sábado, abril 30, 2011

Fogo e abandono agrícola



Na sequência do post abaixo do Henrique Pereira dos Santos, queria encaminhar todos os interessados para um texto que a Vânia Proença e eu próprio preparámos sobre a dinâmica do fogo no Mediterrâneo, num relatório sobre cenários para a biodiversidade. O problema que temos é que a recorrência de fogos curtos dificulta a evolução para florestas adultas após o abandono, como esquematizado acima. Podem consultar o relatório aqui. Para mais, é um processo que se reforça a si próprio - fogo favorece vegetação pirófita que facilita o fogo - e que tem por isso características de "tipping point", exigindo por isso especial atenção.

quinta-feira, abril 28, 2011

Um Atlas no forno



“Apesar do aumento do interesse na biologia dos morcegos em Portugal, pouco é ainda conhecido sobre a distribuição de algunas das espécies que ocorrem no território continental, bem como sobre os factores ecológicos e históricos que originaram este padrões.
Esta lacuna no conhecimento deste grupo tem óbvias implicações na conservação dos morcegos, já que as decisões são muito dependentes na informação existente sobre a distribuição e/ou presença de cada espécie.
Assim, e em resultado da iniciativa de alguns elementos de equipas de AIA envolvidos na monitorização de morcegos, o ICNB lançou o projecto Atlas de Morcegos de Portugal Continental.”

quinta-feira, abril 21, 2011

Ciência oculta

Um longo post. As minhas desculpas mas não consigo dizer fundamentadamente o que vou dizer sem me alongar. E o que está em causa, e as pessoas que estão em causa, não me permite deixar de procurar fundamentar cuidadosamente a minha opinião.


Dizem-me que parte do comunicado da LPN que comentei aqui, está fundamentado neste artigo.
Ou seja, que a ideia de que os incêndios provocam abandono estaria fundamentada neste artigo.
Fui ler o artigo inteiro.
E resolvi comentá-lo de tal maneira fiquei estupefacto com o que li.
O artigo está assinado por várias pessoas que considero, com algumas delas já trabalhei sem o menor problema. Outras pessoas conheço de ouvir falar. Em qualquer caso é um grupo de investigadores que na área dos fogos florestais estão entre os mais considerados em Portugal. E o artigo está publicado numa revista de referência.
E no entanto a sensação que me fica é a de que o artigo não tem pés nem cabeça e passo a tentar explicar esta minha opinião que será, de qualquer maneira, desconsiderada com dois argumentos:




  1. o de que não tenho curriculum científico em geral e neste tema em particular;


  2. o de que o que eu quero é polémica.
Nenhum dos argumentos colhem.
O primeiro, sendo genericamente verdadeiro (o genericamente é por causa de coisas como esta) é um argumento de autoridade ao qual não ligo nenhuma;
O segundo não é verdade. Preferia não escrever este post. Gosto é ainda menos de, com o meu silêncio, contribuir para deixar pairar a ideia de que o artigo em causa é mais que ciência oculta.
Vamos então à substância do artigo.
No essencial o artigo compara dois momentos do uso do solo (1990 e 2005, em Bragança e Mação, 2003, em Águeda). Junta a esta informação a informação sobre os fogos florestais. Em cada uma das três regiões compara áreas ardidas e não ardidas. Avalia as alterações de uso do solo, nas áreas ardidas e não ardidas e projecta tendências para os cem anos seguintes.
O artigo, em nenhum momento, discute quaisquer outros factores de alteração do uso do solo que não os fogos florestais, aplicando métodos estatísticos para verificar se os fogos explicam as alterações.
O estudo encontra então algumas evidências empíricas, em especial que as alterações de uso não são iguais nas áreas ardidas e não ardidas.
Só que de empírico pouco mais tem o artigo.
Daí para a frente tem inferências estatísticas e elocubrações sobre as inferências estatísticas.
Para demonstrar que uma área ardida de pinheiro ou eucalipto pode, no prazo de quinze ou menos anos ser transformada numa área de matos não é preciso nenhum artigo científico. Para demonstrar que numa área de ocorrência de pinheiro e eucalipto sujeito a fogos é natural uma evolução para matas mistas, também não é preciso muito trabalho científico. Mas até aqui eu dou de barato esta necessidade que a academia tem de provar o que todos sabemos (é aliás um papel importante da academia porque o que todos sabemos pode estar errado).
Mas há problemas bem mais complicados no artigo.
O primeiro é o problema do tempo: 15 anos não são suficientes para avaliar tendências de alteração de uso do solo, se quisermos, tendências de evolução da paisagem, sobretudo se, como se faz neste artigo, se esquece tudo o que seja enquandramento temporal e sócio-económico dessa evolução.
O segundo problema, a confusão entre dados e interpretação. O caso mais evidente diz respeito às alterações de área agrícola. O estudo verifica uma diminuição de áreas agrícolas maior nas áreas ardidas que nas áreas não ardidas. E conclui, audaciosamente porque sem nenhum dado empírico para o fazer, que o fogo foi um factor de abandono das áreas agrícolas. Ora a partir dos mesmíssimos dados empíricos eu posso dizer que as áreas agrícolas que vão sendo abandonadas ardem mais que as que mantêm o seu uso, isto é, que o abandono é um factor de susceptibilidade ao fogo. Ou seja, não é por arderem que as alterações de uso existem, é por haver alterações de uso que ardem. No caso das áreas agrícolas, bem entendido, porque no caso das áreas florestais o problema é mais complexo: o abandono permite a acumulação de combustiveis no sub-bosque (coisa que o estudo ignora, omitindo por completo qualquer análise mais pormenorizada que pudesse lançar alguma luz sobre a questão dos combustíveis), o que leva aos fogos, que conduzem a uma alteração do coberto, em especial para as espécies que não rebentam de toiça (um pequenino parágrafo passa como cão por vinha vindimada por esta característica essencial para discutir alterações do diferentes cobertos vegetais).
O terceiro problema é uma coisa que não percebo como é aceite num artigo científico com referees: de uma análise de quinze anos, com apenas dois pontos de observação (curtíssimo para uma análise com base em matrizes de Markov, que exigiriam pelo menos três pontos de análise, ou pelo menos cautela na análise de apenas dois pontos), num processo complexo como é a evolução de paisagens, onde actuam dezenas de factores, aceitam-se projecções lineares para cem anos, como se todos os factores, em especial os sócio-económicos, se mantivessem inalterados. E com base nessas projecções completamente fantasiosas tiram-se algumas das principais conclusões do artigo.
Conheço a má ciência, a boa ciência e as ciências ocultas.
Este artigo cai nitidamente no terceiro grupo.
Nada do outro mundo (honny soit qui mal y pense), a ciência, a boa, a legítima, faz-se ao longo do tempo, com contributos certos e errados e alguém virá um dia corrigir o que está escrito neste artigo, ou, o que é mais frequente e provável, simplesmente esquecê-lo porque está errado e não tem interesse.
Mas entretanto, porque os autores do artigo têm fortes ligações com uma ONG e porque as posições públicas das ONGs são definidas por grupos mais que restritos de pessoas, infuenciam-se políticas e afectações de recursos com base nisto.
Essa é uma das principais razões pelas quais as ONGs deveriam fugir como o diabo da cruz de processos fechados de definição das suas posições.
Mesmo (ou sobretudo?) que essas posições sejam definidas por investigadores eminentes.
É muito triste ver as ONGs preferirem a tecnocracia à democracia.
henrique pereira dos santos

Pé n'A Terra III


Entramos hoje na fase mais intensa da iniciativa Pé n'a Terra, uma iniciativa para celebrar o dia da terra (22 de Abril) passeando e registando biodiversidade.

No calendário das actividades estão agora quase sessenta actividades à disposição de qualquer pessoa, incluindo actividades em Lisboa e Porto.

Sim, a chuva pode ter levado algumas pessoas a achar que as condições não são óptimas, mas a biodiversidade é assim, diversa, e por isso há mesmo grupos que beneficiam com estas condições (que o diga o projecto charcos com vida que organiza a partir de hoje quase uma dezena de visitas em diferentes localizações até Domingo. Podem mesmo aproveitar para ir renovado Jardim Botânico do Porto, o jardim da casa de infância de Sofia de Mello Breyner, hoje às 15).

Para o primeiro ano da iniciativa é muito animador. O tráfego no site está a aumentar e estamos quase nas 40 mil observações, o que torna credível o meio milhão de observações nos primeiros dez anos. Suspeito que com tudo o que é preciso ainda melhorar (a lógica de acesso é a do observador e do registo, e é ainda muito pouco intuitivo o acesso na óptica do utilizador dos dados, por exemplo) é bem possível que estejamos a caminhar no sentido de ter informação de biodiversidade com verdadeiro interesse, com verdadeira amplitude de grupos e verdadeiramente acessível no prazo de alguns, poucos, anos.

Não serve, nem nunca servirá, para a produção de informação que exija métodos de observação e protocolos de registo mais sofisticados, mas serve muito bem como informação complementar para muitos e muitos fins, desde os mais científicos aos mais turísticos.

Acho que vou propor que se avalie a possibilidade de repetir a iniciativa num espaço de tempo mais curto do que pensava e concretizar uma ideia antiga: casar finalmente a tradição sulista e muito popular da quinta feira da espiga com as modernas ideias da conservação da natureza democrática.

henrique pereira dos santos

segunda-feira, abril 18, 2011

Desesperança

Esta imagem de regeneração de carvalhal foi retirada daqui, e vale pena ir lá ler o texto de que constitui ilustração. Tem uma afirmação passível de discussão técnica, mas não tem grandes erros.


"Os incêndios levam ao abandono das terras; em muitos casos o abandono dá lugar à ocupação por espécies exóticas como as acácias, o eucalipto, ou a háquea; estas espécies formam complexos de combustível altamente susceptíveis ao fogo; estas formações voltam a arder, completando o ciclo. Desta forma parece vislumbrar-se um ciclo de degradação sem fim à vista, perante a passividade e a falta de sensibilidade dos serviços do Estado. Muito embora se trate de uma realidade não extensível a todo o território nacional, trata-se de um problema de dimensões gravíssimas, pelos custos económicos, ecológicos e sociais que envolve. Paralelamente vimos assistindo à degradação das poucas áreas de floresta nativa que ainda restam, tal como aconteceu em 2010 com os incêndios que ocorreram no Parque Nacional da Peneda Gerês."

Se este pedaço de prosa tivesse sido colhido num táxi, num café ou mesmo numa conversa de comadres, eu limitar-me-ia a explicar mansamente, como quem não quer a coisa, que é o contrário, isto é, o abandono é que leva aos fogos e que estamos a atravessar uma das mais fortes recuperações de vegetação autóctone do holocénico (Carlos Aguiar dixit, nesta última parte).

Mas não, este pedaço de prosa é colhido de um texto da mais antiga e, supostamente, tecnicamente qualificada associação de conservação em Portugal, da qual aliás sou sócio e cujas posições sobre fogos e florestas já tentei influenciar vezes sem conta, sem o menor resultado (não sei, nunca percebi, como se formam estas posições que supostamente representam os sócios de uma associação que nunca são chamados a dar a sua opinião).

Não é um texto feito em cima do joelho para responder em tempo a uma qualquer posição pública, é o texto preparado com o tempo que se quiz para dar conta à sociedade de qual é a posição da LPN sobre o ano internacional das florestas.

É mau demais.

Desisto.

henrique pereira dos santos

PS A LPN lançou uma consulta pública para contratar uma pessoa na área da intervenção. Como preciso de trabalho e nunca achei que as pessoas devessem ser contratadas pelo que dizem mas pelo que podem fazer, concorri. O concurso terminou a 7 de Março, a 23 perguntei em que pé estava, explicaram-me que estava demorado e até hoje continuo sem uma resposta à minha candidatura. Nunca esperei muito deste concurso porque o preço do meu trabalho é provavelmente incompatível com o orçamento da LPN (eu trabalho de borla ou a preço completo, não faço descontos). Mas talvez seja porque ainda não contrataram o tal colaborador que falta na área da intervenção que tenham sido amadores a escrever o parágrafo que citei.

quarta-feira, abril 06, 2011

Citação

“Aonde vos achais sei que dizeis sempre mal de mim; eu, pelo contrário, não perco ocasião de dizer louvores vossos: porém, quem a ambos nos conhecer, a nenhum de nós há-de dar crédito” Carta de Libânio a Aristeneto citada por Francisco Rodrigues Lobo

sábado, abril 02, 2011

Outra vez os prejuízos provocados pelas Áreas Protegidas


Ontem, mais uma vez, num congresso, alguém referia o turismo como uma compensação dos prejuízos das populações das áreas protegidas.

Como sempre, recusei-me a pôr a discussão nesses termos porque não reconheço nenhuns poejuízos económicos causados pelas Áreas Protegidas às populações locais que não sejam eventuais coisas pontuais. Não há nenhum princípio geral de prejuízo das populações das áreas protegidas.

Aqui fica um gráfico com quatro concelhos, dois com área protegida, dois sem área protegida. Os quatro são concelhos de montanha do Nordeste, sendo evidente que um deles, Bragança, tem uma lógica de desenvolvimento diferente que um dia tratarei num artigo.

Os gráficos contêm a população destes concelhos excluindo as freguesias sede de concelho, desde 1890 até 2001.

Se alguém conseguir estabelecer qualquer relação entre a criação da área protegida (assinalada no tempo) e a evolução da população agradeço que o explique, porque eu não vejo nada.

henrique pereira dos santos

sexta-feira, abril 01, 2011

Passeios para todos os gostos


Fui ao calendário do Pé n'aTerra para ver em que param as modas.

Estou muito satisfeito.

Em primeiro lugar por ver organizações tão diferentes como a Altri Florestal, a QUERCUS, a Transcudânia, o grupo Lobo, a Rocha, a ATN, a associação cultural e recreativa das Abrunheiras, a sociedade portuguesa de botânica, empresas de animação turística como a Birds and Nature, a Montes de Encanto, a Ecotrails, ou a Escola de Mar, a cooperativa terra chã e até o restaurante da urbanização Tamonte a fazer acções para terceiros, sob o mesmo chapéu de uma celebração da terra e da sua biodiversidade. E outros informaram-nos de que estarão presentes na celebração, mas por qualquer razão ainda não registaram no calendário, como a câmara de Penela.

Mas verdadeiramente o que gosto de ver é três dos principais produtores de informação, a Lisete Matos do Colmeal, o Paulo Eduardo Cardoso na mata da Machada e o Francisco Barros em Montejunto (que acompanha também o passeio da Terra Chã, noutro dia) simplesmente dizendo, estou aqui, às tantas horas e seja bem vindo quem vier por bem (a Lisete ainda promete um refresco no fim, estraga os participantes com mimos).

Não só com frequência partilham o que vêem como agora se disponibilizam em pessoa para transmitir parte do conhecimento que têm.

Eu gosto de gente generosa e queria agradecer-lhes publicamente.

henrique pereira dos santos