segunda-feira, fevereiro 08, 2010

pré-conceitos


Como em muitíssimas outras, nas interessantes discussões tidas relativamente aos posts aqui, aqui, aqui e aqui publicados, é interessante notar como as pessoas reforçam os seus preconceitos, sinalizando tudo o que confirma a sua tese, às vezes de forma bem ao lado, e relativizando ou mesmo negando exemplos que apontam no sentido oposto.

Lembro-me de uma conversa que tive, há uns tempos atrás, com uma amiga minha, que nunca visitou os EUA mas que é manifestamente antiamericana, e que questionava a qualidade da Educação naquele país. Para dar substância à sua crítica, realçava as más condições de duas escolas que uma sua amiga havia visitado. É manifestamente um enorme abuso saltar de dois casos, supostamente escolhidos ao acaso, supostamente bem e equilibradamente relatados, para todo um sistema de ensino de um país de trezentos milhões de habitantes. E perguntei a mim próprio qual seria a análise que a minha amiga faria se o cenário fosse exactamente o oposto. E tenho dúvidas que se a resposta não deambulasse entre a relativização do tamanho da amostra ou da qualidade do relato, algo parecido se haveria de arranjar.

Creio que temos todos uma enorme tendência para criar preconceitos e que passamos o tempo a reforçá-los. Um bom esforço para quebra-los é questionarmos como analisamos factos contrários aos que usamos para os reforçar. Caso contrário, caímos inevitavelmente em argumentação “desonesta”, nomeadamente com nós próprios. E a discussão agradece.

Gonçalo Rosa

7 comentários:

rasselep disse...

Caro Gonçalo, escreve-se: "se(...)não deambulasse", e não "se(...)não deambula-se", tal como seria em: "se passasse", e não "se passa-se" ... infelizmente, este é um erro frequente

Gonçalo Rosa disse...

rasselep,

:) tem toda a razão... e este é de algibeira. Obrigado pelo reparo!

joserui disse...

Caro Gonçalo Rosa, muito nos conta. Parece que os colaboradores do Ambio se estão a especializar em comparações sem qualquer mérito. O sistema escolar americano (aconselho o visionamente da fenomenal série The Wire, Quarta Época), o sistema bancário, as estradas... Enfim, é um nunca acabar.
Com que então preconceitos? Isso inclui uma auto-crítica, ou no que diz respeito à caça não tem preconceitos, só certezas científicas?
O problema é que por mais argumentos que se apresentem, os preconceitos dos colaboradores do Ambio para com quem coloca em causa a caça, designadamente como instrumento de conservação, são infindáveis. Mas tento.
Começo por desmentir o Henrique Pereira dos Santos nas suas alegações sobre a Faia Brava.
Se tiver tempo, julgo que também consigo desmentir essa falácia que a caça é favorável à conservação, designadamente do coelho e consequentemente dos que dependem dele.
Depois fazemos uma medição dos preconceitos. A ver como é. PS: Os seus dois últimos links são iguais. -- JRF

Gonçalo disse...

José Rui,

Quando afirmo "que temos todos uma enorme tendência para criar preconceitos", incluo-me no "todos", pelo que sim, é também uma autocrítica.

Quanto ao regime cinegético especial e à sua importância para a conservação de diversos predadores alados, já percebi que não tenho argumentos para rebater a sua... fé. Tentarei publicar um post (que prometera para ontem mas que ainda não tive oportunidade de terminar) nos próximos dias.

Eu bem que me esforço para me explicar, mas infelizmente vejo que tenho uma enorme dificuldade de o fazer. Pelo menos consigo. Com o exemplo que dou, o que pretendo demonstrar é a facilidade com que se criam preconceitos e não, obviamente, a qualidade no ensino nos EUA, que desconheço, apesar de visitar quase todos os anos aquele país. Mas francamente, recomendar-me o visionamento de uma série televisiva para me informar é bem demonstrativo que, de facto, para alimentar preconceitos tudo serve.

Gonçalo Rosa

joserui disse...

já percebi que não tenho argumentos para rebater a sua... fé.
Hehe... Eu desconfiava se chegasse ao argumentário dos negacionistas... Venha o post. Agora também estou sem tempo. -- JRF

José M. Sousa disse...

Embora algo indirectamente, porque o assunto do texto é a crise económica, sugiro a propósito do que Administração Pública Norte-Americana se tornou esta entrevista ao economista James Galbraith.

Nuno disse...

O que entendi desta discussão do coelho, que passou para a da caça, é o seguinte:

1.O coelho é a prioridade para conservação de determinadas espécies, em determinados contextos. A caça é um dos modos de dar á manutenção do coelho um apoio económico e logístico. Existem outros mas não julgo que existam motivos para serem mutuamente exclusivos.

2. A caça tem uma acção POTENCIAL para a conservação da natureza e da biodiverisidade, infelizmente, como desconheço a realidade da caça em Portugal, não percebi se isto já acontece e já foi estudado/comprovado ou se existem entraves associados á actividade (legislação e comportamento cívico). De qualquer modo acredito que os redactores do Ambio não achem que a regulamentação da actividade da caça existente seja ideal ou preparada para apoiar a conservação da natureza. O que se deve então alterar?

3. Pode-se discordar da caça por motivos éticos e pessoais e pode-se discordar da sua eficiência, pareceu-me haver esta mistura.
Da minha parte acho que a caça tem um potencial positivo considerável (como uma das soluções possíveis) mas não o alcança fora das intervenções pontuais, voluntárias e excepcionais. Eticamente a caça parece-me, potencialmente, melhor para o animal do que a criação uma vez que tem uma vida no seu contexto natural e hipóteses de se reproduzir e ter todos os comportamentos naturais á sua espécie. Isto se a caça não só zelar pela sua conservação (e dos seus predadores naturais) como selecione individuos adultos doentes ou fora do seu pico reprodutivo e faça rastreios de doenças, por exemplo.

Não sei se isto parece ingénuo mas tenho interesse em saber mais sobre a questão da caça/biodiversidade porque parece-me, como diz o G. Rosa no post, existir alguma generalização tanto na sua crítica como na sua defesa.

Cumprimentos

Nuno Oliveira