terça-feira, dezembro 22, 2009

Pinóquio


Eu sou inegavelmente favorável às energias renováveis, mas gosto de saber quanto tenho de pagar por isso porque não acredito que haja almoços grátis.
Como tinha de desossar uma galinha, uma actividade que ocupa as mãos e liberta o cérebro, deu-me para pensar que se mais de 50% do nosso déficit anual está relacionado com o petróleo, então as energias renováveis devem resolver o assunto e ajudar a pagar as nossas dívidas, libertando crédito para a economia, que bem precisa.
Entusiasmei-me com a ideia e deixei correr o argumento, só que logo me lembrei que défice energético e défice de electricidade não são a mesma coisa, portanto pelo menos no que não é electricidade (e é muito) as renováveis não servem para resolver.
Mas há o carro eléctrico, pensei. Mas de facto temos de comprar os carros lá fora (ou pelo menos as partes com maior valor acrescentado) e voltei a esmorecer um bocadinho.
Para a frente e nada de negativismo, fazer parques eólicos em força para reduzir a dívida. Aqui corei um bocadinho, percebi a infantilidade do argumento, porque não só a construção de eólicos e barragens é actividade de capital intensivo (o que obriga a criar dívida e não a diminuir, pelo menos no curto prazo), como temos de comprar uma boa parte das coisas que precisamos lá fora, o que aumenta o défice com o exterior.
Não faz mal, é investimento e paga-se com o retorno da operação desses equipamentos. Ooops, parece que a operação é deficitária, pelo menos para já, e tem de ser financiada com tarifas especiais, mais altas, o que quer dizer que temos de pagar o custo suplementar para a economia através da energia mais cara. E se assim é, os nossos produtos perdem competitividade e os produtos de quem tiver a energia mais barata ganham competitividade em relação aos nossos. Provavelmente importamos mais e exportamos menos, e aumentamos outra vez o défice que queríamos diminuir.
Dei graças por estar sozinho, não ter tido a oportunidade de me entusiasmar a explicar a alguém o raciocínio simples e genial de que parti (se o défice é energético, ter energias renováveis é diminuir o défice) e retornei realisticamente à minha posição base:
renováveis é bom, com conta, peso e medida, eficiência energética é muito melhor e os dois têm custos que é preciso quantificar em cada momento.
Agora percebo porque não passa pela cabeça de ninguém responsável e sério responder que se combate o endividamento com energias renováveis.
No fundo, no fundo era o que eu já tinha dito aqui.
E nem sei por que razão me lembrei outra vez disto hoje.
henrique pereira dos santos

4 comentários:

AAA disse...

Portugal já gastou várias dezenas de milhões de euros para comprar as licenças de emissão de CO2 correspondentes ao excesso emitido.

Se houvesse um verdadeiro e genuíno interesse nas renováveis, seria muito mais sensato usar esses milhões de euros para criar um verdadeiro benefício fiscal, na aquisição de painéis térmicos e fotovoltaicos.

Sempre era uma ajuda na redução de consumos energéticos a nível residencial, em vez de esbanjar dinheiro em créditos de CO2... que no fundo é dinheiro que sai e que não traz nenhum verdadeiro benefício à sociedade. Digamos, a verba gasta é demasiado elevada e nem sequer é adquirido um bem.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Se a questão das renováveis tivesse apenas uma base ambiental (que também tem) ou se estivesse integrada numa lógica económica de combate ao endividamento a verdade é que a política energética seria muito diferente, com claríssima prioridade à eficiência energética e segunda prioridade aos modos de produção capazes de criar mais valor no mercado.
O que evidentemente conduziria à questão que levanta que é a de saber por que razão pagamos tantos créditos de carbono se somos tão bons nas renováveis. Ou porque é que o endividamente cresce em paralelo com a produção de renováveis (devo dizer que não acho que exista relação entre uma coisa e outra, estou apenas a dizer que não percebo bem o argumento inverso).
henrique pereira dos santos

José M. Sousa disse...

A propósito deste assunto, um interessante artigo: How (not) to resolve the energy crisis:
«Increasing the share of renewable energy will not make us any less dependent on fossil fuels as long as total energy consumption keeps rising.»

G.E. disse...

Penso que se devia acabar de uma vez por todas com a subsidiação por parte do Estado e que os consumidores deveriam pagar a electricidade pelo preço que ela custa (salvaguardando a tarifa social para os consumidores de baixíssimos rendimentos, como os pensionistas, que não podem pagar). Isto seria uma forma de combater o desperdício de energia que existe actualmente, além de contribuir para evitar o agravamento do défice tarifário que já existe na electricidade,

Enquanto continuar a haver subsidiação o mercado está distorcido e os consumidores têm menos incentivo para poupar energia, pois estão a desperdiçar algo que não pagam na totalidade.

Gonçalo Elias