Quinta-feira, Dezembro 22, 2011

O conservador contraditório




Ontem tive uma troca de argumentos com o Gonçalo Elias no Facebook sobre esta acção da EDP. Não é sobre essa troca de argumentos que quero escrever, mas sobre as intervenções de larga escala nas paisagens protegidas.
Inicialmente tinha sobre este tipo de matérias uma posição mais ou menos semelhante ao que em média se ouve por aí sobre esta intervenção.
É certo que já quando me tinham dito que a Clara Menéres teria pensado pintar o caracol que fez no Parque dos Candeeiros de cor-de-rosa, com um claro tom de chacota, me tinha parecido que talvez tivesse razão.
Mas foi sobretudo com os meus colegas do Porto, que me pediram colaboração na elaboração de um guia de boas práticas de integração paisagística de infraestruturas eléctricas que percebi que grande parte da minha posição nesta matéria era puro reaccionarismo.
Ser reaccionário não me incomoda por aí além, excepto quando me impede de ter ao cabeça ao contrário para ver também um pouco do lado do adversário, como diria o Sérgio Godinho. Verifiquei nesse trabalho que pelo mundo fora, mesmo no coração de áreas protegidas, há mais mundo do que eu conhecia em matéria de integração de infraestruturas na paisagem.
Claro que há o óbvio, fazer desaparecer a infraestrutura, há o menos óbvio, conseguir colocar a infraestrutura no contexto da paisagem mas há ainda o pesadelo: a infraestrutura que claramente se destaca da paisagem, por contraste irrenunciável e que é de tal maneira nova e estranha à sua envolvente que é sempre uma ruptura.
Aprendi com os meus colegas, e com os exemplos que me mostraram que nessas circunstâncias não há maneira de reduzir impactos, a única saída é prescindir da infraestrutura ou mudar a natureza do impacto. Olhar o touro nos olhos e simplesmente aceitar que já que temos de provocar uma ruptura, ao menos que valha a pena.
É nessa lógica que entroncam as intervenções de arte pública, como é o caso retratado neste video, e as intervenções de design industrial que criam valor cultural na intervenção.
A minha alma de conservador contraditório fica sempre como o tolo na ponte, sem saber para lado ir nestas circunstâncias, mas ao menos aprendi a não reagir às primeiras emoções, as que rejeitam sempre o que é novo e inseguro, e falta-me segurança e bagagem cultural para olhar para estas intervenções sem dúvidas.
Também sei que parte do ruído da discussão se prende com a mitificação do fundamento das áreas protegidas (por favor, antes de reagir a esta frase leiam isto), o que dificulta muito a gestão racional de áreas protegidas em Portugal.
Dito isto há uma coisa que não percebo: por que raio a EDP não fez o que se faz em países civilizados em que o espaço público é tratado como isso mesmo, público? Porque raio não lançou a EDP umas discussões públicas sobre as intervenções.
Eu sei, o país é assim, nem no Terreiro do Paço se lançaram concursos públicos para os projectos e continua a ser tabu discutir a criação de conforto naqueles quatro hectares desabrigados e sem sombras (sim, é o mesmo reaccionarismo perante as fachadas do Paço que impede a discussão racional da introdução de vegetação no terreiro do paço que impede a discussão racional do amarelo na paisagem do Estado Novo (como bem a caracteriza Teresa Andresen) do Douro Internacional), quanto mais discutir umas fragas perdidas atrás do sol posto.
Mas eu não me conformo com a falta de racionalidade nas discussões.
Como diria o Pinheiro de Azevedo a propósito de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia, pá.


henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Dezembro 21, 2011

Mais um Campo de Trabalho Científico (2ª fase)


No seguimento deste POST, aqui fica os seus resultados.
Aqui deixo a capa do relatório, onde consta uma foto que reflecte bem o espírito e o cansaço (saudável, reconfortante e de missão cumprida), deste tipo de trabalhos voluntário.

Domingo, Dezembro 18, 2011

Ribeiro Telles não tem razão




“É impressionante pensar que temos um modelo económico que exporta parafusos para importar pão”
Este é o lead de uma entrevista a Ribeiro Telles que o Público publica hoje. E é um bom resumo de muito do que Ribeiro Telles tem vindo a dizer nos últimos anos.
Ribeiro Telles é uma pessoa incontornável na história da minha profissão, que lhe deve muita da sua visibilidade. Mas a partir de meados dos anos setenta há uma alteração profunda que gostaria de realçar.
Até essa altura Ribeiro Telles é um entre uma dúzia (mais coisa, menos coisa) de arquitectos paisagistas que centram a sua actividade profissional numa base muito sólida que relaciona território, elementos naturais e cultura.
São um grupo de profissionais que trocam ideias, se apoiam, discutem, divergem, afirmam as suas individualidades, sempre, sempre com a mesma base conceptual, mas em permanente evolução. Têm nessa altura uma das visões mais lúcidas e modernas (se não, “a”) da relação do homem com o seu território, e sentem-se bem trabalhando planos de cidades (Dentinho, para Lourenço Marques, por exemplo), regiões (Barreto, Dentinho e Castelo Branco, para o Algarve, por exemplo), parques (Barreto e Ribeiro Telles, para a Gulbenkian, por exemplo) e jardins, dos maiores aos mais pequenos, dos públicos aos privados.
Nesse grupo todos são mais ou menos iguais, não há um primus inter pares, e, a haver, só poderia ser Caldeira Cabral. E todos se sentem mais ou menos à vontade para dizer o que pensam do trabalho uns dos outros, para utilizar o trabalho uns dos outros e para trabalhar uns com os outros.
A partir de meados dos anos setenta o estatuto de Ribeiro Telles altera-se, quer dentro da profissão, quer para fora da profissão. Dentro da profissão, então em crescimento rápido, Ribeiro Telles passa a estar rodeado de epígonos que o adulam mais que o criticam. Fora da profissão, mercê do envolvimento político e mediático de Ribeiro Telles que todos conhecemos, a sociedade descobre um pensamento novo sobre o território e a sociedade, atribuindo-o ao seu porta-voz mais visível e não a uma escola de pensamento que o vinha formulando há perto de cinquenta anos.
Só isso explica, por exemplo, que as constantes declarações de amor ao jardim da Gulbenkian (justas, aliás) sejam perfeitamente compatíveis com o mais profundo alheamento face à mutilação do jardim do tribunal de Rio Maior, onde se podem encontrar soluções originais posteriormente reinventadas na Gulbenkian, como os famosos quadrados de betão que fazem os caminhos da Gulbenkian, reinterpretando os quadrados que Dentinho tinha desenhado para a envolvente do tribunal de Rio Maior. Sacralizar uma obra de arte desprezando por inteiro parte das suas origens é próprio de quem não sabe e não conhece.
É assim que quase aos noventa anos, com a mesma frescura intelectual que sempre o caracterizou, Ribeiro Telles continua a sua intervenção no espaço público, mas infelizmente sem que os seus epígonos e aduladores o confrontem com algumas das ideias que expressa, discutindo-as pelo seu valor facial e não como oráculos.
A ideia que cito no início deste post é uma dessas ideias (há mais) que penso que o próprio Ribeiro Telles estaria mais disponível para discutir que a sua entourage.
Vender parafusos para comprar pão não é nenhuma novidade: há mais de duzentos anos que a Inglaterra o faz, seguramente quase há outro tanto o faz a Alemanha (de que a escola portuguesa de arquitectura paisagista é tributária), para não falar da Suíça, que não mantém a sua paisagem doutra maneira que não seja assim.
Mas vamos admitir que Ribeiro Telles teria razão neste ponto, estando assim de acordo com Salazar, o Partido Comunista Português e os indignados, três outras fontes sociais da ideia de soberania alimentar, traduzida na ideia de que o importante é produzirmos o pão que comemos porque é isso que nos garante a independência.
Salazar foi quem levou esta ideia mais longe na prática (não tanto na teoria, a que levantou sérias reservas em 1916 numa das teses que defendeu em Coimbra, ainda enquanto professor universitário). E não vejo como pudéssemos fugir da sua solução para esta ideia: campanha de apoio à produção agrícola, sobretudo cereais e regadio, com olival e vinho, forte apoio à pesca, à produção mineira e à florestação.
Salazar procurava alimentar cerca de sete milhões de portugueses nos anos 30, não os 10 milhões que agora somos, e ainda assim falhou. Ribeiro Telles é seguramente um adversário da campanha do trigo, tal como ela foi executada. E é também um adversário da florestação do Estado Novo. E é ainda desfavorável a uma agricultura assente na fertilização química. E é ainda um defensor das matas de carvalhos e outras para climácicas.
Só que produzirmos o nosso pão implica intensificação agrícola. E se se pretender que essa intensificação não assente nos adubos químicos, então implica também largas áreas desmatadas para colecção de nutrientes que suportem a fertilidade das terras de pão.
Visto que não somos suficientemente eficientes na produção de parafusos para sermos reconhecidos como uma potência económica nesse sector, demos um bocadinho mais de realismo ao argumento de Ribeiro Telles e substituamos parafusos por pasta de papel e papel, onde de facto temos uma posição forte, base de uma das nossas grandes exportações (e, de longe entre os grandes sectores exportadores, a que tem maior incorporação de riqueza endógena).
E o que acontece é que se deixássemos de produzir eucaliptos onde hoje os produzimos, substituindo a produção de pasta e papel por produção de pão, nós seríamos hoje incomparavelmente mais pobres, com salários de miséria na agricultura, com um pão caríssimo que os consumidores urbanos teriam de pagar, sem que a exportação de pasta e papel (ou parafusos) criasse a riqueza necessária para o fazer.
A questão é que somos eficientes a produzir pasta e papel, mais eficiente que muitos outros países no mundo, mas somos muito pouco eficientes a produzir pão, muito menos eficientes que outras regiões do globo, como o corn belt americano. Portanto estaríamos a abdicar de criar eficientemente riqueza que outros estão dispostos a pagar, para produzir o que outros estão dispostos a vender-nos a um preço mais baixo que aquele a que conseguimos produzir.
Se olharmos para uma das declinações desta ideia, sempre presente no discurso de Ribeiro Telles, que é a ideia peregrina de que a agricultura urbana é necessária para alimentar as cidades, rapidamente verificamos que é um pensamento reaccionário sem a lucidez e a modernidade da escola a que tanto Ribeiro Telles como eu pertencemos.
Ribeiro Telles defende, como eu, a existência de agricultura urbana. Mas justifica-a nos termos em que falava Caldeira Cabral quando a defendia pelos anos 40 ou 50 do século XX, como uma actividade social, já que em nenhum momento discute a economia associada à sua criação e manutenção. O que se modernizou foi uma linguagem justificadora, a da paisagem pós-moderna, onde não há urbano e não urbano, mas esta é uma língua de pau que não diz nada (ou, pelo menos, eu não percebo nada do que isso quer dizer).
Estou profundamente convencido de que se Ribeiro Telles se mantivesse no cadinho de cultura que fundou a profissão, onde o futuro se discutia solidamente com os pés na terra inter pares, provavelmente a justificação para a agricultura urbana há muito teria acompanhado os tempos e tinha mitigado as suas componentes sociais assentes na produção em quantidade para alimentar pessoas (componentes que existem e são limitadamente válidas) e se tinha afirmado na cidade por aquilo que é: uma função urbana de primeira grandeza, assente na procura de diferenciação alimentar e sustentabilidade na gestão do espaço público.
Parece ser uma discussão de lana caprina, mas não é. Michele Obama e a Rainha de Inglaterra fazem parte da campanha eat the view, que leva à criação de hortas integradas nos jardins das propriedades mais emblemáticas, como a Casa Branca ou Westminster. O que está em causa não é a dedicação de espaços marginais, das traseiras, da periferia, a extractos sociais de baixos rendimentos, o que está em causa é reconhecer que controlar o que se come numa cidade é um luxo urbano só ao alcance de muito poucos.
E que disponibilizar espaços para democratizar esse luxo é uma alternativa de gestão urbana que não pode confinar-se a uns sítios meios esconsos. O jardim da casa oficial do primeiro ministro em São Bento poderia bem ajudar quer o Sr. Primeiro Ministro, quer os Senhores Deputados a saber de onde vem o que comem e como foi produzido. Tal como o Palácio de Belém. Tal como o tabuleiro central do Parque Eduardo VII. E isso é um sinal de diferenciação assente na possibilidade de comer bem, não é, como antigamente, uma necessidade básica de ter horta para poder comer de qualquer maneira.
O papel da agricultura urbana não é alimentar as cidades (basta fazer meia dúzia de contas para perceber como a ideia é absurda) é sim competir com outras funções nobres das cidades na criação de verdadeira qualidade de vida para os seus habitantes, criando riqueza, criando diferenciação, criando valor que permita conter a ocupação de todo o espaço pela construção.
A minha homenagem a Ribeiro Telles é isto.
Não é adulá-lo aceitando acriticamente tudo o que diz, mas estimulando uma discussão em que sei que Ribeiro Telles entra mais facilmente que muitos dos que o rodeiam de forma acrítica.
A minha homenagem consiste em reconhecer em Ribeiro Telles a sua capacidade de evoluir rapidamente, adaptando ideias e conceitos ao que de novo foi encontrando pela vida, e estou convencido de que mantém essa capacidade, não merecendo que o tratem como se se incomodasse por meia dúzia de críticas de um impertinente qualquer.
(neste texto uso ideias para as quais contribuíram várias pessoas, claro, mas gostaria de realçar Carlos Aguiar e João César das Neves. Nenhum deles tem nenhuma responsabilidade no que eu aqui escrevi mas há coisas que só escrevi porque fui ouvindo o que me foram dizendo generosamente e apenas pelo gosto de ensinar)
henrique pereira dos santos

Sábado, Dezembro 17, 2011

Concursos perdidos

Estive hoje num evento da PROAP, muito provavelmente o maior e mais internacional gabinete de arquitectura paisagista de Portugal.
Uma sala para lá de cheia e uma pequena conversa à roda dos concursos perdidos, como introdução ao lançamento do livro anual do gabinete, neste caso "concursos perdidos/ lost competitions".
Tiro o chapéu ao João Nunes e ao Carlos Ribas por resolverem fazer isto, expor os concursos perdidos pelo gabinete ao longo destes anos.
É bom que haja quem tem a coragem de nos lembrar que o sucesso é a maior parte das vezes um mero intervalo numa sucessão de fracassos e que a arquitectura paisagista em Portugal está bem e recomenda-se, não vive de fantasmas do passado.
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Dezembro 14, 2011

Expansão agrícola e sustentabilidade

Vale a pena ler o artigo que acaba de sair na revista PNAS e cujo acesso é gratuíto:

Global food demand is increasing rapidly, as are the environmental impacts of agricultural expansion. Here, we project global demand for crop production in 2050 and evaluate the environmental impacts of alternative ways that this demand might be met. We find that per capita demand for crops, when measured as caloric or protein content of all crops combined, has been a similarly increasing function of per capita real income since 1960. This relationship forecasts a 100–110% increase in global crop demand from 2005 to 2050. Quantitative assessments show that the environmental impacts of meeting this demand depend on how global agriculture expands. If current trends of greater agricultural intensification in richer nations and greater land clearing (extensification) in poorer nations were to continue, ∼1 billion ha of land would be cleared globally by 2050, with CO2-C equivalent greenhouse gas emissions reaching ∼3 Gt y−1 and N use ∼250 Mt y−1 by then. In contrast, if 2050 crop demand was met by moderate intensification focused on existing croplands of underyielding nations, adaptation and transfer of high-yielding technologies to these croplands, and global technological improvements, our analyses forecast land clearing of only ∼0.2 billion ha, greenhouse gas emissions of ∼1 Gt y−1, and global N use of ∼225 Mt y−1. Efficient management practices could substantially lower nitrogen use. Attainment of high yields on existing croplands of underyielding nations is of great importance if global crop demand is to be met with minimal environmental impacts.                 

Quarta-feira, Dezembro 07, 2011

Ik zie ik zie wat jij niet ziet

Há uma brincadeira infantil na Holanda com o nome do título, que quer dizer mais ou menos "eu vejo eu vejo o que tu não vês", na qual uma criança olha em volta e nomeia uma característica de um objeto em que a outra terá de adivinhar o que está a ver. É giro, divertido e treina um olhar atento das crianças sobre o que as rodeia. Mas é um exercício interessante também para adultos, sobretudo quando estamos a olhar para uma paisagem. E muito revelador da perceção dessa mesma paisagem e revela muito sobre o quadro ético que condiciona essa perceção. Roubei a imagem acima da revista Fugas do jornal o Público da semana passada e é evidente que se trata do Douro vinhateiro, que por mera coincidência veio à discussão muito recentemente por causa da barragem de Tua. É curioso como o orgulho nacional é impulsionado sobretudo quando alguém de fora vem dizer que algo é muito valioso cá. Nada como um estrangeiro dizer-nos que o vale do Douro é muito bonito, o fado também, a comida excelente e do tempo então nem se fala. Já sabíamos, mas agora "é oficial"! Mas estou a desviar. Portanto vamos lá brincar: eu vejo eu vejo ... socalcos novinhos em folha e ripagens de alto a baixo! Agora adivinhem vocês o que estou a ver (na primeira vez não convém ser muito difícil, para não desencorajar). Henk Feith

Uma questão de arquitectura paisagista

Esta paisagem fui buscá-la aqui. É muito curioso que quando se escreve paisagem no google e se olha para as imagens encontradas o que se vê, na maioria dos casos, não são verdadeiramente paisagens, mas sim representações do paraíso, mesmo quando o veículo é uma paisagem real

O laboratório de fogos florestais publicou uma nota no seu facebook em que dá conta das conclusões do seu estudo sobre a eventual existência de progressos na prevenção e combate a incêndios em Portugal.
Sem surpresa, mas com solidez, a conclusão essencial é a de que apesar dos progressos numa série de factores, não há progressos na dimensão dos grandes incêndios e na área ardida.
E conclui: "Portanto, uma maior % da superfície ardida corresponde agora a fogos maiores, inevitavelmente com maiores impactes ambientais e socioeconómicos".
Tenderei a subscrever todo o texto, que me parece bastante consistente, mas não este parágrafo.
A razão é simples. Quem estuda os fogos, sejam os investigadores de origem florestal, sejam os de origem mais geográfica, como acontece na Universidade de Aveiro, tendem a estudar o que se passa depois de cada fogo. Na verdade perseguem os fogos para os estudar. Tendem assim a aumentar o seu conhecimento sobre os efeitos de cada fogo e é daí que concluem que fogos mais severos têm maiores impactos ambientais (maior quantidade de energia envolvida, maiores temperaturas atingidas, mais tempo de residência da frente de fogo, afectação mais profunda dos indivíduos e dos sistemas e por aí fora, como aliás se pode ler aqui).
Todos estes investigadores tendem pois a ser uma espécie de nómadas do fogo, caminhando atrás do seu objecto de estudo.
Ora eu, que não sei nada de economia, nem consta que tenha biblioteca, nunca publiquei nada de relevante sobre o fogo, isto é, nada de academicamente reconhecido como relevante sobre o assunto, como bem lembrou o Joaquim Sande Silva uma vez que tivemos por aqui uma discussão sobre a matéria.
E, no entanto, aqui e ali pedem-me para eu ir falar sobre o assunto em salas cheias de pessoas que publicam coisas academicamente relevantes sobre a matéria.
A melhor explicação que me deram para esses convites foi a de que o meu ponto de vista era um pouco diferente dos outros, porque olhava para a paisagem e não para os fogos.
Percebo hoje que essa é uma observação justa. Ao olhar para a frase que citei acima sobre os efeitos dos fogos severos dou-me conta, exactamente, de que a minha discordância decorre apenas do referencial usado, ou seja, do ponto de vista.
Na verdade não há qualquer dúvida de que os fogos severos são mais severos, isto é, mais impactantes. Quando o que me preocupa é saber o que acontece quando arde, o mais natural é ser levado a concluir o que o laboratório de fogos florestais da UTAD conclui.
Mas se deslocar o ponto de vista para a paisagem, isto é, se o que me preocupa é um pedaço de território e todo o processo da sua construção, o fogo é apenas mais um dos elementos que actuam sobre essa paisagem. Que, como todos os elementos de uma paisagem, só pode ser inteiramente compreendido sabendo de onde vem e para onde vai.
Se for esse o ponto de vista, e esse é o ponto de vista normal de um paisagista que não tenha frases feitas na cabeça do género "nos eucaliptais não se ouvem passarinhos", então o que verdadeiramente conta não é o efeito de cada fogo mas o efeito (e, já agora, a causa) do padrão de fogo.
E aí entronca a minha objecção à frase citada: fogos frequentes e pouco severos são sempre menos prejudiciais que fogos severos e menos frequentes?
Não estou convencido de que a resposta seja positiva, mas estou perfeitamente convencido de que a resposta se encontra mais facilmente reconhecendo a questão como sendo mais de arquitectura paisagista que de ciência do fogo.
Note-se que nada de corporativo está no parágrafo anterior: eu acho a paisagem uma coisa demasiado importante para ser entregue a paisagistas.
Não é pois uma defesa corporativa que me move no que escrevi (até porque a arquitectura paisagista corria o risco de ser varrida da discussão por falta de comparência na matéria) mas simplesmente o reconhecimento de que o ponto de vista que parte da paisagem está claramente sub-valorizado na gestão das paisagens.
Se mais paisagistas (não, não sou o único, há mais, mas continuam a ser poucos os que se exprimem no espaço público) se limitassem a expressar pontos de vista a partir daquilo que define a sua profissão, muitas das coisas que digo pareceriam menos estranhas e provocatórias porque seriam mais vulgarmente ouvidas.
henrique pereira dos santos

Domingo, Dezembro 04, 2011

Acerca da fusão do ICNB com a AFN

Tenho estado algo surpreendido com o silêncio nos meios ambientais sobre a planeada fusão do ICNB com a AFN. Vejo essa fusão com alguma preocupação, não tanto pelo princípio, mas pela forma como aparenta estar a ser feita. Penso há algum tempo que haveria vantagens se a gestão das áreas protegidas pelo ICNB integrasse também as competências que estão atribuídas à AFN: gestão da caça, gestão da pesca e gestão da floresta. Em teoria esta fusão permitirá essa integração, embora vá bastante mais longe pois todo território passa a ser abrangido. Poderá também permitir aumentar os parcos recursos financeiros do ICNB com as fontes de receita própria da AFN (Fundo Florestal Permanente, taxas de caça, venda de madeiras, entre outros).
Quais são então os perigos dessa fusão? Penso que uma questão essencial é qual irá ser o grau de paridade das estruturas herdadas da AFN e do ICNB. A área principal de intervenção da AFN teve o seu auge há algumas décadas, e o declínio dos Serviços Florestais tem sido marcado: de uma organização com uma força policial própria e brigadas de sapadores próprios passou-se a uma organização reduzida essencialmente ao corpo técnico. Esta redução foi excessiva, e veio acentuar o problema da gestão dos baldios, devolvidos fora de tempo a populações cada vez menos rurais, mas penso que em parte era inevitável. As competências do Estado são hoje menos no sector da produção florestal e mais nos serviços de regulação da floresta e da proteção da biodiversidade. É em parte por isso que o ICNB (ou o SNPRCN e o ICN) teve uma ascensão meteórica em termos de importância na sociedade portuguesa nas décadas de 80 e 90. O ICNB representa o futuro e a AFN o passado, estando ainda à procura de um novo papel num país com apenas 2% de área florestal do Estado contra 40% de média europeia (um problema gravíssimo que em vez de despoletar iniciativas no sentido de aumentar a floresta do Estado parece passar ao lado de quem ainda quer entregar estes 2% a parcerias publico-privadas...).
Não tenho a certeza que quem nos governa tenha estas noções bem claras. E mais preocupado fiquei ao ouvir recentemente o Secretário de Estado das Florestas, Daniel Campelo. Deduzi do seu discurso que se pretende devolver a conservação da natureza aos seus guardiões: os proprietários florestais e os agricultores. Eu defendo realmente que devemos premiar os melhores gestores florestais e os melhores empresários agrícolas pelos serviços de ecossistema que prestam à sociedade. Mas daí a assentar toda a política de gestão da biodiversidade na premissa de que são eles os guardiões da biodiversidade vai uma grande distância.
Mais preocupado fiquei quando soube que a fusão do ICNB e da AFN pretende integrar as suas estruturas de gestão de Áreas Classificadas nas Direcções Regionais de Agricultura. Se a fusão do ICNB e a AFN tem os seus prós (gestão mais integrada da biodiversidade nas Áreas Classificadas) e contras (filosofias de gestão do território muito diferentes, união de duas instituições que não estão bem de saúde), não consigo antever grandes vantagens nessa amalgama que passariam a ser as Direções Regionais de Agricultura.
No limite corremos o risco de recuar várias décadas na gestão da biodiversidade em Portugal: no tempo em que os serviços ecossistémicos de regulação e de suporte são cada vez mais valorizados, diluímos a sua gestão em organizações, Agricultura e Florestas, que historicamente enfatizaram os aspetos de produção. Um dos papeis que eu temo ver menosprezado é o da Comunicação e Educação Ambiental. O Estado investiu milhões de Euros em centros de interpretação das áreas protegidas pelo país fora. O que vai acontecer à gestão desse centros é uma incógnita, mas espero que não se virem para promover uma imagem idílica das tradições rurais, como no mapa de imagens regionais de Amorim Girão da década de 1940. Esse tempo já lá vai.

Henrique Miguel Pereira

Sexta-feira, Dezembro 02, 2011

Green and competitive

As pessoas que me ouvem aqui e ali, ou que me lêem aqui ou ali, sabem que cito com muita frequência o artigo de Michael Porter e Class van der Linde que tem o título deste post (sendo rigoroso, o post é que tem o título do artigo).
Cito sobretudo a conclusão de que restrições ambientais apontadas para os resultados e não para a forma de os atingir, em determinadas circunstâncias, constituem poderosos estímulos para a inovação e consequentes ganhos de competitividade.
Hoje recebi um mail simpático de Miguel Repas que constitui uma boa demonstração dessa ideia que pode ser verificada no desenvolvimento do processo do parque eólico do Barão de S. João.
Há naturais limitações de comunicação associadas às condições concretas em que se fala deste caso concreto que impedem, com certeza, a justa referência ao papel dos técnicos de AIA do ICNB que acompanharam o processo na concepção da solução adoptada.
Por isso aproveito a ausência destas limitações aqui neste blog para agradecer aos técnicos que com a sua sensatez, intransigência no essencial e flexibilidade na aceitação de soluções envolvendo riscos inerentes à inovação, criaram as condições para o desenvolvimento desta tecnologia aplicada à energia eólica.
E reforço a ideia de que o seu contributo para a concepção da solução usada foi muito para além do que é habitual na administração em Portugal (embora fosse habitual no acompanhamento dos processos de AIA naquela altura).
Foram vários (incluindo os que não estando directamente com este processo participaram nas discussões das soluções) e não quero cometer injustiças nomeando-os.
Eles saberão, tal como o Miguel Repas, o contributo enorme que deram para o que aqui se vê neste video se tenha tornado realidade.

henrique pereira dos santos