domingo, novembro 30, 2008

Não deveria Portugal arder mais?

Provavelmente, sim.


Fotografia roubada à UTAD

Um dia destes descobriu-se uma discrepância significativa entre os valores de área ardida registados oficialmente em dois organismos diferentes. A questão está equacionada e resolver-se-á. Não é pois isso que me interessa.
O que me interessa é o facto dessa discrepância resultar de diferentes importâncias atribuídas às queimadas.
Isto é, na perspectiva do combate, ou mesmo da produção florestal, queimadas não são problemas e portanto é legítimo não perder tempo com o registo rigoroso da área ardida que resulta delas.
Mas na perspectiva da evolução dos sistemas, é importante registar tudo o que arde para ser possível interpretar a evolução da vegetação. E desse ponto de vista vale a pena registar todas as áreas ardidas, mesmo as que resultam de queimadas.
Verificar isto conduziu-me à discussão de um aspecto que parece ser um consenso: a área ardida em Portugal tem aumentado ao longo dos anos.
Corresponde este consenso à realidade? Penso que sim se considerarmos os últimos vinte ou trinta anos. Penso que não, se recuarmos mais no tempo.
E a razão prende-se com a importância social do registo das queimadas.
Na realidade em grande parte do país, pelo menos 30% mas seguramente mais há mais tempo, o regime de exploração era o de um pastoreio de percurso com recurso a queimadas de tempos a tempos.
Ora estes 30% (percentagem seguramente por defeito) são cerca de 2 700 mil hectares. Se a frequência de fogo rondasse os cinco anos (o que é uma suposição razoável neste tipo de uso) um quinto destes 2 700 mil hectares arderiam por ano, ou seja 540 mil hectares, mais que o terrível ano de 2003. Mesmo admitindo uma frequência de fogo menor, digamos, de dez em dez anos, estaríamos ainda assim a supor que arderiam 270 mil hectares ano, muito acima da média anual que temos mesmo se usarmos a mais alta das médias rolantes de cinco anos, e só dois anos alguma vez ultrapassaram este valor: 2003 e 2005.
Ou seja, é bem provável que a área ardida anual que existia há cinquenta anos fosse bem maior que a que existe hoje e que consideramos, num consenso muito alargado, excessiva.
Sabendo que a roça de matos, quer para estrume, quer para aquecimento e cozinha, está muito diminuída e também o número de cabeças de gado que temos, fácil é pôr a hipótese de que o equilíbrio entre acumulação e remoção de combustíveis esteja muito longe de estar atingido.
Dir-se-á que esta hipótese é absurda porque com áreas ardidas da dimensão referida o alarme social seria semelhante ao alarme social provocado pelos fogos de 2003.
Não é verdade, o que provocou o alarme social em 2003 foi a natureza do fogo: a sua severidade, a sua concentração geográfica e o facto de ser incontrolável, afectando vidas humanas, casas, povoamentos, infra-estruturas, etc.
Ou seja, do que precisamos, eventualmente, não é de menos área ardida mas de menos área ardida nas condições em que ocorreram os fogos de 2003.
E para isso é bem provável que seja útil ter mais área ardida, mas em condições que não representem riscos para pessoas e bens.
Chamo a atenção para o comentário de Paulo Fernandes (das pessoas que mais sabem sobre a gestão do fogo em Portugal) no meu post intitulado "Portugal sem fogos?" e que transcrevo:
"Não tendo tempo para contribuir para a discussão deixo apenas uma pequena clarificação. A designada política do "deixa arder" era oficialmente designada como "prescribed natural fire" e, mais recentemente, "wildland fire use". Consiste em deixar arder os incêndios, geralmente de origem natural, desde que não ameacem bens/infraestruturas e desde que ardam em condições que satisfaçam os objectivos de gestão do território. Para ter uma ideia da importância deste "deixa arder" nos EUA diga-se que é superior à área de fogo controlado, que por sua vez é a principal actividade do Forest Service.Poderia esta política ser adoptada, aliás adaptada, para a Europa,? Não tenho a menor dúvida de que sim. Aliás, ela já é involuntariamente praticada em Portugal (nas épocas do ano em que a prontidão do dispositivo de combate é menor)...."
henrique pereira dos santos

5 comentários:

B. Gomes disse...

Meu Caro Henrique,

Com esta tirada "Ou seja, do que precisamos, eventualmente, não é de menos área ardida mas de menos área ardida nas condições em que ocorreram os fogos de 2003." começa a resvalar perigosamente para o campo lapalisseano, entendendo eu que "área ardida" é também sinónimo que qualquer outra utilização social da biomassa (pode ser boca de ovelha ou bocal de estilhaçadora, p.ex., talvez um pouco mais rendosos, mas isso deve ser a minha costela de florestal produtivista - seja lá o que isto for - a desviar-me do caminho da salvação nacional).

A novidade é tanta que, se bem me lembro, isso até já está no relatório estratégico da Comissão de Reflorestação depois dos incêndios de 2003.

Mas enfim, Henrique, já convenceu o auditório. Para não continuarmos em círculos, post após post, só falta mesmo é desenvolver o seguinte tema, o qual vai (agora em parelha) recorrentemente evitando:

HPS&PF - "E para isso é bem provável que seja útil ter mais área ardida, mas em condições que não representem riscos para pessoas e bens."

Será possível concretizar quais são, em Portugal continental, as "condições que não representam riscos para pessoas e bens"?

Em que situações jurídicas de propriedade? Em que regiões do País? Com as lestadas de estimação do Henrique, a 40ºC e 30 km/h? O Código Civil permite? Quem é que pode decidir que o meu pinhal ou eucaliptal ou sobreiral pode deliberadamente arder para benefício da "média anual dos incêndios porreiros"? O gajo dos bombeiros ou o do ICNB? Serei indemnizado, já que é para o bem comum? Em tempo de vacas magras, o cabedal necessário virá do Fundo Florestal Permanente, ou do Fundo de Intervenção Ambiental, que paga a "Reparação de danos ambientais
cuja prevenção ou reparação não
possa ser concretizada nos termos
do regime de responsabilidade
civil ambiental"? Ora aí está um bom uso para o dinheirinho dos sacos plásticos, as chioglossas que se danem.

Vamos lá avançar com esta troca de ideias!

B. Gomes

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro B. Gomes,
Pensei que fosse claro, ao fim destes posts todos, que onde for possível gerir o combustível com a boca da cabra (ou em condições mais favoráveis, a boca da ovelha) é o que defendo que se faça.
Tenho aliás contestado o facto do PRODER ser tão pouco amigo desta solução para a gestão de espaços rurais não agrícolas. Exactamente por ser um sistema mais rendoso.
Já da estralhaçadora tenho as maiores dúvidas que, de forma generalizada, seja rendoso.
Posto isto vamos então à sua questão.
Temos 30% de matos no país, pelo menos. A maior parte da área ardida, quase em todos anos, são matos. Qual é a perda para o proprietário se arder? E sobretudo, qual é a perda se arder controladamente com fogos de baixa intensidade em épocas do ano menos quentes face à alternativa de arder de forma descontrolada nos tais dias de lestada?
Saiamos agora dos matos e falemos dos povoamentos.
Qual é o problema para o proprietário de um fogo como o que está na imagem: de baixa intensidade e controlado? E sobretudo qual é vantagem face ao risco de fogo descontrolado, de copas e severo nos tais dias de lestada?
É isto que é arder sem provocar perdas de bens.
Mas no caso dos matos estão ainda os fogos que sendo completamente descontrolados lavram em áreas que regeneram facilmente e que não estão a ser economicamente aproveitadas.
Nessas áreas o que é mais inteligente: deixar diminuir assim o combustível ou empenhar recursos a travar o fogo, continuando o processo de acumulação de combustível até que um fogo saia de controlo (e haverá sempre um que o fará).
Confesso que ainda não ercebi o que defende.
Acha que é possível (já nem discuto se acha desejável) controlar todos os fogos em toda a parte?
Se não é, como preparamos o território para os fogos que existirão sempre descontroladamente?
Eu sei que está tudo na estratégia, mas também sei que está muito pouco na prática, começando pelo PRODER e pela gestão do Fundo Florestal Permanente.
Quanto à directiva d responsabilidade ambiental e legislação conexa aplica-se a problemas ambientais e não a perdas económicas provocadas pelo fogo. O risco económico da actividade económica, mesmo na produção florestal, é uma responsabilidade do agente económico.
henrique pereira dos santos

Paulo disse...

Nestas questões é sempre bom recorrer a um olhar exterior. Vejamos o que o historiador do fogo Stephen Pyne (http://en.wikipedia.org/wiki/Stephen_J._Pyne) diz:

"É difícl imaginar para a Europa outra macro-estratégia que não seja a do Fogo Controlado. Não existirão grandes áreas de paisagens bravias nem tão pouco a queima manterá o fogo circunscrito. A paisagem europeia é essencialmente uma paisagem cultural, elaborada durante milénios. (...) a Europa repetidas vezes substituiu um bioma domesticado por outro, como quem deita continuamente vinho novo em garrafas velhas. Em tal contexto, só uma versão moderna do Fogo Controlado terá, provavelmente, possibilidades de êxito. Isto significa, contudo, passar de uma paisagem forjada na economia agrícola para uma paisagem alternativa, baseada numa economia de serviços. Alguns locais poderão vir a ser rentáveis, e.g. algumas florestas de produção. Outros talvez sejam subsidiados em nome da protecção da natureza. Mas os grandes espaços exigirão a presença de pessoas para manipular tanto o combustível como a chama. Por razões de legado ecológico, a Europa precisará de fogo, mas provavelmente só o aceitará num contexto de "cultivo" próximo".

Cps
P. Fernandes

B. Gomes disse...

Meus Caros,

Lá estamos outra vez a andar aos círculos.

Por minha deficiência de expressão, ainda não consegui fazer valer a tese que defendo e as dúvidas que me assolam:

1. Fogo controlado: sim, muito, de Leiria à Malcata, de Caminha a Vila Real de Santo António, já que o Henrique já decretou o fim dos pinhais indígenas em Montesinho.

Como diria Fernando Pessoa, falta cumprir-se o Portugal do fogo controlado.

2. Todas as restantes questões que coloquei no(s) meu(s) post(s), e não vi por vós debatida, referem-se única e exclusivamente aos incêndios "deixa arder", "prescribed natural fire" ou "wildland fire use" na acepção de Paulo Fernandes. É disso que estamos a falar quando falamos de Yellowstone, não é de fogo controlado.

Estamos portanto na mesma.

Saúde

B. Gomes

Henrique Pereira dos Santos disse...

Não compreendo sequer a questão.
A área de povoamentos florestais ronda os 38%.
Destes muitos e muitos hectares não têm gestão activa (o que é uma forma de gestão).
Separando o que efectivamente são povoamentos com gestão de produção (cuja responsabilidade de defesa contra o fogo é dos gestores) dos que não têm gestão, juntando-lhes os matos e retirando-lhes as áreas de interesse natural de baixa resiliência face ao fogo estão encontradas as áreas em deixar arder pode ser uma opção sensata.
henrique pereira dos santos