quarta-feira, agosto 24, 2011

A troika e os concelhos



Confesso que não sei muito bem por que carga de água o memorando com a troika estabelece uma diminuição de concelhos. E tenho as maiores dúvidas de que esta medida venha a ser seguida ou, sendo-o, que não venha a ter retrocesso na primeira oportunidade.

Mas ao olhar para o gráfico para que remete este post do 5 dias acho que vale a pena parar para pensar dois minutos. Sobretudo tendo em atenção que grande parte do financiamento autárquico depende, de uma maneira ou doutra, da população.

É critério que parece razoável.

Mas vejamos.

A principal objecção à extinção de concelhos tem sido a ideia de que nos concelhos mais pobres e pequenos o principal empregador e promotor de desenvolvimento local é o município.

Ora ao olhar para o mapa da população, que em grande medida é o mapa do financiamente autárquico, o que parece verificar-se é que quando mais dinheiro entregamos às autarquias mais financiamos o litoral, mais oportunidades criamos no litoral, isto é, que mesmo que um concelho pequeno do interior consiga, com o seu esforço, criar dez postos de trabalho, os concelhos do litoral criaram oportunidades para cem empregos.

Ao contrário do fecho das escolas primárias é bem possível que o fecho de autarquias, se se traduzir em redução do financiamento autárquico, acabe por diminuir a diferença de oportunidades entre litoral e interior, permitindo que os potenciais empresários do interior criem empregos sem depender da autarquia local.

Há poucos empreendedores nestas áreas? Sim, sem dúvida, mas investir em empreendedores em vez de financiar autarcas talvez seja socialmente mais útil, mesmo que as estradas fiquem com menos rotundas, as piscinas desapareçam, os polidesportivos se adaptem à riqueza disponível localmente e por aí fora.

henrique pereira dos santos

domingo, agosto 21, 2011

O Zé fazia falta


Ora vejam esta notícia do correio da manhã.
108 euros por ano é com certeza um valor baixo. Mas 300 euros por mês talvez seja um bocado excessivo quando se pretenda fomentar hortas urbanas.
Talvez seja necessário garantir maiores possibilidades de usufruto às pessoas. Talvez seja preciso rever situações que estão tortas há tempo demais.
Alguém pode ir chamar o Zé?
henrique pereira dos santos

Suão e soão


Durante anos achei que o vento soão (do latim solano, o lado donde nasce o Sol) era o vento Leste (alguns posts antigos devem traduzir isso). Mais tarde disseram-me que não, que suão (de Sul) era de facto um vento quente, mas de sul e sueste, habitualmente abafado e associado a chuvas e trovoadas (este que tivemos por estes dias em boa parte do Sul de Portugal, carregando algumas poeiras do Norte de África, que faz com que os carros fiquem com o aspecto de molhados com água suja).
Ao ler que no Mediterrâneo e o Atlântico Orlando Ribeiro escreve a mesma asneira que eu tinha cultivado durante anos voltei a ficar com dúvidas. Pese embora o meu desprezo por argumentos de autoridade, o Orlando Ribeiro é o Orlando Ribeiro.
Fui de novo fazer verificações e concluo o mesmo que antes: o vento Suão é este vento de doidos, sufocante, pesado, quente, húmido que traz a trovoada e a chuva quente, e não o vento Leste que Almodôvar também dizia ser um vento de loucura, seco e abrasador.
Mas mantenho a abertura para voltar a mudar de opinião, se alguém tiver melhores argumentos que os que encontrei (linguísticos, por exemplo no dicionário Houaiss, mas também climáticos numa extensa lista de referências), para além de um nome entranhadamente popular como o nome deste vento ter mais possibilidade de derivar do Sul que do latino solano.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, agosto 18, 2011

Oh Álvaro


Fui comprar informação geológica.
Descobri que em 2011 Portugal ainda não tem o país coberto de cartas geológicas à escala 1/ 50 000. Não discuto já o facto de algumas das que existem serem de 1955, embora outras sejam bem modernas, aquilo a que me refiro é mesmo a extensas áreas do país sem cobertura geológica de pormenor.
Da carta 1/ 200 000 só existem as duas pontas do País.
A carta 1/ 500 000 tem todo o país, mas editada há quase vinte anos ainda não tem notícia explicativa.
A geologia é a mãe da paisagem e a mim incomada-me que não se possa compreender a paisagem convenientemente.
Que raio de país este que nem informação da mais básica consegue ter produzida, quanto mais disponível.
Ó Álvaro, deixa lá as exportações, as empresas tratam disso, e concentra-te nas obrigações básicas do Estado,como ter uma estrutura de produção de informação geológica que ao menos cubra o país de cartas 1/ 50 000. E já agora, que as actualize, se não for pedir muito.
henrique pereira dos santos, um habitante do país das maravilhas
PS Alguma desta informação pode ser disponibilizada em formato digital. Os preços são bastante cómicos, ultrapassando as centenas de euros por cada carta 1/ 50 000, e noutras cartas vai mesmo aos três mil euros. Não se poderia fazer uma petição para deixarem de pôr coisas esquisitas no chá de quem decide estas coisas?

quarta-feira, agosto 17, 2011

Uma falácia comum



Este post no blog da AltriFlorestal contém uma falácia muito comum: porque uma coisa é verdadeira num determinado contexto, ela é intrinsecamente verdadeira.
No caso, a descrição de um sucesso no combate a um incêndio permite uma conclusão que é comum a quase todos os florestais que conheço: "Mais uma vez ficou provado que, quando se junta à silvicultura preventiva, nomeadamente a manutenção de aceiros e o controlo da vegetação espontânea no interior dos povoamentos, um dispositivo de combate rápido e profissional, os incêndios florestais não são uma fatalidade no nosso património florestal."
Esta conclusão não é efectivamente verdadeira porque esquece as condições de base que a tornam verdadeira: para que existam os meios para a dita silvicultura preventiva é necessário que o retorno da exploração florestal permita criá-los ou, em alternativa, que outras actividades económicas os libertem para a floresta.
Ora este pressuposto está presente em grande parte da exploração de eucalipto que é levada a cabo pelas duas celuloses, mas não está presente na grande maioria das áreas consideradas florestais do país (mesmo de eucalipto).
E assim sendo, a dita silvicultura preventiva referida não é sustentável, pelo que a conclusão não pode ser generalizada (não discuto já as condições meteorológicas, que permitiram o sucesso naquele dia mas poderiam impedi-lo em condições meteorológicas mais agrestes).
O problema não está no reconhecimento deste sucesso, é bom que exista esse reconhecimento e é bom que se indentifiquem as condições em que ele é possível e é bom que se criem as condições para a sua repetição sempre que tal é possível.
O risco maior desta falácia, que acompanha o discurso florestal há um ror de anos, consumindo recursos sem resultados correspondentes, é o de se considerar que quando o sucesso não se verifica é porque uma das duas condições da conclusão (silvicultura preventiva e sistema de combate profissional e eficaz) não existem. O que empurra a política florestal para o reforço de políticas florestais assentes em recursos dos contribuintes, com o objectivo de obter a tal silvicultura preventiva, e para o reforço das políticas de combate, com o objectivo de obter um combate profissional e eficaz.
O que impede a discussão mais séria de saber quais os limites em que silvicultura preventiva e combate eficaz são a solução, e a partir de que circunstâncias é preciso redefinir o problema e ele deixa de ser uma questão florestal para passar a ser uma questão de território.
Por mim tenho há anos uma ideia: a floresta em Portugal é útil quando é rentável (incluindo nas contas de exploração a silvicultura preventiva e o combate profissional e eficaz) ou quando razões de conservação justificam o desvio de recursos da restante economia para a gestão de matas para-climácicas.
Fora disso a floresta em Portugal é um passivo e não um activo do país.
Menos floresta mais bem gerida e mais território mais bem gerido deveria ser o Norte da política de desenvolvimento rural.
Declaração de interesses: colaboro pontualmente com a AltriFlorestal
henrique pereira dos santos

terça-feira, agosto 16, 2011

Desertos biológicos


Uso com frequência o título deste post para caraterizar pinhais e eucaliptais por me parecerem bastante semelhantes do ponto de vista do seu desinteresse para a conservação.
Mas claro que há surpresas.
henrique pereira dos santos
PS colaboro pontualmente com a Altri Florestal