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domingo, novembro 04, 2012

Viva a privataria- Portugal experiência e palco do maior roubo à sua gente

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Nem imaginam o desgaste continuado enfrentando cara a cara cada pessoa com quem convivo neste País tão pequeno e tão "dividido", "centralizado" e "cego". Antes havia os fóruns por email, que aliviava esse desconforto e assim "cada" um lia e (re)agia consoante a sua consciência. Os seminários, congressos ainda são sumidouros de conhecimento, mas cujo impacto social esbarra na legislação, nas incoerências políticas, jogos de números e partidarização das ciências. A ciência também ela própria é vítima e actriz de mudanças muito grandes em pouco tempo, em particular as TIC. Os mercados e marketing encarregam-se de mistificar a Ciência produzida e cometem-se erros gravíssimos na segurança alimentar, na biodiversidade, etc. As redes sociais deram uma maior ajuda, mas continua a faltar muito o trabalho de terreno e o que sucede a esta abstenção, cegueira e olhar para o seu umbigo é caminho para os poderosos, num ápice, passarem a ditar as nossas vidas. Os partidos e as sedes locais fragilizam-se. As assembleias municipais são fantasmas. Vai pouca gente. Os movimentos ambientalistas acusam desgaste. A manipulação é enorme. Há muita vaidade, egoísmos, oportunistas. Todos gostam de dizer "esta foi ideia minha", "eis a minha obra", ou então "o que faz este texto aqui sobre austeridade na página dos amantes da horta/ amantes das bicicletas/ amantes das florestas?" em vez de se colocarem verdadeiramente ao serviço da bondade, paz e sustentabilidade. Oxalá muita gente pensasse assim: "Eu não me rebaixo a uma alemã qualquer!" e nisso creio que muitos que me estão a ler estarão em completo acordo!
Época de uns vermes forbianos e de milhões/biliões de pessoas boas e, em certa forma, inocentes. Inclusive os próprios alemães.


Ler/ divulgar/ (re) agir: A CARTA À ALEMANHA

Esta senhora Merkel vai ganhar €23.000 mensais, e quer que nós tenhamos mais 5 anos de austeridade. Não somos números em folhas de excell nem meros telecomandados. 

Temos que enterrar este neo-liberalismo e colocá-lo no Museu dos Horrores o quanto antes! [fonte texto BioTerra]

quarta-feira, julho 20, 2011

Saio do blogue



O IBAMA e o próprio FDA possuem membros que já foram donos de empresas e faculdades como a Monsanto, Exxon, Nestlé e Petrobrás e Shell e farmacêuticas. Todos sabem mas é "normal". Eu contesto e acho a maior aberração dos sécs. XX e XXI. Cá em Portugal não sei, só os ILUSTRES companheiros deste blogue saberão responder. Mas é geral e é o que vejo: estas e outras  "instituições" que deviam proteger os cidadãos não o fazem, as nossas vidas estão a ficar "esgotadas" e sem tempo para a focagem e sentem-se dominadas pelo medo e/ou não-pensar mais e muitos outros mantêm-se cobardes, escapando-se quanto podem das malfeitorias  que fizeram aos cidadãos e ao ambiente ou aderindo a novos negócios da exaustão da Terra até aos limites das profundezas da sua geologia e  biosfera. 

Estamos numa UE, em que tem o GMOcompass que mais parece trabalhar em defesa dos transgénicos. Mas sobretudo não concordo em nada com os textos que leio aqui. Mais parecem de polícias do capital do que polícias da segurança genética, alimentar e da conservação da energia e consumos. 
Tal como saí do PNED e da lista de discussão ambio,


PEÇO AOS ADMINISTRADORES QUE ME RETIREM DA LINHA EDITORIAL DO BLOGUE.

Deixo-vos uma música de adeus e uma fábula. Fiquem bem.

Uma Cegonha de natureza simples e ingênua por ser boa, foi convidada por um bando de Garças, a visitar com elas, um campo que fora recentemente semeado. Mas, a festa acabou bruscamente, quando todo o bando foi capturado numa armadilha colocada no local, pelo lavrador dono daquele cultivo.
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A Cegonha pediu então ao lavrador que a deixasse ir embora. Ela argumentou dizendo: "Por favor, deixe-me ir embora, Eu pertenço a família das Cegonhas, que são conhecidas pela sua honestidade e bom caráter. Veja, até minhas penas são diferentes da plumagem delas. Além disso, não sabia que as Garças estavam vindo roubar suas sementes."

Respondeu então o agricultor: "Você pode ser um bom pássaro, e tudo que diz pode ser verdadeiro, mas eu capturei você na companhia de Garças destruidoras de plantações, e assim, terá a mesma punição que reservei para elas."
Autor: Esopo

Moral da História:
Você é julgado a partir das companhias com quem anda.
( e espero que mantenham a honrabilidade de a manter aqui)
João Soares

terça-feira, maio 03, 2011

Cultura de participação?




Fotografia de um painel informativo do ICNB retirada daqui

Transcrevo do facebook do biodiversity4all:
"Agradecemos a todos os parceiros o apoio na Actividade Pé N'a Terra.
Entre os dias 15 e 28 de Abril foram realizadas cerca de 60 actividades por todo o país sendo registadas cerca de 1772 observações, com 200 fotografias referentes a 550 espécies!".
Para uma organização sem um tostão, baseada apenas na boa-vontade de quem quiz, feita pela primeira vez, não se pode dizer que o resultado seja mau. E calculo que haja um outro resultado menos visível: aparentemente está a haver mais registos e mais diversificados.
É a Primavera, com certeza, mas pode também ser um pequeno impulso de iniciativas como esta.
Aparentemente nos primeiros meses deste ano as observações rondam as 3000 por mês. Significa que com uma integração de dados excepcional e anual como a das 15000 observações que foi feita nas últimas duas semanas (referentes a observações anteriores a 2011, portanto não influenciam a média mensal que referi) estamos nas tais 50000 observações anuais que permitem pensar realisticamente em meio milhão de observações em dez anos.
Há quem se queixe muito da falta de cultura participativa dos portugueses. Eu nunca dei por ela. Sempre que as coisas são feitas com verdadeiro empenho em motivar as pessoas, elas respondem, como maior ou menor facilidade, com maior ou menor grau.
Mas respondem.
Era útil o movimento ambientalista compilar meia dúzia de regras para uma boa adesão às iniciativas e fazer um manual que servisse a todos.
É que não tenho a certeza de que a falta de cultura participativa não esteja mais nos dirigentes que nas pessoas comuns, não porque não desejem que as pessoas participem nas suas organizações, mas simplesmente porque não sabem ou não acreditam que a participação das pessoas comuns depende mais de uma técnica que de uma cultura.
Claro que tudo o que diga respeito às pessoas não é matemática, e técnicas que resultam num dia, não resultam no outro.
Por isso a utilidade de ir fazendo um manual on line onde cada um vá registando o que funcionou e o que não funcionou, e as razões para a diferença.
A experiência colectiva é geralmente muito mais abrangente e útil que a experiência e o estudo individual ou de pequenos grupos.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, abril 21, 2011

Pé n'A Terra III


Entramos hoje na fase mais intensa da iniciativa Pé n'a Terra, uma iniciativa para celebrar o dia da terra (22 de Abril) passeando e registando biodiversidade.

No calendário das actividades estão agora quase sessenta actividades à disposição de qualquer pessoa, incluindo actividades em Lisboa e Porto.

Sim, a chuva pode ter levado algumas pessoas a achar que as condições não são óptimas, mas a biodiversidade é assim, diversa, e por isso há mesmo grupos que beneficiam com estas condições (que o diga o projecto charcos com vida que organiza a partir de hoje quase uma dezena de visitas em diferentes localizações até Domingo. Podem mesmo aproveitar para ir renovado Jardim Botânico do Porto, o jardim da casa de infância de Sofia de Mello Breyner, hoje às 15).

Para o primeiro ano da iniciativa é muito animador. O tráfego no site está a aumentar e estamos quase nas 40 mil observações, o que torna credível o meio milhão de observações nos primeiros dez anos. Suspeito que com tudo o que é preciso ainda melhorar (a lógica de acesso é a do observador e do registo, e é ainda muito pouco intuitivo o acesso na óptica do utilizador dos dados, por exemplo) é bem possível que estejamos a caminhar no sentido de ter informação de biodiversidade com verdadeiro interesse, com verdadeira amplitude de grupos e verdadeiramente acessível no prazo de alguns, poucos, anos.

Não serve, nem nunca servirá, para a produção de informação que exija métodos de observação e protocolos de registo mais sofisticados, mas serve muito bem como informação complementar para muitos e muitos fins, desde os mais científicos aos mais turísticos.

Acho que vou propor que se avalie a possibilidade de repetir a iniciativa num espaço de tempo mais curto do que pensava e concretizar uma ideia antiga: casar finalmente a tradição sulista e muito popular da quinta feira da espiga com as modernas ideias da conservação da natureza democrática.

henrique pereira dos santos

segunda-feira, abril 18, 2011

Desesperança

Esta imagem de regeneração de carvalhal foi retirada daqui, e vale pena ir lá ler o texto de que constitui ilustração. Tem uma afirmação passível de discussão técnica, mas não tem grandes erros.


"Os incêndios levam ao abandono das terras; em muitos casos o abandono dá lugar à ocupação por espécies exóticas como as acácias, o eucalipto, ou a háquea; estas espécies formam complexos de combustível altamente susceptíveis ao fogo; estas formações voltam a arder, completando o ciclo. Desta forma parece vislumbrar-se um ciclo de degradação sem fim à vista, perante a passividade e a falta de sensibilidade dos serviços do Estado. Muito embora se trate de uma realidade não extensível a todo o território nacional, trata-se de um problema de dimensões gravíssimas, pelos custos económicos, ecológicos e sociais que envolve. Paralelamente vimos assistindo à degradação das poucas áreas de floresta nativa que ainda restam, tal como aconteceu em 2010 com os incêndios que ocorreram no Parque Nacional da Peneda Gerês."

Se este pedaço de prosa tivesse sido colhido num táxi, num café ou mesmo numa conversa de comadres, eu limitar-me-ia a explicar mansamente, como quem não quer a coisa, que é o contrário, isto é, o abandono é que leva aos fogos e que estamos a atravessar uma das mais fortes recuperações de vegetação autóctone do holocénico (Carlos Aguiar dixit, nesta última parte).

Mas não, este pedaço de prosa é colhido de um texto da mais antiga e, supostamente, tecnicamente qualificada associação de conservação em Portugal, da qual aliás sou sócio e cujas posições sobre fogos e florestas já tentei influenciar vezes sem conta, sem o menor resultado (não sei, nunca percebi, como se formam estas posições que supostamente representam os sócios de uma associação que nunca são chamados a dar a sua opinião).

Não é um texto feito em cima do joelho para responder em tempo a uma qualquer posição pública, é o texto preparado com o tempo que se quiz para dar conta à sociedade de qual é a posição da LPN sobre o ano internacional das florestas.

É mau demais.

Desisto.

henrique pereira dos santos

PS A LPN lançou uma consulta pública para contratar uma pessoa na área da intervenção. Como preciso de trabalho e nunca achei que as pessoas devessem ser contratadas pelo que dizem mas pelo que podem fazer, concorri. O concurso terminou a 7 de Março, a 23 perguntei em que pé estava, explicaram-me que estava demorado e até hoje continuo sem uma resposta à minha candidatura. Nunca esperei muito deste concurso porque o preço do meu trabalho é provavelmente incompatível com o orçamento da LPN (eu trabalho de borla ou a preço completo, não faço descontos). Mas talvez seja porque ainda não contrataram o tal colaborador que falta na área da intervenção que tenham sido amadores a escrever o parágrafo que citei.

sexta-feira, abril 01, 2011

Passeios para todos os gostos


Fui ao calendário do Pé n'aTerra para ver em que param as modas.

Estou muito satisfeito.

Em primeiro lugar por ver organizações tão diferentes como a Altri Florestal, a QUERCUS, a Transcudânia, o grupo Lobo, a Rocha, a ATN, a associação cultural e recreativa das Abrunheiras, a sociedade portuguesa de botânica, empresas de animação turística como a Birds and Nature, a Montes de Encanto, a Ecotrails, ou a Escola de Mar, a cooperativa terra chã e até o restaurante da urbanização Tamonte a fazer acções para terceiros, sob o mesmo chapéu de uma celebração da terra e da sua biodiversidade. E outros informaram-nos de que estarão presentes na celebração, mas por qualquer razão ainda não registaram no calendário, como a câmara de Penela.

Mas verdadeiramente o que gosto de ver é três dos principais produtores de informação, a Lisete Matos do Colmeal, o Paulo Eduardo Cardoso na mata da Machada e o Francisco Barros em Montejunto (que acompanha também o passeio da Terra Chã, noutro dia) simplesmente dizendo, estou aqui, às tantas horas e seja bem vindo quem vier por bem (a Lisete ainda promete um refresco no fim, estraga os participantes com mimos).

Não só com frequência partilham o que vêem como agora se disponibilizam em pessoa para transmitir parte do conhecimento que têm.

Eu gosto de gente generosa e queria agradecer-lhes publicamente.

henrique pereira dos santos

terça-feira, fevereiro 08, 2011

O mistério da linha de Leixões, o TGV e Alqueva (ou o drama da aplicação dos dinheiros públicos)



Ao video cheguei fazendo um caminho que começou num comentário no blog a nossa terrinha
Num dos seus pertinentes comentários, o anónimo especialista de comboios que nos tem ajudado a discutir comboios e mobilidade, respondendo ao Nuno, que persistentemente questiona o fecho da linha de Leixões, tem uma resposta notável:
"O motivo principal [do fecho da linha de leixões para passageiros] parece-me ter sido as Câmaras Municipais, que no protocolo de re-abertura ... se tinham comprometido a comparticipar as obras nos apeadeiros previstos, depois terem dito que afinal não tinham dinheiro... Como da parte do Governo o interesse na linha também esmoreceu (com a saída da Ana Paula Vitorino)...".
Ora aqui está o retrato do país numa penada. Se o quisermos compor, é apenas acrescentar sobre as estradas e as scuts "Se queriam fazer as AE (que o povo também andou a exigir...) e não tendo o Estado dinheiro para as fazer, como é que estas haveriam de ser feitas?".
Esta no fundo é a versão transportes do que diz o Ministro da Agricultura sobre Alqueva: "Sejamos claros, sem apoios do Estado não há regadio que seja viável". Esta extraordinária afirmação, aliás de uma ignorância de bradar aos céus (tanto do Ministro como do jornalista que o entrevista e que chama a isto um facto incontornável) por esquecer que a maior parte do regadio do país não tem apoio do Estado e é em grande parte viável, mantendo-se há pelo menos quatrocentos anos, corresponde a uma ideia muito espalhada em quem decide sobre dinheiros públicos: é preciso fazer, o importante é encontrar a solução para fazer.
Raramente se pergunta mas fazer (com dinheiros públicos, insisto) para quê?
Se o regadio de Alqueva será sempre deficitário e não é viável sem o Estado (coisa que o movimento ambientalista diz há décadas, e que agora a KPMG vem afinal confirmar, como se lê hoje no Público), para que raio queremos nós o regadio e Alqueva? O que fizemos foi gastar uma pipa de massa num investimento, não para ter retorno, mas para continuarmos a perder valor todos os dias porque é politicamente insustentável assumir as perdas e parar a hemorragia de recursos.
O que nos torna mais ricos, produzir mais, com prejuízo, ou produzir menos, criando valor suficiente para ter lucro?
Ora toda a lógica da discussão do TGV segue as miragens anteriores: auto-estradas cujos efeitos económicos nos levariam ao Céu, Sines que nos colocaria no centro do mundo, Alqueva que libertaria o Alentejo da sua pobreza atávica e o país da sua dependência alimentar e muitos outros amanhãs que cantam, sempre com dinheiro dos outros.
Durante muitos anos os cofres do Estado tinham um limite claro e inultrapassável: o dinheiro libertado pela economia para o Estado. O problema agravou-se muito com a invenção de um sistema em que se faz agora, e os nossos filhos pagam depois, sem que os instrumentos que garantam esse pagamento sejam usados seriamente. Nada me move contra as PPP, mas tudo me move contra a manipulação das regras das PPPs que retiram o risco ao privado e o colocam no Estado, como é o caso do pagamento de rendas por disponibilidade, em vez da indexação ao tráfego.
O argumento é o de que o risco de adoptar esse modelo de pagamento é demasiado alto para o privado, o que conduziria a concursos de concessão desertos.
Bom, se assim é, é um excelente indicador de que as projecções de tráfego e económicas estão efectivamente com um problema de credibilidade.
E é fácil de explicar porquê, mesmo sendo os consultores muito bons. Tomemos um exemplo clássico: a contabilização das horas poupadas, que são um dos benefícios económicos sistematicamente usados nestes estudos.
Em primeiro lugar, se o tráfego for menor, também o número de horas poupadas é menor. Mas a objecção de fundo não é essa. A objecção de fundo é o pressuposto de que essas horas poupadas serão usadas a produzir riqueza, sendo por isso contabilizadas do lado dos benefícios económicos. Mas se o passageiro do TGV resolver usar as horas poupadas numa grande farra com a amante espanhola, não só não produz riqueza, como ainda vai acentuar os desequilíbrios económicos, sobretudo se usar champagne francês em vez de um raposeira super bruto, aliás bastante catita.
Para mim isto é tipicamente economia voodoo, mas eu não sou economista, sou simplesmente um pagante, coisa menor, como se sabe.
Não digo que muito deste investimento público não devesse ser feito e não tenha efeitos positivos, o que me parece é que seria preciso discutir um bocadinho mais.
Do que já consegui fazer download do estudo da alta velocidade há coisas que me parecem que poderiam ser afinadas. O anónimo especialista de comboios dizia que não havia previsões para agora, porque o projecto só entraria em operação em 2013, mas essa é uma afirmação imprecisa, um dos cenários é exactamente o de 2010. Onde já se verificam alguns desvios em relação à realidade (num dos casos, até favorável ao comboio, porque se afirma que entre Aveiro e Salamanca existiria uma auto-estrada sem pagamento (esta ideia de que as coisas pagas pelo Estado não são pagas, a mim faz-me muito confusão, portanto vou corrigir), sem portagem, o que passou a não ser verdade, como se sabe).
Do mesmo modo acho extraordinário que nas explicações sobre Leixões não existam os conselhos de administração da REFER e da CP, as explicações falam de decisões de presidentes de câmara e secretárias de estado, como se fosse função de políticos decidirem da abertura ou fecho de linhas.
O resultado é esta miserável maneira de tratar o dinheiro dos contribuintes, gastando dinheiro a levantar carris na Lousã, para depois dizer que afinal não se vai fazer o previsto, ou abrir uma linha que não serve para nada sem se fazerem investimentos complementares que afinal não se vão fazer, porque nada disso corresponde a estratégias empresariais claras, que os conselhos de administração defendem nas assembleias gerais de accionistas, mas sim aos humores do político do momento, que interfere permanentemente na gestão das empresas, onde os funcionários se sentem como baratas tontas a fazer hoje o que desfarão amanhã e onde os clientes não sabem o que esperar hoje das promessas de ontem.
Que CP e Refer tenham déficits gigantescos nestas circunstâncias não admira, o que admira é que ainda assim continuem a funcionar razoavelmente.
E entretanto, nestas brincadeiras em que os conselhos de administração destas empresas se deixam arrastar, sem grandeza mas com muito proveito próprio, foram gastos milhões de euros dos contribuintes (nunca é de mais lembrar, onde se incluem os impostos pagos pelos pescadores de rabo de peixe).
henrique pereira dos santos

domingo, fevereiro 06, 2011

Conclusões de um ignorante

Gosto de falar sobre coisas de que não sei grande coisa.
Quase sempre tenho oportunidade de aprender, seja com os comentários de terceiros, seja com o que tenho de ir estudar para responder às críticas e comentários.
E ainda bem que falei de comboios.
Desta conversa, e respectivos comentários, vejamos o que concluí:
O comboio foi claramente preterido com o desenvolvimento do carro, em grande parte pela sua falta de flexibilidade. Aliás o comboio nasce para transportar cargas pesadas entre dois pontos fixos e é a partir daí que se desenvolve.
Há um renovado interesse recente no comboio, a partir de uma reorientação das suas formas de exploração: mais velocidade, ligando pontos de concentração de pessoas ou actividade económica.
Há também um interesse complementar em aumentar a capacidade de articular o comboio com outros meios de transporte, em especial com a carga marítima e, no caso dos passageiros, com os automóveis.
Partindo disto, e da escassez de recursos existente, quem verdadeiramente queira ver o Estado português mais empenhado no comboio que nas estradas o que deve defender? Ou melhor, o que é mais eficaz que defenda?
Em primeiro lugar parece-me que está, destacadíssimo, o acesso a informação clara, fiável e de forma fácil. Só com este tipo de informação a discussão pode ganhar racionalidade.
O absurdo do ramal da Lousã, que a mim me parece um caso de polícia antes de ser uma discussão sobre racionalidade na afectação de recursos, ou o estranho caso da linha de Leixões, parecem-me situações que merecem aprofundamento. O Nuno indicou este post, que é lógico e convincente, mas estou careca de saber que a melhor maneira de nos livrarmos da realidade é usar a lógica para suprir a falta de dados. Faltam portanto dados que me permitam perceber por que razão uma coisa tão aparentemente lógica e óbvia não foi executada (eu excluo sempre, por princípio, as teorias de conspiração).
Fiquei muito satisfeito de finalmente ter percebido melhor os números do TGV Lisboa Madrid. Estão num dos comentários bastante consistentes de um anónimo que sabe de comboios, ao contrário de mim.
Infelizmente não consigo aceder aos estudos propriamente ditos a partir da página da RAVE para perceber melhor que dizem. O que sei é que são estudos de 2004, o que me preocupa. Por exemplo, em 2004 as low cost quase não tinham expressão e hoje, no tráfego Portugal/ Espanha, penso que já representam um quarto do mercado. O que me leva a perguntar se não faria sentido actualizar estes estudos (eu sei que foram actualizados mas apenas na componente de investimento, não na análise da procura). Sempre se poderia confrontar os dados do que os estudos previram para estes últimos sete anos e verificar se os estudos aderem à realidade.
Ou seja, continuo a não estar convencido da bondade de fazer o TGV Lisboa/ Madrid agora, mas sinto a discussão mais próxima da racionalidade.
Já quanto a Lisboa e Porto parece-me muito consistente a ideia de que é preciso tirar o longo curso da linha do Norte. Percebo que sendo uma linha interna, talvez não tivéssemos acesso a fundos comunitários, mas estou cansado de ver projectos serem executados porque há fundos comunitários, em vez de serem executados porque são racionais. O resultado tem sido desastroso para o país.
Ora mesmo sem fundos comunitários parece-me bem mais razoável fazer Lisboa Porto que Madrid, mas gostaria de ter os números.
Incomoda-me um bocado sentir que há quem se concentre nas soluções de futuro óptimas e desvalorize completamente as soluções do presente que são boas.
A maneira como se discutiu a hipótese (que pode ser quase imediata) de fechar o círculo com o ramal Covilhã/Guarda, criando dois pontos de transbordo no entroncamento e pampilhosa, que permitam libertar a linha do Norte (ou pelo menos o seu troço entroncamento pampilhosa) de alguns comboios e ao mesmo tempo dar mais racionalidade à circulação Pampilhosa, guarda, covilhã, entroncamento (e vice-versa) é estranha para mim. Parece que resolver problemas concretos hoje não é importante porque amanhã haverá uma solução grandiosa. Parece-me um erro. De qualquer maneira não tenho números nenhuns que suportem o que estou a dizer.
Parece-me também muito claro que tudo o que seja reforçar as ligações dos portos às linhas de caminho de ferro é prioritário sobre grande parte do investimento dirigidos aos passageiros.
A questão da carga é muito pouco mediática mas essencial na competitividade do comboio e na sustentabilidade do transporte.
O fecho de linhas que não têm qualquer viabilidade é imperioso. Podemos discutir se devem ou não ser integradas em circuitos turísticos (e a mim não me parece que esteja ali nenhuma galinha de ovos de oiro, embora possa ser interessante em alguns lados).
E pronto, de comboios foi o que me ficou desta discussão.
henrique pereira dos santos

sábado, fevereiro 05, 2011

Dados concretos

Na sequência das críticas aos números do post anterior enviaram-me os dados do eurostat.
Aqui ficam, dizendo o mesmo que diziam os anteriores, mas mais claros no que diz respeito à Europa.
Note-se primeiro a diminuição do caminho de ferro na Europa, ao contrário do que parece ser voz corrente, depois a extensão das linhas por país, incluindo a percentagem electrificada, depois a densidade por área (onde Portugal está à frente de Espanha, ao contrário do que se costuma ouvir) e a densidade por habitante (onde Portugal está quase em último, mas no patamar normal dos países mais densamente povoados).henrique pereira dos santos

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Para desfazer equívocos

Clicar para aumentar, ir aqui para ver o original.
Aqui a densidade de linhas de comboio per capita.
henrique pereira dos santos

O mito do comboio

Confesso que não pensava escrever tanto sobre comboios e transportes.
Mas a quantidade de comentários aqui, e artigos noutros lados, sem o menor resquício de racionalidade na discussão do problema, faz-me voltar ao assunto.
Vou repetir a minha tese.
O comboio não é importante em si mesmo (como pretende muita da gente do sector ferroviário), o importante é a mobilidade. Por isso discutir o comboio é discutir, em primeiro lugar, mobilidade.
Como qualquer das alternativas de mobilidade, o comboio serve numas circunstâncias, não serve noutras.
As circunstâncias em que o comboio serve são aquelas em que existe um dimensão suficiente no volume potencial de transporte de pessoas e bens para quem o preço é mais importante que a flexibilidade. Defender linhas de comboio que não se encaixam nestas condições é contribuir para a perda de competitividade do comboio face às alternativas nas áreas em que o comboio poderia ser útil, económica, social e ambientalmente.
Discutir o comboio com base em patetices como as que mais uma vez vi hoje escritas no Público é diminuir a possibilidade de discutir seriamente as opções de mobilidade em Portugal. Dois exemplos das patetices que são muito edificantes: Beja não quer ser subalternizada em relação e Évora e não ter intercidades directo é uma desconsideração pelos Bejenses, ou o preço e o tempo de ir de comboio de Castelo de Vide para Coimbra é muito menor que ir de autocarro, sem discutir quantas pessoas por ano querem (ou mesmo podem vir a querer) ir de Castelo de Vide para Coimbra . De autocarro são sete horas e meia, de comboio, três horas e meia, diz o Público, e de carro são duas horas e um quarto (cumprindo os limites de velocidade), acrescento eu. Discutir nesta base é pregar pregos no caixão do transporte ferroviário.
Associado ao mito do comboio há o suposto isolamento da política ferroviária portuguesa, a contra-mão de toda a Europa civilizada, ilustrado pelos comentários do Nuno e do Tiago no último post que fiz, por exemplo "Há 50 anos ainda estávamos, na Europa desenvolvida, em plena era de expansão do automóvel e o conceito de mobilidade sustentável estava muito longe de se impor a uma política de transportes. Os tempos hoje são outros e enquanto o comboio cresce na Europa, perde passageiros em Portugal. Em vários países fecharam-se linhas (muitas aproveitaram-se para uso turístico, o que em Portugal parece ser uma heresia), mas inauguraram-se muitas outras. Enfim, remodelou-se a rede."
Uma visão idílica sobre "o estrangeiro" que não resiste ao mínimo de informação factual, por exemplo, vinda da wikipedia, para não dar muito trabalho: "En 1984 RENFE se encuentra en una situación crítica con déficits anuales gigantescos y es que, sus trenes se mueven básicamente en solo 5000 Km. de los 13000 Km. de vía que gestiona: Hay demasiadas líneas que no son rentables. Por ello se acuerda el Contrato Programa de 1984, por el que el 1 de enero de 1985 se cierran 914 km de vías y se dejan para uso exclusivo de mercancías otros 933Km.: 12 líneas y 132 estaciones se quedan sin servicio. Además, las Comunidades Autónomas salen al rescate de más de 600 Km. para evitar su cierre.[5]"
Num só dia de 1984, em Espanha, encerraram-se quase mil quilómetros de linhas de caminho de ferro, e abandona-se o transporte de passageiros em mais outros mil.
E se deixarmos de olhar para os comboios isoladamente o olharmos para a evolução dos principais meios de mobilidade entre 1950 e 2000 em Espanha a surpresa é ainda maior:
Sim, o gráfico acaba em 2000, e desde aí a coisa melhorou um bocadinho para o lado do caminho de ferro, com base nos resultados do investimento na alta velocidade, mas é só mesmo um bocadinho, quando se olha para a globalidade dos meios de mobilidade (já agora, poupem-me ao argumento de que a estrada tem mais gente por ter mais quilómetros porque os dados são de passageiro por quilómetro em todos os meios).
O que isto quer dizer é simples: deixemo-nos de lérias e olhemos desapaixonadamente para o assunto, pondo o comboio no seu lugar e discutindo o transporte ferroviário como deve ser discutido.
Repare-se que nos anos 80, nos governos de Cavaco, o IP5, hoje auto-estrada A25, foi feito sem perfil de auto-estrada. Dizem-me que Cavaco terá dito, a quem lhe apresentou a alternativa da auto-estrada, que não havia dinheiro para fazer uma auto-estrada e por isso fez-se com o antigo traçado e características. Que aliás serviam razoavelmente bem.
Depois disso veio um tal João Cravinho, mas sobretudo, é bom lembrar, um tal Jorge Coelho, que libertos da visão estreitamente economicista de um inculto Cavaco, decidiram que o que era preciso era fazer auto-estradas a esmo, rumo à modernidade, até porque assim o exigiam as forças vivas dos concelhos servidos pelo IP5, com Fernando Ruas à cabeça, bem como os imperativos éticos e políticos da solidariedade nacional.
Como não havia dinheiro para os seus delírios, inventou-se o faça agora que os seus filhos pagam depois, cujos efeitos reais e sérios começaremos a sentir a partir de 2014. Em si mesmo este modelo de alavancagem financeira (que seria apelidado de criminosamente neo-liberal se fosse executado por Cavaco, mas que é mais conhecido como modernização e desencravamento do interior e imperativo ético de solidariedade territorial por ser da responsabilidade de Guterres e Sócrates) não é grave, desde que a execução dos projectos conduza à libertação de meios que os paguem e paguem o serviço da dívida.
Mas como os projectos foram executados por imperativos éticos de solidariedade, ou como defesa da economia nacional, ou como contributo de combate o desemprego, ou mesmo como necessidade imperiosa de resistir à crise, o resultado é que temos as estradas e as dívidas mas não vemos como as pagar porque o famoso estímulo à economia que elas representariam não surtiu o efeito projectado.
Pretender que manter pitorescos comboios sem gente e sem mercadorias é melhor que isto, ou pode ser justificado porque na política de investimento rodoviário também se fizeram asneiras é uma coisa que não entendo.
Que a política ferroviária precisa de maior equilíbrio e atenção face à demência estradista, não tenho a menor dúvida.
Que isso é politicamente ruinoso também não tenho a menor dúvida, porque os utentes de estradas são incomparavelmente mais que os utentes dos comboios (e são ainda muito menos os utentes pagantes por inteiro do seu bilhete).
Por isso se tem mantido a demência estradista (vejam-se os resultados das últimas eleições), acentuada pelo peso económico e políticos dos grupos privados que cativaram a decisão pública, ao mesmo tempo que no sector ferroviário se considera tudo tão mau e difícil que a única hipótese é fazer TGVs e fechar quase tudo o resto a esmo (a única coisa em que os grupos privados estradistas estão de acordo com o comboio, porque também beneficiam da obra do TGV, e quem fica a pagar os prejuízos da operação é o contribuinte).
E enquanto o TGV não vem, usar o sector ferroviário para colocar um conjunto de desempregados da política, que tratam de comboios como peças de xadrez no jogo da influência política (a distrital de Beja lixa-me se eu não lhe der um intercidades, portanto o melhor é dizer hoje o contrário do que disse ontem, e se o ministro das finanças me chatear com o défice, primeiro peço ajuda à distrital de Beja e se mesmo assim estiver em risco de ser demitido logo anuncio outra vez o encerramento dando em troca uma promessa de ligação à alta velocidade que quando for a altura de a cumprir já devo estar noutra empresa).
É alias isso que explica uma série de decisões contraditórias, em que os Srs. Presidentes de Câmara tomam decisões que deveriam competir ao Conselho de Administração da CP, que depende do Ministro, que depende do Partido, que depende, em boa parte, dos Srs. Presidentes de Câmara.
Portanto, e sendo claro, a guerra pela colocação do comboio onde deve estar é muito, muito difícil.
A única alternativa é uma sólida racionalidade económica capaz de cativar a opinião publica para uma política de mobilidade mais sustentável.
O que significa, sobretudo para o movimento ambientalista, abandonar a diabolização do automóvel (principalmente onde ele é inegavelmente insubstituível) e o romantismo dos comboios pitorescos.
A realidade tem mostrado que em grande parte dos casos as pessoas querem comboios nas suas terras, mas para os ver passar, porque quando precisam de se deslocar, mesmo que as promessas de pagamento das despesas feitas pelos Srs. Presidentes de Câmara (que as omitem, na sua dimensão global e no seu valor per capita aos seus munícipes) resultaram na reposição de comboios, escolhem alternativas que as sirvam melhor.
E sim, é preciso investimento sério e boa gestão nos sítios onde o comboio tem a hipótese de ser a melhor alternativa. O que não pode ser confundido com a defesa do comboio sempre e em toda a parte.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Ceroulas e leggings

Na última etapa do campeonato nacional de surf, estava um frio de rachar na praia da Nazaré. A speaker achava que o vento gelado vinha lá do Norte da Europa, na altura sob uma intensa vaga de frio, e por isso era tão cortante, mas isso fazia parte da generalizada distorção da leitura dos fenómenos climáticos: de facto era vento Leste (mais especificamente, Nordeste, naquele caso), o mesmo que é responsável pelos dias infernais do Verão, quanto tudo parece arder irremediavelmente.
O que achei curiosa foi a afirmação de que seria bom era ter umas ceroulas, mas agora ninguém usava isso. Ri-me para dentro por duas razões.
1) De facto estava muito confortável com as ceroulas que uso em dias de frio intenso. Desde os tempos em que morei num quarto alugado em Bragança, quarto esse em que por vezes as janelas tinham gelo de manhã, não no lado de fora, mas do lado de dentro, que sei que não só as ceroulas são uma coisa útil, como há ceroulas bastante confortáveis;
2) Há muito gente por aí a usar ceroulas, só que agora chamam-se leggings, e usam-se por fora, em vez de se usarem da forma mais útil. É que em dias de frio, usar coisas justas directamente em contacto com a pele e com o ar exterior é de quem acha que há que sofrer para andar à moda.
Vem isto a propósito de um artigo profundamente desonesto sobre comboios escrito por Carlos Cipriano, ontem no Público.
De maneira geral leio tudo o que Carlos Cipriano escreve sobre comboios. Parece-me que tem uma perspectiva de filho de ferroviário mas, apesar do enviesamento, é uma perspectiva razoavelmente informada.
É por isso que digo que o artigo é desonesto: Carlos Cipriano, para melhor vender a sua ideia, não hesitou em amalgamar informação que sabia que, apresentada de forma clara, lhe estragava um bocadinho a história que queria contar.
Carlos Cipriano mistura a análise da evolução dos últimos vinte anos de comboio na Europa, com a discussão sobre a política de transportes em Portugal.
E porque razão o artigo é desonesto? Porque Carlos Cipriano escolhe criteriosamente o período de análise, e mesmo quando (na versão em papel) refere que o Governo lhe mandou números comparativos dos últimos cinquenta anos, para demonstrar que o que Portugal está a fazer agora (um agora relativo, já vem do tempo do Cavaco) corresponde ao que os outros países fizeram há muito tempo, limita-se a não ter esses dados em atenção com o argumento de que não são comparáveis com o período de estudo (definido por ele próprio).
Ninguém, no ser perfeito juízo, manteve linhas com médias de quatro passageiros por trajecto, o que aconteceu é que as encerraram há muito mais tempo.
Nós é que as mantivemos porque nos mantivemos muito atrasados no grau de mobilidade, de motorização individual e na qualidade das estradas até mais tarde, e por isso o regime anterior ao 25 de Abril foi mantendo umas linhas de comboio completamente obsoletas.
Nalguns países, algumas linhas foram mantidas por razões turísticas e patrimoniais, mas essas linhas foram claramente segregadas da política de transportes, porque não servem a política de transportes, servem a política de turismo e/ ou patrimonial.
Nestas circunstâncias era inevitável a perda de passageiros do comboio mal as pessoas tivessem oportunidade de ter verdadeiras alternativas de mobilidade, nomeadamente porque ficaram mais ricas, como efectivamente aconteceu.
Misturar isto com a política de infra-estruturação de transportes do país é muito, muito pouco sério.
Separando estas duas componentes a discussão é muito mais útil. Só que implica que realmente se discuta a utilidade social de algumas linhas. Por mais que se melhorem os horários e etc., e por mais que passem de 4 para 40 passageiros por trajecto (ou seja, mesmo decuplicando a sua utilização) continuam a ser um desastre económico e social.
O dinheiro gasto a manter uma infra-estrutura de mobilidade deste tipo, que serve mal as necessidades das pessoas em algumas circunstâncias, faz falta para outras lógicas de mobilidade que respondem melhor às necessidades das pessoas e têm melhores resultados económicos, sociais e ambientais.
Estou farto de citar aqui o transporte a pedido, em alternativa ao comboio, como uma solução incomparavelmente melhor que a do comboio em regiões de povoamento esparso.
Só que esta discussão não sai da cepa torta, parece a discussão da escolas com contrato de associação: funcionam melhor, são mais baratas para o contribuinte, mas devem fechar porque fazem concorrência ao Estado. Como se o imperativo constitucional não fosse ter um ensino público mas sim um ensino estatal. Curiosamente ninguém se levanta contra o financiamento dos grupos de teatro independentes, que funcionam exactamente na mesma lógica de associação ao Estado (só que sem metade das obrigações das escolas) mesmo que o Estado tenha teatros estatais às moscas.
O que se defende nesta lógica é o Estado, não as pessoas (tanto os alunos, como os contribuintes, ficam a perder).
É que transporte público, ensino público, espectáculo público, saúde pública quer dizer que todo o público pode usar, não quer dizer que o Estado tem de fazer. Pode fazer, quando não ha quem queira fazer, mas não precisa de fazer se lhe fica mais barato partilhar custos com quem está interessado em fazer.
Na mobilidade o problema é exactamente o mesmo: o essencial é uma política de mobilidade que permita que qualquer pessoa tenha condições de mobilidade aceitáveis: de comboio se for esa a solução, a pé, de carro, de avião, se for essa a solução (não se pense que o avião é piada, o Estado Português paga dois milhões de euros anuais à aerovip para manter uma carreira aérea regular de Bragança e Vila Real para Lisboa, e vice-versa, numa lógica de associação perfeitamente razoável).
Postas as coisas nestes termos, o que é preciso é verificar linha a linha, troço a troço, o que se justifica e não se justifica quer de investimento, quer de prejuízo na operação.
Ora nesta discussão (que é a da política de infra-estruturação, e não a da evolução comparativa no uso do transporte ferroviário, que implica um contexto social e económico mais alargado) falta demasiada informação, e corremos o risco de continuar no comboio os disparates que já fizemos (e continuamos a fazer, como a auto-estrada para Bragança) nas estradas, com argumentos inconsistentes como sejam o de dizer que Bragança era a única capital de distrito sem auto-estrada, no caso das estradas, ou dizer que Viseu é das maiores cidades europeias sem comboio.
São argumentos que valem zero.
O que é preciso é ver quanto custa infra-estruturar e quanto custa operar, nas várias soluções, e decidir com base em informação fiável (e na decisão ponderar os aspectos sociais e ambientais, não em abstracto, mas em concreto).
Por exemplo, as notícias sobre o aumento de frequência na linha do Vouga são praticamente omissas em dados substanciais. Quantos viajavam antes, quantos viajam agora, qual o aumento de custos, qual o aumento de receitas? Não sabemos. Repare-se que fui exactamente buscar um exemplo de uma área com muita gente, onde o comboio pode ser uma alternativa. Tanto quanto sei, neste caso, há um horário concreto que teve alterações importantes na frequência, mas não faço a menor ideia do que isso representa na conta de exploração da linha. Alguém sabe?
Não, e isso é que é grave.
Porque foi exactamente com essa falta de informação e o voluntarismo sobre o futuro do tráfego rodoviário que se construíram milhares de quilómetros de auto-estradas, em vez de resolver a mobilidade das pessoas (por vezes resolvendo o problema de mobilidade, mas a custos económicos e ambientais completamente disparatados).
Preparamo-nos para fazer o mesmo com o TGV.
Combater isso, combater este risco, não pode ser através de mais barulho a defender ideologicamente o comboio, mesmo quando não é a solução.
Combater isto, combater esse risco tem de ser feito através da discussão informada.
O que significa que a prioridade das prioridades seria romper o círculo mafioso que controla a informação sobre o sector dos transportes (o que em grande parte quer dizer, o sector de construção de infra-estruturas e o aparelhismo partidário).
O essencial é reivindicar o direito a informação pública, acessível, disponibilizada na internet sobre tráfego, receitas e despesas em cada auto-estrada, em cada linha de comboio, em cada concessão rodoviária de transportes, em cada concessão de linha aérea, nos portos e por aí fora.
E não vale a pena invocar o segredo comercial: quem quer segredo comercial que trabalhe apenas com o dinheiro dos seus accionistas.
Se há dinheiro público envolvido, quem paga, que são os contribuintes não é o Estado ou as empresas públicas, tem o direito de saber o que está a pagar e porquê.
Doutra forma corremos o risco de precisar de uma ceroulas porque temos frio e obrigarem-nos a usar umas leggings, porque está na moda.
E sendo verdade que ceroulas e leggings são a mesma coisa, a verdade é que o seu custo e o seu valor social são muito diferentes.
Se a maioria quiser passar frio pagando um ror de dinheiro por umas leggings à maneira, em vez de estar confortável com umas ceroulas que custam tuta e meia, não me resta alternativa se não aceitar, mas o que não aceito é que isso seja feito com informação errada sobre os preços e a utilidade de umas e outras.
henrique pereira dos santos

sábado, janeiro 22, 2011

Responsabilidades



Publico com todo o gosto este texto do Luís Jordão, sobre a mata do Bussaco e recente comunicado da QUERCUS sobre o assunto.
henrique pereira dos santos

Há já muito tempo que vinha pensando em começar a escrever para este blogue.
O Henrique por diversas vezes deixou o desafio, eu por outras tantas fugi a ele porque aquilo que mais me interessaria em termos de blogues seria criar ou aderir a algum que se relacione maioritariamente com fotografia de flora autóctone.
Não porque a discussão aberta de tudo o que tenha a ver com conservação da natureza, biodiversidade e desenvolvimento rural não me interesse (são estas no fundo as grandes linhas onde tenho vindo a trabalhar desde que me conheço como trabalhador), mas porque sempre entendi que outros há, muito mais capacitados e disponíveis para o efeito.
Mas hoje, fui chamado à realidade duas vezes ao longo do dia e em ambos os casos por causa da Mata do Bussaco.
Desde há poucos meses, por via de regular actividade profissional, voltei a confrontar-me com este espaço fantástico, com o qual contactei pela primeira vez há muitos anos como provavelmente a maior parte dos portugueses da minha geração – quando as excursões escolares ao Bussaco, a Mira Daire, a Sintra, ao Gerês e a tantos outros espaços de ar livre ainda não tinham sido substituídas pela Kidzania e outros que tais - e que vi degradar-se ao longos dos anos ao ponto de já não me atrair visitá-lo e conhecê-lo melhor enquanto adulto.
E foi também neste âmbito que fui (re)conhecendo, agora provavelmente com outra visão e com um espírito enviesado para as temáticas acima descritas, que norteiam o meu trabalho/lazer, um Bussaco que para mim era totalmente desconhecido e que inclui espaços de uma natureza singular, aliás já bem estudados e caracterizados, mas que se mantêm totalmente desconhecidos da maioria do público português. Também, neste âmbito, me fui apercebendo das fraquezas e debilidades da Mata, das necessidades de gestão activa que a mesma requer, da enorme escassez de recursos humanos e materiais com que a nova entidade gestora – a Fundação Mata do Buçaco - se debate desde a sua criação e da gestão profissional, empenhada e empreendedora que a norteia, a que se associa um espírito de voluntarismo e empenho de um conjunto de técnicos e estagiários, alguns dos quais não remunerados, alguns dos quais não dotados de todos os conhecimentos necessários (que é o que o está?), mas todos certamente norteados por boas intenções.
Da mesma forma me apercebi, como já vem sendo hábito em questões de conservação da natureza, da escassez de apoio especializado com que a equipa de gestão se debate, das dificuldades em aceder a informação útil à gestão, e de um Plano de Ordenamento e Gestão que, tal como muitos outros instrumentos assim designados no nosso país - independentemente do mérito dos estudos científicos e equipas em que se baseiam - pouco concretiza, pouco detalha, pouco orienta, pouco permite … ordenar e gerir!
Ora vem isto a propósito, no segundo contacto do dia, a respeito do comunicado da Quercus sobre “Azevinhos e sobreiros destruídos na Mata do Buçaco” em que se exige o “apuramento de responsabilidades”. Conheço pouco o caso no sentido de que ainda não tive ocasião de me deslocar ao local em concreto para, com os meus próprios olhos, ver a dimensão dos estragos relatados. Mas invariavelmente, passei em frente às parcelas referidas vários dias seguidos ao longo dos meses de Dezembro e Janeiro para desde logo possuir também a minha própria opinião, que talvez num outro post possa relatar em maior detalhe e que é certamente, apesar de tudo, menos “bombástica” do que as relatadas pela Quercurs e órgãos de comunicação local que têm abordado o assunto.
O que me motiva hoje é o “apuramento de responsabilidades” e, de uma forma geral, o teor agressivo e radical que vem sendo comum à Quercus, como à maioria das ONG´s portuguesas.
Sem prejuízo de um enquadramento que não só denota um conhecimento ligeiro sobre os valores naturais de maior relevo conservacionista existentes na Mata, nos quais talvez pudéssemos incluir certamente o azevinho - tão comum e abundante aqui e novamente noutros locais do Centro do país - , mas porquê o cedro-do-Bussaco, uma ornamental exótica ? Será por ser “do Bussaco”, ou lusitanica? Será que sabemos do que estamos a falar?
Apesar de opiniões eventualmente mais avalizadas para o fazer, e baseando-me apenas na informação técnico-científica que norteia o Plano de Ordenamento Gestão, o valor conservacionista da Mata envolve sobretudo, ao nível florístico, um conjunto de pequenas manchas de habitats reliquiais naturais, um dos quais apenas descrito, no território europeu, para esta Mata Nacional (pergunto-me se a Quercus alguma vez ouviu falar do adernal)! E é exactamente para evitar futuras ameaças a este habitat que se direccionam trabalhos como os que estão na origem da situação (isto sem avalizar a FORMA como os mesmos foram executados).
Segue o comunicado alertando para se ter constatado “os abates dos exemplares de azevinhos, sobreiros e medronheiros”. O bolo vai-se adensando, misturando espécies com alguma protecção legal com outras que – sem negar o seu valor ecológico – não a possuem; isto para nem sequer invocar uma opinião subjectiva, por vezes transmitida neste blogue e que partilho, relativamente à (in)utilidade de alguns destes estatutos legais diferenciadores, especialmente no que ao sobreiro se refere.
Não questiono, aliás as fotos são disso esclarecedoras, o abate de espécies como as referidas. Nem questiono também quem cometeu o acto, que me parece ter sido obviamente mais um madeireiro que procedeu ali como em qualquer espaço florestal da sua área de intervenção (e com isto, a Quercus não se preocupa?), nem uma eventual falta de acompanhamento e supervisão por parte da entidade gestora (restando saber porque é que ela se deu, i.e. houve intenção de causar a situação, se havia alguma orientação ou boa prática que norteasse a intervenção e teria permitido evitar a situação, se dispõe de meios humanos e outros que possibilitassem um outro resultado).
E voltamos então ao “apuramento das responsabilidades”. É muito fácil, depois de detectado um erro, apontar os dedos ao seu executor ou executores.
E nisso as ONG´s portuguesas são exímias.
Mas onde está a cadeia de responsabilidade: no madeireiro, que fez o que sempre faz e nunca foi motivado a ter outras práticas? No(s) decisore(s) e técnico(s) da entidade gestora, que se basearam provavelmente na informação de orientação existente e no(s) seus próprios conhecimentos? Também certamente, mas não só.
Qual o papel, em tudo isto, das orientações de gestão (ou da sua inexistência)? Quão concretas elas são e em que medida permitem GERIR e EVITAR este tipo de situações? Com isso, não vejo a Quercus preocupada… apenas com o fim da linha.
Ora como grande parte das vezes neste país, o que me parece que existiu neste caso é um conjunto de boas vontades mal executadas, e que a ausência de verdadeiras ORIENTAÇÕES DE GESTÃO muito para isso contribuiu. Mas diga-se, então como, se até existe um instrumento de gestão – um Plano de Ordenamento e Gestão, último legado da administração central antes de transmitir a gestão da Mata à actual Fundação, ao mesmo tempo que dali retirava todo o corpo técnico, operário e restantes recursos e meios necessários à sua gestão. E o que nos diz este instrumento?
Pois vejam-se em concreto o detalhe proposto neste instrumento, no qual se gastaram vários milhares de euros em estudos técnico-científicos, em consultoria, em equipas multidisciplinares e uns quantos anos de trabalho, conforme sucessivos adiamentos da sua apresentação (que antecedeu a passagem da gestão da administração central para a actual Fundação):


Os quadros atrás, idênticos em detalhe e orientações aos restantes apresentados no Plano de Ordenamento e Gestão, são aplicáveis à área concretamente abrangida pelo caso que a Quercus refere como “ bem representativo da falta de cuidado das entidades que fazem a gestão do património florestal português”. Nesta parcela, seriam pelo menos aplicáveis as medidas 2.2, 4.1. e 4.2, como se poderá verificar pela leitura do documento integral.
Como aqui lemos, qualquer executor estará bem elucidado quanto a aspectos de menor relevância para a GESTÃO como calendarização (p.e. quando é que deve ser feito, com que faseamento, …), situação (p.e. ter em atenção a eventuais exemplares isolados de …) e observações (p.e. recomendável um acompanhamento contínuo, recomendável a aplicação das práticas … e …, recomendável …).
Para esta área, das menos interessantes em termos de vegetação autóctone e das mais “atacadas” por exóticas como as acácias, preconizavam-se sobretudo medidas relacionadas com a contenção/eliminação de espécies invasoras (que colocam em causa, entre muros, a conservação dos habitats naturais existentes, entre os quais o já referido), bem como uma progressiva substituição da do coberto florestal resultante de acção humana maioritariamente um pinhal, ainda que com exemplares provavelmente centenários e também ocupado, de forma pontual, por alguns exemplares de regeneração da mata original como os referidos sobreiros, azevinhos e medronheiros. Trabalhos que, sem prejuízo de uma notória “aceleração” induzida por um eventual estado fitossanitário mais débil dos pinheiros e da aparente ausência de aplicação das práticas mais recomendadas ao controlo de invasoras e ao corte, foram executados, com os erros e resultados que são relatados (muito embora com uma dimensão provavelmente idêntica à de outros espaços florestais públicos e privados, com os quais não tenho visto a Quercus reclamar).
A questão que novamente coloco é: onde estão as responsabilidades, face a um instrumento que, conforme se vê nos exemplos, deixa tanto a desejar ao nível da concretização e da gestão efectiva e operacional? E já agora, onde estão também as responsabilidades da Quercus (e das restantes ONG´s), quando não questionaram esse mesmo instrumento quando o mesmo foi publicamente apresentado há dois anos atrás? Não é também responsabilidade de uma ONG estar atenta a este tipo de situações?
Ah …. Desculpem, esqueci-me que “neste Ano Internacional das Florestas designado pela UNESCO devido à importância da floresta, continuamos dispostos a colaborar voluntariamente com todos os que pretendem fazer uma gestão florestal sustentável, que dignifique o nosso melhor património natural e contribuindo para a conservação da natureza nas nossas Matas Nacionais.” De facto, há dois anos estávamos no Ano Internacional de …. quê?
Luis Jordão

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Novo riquismo

Por causa deste post aqui, e da discussão que houve sobre a relevância deste assunto na lista, acabei por pedir em concreto quanto gastou a Assembleia da República em águas engarrafadas.
Com eficiência e rapidez que se regista, aqui está a resposta:
"informo-o de que, por referência ao ano de 2010 e em média, foram consumidas mensalmente na Assembleia da República 3900 garrafas de água (33 cl) e 174 garrafas de água (1,5 l), com um custo mensal total de € 346,80.".
Sabemos agora o custo anual (mais de quatro mil euros) e sabemos as quantidades (pouco mais de 1500 litros de água). Sabemos então que a mesma quantidade em preços da EPAL teria custado aos contribuintes qualquer coisa entre os dois e os três euros (fazendo umas contas generosas).
Houve quem criticasse a minha classificação do Conselho de Administração da AR como novos ricos com o argumento de que há milhares de pessoas que bebem água engarrafada e nem por isso são novos-ricos.
O novo-riquismo não está no facto de só se beber água engarrafada. Há quem não goste da água da torneira, em alguns concelhos com toda a justificação (quando vivi em Rio Maior, durante muito tempo, não bebia água da torneira, mas depois a coisa melhorou).
Mas é preciso esclarecer que este tipo de opções são iguais à de quem não quer comer numa cantina e vai ao restaurante do lado, isto é, é um luxo beber água engarrafada.
Ora o novo-riquismo está em achar normal que sejam os contribuintes a pagar luxos em vez de achar que o dinheiro dos contribuintes deve pagar o essencial.
Dou de barato a iliteracia ambiental que produz a justificação de que as garrafas de água são recicláveis (uma das primeiras medidas emblemáticas de Sócrates, quando foi Secretário de Estado do Ambiente, não foi uma portaria que obrigava ao uso de garrafas de vidro na hotelaria e similares? A Portaria foi revogada? Que nunca foi cumprida sei eu, mas foi revogada?).
A Assembleia da República não é um sítio qualquer.
As suas opções têm um peso simbólico.
E nesta opção que foi feita (e que aparentemente os deputados pretendem reverter, e bem) o que a Assembleia disse foi:
1) não é um luxo beber água engarrafada, quando efectivamente é e o seu IVA não deveria ser 6% mas sim 23%;
2) não é confiável beber água da torneira, o que está por provar;
3) não é fashion nem chique usar jarros de água da torneirra porque pode ser uma porcaria;
4) reduzir não é importante se se pode reciclar, um dos maiores equívocos da gestão de resíduos;
5) é uma complicação logística inultrapassável não usar produtos embalados
6) e por último, gastar ou não gastar 4000 euros por ano do dinheiro dos contribuintes é irrelevante.
O Conselho de Administração da Assembleia da República esqueceu-se do seu papel simbólico.
Não pode depois queixar-se de que os cidadãos também o esqueçam e deixem de a respeitar.
O assunto é mínimo? É.
Quer isso dizer que não tem importância? Não.
Ele reflecte todo um ambiente de falta de respeito pelo dinheiro dos contribuintes e de falta de atenção aos gestos quotidianos que decidem a maior ou menor sustentabilidade das sociedades.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, dezembro 30, 2010

O movimento ambientalista e o BB

A iniciativa Business and Biodiversity foi muito mal digerida pelo movimento ambientalista em Portugal, com o argumento de que não havia mecanismos de controlo e de sancionamento dos aldrabões.
Isso não impediu algumas ONGs de serem parceiras de projectos concretos de algumas empresas, com implicações nos fluxos financeiros, mas sempre que a iniciativa aparecia as ONGs desapareciam, atrás de umas vagas declarações sobre greenwashing.
Esta atitude é normal em Portugal onde o dinheiro das empresas é sempre objecto de suspeita (ao contrário do dinheiro das empresas que faça um estágio nos cofres do Estado, que é sempre virginal).
Por várias vezes, enquanto estive ligado à iniciativa, tentei fazer com que as ONGs criassem um observatório da iniciativa, sem qualquer sucesso. Teria de ser uma iniciativa voluntária das ONGs e sem dinheiro associado, portanto era de pouco interesse. Como de costume a resposta era de que esse papel cabia ao Estado e o Estado é que tinha de fiscalizar o cumprimento dos compromissos (voluntários) das empresas.
A posição habitual: as empresas fazem, nós entramos no assunto com a nossa capacidade técnica e conhecimento, que naturalmente tem custos, e o Estado é que deve fiscalizar para podermos ter as mãos livres para criticar a fiscalização se alguma coisa correr mal.
Agora envolvimento directo, risco de falhar, hipótese de ser acusado de estar com os interesses económicos, isso não nos peçam que nós estamos aqui para ser a consciência crítica do sistema e não para resolver problemas.
Ora um comentário sobre as audiência do terra alerta feito na caixa de comentários deste post veio lembrar-me de tudo isto.
É que a SIC comprometeu-se, no BB, a produzir conteúdos sobre biodiversidade. E comprometeu-se voluntária e publicamente como testemunho do seu compromisso para com a biodiversidade, e não como área de negócio a desenvolver (as audiências parecem demonstrar que as duas coisas até se podem conjugar).
Acabar com o único programa onde a biodiversidade era tratada de forma sistemática é na verdade uma ruptura dos compromissos assumidos.
Volto a frisar, a SIC é livre de rever os seus compromissos voluntários.
Mas se houvesse o tal observatório sobre a iniciativa BB, sempre teria alguma visibilidade uma posição clara de classificação desta atitude como demonstrativa do pouco empenho da SIC na conservação da biodiversidade.
Claro que pôr as ONGs a criticar um dos seus pilares de sobrevivência, uma televisão, não seria fácil. E claro que há casos mais escandalosos de compromissos BB que são promessas assinadas em papel molhado.
Mas eu gostava tanto que o movimento ambientalista português, deixasse de ser o pãozinho sem sal em que se transformou e de vez em quando desse um ar da sua graça, que teimo em fazer estes posts que só me trazem chatices.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, dezembro 22, 2010

O movimento ambientalista e as presidenciais


Neste post defendi que o movimento ambientalista deveria ter um candidato presidencial. Não para ganhar, mas para dar visibilidade às políticas ambientais.
Penso que a forma como a campanha está a decorrer me dá razão.
Para as próximas presidenciais será mais difícil ter visibilidade (nestas, como não há nada a acontecer e não há nenhuma dúvida sobre os resultados, a existência de um candidato que se dispusesse a discutir políticas teria facilmente visibilidade e as pessoas poderiam manifestar livremente, pelo seu voto, a sua simpatia por essas políticas) mas ainda assim penso que se deveria encarar seriamente a possibilidade de começar a pensar num candidato.
Por mim, pode ser o que já propuz.
Mas se quiserem outro, por mim também pode ser, desde que não seja destes ambientalistas profissionais dos lugares de nomeação.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Rutger Barendse et alii

Há algum tempo que não ia ver quem eram os observadores com mais espécies observadas no biodiversity4all.
Hoje fiquei surpreendido ao verificar que embora Francisco Barros continue a ser o observador com mais espécies observadas, havia, muito próximo, um segundo observador de que nunca me tinha apercebido: Rutger Barendse.
Curioso fui verificar que observações eram essas.
São cerca de três dias no Algarve, a meio de Março de 1999, e cerca de quinze dias na Madeira na segunda quinzena de Abril e princípio de Maio, onde são feitas a grande maioria das quase mil observações registadas por Rutger Barendse e com certeza nas últimas semanas vertidas para a base de dados holandesa a que está associado o Biodiversity4all.
Curiosamente dois factos completamente independentes chamaram-me a atenção para a produção de conhecimento em biodiversidade feito por estrangeiros em Portugal e que com frequência passam mais despercebidos do que eventualmente deveriam (vou tendo idade suficiente, e contactos transversais suficientes, para ir conhecendo o meio da conservação, embora não profundamente, e alguns destes nomes parecerem-me pouco frequentes nas discussões sobre fontes de informação de biodiversidade em Portugal).
O primeiro facto, no sábado dia 11, nas jornadas da ATN, em Figueira de Castelo Rodrigo. Uma das apresentações, sobre flora, com dezenas de observações de Horst Engels, da associação trilhos d'esplendor (curiosa associação cujos membros da direcção, da assembleia geral e do conselho fiscal são os mesmos, pelo que Horst Engels é simultaneamente o presidente da direcção, da assembleia geral e do conselho fiscal) cujo trabalho eu desconhecia por completo e sobre o qual não tenho a menor informação de solidez ou não. Mas o facto é que existe trabalho, não apenas de dois meses na Faia Brava, o que linkei acima, mas de muito mais tempo na zona de Quiaios (as observações não estão no biodiversity4all).
O segundo facto já este fim de semana: o acesso a mais um artigo de George Estabrook, para cujo trabalho Carlos Aguiar me chamou a atenção, e como os artigos que eu já conhecia, muito, muito interessante. George Estabrook está a preparar a publicação dos seus oito trabalhos sobre agricultura tradicional e vida rural portuguesa para a Arizona University Press e espero que o livro não demore muito a ser publicado. Curiosamente nos agradecimentos deste artigo, Estabrook agradece o apoio de Horst Engles (a grafia não é a mesma, mas suponho que seja a mesma pessoa).
Claro que tal como os portugueses haverá nestas observações, mais ou menos em férias, e nestes trabalhos, uns mais, outros menos estruturadamente científicos, coisas boas e coisas más, gente que presta e gente que não presta e por aí fora.
Mas o que eu queria era dizer que de repente, de dois pequenos períodos de férias de um holandês curioso e com cultura de registo de observações, saltam quase mil observações, a grande maioria para a Madeira. E que sem as plataformas sociais que hoje conhecemos seriam provalvemente observações que nunca veriam a luz do dia em Portugal.
Nada de relevante está nessas observações?
Talvez, mas quantas mais, de gente que por aí passa, em férias ou não, poderiam estar a ser integradas, nenhuma delas particularmente relevante, mas que no conjunto nos permitiriam conhecer melhor a nossa biodiversidade?
Espero que aos poucos, a resistência de académicos e especialistas a estes modelos caóticos de registo da informação, organizados em bases não caóticas, vá esmorecendo e seja dada a devida importância, nem mais (são sempre, e só, dados ad hoc), nem menos (muitos dados ad hoc formam padrões estatísticos provavelmente fiáveis), a este tipo de procedimentos novos (em Portugal) de produzir ciência em domínios para os quais a quantidade de informação é uma condição (não suficiente, é certo) da sua qualidade.
henrique pereira dos santos

sábado, dezembro 18, 2010

25 000 observações

O biodiversity4all atingiu hoje as 25 000 observações.
Quando decidi apoiar o projecto fiz alguns posts, como este, por exemplo, em que dizia que ficaria satisfeito se se conseguissem 10 000 observações em cinco anos. No fundo falava de cinco observações diárias.
No último mês a média de observações diárias passou as 40 (em grande parte devido à utilização da plataforma como caderno de campo do Francisco Barros, mas está longe de ter sido apenas isso), em Maio, o tal que incluía do dia B, a média foi de mais de 70 observações diárias, claramente inflacionadas pelo dia 22, com 771 observações num dia só e algum do crescimento do número de observações resultou da integração de listas e bases de dados já existentes (onde reside um potencial de crescimento brutal, assim os investigadores e naturalistas abandonem o "amor táctil, que votamos aos maços de cigarro" para usar uma expressão com que Caetano Veloso caracterizou o amor aos livros e que neste caso se aplica às suas listas de observações).
A integração com outros projectos vai crescendo, por exemplo, estou muito esperançado na articulação com o projecto Naturdata, uma enciclopédia de biodiversidade muito sólida.
Mais uma vez, parece que os portugueses (e alguns estrangeiros que observam e registam biodiversidade em Portugal) são mobilizáveis.
O que me incomoda é ver alguns dos que mais se queixam da incapacidade dos portugueses se mobilizarem em matérias ambientais, e de conservação em particular, não fazerem o esforço mínimo de ceder uma folha excel onde "jaz morto, e arrefece" o seu imenso conhecimento traduzido em observações concretas.
Partilhar dados é apenas uma forma de enriquecer acedendo a mais conhecimento, não é empobrecer cedendo conhecimento.
Com o ritmo deste ano, os 10 000 dados em cinco anos que já me faziam contente em Março, poderiam ser para cima de 125 000 que seria fantástico.
Desvalorizar essa possibilidade num país tão pobre em conhecimento da sua biodiversidade é uma tolice que não entendo.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Não são mobilizáveis? Não participam?

Imagem retirada daqui
Um dos grandes equívocos do movimento ambientalista em Portugal é a mentira mil vezes repetida de que os portugueses não são mobilizáveis e participam pouco.
Nunca aceitei essa mentira e tenho feito bastantes posts contestando essa ideia que me parece errada.
Vem esta introdução a propósito desta petição, que comentei aqui, dando origem a uma discussão que foi muito proveitosa para mim.
Esta petição (não sei se com outras), ao contrário do que seria de esperar por quem acha os portugueses não são mobilizáveis, deu origem a uma (ou várias, não percebi) iniciativas para dar resposta a um problema considerado chocante.
Claro que há sempre quem, por razões de campanha eleitoral, ou por necessidade de afirmação da sua posição esquerda caviar, desvalorize estas iniciativas (é tão bom poder descartar-se da responsabilidade individual escondendo as pessoas concretas atrás da responsabilidade do Estado face à pobreza e troçar da caridadezinha). E há também quem use o seu critério para conscientemente cumprir os objectivos da lei, não cumprindo a sua letra.
Mas o facto incontornável é que uma pessoa concreta, chocada com factos concretos que afectam outras pessoas concretas, tomou uma iniciativa individual da qual resultou uma rápida e forte mobilização e a descoberta de que afinal não era ilegal usar as sobras dos restaurantes e cantinas.
Fica por apurar a responsabilidade da leitura maximalista dos regulamentos feita pela ASAE, mas disso um dia se falará.
Para já, ganham as pessoas, ganha a sustentabilidade (mesmo com a perfeita consciência de que não será fácil pôr a coisa a funcionar).
Porque afinal os portugueses são mobilizáveis.
henrique pereira dos santos