segunda-feira, janeiro 03, 2011

100 000 hectares para wilderness

Quadro retirado daqui, onde é patente todo o peso ideológico que hoje contamina a discussão técnica sobre políticas de conservação. Repare-se como os especialistas consultados classificam o olival como mais natural que as culturas anuais, mas colocam as vinhas e os pomares ao mesmo nível das culturas anuais. Para já não falar dos prados ou dos arbustos e do sobreiro e da azinheira, que são essencialmente montados, e que os especialistas consideram muito naturais, mesmo mais naturais que as outras folhosas (embore reservem a classificação de campeões da naturalidade para os carvalhos). Repare-se como a escala é comprimida para os valores mais baixos, mas não existem valores abaixo de três, ficando desertas as duas classes supostamente mais naturais. Entre as cidades e a generalidade dos usos rurais, que se distribuem entre 9 e 3, apenas se destaca uma coisa: os eucaliptais, considerados qualquer coisa entre o urbano e o agrícola.
Nos comentários a este post, e na sequência do post do Henrique Miguel Pereira e doutro mais velhinho do Miguel Araújo, pergunta-me o Miguel em que me baseio para afirmar que, neste momento, 100 000 hectares de wilderness em Portugal são socialmente insustentáveis.
O Miguel orientou uma tese de doutoramento que exactamente procurou encontrar áreas de cem mil hectares susceptíveis de serem geridas numa óptica de não gestão.
A tese realmente encontrou quatro áreas de cem mil hectares que poderiam servir para este efeito, simplesmente é preciso ter em atenção a natureza académica do trabalho, que ainda por cima se baseia em opiniões de peritos em conservação para definir o carácter de wilderness das áreas. Ora os peritos em conservação têm o problema de serem peritos em conservação, a maior parte dos quais sem grande sensibilidade económica e social, e muitos profundamente ignorantes sobre as dinâmicas da paisagem. É óptimo para fazer um tese de doutoramento e é bom como trabalho académico, simplesmente os seus resultados são absurdos enquanto base de tomada de decisão.
Para se ter uma ideia, uma das principais áreas identificadas é o interflúvio que separa o Tejo do Sado, uma das mais importantes áreas de produção florestal do país, incluindo de cortiça, com 65% da área ocupada com montado.
Será preciso muito para explicar que hoje é socialmente inaceitável trocar uma boa parte da fileira da cortiça por uma gestão cujos objectivos não seriam claros? Há alguma fundamentação para supôr que 100 000 hectares de sobreiral denso teria mais reconhecimento como área produtora de biodiversidade que o actual mosaico de montado e outros usos? Há alguma razão para supôr que as pessoas estariam dispostas a ver arder periodicamente, com intervalos crescentes, mas com violência e tamanho também crescentes, áreas imensas onde antes se produzia riqueza palpável, a troco de uma ideia cuja interesse social não é claro?
Em todas as áreas definidas, os matos, aquilo que mais facilmente é aceite socialmente como área de evolução sem gestão, nunca passam dos 50% (com uma excepção de pouco mais de 50%) e que os povoamentos florestais mais próximos do que seria a paisagem final são hoje residuais (quase sempre menos de 5%, sendo que a única área com pouco mais de 6% são as montanhas do Noroeste onde foi até hoje experimentado o conceito de wilderness, numa área de apenas 10 000 hectares, motivando protestos infindos, embora do meu ponto de vista sem grande razão).
É aliás por isso que não entendo o que seja o projecto Rewilding Europe no Noroeste da península, em cima de uma destas áreas identificadas na tese em questão, no Douro/ Côa e Águeda, a que se junta a parte espanhola.
Não entendo onde estejam os tais cem mil hectares, conheço os 600 da Faia Brava (que está longe de ser gerida como área de wilderness), conheço mais meia dúzia de milhares (sendo generoso) da fundacion hombre e naturaleza (cujo nome não engana ninguém) e não vejo como se cresce para cima de áreas ainda produtivas, com aldeias, vilas e outros estabelecimentos humanos, e com recusa de aceitação do fogo como consequência inevitável.
Ora com base nisto que não entendo, começo a ouvir falar de introdução de grandes herbívoros, desaparecidos há muito, usando a legitimação de uma suposta renaturalização que efectivamente está a acontecer, incluindo a expansão dso ungulados e seus predadores, embora de forma não contínua. Qual a necessidade de reintrodução de espécies icónicas, engraçadas, e sem função reconhecida no ecossistema que justifique a sua reintrodução?
Não sei como se gerem estas áreas de não gestão para que não se tornem terras de ninguém (há bons exemplos na história das consequências de perda de controlo social do território), sem ser à custa de muita e cara repressão.
Não sei como se gere a interface com as áreas envolventes, sem ser à custa de muita indemnização.
Não sei como se adquire a custódia do território a não ser à custa de muitos milhões de euros em compras de terra, mesmo que por via da expropriação.
E não sei como se gere o processo de transição, em particular o horror social ao fogo, mesmo com muitos e muitos milhões de euros porque a gestão do fogo é inevitavelmente a negação da não gestão ou a aceitação de fogos extensos e severos nos próximos cem anos (pelo menos).
E em rigor não sei qual o fundamento teórico para este modelo, já que se deita fora toda a construção de legitimação da política de conservação da biodiversidade baseada na conservação dos elementos do património genético: é que a conservação de processos naturais não tem utilidade social tão evidente como isso.
Quer isto dizer que não concordo com a ideia e que a a gestão com objectivos de wilderness não é útil?
Não, quer simplesmente dizer que há muito caminho a fazer antes de se embarcar num desejo excessivo de natureza que é mais uma construção teórica que uma necessidade social.
Ora não há política nenhuma de longo prazo que se mantenha sem racionalidade social.
E racionalidade social, no longo prazo e a esta escala, quer dizer fundamento económico.
É por não ver com clareza esse fundamento económico, em particular na forma de atingir o objectivo, que não vejo qualquer viabilidade social de embarcar numa alteração desta profundidade na paisagem, na escala proposta.
O que não inviabiliza o passo a passo.
Caro, de qualquer maneira, mas eventualmente aceitável à boleia do abandono rural actual, cuja manutenção a prazo não sabemos se existirá.
henrique pereira dos santos

8 comentários:

Luís Lavoura disse...

100.000 hectares são 1.000 quilómetros quadrados, isto é, a área de um quadrado com 32 quilómetros de lado. Ou de um retângulo com 50 quilómetros por vinte.

Parece-me manifestamente exagerado, em Portugal. Os autores de tal tese terão pensado bem no que estavam a dizer? Ou serão candidatos a ditadores?

Miguel B. Araujo disse...

Luís, O parque da Serra da Estrela tem 100.000 ha. Em todo o caso a proposta mais plausível que ouvi até ao momento é avançar para uma área transfronteiriça pelo que a área correspondente a PT seria menor.

Miguel B. Araujo disse...

Henrique,

Algumas precisões:

1. Esta não é uma tese de doutoramento pois, como sabes, para ser tese tem de passar por umas provas académicas que este trabalho não passou.

2. Este é um trabalho metodológico não validado e em nenhum momento nos passou pela cabeça usá-lo como proposta ao ICNB, ou outros, para a definição de áreas de wilderness no terreno. Portanto não faz qualquer sentido criticar um dos seus resultados como se de uma proposta se tratasse.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Luís,
Não percebo o que tem a dituadura com isto. Nada impede alguém de comprar 100 000 hectares (ou ter acordos de gestão) e avançar com uma área de wilderness desse tamanho.
Eu acho que não existem condições para isso, mas isso não me permite dizer que é uma proposta ditatorial.
Miguel,
Agradeço mais uma vez a precisão de linguagem, mas parece-me que corremos o risco de no espaço público não se discutir nada se se pretender que para fazer qualquer discussão os leigos têm de usar o jargão técnico (muito dele nem sequer linguisticamente validado) usado pelos académicos.
Tirando isso, eu não critico um dos resultados do trabalho porque sim.
Critico porque me pedes dados para a minha afirmação de que não me parece socialmente sustentável ter, neste momento, 100 000 hectares de wilderness em Portugal.
Este é o único trabalho que conheço que procura identificar essas áreeas e tem uma proposta concreta.
Ora admitindo que estas são as quatro melhores áreas possiveis para isso, limitei-me a explicar que há fortes razões para supôr que são, qualquer delas, completamente inexequíveis.
E fundamentei (incluindo a questão do fogo na fase de transição, que não é de somenos, mas também outras questões).
Ou queres avançar na discussão sobre o assunto, e naturalmente pressupõe aceitares a ignorância dos não académicos, a imprecisões de linguagem e concentrar atenções na substância do argumento, ou não queres e nessa altura dificilmente a ideia poderá ir fazendo o seu caminho, como tu, e eu, gostaríamos.
henrique pereira dos santos

Folhetim Cultural disse...

meu blog voltou com tudo acompanhe durante a semana noticiário cultural. Espero que goste. Me siga. Abraços boa semana.

informativofolhetimcultural.blogspot.com

Miguel B. Araujo disse...

Henrique, A precisão sobre palavras e conceitos é importante porque baliza as discussões. Justamente para evitar discussões semânticas e conversas de surdos que esta precisão é importante. O trabalho que referes pretende trabalhar uma metodologia SIG que usa a percepção social do valor da wilderness para fazer a sua cartografía. Se me pedissem para propor áreas concretas, i.e. se houvesse uma preocupação de implementação, teriamos considerado mais variáveis e teriamos confrontado as propostas com a opinião de stakeholders. Não foi o caso pois o objectivo era outro. Ora usar este trabalho, concretamente, um dos seus resultados para concluir que a implementação do conceito, não tem apoio social é, como dizer sem ofender, algo forçado.

No fundo o que deixas transparecer é que esta tua afirmação não tem qualquer base empírica o que aliás não surpreende pois a questão nunca foi estudada e além do mais parte de um preceito errado: as bases sociais para projectos inovadores não existem, vão-se construindo.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Miguel,
As precisões de linguagem são importantes quando há confusão. Agora se eu digo que há co-evolução das espécies presentes antes da pastorícia e agricultura com a evolução dos sistemas naturais não há confusão nenhuma. Há eventualmente um uso errado do termo co-evolução (e concordarás comigo que não é apenas um termo da biologia, é um termo geral que quer dizer evolução simultânea e relacionada) mas não há confusão sobre o que estou a dizer.
Do mesmo modo se me pedes para fundamentar a minha ideia de que não há 100 000 hectares que agora pudessem servir para uma área de wilderness como propões, é normal que eu procure o mais estruturado exercício feito sobre o assunto para explicar as minhas dúvidas (acresce que eu próprio procurei encontrar dez mil hectares para a introdução do conceito Pan Parks em Portugal e tive muitas dificuldades. E não só eu, pelo vistos toda a gente porque os 10000 hectares que acabaram por ser escolhidos, com a minha discordância, que são no coração de uma das tais áres de 100 000 está muito longe de ser uma escolha pacífica.
Ora a minha crítica não se prende com a contestação à ideia de que projectos inovadores vão construindo o seu próprio apoio social, a minha crítica prende-se com a excessiva desvalorização das suas dificuldades que conduz a desastres com repercussões sociais relevantes e em recuos dos tais projectos inovadores por muitos anos.
O exemplo do Henk na Holnada, cujos responsáveis são os mesmo que agora apresentam um projecto excessivamente nebuloso na sua execução para a área transfronteiriça do Douro/ Águeda dá uma ideia clara dos estragos que podem ser causados pela falta de atenção às cautelas que tenho vindo a referir.
henrique pereira dos santos

Luís Lavoura disse...

Miguel Araújo,

o parque da Serra da Estrela não é wilderness, nem nada que se pareça. Tem fortes atividades humanas em grande parte da sua extensão.