segunda-feira, abril 19, 2010

O Zé Pagante

Nos comentários deste blog há com frequência argumentações tipo benfica x sporting que deixam muito pouca margem à racionalidade.
O Zé Pagante, pessoa cuja integridade física e moral corre grave perigo por ter opiniões sobre política energética e que por isso tem de recorrer ao anonimato para se proteger, faz no seu comentário a este post uma boa demonstração do parágrafo acima.
Mas exactamente porque corresponde a um modelo mental muito difundido vale a pena procurar distinguir o que caracteriza este tipo de argumentação, evitando confundi-la com a expressão racional de opiniões divergentes e explicando por que razão é, pelo menos em parte, lixo argumentativo.
Zé Pagante responde ponto por ponto ao post e vou também manter essa estrutura que facilita (embora obrigue as pessoas interessadas a ir ver o post original para compreender os comentários, tem a virtude de reduzir muito a dimensão deste post).
1) À afirmação de reduzir a discussão da política energética à produção de electricidade é absurdo, face ao facto da electricidade representar uma parcela relativamente pequena no consumo energético e haver espaço de manobra para ganhos de eficiência, Zé Pagante responde que sem números o argumento vale zero. É uma típica técnica de desvalorização do argumento contrário que evita a sua discussão. Se Zé Pagante acha o argumento errado, pode dar uma volta na net e ver os números facilmente. Não o faz. Seja por preguiça, seja por malandrice evita uma discussão difícil com o argumento de que como não fiz uma demonstração da lei da gravitação universal não posso dizer que as maçãs caem. O facto é que caem, mesmo antes de Newton ter existido e portanto se quer demonstrar o contrário que trabalhe para isso em vez de desvalorizar um argumento de conhecimento comum (Einstein fez isso para explicar que a menor distância entre dois pontos poderia não ser uma recta, ao contrário do que é a nossa ideia de senso comum).
2) Segunda técnica, divagar. Apesar de serem vários os posts a defender o preço real quer da água quer da electricidade o Zé Pagante acha que se falar agora de água, quando se discute a electricidade, fragiliza o ponto de vista contrário. Não o elimina, apenas o fragiliza face a quem vai acompanhando a discussão sem grande atenção aos pormenores. O que se procura neste tipo de argumentações não é aproximarmo-nos o mais possível da verdade mas apenas dominar o outro.
3) Terceira técnica, fingir que não se percebeu o argumento e responder com um ataque sem qualquer relação com o argumento. Ao argumento de que é mentira que o défice tarifário seja inteiramente devido à produção de renováveis (argumento absolutamente incontestável) responde-se com fantasias sobre o futuro, totalmente impossiveis de verificar neste momento.
4) A mesma técnica anterior, embrulhada em paternalismo simpático. Ao argumento de que o manifesto dos nuclearistas é frágil tecnicamente, responde-se que é preciso não ser fundamentalista e há alternativas. A quê, se não era esse o argumento?
5) Incompreensível comentário face ao argumento de falta de honestidade por parte dos subscritores do manifesto nuclearista. Irrespondível face ao facto de não haver nada no comentário que tenha qualquer semelhança com o argumento em discussão.
6) Irrelevante
7) Concordando com o argumento (nesse caso uma crítica à APREN), usa-se agora a técnica da mistificação, puxando pelo apoio de que um terceiro que supostamente faz aquilo que deveria ser feito. O terceiro pega em situações excepcionais e vende-as como vulgares (caso da entrega de elctricidade a preço zero a Espanha) e pior, muito pior, para demonstrar que as renováveis não diminuem a importação compara valores de mercvado em vez de quantidades físicas, sabendo perfeitamente que está a comparar anos com preços substancialmente diferentes. Mas o Zé Pagante pelos vistos engole contas favoráveis aos seus argumentos com muito mais condescendência que as contas que os contrariam. O double standard no seu esplendor, um dos traços mais evidentes do lixo argumentativo.
O remate final é o do costume: uma rasteirita argumentativa sem nível. No caso, o não caso da falta de acesso de Steve McIntyre aos dados brutos do Phill Jones.
É que existem pelo menos três fontes de dados primários e em qualquer delas mais que 80% dos dados são públicos e mesmo assim o problema da eventual dificuldade de acesso aos 20% restantes de uma das fontes de dados é elevado a uma demonstração de que a razão está com o Sr. McIntyre.
Sobre a matéria (reconstrução paleo climática) o Sr. McIntyre publicou, que eu saiba, um único estudo. O que fez foi pegar nos dados de Phill Jones, fazer uma espécie de auditoria estatística, deitar fora os dados que na sua perspectiva não eram sólidos do ponto de vista estatístico (cerca de 80% dos dados foram desprezados) e fazer ele próprio uma reconstrução com os dados bons. O resultado é confrangedor com o Sr. McIntyre a garantir que estava um frio de rachar no mais que documentado período quente medieval e coisas do género.
O Sr. McIntyre, mas sobretudo a corte de negacionistas que o seguem, parecem não saber que a estatística não estabelece relações de causa e efeito, nem mede realidades, apenas detecta padrões nos dados obtidos pela ciência primária.
Tratar o estudo de realidades para as quais só existem dados inferidos, indirectos, fragmentários, descontínuos e de fiabilidade duvidosa como se houvesse amostras estatísticas consistentes e sólidas é de uma estupidez de tal maneira grande que evidentemente McIntyre não pode incluir-se nos que o fazem estupidamente. Seria preciso ser verdadeiramente estúpido, o que não parece ser o caso.
Infelizmente a alternativa disponível é apenas a de o considerar um escroque.
Como os relatórios que vão saindo (falta o da terceira investigação independente) vêm demonstrar.
Os imensos blogues que durante dias e dias linkaram tudo o que chamasse nomes a Phill Jones, mesmo sem a menor credibilidade, têm-se mantido, quase sem excepção, completamente fechados aos links para estes relatórios.
Como é impossível não saberem que existem, a conclusão possível é também só uma: são escroques também, que se apoiam mutuamente.
Mesmo que se arvorem em defensores dos supostamente pagantes.
henrique pereira dos santos

10 comentários:

Nuno disse...

Enquanto uns ainda se divertem com climategates e afins, outros, como este empresário de vinhos espanhol, já planeiam para um mundo com um clima diferente:

"Produtor de Rioja a investir em vinha nos pirinéus":

http://www.grist.org/article/2010-04-19-risk-mismanagement-the-climate-desk/

Para quem "vive" do clima e não de conspirações de internet algumas coisas já são uma realidade há algum tempo.

EcoTretas disse...

Talvez possas explicar as temperaturas elevadas do Árctico. Há lá uma ilha, próximo do Polo Norte, que está com temperaturas comparáveis às que nós temos cá no Verão... Dá uma vista de olhos em http://ecotretas.blogspot.com/2010/04/arctic-heat.html

Ecotretas

José M. Sousa disse...

A propósito do "Zé Pagante", um registo histórico da fiscalidade nos EUA, nomeadamente, as taxas marginais de imposto dos escalões mais elevados de IRS. Há muitas ideias feitas em relação a isto que não correspondem aos factos. Chamo a atenção que entre 1940 e 1979 o escalão de rendimentos mais alto teve taxas entre 70 e 94%!
Não me parece que os EUA se tenha dado mal com isto, bem pelo contrário!

Nuno disse...

Deixo aqui um link com pormenores da conferência do Director do IPCC na Gulbenkian:

http://ecosfera.publico.pt/noticia.aspx?id=1433121

Cumps

Eduardo F. disse...

Escroques, hein? Cuidado com o feedback positivo!

Eduardo F. disse...

«Airspace was being closed based on theoretical models, not on facts. Test flights by our members showed that the models were wrong».

Retirado daqui.

Cabe perguntar: rings a bell?

José M. Sousa disse...

Como sempre, o último comentador, que se dá ares de muito respeitável, fica-se sempre pela informação truncada: não diz quem proferiu a frase, em que contexto e com que interesse; e , ainda por cima, não alude a esta outra frase:

«The decision to lift the ban followed safety tests that showed plane engines could cope in areas of low density ash.»

Nuno disse...

Exacto José M. Sousa, e por acaso quem disse que os modelos estavam errados foi o insuspeito organismo científico chamado LuftHansa, que não tem qualquer interesse nisto.

Infelizmente foi vítima do poderoso lóbi das pessoas ecologistas anti-desenvolvimento que vivem debaixo de corredores aéreos e que conspiraram para esta farsa científica que fechou o espaço aéreo europeu.

Vamos fazer uma "vaquinha" para contratar um hacker russo para atacar as contas de email dos aeroportos?

João Magalhães disse...

Caro Henrique,

Assim duma leitura em diagonal ocorre-me isto:

1. McIntyre não faz reconstruções paleo-climáticas. É analista estatístico. O pessoal da paleo-climatologia (o chamado "tree-ring circus", lol) é que faz reconstruções.

2. A estatística que McIntyre chumbou não foi a de Phil Jones (Phil só tem um "l") mas a de Michael Mann (o "stick de hóquei"). Phil Jones não lida com árvores, mas com temperaturas das "de termómetro" (CRU e Hadley Center e Met Office). Michael Mann, da Penn U, é que lida com as árvores.

3. Dados brutos: ninguém sabe onde andam. O que há é dados "homogeneizados". É o próprio Phil Jones que diz isso, se bem me lembro. Diz que os apagou para poupar espaço.

4. Todos os relatórios -- ou, concedo, a maioria -- de investigação do caso de do CRU concluíram que eram todos bons rapazes, mas não sabiam estatística e só falavam uns com os outros.

Lamento não lhe providenciar os links já aqui. Mas isto tudo é tão básico, desculpe dizer-lhe! E, pensando bem cá para comigo, acha que lhe valeria a pena a si? E o trabalho que me dava?

Um abraço,
jm

João Magalhães disse...

"Como sempre, o último comentador, que se dá ares de muito respeitável, fica-se sempre pela informação truncada"

O José tinha lá um link, que até parece ter seguido. A sua afirmação não é sustentada pela realidade.

Bom, haveria mais para dizer sobre os modelos e o que se passou, mas não vai ser hoje.