uma magnifica antevisão da Mata de Sesimbra no futuro.
Não estranhe haver tão poucos moradores... São os únicos sobreviventes das cheias do ano passado.
Os outros arrastaram-se pelas águas
para as disputas judiciais.
Mafalda