sexta-feira, janeiro 01, 2010

E se o almoço inclui o vinho


Lisboa, 1 de Janeiro de 2010
Caro Miguel Champalimaud,
Li a sua resposta a algumas reacções à campanha sobre as tampas de rosca.
Deixe-me em primeiro lugar dizer que gostei da sua frontalidade e clareza. E espero que possamos manter esse registo onde diferenças são diferenças, ditas de forma clara, sem que, por isso, possam ser entendidas como ataques pessoais.
Na sua classificação de grandes tipos de reacionários (no sentido em que reagiram à campanha, não mais que isso) eu estarei no grupo D. A gente da retaliação e boicote, etc, etc..
Sinto-me mal classificado neste grupo. É que boicote, retaliação e etc., etc., não são a mesma coisa. Eu sou do boicote, no sentido em que não compro vinhos com tampa de rosca, mas não estou a retaliar coisa nenhuma e nem sei o que é etc.,etc..
As razões pelas quais compro ou não os seus vinhos são direitos que tenho enquanto seu potencial cliente. Se não compro porque não gosto do rótulo, ou não gosto do preço, não estou a a retaliar. Se compro porque o vinho é bom, ou porque fico bem visto pela minha namorada, não estou a retaliar os seus concorrentes.
Estou apenas na categoria dos que boicotam tampas de rosca.
E o que gostava era de lhe explicar as minhas razões, sendo que para isso vou primeiro dizer-lhe com o que estou ou não de acordo na sua carta, e depois então passo às minhas razões, porque me parece que transparece na sua carta algum preconceito em relação a alguns grupos dos seus clientes potenciais, como é o meu caso.
É verdade que o meu potencial como seu cliente é pequeno porque não tenho dinheiro para comprar vinhos seus com mais frequência, mas isso é um detalhe que em qualquer altura da vida pode ser alterado.
“Eu, MIGUEL CHAMPALIMAUD, digo:
“Sou a favor da inovação, da qualidade e modernidade do vinho”;”
Penso que é difícil discordar da frase em si, o que acontece é que chamamos inovação, qualidade e modernidade a coisas diferentes, mas veremos se assim é mais para a frente.
“ “sou a favor da verdade achando que chegou a altura de assumirmos, ao nível da indústria-vinícula, o que há mais de 40 anos, por razões óbvias, se usa em todas as universidades e ou centros de investigação vinícola, os screwtops/tampasderosca, único sistema vedante que garante eficazmente o não contágio do vinho que se encontra na garrafa, por produtos aromas e sabores que lhe são estranhos”;”
Vou dar por adquirida esta afirmação que não posso verificar. Tenho lido coisas diferentes, nomeadamente quanto ao comportamento do vinho ao longo do tempo, mas acredito que saberá muito mais que eu sobre isto.
“ “sou a favor da eficácia e produtividade e contra as falácias e os preconceitos que só defendem e servem aqueles que estão instalados à custa do bem-estar e pobreza de terceiros”;”
É também difícil discordar desta frase, o que já é mais difícil é perceber por que razão aqui está, neste contexto. É que, como em todas as mudanças, há ganhadores e perdedores, e portanto usar tampas de rosca ou rolhas de cortiça implicam diferentes ganhadores e perdedores e consequentemente diferentes pobres. Duvido é que um sistema conduza à pobreza para quase todos e outro à riqueza para todos.
“ “numa garrafa de vinho, a rolha é apenas uma matéria subsidiária, um vedante que deveria preservar o vinho que a garrafa contém e nunca arruiná-lo”;”
Sim, isso é absolutamente verdade. O que não é verdade é que a cortiça tenha provado ser um mau vedante até hoje. Tem problemas, com certeza, mas parece-me excessivo dizer que um vedante que tem provado nos últimos duzentos anos (antes disso o seu uso para este efeito é residual) arruina o vinho. Por outro lado as tampas de rosca ainda não passaram o teste do tempo. Mas independentemente dessa discussão, e dando de barato que as coisas são inteiramente como descreve, a discussão sobre os efeitos globais do uso de materiais em qualquer processo produtivo não se esgotam na sua eficácia para esse processo em concreto. Tem um bom exemplo num sector que conhece bem, o dos pesticidas, em que a eficácia da sua aplicação para a resolução de um problema concreto é analisada em confronto com os seus efeitos secundários em aspectos não directamente ligados ao processo produtivo. Espero que esteja aberto a esta discussão, como estão as empresas mais dinâmicas e modernas do mundo.
“ “sou a favor dos ventos da História, recusar o progresso científico e tecnológico de nada serve, nem serviu então àqueles que, no seu tempo, foram a favor da destruição das máquinas a vapor”.”
O problema de entrar com os ventos da história nesta discussão é que só se sabem exactamente quais são e como se comportam esses ventos muito depois dos factos que eles influenciaram. Pelo menos da minha parte a minha recusa em comprar vinho com tampas de rosca não tem nada com a recusa do progresso científico e tecnológico, bem pelo contrário. É exactamente por estar preocupado com um progresso científico e tecnológico orientado para a sustentabilidade que me parece preocupante o retrocesso que me parece constituir o abandono de uso de materiais com fortes impactos positivos na sustentabilidade por soluções que se encaixam num modelo económico assente no esgotamento de recursos não renováveis.
“1.1 A gente da indústria corticeira é a única responsável pelas dificuldades com que se debate a rolha de cortiça e os produtores de cortiça. Ao não investirem há muitos anos na qualidade e fiabilidade do produto e aumentando desmesuradamente os preços das rolhas, abriram espaço aos novos vedantes nomeadamente às screwtops/tampasderosca.”
Estou genericamente de acordo consigo. Mas a questão neste caso não é o que faz a indústria corticeira mas a sua empresa. E a sua empresa prefere optar por uma solução fácil e barata, ainda que com implicações globais negativas, a optar por soluções que têm impactos globais positivos.
“1.4 A gente da retaliação e boicote, não representam mais do que a reacção de um grupo de pessoas com falta de informação e ou a mando e no interesse de terceiros que, na falta de argumentos sólidos para atacarem o moderno sistema dos screwtops/tampade rosca e defenderem o antiquado sistema de rolha de cortiça com o seu elevado deficit de fiabilidade/qualidade e custo 5 a 9 vezes mais elevado que o screwtops/tampaderosca, fazem consciente ou inconscientemente, o jogo de quem, ao abrigo de um quase monopólio e permanente abuso de uma posição dominante, usa e abusa da indústria vinícola nacional e internacional, enriquecendo ilicitamente à custa do empobrecimento daquela.”
Supreende-me que me diga que estou a mando de terceiros ou que sou um ignorante sem sequer me conhecer. Ignorante, aceito, a mando de terceiros parece-me excessivo. Retiremos portanto o processo de intenções e discutamos o que cada um de nós sabe sobre o assunto para ver se avançamos qualquer coisa e, no meu caso, se percebo melhor esta sua afirmação tão taxativa.
O que sei sobre o assunto é que a base dos vedantes sintécticos são materiais não renováveis, com fortes incorporações energéticas que implicam grandes emissões de gases com efeito de estufa. São totalmente dependentes de um recurso relativamente escasso e cujo o preço é extremamente volátil e se estima que possa vir a subir ao longo do tempo (pese embora a incerteza associada à volatilidade dos seus preços). Sobre estas afirmações tem objecções? Precisa de referências bibliográficas? Penso que conseguirmos perceber no que concordamos ou discordamos neste ponto ajudaria a racionalizar a discussão.
A base dos vedantes de cortiça (que, como diz muito bem, tem incorporado outros componentes com cada vez maior importância) é um produto renovável, com baixa incorporação energética (quando falo em incorporação energética estou a falar de combustiveis fósseis, bem entendido, já que a incorporação da energia solar através da fotossíntese é evidentemente relevante), e com uma capacidade de captação de carbono muito apreciável e compensadora de emissões com efeito de estufa.
Acresce que nesta comparação há diferenças substanciais entre as paisagens produzidas a partir da extração de petróleo e alumínio, por exemplo, e as paisagens produzidas a partir da produção de cortiça, sendo as primeiras inóspitas e com balanços negativos de biodiversidade e as segundas, pelo contrário, com um balanço muito positivo de biodiversidade.
Estas são as razões pelas quais boicoto o vinho com tampas de rosca e prefiro a utilização de cortiça (não apenas no vinho, bem entendido, os meus cartões de visita em vez de serem em papel são em cortiça, por exemplo).
Nada me liga ao sector da cortiça, e as minhas razões são as de cima.
Quer discuti-las, procurar ver onde está modernidade e os ventos da história? Por mim estou inteiramente aberto a esta discussão consigo, com a mesma clareza e frontalidade da sua carta que tenho vindo a seguir.
Repare que embora não estando completamente de acordo com alguns dos comentários específicos que se seguem na sua carta (por exemplo, parece-me excessivo chamar mão de obra penosa em casa ao tirar de uma rolha e confesso que já me cortei mais vezes com tampas de rosca do que me magoei a usar bons saca-rolhas) reconheco-lhe razão em muitos deles: o preço, a facilidade no uso, algumas das razões para o abandono da cortiça em muitos usos, etc..
E isso são com certeza dados da questão que precisam de discussão e resolução, estando nós de acordo em relação à antiga passividade da indústria da cortiça face aos problemas do sector, incluindo a forte posição dominante de algumas empresas que as fez perder alguma atenção aos seus clientes.
Tal como me parece que é relevante contar com os 30% do mercado que é sensível aos aspectos ambientais do seu consumo.
Não me parece é que varrer de uma penada para fora da discussão os aspectos de sustentabilidade e biodiversidade seja uma atitude de empresa moderna, inovadora e focada no cliente.
Com os melhores cumprimentos
henrique pereira dos santos
PS Como penso que a discussão assumiu uma forma mais ou menos pública, irei publicar esta carta no blog onde escrevo (a sua carta original já lá está reproduzida). Se quiser usar o nosso blog para também veicular os seus pontos de vista nesta discussão sinta-se nosso convidado e teremos todo o gosto nisso.

2 comentários:

Manuela Araújo disse...

Excelente resposta.
Apenas confirmo que abrir uma garrafa de vinho com rolha de cortiça e com saca-rolhas tradicional não é tarefa nada penosa para mim (e peso menos de 50 kg)!

nuno disse...

Parabés pela resposta, elegante e acerta em cheio nos pontos que merecem (e também nos que não merecem) discussão.
Atrevo-me a sugerir-lhe uma ampliação da divulgação pública desta sua resposta, recorrendo para tal aos meios de comunicação social.
Cumprimentos,
Nuno Serra