terça-feira, outubro 19, 2010

Previsões certas e erradas

O gráfico acima, traduz na sua parte final, a entrada de uns dias de vento Leste, desde este fim de semana até amanhã ou quinta feira, e confirma a previsão feita na legenda do primeiro gráfico publicado neste post.
Depois do fim de semana de 9 e 10 de Outubro, em que choveu todo o dia em todo o território, o que deu origem a dois raros dias seguidos sem um único fogo, tivemos uma semana com fogos a começar na dezena (chuva aqui e ali mas menos persistente que no fim de semana), que rapidamente passam para o patamar dos trinta a quarenta fogos diários quando pára a chuva. O vento Leste começa a fazer-se sentir no Domingo, segunda o número de fogos subiu para 65 (mais de 50% de aumento num dia) e ontem, terça, foram 100 fogos. Veremos o que nos espera o resto desta semana, se a previsão de vento Leste se concretizar até quarta ou quinta.
Algumas notas:
1) Como mais uma vez se comprova, o vento Leste é uma espécie de potenciador das condições existentes, favorável ao fogo. Ou seja, por si só não representa um risco de especial, mas induz um risco maior de fogo às condições existentes, seja em que altura do ano for. Para mim é incompreensível que não entre formalmente na avaliação de risco que é feita.
2) Ao contrário do que era a minha previsão, o número de fogos nocturnos não voltou à percentagem de trinta a 45% onde esteve na grande parte do Verão para o qual existe informação. As fracas condições de propagação podem ser as responsáveis por isso, havendo uma diminuição das ignições diferidas, que é a minha explicação principal para os fogos nocturnos. É um chamado "educated guess" não é uma conclusão com base em dados empíricos. Outra explicação possível são as características amplitudes térmicas dos episódios de vento Leste de Outono/ Inverno, com noites francamente frias e mais húmidas que contrastam com os dias bastante solarengos, luminosos e secos. Mas o que é lógico não é necessariamente verdadeiro, pelo que mais informação empírica seria aqui necessária.
3) Nas estatísticas fornecidas pela protecção civil verifica-se que durante a semana anterior, em dias com trinta e tal fogos, havia mais de dez intervenções de meios aéreos, apesar de ter chovido abundantemente há menos de uma semana, o que ajuda a explicar por que razão gastamos agora 100 milhões anuais em vez dos trinta milhões de há cinco anos. Ontem, para 100 fogos, não houve intervenções de meios aéreos. Espera-se que esta opção corresponda a uma correcção táctica perfeitamente justificável. O ataque inicial com meios aéreos é caríssimo (e, já agora, ambientalmente desastroso no consumo de recursos) e parece-me incompreensível que para condições gerais de fácil extinção e progressão lenta dos fogos, como são as actuais, pese embora o vento Leste, se estejam a desperdiçar recursos em meios aéreos. Acresce que arder nesta altura, com estas temperaturas e com vento fraco, não é problema nenhum, a menos que existam valores como casas, povoamentos, infra-estruturas, em risco real. A doutrina táctica deveria ser adaptada a estas condições e não manter a obsessão da extinção no menor tempo possível. Essa é uma das razões pelas quais a área ardida é um péssimo indicador. Nas actuais condições, os fogos trazem mais benefícios que prejuízos, apesar de não serem fogos controlados, e representam poderosos instrumentos de gestão de combustíveis, pelo que o papel do dispositivo de combate aos incêndios deveria ser simplesmente o de conduzir o fogo em função dos valores presentes, e não o de o extinguir. Com algum risco se poderá dizer que, nestas condições, quanto mais arder, sobretudo fora de povoamentos, melhor ficaríamos preparados para os dias de condições verdadeiramente difíceis.
henrique pereira dos santos

4 comentários:

Paulo disse...

Henrique,

A evidência empírica a que aludes é abundante. A possibilidade de um fogo se iniciar e propagar é controlada em 1º lugar pela humidade do combustível. Em noites mais frias e, principalmente mais húmidas, com formação de orvalho ou geada, são muito pouco prováveis os fogos nocturnos. E até mesmo os fogos diurnos matinais...

Paulo Fernandes

Nuno Dores disse...

Meu caro

A proteccao civil nao gere eficazmente, e com cabeça, os meios aereos... e eu sei do que falo. Conseguiram vender aos politicos que os incendios requerem meios (e dinheiro) e nao têm pejo em os gastar como nao houvesse amanha,,, alias nos ultimos dias nao tem havido intervencao dos meios aereos, porque a partir de 15/10 eles nao estão disponiveis... Se tivessem a festa continuava...

Henrique Pereira dos Santos disse...

Paulo,
A evidência empírica a que aludo é a que diz respeito à humidade atmosférica nas noites de vento Leste no Outono e Inverno. Acredito que exista (parece-me lógico face às amplitudes térmicas) mas eu não verifiquei isso.
Nuno Dores,
Acredito, eu simplesmente gosto de partir das hipóteses mais sensatas.
henrique pereira dos santos

nmhdias disse...

desculpem a minha ignorância por ficar incrédulo mas em 31/8 houve mais de 500 fogos?!