terça-feira, novembro 18, 2008

A variável tempo



À procura de informação sobre a instabilidade geomorfológica das encostas do vale glaciar do Zêzere a montante de Manteigas encontrei no blog referido na primeira fotografia e num blog antigo sobre a geomorfologia da Estrela estas duas fotografias que me parecem do mesmo troço do vale, separadas por umas décadas mas que por uma coincidência notável foram tiradas de pontos de vista muito próximos.
Para quem acha que o território está num processo de degradação dos ponto de vista dos valores naturais, acho que vale a pena deixar aqui este testemunho.
henrique pereira dos santos

10 comentários:

Rotiv disse...

Olá :)
O Blogue dos Manteigas passou por aqui ;)
Um abraço,
http://bloteigas.blogspot.com/

TPais disse...

Posso arranjar-lhe fotografias "geograficamente" mais identicas se desejar. A fotografia mais recente tem um campo visual bastante menor do que a mais antiga. A principal diferença que se consegue percepcionar é, claramente, relativa à presença de maior coberto arboreo na mais recente. No entanto, nada se pode dizer sobre o verdadeiro valor biológico existente nas diferentes épocas. Não deixa de ser um par de fotografias interessante até porque se pode ver o bonito vale glaciar do zezere ainda sem a estrada nacional actual que dá acesso aos Piornos e à Torre.
TiagoP

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Tiago,
Tenho sempre interesse por todos os instrumentos que nos permitam integrar a variável tempo nas análises que fazemos da paisagem.
Quanto ao comentário deixe-me dizer o seguinte: apesar da menor nitidez da fotografia antiga, repare bem que no primeiro plano consegue identificar algumas moitas de arbustos que seguramente não têm o desenvolvimento das que se detectam na fotografia mais recente. E mesmo com a cautela que se impõe face à qualidade da imagem parece-me que vemos mais pedra à mostra na mais antiga.
Se assim for significa que os fundamentos da riqueza e deversidade do sistema, que assentam prioritariamente no solo e na produtividade, estão a aumentar e não a diminuir.
E é o sentido em que se vai caminhando que é relevante nestas fotografias. Sabendo que é apenas um conjunto de duas fotografias e nada mais.
henrique pereira dos santos

B. Gomes disse...

Caro Henrique,

já agora, para a percepção da dinâmica ser mais completa, por que não usou para comparação uma fotografia posterior ao grande incêndio de 2005, que calcinou as belas encostas, do primeiro ao último plano (salvaram-se as margens do Zêzere) da fotografia "recente"?

Arranjávamos mais "pedras à mostra" em pleno século XXI, algumas até em cima da estrada nacional - que o diga a Estradas de Portugal...

B. Gomes

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro B. Gomes,
A razão foi apenas uma, não tenho.
Mas agradeço a quem tiver, com os mesmos pontos de vista que dá com certeza uma discussão interessante.
Foi exactamente à procura de informação sobre a instabilidade geomorfológica das encostas que encotnrei estas duas.
E se algum dos comentadores da serra lá puder ir tirar uma fotografia de 2008, três anos após o fogo penso que seria excelente.
A discussão dos efeitos deste fogo e das suas consequências poderia focar uma discussão difícil e se tivermos a possibilidade de ter registos a partir de fotografias era óptimo porque ajuda a discutir com base em factos.
henrique pereira dos santos

ljma disse...

Eu também tenho a impressão que a área ocupada por floresta na serra da estrela está a aumentar, ou melhor, que se nota uma tendência para o aumento, que é periodicamente interrompida (mas não completamente anulada) pelos grandes incêndios. Em parte, essa tendência resulta da acção humana. Por exemplo, fotografias do início do Séc. XX mostram a zona das Penhas Douradas (os arredores do observatório meteorológico, os da Pousada de S lourenço) com vegetação arbustiva apenas, e relativamente rarefeita. Actualmente, essa zona é floresta, que foi plantada pelos serviços florestais na primeira metade do século passado. As espécies usadas (pinheiro silvestre, pseudotessuga) talvez não tenham sido as mais apropriadas, mas enfim, a floresta apareceu e oxalá se mantenha muitos anos.
Mas parece-me que há também aumento de áreas ocupadas espontaneamente por folhosas como carvalhos, freixos, pseudoplátanos, vidoeiros, castanheiros. Uma zona onde isso é particularmente evidente é a encosta da Covilhã. Suspeito que isso se deva ao facto de os incêndios deixarem disponíveis terrenos antes ocupados por pinheiro bravo e ao abandono progressivo da actividade da pastorícia.

Agora, devo dizer a minha opinião baseia-se apenas numa observação mais ou menos quotidiana, bastante distraída, não sistemática, parcial. Eu posso estar completamente enganado, claro.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro ljma,
Observação distraída é a de quem não constata isso que vê e continua a dizer que vamos a caminho da degradação total por causa do fogo.
Observação distraída é a de quem não percebeu o essencial: o fogo interrompe parcialmente o processo de recuperação mas não o anula.
Com distraídos como os que fazem o comentário como que que fez bem andaríamos nós.
Um dia destes faço um post sobre isso.
henrique pereira dos santos

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

Caro Henrique Pereira dos Santos:

De novo, a "Estrela e os fogos":

- Nunca duvidei que, no passado, o coberto vegetal da Serra da Estrela, e de boa parte de Portugal, fosse inferior ao actual.

- Nunca considerei que o fogo fosse impeditivo da regeneração natural. Aliás, em diversos tipos de ecossistemas ele é até essencial à renovação biológica. Nada disto esteve alguma vez em causa. Não me obrigue a repetir-me!

- A minha questão foi sempre a do efeito de repetidos incêndios, num curto espaço de tempo, na regeneração natural de uma determinada área e, por consequência, na taxa de erosão.

- O Henrique disse-me, uma vez, que não possui nenhum estudo científico que me contrarie. Acredito: eu também não possuo nenhum que me apoie.

- Restam-nos casos isolados: peguemos então no exemplo da encosta da Covilhã que o José Amoreira referiu. A mesma encontra-se em fase avançada de regeneração, sobretudo nas zonas onde houve plantações dos serviços florestais e nas zonas onde o pinhal era, anteriormente ao incêndio, mais denso.
Esta regeneração é possível porque essa zonas não ardem há 18 anos. Curiosamente, nessa mesma encosta logo à saída da Covilhã, existe uma pequena porção que voltou a arder já depois do grande incêndio de há 18 anos. Esta zona terá ardido há uns 6 a 8 anos.
Este terreno, que se encontrava a regenerar na sequência do primeiro incêndio, mostra agora uma muito maior dificuldade para repor o coberto arbóreo após o segundo sucesso. A diferença é notória mas, como no caso desta imagens do vale do Zêzere, são "apenas fotografias".
A validade científica destas análises parece-me superficial e merecedora de estudos mais aprofundados.

- O José Amoreira tem ainda razão num outro aspecto. O "abandono" do pinhal, em consequência de questões várias, propiciou um aumento das áreas ocupadas por folhosas; nunca, como agora, me lembro de tantas zonas de carvalhal na Beira Interior; no entanto, este "abandono da paisagem" e os incêndios, propiciaram um aumento exponencial da área ocupada por invasoras, como as mimosas.
E, este facto, demonstra como os incêndios têm contribuído para um processo de degradação do território do ponto de vista dos valores naturais...Espero que, neste ponto de vista, não me contrarie. Só não vê quem não quer...


Cumprimentos.

ljma disse...

Este aumento da área ocupada por mimosas que o Pedro refere é um aspecto que me esqueci de referir no meu comentário anterior. Concordo com ele quando diz que se deve aos incêndios (mas acrescento que igualmente se deve ao abandono da agricultura, nomeadamente das quintinhas na base das encostas).
(Já agora, outro aspecto que não referi foram os esforços de plantação e sementeira do programa "Um milhão de carvalhos para a serra da Estrela" da associação cultural Amigos da Serra da Estrela, nos quais estou, como o Tiago [olá Tiago!], mais ou menos envolvido. Ainda é cedo para fazer um balanço, mas já foram plantadas umas vinte mil árvores e semeadas mais do dobro, entre carvalhos, vidoeiros e outras espécies autóctones. Muitas não sobreviverão, claro.)

Agora voltando à conversa, vejamos, o que se está a discutir aqui? Que o fogo é uma coisa boa, que não vale a pena proteger a floresta do fogo, que venha ele? Com uma tal tese não posso concordar, mas alguém concorda?

Eu não consigo evitar um grande sentimento de perda pessoal face a um incêndio como o do vale do Zêzere de 2005. Esse incêndio em particular deixou-me muito abalado. Mas creio que, a longo prazo (digamos em trinta anos), terá mais influência na paisagem e na biodiversidade local a gestão que se fizer da área do que este episódio concreto do incêndio. E até pode acontecer, passados trinta anos que a situação esteja, de facto, melhor. Fora a questão das mimosas, diria que é o que está em vias de acontecer na encosta da Covilhã, com o crescimento desta floresta variada que ocupou a mancha quase contínua de pinheiro bravo, destruida no incendio de ~1990.

Mais uma vez, não se leia nas minhas palavras uma apologia do fogo. Faz-me sofrer tanto como a qualquer um e partilho os lamentos de desespero face ao fogo. Mas a vida (entenda-se: a Vida) continua.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Pedro Nuno Teixeira Santos,
Eu não o obrigo a coisa nenhuma, longe de mim tal intenção.
Sim, é verdade que um dos efeitos mais negativos dos fogos é o aumento de velocidade de infestação por acácias.
Aos dois,
O que está em discussão não, nem poderia ser, fogos ou não fogos porque não está na nossa mão não ter fogos.
O que está em causa é se queremos ter os fogos que queremos da forma que queremos e um território preparado para que os fogos que não queremos causem o mínimo de efeitos negativos, ou se queremos fogos que não queremos e um território gerido no pressuposto de que é possível evitar os fogos.
Esta é a questão.
Quanto à frequência do fogo tenciono fazer um post um dia destes a explicar por que razão estou convencido de hoje temos fogos mais violentos, mais extensos mas muito menos frequentes.
henrique pereira dos santos