terça-feira, novembro 10, 2009

Desafinado



Falemos então da inquestionável idoneidade dos heróis.
O meu primeiro contacto com Luís Palma foi tão indirecto que nem eu nem ele soubemos que era o nosso primeiro contacto: lembro-me, eu que tenho péssima memória, do cartaz da famosa campanha "Salvemos o lince e a serra da Malcata" que estava no bar do palácio da Inquisição de Évora, em cuja sala de actos eu tinha aulas (reproduzo no fim o cartaz fazendo notar como eram diferentes os tempos em Portugal, quando campanhas deste tipo tinham entre os seus promotores, uma ONG, uma faculdade e uma Direcção Geral do Estado com competências directas no assunto).
Esta campanha fez de Luís Palma, justamente, um herói da conservação em Portugal.
Mais tarde tive de lidar com a discussão sobre o que tinha acontecido ao único lince capturado em Portugal para fins científicos. Não sei, porque ouvi directamente as duas versões de pessoas presentes que me merecem consideração, se o bicho morreu ou não, nem essa é questão principal porque essa é sempre uma probabilidade quando se manipulam animais, mesmo quando não existem erros, que são outra possibilidade. Não é pois nesse aspecto que a questão se põe. As diferentes versões do que se passou são coincidentes até um momento específico: houve uma segunda anestesia ao lince. Ora esta segunda anestesia é omissa em todos os relatos oficiais do que se passou, incluindo, se a memória não me falha, num artigo científico sobre o assunto que me lembro de ter lido. Que técnicos muito novos acabados de sair da escola cometam o erro de manipular a informação por medo ou inconsciência, face à tensão instalada e à possibilidade de terem cometido um erro importante cujo conhecimento poderia ter consequências para a conservação do lince nos anos seguintes, eu percebo. Mas tenho dificuldade em manter inquestionável a idoneidade de todos e cada um dos envolvidos. Não quer dizer que não existe idoneidade e muito menos que este facto diminua o estatuto merecido de herói, mas que é razoável questionar, tenho poucas dúvidas.
Mais tarde, ou pela mesma altura em que tive de me debruçar sobre esta história que já na altura era antiga, andava eu pelo país a dar a cara pela proposta de rede natura, primeira fase. Uma das coisas mais dificeis nessas discussões públicas, era sustentar a dimensão de algumas áreas da rede natura 2000, claramente influenciadas pela política de conservação do lince. Lembro-me particularmente de uma sessão em Monchique, com o salão dos bombeiros a abarrotar de gente, com transmissão do debate pela Rádio Fóia, em que Carlos Tuta (cuja franqueza sempre apreciei e por quem tenho consideração), na altura Presidente da Câmara, inicia a sessão com um agressivo ataque à rede natura e ao ICNB na altura representado por mim, mais tarde uma vergonhosa intervenção do então presidente da CCDR e, com a notável excepção de Miguel Freitas, a representar a Direcção Regional de Agricultura, um ataque permanente de toda a gente e sem a menor rede de quem poderia, se quisesse, explicar que aquela proposta tinha bases técnicas explicáveis (penso que nunca agradeci a Miguel Freitas, convenientemente, essa intervenção, calma, sensata sem deixar de ser crítica no que achava que tinha razão, mas sobretudo atenta à profunda e injusta solidão da minha posição naquele momento). Apenas Humberto Rosa (retribuo com a minha solidariedade agora, que calculo que ser Secretário de Estado do Ambiente deste Primeiro-Ministro seja tortura que não se deseja ao pior inimigo) e Mário Baptista Coelho, respectivamente assessores do Primeiro Ministro e do Presidente da República de então, escreveram um artigo conjunto a defender a rede natura, sendo o silêncio dos investigadores ligados à conservação, e em especial dos que tinham influenciado a proposta em discussão, sepulcral. Não era a sua obrigação, claro, mas que isso me permite questionar a idoneidade das pessoas que só fazem intervenções públicas quando é relativamente fácil e fica bem, lá isso permite.
Mais ou menos por essa altura tive de decidir sobre o financiamento do projecto de conservação da águia pesqueira, liderado por Luis Palma. A decisão foi demorada e muito discutida. A pedra de toque da Presidência do ICNB na altura prendia-se com a discussão da relevância do projecto para a conservação da biodiversidade. A questão explica-se facilmente: havia uma população residual de águias pesqueiras que em vez de migrar nidificava em Portugal. Se fossem as mesmas águias, manter a curiosidade biológica não era prioritário. Se de facto houvesse diferença genética relevante entre as duas populações, a prioridade do projecto era muito maior. O que implicava que as populações dadoras de aguiotos tinham de ser populações residentes no Mediterrâneo (ou, eventualmente, Cabo Verde, que só mais tarde apareceu na equação). Todas as garantias foram dadas sobre diferenças genéticas (com pareceres de professores estrangeiros com nomes com certeza muito conhecidos, mas que eu desconheço), sobre a disponibilidade dos corsos para a cedência das aves e etc.. O financiamento foi desbloqueado (aliás depois de por coincidência o assunto ter ganho relevância política com várias notícias de jornal sobre o assunto, com o apoio da LPN), o dinheiro foi gasto e ainda hoje não há nenhuma tentativa de fixação de aguiotos corsos. Uma segunda tentativa de financiar uma coisa semelhante foi tentada anos mais tarde (sim, também precedida de notícias de jornal, uma campanha da LPN e por aí fora, o dejá vu) mas agora com animais vindos da Escócia (a questão da diferenciação genética estava resolvida, mas ao contrário: não havia problema dos animais virem da Escócia porque era tudo igual do ponto de vista genético).
Entretanto, depois da questão do lince ter começado a perder brilho, depois da águia pesqueira ter perdido brilho, poderia ainda falar de mais dois ou três detalhes do novo foco de investigação, mais uma vez uma espécie que motiva financiamento prioritário (embora até hoje eu não perceba porquê): a águia de bonelli.
Gostaria apenas de lembrar outros justos heróis da conservação em Portugal (e são justos heróis pelo que fizeram, não estou a ser irónico): Carlos Guerra, com enorme apoio de ONGs e jornais pelo bom trabalho feito na gestão de Montezinho, cuja idoneidade também parece que deixou de ser inquestionável; Fernando Catarino, que ainda deve ao Estado o plano de ordenamento do Boquilobo ou o levantamento dos habitats da serra da Estrela que o Estado pagou e que nunca chegou a ver.
A ideia de que a idoneidade dos heróis não deve ser questionada pelo facto de serem heróis, que beneficiou, por exemplo, Otelo Saraiva de Carvalho, é uma ideia socialmente perniciosa e é uma ideia que prejudica estes heróis: exactamente por serem heróis é que devemos ser mais rigorosos a questionar a sua idoneidade para os ajudar a serem dignos do seu estatuto.
Doutra maneira corremos sempre o risco de perceber tarde demais como é triste saber que os heróis são feitos da mesma massa que nós.
henrique pereira dos santos

22 comentários:

Anónimo disse...

Pena outros reconhecidos heróis terem ficado de fora...

aeloy disse...

Toda a gente tem o seu lado escuro... e na área do ambiente são resmas... e estórias também há muitas mais, de coerência e dignidade e de assumir os valores que se defendem, sem mascaras nem hesitações, de responder pelos actos que julgamos justos, mesmo quando deles não fizemos parte.
Estórias há muitas, e trastes assim como heróis também os há.
Conheço muitos, muitos mesmo.
Não quero deixar de registar a frontalidade e coerência do Henrique, que já não é a primeira vez que dá a cara pelo que acredita justo, mesmo quando envolve o que se considera "melindroso".
Infelizmente, por razões que se predem com as teias em que vamos tecendo as nossas vidas, a independencia e o falar claro são raros.
Por isso quero aqui deixar o meu grande apreço pelo desasombro e um forte abraço
António Eloy

Rui Pedro Lérias disse...

Não tenho dados suficientes sobre tudo o que aqui é dito para concordar ou contestar.

A única pessoa com quem já lidei - pouco, felizmente - directamente foi Fernando Catarino e nesse caso a minha apreciação é idêntica. Deixou o Jardim Botânico da UL nas ruas da amargura e nunca deixou que outros conseguissem tirar-lhe o 'brilho', ou seja boicotou sempre quem quisesse fazer um bom trabalho.

Note-se que após uma eternidade à frente do JBUL teve a lata, na altura da sua reforma, com pompa e circunstância e adoração pública, de afirmar que se iria finalmente dedicar a publicar um catálogo das plantas presentes no JBUL. E uma pessoa pergunta-se o que é que andou lá a fazer aqueles anos todos.

Mas pior. Não só não publicou quando lá estava - nem depois de reformado e nunca o irá, provavelmente, fazer - como impediu por mais de uma vez que outros técnicos fizessem esse trabalho. A resposta do JB era sempre a mesma: o sr professor catarino está a fazer um.

Mas sim, em público só vejo rasgados elogios a essa pessoa que, pelo que percebo, foi um forte travão ao desenvolvimento da botânica em Portugal.

Mas, caro Henrique, o tempo já passou. Ele já não é director do JBUL.

Este texto serve exactamente que fim? Questionar as prioridades de conservação em Portugal? Fazer mais um ataque à LPN (qual é o seu problema com a LPN?)? Chamar a atenção que nem todos são tão idóneos quanto gostariam que se pensasse?

Uma coisa é certa, amargura e negativismo o Henrique tem para distribuir por todos.

Será tudo dor de cotovelo? Imagino que lhe seja insultuoso dizer isto, mas seria engraçado se fizesse um exercício de estilo: nos próximos 10 posts fizesse apenas elogios e comentários positivos. Sei lá, deve haver por aí alguém que lhe mereça consideração positiva. Ou não?!

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Rui Pedro Lérias,
Não tenho nenhum problema com a LPN, até sou sócio, tenho discordâncias com actuações concretas da LPN e com uma atitude generalizado do movimento ambientalista em avaliar a informação de conservação em função do mensageiro e não da mensagem.
O texto tem um fim: responder ao argumento de autoridade que foi usado numa discussão sobre a conservação do lince, argumento esse que considerava o passado do Luís Palma como caução suficiente para ninguém pudesse questionar a sua idoneidade.
Eu, que neste texto não faço um juízo sobre essa idoneidade, explico por que razão penso que é errado usar este tipo de argumentos nas discussões, apresentando as razões que legitimam o levantamento dessas questões, afastando por isso das discussões os argumentos de autoridade que se baseiam na idoneidade das pessoas (quaisquer pessoas, os heróis mas também cada um de nós).
Se procurar nos meus posts encontra imensos elogios, a pessoas e instituições, incluindo críticas e elogios às mesmas pessoas e instituições em circunstâncias diferentes.
E esteja descansado, eu não me incomodo especialmente com apreciações como as que faz sobre mim: não gosto, como qualquer pessoa normal, mas limito-me a responder, quando acho que o devo fazer, usando o que me parecem ser argumentos racionais.
Como fiz com este comentário.
Mais uma vez noto que sobre a substância está de acordo comigo na parte que diz conhecer.
Óptimo.
henrique pereira dos santos

Anónimo disse...

Mas, caro Pedro Lérias, o tempo do Prof. Catarino já passou! o seu texto de ataque ao Prof. Catarino serve para quê? Tanta amargura e negativismo para com uma pessoa não é de todo normal. Será dor de cotovelo?

Anónimo disse...

Sr. anónimo o conceito de dor cotovelo não se aplica neste caso. Não é normal de todo mas não deixou de causar muito dano.

Gonçalo Rosa disse...

Rui Lérias,

Em vez de tentar perceber o perverso perfil psicológico que estará por trás de "mais um ataque à LPN", talvez fosse mais interessante interrogar-se dos porquês da actuação da LPN neste ou naquele sentido, como por exemplo, porque razão a LPN não deu a cara na luta contra o novo regulamento da RAN, colaborando activamente na colecta de assinaturas. Atitude incompreensível e e contrária à da Quercus ou do Fapas.

Gonçalo Rosa

Anónimo disse...

A LPN tem duas caras. A ecologista, verde, simpática, protectora dos passarinhos e borboletas. E a outra, a asquerosa, a de não olhar a meios para conseguir sustentar o seu círculo de subsidio-dependentes.

Zé Luís disse...

Gonçalo,
talvez seja tempo de acabar com o mito de que a LPN não colaborou activamente na recolha de assinaturas para a petição sobre a RAN.
A LPN divulgou a iniciativa na Newsletter, no site, no facebook e em alguns eventos (como o debate sobre Solos em Serralves). Pode não ser muito, mas é alguma coisa.
Quanto ao comentário dos subsidio dependentes talvez fosse interessante questionar também um pouco esse mito:
- Quanto dinheiro do Estado é que entra para os projectos da LPN?
- Quanto dinheiro das empresas é que entra os proectos da LPN?
- Os projectos LIFE (que são a principal fonte de fundos para os trabalhos de conservação da Natureza da LPN) são decididos a nível europeu e com base no mérito dos projectos e nos trabalhos anteriores. Como é que as posições que a LPN toma ou não toma influenciam os LIFE?
- Será que os "anónimos" são capazes de dar exemplos dessa subsídio-dependência? E casos concretos em que o silêncio tenha sido "comprado" com subsídios? Ou limitam-se a fazer acusações escudados no seu anonimato? (É que já li aqui na Ambio coisas tão caricatas como dizerem que a LPN não fazia isto ou aquilo porque o Eugénio Sequeira era do PS e passados uns dias ler uma entrevista em que o Professor dizia que este governo era o pior em termos ambientais).
- Já agora façam o mesmo exercício para outras ONG de Ambiente e depois decidam se o mito é verdadeiro.
Cumprimentos
José Monteiro

Gonçalo Rosa disse...

Zé Luís:
"talvez seja tempo de acabar com o mito de que a LPN não colaborou activamente na recolha de assinaturas para a petição sobre a RAN"

Não disse isso, ainda que desconheça essa colaboração activa (ainda hoje fui ao site da LPN e nada vi). O que disse é que a LPN, tal como a SPEA, não deram a cara pela petição contra o novo regulamento da RAN, assumindo-a e fazendo dela cavalo de batalha, tal como o fez a Quercus. Isso não é um mito, apenas a triste realidade.

Quanto à origem do dinheiro que financia os projectos da LPN, não faço a mínima ideia, não só porque a LPN não publica as suas contas no seu site, explicitando as suas fontes de financiamento, como, apesar de eu próprio as ter solicitado há uns cinco meses atrás e de me-as terem prometido há já algum tempo, continuo sem receber nada.

Estas, criam-se também pela incapacidade das ONGAS - neste caso, a LPN, vir a terreiro defender-se de críticas que lhe são feitas e de discutir ideias. E surgem também por a maioria das grandes ONGAs - com a honrosa excepção da SPEA -, não apresentarem as suas contas ao público, através dos seus websites, de forma legível para o comum dos cidadãos.

Independentemente da origem do dinheiro, o problema que se cria é o da dependência de projectos. O de terem que existir projectos sistematicamente que alimentem uma equipa de colaboradores ad eternum. Em contraponto, fica para trás a necessidade de angariar e fixar sócios, já que se criou a ideia, em certa medida falsa, de que a angariação/fixação de sócios não é tão interessante assim como forma de angariar fundos.

(continua...)

1 abraço,
Gonçalo Rosa

Gonçalo Rosa disse...

(... continuação)

Por outro lado, na lógica de angariar e executar projectos, fica boa parte do trabalho de lobby e pressão política em último plano.

Esta lógica de "prestador de serviços" que muitas ONGAs, entre as quais a LPN, estão a seguir, tem efeitos tão perversos como o de fazer desaparecer vozes críticas públicas, como acontece na conservação do lince.

Em conversas pessoais vou-me apercebendo do enorme cepticismo que há quanto ao sucesso do programa de conservação em curso, nomeadamente pela parte de técnicos na área da conservação da natureza. Mas em público, tudo parece ir bem no Reino da Dinamarca.

Gonçalo Rosa
PS - é bom ver-te por aqui :)

Zé Luís disse...

Gonçalo
Peço-te uma opinião realista, visto que já estiveste mais envolvido com as ONGA do que agora estás. Achas que o trabalho que as ONGA têm feito (e mesmo que sejas crítico da uma boa parte desse trabalho) se pode financiar só com as quotas dos sócios? Achas que o trabalho que tem sido feito por exemplo em Castro Verde pela LPN ou nos Açores pela SPEA seria possível só com as quotas dos sócios e voluntariado?
Como tu sabes as quotas das ONGA são baixas e mesmo assim há muitos sócios só as pagam de tempos a tempos. Na minha opinião o que os projectos financiados (maioritariamente pela União Europeia) permitem fazer (e manter) são intervenções directas no terreno que de outra forma não seriam possíveis. Depois o que acontece habitualmente é que os colaboradores tiram tempo aos projectos para criar, organizar e implementar outras actividades e formas de participação.
O que não compreendo é porque é que uma ONGA tem que se defender das críticas que são feitas na AMBIO. Por muito interessante que este blogue seja (de vez em quando, porque muitas vezes não é), não me parece que estejam em posição de exigir resposta de uma ONG.
Outra coisa que não compreendo é porque é que alguns participantes do Blogue não tomam uma atitude verdadeiramente activa. É que parece-me relativamente fácil assumir uma postura crítica de tudo e de todos a partir das linhas laterais. É que colocam aqui muitas ideias, debatem, opinam etc… Mas no fim do dia qual o impacto real de tudo isso? Não seria melhor aparecerem na sede de uma qualquer ONGA (acho que os endereços estão no registo da APA) e oferecerem-se para participar nas actividades? Ou formarem uma lista e concorrem à direcção de alguma ONGA de que sejam sócios? Ou caso não se revejam minimamente em nenhuma das existentes, porque não criar uma? (Não seria a primeira aventura maluca em que te metias Gonçalo, e podia ter um impacto mais significativo no Ambiente em Portugal do que esta animada troca de ideias).
Abraço
José Monteiro

Gonçalo Rosa disse...

Zé Luís,

Levantas uma série de questões que procurarei responder da forma mais clara possível, dada a diversidade (e confusão) e os pontos de discordia.

Quanto ao primeiro ponto, responder-te-ei muito em breve em post que estou a preparar sobre a importância dos sócios para a sobrevivência das associações.

Ninguém exige que as ONGAs respondam ao que aqui se vai dizendo. O que não podes esperar é que as pessoas - colaboradores e/ou leitores - não se interroguem sobre os silêncios daquelas. De resto, participa e lê quem muito bem entender.

A minha motivação em participar no Ambio acontece, em boa medida, por considerar um excelente espaço de discussão de ideias. Bem sei que há quem ache bastante mais útil fazer coisas bem mais "concretas" do que discutir ideias, mas eu acho que não só as duas coisas podem ter enorme interesse como, em Portugal - nomeadamente, no seio das ONGAs - há uma enorme falta de discussão de ideias e de aceitação da crítica. Tão grande que facilmente se confunde esta com "malhanço" e outras coisas que tais. Tão grande, que a "resposta" a criticas concretas - como o não dar a cara pela RAN ou as contas não serem facilmente acessíveis e entendíveis pelo comum dos cidadãos - é a que tu dás... "vem fazer e não critiques/questiones"... perdoa-me a linguagem, mas que resposta da treta!

Conheces o meu passado na Quercus e na SPEA e sabes bem que sempre que entendi necessário, não deixei de procurar alternativas às políticas/estratégias seguidas. Quanto às "aventuras malucas" que falas, se quiseres explicar ao que te referes talvez cheguemos a algum lado.

Não tenho dúvidas que em Portugal há mais do que espaço para uma nova grande associação ambientalista. Talvez daqui a uns tempos, se a vida me permitir, me lance num novo desafio. Quem sabe.

1 abraço,

Gonçalo Rosa

Gonçalo Rosa disse...

Zé Luís,
Não queria deixar de te contar uma pequena história.
Quando há quase dez anos me demiti do meu cargo no ICN, mandei uma carta para a LPN, disponibilizando-me para os apoiar tecnicamente nas áreas em que havia trabalhado no ICNB. Creio que poderia dar algum contributo dado ter participado activamente na avaliação de diversos estudos de impacte ambiental ou na rede natura 2000. De pronto, recebi uma ficha de sócio e um Liberne. Voltei a frisar que não era exactamente isso que havia solicitado e recebi nova ficha de sócio e mais um Liberne. Acabei por ler os Estatutos da LPN e aperceber-me que a LPN é provavelmente a menos democrática das maiores ONGAs portuguesas, com algumas nuances sinistras nos seus estatutos e, como tal, nunca me associei. De qualquer jeito, a minha disponibilidade ficou sempre em aberto e, surpresa ou não, nunca foi requisitada.
1 abraço,
Gonçalo Rosa

Zé Luís disse...

Gonçalo
Eu não discordo que os sócios sejam importantes para as associações, não concordo é que, em Portugal, possam ser importantes para o financiamento da acção das associações.
Discutir ideias só por discutir não é coisa que eu goste. Para mim isso sim é conversa “da treta”. A petição da RAN é para mim um bom exemplo, em vez de se ficar aqui a discutir se as ONGA deveriam fazer ou não fazer alguma coisa, o que deveriam fazer, como deveriam fazer, etc... Alguém considerou que era importante fazer alguma coisa e avançou, resultado alguns milhares de assinaturas e, esperemos, que dê para causar alguma discussão nos corredores políticos.
Repara, eu não ouso sequer questionar o direito à crítica. O que questiono é porquê ficar por aí? No caso da RAN por exemplo, a Quercus associou-se após o lançamento da petição, a LPN (independentemente de ter “dado a cara” ou não) contribuiu com algumas assinaturas. Não será o resultado mais interessante do que o simples debate de ideias? Consideras que falta transparência às ONG porque não propor uma iniciativa estilo “Charity Navigator”, um grupo independente de cidadãos que “vigia” as ONG? Não será isso um passo em frente mais importante do que ficar a discutir “entre nós” o problema?
Quanto ao teu passado, é por conhecê-lo que acho que sempre foste alguém que agia sobre os problemas não se ficava pelo debate é que acho que podes fazer mais.
E quanto às “aventuras malucas”, não sei o que chamas ir acampar no interior alentejano no fim de Dezembro, mas eu aprendi a lição e não foi das coisas mais ponderadas que fiz na minha vida.
Abraço e fico à espera do teu post.
José Monteiro

Miguel B. Araujo disse...

Caro José Monteiro,

Duas notas:

Se hoje há gente envolvida a "fazer coisas é porque outros antes deles discutiram ideias pelo simples prazer de o fazer. O mundo tem "doers" e "thinkers" e toda a variação de cinzentos no meio e não vale a pena pretender que uns podem existir sem outros porque a realidade demonstra o contrário.

Quanto à RAN seria possível explicar porque não apoiou a LPN este abaixo assinado? Que vários sócios assinaram é óbvio. Eu sou sócio e assinei e divulguei mas confesso que estou curioso por saber qual a razão de fundo que levou a direcção da LPN a não dar a cara por esta causa. A minha curiosidade é genuína pois desconheço a resposta para a pergunta.

Saudações,

Miguel Araújo

Gonçalo Rosa disse...

Zé Luís,

Discordo de muitas das tuas ideias quanto à importância dos sócios para o financiamento das associações. Como prometido, em breve compreenderás a minha visão em post sobre o tema.

Minimizas o interesse da discussão na temática ambiental. Nada que me expante. É um clássico do movimento ambientalista e não só. No entanto, não deixo de lamentar, até porque estou convicto que, este forum presta um contributo interessante para a formação de opinião nesta área.

Estás muito equivocado quanto ao lançamento da petição da RAN. Esta petição foi lançada pela Quercus e pelo Henrique Pereira dos Santos, depois do HPS aqui, no Ambio, ter desafiado a Quercus e outras ONGAs para esta questão. À posteriori, não deixámos de aqui publicar diversos posts sobre a RAN e a petição online, com o objectivo claro de esclarecer e obter mais assinaturas.

Eis, também aqui, uma bela demonstração de como o Ambio pode contribuir para a causa ambiental. Com um tremendo empurrão da Quercus que, sem qualquer dúvida, teem sido incansáveis na "caça às assinaturas". E ainda bem. Ficamos todos muito felizes com isso.

Mas como dizes que "discutir ideias só por discutir não é coisa que eu goste. Para mim isso sim é conversa da treta" proponho-te algo de muito concreto, já que tens responsabilidades na comunicação da LPN e no seu "Liberne": façam publicidade à petição no Liberne e no vosso site (eu não encontro lá nada, pelo que se lá estiver alguma coisa deverá estar algo "escondida"), que está a uma passo de chegar às necessárias 4.000 assinaturas! É simples, basta alguma boa vontade, interesse e compreenderem que, acima de tudo, a revisão do actual regulamento da RAN é bem mais importantes que outras questões que eu, muito sinceramente, não consigo perceber quais são...

1 abraço,

Gonçalo

Zé Luís disse...

Bom dia
Em resposta rápida:
- neste momento não tenho responsabilidades na área da comunicação da LPN, comento post aqui apenas como sócio e apoiante do trabalho de algumas ONGA (voltei ao mundo das ONGD, cujo modo de trabalho se adequa melhor à minha forma de estar).
- não tenho problema com o thinkers e doers, considero é que apenas discutir os problemas não os resolve, acho que a solução está sempre nos tons de cinzento.
- sempre que, enquanto sócio de uma organização, considero que a sua actuação foi deficiente em algum aspecto, questiono directamente os responsáveis. Por isso sugiro ao Miguel Araújo que faça mesmo (e antes que alguém pergunte, não acho que a Ambio seja um canal de comunicação directa com a direcção de nenhuma ONGA).
Abraços
José Monteiro

Miguel B. Araujo disse...

Caro Zé Luís,

"não tenho problema com o thinkers e doers, considero é que apenas discutir os problemas não os resolve"

Discutir os problemas é o primeiro passo para os identificar e se a discussão for inteligente até podem aparecer soluções que não são triviais e que não ocorrem aos que passam o dia obscurecidos pela "realidade".

"- sempre que, enquanto sócio de uma organização, considero que a sua actuação foi deficiente em algum aspecto, questiono directamente os responsáveis. Por isso sugiro ao Miguel Araújo que faça mesmo (e antes que alguém pergunte, não acho que a Ambio seja um canal de comunicação directa com a direcção de nenhuma ONGA)."

Obrigado pelo recado mas já sabia que como sócio podia fazer a pergunta à direcção. A minha pergunta era, no entanto, legítima, pois foi o Zé Luís que resolveu afirmar neste forum "talvez seja tempo de acabar com o mito de que a LPN não colaborou activamente na recolha de assinaturas para a petição sobre a RAN". Ao tomar uma posição tão clara e veemente falando - aparentemente - em nome da LPN ou pelo menos defendendo o seu ponto de vista, era normal que se lhe fizesse a pergunta que fiz. Não quer responder, não sabe, não é responsável? Tudo bem fico na mesma mas que fique claro que a sua contribuição para esclarecer o alegado mito é como a "montanha que pariu um rato": ou seja, o mito continua.

Anónimo disse...

Um caso concreto:

Não sei se por má-língua ou inveja, mas alguém me soprou uma verba com vários zeros que a Quercus cobrava à TV do Estado por cada minuto verde.

Talvez alguém da Quercus possa e queira aqui desfazer hipotéticos boatos, dizendo preto no branco quanto dinheiro já recebeu.

A ser mentira tantos zeros, prometo que a maledicência sairá cara ao desbocado.

Gonçalo Rosa disse...

Caro Anónimo,

Devo-lhe dizer que má língua ou não, acho, no mínimo, de muito mau gosto que não se assinem este tipo de comentários. O que é que pretende?

Gonçalo Rosa

Anónimo disse...

Apenas pretendo dados para concluir se se trata de uma hipotética situação de maledicência ou algo mais.
O caro Gonçalo conhece o facebook? Aí por certo encontrará muitos nomes e possiveis amizades.