segunda-feira, março 15, 2010

É isto o movimento ambientalista?



Fui buscar esta fotografia aqui, ao blog documental de Pacheco Pereira (verdadeiro serviço público), sendo o seu autor Helder Barros.
Esta era uma manifestação nacional, num sábado à tarde lindo, convocada e com o apoio de quase tudo o que é movimento ambientalista (e alguns partidos), por uma causa razoavelmente justa (enfim, a radicalização do discurso sobre as barragens e contra a EDP não me parece que contribua para a justeza da coisa mas na essência há razões justas).
O resultado é o que se vê na fotografia.
Dir-me-ão que em vez de comentar esta manifestação anorética deveria lá ter estado.
Direi que há anos, seja esta, seja Alqueva, seja o que for, o movimento ambientalista não tem capacidade de mobilização, incluindo a capacidade de me mobilizar a mim (que não sou um herói da conservação, sou uma pessoa comum, igual às pessoas comuns a que o movimento ambientalista aspira dar resposta e representar).
O que o movimento ambientalista cresceu nos jornais, definhou em enraízamento social.
A sua agenda é a agenda dos dirigentes do momento, não resulta da verdadeira presença na sociedade.
A campanha agora lançada pela LPN para a "promoção" do Parque Natural do Sudoeste Alentejano a Parque Nacional é um bom exemplo da completa ausência de sensatez na direcção de grande parte do movimento ambientalista.
Aqui e ali pequenas associações fazem o que as grandes (e muitas pequenas que não passam de formas leves de ter empresas de prestação de serviços assentes em ligações nem sempre lineares) deixaram de fazer há muito: trabalham com as pessoas, representam as pessoas e definem agendas que as pessoas reconhecem, mas não chegam para definir um movimento ambientalista forte. São bons sinais, mas não chegam.
Dir-me-ão que é a enésima vez que trago aqui um discurso anti-ong.
Responder-lhes-ei que perguntem a qualquer destas associações se têm um departamento de sócios, que dimensão tem, que estratégia tem e que resultados na captação de sócios e doações tem.
É isso que define as associações de sócios. O resto são empresas de projectos com alguns sócios para ajudar a pagar a renda.
Bem intencionadas, tenho poucas dúvidas, mas extraordinariamente frágeis face aos oportunistas (creio que poucos) que delas vivem.
É o que as pessoas comuns intuem. E é por isso que a credibilidade do movimento ambientalista hoje é miserável.
Lamentavelmente e com custos sociais enormes.
henrique pereira dos santos

14 comentários:

Anónimo disse...

Ali do outro lado do rio come-se uma posta maronesa que já me está a fazer crescer água na boca. Amanhã vou lá.

Henrique, estou de acordo que o movimento ambientalista português é bastante frágil, mas acho que mais interessante do que vivermos no lamento de que os Portugueses não têm capacidade de mobilização (talvez com excepção dos professores) seria tentar perceber porque é que isso acontece e eventualmente como é que isso se poderia mudar. Mas admito que isso seja para ti uma coisa já do domínio da fantasia e da metafísica.

Alexandre Vaz

Henrique Pereira dos Santos disse...

Alexandre,
"Responder-lhes-ei que perguntem a qualquer destas associações se têm um departamento de sócios, que dimensão tem, que estratégia tem e que resultados na captação de sócios e doações tem.
É isso que define as associações de sócios."
Diz-me tu o que não se percebe no que escrevi porque me parece claro mas o teu comentário deixa-me na dúvida.
henrique pereira dos santos

Anónimo disse...

Pois, é verdade que tinhas apontado essa direcção... No entanto, não estou convencido que o problema das ONG em geral e das ONGA em particular seja principalmente um problema de gestão de sócios. Claro que uma associação é por definição um somatório de associados, mas em muitos casos parece-me que o futuro depende cada vez mais da profissionalização dos quadros do que propriamente do voluntariado. Este é um problema interessante para o qual não tenho resposta.
Acho como disse anteriormente que as razões que explicam a fraca mobilização dos portugueses se perdem para trás na história. Agora se podem ser imputadas ao Marquês de Pombal (quando mandou os Jesuítas embora) ou ao Salazar já não sei...

O que sei é que o Benfica tem 200 000 sócios e nos últimos anos tem andado a ver passar navios...

Alexandre Vaz

Nuno disse...

Concordo com as responsabilidades atribuídas ás maiores ONGA's na sua falta de comunicação e mobilização dos seus sócios "rasos" e potenciais interessados mas também é nítido que existe um problema transversal a toda a sociedade que consiste na absoluta passividade da população.

É um país com participação medíocre em ONG's de qualquer tipo ou em qualquer assunto que lhe diga respeito e que exija trabalho contínuo a longo prazo- é a "não-inscrição" do José Gil, que vem de uma "educação" que a sociedade recebeu durante grande parte do séc. XX e que a reduziu a uma entidade medrosa e desconfiada- ver Fernando Ruas.

Tenho-me envolvido mais com pequenas associações locais e não julgo que representem uma atomização do movimento (quanto muito denunciam alguma apatia de nucleos regionais das maiores associações) mas torna-se grave quando vejo que não existe sequer grande trabalho conjunto, como se vê pela foto.

Estando longe da direcção ou coordenação destas organizações sinceramente não compreendo como não comunicam melhor entre si nem como demoram 3 semanas a responder a emails com dúvidas e sugestões(se tiver essa sorte).

Cumps

Henrique Pereira dos Santos disse...

Alexandre,
O que tem a profissionalização com a questão dos sócios?
Desde que os sócios ponham dinheiro das associações para terem quadros profissionais não tenho nada contra isso.
Dou-te dois exemplos: o ACP, que tem estruturas fortemente profissionalizadas e que tem milhares de sócios e o Banco Alimentar contra a fome que tem estruturas totalmente voluntárias.
O que está em causa não é o modeço de organização, podem ser os mais diferentes entre si, o que está em causa é o enraízamento social.
E as actuais ONGs são basicamente culturas hidropónicas (estou a fazer uma generalização que deve sere lida com algum desconto).
henrique pereira dos santos

Francisco disse...

Interesse versus ser-se sócio:
A Quercus tem cerca de 4 mil sócios considerados activos (com quotas recentemente pagas). A maioria dos sócios tem desistido com argumentos económicos, mas o saldo não deixa sempre de ser positivo (mais sócios novos que desistentes).

Surpreendentemente verifiquei no entanto que há 14 mil pessoas que voluntariamente se inscreveram para receber a newsletter semanal electrónica da Quercus através da página web. É mais fácil, prático e barato que ser-se associado, mas não deixa também de ser um indicador interessante, sabendo-se que muitos não serão sequer simpatizantes, mas a maioria deverá sê-lo.

Henrique Pereira dos Santos disse...

Francisco,
A questão é esta: por que razão alguém quererá ser sócio da QUERCUS (a pergunta é igual para todas as organizações de sócios).
Ou as organizações sabem responder, ou não sabem.
De maneira geral a resposta é: porque é importante apoiar o trabalho que é feito pela associação.
A resposta está parcialmente correcta (O ACP tem muitos sócios porque tem uma boa prestação de serviços, não porque as pessoas estejam interessadas no que faz o ACP, por exemplo) mas para ter efeito é preciso que as pessoas reconheçam que o trabalho da associação merece o dinheiro da minha quota.
Ora é exactamente aqui que eu divirjo da maioria dos dirigentes das ONGAs: eles acham que as pessoas não se inscrevem porque em Portugal as pessoas são assim, eu acho que não é verdade (não falo do Banco Alimentar contra a fome, mas Portugal teve a primeira associação de socorros mútuos, se não estou em erro), a explicação está na falta de reconheccimento social do trabalho das associações. O que me leva a concluir que o problema é das associações, não das pessoas.
O Presidente de qualquer associação de sócios tem obrigação de se perguntar todos os dias ao espelho: o que posso fazer hoje para ter mais sócios e sócios mais satisfeitos.
Aposto que todos eles, em vez disso, se perguntam o que posso eu fazer pelo ambiente.
O erro clássico de quem se preocupa mais com a produção que com o cliente.
henrique pereira dos santos

Ricardo disse...

Que fazes tu Henrique por alterar esta situação? A associação a que pertenço é muito expedita a aceitar e implementar boas ideias. Faltam apenas mãos para as implementar, mãos se calhar ocupadas a mandar bitaites num blog.
"quem não faz parte da luta, faz parte da derrota..."

As associações são tão competentes e eficientes quanto os seus sócios, voluntários e dirigentes permitem. E se toda a gente fosse como o Henrique, coitadinhas das associações... E eu nem sei nada sobre o Henrique, mandaram-me agora este link para este blog que li na diagonal. Estou apenas a seguir o mesmo tipo de análise superficial mal-dizente.

O artigo mostra que o teu desconhecimento das associações vai fundo. Tu não fazes ideia do que as associações fazem ou deixam de fazer pelos seus sócios, pois tal não aparece na comunicação social e muito menos em blogs de mal-dizer.

Mas a questão aqui nem tem nada a ver com esta manifestação ou com as ONGs, a questão é o fazer cumprir de uma narrativa de mal-dizer e anti-ong, que o Henrique formulou e que lhe serve por algum motivo ou trauma.

Júlio Santos disse...

Retirar de uma manifestação em Amarante que o movimento ambientalista são meia-dúzia de gatos pingados numa praça que nada fazem pelos sócios das suas associações...

...é no mínimo hiperbólico.

Mas pronto, que mais esperar destes blogs?

Henrique Pereira dos Santos disse...

Caro Ricardo,
Facto 1 - Uma manifestação que tem o apoio de quase todo o movimento ambientalista junta trezentas pessoas;
Facto 2 - Eu comento esse facto e chamo a atenção para o que ele representa;
Facto 3 - O Ricardo em vez de contestar os factos ou as interpretações que faço faz um ataque pessoal a quem, como diz, não conhece de lado nenhum nem sabe o que faz com ONGs (e sem ONGs).
Conclusão - O Ricardo fez uma excelente demonstração das razões de fundo que levam ao facto 1

Júlio Santos,
Falei na manifestação e falei na absurda campanha lançada pela LPN. Quantos factos quer mais? Quantos sócios (eu só considero sócio quem paga quotas) tem cada associação? Qual é a relevância política, por exemplo, do descrito pelo Gonçalo Rosa no post seguinte, com o título abandono? Ou dê-me um retrato alternativo do que é o movimento ambientalista, se preferir, e eu discuto-o consigo racionalmente.

Querem discutir racionalmente o movimento ambientalista ou preferem excluir a divergência em vez de argumentar contra ela?

henrique pereira dos santos

Nuno disse...

Procurei relatos de imprensa sobre esta manifestação (escassos) e julgo que aparecem as causas mais comuns para a fraca frequência:

"Júlio Cerqueira e Alice Araújo adeptos do movimento "Não à barragem", disseram ao JN, enquanto tomavam café com a filha e a neta, num bar com vista para o protesto, que desconheciam a manifestação. "Fomos apanhados de surpresa e o dia já está reservado para a família", justificaram. "

Aqui não só apoiantes não se mobilizaram nem se interessaram ao ponto de estarem a par, nem a organização conseguiu provavelmente tornar a informação acessível em tempo útil, ou esta não era suficientemente clara(podia ter sido utilizada uma plataforma como para o Limpar Portugal.

Não vem na reportagem mas apesar do receio de "ter uma barragem com mais de 90 metros de altura e que, em caso de rotura, inundaria a cidade de Amarante com 13 metros de água acima do tabuleiro da ponte de S. Gonçalo", a Câmara de Amarante (PS) não se fez representar. Não existiram na manifestação quaisquer representantes eleitos pelo povo.

Julgo que nem a questão da fraca mobilização é assim tão simples neste caso (ou em qualquer outro) nem facilmente imputável na sua totalidade ás ONGAS, sem bem que é claro que estas são cada vez mais demasiado urbanas e concentradas nos dois principais núcleos e por isso dificilmente influentes fora destes deles.

Algumas das organizações envolvidas nesta manifestação também estão envolvidas no Limpar Portugal em que julgo que, apesar do escasso impacto que a iniciativa vai ter em termos concretos, parece-me que o impacto "moral" está bem encaminhado.

Confesso o motivo pelo qual não fui á manifestação de Amarante: simplesmente acho que o Governo central e local já selaram o destino daquele território e a manifestação funcionaria mais como um modo de dizer "que fique registado que alguém esteve contra isto".
É um motivo fraco, mas conhecia a existência da manifestação, fui para ela convidado, pessoas que não pertencem a ONGAS tambem ouviram falar dela e estão do seu lado e estaria tudo organizado de forma inteligível.

Não percebi bem porque motivo o Henrique Pereira dos Santos não pôde comparecer- o que é que faltou concretamente? Foi a radicalização do discurso em torno da EDP?
Julgo que alguma sugestão específica complementaria a crítica, que tem razão de ser.

Cumps

Anónimo disse...

Os actuais dirigentes das ADAs de referência deveriam de demonstrar desapego aos milhões de euros e à política para reconquistarem credibilidade, as associações aumentarem o número de sócios e as pessoas alinharem nas manifestações.

Enquanto dirigentes das ADAs sonharem com cargos públicos, e os seus quadros técnicos não procurarem ganhar a vida em empresas, o descrédito generalizado continuará.

Tantos, tantos ex-ambientalistas se serviram das ADAs para trepar na vida, que é difícil aos que trabalham por amor à camisola conseguirem passar mensagens bem-intencionadas, por mais que a comunicação social ajude. O Ricardo até poderá ser um dos bem-intencionados. Sendo-o (estou certo que o é) talvez uma boa forma de ajudar o movimento ambientalista será criticá-lo com os mesmos modos que usou aqui.

Quando deixei de pagar quotas à Quercus, há uma boa dúzia de anos, já se dizia haver mais de 4000 sócios.

EcoTretas disse...

Mandei-lhes um email a perguntar porque não faziam uma manifestação a exigir o abate das ventoinhas eólicas, que são o motivo para as barragens. AInda se mostraram interessados na temática, mas sucumbiram aos argumentos...

Enquanto não forem coerentes, não vão a lado nenhum...

Entretanto, nos EUA, já estão a mostrar para que servem as eólicas...

Ecotretas

Fernando Frazão disse...

Esta discussão mostra à saciedade o es tado em que as ONGA estão e é a prova que po Henrique tem razão.
Já agora e para melhorar o "ambiente" dos escritos em português porque não tiram os apóstrofos "'s" e os "s" no fim dos acrónimos?.
Aparentemente não sabem que as siglas em português não têm plural e muito menos um apóstrofos.
ONGA's? Por amor de Deus.