sexta-feira, dezembro 31, 2010

O abandono agrícola como uma oportunidade para a biodiversidade



Nos últimos anos muitos cientistas e ambientalistas têm-se preocupado com os potenciais impactes do abandono agrícola sobre a biodiversidade. Digamos que há uma verdadeira escola de pensamento sobre esta questão, com raízes não só na Arquitectura Paisagista (onde a perspectiva da paisagem como algo que deve ser gerido é fundamental) como na Biologia da Conservação (que como o próprio nome indica é aversa à mudança). Aliás temos aqui um verdadeiro paradoxo, nos países em vias de desenvolvimento temos vindo a preconizar a manutenção da floresta e a combater a sua conversão em zonas agrícolas. Já nos países ricos (e esta filosofia aplica-se essencialmente à Europa), defendemos a manutenção da agricultura e combatemos o regresso da floresta. O argumento utilizado até à exaustão é que as espécies na Europa co-evoluiram com a agricultura, portanto temos que manter os habitats para manter estas espécies. É fácil desmontar este argumento: a agricultura tem menos de 10 000 anos, e a grande maioria destas espécies já ocorriam na Europa antes dessa altura. E então quais são os factos científicos:
(1) Vários estudos demonstram que sistemas de agricultura extensiva têm mais diversidade de espécies que sistemas de agricultura intensiva
(2) Vários estudos demonstram que à escala local (i.e. do ha ou das dezenas de ha) há uma diminuição da diversidade de espécies após o abandono agrícola

Em relação a (1) a preocupação deve ser assegurar que nas zonas de agricultura mais intensiva (essenciais para uma produção agrícola economicamente competitiva) se mantêm elementos da paisagem que favoreçam a biodiversidade, como seja a manutenção de boas galerias ripícolas, sebes vivas, o correcto doseamento de pesticidas e adubos, entre outras. Em relaçao a (2), há que perceber que o que se passa à escala local não é necessariamente o mesmo que se passa à escala regional. Por exemplo, os estudos do meu grupo de investigação, sugerem que o desaparecimento de zonas agrícolas em áreas de montanha têm um impacto muito mais pequeno no número total de espécies do que seria de esperar se olhássemos só à escala local. Isto acontece porque as espécies têm afinidades diferentes para habitats diferentes: as espécies que se dão muito bem em zonas agrícolas também podem ser encontradas em zonas florestais, mas com menos frequência (por exemplo em pequenas zonas abertas no meio da floresta).

O que tenho defendido nos últimos anos é que devemos olhar para esta questão do abandono agrícola ao contrário, ou seja, como uma oportunidade para a biodiversidade. Muitas espécies que tinham quase desaparecido em meados do século XX com o pico populacional nas zonas de montanha em Portugal estão agora em grande expansão (faltam-nos estudos rigorosos sobre isto, mas os indícios são muitos): o corço, o javali, o veado, e em menor escala o lobo (muito polémico ainda). A nível Europeu, são várias as espécies que têm vindo a beneficiar deste abandono (ver texto do HPS sobre este tema ou este relatorio ).
A dimensão da oportunidade não deve ser sub-estimada: cenários para 2050 apontam para o potencial abandono agrícola de 20 milhões de ha na Europa Ocidental (ver este estudo de cenários globais e este para a Europa), que se somam aos vários milhões que têm vindo a ser abandonados nos últimos anos.

Até agora, muitos decisores e cientistas perante esta dinâmica imparável têm tido uma atitude de avestruz com a cabeça na areia: basta dar alguns subsídios que as actividades tradicionais se irão manter. Isto teve ainda o contexto político favorável da necessidade de "mascarar" parte dos subsídios da Política Agrícola Comum como subsídios ambientais, dada a pressão da Organização Mundial de Comércio para o fim dos subsídios agrícolas na Europa, que distorcem o mercado agrícola mundial. Esta atitude, para além de ser um desperdício de dinheiros públicos, não lida com o verdadeiro problema de frente: como aproveitar esta oportunidade para evoluir para florestas auto-sustentáveis (evitando os ciclo curtos de recorrência do fogo), que precisem de pouca gestão e que sejam biodiversas, ou como desenvolver novas formas de aproveitamento destes espaços, tanto a nível agrícola como florestal.

E assim, deixo o meu desejo para 2011: que haja mais cientistas, mais ambientalistas, e mais decisores que se apercebam da oportunidade gigantesca que o abandono agrícola nos traz para a renaturalização de espaços na Europa, a uma escala que não é vista há muitos séculos. Se isso não são boas notícias para fechar o Ano Internacional da Biodiversidade, então o que são boas notícias?

22 comentários:

Luís Lavoura disse...

"cenários para 2050 apontam para o potencial abandono agrícola de 20 milhões de ha na Europa Ocidental"

E você acredita nesses cenários?!

A agricultura moderna é toda feita à bese de energias fósseis. Assim elas comecem a escassear - muito em breve - e outro galo cantará.

E já hoje os cereais estão à beira da escassez...

Em breve toda a terra disponível na Europa Ocidental voltará a ser aproveitada.

Ponto Verde disse...

Votos de Bom Ano , saudações democráticas e blogoesféricas.

Henrique Miguel Pereira disse...

Caro Luis Lavoura,

Se um dos autores de exercícios de cenários não acreditar nos cenários então quem acredita? Agora mais a sério, é certo que a agricultura actual está dependente dos combustíveis fósseis e em particular do petróleo. No entanto, primeiro o petróleo deverá durar pelo menos até 2030, se não mesmo até 2050. Segundo, o petróleo depois será substituído pelo gás natural e outras fontes de energia. Para além disso, o padrão de crescimento demográfico parece ser um dos factores importantes em relação ao abandono agrícola, nos países onde a população estabilizou ou regrediu o abandono agrícola aconteceu. Portanto a menos que tenhamos um indesejável regresso à expansão populacional nos países desenvolvido, não é provável um regresso à agricultura em zonas marginais, a não ser numa situação de crise global, como uma guerra. E alguns dos cenários incluem estas situações, os valores que dei no meu post eram os valores para os cenários em que há maior abandono agrícola.

Carlos Aguiar disse...

Sou um pessimista nestas coisas da agricultura. Há 30 anos que matuto no cenário apontado pelo LV e acredito que está cada vez mais próximo. Poderemos ter petróleo, gás natural e carvão para mais duas gerações, mas os efeitos a inelasticidade da procura destes bens condicionarão a economia e a agricultura muito antes da escassez ser definitiva. O aumento da produtividade do trabalho agrícola, sobretudo após a II Guerra Mundial, fez-se à custa de um incremento da incorporação de energias fósseis nos sistemas de agricultura. O melhoramento de plantas, os adubos, os pesticidas e as máquinas agrícolas flutuam em petróleo. Então, menos petróleo => menos azoto (e fósforo), menos trabalho com máquinas agrícolas e de transporte => menor produtividade do trabalho e da terra, e maiores custos de transporte => “desglobalização” da agricultura, intensificação da agricultura de proximidade e extensificação das terras mais distantes dos centro urbanos. Mesmo que a população estabilize, para sustentar os mesmos será necessária mais área agrícola e florestal (a floresta será necessária para produzir cadeias carbonadas longas).
Não quero entrar nesta discussão. Quero sim alertar para o seguinte facto: se o cenário do LV se concretizar então o solo agrícola, cultivado ou não, é um activo importante, como foi o solo para construção nos últimos trinta anos. Um investimento de médio de longo prazo que não se desvaloriza pelo abandono, praticamente não paga impostos e que o Estado não quer saber a quem pertence ou o que fazem com ele.

Anónimo disse...

Henrique,

"como aproveitar esta oportunidade para evoluir para florestas auto-sustentáveis (evitando os ciclo curtos de recorrência do fogo), que precisem de pouca gestão e que sejam biodiversas, ou como desenvolver novas formas de aproveitamento destes espaços, tanto a nível agrícola como florestal."

Poderia dar um exemplo de um sistema com estas características?

Henk Feith disse...

Caro Henrique,

Li e reli o post com particular atenção. Acontece que trabalho diretamente no primeiro ponto, substituindo a perspectiva da agricultura intensiva pela silvicultura intensiva (aliás, em praticamente todos os aspetos semelhantes na sua abordagem da criação de valor nos espaços rurais).

E foi com um sinal de reconhecimento que vi as orientações para uma maior defesa da biodiversidade dadas no post: "se mantêm elementos da paisagem que favoreçam a biodiversidade, como seja a manutenção de boas galerias ripícolas, sebes vivas, o correcto doseamento de pesticidas e adubos, entre outras". É exatamente o que está a acontecer em muitas áreas de silvicultura intensiva, com taxas de áreas reservadas para a conservação de valores ecológicos (entre os quais a biodiversidade) que rondam os 10%, algo impensável para a quase totalidade das áreas de agricultura intensiva, apesar da sua muito maior criação de valor por unidade de solo (ou será antes ao contrário: devido ao maior criação de valor) quando comparado com a produção florestal intensiva. Não devo deixar de mencionar que o principal motor desta gestão de biodiversidade tem sido a certificação florestal, que já resultou em Portugal em mais de 200 mil hectares de floresta certificada.

Por enquanto, a biodiversidade não paga a perda de rendimentos pela reconversão de áreas produtivas em áreas de conservação. E se calhar o maior desafio está lá. Mas a experiência tem mostrado que são frequentemente as áreas com menor aptidão para produção intensiva as com maior interesse para conservação. Assim, a perda económica é muito inferior que a perda em termos de área. Se juntarmos a isso os ganhos reais em termos de comunicação e imagem e as potenciais valorizações futuras de áreas de conservação, se calhar devemos olhar com realismo para uma política de gestão de paisagem que consegue conciliar produção e biodiversidade nas áreas onde ela mais falta faz. E não seria isso mais eficaz do que "reservar" 20% do território nacional em áreas classificadas para salvar a nossa biodiversidade?

Henk Feith

PS - se estiver interessado em conhecer exemplos de criação de áreas de conservação em espaços de produção florestal intensiva, é só combinar.

Anónimo disse...

Tenho raízes numa zona de montanha onde a área agrícola terá sofrido uma redução de cerca de 95/100 da que existia há 40 anos.

Desde miúdo que gosto de observar bichos e plantas.

As minhas observações contrariam algumas das coisas que por aqui se disseram.

É verdade que o javali, veados e corços apareceram na serra, os lobos por enquanto não. Mas mesmo destas 3 espécies 2 delas, o corço e o veado, foram lá postas por mão humana. Se hoje se multiplicam e vivem sem dificuldades, há 40 anos atrás também passariam bem.

No entanto a diminuição da biodiversidade nesta minha área de observação é dramática. As aves diminuíram catastroficamente. Não as vou enumerar por não achar necessário. Lembro-me de vales cultivados com milho, hortas e videiras que bem poderiam servir para S. Francisco ensinar aos discípulos as falas da passarada, tal a quantidade de pios e cantares que se ouviam a cada passo. Eu, ao invés, teimava em retirar-lhes o pio, primeiramente com fisga, depois com pressão de ar. Nestes últimos anos alguns desses vales foram totalmente abandonados pela agricultura. Eu continuo a percorre-los a pé, sempre a olhar e a escutar, agora em busca de rastos de javalis, e o silêncio é sepulcral.

As ribeiras estavam cheias de trutas, bogas e bordalos, devido às inúmeras represas para regas. Hoje as cheias levaram as pedras das paredes que represavam a água, e no Verão corre um fio de água que impossibilita a vida aos peixes. Estes tinham alimento em abundância, pois insectos e suas larvas viviam folgadamente nos estrumes e estrumações. Quando se destapava os tanques não era incomum agarrar-se uma truta aos saltos no meio do milho, trazida pela agua da levada.

Os anfíbios viviam regalados no meio dos tanques e poços (para regar hortas a aguadouro) que se faziam onde havia nascentes. Sei de dúzias desses tanques que desapareceram. Talvez os anfíbios tenham emigrado para a sombra dos eucaliptais que entretanto apareceram como cogumelos em Novembro.

Por falar em cogumelos, lembro-me que eles aparecem aos milhares e sob várias formas e cores essencialmente nos terrenos de cultivo, abandonados ou em pousio. Assim que eles são conquistados definitivamente por matos e silvas, desaparecem.

Poderia continuar enumerando as minhas observações, ajuramentadas por amor à arte, não por qualquer interesse pessoal ou profissional.

Parece-me que colocar em questão os serviços prestados à biodiversidade pelos heróis que teimam em sobreviver nas serras, plantando nela o pão deles de cada dia, (no mínimo) é ter-se poucos conhecimentos como a coisa era antigamente e como o é agora.
jaime

Paulo disse...

Caro Henrique,

Não é a minha especialidade, mas o teu ponto de vista é pouco consensual... Sobre o valor dos espaços abertos para a biodiversidade vê por exemplo:
http://www.springerlink.com/content/0mrl7588k2392p03/

Paulo Fernandes

Miguel B. Araujo disse...

Paulo, Não há qualquer razão pela qual as áreas de "wilderness" não possam, ou devam, ter espaços abertos. A ideia é que a acção humana seja substituída pela dos herbívoros e fogos naturais, sendo os primeiros "geridos" pelos predadores.

Miguel B. Araujo disse...

Henk, É muito meritório o trabalho que fazem mas uma área de "wilderness" não proporciona os mesmos serviços de uma floresta de produção, mesmo quando esta é bem gerida. Eu posso pagar uns milhares de euros para passar umas férias com a família numa área de wilderness e não farei o mesmo para visitar uma floresta de produção com galerias rípicolas restauradas.


Penso que há espaço para as duas coisas e uma não invalida a outra.

Nuno disse...

Caro Henrique Miguel Pereira, interessante post e interessante a discussão que gerou.
Dois pontos:

1. Que comentários lhe suscitam o projecto Rewilding Europe, que tem uma área de intervenção em Portugal, transfronteiriça?

http://rewildingeurope.com/

Parece-me que seguem este tipo de gestão "oportunista/passiva", isto é, são actores após a consolidação de algum tipo e despovoamento. Não sei se esta é a parte polémica (fora quando existe uma renaturalização do tipo Chernobyl ou ZDM das Coreias).

2. Concordo à partida com o cenário descrito por Luís Lavoura, em que os solos agrícolas abandonados/delapidados são revalorizados numa situação de subida de preços , causados pela procura de matérias primas, sejam agrícolas ou energéticas. Isto não se deve a uma escassez pura destes recursos (apesar de ser hoje pouco polémico que ocorreu o pico de extracção de crude) mas a preços inacessíveis ou para além do break-even como aconteceu com o açúcar no último mês (agora vem de stocks polacos e espanhóis) ou vai acontecer nos próximos 3 meses com os camionistas (estamos a escassos cêntimos dos preços de gasóleo que provocaram a greve em 2008).
Basta ver os recentes aumentos de 30% em poucos meses do petróleo, açúcar, cobre, trigo e, por arrasto, tudo o que resta nos próximos tempos.

Isto tudo para dizer que as commodities vão abrir uma janela de oportunidade para a agricultura nacional porque o petróleo, que intervém em média em 1/3 do preço final para artigos extra UE através dos transportes (também refrigeração), vai incentivar o mercado para produtos fora-de-época que o nosso clima permite e (re)abrir-nos para commodities como o arroz, trigo, beterraba sacarina, por exemplo.

Cumprimentos!

Miguel B. Araujo disse...

Sobre este tema ler ainda:

http://ambio.blogspot.com/2009/06/um-novo-conceito-de-ocupacao-do-mundo_11.html

Henk Feith disse...

Caro Miguel,

Não compreendi o teu comentário. O post não se restringe a falar sobre espaços suficientemente grandes para criar "wilderness", mas também fala de métodos de aumentar a biodiversidade em espaços dominados por culturas intensivas. Por isso mostrei que o que o Henrique sugeriu já acontece em Portugal, pelo menos em espaços florestais.

Quando mencionei futuras valorizações de áreas de conservação, não pensei em visitações pagas, mas mais na linha de biodiversity off-set ou produções de produtos florestais não lenhosos (incluindo a caça e pesca).

Mas voltando ao "wilderness". Na Holanda há uma discussão em torno deste tema, é há quem defende a criação de "wilderness" num país tão populado como Holando (> 500 habitantes/km2), incluindo a introdução de lobos, ursos, alces etc. A maior área contínua natural na Holanda, a Oostvaardersplassen, riquíssima sobretudo para a avifauna, com sensivelmente 5 mil hectares, foi alvo de uma série de experiências na gestão de espaços naturais, incluindo a introdução de grandes herbívoros, no entanto sem assegurar os naturais predadores de topo para regular as populações. Em poucos anos as populações cresceram até vários milhares de exemplares de veados, bovinos tipo "Heck", cavalos e outros. No entanto, a área não tem produção primária suficiente para alimentar esses manados enormes no inverno, e devido a uma política de não-intervenção, os bichos morrem (literalmente) de fome, à vista das famílias urbanas, que vão lá passear no fim de semana. Podes imaginar o tsunami de protestos dos populares que se levantaram perante chocante espectáculo porque não foi bem essa a ideia de no passeio agradável ter de explicar aos pequenotes porque os tão simpáticos animais estavam a morrer à sua frente.

Quer isto dizer que é preciso sobretudo uma grande dose de bom senso e não se deixar levar pelo sentimento impulsivo que é possível recriar Yellowstone ou Serengeti em espaços confinados com o populoso Europa. Há um ditado neerlandês que diz que o desejo é o pai do pensamento, e por vezes nota-se que o desejo de termos a "Grande Natureza" ao virar da esquina é tão grande que leva a projetos desenquadrados com a realidade geofísica do espaço de que dispomos.

Henk Feith

Henrique Miguel Pereira disse...

Queria agradecer os vários comentários dos últimos dois dias, que contribuem para dinamizar esta importante discussão.

Ao Carlos,
Estamos de acordo na necessidade de proteger o bom solo agrícola. Já por várias vezes disse que nessa matéria o que tem sido feito é claramente insuficiente. A sucessão ecológica nos solos agrícolas marginais têm pouca relevância para essa discussão. Em relação à questão do "fim" do petróleo, suponho que temos uma noção diferente da proximidade do problema. Mas mais do que isso, há que compreender que o que se vai passar nas próximas décadas vai ter o contexto do que se passou nas últimas: mais de 80% da população nas cidades. De qualquer forma, a situação actual permite neste momento fazer a reserva de algumas áreas abandonadas para a renaturalização. Se os processos de abandono se reverterem, então poderemos conduzir a reocupação agrícola para algumas zonas, e manter a renaturalização noutras.

Henrique Miguel Pereira disse...

Ao anónimo,
É me pedido um exemplo de um sistema florestal auto-sunstentável. Os carvalhais galaico-portugueses e as florestas de sobreiro são dois exemplos.


Ao Henk,
Realmente no meu texto não cobri a questão da intensificação sílvicola. É uma das possibilidades em algumas zonas abandonadas. Eu gostaria de ver a fileira florestal do carvalho alvarinho e do carvalho negral muito mais desenvolvida, e projectos de produção intensiva com estas espécies. Penso que com 2/3 da área florestal do país com Eucalipto e Pinheiro bravo, assegurar que apenas 10% dessa área é "amiga" da biodiversidade é insuficiente, até em termos de gestão de fogo.

Miguel B. Araujo disse...

Henk,

Por ordem:

1. Interpretamos de forma diferente o post.

2. De acordo. Mas no caso das wilderness, há que pensar com a cabeça aberta. A visitação é uma via possível de valorização destas áreas sem prejuizo de que se possam criar mecanismos de compensação que as ajudem a ciar.

3. Os manuais destas coisas falam em 100,000 ha mínimos para poder fazer não gestão. Com mais de 10,000 ha já se conseguem ter dinâmicas interessantes promovidas por herbívoros mas é necessário controlá-los artificialmente. Com menos de 10,000 ha estamos a falar de áreas que requerem gestão intensiva por parte dos humanos. Sem esta gestão os valores de biodiversidade perdem-se.

Henrique Miguel Pereira disse...

Ao Jaime,

Realmente várias espécies de aves comuns têm vindo a diminuir de abundância na Europa, esse é um fenómeno bem documentado pelo Common Farmland Birds Indicator. Pensa-se que a maioria desse declínio se deve à intensificação agrícola. Nas áreas de montanha, é normal que com o declínio das áreas de cereais, toda a comunidade de espécies de aves associada diminua. Agora a sua pressão de ar e as muitas outras que se vulgarizaram nas últimas décadas também terão tido o seu papel... Em relação aos peixes, em muitos sítios a sua abundância diminui devido ao efeito das barragens, não sei se é o seu caso. Por fim, não conheço situações de diminuição marcada de anfíbios devido ao abandono agrícola, embora haja problemas sérios com infecção por um fungo (chytidriomicosis).

Henrique Miguel Pereira disse...

Ao Paulo Fernandes e ao Miguel,

É normal que a minha posição (e pelos vistos também do Miguel Araújo) seja pouco consensual, pois a maior parte dos investigadores que estão a trabalhar nesta área fazem-no dentro de uma certa escola de pensamento. Tenho a maior admiração pelo trabalho do Francisco Moreira, que tem desenvolvido algum do melhor trabalho de investigação em Ecologia em Portugal. Dito isto, o Francisco no artigo que referes ignora o aspecto da escala que mencionei no meu texto, e usa simplesmente as afinidades actuais para os diferentes habitats para prever o que vai acontecer após o abandono agrícola. Isso ignora a dinâmica da selecção de habitats, que como os estudos clássicos da Ideal Free Distribution de Fretwell e Lucas demonstram, quando olhamos para uma fotografia estática da distribuição das espécies por habitats, estamos a ver como é que elas perante uma certa disponibilidade de habitats se distribuem. E claro ignora que também há espaços abertos no meio da floresta.

Henrique Miguel Pereira disse...

Ao Nuno (e comentário ao Henk),

1. Acho o projecto Rewilding Europe muito interessante. Acompanhei a candidatura da Reserva da Faia Brava (Coa) a esse programa e tenho conversado com os seus organizadores em alguma ocasiões. Uma das questões fundamentais que surge nesse contexto é como repovoar estas regiões abandonadas de grandes herbívoros e carnívoros, que poderão manter alguns dos espaços abertos. O caso que o Henk sugere de Oostvaardersplassen é limitado tanto no tamanho da área em questão (5000 ha cercados) como pela falta de grandes carnívoros. Numa zona como o Parque Nacional da Peneda-Gerês há possibilidade de ir muito mais longe, e mesmo na Reserva da Faia Brava pode-se fazê-lo com a articulação de gestão com as áreas vizinhas (evitando o regime de cercados, e baseando-se mais num regime de áreas tampão), incluindo zonas em Espanha.

2. Já vários comentários tocaram neste tema. Estamos ou não perante uma crise iminente dos combustíveis fósseis e mais geralmente da produção energética? E já passámos o Peak Oil? Ainda não há consenso sobre a segunda (ao contrário do que refere), mas mesmo que já estejamos no Peak Oil, há ainda muito gás natural, carvão e outras formas de energia para sustentar a produção agrícola intensiva. Agora, concordo que há muitas vantagens ambientiais (por exemplo em termos de redução das emissões de CO2) de reduzir as distâncias de transporte da produção alimentar e incentivar a produção local. Penso é que isso se vai conseguir evoluindo o actual padrão de intensificação para modelos mais sustentáveis e melhorando os sistemas de extensificação de produção animal (por exemplo pastagens melhoradas). Ou seja, eu acredito que as soluções tecnológicas nos podem trazer agricultura mais sustentável e mais espaço para a renaturalização.

Jaime Pinto disse...

Caro Henrique,

Nas zonas montanhosas, antes do abandono agrícola, a percentagem total de espaço ocupado pela agricultura sempre foi reduzidíssimo relativamente ao espaço total disponível. Provavelmente andaria na casa dos 5-10/100.

O eventual aumento da biodiversidade desse pequeno espaço relativo, através da colonização por espécies que se encontravam anteriormente na sua orla, não pode ser compensado pela perda das espécies e pequenos habitats que proporcionavam habitabilidade a todas as outras que rejeitavam, ou evitavam, os sempre abundantes matos, florestas ou escarpas.

É a mesma coisa que afirmar-se que a retirada de um pequeno lago no meio de um jardim beneficiará o incremento das espécies desse jardim.

Quanto à pressão de ar ter contribuído para a diminuição da passarada, acho que o Henrique deu um tiro no pé, pois agraciou-me com um argumento que não discorri à primeira. Realmente eu matava pássaros porque os havia em abundância. A agricultura de montanha proporcionava aos pássaros comida para todo o ano, não só o grão dos cereais, mas também insectos, suas larvas, minhocas, frutos para depenicar e demais petiscos que as aves caçavam e catavam nos terrenos agricultados.

Actualmente, nos matos, pinhais, eucaliptais, carvalhais e escarpas, apesar do aumento de cerca de 5-10/100 da área, a disponibilidade de comida é muitíssimo inferior, por isso a passarada quase desapareceu das serras.

Hoje, os matos, carrascos e silvas substituíram toda a panóplia de espécies vegetais associadas à actividade agrícola de montanha. As cabras também quase desapareceram. E apareceram os porcos, pelos vistos a única espécie que apareceu pelo seu próprio pé. Então actualmente caço porcos, que os há em abundância, esperando não ser acusado daqui a uns anos de ter contribuído para a sua extinção, caso um dia resolvam aplanar a serra e fazer no sítio uma cidade.

Os peixes desapareceram da serra porque actualmente no Verão correm fios de água, ao contrário de antigamente, quando de 50 em 50 metros havia açudes para regas, ou para desviar a água para o moinho que moía o milho. Em sítios onde os açudes desapareceram, por acção das cheias que levaram as paredes, também os peixes desapareceram, sendo esses locais colonizados por fungos e líquenes, na rocha nua, sem contudo acrescentarem biodiversidade ao sítio, pois esses líquenes havia-os a 1 ou 2 escassos metros, nos calhaus mais acima onde a água não chegava.

Quando miúdo pesquei trutas à mão, nesses açudes, sem contudo ter aprendido a arte tão bem quanto outros. Metia-me impressão quando, debaixo de um calhau, agarrava uma linfa de libelinha ou cobra de água, em lugar de uma truta. Actualmente, no Verão, debaixo desses calhaus, caso as cheias não os tenha levado ou partido, não haverá nada, pois encontram-se em seco, por destruição do açude que as mantinham alagadas.

Espero que também não acuse os miúdos, que pescavam há 40 anos trutas à mão, de terem contribuído para a diminuição da biodiversidade nas ribeiras das serras :-)
jaime

Jaime Pinto disse...

Já agora uma pergunta ao Henrique. Para além das 4 espécies que referiu (lobo, javali, corço e veado) que outras espécies pensa que irão beneficiar com o abandono agrícola de montanha? Não me refiro a espécies já existentes localmente, isso pouco ou nada adianta em benefício da biodiversidade.

Relativamente às perdas em biodiversidade devido ao abandono agrícola, posso adiantar-lhe largas dezenas: nabo, centeio, batata, milho(s), tomate, couve(s), alface, alho(s), pimento, cebola, pimento, pepino, salsa, coentros...Mais a catrefada de lagartas e insectos inerentes a cada uma destas espécies vegetais (que alimentavam a passarada que eu, em miúdo, abatia com pressão de ar).

Lendo com mais atenção o seu texto, encontro nele conclusões incríveis, como aquela de as clareiras de floresta substituírem os terrenos agricultados de montanha como habitat para as mesmas espécies, com o senão de suportarem menor quantidade de espécimes.

Para além de discordar em absoluto da forma de sentir e analisar a Natureza demonstrada pelo Henrique, do ponto de vista político também nos encontramos nos antípodas. Eu concordo em absoluto que parte do dinheiro dos meus impostos seja entregue aos agricultores pobres que, nas serras, com enormes sacrifícios pessoais, lutam para sobreviver nos raros solos que podem dar alimentos à espécie humana. O Henrique considera esse dinheiro um desperdício de dinheiros públicos.

Sei de um serrano, agricultor/proprietário de rebanho de cabras, que foi vítima do actual governo. Cortaram-lhe um subsídio que muita falta lhe fazia (para este governo os razoados do Henrique são música celestial). Pois esse agricultor acha incrível que lhe cortem o subsídio a ele, que se mata a trabalhar, enquanto alguns calões na vila, que nada fazem e passam o tempo nos copos, recebam o subsídio de reinserção social, vivendo mais regaladamente que ele. Para este agricultor o passo mais fácil para melhorar a sua qualidade de vida passa por mandar todo o trabalho e arrelias às ortigas, solicitar um subsídio de reinserção social e juntar-se ao gang dos copos. É assim que ele pensa em subir na vida, coitado! Nem todos podem ter um sindicato de profissionais da greve...
jaime

Nuno disse...

Não sei se percebi mal o sentido do texto mas julgo que se está a apresentar uma das opções possíveis para a conservação, centrada na gestão passiva de paisagens sujeitas ao progressivo abandono agrícola/florestal, sendo conhecido, julgo, que existem bastantes solos sem aptidão agrícola que ainda são ocupados com agricultura. Não sei é se estas actualmente se aglomeram em extensões contíguas e favoráveis que possibilitem esta gestão.

De qualquer modo não entendi aqui uma intenção de destruir a presença agrícola, ou sequer uma desvalorização do papel desta actividade. Pareceu-me uma postura de gestão não repressiva, conduzindo à criação de valor pela "wilderness", quando não existe a possibilidade de coordenação com a ocupação agrícola ou florestal porque estas se tornaram residuais.

Como disse, não sei o suficiente sobre a questão para dizer se este tipo de áreas existe actualmente em Portugal ou mesmo se virão a existir, dada a turbulência actual dos mercados de produtos agrícolas, que abre oportunidades.

Cumprimentos

Nuno Oliveira

PS. Na questão paralela relativa ao Crude, quando disse consenso relativo aos picos de extracção a preços acessíveis mencionava a admissão desta situação no último relatório de inventários da IEA (já antigos directores deste organismo tinham mencionado há anos o tinham como factual); da admissão da OPEC que os preços de extracção não podem ficar abaixo dos 90-100$ face à procura actual;
e de relatórios sobre o assunto elaborados pelos organismos da Defesa Americanos, Alemães e Britânicos, entre outros (o R.U. criou mesmo um gabinete de estudo deste tema). Claro que nada disto serviria para definir um consenso do tipo tradicional, e a procura pode sempre levar uma retracção bastante grande que atira os preços de novo para os 70$ (já vamos nos 95$) mas pergunto-me se existirão campos no Brasil, Nigéria, Venezuela e Canadá com esse preço (as esperanças de novas reservas) e se a pressão para o crescimento económico suportaria uma retracção deste tipo. Os efeitos é que são definitivamente pouco consensuais.

De qualquer modo julgo que devido ao panorama de disponibilidade de crude barato se aproxima uma oportunidade para a agricultura e transportes, que irão ter definitivamente repercussões no ordenamento do território e abandono agrícola e, consequentemente, nas oportunidades para este tipo de gestão.