sexta-feira, agosto 04, 2006

A verificação (pelo menos por agora)

Desta vez confirma-se um vento Leste, pelo menos a acreditar no site do instituto de meteorologia que tem melhorado francamente (embora seja pouco intuitivo).
E olhando para o site do serviço nacional de bombeiros e protecção civil, parece evidente uma alteração do padrão dos fogos. O mesmo se dirá olhando para os jornais on-line.
http://incendiosflorestais.snbpc.pt/CNOSOn-Line.asp
É cedo para conclusões, mas...
henrique pereira dos santos

6 comentários:

Henrique Pereira dos Santos disse...

350 fogos ontem, a julgar pelo site serviço nacional de bombeiros e protecção civil. O maior número diário deste ano.
Veremos então os próximos dias (embora eu não entenda muito bem a previsão do vento, porque fala pendularmente em vento leste e nordeste, e nas observações de superfície disponíveis parece predominar o rumo Leste).
henrique pereira dos santos

Miguel B. Araujo disse...

Do Público de hoje:

Como explica a redução significativa da área ardida em Portugal até finais de Julho?


ANTÓNIO SALGUEIRO
Engenheiro-florestal especializado em fogo controlado; investigador envolvido
no projecto europeu Paradoxo do Fogo

Engenheiro-florestal
salienta ausência
dos ventos de leste

A ausência de temperaturas altas associadas a humidades relativas baixas e a ventos de leste fortes é, para António Salgueiro, engenheiro-florestal, a principal explicação para a reduzida área ardida que se registou este ano até 31 de Julho. "Noventa e nove por cento dos grandes incêndios acontecem nesta conjuntura", argumenta. Estas condições, lembra, originam velocidades de propagação muito grandes e fogos muito difíceis de combater. A projecção de materiais incandescentes a longas distâncias é outro dos problemas destes fogos. O engenheiro-florestal insiste que é cedo para fazer grandes avaliações, já que a pior parte da época dos incêndios florestais ainda está para vir. "Agosto é o pior mês", realça. Mesmo assim, admite que a mudança de filosofia na utilização dos meios aéreos, agora direccionados para a primeira intervenção, e o reforço geral no ataque aos fogos nascentes também têm uma parte da responsabilidade na área ardida. Lamenta a extinção dos centros de Prevenção e Detecção, onde estavam técnicos florestais que colaboravam com os comandos distritais de Operações de Socorro, mas acredita que mesmo assim a ligação entre os florestais e o apoio ao combate está melhor. "Infelizmente, perdeu-se a participação oficial, mas ficou a intervenção oficiosa", sustenta. Não acredita muito na concretização de um ordenamento florestal eficaz, mas defende que é preciso criar espaços sem vegetação na floresta, que impeçam incêndios de grandes dimensões.



MANUEL COSTA ALVES
Meteorologista reformado que esteve
vários anos no Serviço Nacional de
Protecção Civil como representante
do Instituto de Meteorologia

Meteorologista
surpreendido com
a redução da área ardida
Manuel Costa Alves está surpreendido com a diminuição da área ardida e acredita que as condições meteorológicas por si só não explicam a redução. O meteorologista lembra que este ano já tivemos duas ondas de calor e que, como o Inverno e a Primavera foram chuvosos, há uma carga de combustível considerável na floresta. "Também é verdade que em Junho houve uma semana de aguaceiros que acabaram por atingir todo o país e humidificar a vegetação, criando condições pouco propícias à ocorrência de incêndios", avalia. No entanto, sublinha: "Depois veio a segunda onda de calor, com 11 dias, que, ao contrário do que se disse, não foi a mais intensa dos últimos 65 anos, mas secou os materiais." O meteorologista reconhece a importância dos ventos de leste na propagação dos fogos, mas considera que as diferenças a este nível com anos anteriores não explicam a diminuição significativa da área ardida. "Com o tempo que tivemos até agora, seria expectável um maior número de incêndios e, sobretudo, uma maior área ardida", afirma. Apesar de insistir que ainda é cedo para tirar conclusões, acredita que possivelmente as mudanças no dispositivo de combate aos fogos, com um maior enfoque na primeira intervenção, poderão explicar a redução da área ardida. Sem muitas certezas, deixa a pergunta: "Será que também baixámos as ignições negligentes e as intencionais?"



VASCO CAMPOS
Director executivo da Caule, que deverá
ser a primeira associação de produtores
florestais a constituir uma Zona
de Intervenção Florestal

Produtor florestal
não acredita
em resultados rápidos
Vasco Campos acredita que o Governo tem tomado medidas extremamente positivas na área da prevenção e do combate aos incêndios florestais, nomeadamente a aposta na intervenção rápida aos fogos nascentes, mas é categórico ao negar que estas alterações já estejam a dar frutos. "É muito cedo para fazer avaliações da política florestal e de combate aos incêndios", insiste. A diminuição da área ardida relaciona-se, na sua opinião, mais com a conjuntura meteorológica. "Na nossa região, ainda vejo bermas com fenos verdes, uma situação que não me lembro em Agosto", testemunha o director da associação de produtores florestais Caule. E insiste que ainda é cedo para balanços. "Temos várias equipas de sapadores-florestais e uma vigilância apertada no Verão e no ano passado conseguimos chegar até 3 de Outubro com 300 hectares ardidos nos 50 mil hectares que gerimos; no entanto, nesse dia tivemos um fogo e arderam-nos 3000 hectares", exemplifica. Lembra que houve um aumento nas campanhas de sensibilização e um reforço da política de repressão que pode estar a dar alguns efeitos e salienta que nos últimos três anos arderam perto de um milhão de hectares. "Essas zonas funcionam como zonas-tampão", sustenta. Tudo pesado, concluiu: "Também há uma pontinha de sorte no meio disto tudo."




PAULO FERNANDES
Investigador do departamento florestal da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Investigador defende que
o teste ao dispositivo
ainda está para vir
A precipitação que caiu em Maio e Junho e a ausência de uma conjuntura meteorológica que associe temperaturas altas, humidades relativas baixas e ventos de leste é, para Paulo Fernandes, a principal explicação da redução da área ardida. "A única vez que reunimos este ano estas condições tivemos o fogo de Barcelos, o maior deste ano", realça o investigador. Fernandes não crê que as novidades deste ano tenham surtido efeito, referindo que as estruturas e as pessoas são as mesmas, e sublinha que é cedo para tirar conclusões. "Sabemos que 80 por cento da área ardida se concentra em uma ou duas semanas [de dias não consecutivos] com esta conjuntura e ainda não houve uma série de dias assim. Com excepção do Alentejo, o índice de risco de incêndios tem estado poucos dias no máximo", refere. "Em condições favoráveis, o dispositivo de combate aos fogos lida bem com a situação, é nos dias extremos que o dispositivo entra em colapso. Que se sente a falta de organização, planeamento e coordenação", remata. As melhorias neste campo, diz, só se poderão sentir se a pior conjuntura meteorológica se repetir. A confirmarem-se as previsões, este fim-de-semana pode ser o primeiro grande teste.



DUARTE CALDEIRA
Presidente da Liga dos Bombeiros
Portugueses

Representante dos bombeiros desconfia das avaliações oficiais
Os últimos dados da Direcção-Geral dos Recursos Florestais (DGRF) sobre os fogos florestais levam Duarte Caldeira a sugerir com urgência a criação de um observatório que analise e integre toda a informação estatística produzida sobre o tema. "Não pondo em dúvida os dados agora anunciados, permito-me questionar a sustentação técnica das comparações feitas com relatórios de anos anteriores", afirma. "Estamos mesmo a comparar variáveis mensuradas pelos mesmos critérios-base e com instrumentos de validação normalizada em todo o território?", questiona o presidente da Liga. As "condições meteorológicas favoráveis de que o país tem beneficiado neste Verão" justificam, no entendimento de Caldeira, os bons resultados verificados quanto ao número de ocorrências e área ardida. Isto apesar de notar que o relatório da DGRF destaca que o índice de severidade até 31 de Julho se aproxima muito dos valores de 2003, o pior de sempre ao nível da área ardida. "Somos induzidos pela necessidade de aprofundar esta matéria", adianta Caldeira. Também não deixa de apontar que "afinal, não têm razão todos os que se têm empenhado em tentar demonstrar a falência da estrutura do combate, confiada aos bombeiros". Quanto às medidas adoptadas pelo Governo, diz que é cedo para conclusões. "Neste domínio não é sério desvalorizá-las ou sobrevalorizá-las. O mais prudente é avaliar, lá para o final do ano, o seu impacte, com rigor técnico, independência de espírito e sem paixões redutoras", sustenta. M.O.

Miguel B. Araujo disse...

Do Expresso de hoje:

Portugal está a arder menos

AS TEMPERATURAS a subir este fim-de-semana, a humidade a baixar e o vento a virar para o quadrante de Leste fazem temer um aumento de incêndios, que pode alterar a tendência de redução de área ardida registada nos últimos sete meses. Por isso, o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC) prefere deixar as análises para o fim da época crítica e a «não deitar foguetes antes da festa».

Este ano os fogos queimaram uma área sete vezes inferior à registada para o período homólogo de 2005. Entre 1 de Janeiro e 31 de Julho de 2006, as chamas consumiram 13.971 hectares (ha) de matos e povoamentos florestais, quando no ano passado devastaram 91.627 ha e a média dos últimos cinco anos aponta para 79 mil ha.

Os dados do último relatório da Direcção-Geral de Recursos Florestais (DGRF) indicam também que apesar de o número de ocorrências totais de fogos e fogachos (12.425) ser equivalente à média registada entre 2001 e 2005 (13.978), o número de incêndios florestais equivale a um terço do registado no último quinquénio.

Técnicos e cientistas contactados pelo EXPRESSO admitem que S. Pedro - o santo padroeiro da meteorologia - tem a sua quota-parte de responsabilidade na diminuição da área ardida em 2006. Choveu bastante (inclusive em Junho e Julho), o que aumentou o índice de humidade no ar e no solo, dificultando a ignição de fogos e retardando a sua propagação. A estes factos aliaram-se o reforço nos meios de combate (mais 11 brigadas helitransportadas), os primeiros passos na prevenção de incêndios florestais, as campanhas de sensibilização dos cidadãos e uma ligeira melhoria da coordenação no terreno.

Carla Tomás

Jaime Pinto disse...

Interessante como o VENTO LESTE já conta no léxico dos fogos florestais.
Anteriormente era a elevada temperatura, humidade baixa...VENTO FORTE as causas de elevado nº de incêndios em determinados dias. O seu a seu dono...

Henrique Pereira dos Santos disse...

Os fogos continuam e agrava-se o número de fogos e a sua dimensão, pelo menos a julgar pela informação disponível (é preciso esperar por informação mais segura).

E fico com a sensação de que se está a confirmar outra intuição minha que expressei aqui no blog em Maio: o Noroeste está a ser bastante mais afectado que noutros anos. Veremos se os dados o confirmam.

Para além disto um comentário: o mais interessante deste conjunto de artigos que o Miguel aqui juntou é o facto da única pessoa supreendida ser um meteorologista experimentado em muitos anos de relação com a Protecção Civil.

E espanta-se porquê? Porque a onda de calor do meio de Junho não provocou grandes áreas ardidas, matéria já aqui discutida no blog (e na lista de discussão da ambio).

O meteorologista é incompetente? De maneira nenhuma, o que acontece é que está a olhar para o sítio errado (temperatura e humidade atmosférica) em vez de olhar para o parâmetro que verdadeiramente diferencia os dias. E o que aconteceu nos três períodos de calor deste ano (fim de Maio, meio de Julho e agora) é uma demonstração aparentemente esmagadora do que se tem vindo a afirmar.

Pode ser coincidência, claro, mas o facto de aqui no blog se ter antecipado a realidade com tanta precisão parece-me um ponto significativo a dar credibilidade à hipótese (explicar porque a realidade se comportou de um determinada maneira é uma coisa, prever como se vai comportar é outra muito diferente).

Se se der um salto às declarações, debates e explicações do desastre de 2003 produzidas na altura raramente se encontrará referência ao rumo do Vento (incompetência, opções políticas erradas, etc., há muito).

Em Maio de 2004 publiquei um extenso artigo sobre fogos numa revista que ninguém lê (QUID Novis? da escola superior de educação de Torres Novas que me tinha pedido que para fazer uma conferência no dia da escola para alguns alunos, da qual resultou o artigo) onde fazia uma ligação directa entre os quinze dias de vento leste e o desastre dos fogos desse ano. O artigo não se centrava nisso, e resume o essencial do que ainda hoje penso sobre os fogos, mas lá estava a referência.

Pelos vistos parece que estamos próximos de chegar a uma unanimidade nacional nesse ponto.

Óptimo, direi eu, mas isso levanta a necessidade de outra discussão: se assim é, então o que podemos fazer?

Um tema para um post um dia destes.

henrique pereira dos santos

Paulo Fernandes disse...

Os comentários de Costa Alves relembram-me que não há em Portugal uma única pessoa especializada em meteorologia de incêndios, muito menos no Instituto de Meteorologia. É sintomático que o IM tenha, durante anos, produzido um índice de risco meteorológico (o FWI Canadiano) sem o perceber e sem o saber interpretar, para não falar daqueles patéticos boletins a que chamam "INFORMAÇÃO METEOROLÓGICA DE APOIO À PREVENÇÃO E COMBATE AOS FOGOS FLORESTAIS"

Paulo Fernandes