domingo, agosto 09, 2009

Cabras, fogos e o admirável mundo das plantas

Em 1974, John Phillip Grime, actualmente professor emérito da Universidade de Sheffield, publicou um artigo seminal na revista Nature com o titulo "Vegetation classification by reference to strategies". Grime revelou que as plantas têm estratégias de vida diferenciadas que as permitem sobreviver num mundo de intensa competição por recursos escassos. As plantas foram agrupadas em três grupos, consoante as suas estratégias de vida: as ruderais, tolerantes ao "stress" e as competitivas.

As ruderais seriam as primeiras a colonizar um dado ambiente após uma perturbação como seja o fogo, o sobre-pastoreio, ou a "limpeza" da vegetação para actividades agrícolas ou florestais, etc. São, portanto, plantas que beneficiam de - e nalguns casos promovem - condições que favorecem as perturbações cíclicas no ambiente. Um exemplo conhecido é a esteva (Cistus ladanifer) que coloniza, em regime de quase monocultura, solos excessivamente pastoreados ou queimados do sul do País e que possui estratégias de vida que contribuem para aniquilar espécies competidoras. A esteva consegue este objectivo através da produção de uma substância (a cola nas suas folhas que se chama "labdano") que favorece a ignição do fogo, logo a manutenção de condições de perturbação que a beneficiam e que, quando depositada no solo, inibe o crescimento de outras plantas (um mecanismo semelhante ao do eucalipto).

As plantas tolerantes aos "stress" seriam as que suportam condições ambientais extremas, no limite do que é possível pela maior parte das plantas. São exemplo, os líquenes, as plantas tolerantes a ambientes salinos, de estrema aridez, etc.

As plantas competitivas seriam as que logram vingar em ambientes de intensa competição, característicos de ambientes biológicos complexos como sejam as florestas. Contrariamente às ruderais são plantas que beneficiam de condições de baixa perturbação e, como tal, possuem alguns mecanismos que inibem a propagação de perturbações. É o caso de muitas plantas que "ardem mal" (por exemplo os medronheiros, os lentiscos, as murtas, etc) e que beneficiam das condições criadas por comunidades estruturalmente complexas, como os bosques, que favorecem a existência de predadores de topo que reduzem a incidência de herbívoros e logo o risco de sobre-pastoreio.

Vêm estes considerandos a propósito dos inspirados posts do Henrique Pereira dos Santos sobre as aventuras e desventuras de Thomas. A tese defendida pelo Henrique é que a intensidade dos fogos em Portugal se deve em grande parte ao abandono dos campos e que a solução passaria por revalorizar estas actividades de modo a manter a sua função ecológica (e económica).

Naturalmente, não discordo da tese até porque parte do que o Henrique defende é factual. Porém, o raciocinio está incompleto pois não reconhece que a especial propensão dos campos abandonados para o fogo é resultado de um sistema de exploração da terra que criou condições para uma sobre-abundância de plantas ruderais que possuem estratégias para manter, em regime cíclico, as condições para aparecimento de grandes fogos.

Como se resolve o problema? Uma solução, implícita nas propostas do Henrique, é emular o sistema tradicional de exploração agro-pastoril do território. Caricaturizando, a ideia é que as cabras reduziriam a biomassa acumulada, logo a magnitude dos fogos. Sabemos, porém, que este é justamente o sistema que, após abandono, criou condições para a propagação de grandes fogos em Portugal. Portanto, é uma solução potencialmente paliativa, ou seja, uma solução que não resolve o problema de fundo (existência de condições que favorecem as plantas ruderais) mas que resolve o sintoma (excesso de ruderais) por via de uma actividade económica, o pastoreio, cuja rentabilidade - logo perenidade - depende de factores variados, alguns dos quais são externos.

Será a melhor solução? Certamente que é mais eficaz do que nada fazer e/ou simplesmente apagar fogos com meios cada vez mais avançados e caros. Mas outra solução seria gerir o território de uma maneira mais integrada e baseada num zonamento, de fina escala, sobre usos potenciais de cada parcela. Num cenário ideal, a gestão do território deveria limitar a pastorícia a áreas concretas, com baixo potencial para o desenvolvimento de florestas. As diferentes espécies de herbívoros (cabras, ovelhas, cavalos, etc) e as densidades dos mesmos deveriam ser cuidadosamente controladas e o objectivo de gestão da paisagem deveria incluir a criação de mosaicos de vegetação onde as plantas com características competitivas (florestais) tivessem um papel importante na limitação da propagação do fogo. Estamos a falar, em particular, de linhas de água, zonas de vale, vertentes suaves expostas a norte, etc.

Será utopia propor modelos de gestão do território baseados num zonamento por objectivos, que não sejam exclusivamente mercantilistas? Talvez este não seja o momento histórico para fazer propostas desta natureza mas não deixa de ser paradigmático que volvidos mais de 30 anos sobre a publicação dos influentes trabalhos de Grime, continuemos a pensar a gestão do território sem procurar entender o comportamento das plantas e sem entender que trabalhando com elas mais do que contra elas alcançaremos uma gestão mais sustentável dos recursos escassos que estão à nossa disposição.

12 comentários:

Henrique Pereira dos Santos disse...

Miguel,
Tirando o facto de dizeres que discordo disto que escreves, concordo com o que escreves.
Quando valorizo a cabras (guerra que pressinto que vai sendo ganha, como demonstra o Expresso desta semana, que já fala em cabras sapadoras) é por contraponto à ideia irracional e carísima de que podemos erradicar o fogo nos nossos sistemas.
Isto é, é porque temos uma longa fase de transição para gerir e devemos usar os intrumentos adequados, que sejam economicamente sustentáveis.
O mais óbvio e fácil são as cabras e timidamente já comecei outra guerra intelectual (a do vento Leste está mais ou menos arrumada, a das cabras para lá caminha): a valorização da estrumação e da criação de fertilidade a partir dos matos.
Não confundamos a defesa dos instrumentos com a discussão de objectivos.
Há uns posts atrás publiquei um texto que escrevi para o Público (menos floresta, por favor) onde defendia a não gestão entre os instrumentos a usar em algumas partes do território.
É uma evolução das minhas posições de há uns anos, depois de me convencer que tinhas razão nalgumas das objecções que fazias ao que tenho escrito.
henrique pereira dos santos

Paulo disse...

Miguel,
Alterar a quantidade de biomassa ou a sua qualidade (do ponto de vista do fogo) são 2 faces da mesma moeda. A alteração da qualidade da biomassa visando sistemas mais complexos/competitivos/florestais pode-se atingir naturalmente ou através da gestão (tal como a descreves assemelha-se a jardinagem). A jardinagem esbarra na realidade do abandono do mundo rural. As condições edáficas em muitos casos (a grande maioria?) não permitem a evolução natural para a floresta, o que implica que os sistemas "ruderais" permanecerão "ruderais". Sem um ciclo de perturbações estes sistemas "ruderais" perderão produtividade/biodiversidade e contribuirão para incêndios maiores e mais severos. Por outro lado não é líquido que a evolução para sistemas florestais esclerófilos (considerando a situação dominante em Portugal) reduza o perigo de incêndio a prazo. Os mediáticos incêndios californianos afectam exactamente espécies similares àquelas que descreves como pouco "ardíveis".

Paulo Fernandes

Miguel B. Araujo disse...

Paulo,

1. Não me parece exacto que os "incêndios californianos afectam exactamente espécies similares àquelas que descreves como pouco 'ardíveis'". Queres precisar um pouco mais a tua afirmação para que a possamos discutir?

2. O que chamas jardinagem também se pode chamar ecologia da restauração (restoration ecology), se quisermos usar uma terminologia mais exacta. Os métodos usados nesta disciplina são variados e adaptáveis a situações diferentes. Nuns casos aproximar-se-ão da jardinagem (restauro intensivo), noutros nem tanto. Os exemplos que dei no "post" aproximam-se mais a um zonamento de potencialidades que pode e deve ser seguido de medidas simples como sejam a regulação do pastoreio escolhendo os tipos de animais e densidades permitidas em cada tipo de sistema (nalguns casos pode envolver o "fencing"). Mas pode incluir também o fogo controlado. A questão de fundo é que nem todo o território deve ser sujeito às mesma medidas de gestão e se o pastoreio (ou o fogo como forma de gestão) deve ser usado nalgumas áreas, também é verdade que é contraproducente noutras onde existem possibilidades de restauro de sistemas menos permeáveis ao fogo..

3. Os sistemas ruderais que se auto-perpetuam (ciclo-climax) não são regra em todo o território. Ocorrem em áreas com solos pobres, expostos a condições climáticas mais extremas e, frequentemente, em sistemas que foram depauperados de faunas com cadeias tróficas completas. Assumindo que o último factor é uma fatalidade, restam os dois factores anteriores que se devidamente compreendidos permitem criar condições para o aparecimento de mosaicos onde o ciclo-climax convive com sistemas mesófilos que ardem menos. Conheço relativamente bem as serras a sul do Tejo onde se vêm vários exemplos de formações mesófilas que convivem lado a lado com formações xerofíticas. É o recuperar destes mosaicos que vale a pena considerar na gestão do território.

Miguel B. Araujo disse...

Henrique,

Folgo que afinal tenhamos uma aproximação de pontos de vista, ainda que eu não tenha dito que discordavas do que eu digo; apenas referi que o raciocínio que explanavas era incompleto. A vitória das cabras, que descreves, se não for devidamente acautelada, poderá representar uma maior uniformização da nossa paisagem. As cabras comem tudo e favorecem o crescimento das plantas que ardem melhor!! E isso tem de ser dito a par do potencial existente no uso do pastoreio como forma de gestão do território, caso contrário os políticos ficar-se-ão apenas pela parte da mensagem que é mais simples e que é repetida mais vezes.

Quanto aos instrumentos creio que estamos de acordo. Apenas acrescento que as medidas que referi "in passing" no post poderiam ser facilmente incorporadas nas práticas de gestão florestal profissional e servir, nomeadamente, para orientar alguns dos critérios usados para certificação de florestas em ambientes mediterrâneos.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Miguel,
O problema do que dizes é que se refere a uma realidade que não existe: a da gestão de grande parte do território.
O problema não as matas geridas ou os sítios onde ainda hoje pastam cabras (ou outros animais) o problema são os milhares de hectares em que não existe qualquer controlo social do território.
A opção tem sido a de procurar esse controlo a partindo das políticas de supressão do fogo, opção insensata e cara.
É na discussão dessa opção que centro os meus esforços porque é razoavelmente inútil discutir opções teóricas de gestão sem aderência à realidade.
henrique pereira dos santos

Paulo disse...

Miguel,
Muitas espécies do chaparral californiano são fisicamente muito similares aos nossos medronheiros, pistacias, phylireas, etc. Folhas relativamente espessas e ausência de biomassa morta aérea não ajudam à propagação do fogo. Por essa razão o intervalo entre fogos no chaparral (ou neste tipo de chaparral) tende a ser relativamente longo (30, 50, 70 anos...) até que haja acumulação de combustível lenhoso disponível para arder(ramos e plantas mortas). Mas quando ardem é com a intensidade que se sabe... Do outro lado do espectro estão os arbustos com abundante necromassa e/ou elementos finos (ericáceas, tojos) que suportam intervalos curtos entre fogos e podem arder em qualquer época do ano. As estevas que referes estarão talvez a meio caminho.

Paulo Fernandes

Miguel B. Araujo disse...

Caro Henrique,

HPS: "inútil discutir opções teóricas de gestão sem aderência à realidade"

E o que é a realidade? O que já existe e portanto não vale a pena discutir (supressão do fogo)? Ou o que não existe mas poderia existir a curto prazo sem custos maiores mas que não resolve o problema apenas o adia (cabras)? Ou o que não existe, poderia resolver os problemas estruturais com que nos debatemos mas cuja implementação não se perfila num horizonte temporal de curto prazo (gestão integrada do território incluindo considerações sobre a vegetação potencial de cada área)?

Eu não sou um burocrata, sou um académico e como tal tenho dificuldade restringir o meu pensamento às balizas daquilo que tu chamas de realidade. E se o fizesse não estaria a cumprir a minha função social pois não me pagam para gerir o quotidiano. Pagam-me para pensar além do quotidiano. é das múltiplas divagações "teóricas sem aderência à realidade" que surgem as ideias e as inovações que nos permitem, entre outras coisas, estar asqui a conversar a quilómetros de distância.

Miguel B. Araujo disse...

Paulo,

Não conheço a fundo a flora e a dinâmica da vegetação do sul da Califórnia para avaliar as consequências do que dizes mas tenho acompanhado os debates acesos que existem sobre as diferenças entre a dinâmica do fogo no Sul da Califórnia (EUA) e na Baja Califórnia (México), sendo que um dos argumentos utilizados para justificar as diferenças entre os fogos de um e outro lado da fronteira são pequenas diferenças de clima e estrutura dos povoamentos. Serve isto para concluir que se estas pequenas diferenças entre vegetações semelhantes provocam diferenças importantes nos padrões de fogo, qualquer extrapolação entre a Califórnia e Portugal deve ser tomada, como dizem os Ingleses, com uma pitada de sal.

Nota também que quando se falam de espécies com estratégias R (ruderal) e C (competitivas), há considerar não só a morfologia mas a ecologia dos povoamentos em que as plantas ocorrem. Os nossos medronheiros, pistacias, murtas, folhados, etc, são relíquias de formações vegetais do terciário e têm o seu óptimo em condições climáticas sub-tropicais. Ora estas espécies podem em certas circunstâncias ocorrer em chaparral (mato baixo) se as condições de disponibilidade hídrica forem elevadas (e.g., solos calcários). Mas se o solo não for um veículo eficaz para reter água, a viabilidade destas comunidades está limitada a localidades que por, motivos climáticos ou micro-climáticos, permitem a sua existência (os tais vales encaixados, vertentes expostas a norte, zonas costeiras, etc). Em situações limite para a sua existência, estas espécies persistem em associação com plantas adaptadas a ambientes mais secos o que limita a sua capacidade para actuar como "buffer" contra o fogo (não sei mas é possível que seja o caso do chaparral da Califórnia).

Portanto, a questão de fundo, volto a dizer, é a do zonamento da vegetação potencial do território à escala da paisagem. Sem fazer este exercício de ecologia, a gestão do fogo, da pastorícia e da floresta terá como efeito a homogeneização da paisagem e a criação de condições favoráveis à propagação de sistemas vegetais onde vigoram as plantas ruderais que, nos nossos territórios, tendem a favorecer o fogo.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Miguel,
Mais uma vez em tese estou de acordo (mesmo não sendo eu um académico mas um burocrata).
Mas estava a responder à tua objecção: "E isso tem de ser dito a par do potencial existente no uso do pastoreio como forma de gestão do território, caso contrário os políticos ficar-se-ão apenas pela parte da mensagem que é mais simples e que é repetida mais vezes".
É um típico argumento de contingência, não de discussão teórica.
E o que disse é que na contingência actual preocupar-me com essa questão no discurso político é pouco mais que inútil porque estamos noutro patamar completamente diferente da discussão contingente (que pode ser, e neste caso é, diferente da discussão conceptual).
henrique pereira dos santos

Paulo disse...

Miguel,

Basicamente de acordo. Só quis salientar que as espécies arbustivas a que te referias não são assim tão pouco "ardíveis". Não extrapolei, apenas dei um exemplo fácil. Relíquias ou não, os medronheiros e espécies similares formam matagais altos nos calcários do centro e sul do País que são estrutural e fisionomicamente bastante comparáveis ao chaparral da Califórnia, ardendo da mesma forma.
A polémica californiana basicamente opõe os defensores dos regimes de fogo regulados pela meteorologia (Keeley, Moritz) àqueles que defendem o papel dominante do combustível (Minnich). De ambos os lados, mas principalmente do primeiro, os respectivos artigos revelam falta de conhecimento básico que permita ir mais longe nas análises, e são frequentemente enviezados pela ideologia e preconceito. Talvez a virtude esteja no meio...

Carlos Aguiar disse...

Miguel, alguns comentários, na sequência dos teus e dos do Paulo e do Henrique.
1) Excluindo alguns habitats especiais (e.g. planalto central da S. da Estrela), desde que estejam disponíveis diásporos a floresta é uma inevitabilidade sob regimes de baixa perturbação. O tempo a que se processa a restauração do bosque pode é exceder a nossa paciência para esperar por ele.
2) As cabras e as ovelhas reduzem a velocidade de reconstrução da biomassa dos matos-baixos pirófilos (e.g. urzais e estevais), mas não a impedem. Em Portugal, os matos de Ulex minor dos planaltos do NW são talvez o único tipo de mato-baixo que poderia (já não o é) ser totalmente controlado pelo pastoreio (de vacas).
3) Parto do princípio que o actual regime de fogo das áreas marginais abandonadas pela agricultura prejudica os serviços ecossistémicos prestados por estes espaços. Para reduzir a área ardida é necessário, como referes no teu post, substituir e compartimentar com vegetação resistente ao fogo os matos-baixos de pirófitos R-estrategistas e alguns tipos de matagais muito susceptíveis ao fogo (e.g. giestais).
4) O bosque é uma opção óbvia. Porém, dois outros tipos de coberto são essenciais na construção de paisagens pouco susceptíveis ao fogo: os pastos, anuais ou perenes, e os agroecossistemas.
5) A restauração do bosque faz sentido, como dá a entender o Paulo, em solos adequados, que podem ser solos de palmo em zonas temperadas a média altitude ou coluviões em ombroclimas secos. O bosque perenifólio, porém, convém que seja sulcado por descontinuidades porque, como diz o Paulo, arde. Há pouco anos atrás não ardeu o formoso, e famoso, bosque de Montserrat, na Catalunha?
6) A cabra e a ovelha são instrumentos de gestão, não são soluções. O prado sim, é uma solução. No entanto, os prados não são todos iguais. Os prados anuais (o principal alimento de ovelhas e cabras no interior norte e centro) que convivem em mosaico com as formações abustivas-baixas são pouco produtivos e apresentam um pico de produção de biomassa concentrado na Primavera, e muito dependente do padrão de chuvas primaveril. Consequentemente, a sua produtividade flutua acentuadamente de ano para ano. Nos solos mais delgados, sob clima mediterrânico, dificilmente se podem converter estes prados anuais em prados vivazes ou em pastagens melhoradas economicamente viáveis. Temos, de facto, de aceitar que uma parte do território nacional (1/3 ?) é pouco desejada pelos privados e que apenas produz serviços ecossistémicos não valorizados pelo mercado.
7) O interesse colectivo destes serviços terá que ser garantido pelo Estado; i.e. o Estado tem que chamar a si a gestão destes espaços. Uns terão que ser queimados ciclicamente, tendo o cuidado de conservar a matéria orgânica do solo; noutros haverá que conduzir os bosques nascentes para alto-fuste.
8) Os coluviões e outros solos espessos deveriam ser recuperados para a agricultura e para a pastorícia. A pastorícia de percurso parece-me pouco interessante porque anda sempre de mãos dadas com o fogo. A sedentarização (“fencing”) da pastorícia em pastagens naturais ou semeadas, complementada com a produção de forragens, parece-me mais interessante.
9) Numa perspectiva de maximização de serviços ecossistémicos é melhor criar uma malha intricada de pastos permanentes e terra arável agricultada pouco permeável à recolonização por matos, do que atrasar 1 ou 2 anos a restauração dos matos pirófilos. Em vez de uma estrutura homogénea de matos-baixos pontuada por pequenos oásis colonizados por turistas de Verão, teríamos uma “parkland” com agricultura e todos os tipos de vegetação natural e semi-natural.
10) Teorizar a ecologia é um exercício fundamental para gerir bem o território. No entanto, para esta ser operacionalizada é necessário ser “barrada” com uma camada de teoria económica institucional. É nesta camada que entram as políticas que vertem em usos as teorizações da ecologia. E é aqui, parece-me, que falhamos, os portugueses e todos os “mediterrânicos do norte”.

Miguel B. Araujo disse...

Carlos,

Obrigado pelos teus comentários. Relativamente ao teu último, não creio que haja uma falha dos teóricos da ecologia dos mediterrânicos mas tão somente uma falha da introdção dos principios da ecologia na gestão do território. Nem todos podemos ser especialistas em tudo mas quem toma decisões deve ter a preocupação de integrar o conhecimento existente. E sobre isto deixo-vos um delicioso excerto de um texto que extraí dum livro do Ramon y Cajal que estou a ler:

"La ciencia pura es como la soberbia de oro y grana que se dilata en Occidente, entre destellos de luz y matices maravillosos: nos es ilusión, es el resplandor, la hermosura de la verdad. Pero esa nube se eleva, el viento la arrastra sobre los campos y ya toma tintas más obscuras y más severas; es que va a la faena y cambia suas trajes de fiesta, digámoslo así, por la blusa de trabajo. Y entonces se condensa en lluvia, y riega las tierras, y se afana en el terruño, y prepara la futura cosecha, y al fin da a los hombres el pan nuestro de cada día. Lo que empezó por hermosura para el alma y para la inteligencia, concluye por ser alimento para la pobre vida corporal" (prosa de José Echegaray).