quarta-feira, outubro 06, 2010

A crise e o gasto militar em Portugal

A discussão sobre a dívida e o que fazer suscitou um debate interessante. Este debate surgiu da minha perplexidade pelo montante dos investimentos em submarinos. Basicamente os dois submarinos que vamos pagar custam aproximadamente 2/3 da receita calculada com as medidas extraordinárias anunciadas recentemente pelo governo. Ou seja, grande parte dos sacrifícios que os Portugueses farão durante o ano de 2011 são para pagar estes investimentos em equipamento militar. Não se contabiliza aí a aquisição de "novos" aviões à Holanda (mais 200 milhões de euros) que foram hoje divulgados na imprensa.

Questionar os gastos da defesa nacional é quase um tabu em Portugal. Os comentários que foram feitos aqui e ali deixam antever que existe a percepção de que este é um debate ideológico. Ser de esquerda é ser contra estes gastos e ser de direita é ser a favor. Não podia estar em maior desacordo. Eu considero-me uma pessoa de difícil classificação pois estou no centro do espectro político. Nuns aspectos serei classificável como de esquerda, noutros de direita. Na verdade estas classificações interessam-me pouco pois o mundo de hoje não se compadece com a classificação das pessoas num único eixo de abcissas. O que me interessa é a racionalidade das escolhas. E por isso questiono a opção estratégica deste e de outros governos para situar Portugal à cabeça dos países Europeus em matéria de gasto militar.

Portugal gastou em 2008, 2% do seu produto interno bruto (PIB) em despesas militares. Este valor aumentará no ano em que se pagarem os submarinos. Mas quanto gastam os nossos parceiros Europeus?

Aqui vão os dados retirados da wikipedia: Itália (1.7%); Roménia (1.5%); Dinamarca (1.4%); Alemanha (1.3%), Finlândia (1.3%); Noruega (1.3%); Belgica (1.2%); Espanha (1.2%); Hungria (1.2%); Austria (0.9%); Suiça (0.8%); Luxemburgo (0.7%); Islandia (0.1%).

Gastam mais do que nós, ou o mesmo que nós, a Grécia (3.5%), o Reino Unido (2.5%), a França (2.3%), e a Polónia (2%).

A Grécia pela relação conflituosa que têm com a Turquia (ainda que seja pouco provável que a Turquia ousasse atacar território Europeu, sendo aliás parceira da Grécia na NATO). O Reino Unido e a França pelo importante papel internacional que desempenham, nomeadamente no quadro do Conselho de Segurança da ONU. A Polónia pela idiossincrasia nacional, forjada por invasões recorrentes por parte da Alemanha e Rússia.

A menos que nos queiram convencer que o gasto militar Português se justifica pelo medo da invasão Espanhola (um absurdo nos dias de hoje), não se entende a racionalidade da escolha dos sucessivos governos do bloco central. Não se entende que nos estejamos a hipotecar até às orelhas, ao ponto de comprometermos a sociedade de bem estar que fomos construindo, para manter um nível de gasto militar muito acima da média Europeia (e quase o dobro do gasto Espanhol).

Não entendo que os comentadores e autores deste blogue achem isto normal.

12 comentários:

Henrique Pereira dos Santos disse...

Miguel,
Esta é uma discussão totalmente diferente da de honrar compromissos.
E nesta discussão estou inteiramente de acordo contigo, ressalvando que não sei entrar na discussão porque não sei o suficiente sobre defesa nacional (mas que me parece excessivo o gasto e diminuto o retorno, lá isso parece).
henrique pereira dos santos

aeloy disse...

Muito interessantes as últimas discussões.
Sobre este tema julgo que se deve analisar o peso do sector militar na estrutura do Estado e esse é mto superior aos 2% mencionados, sendo que não existe um conceito claro de defesa nacional que articule os novos desafios com a estrutura das forças armadas e o equipamento necessário.
Continuamos a viver ancorados em mitos (medo de Espanha, vicios de ex-potência colonial, e peso das Forças Armadas no poder de Estado) em vez de agilizarmos a estrutura com vista a combater as ameaças terroristas e ambientais, e ser essas a determinar a nossa acção e lógica de contingência.
Uma estrutura militar tipo Costa Rica seria o ideal e suficiente, sendo que no quadro da UE seria uma mais valia.
Claro que Olivença é só cultura...
E tem o Miguel toda a razão, colocar esta discussão como um confronto esquerda/direita é completamente um tiro fora de borda, recordo outra que marcou o passado que foi o fim do serviço militar obrigatório.
Será que o facto da esquerda defender a sua manutenção tornou o seu fim, ou os que defendiam esse (como eu) de direita?
António Eloy

Fluzão Eterno disse...

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Anónimo disse...

Estive a ver os números do Stockholm International Peace Research Institute, que tem a qualidade de cobrir a série de 1988 a 2008, e efectivamente, Portugal tem permanentemente gastos militares superiores aos vizinhos, colegas da Nato, outros pequenos países europeus (Espanha, Itaália, Bélgica). Tem vindo a descer, era 2,7% do PIB em 1988 e estabilizou praticamente em 2% a partir de 1999 (com 2,1% em 2004 e 2006 e 2,2% em 2005).

Não fazia ideia, não sei a explicação, e é uma questão interessante em si. Mas não sei se faz sentido discuti-la no contexto da crise 1) por causa dos compromissos assumidos 2) pelas razões que o comentário do Pedro Bingre ao post anterior sugerem.

IsabelPS

Pedro Bingre disse...

Convenhamos que as nossas compras de material de guerra germânico sempre ajudam um pouco à recuperação económica... da Alemanha. Também os gregos insistem em comprar equipamento militar teutónico, apesar da crise. Chamemos-lhe "keynesianismo militar transfronteiriço", à falta de melhor designação para tal fenómeno.

Anónimo disse...

Teutónico e gálico, pelos vistos. Por coincidência, aqueles cujos bancos são os maiores detentores da dívida dos porquinhos e portanto, apesar de tudo, com bastante interesse em que estes não vão à falência total (o porquinho nacional um bocadinho mais órfão do que os outros, porque aparentemente isso se passa por interposta Espanha).

O que me faz pensar que, se calhar, as urgências e as prioridades, tanto dos porquinhos como dos porqueiros, são decididas mais ou menos colegialmente (o que só quer dizer democraticamente no sentido de "two wolves and a lamb voting on what to eat for lunch"). Ou seja, business as usual em Bruxelas: 1) uma crise que faz provavelmente pela integração fiscal da União aquilo que trinta uniões monetárias não conseguiriam fazer; 2) cada um a tentar defender os seus interesses nacionais (e/ou pessoais/políticos), uns com mais meios do que os outros; 3) a Comissão (e provavelmente o BCE) a tentar convencer toda a gente de que têm de abrir mão de qualquer coisa sob pena de implosão com perdas muito maiores para todos. O costume.

Palpita-me pois que o nosso caríssimo Governo fez o que lhe mandaram fazer quando já não podia encanar mais a perna à rã. Não sou economista mas atendendo a que, ao contrário de "cá dentro", "lá fora" toda a gente parece muito mais preocupada com a falta de crescimento de Portugal do que com a sua dívida (o que é compreensível quando se olha para os números a nível da zona Euro, da UE ou mesmo da OCDE e não dos porquinhos exclusivamente), eu quase que dou o benefício da dúvida ao nosso Governo: se calhar não foi só por razões eleitoralistas. No primeiro semestre Portugal cresceu 1,4%, que foi a média da zona Euro, e os outros porquinhos mais 7 colegas cresceram abaixo disso. Agora vai contrair, mas se calhar é preferível que o faça quando (e se) houver alguma hipótese de procura externa.

Sei lá.

IsabelPS

Paulo Rosario Dias disse...

Meus amigos, a discussão é boa e no essencial têm razão, mas é preciso ter atenção a outros dados..

1.º Em 2002 quando a média de gastos militares na NATO era de 2,4%, Portugal mantinha-se abaixo dos 2,1%

2.º EFECTIVOS: Portugal tem cerca de um terço dos efectivos de espanha e os seus pouco mais que 40 mil efectivos estão em linha com países como a holanda ou a bélgica, tudo países que não têm uma ZEE tão grande a defender.
(Não se esqueçam que Portugal é dos poucos países desenvolvidos que tem uma guarda militarizada, e que absorvem grande parte desses efectivos)

O Curioso, e que vos dá razão é que para o mesmo número de efectivos, Portugal gasta mais do que devia. Isto, num país em que os vencimentos são abaixo da média e os custos com equipamentos acima da média, faz crer que há uma enorme ineficiência no uso dos recursos militares...
(basta ver a compra dos novos blindados só para a cimeira)

Vergonhoso p'ra mais quando vemos quartéis a cair aos bocados ou GNRs sem meios.

Cumps.

Leonardo disse...

Olá, tudo bem? Parabéns pelo blog! Nós identificamos sua ótima iniciativa on-line e pensamos em compartilhar com você nossa nova série de animação que fala sobre assuntos que são de nosso interesse, dos seus leitores e deveriam ser de toda a sociedade: consumo consciente e sustentabilidade. A série de 10 episódios é “Consciente Coletivo” e estreou dia 8 de setembro no Canal Futura. Os 5 primeiros programas estão disponíveis no nosso site (www.futura.org.br/conscientecoletivo). Também preparamos alguns conteúdos extras como papéis de parede pro computador, avatares, assinaturas de email e twibbon para quem quiser mergulhar na campanha. Confira lá e fique à vontade para divulgar. A ideia é formar um grande “consciente coletivo” pelo meio ambiente na internet!
Grande abraço!
Leonardo Machado, Coordenador de Novas Mídias do Canal Futura

Anónimo disse...

O vencimento dos militares não é assim tão pequeno quanto isso. Mas o que distorce as contas com os gastos na Defesa é a proporção dos oficiais superiores relativamente ao total de militares. Capitães-tenentes e Capitães-Mar-e-Guerra ultrapassam em nº o das escriturárias-dactilógrafas nos organismos da Marinha de Guerra. No exército, Tenentes-Coronéis e Coronéis são mais numerosos que cabos especialistas. São promovidos por tempo de serviço, pelo que passam à Reserva Territorial (reforma) por volta dos 50 anos, por vezes até com menos idade, quase sempre no topo da carreira. Provavelmente existem mais generais, almirantes e contra-almirantes em Portugal que no exército dos EU. É nesta rubrica que grande parte das verbas gastas na Defesa Nacional se eclipsa.

Anónimo disse...

«Capitães-tenentes e Capitães-Mar-e-Guerra ultrapassam em nº o das escriturárias-dactilógrafas nos organismos da Marinha de Guerra»

HA HA HA,

Agora percebi, o mal financeiro e operacional das forças armadas nacionais é o défice de «escriturárias-dactilógrafas»...

HA HA HA HA

Não consigo dizer nada

HA HA HA

Anónimo disse...

Porventura você é um felizardo que se ri por tudo e por nada. Um qualquer Santo, que não me recorda o nome, considerava pessoas como você bem-aventurados.

Eu explico-lhe: Tratava-se apenas de um exagero para ridicularizar o excesso de oficiais superiores.

Já há mais de 30 anos dizia-se, entre os marinheiros da Armada, que havia mais Almirantes, Contra-Almirantes e Almirantes que candeeiros no Ministério da Marinha.

Mas ria-se homem! Esteja à vontade.

Miguel B. Araujo disse...

Interessante saber que os Americanos pensam o mesmo que eu e que ninguém parece ter coragem de assumir em Portugal:

http://www.publico.pt/Política/eua-dizem-que-portugal-compra-brinquedos-caros-e-inuteis-por-orgulho_1482236

Complexo de inferioridade que nos sai bem caro. Nunca melhor dito.