Domingo, Novembro 27, 2011

"Romance de um dia na estrada"


A madrugada outoniça foi num rendilhado mimoso, mesmo que disfarçado pelas nódoas urbanísticas e os rasgões das infra-estruturas fora da escala minhota.
O ataque ao anfiteatro de alturas responsável pela omnipresença da água e pela diferença de cota que permite o mais intenso regadio do país faz diminuir gradualmente a presença de nódoas e rasgões, ao mesmo tempo que o rendilhado se vai afundando nos vales, mais nítido e localizado, e os cabeços e encostas acolhem melhor a escala das infra-estruturas que encolhem o território.
O planalto da Lameira (alô, alô, Ilídio de Araújo) é a primeira amostra daquela economia do milho de média montanha, em que os animais ganham peso e os carvalhais subsistem melhor, por falta de terra que estrumar.
E depois a montanha russa de uma das zonas mais interessantes do país, tão interessante como pouco visitada, ali naqueles vales e alturas que começando no Marão acabam no Barroso, num mar de prados de lima e pastagens pobres intercaladas com a produção da melhor batata que se pode produzir no país, e onde o rendilhado minhoto da economia do milho ressuscita a cada vale mais fundo.
O viaduto junto do qual não consigo passar sem me rir para dentro das várias histórias que provoca: depois das pessoas insultarem os responsáveis pela loucura daquela obra eu costumo explicar o meu papel na sua génese e de como são ínvios os caminhos da avaliação de impacte ambiental e da gestão da biodiversidade.
A partir daí, descendo para o vale fértil que o viaduto atravessa, é um mundo diferente que se abre e que se acentua à medida que se volta a subir à procura do vale seguinte que nunca mais chega, da aldeia seguinte que nunca mais aparece, dando sentido ao tributo de mãos de urso previsto em vários forais que D. Diniz outorga na região.
É no coração desta terra de pouca gente que me cruzo com uma das mais interessantes paisagens desse dia de Outono: os soutos, castinçais e que tais que rodeam a aldeia da Padrela, na suas cores de gala, nos amarelos vivos e castanhos encarnados que pelo dia fora irei encontrar várias vezes, mas não na forma daquela quase monocultura da Padrela.
Carrazeda (carrascal?) marca quase o fim desta paisagem e sem mais transição que uma encosta que se desce num repente entra-se num mundo de oliveiras e olivais, contínuos, sempre diferentes e sempre iguais.
O resto da manhã foi à volta da albufeira que iria suportar o regadio que traria a riqueza sem fim à região, o regadio demonstrou ser uma miragem difícil de alcançar, e mais ainda o desenvolvimento da agro-indústria que iria criar valor sobre valor.
Mas ficou o recreio, o turismo, a conservação, uma albufeira cuja escala ainda lhe permite ser bonita, cheia de meandros que cortam a tristeza habitual das albufeiras, em especial das albufeiras que suportam a produção de electricidade criando uma margem desolada e inóspita.
Meia posta, um esparregado de nabiças, um copo de vinho, uma empregada antipaticamente eficiente e dez euros depois, é tempo de retomar caminho, por esse outro mundo onde o trigo e o centeio já foram reis, onde rebanhos de ovelhas e cabras, mais ovelhas que cabras, se casavam com olivais, amendoais e figueirais, sem que se percan de vista castanheiros, carvalhos e prados de lima, quando a qualquer passo se sobe qualquer coisa na estrada.
Tudo isso é interrompido pela varanda de Trás-os-Montes, a serra de Bornes (alô, alô, Robert de Moura), que se flanqueia numa estrada meia desolada, meia bonita, a meia encosta, que se debruça quase sem aviso sobre o milagre do vale da Vilariça, terra rica, quente e plana, com alguma água, que antecede os vinhedos do Douro.
E depois, depois dos vinhedos do Douro, os planaltos da Beira fria, de caos de blocos de granito, com a sombra da Estrela por perto e, sim, com castanheiros aqui e ali, mas mais frequentemente o tom derrotado do castanho dos carvalhos no Outono, a aproveitar a trégua do gado e do centeio deste fim de século demasiado rico para perder energias a fazer das pedras pão.
Só nas raras encostas em que o Sol de fim de tarde apanha os carvalhos de costas é que o castanho mortiço das folhas quase a cair ganha alguma vivacidade.
É tarde para um desvio para pastéis em Vouzela, nesse Lafões que é uma espécie de Minho incrustado na paisagem beirã, mas vale o resto do dia, o consolo de comprovar, mais uma vez, que Portugal é um país muito bonito.
E mais que isso, é muito bonito de muitas maneiras diferentes.
henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Novembro 18, 2011

Seminário Floresta Autóctone

Vários participantes deste blog irão falar este fim-de-semana no Seminário sobre Floresta Autóctone organizado pelo Centro de Interpretação de Seia. Estou convencido que será uma discussão bem interessante. Informações sobre o programa e forma de inscrição estão disponíveis aqui.

Quarta-feira, Novembro 16, 2011

Carta Aberta para Isabel Tavares

Minha Senhora,
Comprei hoje o Jornal I estritamente por causa da sua manchete principal: "Ambiente. Negócios de milhões nas mãos da máfia verde".
Nas suas páginas 2 e 3, em grande destaque está uma coisa escrita por si que li, cada vez com mais estupefacção.
O que gostaria de lhe perguntar com esta carta é se dorme bem de noite. Se quando se olha ao espelho não cora de vergonha. Se consegue olhar as pessoas comuns olhos nos olhos depois de escrever, o que é o menos, e publicar, o que é extraordinário, coisas como isto que o I tem hoje nas suas páginas 2 e 3.
Eu sei, a vida está difícil para todos e talvez eu deva ter alguma moderação no juízo moral sobre o que li e, sobretudo, sobre a pessoa que o escreveu.
Peço desculpa, pois, desta primeira parte desta carta e sigo directamente para o que escreveu, lembrando-me de como as voltas da vida podem levar qualquer um a fazer coisas que em circunstâncias normais nunca acharia eticamente aceitáveis.
É verdade, todos temos fraquezas inexplicáveis e deveria ter-me lembrado disso antes de escrever o que escrevi sobre si.
Vamos então ao que escreveu.
O texto principal vem acompanhado de duas pérolas: uma espécie de entrevista ao Secretário de Estado do Ambiente (que o jornal destaca positivamente na sua última página exactamente por querer mexer no pântano que se pretende descrever no texto principal) em que anuncia o fim da Reserva Ecológica Nacional e outras minudências que dão cabo da economia, e quatro bolinhas seguidas de texto sobre casos concretos que demonstram o que está escrito no texto principal.
Transcrevo a primeira dessas bolinhas: "Um projecto de 20 milhões esteve parado seis meses porque o ICNB garantia a existência de um aquífero. Afinal, o aquífero era, na fotocópia, a marca da dobra do mapa original". Posso fazer-lhe algumas perguntas de algibeira? Quem lhe disse isso? O que disse o ICNB sobre o assunto? Que projecto era esse? Que razões levam um promotor a aguardar pacientemente seis meses sem verificar a causa da paragem? Consultou o processo?
O resto das coisas andam pelo mesmo rigor jornalístico e as perguntas poderiam multiplicar-se.
No texto principal apenas três pessoas são citadas (diz-se que porque os outros têm medo). Quem são as pessoas? O mesmo Secretário de Estado, um dos maiores e mais eficazes lobistas nacionais, Ângelo Correia (um reconhecido especialista nestas matérias já que presidiu à Comissão Parlamentar do Ambiente. Já agora, em que anos?) e Margarida Cancela de Abreu, atacada de forma baixa, anónima e sem direito a defender-se.
De resto existe um promotor estrangeiro (quem?), um promotor nacional que diz que pagou 200 mil euros por um EIA e 100 mil de taxas à APA (verificou a informação? Quem é o promotor? Qual é o projecto? A que dizem respeito as taxas? E são desse montante?) e coisas assim.
Bocas, nada mais que bocas que atingem terceiros que a Senhora achou dispensável ouvir. O ICNB (e seus funcionários), a QUERCUS, a LPN, Margarida Cancela de Abreu e por aí fora.
O melhor a Senhora guardou-o para o fim "Para Ângelo Correia, parte da solução passaria por uma separação clara entre o que são entidades como a Quercus ou Liga para a Protecção da Natureza e o Estado. Por outro lado, seria fundamental criar padrões standard sobre o que se pode ou não tolerar e deixar isso escrito e objectivado para que todos possam conhecer as regras".
Como? Terei lido bem? O poderoso, o fantástico, o conhecedor Ângelo Correia não consegue distinguir o Estado da QUERCUS e da LPN? E a Senhora compra isto? Porquê? Porque foi verificar situações de promiscuidade? Porque viu decisões tomadas com base nas opiniões destas ONGs (ou outras)? Porque foi estudar como se tomam as decisões? Porque foi avaliar quer as regras, quer a prática de decisão nesta matéria? Comparou, por exemplo, a promiscuidade de interesses nos processos PIN com outros processos? Foi verificar se nas decisões é mais fácil os promotores se fazerem ouvir ou o movimento ambientalista?
Francamente, acha normal o que escreveu?
Que existe tráfico de influências não tenho a menor dúvida (e muito menos terá Ângelo Correia).
Mas jornalismo não é isto, não é passar bocas idiotas de lobistas.
O Governo quer continuar a magníficia obra dos Governos Sócrates no desmantelamento da regulamentação de protecção de bens difusos, quer acabar com a REN na sequência da morte da RAN decretada por Sócrates e Jaime Silva?
Nada contra, há dezenas de alterações que eu próprio tenho em carteira para propôr, mas isso fará parte do processo normal e transparente do debate político.
O que lhe pergunto é o que tem a Senhora com essa agenda? A sua opinião dê-a onde entender e quando entender, livremente, mas não tente passar agendas de terceiros como se fossem notícias de jornal.
É que quando os transitórios donos do poder já de lá tiverem saído, a Senhora ainda terá de escrever para jornais. Jornais esses que as pessoas compram à procura de notícias.
Para propaganda, mais a mais rasca, como esta, bastam, para as pessoas comuns, os tempos de antena e coisas que tal.
Já agora, se quiser passar por este blog verá dezenas de textos meus criticando o movimento ambientalista, o tráfico de influências em matéria ambiental e a confusão entre associações e empresas de serviços. Aproveite que tem muita matéria para escrever sobre o assunto, com dados concretos que lhe permitem verificar a informação e assim deixa de depender de lobistas como Ângelo Correia, cuja miopia na matéria (directamente relacionada com os seus conhecidos interesses próprios) a conduzem a parvoíces como as que escreveu que, infelizmente para si, só a prejudicam.
As pessoas comuns não são autómatos estúpidos que engolem qualquer coisa só porque está escrita num jornal.
E quem lhe paga o ordenado, espero eu, são os seus leitores, não são os lobistas.
henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Novembro 14, 2011

VII Congresso da SPEA



Há cerca de duas semanas tive a oportunidade de participar como orador convidado no VII Congresso da Sociedade para a Protecção e o Estudo das Aves. Fiquei verdadeiramente impressionado com a qualidade do trabalho que está a ser desenvolvido pela SPEA. Em pouco mais de 15 anos a SPEA tornou-se uma das principais ONGA's portuguesas. Conta com mais de 50 funcionários, e desenvolve trabalho nos Açores, Madeira e no Continente. Esse trabalho tem padrões de qualidade científica que se regem pelo que melhor se faz a nível internacional: as acções são desenvolvidas com objectivos de restauração ecológica bem definidos e são monitorizadas periodicamente. Mas para além do trabalho de restauração ecológica, a SPEA tem vindo a contribuir para melhorar o conhecimento sobre a avifauna em Portugal, seja através da publicações de atlas nacionais, regionais, ou apoiando a edição de guias de campo (o último, um guia da avifauna de Portugal, é um trabalho notável do Helder Costa). Em resumo, a SPEA é um exemplo notável do que é possível fazer quando se juntam as forças dos cidadãos-cientista com os cientistas profissionais e técnicos de conservação. E que melhor grupo para fazer isso do que as aves?

Sábado, Novembro 05, 2011

A professora tem sempre razão

Imagem obtido aqui



Passo a citar a matéria que o meu filho estudou recentemente, para a disciplina de Estudo do Meio, 4º ano da escola primária:

"Prevenção de incêndios

No nosso país, em especial nos últimos anos e durante os meses de Verão, as florestas têm vindo a ser destruídas pelos fogos.

A área florestal está a desaparecer e, com ela, o habitat de numerosas espécies de animais e de plantas.

Esta destruição leva à erosão dos solos e as graves alterações climatéricas."

Tanto disparate que andam a ensinar aos nossos filhos, desde o "nosso país" (não haverão fogos fora de Portugal? essa mania de falar sobre fenómenos globais como se fosse algo exclusivo "nosso"), "últimos anos" (meus caros editores de livros escolares, se fizessem o trabalho de casa como fazem os nossos filhos, não havíamos de aturar coisas destas), "durante os meses de Verão" (salvo a violação do novo acordo ortográfico, supostamente em vigor nos livros escolares, se calhar a única afirmação objetiva em todo o texto), passando pela banalidade da destruição das florestas pelo fogo (será demais pensar que os nossos educadores deviam explicar que o fogo modifica o percurso evolutivo da vegetação, podendo esta modificação ser contrária aos objetivos humanos em relação a esta mesma vegetação, mas que raramente a destroi de forma definitiva), que só se entende pela ideia dominante na educação ambiental que crianças com menos de 10 anos (e se calhar não só essas) só compreendem afirmações estilo tabloide, prosseguindo com o hilariante "a área florestal está a desaparecer" (já pensaram em consultar as estatísticas sobre o assunto, para não falar em ver bem o que é definida como "área florestal"), e o habitual blablabla das numerosas espécies. A relação entre fogos e erosão ainda dou de barato, mas volto a arrepiar com as graves alterações climatéricas, que servem de bogey man do século XXI.


Não sei porque, mas vêm-me à cabeça umas canções que Roger Waters compôs, relacionadas com uma parede e tal, já lá vão 30 anos ...

Henk Feith

Sexta-feira, Novembro 04, 2011

É triste não saber ler



Tenho usado frequentemente esta imagem como demonstração de que o número de fogos não tem correspondência com a área ardida: há muitos fogos onde há gente, há muita área ardida onde há continuidade de combustíveis, concluí eu.

Mas um dia destes o Henk Feith observou, mal olhou para o mapa, que falar da área ardida por concelho dizia menos do que poderia, porque naturalmente os grandes concelhos têm mais área ardida por serem maiores, dando imediatamente o exemplo de Abrantes e Sardoal, que neste mapa aparecem nas vizinhanças de extremos opostos da escala, com Sardoal com muito menos ára ardida que Abrantes.

Perplexo com o facto de andar há tanto tempo com esta evidência debaixo do nariz sem dar por ela (as evidências têm esta característica de com frequência só serem evidências depois de alguém as tornar evidentes), pedi ao José Miguel Cardoso Pereira os dados de área ardida entre 1975 e 2009, e em pouco tempo a Ana Sá preparou-me um excel com fracção de área ardida em cada concelho (que com frequência é maior que 1, sendo quase dois no concelho com maior fracção, porque nestes anos todos já ardeu mais que a área do concelho, isto é, a repetição de fogo na mesma área existe).

O resultado é este.

Agora tenho de ir refazer o que tenho andado a dizer, porque não sendo totalmente errado, também não é muito claro que se possam tirar conclusões tão directas dos dados.

É o que dá não saber ler, dizem-se mais asneiras que o que é razoável.

henrique pereira dos santos