quinta-feira, agosto 12, 2010

O fogo na Península III

Este boneco, que aliás está longe de ser bom graficamente, é a terceira vez que o publico (aqui e aqui, vale a pena ver as discussões associadas e respectivas datas). Não o vou actualizar que tenho perdido muito tempo com isto, por isso acaba em 2006, no ano em que ardeu a Galiza.
Por muitos a Galiza era apontada como um exemplo de que era possível acabar com os fogos montando um sistema de combate fortemente profissionalizada, hierarquizado, caro e assente na doutrina da supressão dos fogos nascentes. Bastaram nove dias de vento Leste (fraco, sublinho bem o fraco) para as duas províncias do litoral da Galiza arderem e aparecerem as conversas do costume sobre incendiários e sobre a sua sofisticação cada vez maior, com uma poderosa organização e baboseiras destas (os incendiários e a sua poderosa organizaram, tudo o vento levou quando mudou de direcção e os fogos foram extintos).
Gostaria de explicitar que este mapa mostra as áreas ardidas por ano (durante seis anos). Aquele azul claro é o ano de 2003, que ardeu em Portugal, mas porque Espanha não tem unidade geográfica semelhante só marginalmente foi afectada (na mesma zona que em Portugal), o que serviu que nem uma luva aos demagogos para atribuir toda a responsabilidade ao Governo incumbente (que a tem, como os outros, mas não nos termos usados na altura). Em 2003 Monchique foi afectado também mas não exactamente na mesma altura dos grandes fogos de Agosto na região centro, foi um ano aziago de coincidências. Há um verde com os grandes incêndios do Algarve em 2004, e correspondentes na Andaluzia próxima. Há um cor de laranja, que se não me engano foi 2005, onde foi ardendo ao longo do ano, menos concentrado (como parece que está a acontecer este ano) mas afecta o interior de Portugal e prolonga-se para o reino de Leão. E há uma espécie de violeta (mais fucsia) que é 2006, onde arde a Galiza e um pouco o Minho que lhe está próximo.
O conjunto é impressionante e a concentação geográfica por anos notável.
O que está aqui em causa não são os diferentes sistemas de combate em Portugal e Espanha, o que está aqui em causa é a especificidade geográfica da fachada Atlântica da Península.
Ora é exactamente ao ignorar esta especificidade e imitar os modelos espanhois (e semelhantes) de supressão total dos fogos nascentes, que funciona dentro de determinados níveis de risco sistémico de fogo, mesmo se uma vez por outra sai do controlo, sem ao mesmo tempo atacar o problema da gestão de combustíveis de forma séria (há umas faixas de contenção que nunca funcionaram porque o território são também as pessoas e as economias em que vivem, coisa que os técnicos florestais com frequência ignoram) que vamos sendo conduzidos ao desastre com fogos, sempre que, como é frequente aqui como em mais lado nenhum na Europa, as condições meteorológicas são favoráveis à progressão do fogo.
O erro político não está em não conseguir apagar os fogos. Isso é uma inevitabilidade que resulta da natureza das coisas.
O erro político está em não levar isto a sério na política do mundo rural.
henrique pereira dos santos

3 comentários:

Paulo disse...

Henrique,

Ainda é cedo, mas o padrão geográfico do fogo em 2010 assemelha-se ao do fogo em 2005 e 2009. Teria que ir verificar, mas as condições meteorológicas estão próximas de 2005 (mas com menos secura acumulada), ano em que houve fogos na casa dos 5000-10000 ha. É provável que uma parte substancial dos fogos nas serras estejam a ser limitados na sua expansão por esses fogos recentes (um efeito que persiste até 8 anos). Mas já vamos com meia dúzia de fogos nos 3000-5000 ha, alguns deles ainda não extintos... Não é expectável que a área ardida em 2010 se aproxime dos piores anos, mas 2010 será sem dúvida um dos piores em grandes fogos.

Paulo Fernandes

EcoTretas disse...

Henrique,

Temos tido divergências grandes no passado, mas tiro-lhe o chapéu pela quantidade de tretas expostas!

Ecotretas

Luís Lavoura disse...

"há umas faixas de contenção que nunca funcionaram porque o território são também as pessoas e as economias em que vivem"

Isto faz-me lembrar uma história que se passou com o meu pai, há uma meia-dúzia de anos atrás.

O meu pai era dos poucos proprietários florestais na região dele que obedeciam escrupulosamente à imposição legal de pedir autorização antes de plantar eucaliptos. (Mais ninguém na zona se ralava ou rala com tal imposição - plantam eucaliptos a eito, sem pedir autorização.) Uma vez pediu autorização para plantá-los numa propriedade que tinha, de 3 ou 4 hectares, em plena região florestal, onde tudo o resto era (e é) eucaliptos. Um técnico dos serviços florestais foi visitar a propriedade. Os serviços deram autorização para o meu pai plantar eucaliptos, condicionada à obrigação de, a toda a volta da propriedade, manter uma faixa de umas dezenas de metros sem qualquer árvore plantada, por forma a servir de corta-fogo.

Como é natural, o meu pai mandou essa condição à fava e plantou eucaliptos em toda a propriedade. Para que haveria ele de manter uma faixa sem árvores, se todos os vizinhos tinham árvores plantadas em contínuo? E que percentagem da sua propriedade ficaria sem árvores (logo, sem gerar rendimento) se ele aceitasse deixar de plantar na tal faixa de dezenas de metros de largura?