domingo, dezembro 10, 2006

Carlos Pimenta e a Barragem do Sabor

PFC/LandscapeImages


O Expresso de sábado (dia 9 de Dezembro de 2006), num artigo assinado por Mário de Carvalho, diz o seguinte:

A construção da barragem hidroeléctrica no rio Sabor “não vai extinguir nenhum ecossistema em Portugal”. A garantia é de Carlos Pimenta, ex-secretário de Estado do Ambiente, e um dos principais actores envolvidos no incremento de energias renováveis no país.

Entendamo-nos. O Carlos Pimenta entende de energia. Sobretudo, sabe como fazer dinheiro com a energia eólica (e para isso convém-lhe ter o Sabor).

Eu, pouco entendo destas matérias.

Mas sei o suficiente de biodiversidade para entender que o Carlos Pimenta, deste assunto, entende pouco.

E também sei o suficiente, sobre a vida, para perceber que Carlos Pimenta não é um comentador desinteressado sobre esta matéria.

A favor dos defensores da barragem está o facto dos defensores do rio terem usado argumentação tradicional do passarinho A ou B. É com base nestes argumentos que Carlos Pimenta contra-argumenta.

Os Estudos de Impacte Ambiental (EIA) agarram-se a estas coisas, a Lei dá suporte a este género de argumentação e as Organizações Não Governamentais (ONG) sabem que na Europa o que colhe são listas de espécies em anexos de directivas comunitárias.

Mas a verdadeira importância do vale do Sabor é outra. Este vale, pelas suas condições geográficas, constituiu um refúgio para espécies animais e vegetais durante os períodos glaciares do Quaternário e tem todas as condições para voltar a desempenhar um papel semelhante num período de aquecimento global.

Numa região plana, um aumento ou diminuição de dois graus na temperatura, implica a necessidade das espécies se deslocarem centenas de quilómetros para norte ou sul (façanha que, frequentemente, não está ao alcance da maior parte das espécies).

Num vale encaixado, como o Sabor, essa deslocação implica descida ou subida de escassos metros numa vertente inclinada ou a deslocação de uma vertente norte para uma vertente sul ou vice versa.

É normal que Carlos Pimenta, engenheiro de formação, e empreendedor na área das energias, não saiba, ou não se preocupe com estas miudezas. No entanto, sem estes refúgios climáticos a biodiversidade do Mediterrâneo (e da Europa já que muitas das espécies que existem no norte migraram do sul quando o clima aqueceu) seria muito inferior à que existe actualmente.

A maior parte dos rios encaixados de Portugal possui condições de variação micro climática que permitem este tipo de adaptações cruciais em contextos de mudança climática. Porém, a maior parte destes rios já estão inundados por barragens comprometendo futuras adaptações da biodiversidade.

O Rio Sabor desempenha assim um papel fundamental para preservar a biodiversidade num contexto de alterações climáticas. Factor que, infelizmente, nem sequer é referido no EIA.

Ler resposta de Carlos Pimenta a este post aqui

12 comentários:

Pedro Bingre disse...

São realmente interessantes as aplicações conservacionistas do zonamento altitudinal dos microclimas. Ascender cem metros em altitude numa encosta pode equivaler, microclimaticamente, a uma deslocação de dezenas de quilómetros em direcção aos pólos. Um tema clássico da Biogeografia.

No entanto, serão suficientes os desníveis que se verificam no vale do Sabor, perante a extrema termicidade das zonas mais baixas da bacia? Se os vales encaixados da Terra Quente transmontana tiveram -e continuam tendo- um microclima mais quente do que os planaltos em redor, não deveríamos esperar que esses mesmos vales fossem justamente as primeiras áreas a tornarem-se inóspitas num contexto de aquecimento global? Recordemo-nos que bem perto, na foz do Côa, encontra-se um dos pontos mais quentes e áridos do país. Por outras palavras, as espécies termo e meso mediterrânicas que aí ocorrem não tenderiam a abandonar o vale e fugir para os planaltos assim que as temperaturas subissem?

Passaríamos a ter uma "source" de biodiversidade na Terra Quente e um "sink" na Terra Fria. A Terra Quente, por seu turno, não disporia de qualquer "source" próxima de biodiversidade termófila, pelo que se transformaria num quase-deserto - a menos que aí introduzíssemos espécies exóticas próprias de climas sub-áridos a áridos.

Miguel B. Araujo disse...

Caro Pedro,

Aqui seguem alguns comentários ao teu razoado:

1. Além da variação térmica em altitude está a variação térmica associada à exposição das vertentes. No verão, é frequente registarem-se variações de temperatura na ordem dos 10 graus entre uma vertente norte e sul de um rio encaixado.

2. Este diferencial de temperaturas entre vertentes é maior que a variabilidade macro climática prevista pelos modelos do IPCC.

3. Num contexto de arrefecimento global, as espécies termófilas refugiam-se nos vales encaixados pois são os que mantêm temperaturas menos frias. A sua distribuição a nível local variará do fundo do vale, para a vertente norte, ou sul, consoante os requerimentos específicos a cada espécie.

4. Num contexto de aquecimento global as espécies termófilas poderão expandir-se, se as condições propícias à sua existência se expandirem. Mas se as condições de termofilia excederem a sua capacidade de tolerância terão de subir em altitude ou deslocar-se para vertentes norte dos vales.

5. O mesmo se passará com as espécies mesofilas que, ou continuarão a subir em altitude e latitude, ou procurarão refúgio numa qualquer vertente menos exposta ao sol. Se não conseguirem fazê-lo (por exemplo porque os vales mais interessantes estiverem debaixo de água), extinguir-se-ão localmente. Se forem endémicas a sua extinção não é local, é global.

6. Uma curiosidade adicional. Neste contexto de “stress” climático as espécies procuram todas as formas que têm ao seu alcance para mitigar os efeitos adversos das alterações climáticas. Um dos mecanismos de adaptação, mais interessantes, descoberto há pouco tempo por Callaway e co-autores (Positive interactions among alpine plants increase with stress. Nature 417: 844-848, 2002), é o “switch” que ocorre, quando as condições ambientais se tornam mais adversas, entre comunidades estruturadas por relações primordialmente de competição para comunidades onde primam relações de simbiose. Por outras palavras, quando os recursos são abundantes as espécies competem entre si. Quando o ambiente se torna tão agreste que limita a apropriação desses recursos, as espécies iniciam mecanismos de cooperação (por exemplo, a termófila dá sombra à mesofila e a mesofila não mata a termófila como o faria em circunstâncias mais favoráveis). Esta curiosidade científica é relevante pois tudo o que sabemos sobre níveis climáticos de tolerância das espécies pode alterar-se por via de adaptações socio-biológicas das espécies. Facto que até à pouco tempo era desconhecido.

Um abraço,

Miguel

PS. Está descansado que não serão necessárias espécies exóticas para colonizar as nossas zonas áridas. temos material genético suficiente para, dando-se tempo ao tempo, fazer esse trabalho.

Miguel B. Araujo disse...

Acrecento outra nota:

As adaptações socio-biológicas referidas no último comentário propíciam o aparecimento de comunidades "não análogas", i.e., que não existem actualmente mas que poderão tornar-se viáveis em contextos de mudança climática.

Este elemento de complexidade adicional pode baralhar tudo o que sabemos, ou julgamos saber, sobre ecologia das comunidades.

Mas uma coisa é certa: nada disto será possível se, sistematicamente, e por ironia do destino, com o argumento das alterações climáticas, forem destruídas todas as zonas que mais facilmente permitem a adaptação da biodiversidade às alterações climáticas previstas.

A necessidade de mitigação das alterações climáticas não pode comprometer a necessidade do mundo vivo adaptar-se às mesmas alterações.

Pedro Almeida Vieira disse...

Miguel, excelente argumentação. Confesso que essa tua perspectiva, sendo quase um ovo de Colombo (por ser tão óbvio...), não me tinha ainda passado pela cabeça que é, de facto, um dos aspectos essenciais para o futuro da conservação da natureza. O teu post como que produziu um clic em mim.
A questão do aquecimento global em Portugal apenas acaba por estar a permitir alguns atropelos ambientais que, paradoxalmente,poderão agravar os efeitos das alterações climáticas quando surgirem. E o caso do vale do Sabor é disso um paradigma. A conservação da natureza, na verdade, sobretudo no que diz respeito às alterações climáticas, não deve ser estática e, sobretudo, neste caso deve funcionar como preservação do passado/presente, mas sobretudo também perspectivando o futuro. Isto é, preservar refúgios para as espécies «obrigadas» a mudar de rumo e que, se não encontrarem habitats propícios, se extinguem. Obrigado pelo post...

José disse...

... eu só acrescento uma coisa: o vale do Sabor é belo!

jc

José disse...

já agora,

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=114&id_news=254064

Anónimo disse...

Sou um leitor assíduo deste e de outros blogs que abordam os temas relacionados com a conservação da natureza cujos objectivos partilho e procuro sempre pô-los em prática no meu dia-a-dia. Este artigo porém pareceu-me um pouco desmedido, no modo como critica uma das pessoas que neste país mais tem contribuído ao longo da sua vida na defesa do ambiente (quem não se lembra da demolição das barracas na Arrábida, dos primeiros apoios às energias renováveis, das negociações para o Protocolo de Quioto, etc.). Como será do conhecimento geral a produção e o consumo de energia constituem das principais actividades humanas com maiores impactes sobre o ambiente. Este tema deve ser abordado no nosso país, que não é rico em recursos energéticos, de uma forma responsável, pluridisciplinar e em permanente diálogo com todos aqueles que com o seu saber e experiência contribuem para um desenvolvimento sustentado.

Miguel B. Araujo disse...

Caro leitor anónimo,

Não está em causa a pessoa de Carlos Pimenta que muito respeito e admiro.

Está em causa a sua posição política, recente, sobre a barragem do sabor.

Uma posição que é pública e tem sido repetida, de forma veemente pelo próprio, em vários fóruns.

Este País, pela sua história, tem pouco hábito de conciliar a discordância com o respeito entre pessoas mas este blogue tenta, através do exemplo dos seus próprios escritores que, como se sabe, discordam entre si em inúmeras matérias, demonstrar que é possível fazer coincidir a estima e o respeito com a discordância sã de opiniões.

E de resto a veemência das posições de Carlos Pimenta tem de ser confrontada com posições de igual veemência pois, se tal não acontecer, corre-se o risco de se deixar passar a imagem de, por Carlos Pimenta ter desempenhado um papel importante como Secretário de Estado de Ambiente e ter sido Presidente da GLOBE, estarmos de acordo com ele.

Mais grave, pode deixar-se passar a ideia de que o Currículo de Carlos Pimenta lhe confere uma autoridade moral para falar de conservação da natureza que, não obstante o respeito e admiração que Carlos Pimenta me merece, pode e deve ser contestada se se verificar que existem razões para isso.

Como referi no "post" original a argumentação do Carlos Pimenta reside na desqualificação dos valores naturais do Vale do Sabor. Uma desqualificação que, como referi, decorre da propria pobreza do EIA que não soube entender o que estava em causa.

Portanto há que clarificar o debate pois o razoado de Carlos Pimenta é, no minímo, incompleto.

Não está em causa a importância energética que a barragem poderia vir a ter se fosse construída (não entendo o suficiente do assunto para rebater os argumentos avançados mas desconfio que num mercado Ibérico da energia a urgência do Sabor pudesse ser reavaliada pois os problemas criados com picos de produção poderiam ser diluídos numa rede de maior dimensão). Estão em causa valores ambientais bem mais importantes do que Carlos Pimenta pretende fazer passar nas suas intervenções públicas.

E isso tem de ser dito e repetido até à exaustão.

Eduardo F. disse...

Muito bem. Tenho andado a saltar de blogue em blogue, tendo já passado pelo dos "mitodoaquecimentoglobal" (ou coisa parecida)(e está no seu direito de discordar) mas acho que vou visitar mais vezes este, porque me interessa estar ao corrente e aprender mais destas matérias.

Tenho o Carlos Pimenta na minha consideração, mas às vezes vejo pessoas que estimo, pelas suas opiniões e postura, dizerem barbaridades, por comentarem assuntos de que apenas percebem mais ou menos. Mas nem é preciso perbeber mais ou menos: se tivermos uma cultura de respeito e conservação pelo ambiente natural, nunca diremos coisas daquele teor.

Não sei qual é o interesse dele, mas basta que entenda o que defende e não defende para baixar na minha consideração e discordar.

E quem luta, só exerce treino para lutar mais pelas causas.

Eduardo F., a partir de agora, leitor mais assíduo deste blogue. Continuem o bom trabalho (o mundo anda a reboque da maioria de pensamento, e muito trabalho há para fazer)

Anónimo disse...

Este argumento, de que temos que preservar o vale do Sabor para nos prepararmos para as alterações climáticas que aí vêem, é totalmente ridículo.

Primeiro, porque o mais importante é, tanto em termos de alterações climáticas como em termos humanos, prepararmo-nos mas é para o fim do petróleo barato, e tratarmos de produzir energia de uma forma mais amiga do ambiente. Prepararmos o mundo para as alterações climáticas vem muito baixo na lista de qualquer ambientalista.

Segundo, porque na região do Douro o que menos faltam são vales encaixados com acentuada variação do clima. Faça o Miguel Araújo uma simples viagem de São João da Pesqueira até Nagozelo do Douro, a meia encosta, ou até à barragem da Valeira, no fundo do vale, e verá quão brutal é a mudança do clima. O vale do Sabor, para estes efeitos, é perfeitamente secundário: o vale do Douro já chega perfeitissimamente.

Luís Lavoura

Miguel B. Araujo disse...

Respondo al Luís Lavoura por questão de príncipio mas na realidade o comentário não tem muito por onde pegar:

LL:
"Primeiro, porque o mais importante é, tanto em termos de alterações climáticas como em termos humanos, prepararmo-nos mas é para o fim do petróleo barato, e tratarmos de produzir energia de uma forma mais amiga do ambiente. Prepararmos o mundo para as alterações climáticas vem muito baixo na lista de qualquer ambientalista."

Parte do comentário não faz qualquer sentido e só se explica pelo habitual azedume do Luís Lavoura. Uma coisa é procurar mitigar as alterações climáticas futuras (redução de CO2 etc) outra é precavermo-nos para as alterações climáticas inevitáveis. A política de conservação não tem integrado esta dimensão e vai ter de fazê-lo muito em breve. Isto nem sequer é uma opinião pessoal. É um consenso generalizado de quem pensa sobre estas matérias.

A energia barata está muito bem mas não é prioridade dos ambientalistas. É prioridade da sociedade em geral. Já fizemos muitos estragos com o petróleo barato (um preço que estamos a pagar e que as futuras gerações pagarão ainda mais caro) e gota que falta para entornar o copo é acabar de estragar o que falta na procura de mais fontes de energia barata, sem qualquer atenção para os efeitos secundários que a produção desta energia pode trazer.

Eu chamo a isso transformar uma oportunidade histórica - a crise do petróleo pode estimular formas alternativas de energia menos impactantes - num problema - as soluções, as mais fáceis, trazerem problemas adicionais que ainda não tinhamos ou que tinhamos em pequena escala.

Sugiro ao Luís que pense um pouco mais e melhor.

LL:
Segundo, porque na região do Douro o que menos faltam são vales encaixados com acentuada variação do clima. Faça o Miguel Araújo uma simples viagem de São João da Pesqueira até Nagozelo do Douro, a meia encosta, ou até à barragem da Valeira, no fundo do vale, e verá quão brutal é a mudança do clima. O vale do Sabor, para estes efeitos, é perfeitamente secundário: o vale do Douro já chega perfeitissimamente."

É óbvio que não faltam vales encaixados no Douro. É menos óbvio que esses vales encaixados estejam livres de actividades humanas e permitam a conservação, em larga escala, de comunidades inteiras.

Mas esteja descansado o Luís que em menos de um ano apresentarei os números e mapas que estão na base do meu comentário.

Anónimo disse...

O argumento do Luís Lavoura acerca do clima do douro é estranho vindo de um homem de ciência informado.
E sobretudo com abundante informação sobre este caso em concreto.
Uma coisa é a variação do clima ser grande ou pequena em pequenos espaços, outra completamente diferente é a variação das comunidades que interagem com esse clima e muitos outros factores.
As comunidades dos leitos de cheia do Alto Douro e Sabor não estão nas encostas dos Douro.
Aliás pouco interesse biológico têm as encostas do Douro para além dos mortórios, porque as vinhas do Douro são muit importantes económica, cultural e paisagisticamente mas valem quase zero em biodiversidade.
Volto a dizer que o problema desta decisão é de facto muito complicado, não vale a pena desvalorizar as razões de parte a parte porque não é o caminho para encontrar a decisão socialmente mais útil.
henrique pereira dos santos