Terça-feira, Maio 31, 2011

Floresta de regadio


Quem lê o que escrevo há já algum tempo saberá que ao contrário da ideia dominante eu não considero Portugal um país de vocação florestal. Tem a possibilidade de produzir alguma floresta na medida em que a agricultura e a pastorícia usarem o mato para dar sustentabilidade à exploração florestal. E tem a possibilidade de explorar algumas espécies com produtividade suficiente para explorar condições conjunturais de valorização que garantam retorno ao investidor.
A ideia de que a floresta é intrinsecamente boa, tem as suas raízes no higienismo iluminista (já um dia aconselhei a leitura do tratado da árvore), e encontrou terreno fértil para se desenvolver num país rural empobrecido e com os seus sistemas de exploração levados, em muitos casos, muito para lá da sustentabilidade.
As torrentes que invadiam os campos das baixas e os deixavam imprestáveis para a agricultura por trazerem saibros e areias que ficavam nos campos férteis, estavam muitas vezes ligadas ao excesso de pastoreio dos montes, uma realidade de séculos mas que se acentua a partir do século XVIII, à medida que o progresso material e científico fazia aumentar a esperança de vida diminuindo a mortalidade infantil.
O que parecia óbvio foi adoptado como solução de Estado: substituir a daninha pastorícia pela leve frescura da sombra das árvores.
Desde essa altura, uma mítica ideia de floresta, tem justificado 150 anos de dinheiro dos contribuintes atirado para cima do superior interesse da nação materializado na floresta, que muitos consideram, sem se rir e falando muito a sério, como um bem público. Eu também considero que é um bem público no sentido em que foi, em grande parte, pago com o dinheiro dos contribuintes (é bom não esquecer: "there is no such thing as public money, there is only tax payers money").
Mas até ao programa que o partido socialista apresenta a estas eleições, comentado na adenda deste post, ainda não se tinham lembrado de usar os regadios do Estado para produzir madeiras nobres.
E é o PS do post que motiva este comentário: "Porque não regar árvores (como já hoje acontece com as oliveiras), para madeiras nobres ou outras - evitando importações - nos Perímetros de Rega, se eles estão hoje subaproveitados (quase 50% não têm aproveitamento)e a água por eles disponibilizada é agora desperdiçada?".
Procuremos responder:
1) Porque uma das razões da ausência de utilização dos regadios é o preço da água, que tenderá a subir e não a descer, não se percebendo como a falta de competitividade de produtos muito mais valorizados vai ser resolvida com produtos muito menos valorizados (é fazer as contas ao valor / hectare/ ano produzido com agricultura ou com estas tais florestas irrigadas);
2) Porque um dos problemas da floresta em Portugal são os custos da remoção dos matos, que evidentemente serão muito maiores numa floresta irrigada;
3) Porque as características da madeira serão bastante alteradas com a disponibilidade permanente de água não se vendo onde está o mercado para uma madeira nobre que deixou de ser nobre (exactamente por ser regada);
4) Porque a probabilidade dos preços dos alimentos subirem e dos preços da energia subirem é muito elevada, sendo pouco sensato ocupar os poucos solos de elevada produtividade com produções lenhosas de ciclo longo, ou seja, pouco adaptadas a tempos de incerteza;
Poderia ir desfiando um rosário de razões, mas simplesmente a questão é outra: mas por que razão se deve admitir que faz sentido plantar árvores de regadio para madeira onde podem ser produzidos alimentos? Onde é maior o desequilíbrio das contas externas, no sector florestal, mesmo considerando apenas a fileira do mobiliário, ou na alimentação? Porque alguém se lembra que já que as oliveiras também são regadas (esquecendo que o que se colhe na oliveira é o fruto) outras árvores o poderiam ser? Mas desde quando as árvores são todas iguais (faz-me lembrar a mais insistente falácia do sector que consiste em fazer uma lista imensa das vantagens ambientais das matas maduras de folhosas para justificar o investimento na produção mais ou menos intensiva de pau em povoamentos que não produzem nenhums dos bens ambientais com que os justificaram).
Que a exploração florestal se tem vindo a aproximar de uma exploração agrícola, não há qualquer dúvida. Que isso faz sentido em algumas circunstâncias, não há dúvida.
Agora que isso justifique o desvio dos solos mais produtivos do país da produção de alimentos para a produção de lenho só pode vir da cabeça dos mesmos que pura e simplesmente liquidaram a Reserva Agrícola Nacional com argumentos de economia de casino.
henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Maio 30, 2011

Obrigado Pedro e João


O João filmou e editou o video em que o Pedro fala sobre livro que se publicou agora sobre a serra de Sicó, com texto meu, receitas do António Alexandre e fotografias do Luís Jordão.
henrique pereira dos santos
PS O comentário simpático do António Elói ao livro está no seu blog

Sexta-feira, Maio 27, 2011

Estou farto de eco histéricos e biodesagradáveis*



*a expressão eco histéricos e biodesagradáveis foi usada hoje pela Ministra do Ambiente do Brasil na conferência em que estive, como sendo uma expressão usada no Brasil para designar os fundamentalistas ambientais

Leio esta notícia e não consigo deixar de me irritar.

O título da notícia é "Mais de 150 golfinhos morreram este ano por causa da maré negra no Golfo do México". É um título claro que diz que mais de 150 golfinhos morreram por causa da maré negra.

A notícia começa logo a desmentir o título no primeiro parágrafo: "Os mais de 150 golfinhos encontrados mortos no Golfo do Mexido desde o início do ano, número anormalmente elevado". Ou seja, pelos vistos todos os anos há golfinhos mortos, mas os números deste ano são anormalmente elevados. Quanto? Não sabemos, a notícia é omissa nesse ponto, só ficamos a saber que não é verdade que tenham morrido mais de 150 golfinhos por causa da maré negra, o que é verdade é que morrerram mais de 150, menos o habitual que não se diz quanto é, por causa da maré negra.
“O petróleo e os dispersantes afectaram a cadeia alimentar. Isso poderá ter impedido as mães golfinhos de se alimentarem de maneira adequada e assim desenvolver a camada de gordura necessária”. Pode? Então não era "morreram ... por causa da maré negra"?

Mas o que me tirou do sério foi o grande final:

"De acordo com Worthy, as temperaturas anormalmente baixas deste Inverno, conjugadas com as consequências da maré negra no organismo destes mamíferos levaram ao “desastre do século”, a morte de muitos golfinhos".

Como disse? Temperaturas anormalmente baixas no Inverno? Mas afinal não tinha sido a maré negra? Ou seja, talvez a cadeia alimentar esteja contaminada, talvez esta contamização tenha diminuído a camada de gordura e de certeza que as temperaturas foram anormalmente baixas, portanto conclui-se no título da notícia que a maré negra matou mais de 150 golfinhos.

Está bem, abelha.

henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Maio 25, 2011

Pouco a pouco...


Há anos que defendo que mais que dias ambientais artificialmente criados, seria bom que o movimento ambientalista fosse capaz de usar ambientalmente dias especiais.

Dentro desses dias especiais a quinta feira de ascenção, ou quinta feira da espiga, pelo que representa de ligação à terra e à vida, que leva milhares de pessoas ao campo, é o mais simbólico desses dias.

Ainda não foi este ano que se conseguiu criar alguma iniciativa nacional, que eu saiba, que procure dar visibilidade e conteúdo ambiental a esta tradição de saída para o campo nesse dia.
Talvez para o ano, que é a 17 de Maio, em cima do dia da biodiversidade (22 de Maio) seja boa altura para repetir o Pé na Terra, que este ano funcionou toda a semana anterior ao dia da Terra.
Mas exactamente porque ainda não se conseguiu o que seria bom, vale a pena notar: recebi um mail da Fundação da Mata do Buçaco, exactamente a publicitar as suas iniciativas na quinta feira da ascensão. Ainda não são iniciativas também com carácter ambiental, mas um dia lá se chegará.

Aleluia, Aleluia.
henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Maio 20, 2011

Agenda


Ontem estive num programa muito interessante, Alô Portugal, por causa deste meu livro. É um programa engraçado onde entram em directo emigrantes de todo o mundo e é muito curioso verificar como Portugal visto de fora é um país tão diferente.

No Domingo às 10 e meia da manhã, em Pombal, na Expo Sicó e feira do quijo Rabaçal, lá estou outra vez por causa do Livro.

E no dia 8 de Junho, no Porto, na feira do livro.

É curioso como a paisagem vista do prato parece mais interessantes a mais gente.

henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Maio 12, 2011

TSU, os impostos, a sustentabilidade e a esquerda




Ontem vi o debate entre Louçã e Sócrates.
Uma boa parte do debate foi à volta da taxa social única, sendo que Louçã é contra a sua diminuição e Sócrates, aceitando-a quando escreve a pedir dinheiro emprestado, é contra em campanha eleitoral.
O argumento dos dois é que reduzir a taxa social única (um imposto sobre os salários que é pago pelos empregadores) e em compensação aumentar o IVA, como propõe o PSD, é retirar dinheiro das famílias para o entregar às empresas.
Não vou comentar a falta de consistência do PSD que agora defende mexidas nas taxas de IVA aplicável a cada produto depois de ter feito a birrinha da alteração do IVA do leite com chocolate numa discussão anterior.
Nem vou perder muito tempo com a falácia de considerar compartimentos estanques o dinheiro das empresas e das famílias, como se não fossem as empresas que remunerassem o trabalho que alimenta o rendimento das famílias.
O que acho curioso, para quem como eu vem da esquerda, é ver esta esquerda actual a defender a taxação do trabalho e da produção de riqueza fugindo da txação do consumo.
Eu não reconheço a minha origem política nesta esquerda populista e consumista.
Do estrito ponto de vista da sustentabilidade e de uma agenda política ambiental, há muito que o movimento ambientalista defende a diminuição ou eliminação da taxação do trabalho, compensada pelo aumento da taxação da energia, como aliás acontece na proposta do PSD, defendida de forma pusilânime pelo próprio PSD, visto que está previsto o aumento do IVA da electricidade dos actuais (e do ponto de vista da sustentabilidade, incompreensíveis) 6% para qualquer coisa que ainda não percebi (se 13%, se 23%, eu defenderia esta última, claro).
E há muito que a pedra de toque da actuação do movimento ambientalista é o combate ao consumo excessivo das sociedades mais avançadas.
Parece por isso evidente que trocar taxação do trabalho por taxação do consumo deveria merecer um forte aplauso do movimento ambientalista.
Como aliás acontece com várias de outras medidas constantes do acordo de financiamento do Estado Português, a racionalidade económica caminha com frequência no sentido da sustentabilidade, ao contrário das tretas propagadas por muitos adversários de uma lógica sustentável no uso dos recursos.
A questão para a esquerda é que existe uma dificuldade intrínseca em conciliar os objectivos clássicos da esquerda - distribuir melhor mas também produzir mais para que todos possam ter um nível de consumo elevado - com a lógica da sustentabilidade - racionalizar o uso do recurso através da eficiência produtiva, mas também diminuir o consumo.
Parece-me que valia a pena o movimento ambientalista não fugir desta discussão difícil, porque anti-popular, procurando definir melhor que agenda política caracteriza a procura de sustentabilidade.
henrique pereira dos santos
PS Pela Helena Matos no Público de hoje fiquei a saber que o PS propõe usar áreas de regadio sub aproveitadas para a produção de eucaliptos de regadio. Confesso que não acreditei e fui verificar. E no ponto 5 do programa "Apoiar o crescimento da economia e do emprego", nas medidas concretas para a fileira florestal, lá está com todas as letras na alínea b) apostar na floresta irrigada para garantir o aumento da matéria-prima para a indústria da madeira e do papel. Eu sei que os programas eleitorais são uma ficção a que ninguém liga, em Portugal, e sei também que esta proposta é um pormenor. Mas fico atento à tradicional leitura que o movimento ambientalista faz dos programas eleitorais. E já que estava com a mão na massa fui ver o que diz o PS das áreas protegidas. Divertido, é o que vos digo. Investimento em conservação, zero (mesmo no programa eleitoral que são promessas assinadas em papel molhado), porque as áreas protegidas são entendidas apenas, reforço o apenas, como áreas de lazer.

Domingo, Maio 08, 2011

Ameaçado de extinção


Carlos Gaspar disse num comentário ao post anterior:

"...Pedro Passos Coelho anunciou hoje ... que no caso de ganhar eleições o Ministério do Ambiente, criado há mais de três décadas, será extinto. A maioria das sua competências serão integradas no Ministério da Agricultura que irá ter o nome de Ministério da Agricultura, Mar e Território. Chega assim ao fim, se formarem governo, uma das maiores bandeiras do PSD na governação de Portugal e será conseguido uma das maiores pretensões dos interesses instalados. Não é preciso dizer mais..."

As últimas reticências são do comentário original, não esxistem por eu ter cortado texto.

Pois eu acho que é preciso dizer mais.

Acho que se eu procurasse nos arquivos do blog eu encontraria algum texto defendendo, pelo menos como hipótese, a fusão do ministério da Agricultura e de parte do ministério do ambiente. Não vou procurar porque não tenho tempo e porque já escrevi tantos posts que procurando bem devo sempre encontrar coisas em que eu defendo tudo e o seu contrário.

A junção do ambiente, agricultura e segurança alimentar (às vezes com algumas componentes de saúde pública ligada à alimentação) não é nenhuma novidade. Existe em Inglaterra e na Holanda se não me engano.

Esta junção é uma junção virtuosa em algumas circunstâncias, sobretudo quando corresponde a uma efectiva integração de políticas nestes domínios. Em Portugal tem mais uma vantagem de peso: acabar com o alibi histórico com que o ministério da agricultura se tem eximido a assumir as suas responsabilidades em matéria ambiental de conservação da natureza (isto é, de gestão do território).

Dito isto acrescento alguns comentários mais específicos: eu não sei se a criação do ministério do ambiente é ou não uma bandeira da governação do PSD, mas sei que me estou nas tintas para o PSD e para as bandeiras da governação deste e daquele, que de maneira geral têm saído caríssimas aos contribuintes, o que eu gostaria era de um governo que se preocupasse com os problemas concretos e reais da governação e não com bandeiras.

Não tenho a menor indicação de que o fundamento das declarações de Passos Coelho seja o mesmo que exprimi acima sobre a integração das políticas agrícolas, de desenvolvimento rural, segurança alimentar e conservação da biodiversidade. O que me parece é que, mais uma vez, Passos Coelho foi atrás dos sound bites e do que as pessoas querem ouvir. Um péssimo sinal para o que aí vem se ganhar as eleições (os seus antecedentes nas cirurgicas facadas nas costas de Manuela Ferreira Leite, numa coligação objectiva com Sócrates, também não enganam ninguém). Além disso já deve ter perdido o sonho de uma maioria absoluta e sabe que para governar tem de contar com o CDS, que nunca iria deixar acabar o ministério da agricultura (pelas más razões, as tais das bandeiras).

Por último, a última parte do comentário: "será conseguido uma das maiores pretensões dos interesses instalados". Só pode mesmo ser piada. Se há coisa que tem dado jeito aos interesses instalados é o saco de pancada a que dão alcunha de Ministério do Ambiente. Tem servido para todos os governos se descartarem de uma política ambiental chutando o assunto para aquele ministeriozinho simpático sem orçamento e sem destino.

A hipótese de extinção do ministério merece atenção e discussão, quer na decisão em si, quer na forma de a levar à prática.

Infelizmente, com toda a probabilidade, vai tornar-se numa gritaria de claques da treta.

O que aumenta enormemente o risco de uma decisão virtuosa acabar numa prática pantanosa.

henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Maio 04, 2011

Em louvor do registo de dados caótico

Esta fotografia foi tirada quando estava a apanhar roupa da corda. Há vários dias, com destaque para ontem, que a roupa aparece com estes brindes.
Já o mesmo aconteceu há alguns anos, de forma aliás bastante mais intensa. Lembro-me de nessa altura, por coincidência, ter estado com o Ernestino Maravalhas na Faculdade de Ciências de Lisboa e de ele ter falado em condições meteorológicas específicas para o sucedido (aliás normal) e penso que terá falado de uns ventos de Sul, ou coisa que o valha.
Ora neste fim de semana, enquanto via o webcast de um campeonato de surf, os comentadores falavam da estranheza da falta de vento na praia de Leça (ou a do Norte, não me lembro se foi no Sábado ou no Domingo) e de um pouco habitual sweel de sudoeste.
Haverá relação?
Investigadores de bichos destes há poucos (já agora, alguém identifica?). Mas pessoas que apanham roupa há aos milhares.
Se fôssemos registando estas curiosidades, sem mais objectivo que dar a conhecer curiosidades, é bem possível que à medida que o número de observações aumentasse fosse possível estabelecer padrões e modelos de interpretação (a verificar coligindo dados de forma orientada).
A possibilidade de haver números enormes de dados é a utilidade (e a limitação) dos sistemas caóticos de recolha de dados.
henrique pereira dos santos

Terça-feira, Maio 03, 2011

Cultura de participação?




Fotografia de um painel informativo do ICNB retirada daqui

Transcrevo do facebook do biodiversity4all:
"Agradecemos a todos os parceiros o apoio na Actividade Pé N'a Terra.
Entre os dias 15 e 28 de Abril foram realizadas cerca de 60 actividades por todo o país sendo registadas cerca de 1772 observações, com 200 fotografias referentes a 550 espécies!".
Para uma organização sem um tostão, baseada apenas na boa-vontade de quem quiz, feita pela primeira vez, não se pode dizer que o resultado seja mau. E calculo que haja um outro resultado menos visível: aparentemente está a haver mais registos e mais diversificados.
É a Primavera, com certeza, mas pode também ser um pequeno impulso de iniciativas como esta.
Aparentemente nos primeiros meses deste ano as observações rondam as 3000 por mês. Significa que com uma integração de dados excepcional e anual como a das 15000 observações que foi feita nas últimas duas semanas (referentes a observações anteriores a 2011, portanto não influenciam a média mensal que referi) estamos nas tais 50000 observações anuais que permitem pensar realisticamente em meio milhão de observações em dez anos.
Há quem se queixe muito da falta de cultura participativa dos portugueses. Eu nunca dei por ela. Sempre que as coisas são feitas com verdadeiro empenho em motivar as pessoas, elas respondem, como maior ou menor facilidade, com maior ou menor grau.
Mas respondem.
Era útil o movimento ambientalista compilar meia dúzia de regras para uma boa adesão às iniciativas e fazer um manual que servisse a todos.
É que não tenho a certeza de que a falta de cultura participativa não esteja mais nos dirigentes que nas pessoas comuns, não porque não desejem que as pessoas participem nas suas organizações, mas simplesmente porque não sabem ou não acreditam que a participação das pessoas comuns depende mais de uma técnica que de uma cultura.
Claro que tudo o que diga respeito às pessoas não é matemática, e técnicas que resultam num dia, não resultam no outro.
Por isso a utilidade de ir fazendo um manual on line onde cada um vá registando o que funcionou e o que não funcionou, e as razões para a diferença.
A experiência colectiva é geralmente muito mais abrangente e útil que a experiência e o estudo individual ou de pequenos grupos.
henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Maio 02, 2011

O Atlas dos morcegos e a participação dos comuns

O Paulo Barros deu aqui uma boa notícia sobre o processo para a produção de um atlas de morcegos.


A leitura dos comentários associados a esse post é para mim tão surpreendente que resolvi fazer eu também um post sobre a questão específica da participação dos comuns em projectos de atlas.

Um pouco de enquadramento.

Há já uns anos (14, 15), quando tive responsabilidades na presidência do ICNB, acompanhei de perto o lançamento de alguns atlas. Alguns concretizaram-se, outros não, todos com muitos atrasos.

Nessa altura participei activamente nas reuniões de técnicos ligados ao assunto, não por ser técnico ligado ao assunto, mas por ter responsabilidades de decisão e a presidência de então considerar os processos de sistematização e disponibilização pública de informação sobre biodiversidade uma das questões essenciais da política de conservação da natureza e uma responsabilidade indiscutível do ICNB.

Desde muito cedo a então presidência do ICNB deixou claro o princípio de que os atlas (e genericamente a produção, sistematização e disponibilização ao público de informação sobre biodiversidade) era demasiado importante para ser deixada aos técnicos de biodiversidade.

Isto que hoje é uma banalidade foi na altura um corte fracturante (como agora se diz) com a prática do ICNB, que se materializou na lógica inicial dos atlas, independentemente de terem depois evoluído noutros sentidos, menos o atlas das aves, mais o atlas dos répteis e anfíbios, infelizmente ainda muito amarrado a uma concepção tecnocrática de produção de informação de biodiversidade. E materializou-se em vários outros processos, como o impulso no desenvolvimento do SIPNAT ou a obrigação que foi imposta, contrariada pelos técnicos, pelo menos quanto ao timing, da discussão pública sobre a delimitação da rede natura (considerado um processso exclusivamente técnico nos seis ou sete anos anteriores, razão pela qual ninguém conhecia as propostas então levadas a discussão pública).

Mais tarde, já sem essas responsabilidades, mas com responsabilidades mais operacionais na avaliação de impacte ambiental, apercebi-me (na realidade já tinha essa percepção, mas não com a dimensão da evidência que me entrava pelos olhos dentro) da quantidade de informação sobre biodiversidade que o país produzia e desperdiçava em arquivos, físicos ou virtuais, a que poucos ou nenhuns tinham acesso.

Tentei, como já em vários posts expliquei, encontrar dentro do ICNB mecanismos de cooperação com terceiros que garantissem um sistema de recolha e disponibilização dessa informação. Nunca o consegui (erros meus, má fortuna...). A BIO3 chegou a lançar uma plataforma que foi de facto asfixiada pelo recuo do ICNB na partilha de dados, com o argumento (agora repetido) que dentro de seis meses (penso que sito terá sido há três anos) teria operacional uma nova versão do SIPNAT que tornaria redundante a tal base de dados da BIO3.

Quando saí do ICNB continuei a trabalhar numa solução que permitisse servir de plataforma para esse objectivo de recolha e disponibilização de informação que é todos os dias produzida pelo país em matéria de biodiversidade.

Nesse contexto, um dia o Henrique Miguel Pereira disse-me para ir falar com as pessoas do Biodiversity4all que eu não conhecia de lado nenhum. Tivemos uma conversa simpática num café qualquer e eu abandonei imediatamente as minhas propostas para passar a apoiar as propostas, bem mais adiantadas e estruturadas que as minhas (pelo menos em alguns aspectos, há outros em que acho que as soluções em que vinha a trabalhar estavam mais adiantadas, mas isso é um pormenor).

O apoio que dou ao biodiversity4all é um apoio externo, isto é, não estou envolvido no núcleo duro do projecto, faço propostas e perguntam-me opiniões, mas verdadeiramente quem trabalha no projecto e o mantém a andar são essas pessoas.

Esse apoio tem essencialmente duas componentes: alguma discussão sobre orientações estratégicas e procura de meios de sustentabilidade económica do projecto (sim, o trabalho das pessoas é voluntário mas o seu desenvolvimento pode implicar despesas); procura de dados, que todos fazemos, de forma a alimentar a plataforma com informação.

O site tem bastantes coisas de que não gosto.

Criado a partir de uma plataforma holandesa (se não me engano) é a cara portuguesa de uma plataforma europeia (http://www.observado.org/) que é essencialmente uma plataforma de observações, pressupondo observadores com alguma experiência. Tem por isso uma orientação muito marcada para o registo e é muito pouco intuitiva para as pessoas, como eu, que mais que observadores são utilizadores de informação. Por exemplo, obter o mapa de distribuição de uma espécie obriga a um caminho longo e muito pouco intuitivo. E há muitos exemplos destes.

Mas tem três coisas de que gosto muito: 1 - existe;2 - é muito democrática; 3 - tem uma plasticidade que lhe permite adaptar-se às situações novas. Por exemplo, estão a ocorrrer os primeiros resultados de uma inovação pedida por uma entidade apoiante: o registo de habitats e não apenas o registo de espécies.

Dentro deste meu trabalho de procura de fontes de informação, tenho tentado (com poucos resultados, por agora) mobilizar detentores de grandes quantidades de registos a ligar-se ao biodiversity4all. A questão não é transferir informação de uns sítios para outros, isso pode fazer-se, bem entendido, a questão é mesmo partilhar informação entre diferentes bases de dados de modo a facilitar o registo (registar num sítio ser suficiente para estar em diferentes plataformas) e a permitir o acesso mais próximo possível dos interesses dos seus utilizadores.

Como toda a gente envolvida no processo faz este trabalho de formiguinha, procurando carrear informação, o site tem neste momento quase 60 mil registos, tendo nas duas últimas semanas dado um salto grande por incorporação automática de 15 mil registos que existiam (obrigado Daniel Sobral, porque convém dar nomes à generosidade) e que foram transferidos automaticamente, ficando disponíveis para todos nós quase instantaneamente.

A quantidade de gente que tem registos em bases de dados e folhas excel deve ser incrível, a quantidade de registos que existem, uns em plataformas mais públicas mas pouco acessiveis aos não iniciados, outros nos seus computadores deve ser assombrosa e portanto haverá com certeza, ao longo do tempo, boas surpresas destas.

O biodiversity4all nasce aliás do facto de alguns dos participantes na carta piscícola nacional terem achado um desperdício não encontrar maneira para tornar permanentemente acessíveis os dados que recolheram para essa tarefa específica.

Já hoje, se os diversos participantes nas reuniões dos atlas dos morcegos estivessem disponiveis para ceder os dados de observações que sem dúvida detêm em bases de dados e folhas excel, em meia dúzia de dias (literalmente em meia dúzia de dias) era possível ter um primeiro esboço de um atlas com algum significado. Não como atlas, que seria muito incompleto e desequilibrado, mas como base de programação do atlas, tal como se pretende que ele venha a ser e como base de mobilização de terceiros eventuais produtores de informação útil. Sem qualquer custo.

Este é o contexto do meu pequeno comentário estranhando mais um novo projecto que vai criar uma nova base de registo e disponibilização de dados fechada à comunicação com outras bases (já nem discuto o facto dessa base de dados não ser necessária, existem coisas já feitas que servem, e ser portanto um desperdício de recursos inventar outra vez a roda).

Curioso é o desenvolvimento da discussão que este comentário motivou.

Seria perfeitamente razoável que me respondessem "fizemos esta opção por estas razões".

Mas não. Deram-me respostas polidas (agradeço aliás a disponibilidade da Ana Rainho, coordenadora do processo, para ter vindo aqui comentar, além das outras pessoas envolvidas, claro) que remetiam para coisas genéricas que não respondiam a nada de concreto face ao comentário que fiz.

Por esta razão fiz notar que se se pretende que as pessoas participem voluntariamente no que quer que seja, a confiança e transparência são os activos essenciais a construir e preservar. E acrescentei, para evitar más interpretações, que estava a discutir um pormenor dentro de um projecto que é muito mais importante que esse pormenor.

E a partir daí a reacção afunila na distinção entre os especialistas, os que participam e por aí fora (que já discutiram tudo e decidiram tudo, presumivelmente bem, até porque são especialistas) e os outros que, se quiserem, contactem a coordenação do projecto (a típica inversão tecnocrática que postula que os interessados se devem dirigir a quem orienta os processos de decisão antónima do postulado democrático de que são os dirigentes que devem dirigir-se aos comuns). E depois uma pequena derivação sobre os que criticam em vez de fazer e que minam o processo, o que não passa de um exagero da argumentação tecnocrática, em que os que manifestam opiniões fora do guião oficial devem ser proscritos por não cumprirem as regras que garantem o bem comum.

Esta reacção é muito comum nas lógicas tecnocráticas predominantes nos domínios de especial complexidade técnica.

É o caso da gestão da biodiversidade mas também da energia nuclear, só para citar dois extremos opostos de políticas necessariamente públicas que os técnicos acham sempre ter fundamentos demasiado complexos para serem decididas pelas pessoas comuns.

E são estas reacções que combato sempre.

Porque levanto suspeições sobre o atlas dos morcegos? Porque acho a Ana Rainho (uso-a como exemplo por ser a coordenadora do atlas) menos estimável e sem capacidade para ser a coordenadora do Atlas? Porque quero ser eu a determinar o que o atlas deveria ser e como o processo deveria ser gerido? Não, não, não a todas as perguntas e as vezes que for necessário. Aliás, dificilmente se arranjaria coordenadora melhor que a Ana Rainho, talvez com a excepção da Ana Rainho menos influenciada pela excessivamente ideológica faculdade de ciências de Lisboa.

Se comento e discuto o processo é apenas porque acho normais e intuitivas estas reacções dos técnicos face ao risco de erro que existe em modelos de produção de informação menos controlados e porque estas reacções têm efeitos muito negativos na mobilização das pessoas (que é sempre difícil e condicionada por pequenas coisas aparentemente sem importância).

Abrir processos de construção de atlas (ou outros processos de aquisição de dados de biodiversidade que exijam milhares de olhos em milhares de hectares, e não necessariamente os melhores olhos em áreas limitadas de observação) implica ser capaz de resistir à tentação do rigor excessivo na base, transferindo o rigor para os procedimentos (Francisco Amorim dá um bom exemplo a propósito dos ultra-sons) e para o controlo de qualidade dos resultados.

Implica ser capaz de resistir à desconfiança na capacidade dos outros produzirem informação útil, e o que interessa é a informação útil, não necessariamente a informação rigorosa (sendo rigorosa é necessariamente útil, mas a inversa não é verdadeira).

E implica um esforço sério de ir à procura de quem pode ser útil ao processo, resistindo ao conforto de fechar o processo no grupo de pessoas em quem já se tem confiança.

Discutir se o biodiversity4all é a plataforma a usar ou não no processo é um pormenor lateral.

Mas discutir a atitude geral de abertura ou retracção "aos comuns", muitas vezes claramente ignorantes, é certo, mas ainda assim podendo ser úteis, já não é uma questão lateral.

henrique pereira dos santos