sexta-feira, janeiro 01, 2010

A rolha e o boicote - parte 3

Havia um escritor holandês (Simon Vestdijk) que escrevia tanto que originou um ditado que era "escrever mais rápido que Deus consegue ler". Vem me em mente esse ditado pensando em HPS, que se antecipou ao meu terceiro post, com todo o direito, por ter iniciado esse tópico com o post do boicote. Para evitar repetir o que HPS já disse no seu último post, por concordar com ele e por não conseguir fazê-lo com a mesma clareza e eloquência, desvio um pouco a atenção para a forma de comunicação que o Miguel Champalimaud (MC) escolheu em resposta ao tema em causa.

1 - É invulgar um CEO vir ao terreiro defender uma opção comercial da sua empresa em resposta a uma crítica relativamente inofensiva e sem grande ameaça. Normalmente esses assuntos são despachados por pessoal de departamentos de comunicação. Gostei da resposta, devo dizer. Sem papas na língua, ficou claríssimo o porquê da mudança de vedante nos seus vinhos. E, como já manifestou o HPS, tem muita razão no que afirma.

2 - Mais invulgar ainda é a forma como MC responde. A resposta é agressiva e chega a ser ofensiva quando passa a classificar de forma grosseira pessoas que manifestam a sua discordância com uma opção comercial da empresa. O MC evidentemente "dispensou" essas pessoas como possíveis clientes do seu produto, porque não passa pela cabeça de ninguém responsável ofender clientes. É um erro: só quem coloca a possibilidade de comprar um certo produto pode considerar o seu boicote. Seria ridículo eu afirmar que boicotava a Ferrari por achar que os seus carros consomem muito combustível. No caso dos vinhos de MC, comprava com alguma frequência o seu vinho verde Paço de Teixeiró, um bom, acessível e agradável vinho: deixei de fazê-lo desde que use tampas de rosca. É claro que o meu consumo pessoal não aquece nem arrefece a casa Montez-Champalimaud, mas é provável que haja mais pessoas com a mesma reação que eu. Isso devia preocupar MC.

3 - O MC mostra, de forma indireta, uma outra face da questão das rolhas vs. tampas: a real questão não é a da qualidade ou falta dela da rolha como vedante, mas sim uma relação comercial espinhosa entre a indústria corticeira e a vinícola. Se fosse uma questão de rolhas defeituosas, as grandes marcas mundiais de vinho já tinham abdicado de rolhas há décadas, porque as tampas não são uma invenção recente. Uma realidade é que, quase sem exceção, os vinhos topo de gama ao nível mundial continuam a usar rolhas como vedante e não as tampas. E essas marcas são pelo menos tão preocupadas com a qualidade do vinho como o MC. Pode aborrecer abrir uma garrafa de Quinta do Côtto com o vinho a saber a rolha, passa a ser um drama quando se trata de uma Barca Velha, Pétrus ou Clos de Vougeot. Portanto, a questão é comercial e não técnica. Como qualquer empresa, Montez-Champalimaud não gosta de depender de um grupo restrito de fornecedores e procura equilibrar o balanço de forças de oferta e procura. No caso dos vedantes conseguiu-o através de tampas de rosca, que qualquer indústria produz às toneladas. Compreende-se e está justificado.

4 - Como já afirmei no primeiro post meu sobre o boicote (que curiosamente refere vários dos argumentos depois usados pelo MC), penso que a rolha tem os dias contados para grande parte dos vinhos de consumo imediato (fica se calhar de fora a franja minúscula do mercado dos vinhos de guardar). O MC tem carradas de razão quando diz que a indústria corticeira vive à sombra do sobreiro e necessita urgentemente de encontrar novos mercados para os seus produtos corticeiros. Mas, sem a conhecer por dentro, penso que a "crise" das rolhas vai provocar uma resposta positiva por parte da indústria corticeira. Uma coisa sei eu: gastei mais cortiça no isolamento da minha casa (aí o MC está redondamente enganado) que um batalhão de ribatejanos bêbados pudesse gastar em rolhas no seu consumo de vinho ao longo da sua vida!

5 - Gostava muito de ver uma resposta do MC ao post do HPS. Muito mesmo.

Henk Feith

7 comentários:

Range-o-Dente disse...

A malta anda, agora, por aqui, a dedicar-se à rolha?

O sobreiros não sobrevivem sem a rolha?

Aristes disse...

Contribuição para o debate, aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=D_gecqWJPx8

Range-o-Dente disse...

A propósito, há noção da quantidade de sobreiros que são danificados por dificuldade em encontrar a força certa de machadada ao cortar a cortiça?

Henk Feith disse...

Range-o-Dente: pois há vida para além das alterações climáticas... A pergunta que faz no entanto é pertinente. A resposta não é fácil, mas se calhar o sobreiro sobrevive e o montado não. São coisas distintas. Dava um post.

Aristes: são estas coisas que dão razão ao MC.

Henk

Range-o-Dente disse...

Caro HF,

Vamos partir do princípio (podendo estar errado) que nem o montado nem o sobreiro sobreviverão sem 'a rolha'.

Em jeito de exercício, algumas perguntas:

1 - O sobreiro consegue sobreviver no nosso território sem algum tipo de assistência humana?

2 - O sobreiro é uma espécie que sempre (digamos dezenas de milhar de anos) existiu no nosso território? Quero dizer, não foi importada (de alguma forma)?

3 - Não é uma árvore cujo 'comportamento' já tenha sido modelado (selecção de agricultor, por exemplo) de tal forma que agora seja incapaz de se aguentar sozinha?

4 - Se há excessiva procura de cortiça, suficiente para obrigar alguns produtores de vinho, provavelmente de qualidade média, a optar por outras técnicas, porque os devemos preocupar?

5 - É verdade que a nossa cortiça é mais procurada para exportação e que importamos cortiça de menor qualidade para rolhas? (parece que alguns países só conseguem produzir cortiça mais fina mas usável para rolhas desde que duas metades sejam coladas - já vi e tenho imagens deste processo).

...

A pergunta 3 está envenenada porque aponta para um paralelismo aos toiros e às toiradas coisa que, aliás, detesto (as toiradas mas não as largadas).

.

Henk Feith disse...

Caro Range-o-dente,

1 - claro que sim.
2 - Sim, na escala temporal que refere
3 - de forma alguma. Pode ter havido alguma seleção genética (duvido) mas nunca ao ponto de se ter tornado dependente do homem. Não foi domesticado.
4 - não há excesso de procura de cortiça de forma regular ao ponto de provocar escassez de oferta, e não é o motivo para produtores de vinho de escolher alternativas
5 - não tenho dados concretos de importação de cortiça como matéria prima, mas parece-me que ela "viaja pouco" prévio à transformação industrial. Portugal produz 50% da cortiça mundial, por isso é natural que grande parte da produção se destina a exportação.

Henk Feith

Range-o-Dente disse...

HF,

Obrigado.

As 1, 2 e 3 eram as de mais de mais interesse.

Ficaria chateado se os sobreiros fossem substituídos por eucaliptos, como aconteceu aos pinheiros.

Não sou dessa área mas adoro passear entre pinheiros e tal não é possível com eucaliptos.

Entretanto sei quanto infelizmente milhares de pequenos proprietários de eucaliptais dependem dessa produção como complemento de reforma.