segunda-feira, maio 26, 2008

Alcochete faz sentido?

Há muito dinheiro, há muitas influências, muita reprodução social em jogo no projecto Alcochete. Se assim não fosse não teria sido tão difícil o abandono da opção Ota. Por isso, é expectável que nas próximas semanas o governo apresse o processo para se antecipar à dúvidas, inevitáveis, dos pagadores de impostos (como eu e a maioria dos leitores do blogue AMBIO).

Vão pipocar panegíricos ao novo Aeroporto, à necessidade de novos acessos a Lisboa, aos investimentos estruturantes do Estado, à importância do sector da construção como motor económico do país, etc., etc. A classe dos jornalistas, regra geral mal preparada e especializada em encómios ao poder (político e económico) ou em visões simples (e simplórias) do mundo (e.g. ideologias dominantes na esquerda portuguesa), vai, consciente ou inconscientemente comprar e revender a ideia. Se estivessem em causa o estuário do Tejo, os flamingos, salinas ou pegadas de dinossauro, impactes simples e directos, teríamos notícia. O vulgar cidadão escarneceria o assunto no café enquanto espera pela transmissão da SportTv e a vida seguiria com normalidade. Agora, discutir a "oportunidade civilizacional" de um investimento com a dimensão de Alcochete: demasiado complicado e trabalhoso! A esquerda portuguesa, sempre fascinada pela grande obra civil e pela engenharia social, fecha os olhos e engole o isco. O (centro)direita, por seu turno, finge ser liberal e controla a parte, que realmente interessa, da máquina do estado.

Como alguém diz: "em Portugal a esquerda defende o estado e a direita aproveita-se, e recebe os lucros". A necessidade de acelerar Alcochete tem mais propulsores: a administração da TAP vislumbra a crise do sector e o governo precisa de a privatizar; a Ryanair quer construir uma base de operações no Porto e estender-se a Lisboa, a SONAE percebe e pretende a administração do aeroporto Sá Carneiro, Lisboa não aprecia a ideia; os terrenos da Portela perdem valor com o colapso imobiliário; a Câmara de Lisboa afunda-se em dívidas; os estudos de viabilidade técnico-económica amontoam-se sem destino; as declarações do Sr. Ministro Mário Lino e do Sr. Secretário de Estado dos Transporte empenham o governo com o projecto e não se pode perder a face; muitos professores universitários estão demasiado comprometidos com
empresas de construção ou gabinetes de estudo e projecto para expressarem abertamente o que realmente lhes vai na alma, etc.

E o que nos dizem, por exemplo através dos mercados de acções, os capitalistas? Primeira página do "Expansion" espanhol de Sexta-feira 23 de Maio 08: "Las Companhias aéreas se desplomam por el fuerte aumento del petróleo"; "Air France-KLM caiu ontem 10% em bolsa"; "a debilidade da procura torna difícil transferir o custo dos combustíveis para os passageiros", "o sector aéreo dos EUA perdeu 2.000 milhões de dólares no primeiro trimestre do ano", etc. Os investidores, pequenos ou grandes, tão simplesmente, como dizem os economistas, são racionais, i.e. não são estúpidos.

Os mercados estão geralmente melhor informados e antecipam melhor o futuro que os "opinion makers" oficiais ou o governos. Entretanto, Nicolau Santos, no Expresso, certamente depois de ler a imprensa internacional, timidamente refere a contracção do negócio da aviação e um guru americano da sociedade da informação, no JN, afirma que num futuro próximo, de avião, só viagens de negócios. Por fim a CNN publica o seguinte.

Não é tudo isto suficiente para perceber o que significa Alcochete? Que as premissas em que se baseiam os estudos de viabilidade do projecto simplesmente se desvaneceram!

Carlos Aguiar

14 comentários:

Anónimo disse...

O aeroporto de Alcochete vai ser muito provavelmente o maior crime ambiental e o maior erro de ordenamento do território deste século. Simplesmente não consigo ver uma unica vantagem em construir o aeroporto em Alcochete. Económicamente também não vejo vantagens... Neste país cheio de génios e iluminados, fervorosos defensores do Aeroporto em Alcochete, talvez o defeito seja meu...o tempo dirá.

O Raio disse...

É necessário um novo aeroporto e é espantoso que se arranjem todas as desculpas possíveis para adiar a construção do novo aeroporto!

Quanto a, no futuro, viagens de avião, só de negócios, é ridículo. Isso provocaria o colapso da economia Mundial.

Sobre o problema do petróleo, é pouco provavel que o valor actual se mantenha dada a abundância de petróleo no planeta. Entrando em conta com todos os tipos de petróleo, há petróleo para séculos.

Além de que o petróleo não está tão caro assim. O dólar é que está barato.

Infelizmente as campanhas conduzidas por políticos e comentadores conduziram o povo português a um estado que o leva a recusar toda e qualquer obra ou empreendimento.

É triste...

AC disse...

Caro "o raio"

permita-me discordar da sua declaração "Infelizmente as campanhas conduzidas por políticos e comentadores conduziram o povo português a um estado que o leva a recusar toda e qualquer obra ou empreendimento."

Entre 2008 e 2013 o valor estimado para obras públicas será o maior de sempre. O povo português não recusa as obras, senão elas não seriam feitas. Qualquer cidadão tem o direito de discordar das opções tomadas por um governo e duvidar dos critérios que levaram à tomada de certas decisões. Ou será caso que já não existe o direito a opinar?

Existem obras fundamentais, como a autoestrada Coimbra-Viseu, parques eólicos e barragens (não o Sabor e não a Foupana) e provavelmente o novo aeroporto.
No entanto todos temos o direito de questionar porque "raio" foi prioridade uma autoestrada Viseu-Chaves, um euro com 10 estádios (quando 6 bastavam), um centro reprodutor do lince (quando os problemas de perda de habitat continuam por resolver)e outras decisões pouco fundamentadas e que custam milhões ao orçamento do estado.

Faz assim tão mal pensar na sustentabilidade da nossa economia a curto e longo prazo? Ou é fazer por fazer, senão o país para porque não há nada de novo para construir?

Anónimo disse...

e já agora, uma pergunta ao 1º anónimo. Uma vantagem de Alcochete é que não serão gastos milhões em pagar expropriações a peso de ouro.
Pode me indicar uma vantagem da OTA?

Anónimo disse...

Resposta: Em relação a vantagens de fazer na Ota: a questão é que na minha opinião, o aeroporto na Ota teria muito menos desvantagens ambientais e no ordenamento do território. E para clarificar, também não tenho nenhum empenho em que se fizesse o aeroporto na Ota. Já agora sabia que em Alcochete também vão ser gastos uns belos milhões em expropriações? Por acaso também sei que para fazer o aeroporto em Alcochete vai ser necessário construir uma nova ponte que vai custar 1,7 mil milhões de euros. Mas que interessa isso: nós somos um país cada vez mais rico... Daqui a uns anos mesmo que não hajam aviões, podemos usar a ponte para realizar eventos turisticos de pesca desportiva no rio Tejo...

AC disse...

A ponte Chelas-Barreiro era falada muito antes de haver a opção Alcochete, por algum motivo o corredor para a ponte já estava definido. É um pouco ingénuo pensar que se não se fizesse o aeroporto em Alcochete, a ponte também não seria feita.
Quanto aos milhões gastos em expropiações, por muito que se gastem milhões em Alcochete, na Ota iriam se gastar muitos milhões mais.
Quanto aos impactes. Em ambos os lados existem impactes fortíssimos, afinal estamos a falar de um aeroporto. A Ota apresenta algumas desvantagens, Alcochete outras. Não existe uma significativa diferença entre ambas, como tal, o factor "custo" parece ser um importante factor para a decisão.. e Alcochete será mais barato que a Ota.

Anónimo disse...

Os valores indicados pelo estudo do LNEC são os seguintes: "A análise financeira incluída no estudo do LNEC indica que a construção do aeroporto no CTA implica um investimento total de 3.312,8 euros, a preços de 2007, enquanto a opção pela Ota conduziria a um investimento total de 3.577,3 euros, o que representa uma diferença de 264,5 milhões de euros." A grande poupança são 264,5 milhões de euros. Como nestes valores não foram incluidos o custo da ponte, fácilmente se deduz que Alcochete fica mais caro.
A travessia rodoviária só vai ser construida devido à construção do aeroporto, fácilmente comprovado pelo facto da ponte Vasco da Gama estar longe mas muito longe de se encontrar esgotada. A juntar a isto, vai-se destruir uma das 10 mais importantes reservas de aves aquáticas da europa, urbanizar e retalhar milhares de ha de montados de sobro e terrenos agricolas, tudo isto sobre o maior aquifero subterrâneo de Portugal. Sinceramente, continuo sem entender quais as vantagens de Alcochete... e mais ainda, na conjunctura actual , com o aumento inevitável do preço do petróleo, acho uma aberração e uma inconsciência total ir gastar biliões em aeroportos e autoestradas.

José M. Sousa disse...

A propósito da crise da aviação, de novos aeroportos, do petróleo e do comentário de "o raio", recomendo a leitura de entrevista dada pelo economista chefe da Agência Internacional de Energia, em que lhe perguntam directamente se investir em infraestruturas que consomem muita energia, como aeroportos. não são o tipo de investimento errado tendo em conta a evolução do mercado petrolífero.

EcoTretas disse...

Há muitos problemas relacionados com a Ota/Alcochete. Um dos meus preferidos há vários anos é como andarão os aviões no futuro? A nuclear, a energia eléctrica, a quê? Acho que ninguém percebe isso!
Depois, porque não fazemos como os espanhóis fizeram? Não tenho nada a ver com eles, mas www.maquinistas.org dá uma leitura sugestiva!

Ecotretas
http://ecotretas.blogspot.com

O Raio disse...

Há nestes coimentários um espírito que mostra um temor ao futuro que, sinceramente, me assusta.

Dá a sensação de que, para já, é melhor não fazer nada até ver onde param as modas.

Meninos, as modas nunca param. Se os nossos antepassados tivessem este espírito ainda estariamos na idade da pedra...

José M. Sousa disse...

Em relação ao último comentário:

Se calhar devia assustá-lo mesmo!

Anónimo disse...

venha de lá o aeroporto, depois logo se vê..
após leitura do argumentos do "o raio", fico mais aliviado.. está tudo bem, o mercado trata de tudo e salve-se quem puder.

é engraçado como o capitalismo e o anarquismo têm resultados finais tão semelhantes...

O Raio disse...

Ena, grande confusão que para aqui vai!

Primeiro é de referir que o petróleo é abundante. Há muitos tipos de petróleo e ainda há muito sítio para prospectar. Até na Arábia Saudita!

Depois há outros combustíveis fósseis, o carvão, por exemplo, é um recurso abundante e do qual se podem fazer combustíveis. Na II Guerra Mundial os combustíveis utilizados pelos alemães, que não tinham petróleo, vinham do carvão.

Esta ficção do fim do petróleo vem de um documento do Clube de Roma, o Os limites do crescimento, escrito nos anos sessenta e que previa o fim do petróleo, se não estou em erro, para o início da década de noventa do Século passado.

De realçar que no início da década de noventa o preço do petróleo esteve num mínimo histórico.

Aliás, desde a década de sessenta que só há petróleo para trinta anos...

Quanto ao preço actual do petróleo é um preço meramente especulativo. Se o não fosse teria subido lentamente e não da forma brusca como subiu.

Quanto o promovermos o desperdício baixando o preço do petróleo basea-se num princípio vagamente religioso, o de que o gastar em demasia é mau.

Todos nós, quer o admitamos quer não, gostamos do desperdício. Se formos analisar o nosso modo de vida vemos que é todo feito de desperdício. Vamos de férias? Que horror! É um desperdício de recursos. Vemos televisão à noite, que horror, se estivessemos a dormir poupavamos uma data de coisas. Tomamos banho? Que horror, a porcaria também não cheira assim tão mal e os nossos antepassados durante séculos não tomavam banho... etc., etc.

Eu gosto do automóvel individual, gosto de passear de jipe pelas serras e planícies deste país, gosto de ir fotografar grifos em locais onde dificilmente teria chegado se não fosse em jipe, etc., etc. E não sou o único com este tipo de gostos. aposto que muitos dos que escreveram comentários inflamados aqui também gostam de passear de carrinho ao fim de semana e não só.

Para terminar só umas observações sobre os comentários do João Soares referentes à corrupção e de como Portugal se encontra longe dos Europa por causa destes nossos hábitos corruptos.

Bom, há uma certa razão nisto, estamos realmente longe da Europa, só que não é por termos corrupção a mais, será antes por a termos a menos.

Veja-se, por exemplo o que o deputado europeu, leader da bancada dos conservadores britanicos fez (ver http://euobserver.com/9/26255).

Então não é que o pequeno além de pagar centenas de milhares por ano a uma firma do Pai, ainda teve a lata de meter a mulher no seu staff?

Ou o facto da Cour d'assises (Tribunal de Contas) da UE se recusar a visar as contas da Comissão (creio que já há uns dez anos) por a contabilidade usada ser incompreensível e não permitir saber para onde vai o dinheiro.


Na minha modesta opinião este histerismo (perdoe-me o João Soares por este termo) sobre os nossos defeitos sempre comparado com as qualidades dos países europeus que se presumem santos, mostra um horrível provincianismo (volte a perdoar-me o J. Soares por mais este termo) de quem desconhece em absoluto o que se passa lá fora.

José M. Sousa disse...

«gosto de passear de jipe pelas serras e planícies deste país, gosto de ir fotografar grifos em locais onde dificilmente teria chegado se não fosse em jipe.»

Todos os males fossem esse. O problema não é o passeio de fim de semana. É a utilização diária por milhões de pessoas na deslocação casa emprego em automóvel individual ocupado, ainda por cima e na maioria dos casos por uma única pessoa, para só falar dos transportes terrestres.
Isso não é sustentável, quer se queira, quer não; é uma imposição da Natureza, da geologia, etc., por muito que nos custe! Basta fazer umas contas muito simples para perceber que se este modelo fôr seguido pela China e Índia, para não falar do Brasil, Rússia, etc. (e em grande medida está) e tendo em conta o crescimento demográfico, não há energia que nos valha, nem petróleo convencional, não convencional ou nuclear.