segunda-feira, dezembro 29, 2008

Do mundo rural II

"Vou arrancá-las. Para botar um bocado de sulfato tenho de chamar um homem, o tractor tem de andar de roda delas para lavrar o campo e a hora de tractor está muito cara e o pior não é isso, o pior é que ninguém vem pelas laranjas, ninguém nas quer, ficam aí todas pelo chão."
E enquanto isto, qualquer café, qualquer pastelaria, qualquer área de serviço das auto-estradas em Portugal considera o sumo de laranja um produto de luxo.
Quando, como nesta altura, quaisquer 50 a 70 cêntimos permitem comprar um quilo de laranjas para sumo (e é fácil ter preços mais baixos), qualquer café vende um copo de sumo (será preciso um quilo?) a um euro e meio pelo menos (a grande maioria mais, seguramente).
Bem sei que há perdas, bem sei que uma laranja tocada estraga um sumo inteiro, antigamente ainda havia o serviço de as espremer (o que hoje quase não existe, como verifica qualquer cliente ao olhar para a máguina que as espreme), mas a Laranja do João, em Tavira, nos meses de Verão vende um litro e meio de sumo por dois euros e um copo (dos grandes) a 50 cêntimos (gastando mais de uma tonelada de laranjas por dias numa barraquita no meio da praça).
E nas cantinas escolares, alguém se lembra de ver a opção de sumo de laranja feito na hora?
henrique pereira dos santos

6 comentários:

Gonçalo Rosa disse...

Desde criança que ouço dizer "se queres ganhar dinheiro, não produzas, sê intermediário"...

Há muitos e bons exemplos da verdade inerente aquela ideia. Constato, desde há muitos anos que seria muito importante que nos sectores primários de produção houvesse maior capacidade de encontrar soluções para este problema que, nos casos extremos, colapsa a propria produção, mais ainda num cenário de mercado único e de globalização. Uma das soluções possíveis passa por conseguir vender o produto já transformado directamente ao consumidor final.

Presentemente é particularmente importante a aquisição de novas capacidades, nomeadamente através da obtenção de mais formação, com aplicação prática nas actividades que desenvolvemos. Produzir boas "laranjas" é importante, mas manifestamente insuficiente.

Num mundo onde a globalização (também) da economia e da produção se vai instalando, mais eficaz que nos lamentarmos pelo mercado já não ser o que era, é respondermos às novas solicitacoes.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Gonçalo,
Repara que quer num quer noutro post as pessoas se queixam da falta dos intermediários e não do se excesso.
Teríamos muito a discutir entre essa dicotomia entre produzir e comercializar.
henrique pereira dos santos

Gonçalo Rosa disse...

Caro Henrique,

Não disse que havia excesso de intermediários. O que disse é que quem, num mercado global se fica por produzir "boas laranjas", arrisca-se a ficar com elas nas mãos, ter que as dar ou vender abaixo do preço de custo.

Gostar/concordar ou não da forma como funciona o mercado, é absolutamente irrelevante se quisermos ser competitivos.

Nunca estes e outros mercados mudaram tanto em tão pouco tempo. Tenho a noção da angustia que isso provoca em quem produz, especialmente aos mais idosos, habituados a uma certa estabilidade na forma das coisas funcionarem. Mas, repito, se quisermos estar no mercado é vital encontrar novas soluções: termos uma maior capacidade de completarmos "ciclos produtivos", produzirmos produtos com mais valias, revermos o nosso associativismo, entre outros aspectos.

Paulo Tenreiro disse...

"E nas cantinas escolares, alguém se lembra de ver a opção de sumo de laranja feito na hora?"

Nas escolas básicas é impossivel. A gestão do fornecimento das refeições pertence às autarquias, que contratam normalmente IPSS para o fornecimento das refeições. Se neste momento (no concelho a que pertenço) a autarquia não se responsabiliza pela contratação de funcionárias que façam o empratamento, quanto mais que forneçam o sumo de laranja na hora. Alem de que aumentaria o custo da refeição, que está a ser vendida à autarquia a menos de 2 euros e que por sua vez, associada aos subsídios estatais e à comparticipação dos pais é vendida aos alunos a quase 6 euros.

Estão a ver alguma Camara Municipal a perder dinheiro com este negócio da restauração, para fazer sumo de laranja na hora?
Paulo Tenreiro

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Paulo Tenreiro,
Confesso que não percebi bem as contas das refeições e sei o suficiente de economia doméstica para saber que é possível fazer refeições completas a dois euros por cabeça mas dificilmente todos os dias, pelo menos com as exigências associadas aos refeições escolares.
Mas essa é uma questão marginal, não percebi a dificuldade de ter uma máquina de sumos em que só é preciso pôr laranjas em cima e limpar de vez em quando. Exactamente o que estou a dizer é que não há grande diferença de custo (incluindo mão de obra) entre do sumo de laranja e muitas outras bebidas, em muitas alturas do ano.
E que tenho a certeza de que se os eleitores valorizassem estes aspectos seguramente as câmaras gastariam os cêntimos a mais para as garantir.
O que se passa, e é o que estou a tentar mostrar com a sequência de posts que estou a fazer, é que há uma ruptura profunda entre o mundo rural e urbano (sendo que a maioria dos que hoje vivem no mundo rural são urbanos) que se traduz em políticas públicas que se demitiram de qualquer esforço de controlo social do território não urbano.
Sobretudo porque os decisores urbanos não fazem qualquer esforço para compreender o mundo rural, considerando-o um atraso de vida de que seria bom o país desenvencilhar-se, se pudesse ser.
henrique pereira dos santos

JG. disse...

Há poucos anos atrás, numa feliz parceria entre as direcções regionais de Agricultura e de Educação do Algarve, verificava-se a distribuição GRATUITA de sumo de laranja nas escolas da região. permitindo aproveitar grande parte da produção que estava fora dos circuitos de comercialização devidos aos apertados critérios de aparência/tamanho, que entretanto foram flexibilizados.

Não sei como é agora, mas parece-me que é o mesmo partido que está no Governo, embora grande parte das competências no domínio da educação tenham passado para as câmaras municipais.

Aqui está uma boa ideia para a intervenção da renovada AMAL, se o próximo presidente estiver para aí virado. E como parece que vai um homem ligados às coisas do campo, até pode aproveitá-la para ficar na fotografia junto dos seus!!!