domingo, setembro 20, 2009

Educação ambiental ou comunicação?

Há muitos anos que tenho uma posição de princípio cautelosa em relação à educação ambiental. Isso nunca me impediu de participar, coordenar e executar projectos de educação ambiental, de ter aprendido muitas coisas nesses projectos e ter muito gosto nisso (e a menor das aprendizagens não foi com certeza a procurar desenhar um percurso interpretativo para os meninos da Casa Pia que eram simultaneamente cegos e surdos, para além de terem outros handicaps).
Mas não percebo o que a educação ambiental, ou melhor, quase toda a educação ambiental que conheço, acrescenta à educação propriamente dita.
A maioria da educação ambiental que conheço é essencialmente a tentativa de impor a visão moral do mundo do educador a crianças sem idade para terem capacidade crítica suficiente (em boa verdade toda a educação o é, mas o grave na educação ambiental é o monolitismo dos pontos de vista associados, como se só houvesse uma forma de pensar sobre o ambiente que nos rodeia).
Lembrei-me disto quando conversava hoje com pessoas educadas, informadas e curiosas sobre o enchimento das praias da Caparica.
Começaram por me perguntar por que razão se estava a fazer o enchimento agora, mesmo antes das marés vivas que iam levar toda a areia embora, e a determinada altura estavam verdadeiramente surpreendidas por pela primeira vez terem tomado consciência de que os sedimentos trazidos (ou não) pelos rios, naquele caso o Tejo, eram fundamentais na alimentação de toda a dinâmica da praia.
Mais tarde, quando reparei nos mais de seis milhões de euros do projecto, realizado na envolvente urbana de Lisboa, em praias de elevada carga humana, percebi a razão desta "falta de cultura geral" ambiental: é que com um projecto destes a desenrolar-se à frente dos nossos olhos, aparentemente negligenciamos a comunicação que poderia explicá-lo e torná-lo familiar às pessoas.

Não estou a falar de cartazes de leitura difícil e linguagem hermética, anúncios, slogans, nem de avisos de segurança e comunicação de calendários de execução e por aí fora.
Estou a falar de comunicar com as pessoas, conversar com elas, estar por lá no acompanhamento do projecto, criar condições para que as pessoas vejam e façam os seus juízos a partir do que vêem e das histórias que se podem contar sobre o projecto (desde a forma como funcionam as dragas, as razões da escolha do local das dragagens, a forma como a areia é depositada, a dinâmica que se está a influenciar, etc.).
Não, não se trata de educação ambiental, trata-se simplesmente de comunicar ao pagador o que se faz com o seu dinheiro, para que ele possa fazer as suas opções no futuro.
É difícil? Sim, claro que é.
Mas é muito mais difícil gerir políticas ambientais dirigidas a pessoas para quem tudo aquilo é um espesso nevoeiro onde não se conseguem orientar.
henrique pereira dos santos

3 comentários:

sofia disse...

eu diria que educação ambiental e comunicação são, neste contexto, coisas diferentes e que ambas são fundamentais.
se a educação ambiental pode mudar? sim e muito, tem muito a reflectir e melhorar e discursos moralistas são o que menos apetece. se a comunicação pode - nem sequer é melhorar - é começar... sim, e de que maneira...

primeirofax disse...

Ler, considerar e votar em consciência colectiva:

http://primeirofax.wordpress.com/2009/09/13/voto-util-contra-o-ps-de-socrates-actualizacao-13-de-setembro/

Susana Nunes disse...

Sim, neste caso trata-se realmente de falta de comunicação, mas parece-me que é algo generalizado e não apenas ao nível ambiental. Digamos que a democracia participativa é algo ainda um pouco longe da nossa realidade. E claro que a comunicação pode ser um meio de educação ambiental, tudo depende do contexto.