domingo, agosto 08, 2010

Portugal sem fogos e o deixa arder

O sr. Ministro da Administração Interna resolveu ir ver o fogo da Serra da Gralheira. E como tinha de falar, lá disse o que achou que tinha de dizer:
"O nosso lema é 'Portugal sem fogos depende de todos' e, portanto, apelo aqui também ao procedimento cuidadoso de todos os portugueses", ... "Temos tido mais de 400 fogos por dia, devido às condições climatéricas mas também devido a actos ou negligentes ou dolosos. Toda a gente sabe que a maioria dos incêndios tem origem humana", acrescentou."Mesmo à noite há vários fogos que começam a deflagrar, o que prova que não existe comportamento cuidadoso por parte de todos", frisou o ministro.
Já li a frase várias vezes para perceber o que tem o facto de haver incêndios a começar de noite com a demonstração de que não existe comportamento cuidadoso por parte de todos mas continuo sem perceber.
Percebo uma afirmação recorrente: deflagrações de noite só podem ser de origem humana e provavelmente fogo posto porque não há ninguém a fazer trabalhos agrícolas e outros de noite.
É uma afirmação lógica, mas o facto de ser lógica não quer que seja verdadeira.
Esta diferença deve ser sublinhada e explicitado de forma muito clara que não há, que eu saiba, qualquer estudo ou evidência sobre o que está na origem das ignições nocturnas.
Dou apenas quatro exemplos: 1) a projecção a longa distância de materiais incandescentes em alturas especialmente favoráveis ao desenvolvimento dos fogos. Devo dizer que entre os dias 28 de Julho e 3 de Agosto encontrava todos os dias folhas de carvalho queimadas nas caminhadas que fazia a distâncias superiores a um quilómetro da frente de fogo mais próxima; 2) Os rescaldos mal feitos. Devo dizer que cinco dias depois de terminado, numa propriedade minha, um dos grandes fogos do dia 26 e 27 de Julho, uma boa parte do perímetro do incêndio extinto continuava com fumarolas; 3) Trabalhos e actividades susceptiveis de deixar para trás coisas que parecem apagadas mas que se vão mantendo larvarmente até encontrar condições favoráveis à deflagração que seja suficientemente grande e visível para ser registada no sistema como um fogo iniciado a meio da noite; 4) Qualquer outra situação do mesmo tipo como um cigarro que é largado a meio da tarde e vai ficando por ali até aparecer uma chama detectável.
Ou seja, essa coisa das ignições nocturnas serve para justificar as mais descabeladas teorias da conspiração sobre os fogos mas tem o problema de não estar estudada e não haver sobre o fenómeno evidência empírica.
O problema de fundo é a ideia de Portugal sem fogos.
É uma ideia irrealista como estes dias têm mostrado (hoje até com uma violência que me espanta). Repare-se que estamos longe, muito longe das condições de 2003 e o que estes dias demonstram é que não é possível extinguir todos os fogos em fases iniciais e, quando o fogo escapa, o dispositivo de combate não dá conta do recado.
Não porque seja incapaz (não discuto isso porque sinceramente não sei o suficiente de técnicas de combate e porque sei que o fogo é um elemento que pela sua força bruta retira racionalidade às pessoas no contacto directo com um incêndio) mas porque por mais capaz que fosse haveria circunstâncias em que nada haveria a fazer a não ser preparar a evolução do fogo e limitar os seus estragos.
Pela enésima vez repito que na base disto tudo está uma acumulação de combustíveis mal gerida.
Por isso tenho defendido que fogos, em alguns dias e circunstâncias devem deixar-se evoluir de forma acompanhada (o Paulo Fernandes tem dado bons contributos para a discussão deste assunto com o exemplo americano).
Ora bem, foi o que fiz neste post.
António Monteiro, que manifestamente leu erradamente o que escrevi, chamou-me irresponsável por estar a falar agora em deixar arder.
Ora o que eu disse, e quero frisar para que não exista qualquer dúvida sobre isso, é que deixar arder agora é irresponsável e por isso é também irresponsável não deixar arder quando não há nada de essencial em causa nos dias em que isso não tem risco de maior (o que evidentemente não é o caso nestes dias), como é completamente irresponsável continuar a falar de Portugal sem fogos.
O mito de uma alteração do sistema de defesa contra incêndios muito melhorado e responsável pelos bons resultados dos últimos anos (menos do ano passado, mas ainda aceitável, e excelentes nos outros dois anos) caiu nestes dias.
Isto não quer dizer que o sistema não está melhor, quer apenas dizer que por melhor que seja, não resolve nestes dias.
E é nestes dias que arde a maior parte da área no ano. Já agora, a talhe de foice, direi que já escrevi aqui que discordo inteiramente do uso da área ardida como indicador do bom ou mau desempenho em relação ao fogo: o objectivo deve ser minimizar perdas, não pode ser diminuir a área ardida, uma boa parte dela sem que se perca rigorosamente nada com o fogo.
Quem devia estar a falar de fogos era o ministro do mundo rural, e não o ministro das polícias. Porque os fogos são uma questão de economia rural, não são uma questão de polícia.
E sim, é verdade que mais fogos que numa série de países juntos tem o mesmo significado de mais cortiça (e pinhões) produzida em Portugal que nesses países todos: as nossas condições edafo-climáticas são ideais para fogos, cortiça, pinheiro manso e eucalipto.
Nenhum destes factos diz nada sobre a nossa sociedade e a sua cultura.
henrique pereira dos santos

3 comentários:

Paulo disse...

Henrique,

Na verdade o deixa arder está implícito na forma como se combate o fogo em Portugal: nas estradas e apenas com água (o terreno é sempre difícil ou considerado inacessível), sem planeamento de controlo perimetral, e sem um rescaldo efectivo. É este estado de coisas (e a desvalorização das áreas de matos) que permitiu que 1/3 do Parque Natural do Alvão tenha ardido nos últimos dias. O deixa arder assumido (nem tudo é mau...) também já existe, e está reservado para os dias que reúnam certas condições meteorológicas e quando não estejam em causas árvores e outros bens (suponho que entre em vigor no próximo outono).

Quanto ao "Portugal sem fogos" é um slogan patético e irreal. Um mensagem concebida por urbanos que sensibilizará urbanos.

Paulo Fernandes

Pedro Almeida Vieira disse...

E os foguetes, não te esqueças dos foguetes, Henrique...

Henrique Pereira dos Santos disse...

Olá Pedro,
Ainda não desisti de te ver a escrever outra vez aqui.
Os foguetes são um bom exemplo de uma coisa que pode cair bem longe, ficar ali a morrinhar e dar origem a uma ignição considerada nocturna.
Mas há foguetes muitas noites no ano e só em algumas isso é um problema.
Claro que se pode achar que acabando com os foguetes sempre se acabaria com mais uma fonte de ignições.
É verdade. Se eu cortar a cabeça deixo de ter dores de cabeça, mas quando o meu médico me fizer essa proposta garanto que vou querer ouvir outra opinião, mesmo considerando eu que tendo escrito um livro, entregue parte dos meus genes a terceiros e plantado muitas árvores, tudo o que tinha a fazer por aqui está, no essencial, feito.
henrique pereira dos santos