Quarta-feira, Março 31, 2010

Novos desafios

Vieram esta semana a público os relatórios sobre a investigação efectuada pelo parlamento Britânico relativos ao caso dos emails na Climate Research Unit da University of East Anglia.

Apenas três notas breves. Primeiro, a reputação científica de Phil Jones não foi afectada por este caso tendo, embora com algumas dúvidas, sido defendida na comissão de inquérito. A Universidade (e a Unidade de Investigação sobre o Clima) foi fortemente criticada nas suas práticas e relacionamentos organizacionais (“não vale a pena enterrar a cabeça na areia…”).

Segundo, o impacto deste caso, obviamente explorado até à exaustão pelos detractores da posição que as alterações climáticas existem e são maioritariamente resultado da acção humana, foi devastador não só para a questão em si mas também para o movimento ambientalista em geral.

Terceiro, se associarmos estes factos com o desastre da cimeira de Copenhaga em Dezembro último, duas perguntas são óbvias. Face aos enormes interesses já colocados no terreno como e quem irá reiniciar o movimento sobre as alterações climáticas? Que impactos e que novos desafios resultarão para a agenda ambiental?

João Menezes

Depois da poeira assentar (ou que dirão os do costume?)

Com os agradecimentos ao José M. Sousa pela chamada de atenção, sem comentários e pedindo a quem se interessa pelo assunto que leia o link e siga os links para a informação primária, incluindo o relatório na base da notícia.
Phil Jones portou-se bem.
Poderia uma investigação do mesmo tipo dizer o mesmo dos que o atacaram ao longo destes meses?
henrique pereira dos santos

Curiosidades V

A figura acima chegou-me via Francisco Barros e está no relatório de contas do Clube Português da Canicultura.
Para além da biodiversidade conservada através do trabalho de valorização das diferentes raças, este parece ser um contributo interessante da criação de cães para a conservação da biodiversidade.
henrique pereira dos santos

Terça-feira, Março 30, 2010

Greenpeace Unmasks Koch Industries' Funding of Climate Denial Industry

The Huffington Post, March 30, 2010


Koch Industries has “become a financial kingpin of climate science denial and clean energy opposition,” spending over $48.5 million since 1997 to fund the climate denial machine, according to an extensive report today by Greenpeace.

The Greenpeace report reveals how Koch Industries and the foundations under its control spent far more than even ExxonMobil in recent years to fund industry front groups opposed to clean energy and climate policies. Koch spent over half the total amount -nearly $25 million - funding climate denier groups from 2005 to 2008, a period in which Exxon only spent $8.9 million.

Greenpeace’s attempt to lift the veil of secrecy inherent to a private company like Koch Industries is no easy task. Because it remains privately owned, Koch faces few of the disclosure requirements designed to increase transparency among publicly-traded companies.

That intentional secrecy allows Koch Industries, the second-largest privately-held company in the United States, to fly largely below the public’s radar. Few Americans have likely heard of Koch, even though it operates crude oil refineries and pipelines across North America and owns such well-known consumer brands as Dixie cups, Brawny and Quilted Northern paper products, Stainmaster carpet, CoolMax and Lycra.

The company’s founder, Fred Koch, who once earned $5 million building oil refineries in the Soviet Union during Joseph Stalin’s reign, was a co-founder of the libertarian John Birch Society. Charles G. and David H. Koch, two of Fred’s four sons, each now own 42% of the company’s stock. According to 2009 Forbes rankings, the Koch brothers are tied for the 19th-richest person in the world, and for ninth-richest American, each worth between $14 and $16 billion, more than George Soros or the founders of Google.

The Koch brothers use three foundations to spread Koch Industries’ influence, including support for roughly 40 organizations that doubt or downplay climate change or otherwise oppose policy solutions to build a clean energy future. Greenpeace also notes that Koch Industries has been the largest oil and gas industry contributor to electoral campaigns since the 2006 election cycle, and its done its fair share of lobbying as well. During the 2008 elections, Koch Industries contributed over $1.8 million, 88% to Republican candidates. Koch’s political action committee (PAC) also spent more than $2.5 million on contributions to federal candidates for that period, more than any other oil-and-gas sector PAC.

Koch Industries has bankrolled Americans for Prosperity to the tune of over $5 million since 2005. AFP – known primarily for its role in organizing the tea party movement in the U.S. – brought notorious climate denier Lord Christopher Monckton to the Copenhagen climate summit as its guest speaker. Despite Lord Monckton’s reprehensible behavior in Copenhagen – where he repeatedly compared college students advocating for a clean energy future to “Hitler Youth” and “Nazis” – Americans for Prosperity continues to host Monckton at its events in the United States, including a recent appearance in Wisconsin.

While in Wisconsin on AFP’s dime, Monckton booked a side gig at a GOP fundraiser where he described President Barack Obama as a “monster.” I wonder if David Koch – the second richest man in New York behind Michael Bloomberg - is even aware that Koch’s funding of AFP is in part providing support for Monckton to run around the world labeling American college students “Hitler Youth” and calling the President of the United States a “monster”?

Koch was also one of the funders of the 2007 polar bear junk science “study” authored by prominent climate deniers (including Sallie Baliunas, David Legates and Tim Ball) that claimed to prove that polar bear populations were not affected by anthropogenic climate disruption in the Arctic. Dr. Willie Soon, one of the non-peer-reviewed paper’s authors, disclosed in the acknowledgements section that he had received direct corporate funding for the work, stating “W. Soon’s effort for the completion of this paper was partially supported by grants from the Charles G. Koch Charitable Foundation, American Petroleum Institute, and Exxon-Mobil Corporation.”

Although the paper was thoroughly debunked by actual experts on Arctic sea ice and polar bears, many of the front groups funded by Koch and Exxon rebroadcast the study widely, creating public confusion. The matter came to a head when Sarah Palin and her officers in the Alaskan government referenced the Soon/Baliunas polar bear paper before it was even published in Alaska’s formal protest of efforts to protect the polar bear under the Endangered Species Act. Both Soon and Baliunas have served as spokespeople, advisors and/or board members of multiple Koch-funded climate denial groups over the past decade.

The Greenpeace report notes Koch’s role in funding the Institute for Energy Research, which was behind the Danish study that attacked the viability of wind power. Greenpeace also points out the role that Koch’s web of climate denier groups played in supporting, disseminating and promoting the Spanish study attacking green jobs, including AFP, IER and the Heritage Foundation.

Greenpeace has helped to shed some much-needed light on Koch Industries with this report, providing several case studies, a detailed look at lobbying and campaign expenditures, and other little known facts about the Koch Brothers’ web of front groups.

If you thought you knew everything about anti-science front groups from hearing about ExxonMobil’s efforts over the years, think again. This expose of Koch Industries serves up a heaping pile of unsavory evidence that the climate denial industry is alive and well-funded, even with the scaling back of ExxonMobil’s support.

More attention needs to be paid to Koch Industries, and this report will hopefully encourage deeper investigation into the Koch web’s confusion campaign.

A peregrina ideia do Sudoeste como Parque Nacional


Por razões que desconheço a LPN resolveu lançar uma campanha para a "promoção" do Parque Natural do Sudoeste Alentejano a Parque Nacional.
Não vou perder tempo a procurar as razões que possam levar a este desvelo da LPN pelo Sudoeste porque há muito deixei de tentar entender a racionalidade das opções das grandes ONGAs em matéria de prioridades. Percebi que é porque sim, porque uma pessoa ou grupo tem um carinho especial por um assunto e isso chega para que toda uma organização se mobilize para tratar desse assunto.
Do que quero falar é mesmo da ideia peregrina de ter o Parque do Sudoeste classificado como Parque Nacional.
Um parque nacional é um sítio onde a mão do homem nunca pôs o pé.
É uma definição razoavelmente imprecisa e por isso cito a ideia legal: "Entende-se por «parque nacional» uma área que contenha maioritariamente amostras representativas de regiões naturais características, de paisagens naturais e humanizadas, de elementos de biodiversidade e de geossítios, com valor científico, ecológico ou educativo".
Esta é a versão consagrada na lei. Em versões anteriores deste diploma as coisas eram mais claras: " 1—Entende-se por parque nacional uma área terrestre do território nacional e/ou as áreas marinhas sujeitas a jurisdição nacional, incluídas na zona económica exclusiva e na plataforma continental que contenha um ou vários ecossistemas inalterados ou pouco alterados pela intervenção humana, integrando amostras representativas de regiões naturais características de paisagens naturais e humanizadas, de espécies vegetais e animais, de locais geomorfológicos ou de habitats de espécies com interesse ecológico, científico e educacional."
A retirada da ideia de inalteração dos ecossistemas vem aproximar a definição consagrada na lei da definiçao de parque natural.
Ainda assim a coisa clarifica-se nos seus objectivos (mesmo se imperfeitamente, com esta mania tão portuguesinha de ter medo de ser claro nas opções): "2 - A classificação de um parque nacional visa a protecção dos valores naturais existentes, conservando a integridade dos ecossistemas, tanto ao nível dos elementos constituintes como dos inerentes processos ecológicos". Só que depois fala-se em uso sustentável, necessidades de populações locais e etc., ao contrário de versões preliminares do diploma: "2—A classificação de um parque nacional tem por efeito possibilitar a adopção de medidas que permitam a protecção da integridade ecológica dos ecossistemas e que evitem a exploração ou ocupação intensiva dos recursos naturais.".
Há pois uma responsabilidade que não é da LPN, é do Governo, ao aproximar a definição de parque nacional da de parque natural (oferece-se um prémio surpresa a quem consiga, com base na lei actual, explicar direitinho e de forma clara em que é que no concreto é diferente uma definição da outra).
Só que o que está completamente errado é considerar que as classificações das áreas protegidas são medalhas de mérito (ser um parque nacional é mais importante que ser um parque natural) e não instrumentos jurídico-administrativos que apoiam a gestão de uma área com determinadas características.
Faz algum sentido classificar o Sudoeste, cheio de gente, de estradas e de actividade económica como parque nacional, uma figura que tendencialmente aponta para a ausência de uso extractivo?
Se já hoje a demagogia tem usado a figura da área protegida (com fortes responsabilidades para os seus gestores directos na colaboração da ideia de que as populações residentes têm sido prejudicadas com a área protegida, o que é desmentido por todos os dados económicos e sociais que se conhecem sobre a área) para chantagear o poder central e os contribuintes, imaginemos se um dia se classificasse, erradamente, a área como parque nacional.
Então é que ninguém se calaria com a ideia de que as populações locais estavam a ser tratados como índios.
Pretender resolver o défice de recursos do Sudoeste com campanhas destas é, na mais bondosa das interpretações, ingenuidade.
Já não falando na dúvida legítima sobre o efeito de aportar mais recursos à gestão desta área que é, no nosso sistema de áreas classificadas, das que mais recursos consomem com menos resultados positivos (a miserável qualidade da gestão desta área protegida anos a fio, desde há muitos anos, é bem mais responsável pelos falhanços da área protegida que a falta de recursos).
Enfim, o país em cacos, a biodiversidade em fanicos e a LPN a fazer campanhas para coisas absurdas.
No fundo a LPN acha que isto só se aguenta levando tudo na brincadeira.
henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Março 29, 2010

Os PIN, o ordenamento do território e a corrupção


O Público de hoje tem várias páginas dedicadas à corrupção, na sequência das audições da Comissão Parlamentar sobre a questão. Numa delas identifica os principais pedregulhos que existem na engrenagem do combate à corrupção, para usar a linguagem do Público.
A uma delas o Público chama "Alto risco no urbanismo".
E depois é mais preciso: Carlos Anjos recordou que esteve ligado à investigação de casos que ocorreram na Câmara de Lisboa, referindo que numa reunião de Câmara foram aprovdos 50 processos e em 41 deles havia violação do PDM. Disto resultou nada.
Gostaria de lembrar que uma das condições para um processo ser considerado de Potencial Interesse Nacional é ter sustentabilidade territorial. Este nome estúpido não passa de uma maneira de dizer, estar de acordo com os planos de ordenamento.
Que interpretação faz a comissão PIN? Que podem ser totalmente ilegais à luz dos planos existentes, desde que haja uma vaga intenção de alterar os planos para passar a ser possível fazer o que a lei hoje não permite.
Basílio Horta põe muitas vezes (actualmente menos, coitado, que nem projectos tem para aprovar) o ambiente no papel de obstáculo ao desenvolvimento.
É tempo do movimento ambientalista dizer com todas as letras que todos os responsáveis que tomem decisões que concorram para o favorecimento da corrupção são os verdadeiros obstáculos ao desenvolvimento, de tal forma o fenómeno se tornou epidémico em Portugal.
É tempo de dizer que quem favorece projectos ilegais na expectativa de que venham a ser legais por alterações específicas dos planos é objectivamente um aliado da corrupção, mesmo que não seja, nem de perto nem de longe, corrupto.
É preciso dizer de forma muito clara que o sistema PIN é objectivamente favorável à corrupção e, nesse sentido, um fortíssimo entrave ao desenvolvimento económico do país.
henrique pereira dos santos

Domingo, Março 28, 2010

Paroquialismo e cientifismo

Eu sei que já usei esta imagem, mas a questão é mesmo esta

A discussão na caixa de comentários deste post vai interessante. Talvez eu tenha reagido excessivamente a alguns comentários mas tenho razões históricas para isso: as várias vezes que tentei, a partir do ICNB, construir um sistema de registo de dados de biodiversidade aberto e acessível (nos dois sentidos, isto é, na consulta, mas também no registo de dados) a qualquer pessoa falharam sempre por paroquialismo, cientifismo ou as duas.
O paroquialismo caracteriza-se pela ideia de que os meus dados, ou o meu sistema, dispensam os outros porque são muito melhores (não vou discutir o que significa melhores). Na discussão do post esta questão surge a partir dos comentários positivos do Henk no sentido de se criarem redes de partilhas de dados em vez de multiplicar bases que não comunicam. Não podia estar mais de acordo, veremos como se comportam os possuidores de dados.
Devo dizer que espero que o meu contributo para a base do biodiversity4all seja exactamente neste campo, a partir de informação pública que existe mas está pouco acessível.
O cientifismo, muito mais complexo de combater e muito mais corrosivo nos seus efeitos, caracteriza-se pela hipervalorização da informação produzida no sistema científico formal (ou pelo menos com as suas regras) e a desvalorização da informação produzida pelas pessoas comuns.
A questão que é sempre levantada é a do espantalho dos erros da informação que podem existir na informação não validada. Por exemplo, o Henk fala de uma observação altamente improvável de corvo.
A base biodiversity4all responde a isto de várias maneiras. É possível saber o autor da observação, é possível contactar e discutir a observação. É portanto possível aferir o grau de confiança da observação. Mas mais que isto, se à medida que as observações se acumulam mais ninguém confirmar essa observação estranha, naturalmente ela perde a confiança dos utilizadores.
Repare-se que nas observações produzidas pelo sistema científico isto é resolvido exactamente da mesma maneira e mais uma: confiando no observador. Se a confiança acrescida é técnica, na certeza da identificação, faz sentido supor que quanto mais especializado o observador mais confiança merece a observação.
Mas deixem-me contar uma história (garanto, não é única):
Num processo de AIA o ICNB estava a ser fortemente pressionado para aprovar um determinado projecto. Numa reunião muito tensa, outros sectores do Estado insurgem-se contra o facto do ICNB referir um habitat prioritário na área porque tinham um parecer de um professor universitário especialista em botânica e habitats de cinco páginas (que mostraram) dizendo taxativamente que o tal habitat não tinha sido encontrado na área. Como é habitual em mim (mas raro na administração pública portuguesa e nos centros de investigação) disse que não havia problema nenhum: o Sr. Professor (Carlos Pinto Gomes) que viesse connosco, o promotor que levasse quem quisesse e o ICNB teria todo o gosto em ir ao terreno verificar quem tinha razão (como é evidente com espécies da fauna este tipo de verificação é bastante mais complexo). Marcada a visita ao terreno lá se encontra o dito habitat, tendo o Sr. Professor explicado que quando esteve no terreno o tinham levado por outro caminho que não aquele que conduzia à área que continha o habitat.
Sei por isso de ciência certa que se a qualidade técnica das pessoas pode ser aferida e relacionada com a qualificação académica, a qualidade da informação que prestam não pode (por muitas razões. Por exemplo, no caso do lince da Malcata que terá ou não morrido da anestesia, tenho ideia de ter lido trabalhos publicados sobre o assunto que omitem a segunda anestesia dada o bicho, numa boa demonstração de que como é errada a ideia de que a informação científica ou produzida por cientistas é inerentemente correcta).
Por isso os modelos de produção de informação científica devem ser abertos e escrutináveis.
As bases de dados das pessoas comuns devem integrar tanto quanto possível o know how e a boa vontade da academia (que existe na maioria dos casos) mas devem ser claramente autónomas, o que implica aceitar o aumento o risco de produzir informação com erros. Aceitar esse risco não significa diminuir o esforço para reduzir a produção de informação errada, aceitar esse risco significa aceitar que para ter um volume de informação mais robusto é inevitável que venham associados erros.
Só isso permite a estas bases independentes ficar o mais livres possíveis de paroquialismos e cientifismos que, em Portugal, têm conduzido à fraquíssima produção de dados de biodiversidade, entre outras razões porque há vários investigadores que acham que não ter dados nenhuns é melhor que ter dados com problemas de verificação e validação.
Eu não estou de acordo.
henrique pereira dos santos

Sábado, Março 27, 2010

Biodiversity4all (II)

Pouco mais de uma semana depois de ter colocado aqui um post sobre este projecto, resolvi dar uma volta mais alargada pelo site.
O site ainda não tem (mas um dia terá) o que mais me motiva: a possibilidade de escolher uma espécie e imediatamente produzir um mapa com todas as observações da espécie. Ou a possibilidade de escolher uma área e imediatamente saber todas as observações feitas para esse área (esta funcionalidade já existe parcialmente). É natural, é um site em desenvolvimento com base em trabalho voluntário das pessoas nele envolvidas.
Penso que o acesso público ao site terá quinze dias, pouco mais ou menos.
Apesar disso o site tem já mais de 2000 observações (deve haver um problema das estatísticas ou no tratamento elementar que lhes fiz porque a soma de algumas partes dá mais que o todo, mas isso são os problemas normais de um site novo deste tipo, a seu tempo se corrigirão à medida que forem sendo detectados).
As observações não dizem respeito a estes quinze dias, dizem respeito a registos experimentais da equipa do site, mas acima de tudo integram as observações de um site holandês, cuja estrutura é usada por este, e que tem observações de holandeses feitas em Portugal.
Todos os observadores com mais registos são, por agora, holandeses.
Nestes quinze dias, pelo que percebi, três ou quatro observações diárias têm vindo a enriquecer o site. É possível que este número tenha grandes variações (por exemplo, os bioeventos preveêm um evento para o dia 22 de Maio, dia internacional da biodiversidade, e este site será o site de referência para o registo de observações) mas é razoável admitir cinco observações diárias em média.
Isso significará quase dez mil observações registadas em cinco anos.
Não se pode dizer que seja muito, é natural que haja observações históricas que venham a engrossar muito este número (a ATN, por exemplo, tem um acordo com o site e contribuirá com certeza de forma consistente, incluindo as observações que já tem na Faia Brava), mas o relevante é que o volume de observações será com certeza útil a muita gente.
Eu gosto desta lógica de ir acumulando registos pelo simples gosto de o fazer. E gosto de saber que cada novo registo, se mantido, bem referenciado e integrado no conjunto, mesmo que seja um registo de sobreiros e cegonhas brancas, contribui para melhorar o que as pessoas comuns sabem sobre a nossa biodiversidade.
henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Março 26, 2010

"Interesses económicos ganham à ciência na defesa de espécies ameaçadas"



O jornalismo de causas é quase sempre mau jornalismo. Pode ser útil, pode dar textos fantásticos, mas raramente, muito raramente, bom jornalismo.
É o caso do artigo de hoje do Público em que Teresa Firmino (uma jornalista que não está na lista dos que eu leio já sabendo o que vão dizer) em que se relata o que se está a passar na conferência das partes da convenção sobre o comércio de espécies ameaçadas de extinção.
O título (que fui buscar para título deste post) é um título bastante idiota. Poderá ser escolha do editor e não da jornalista, mas o título retrata bem o artigo.
A ideia de que proibir a caça ou a pesca a uma espécie é uma escolha entre ciência e interesses eonómicos, é completamente falha de sentido.
Proibir a caça ou a pesca é uma decisão política que afecta negativamente alguns interesses e positivamente outros interesses (por exemplo, o Quénia é a favor da proibição da comercialização de marfim porque a ideia de um país exemplar do ponto de vista da conservação é muito relevante para a sua poderosa indústria turística de safaris). E a ciência não ganha nem perde nestas decisões. O que está em discussão, na maioria destas decisões, é muito pouco de ciência (se as espécies estão mais ou menos ameaçadas e quais são os principais factores de ameaça, havendo ciência dos dois lados da barricada, de maneira geral com grandes consensos e pequenas divergências) e quase tudo de política: qual é a forma mais eficaz de obter um resultado que é consensual.
Por exemplo, na questão do marfim, existem muitos investigadores (e países) que acham a animosidade das populações locais bem mais perigoso para a conservação dos elefantes que um comércio legal, fortemente regulamentado e cujos benefícios revertam, pelo menos em parte, para as populações.
Do outro lado há muita gente que concordando, entende que o comércio legal (e consequentemente o abate legal) é uma porta aberta para o furtivismo.
O que tem esta discussão de científico? Nada ou quase nada.
Por outro lado não se percebe porque razão se consideram como interesses económicos apenas os que são contra algumas das proibições, esquecendo os interesses económicos associados ao outro lado da questão.
A questão do comércio de espécies selvagens é uma questão difícil e muito relevante na conservação (mesmo para quem, como eu, tenha uma posição razoavelmente céptica em relação ao peso da perseguição directa na afectação de muitas populações, há muitas situações em que a perseguição directa motivada pelo interesse comercial pode ser relevante na conservação da espécie) mas seguramente não é pegando noticiosament no assunto da forma como Teresa Firmino o fez que se contribui para a formação de opinião pública esclarecida sobre o assunto.

Adenda: ao procurar uma imagem para o post verifiquei que títulos semelhantes aparecem em vários jornais e agências noticiosas. O artigo é pelos vistos também preguiçoso, omitindo a referência a agências internacionais que seguramente foram usadas como fonte. Não estava à espera.
henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Março 25, 2010

Tráfico de influências

Este é um post apostado no tráfico de influências e assente no nepotismo. Marginal nas questões ambientais, menos marginal do ponto de vista do desenvolvimento sustentado.
Duas das minhas filhas estão envolvidas no projecto que aqui propagandeio (uma desde as fases iniciais e conceptuais do projecto, a outra contagiada).
Quem quiser que siga o apelo:



Quem quiser saber mais sobre o projecto pode ver aqui um link mais institucional e aqui um ponto de vista mais pessoal.
Ou pode rever um outro post que fiz há tempos sobre o mesmo projecto.

Adenda
Um video mais antigo, que dá uma boa perspectiva dos resultados da primeira fase

henrique pereira dos santos

Terça-feira, Março 23, 2010

Voando com o Falcão peregrino e com o Açor

Glorificando a caça

A pequena mancha preta ao meio é uma javalina, cujas duas crias estão tapadas pela vegetação e que calmamente se deixa estar tempos infindos por ali, a descoberto, demonstrando o seu conforto nesta aprazível margem de rio
Num comentário a este post disse-se que eu estou sempre a glorificar a caça. Não sendo verdade, eu não quero que o comentário deixe de ser verdadeiro, pelo menos em parte, de maneira que resolvi fazer um post a glorificar a caça para dar razão ao comentador.
A questão decorria de uma série de fotografias, acompanhadas de comentários, em que eu criticava a fúria "encercadoura" que grassa por algumas partes do Alentejo.
Parte dessa fúria de cercar (ou se quisermos, de viver em cercados, porque os donos se colocam do lado de dentro da jaula, numa espécie de jardim zoológico ao contrário) parece-me ser uma reacção ao falhanço do Estado em assegurar o equilíbrio dos diferentes interesses das pessoas.
Na realidade, por razões ideológicas e outras, os donos de terras no Alentejo foram desconsiderados na definição dos equilíbrios de interesses, e o Estado demitiu-se da sua função reguladora, permitindo a invasão de terras por caçadores, motoqueiros, ambientalistas, curiosos, ladrões de gado, todos e quaisquer uns.
Os direitos ancestrais de acesso às propriedades, sobretudo o direito de as cruzar sem pagar portagem, especialmente importante para rebanhos imensos, mas também para trabalhadores, migrantes ou não, caminhando a pé ou em animais, caçadores, almocreves, etc., deixaram de ser usados para as funções e nas condições que os fizeram nascer e passaram a ser usados para abusos variados na forma e feitio, sem que o Estado se tenha preocupado em garantir uma adequada defesa dos direitos de propriedade.
Os proprietários contra-atacaram vedando propriedades, umas vezes porque tinham razões económicas para o fazer, sobretudo a criação de gado ou a caça grossa, outras vezes usando esta justificação para simplesmente retomarem o controlo das suas propriedades.
Mais uma vez o Estado se demitiu da sua função reguladora, mudou de campo, e permitiu toda a espécie de abusos na vedação de propriedades (era sobre esses abusos o post de que este é uma sequela).
O investimento na caça começou a surgir numa altura em que a criação de porcos de montanheira não era ainda possível (como não foi durante décadas, por causa da peste suína africana) e os rendimentos alternativos estavam em queda acentuada em consequência da nossa adesão à Comunidade Europeia.
O resultado é hoje verificável, por exemplo, na propriedade cuja vedação, da forma como foi feita, critiquei no post anterior.
Nos cerca de três mil hectares da propriedade em questão existirão mais de mil comedouros, não sei quantos pontos de água, abrigos com fartura e gestão orientada para a produção de caça, quer miúda, quer graúda. Ver coelhos, lebres, perdizes, javalis não tem qualquer dificuldade, como não terá ver veados.
Para fazer o mesmo (mais uns cercados para deposição de carcaças que custam dez reis de mel coado) a LPN tem um projecto aprovado pelo LIFE, para lince e o abutre negro no montante de 2,6 milhões de euros nos nossos impostos.
Vale a pena discutir o que faz sentido: ir directo aos impostos dos contribuintes para financiar projectos pontuais, limitados no tempo e insustentáveis, ou glorificar a caça que permite fazer o mesmo, de forma consistente e sustentada a prazo?
Dir-se-á que tal como a caça é gerida há grandes problemas ambientais, há demissão do Estado na fiscalização e regulação da actividade e outras coisas que tal.
Inteiramente de acordo.
Eu até acho que mesmo para a caça grossa não há vantagem em tê-la toda cercada, mais ou menos domesticada, sobretudo agora que a actividade se expandiu tanto que muitos fazem gestão de habitat e das populações e portanto, mesmo sem cercados, é possível garantir bons troféus nas propriedades. Mas isto sou eu a falar que não sou gestor da propriedades e posso ter ideias erradas sobre a dimensão do furtivismo, do todo o terreno e de outros problemas mais que as cercas ajudam a controlar.
Mesmo com cercas, não seriam mais bem aplicados os 2,6 milhões a compatibilizar a actividade com a conservação? A garantir cercas permeáveis, a garantir passagens de pessoas, a garantir fiscalização séria do controlo de predadores e por aí fora?
Sim, eu sei, o projecto prevê a parceria com as organizações de caçadores e os proprietários. Mas a eficiência e a sustentabilidade é a mesma partindo da actividade para a conservação ou partindo da conservação para a actividade?
Eu tenho muitas dúvidas.
Agora sim, podem comentar um texto de glorificação da caça.
Da caça enquanto instrumento de sustentabilidade da gestão de populações e habitats, não da caça enquanto actividade em si, matéria que se discute noutro contexto.
henrique pereira dos santos

Domingo, Março 21, 2010

Pilhagem de ovos de tartaruga

Chegaram-me estas fotografias por email com a indicação de que terão sido tiradas na Costa Rica. A Costa Rica é tida como um exemplo em matéria de política de conservação. Alguém pode confirmar ou desmentir a origem destas fotos?










Lista Vermelha Europeia de Invertebrados

Imagem tirada do European Red List of Dragonflies. Luxembourg: Publications Office of the European Union. ( Kalkman et al. 2010).


No Ano internacional da Biodiversidade a IUCN, acaba de publicar a Lista Vermelha de Odonatas, Lepidopteros e Coleopteros.

Boas notícias.

Da liberdade de acesso

Eu compreendo a necessidade dos proprietários se defenderem dos vândalos que cruzam as suas terras. Eu compreendo a necessidade dos proprietários adoptarem medidas que garantam a defesa do que produzem e compreendo ainda a necessidade de adoptarem as medidas de gestão que acham necessárias para garantir que as suas propriedades sejam economicamente sustentáveis.
Mas tenho dificuldade em compreender isto:
Um caminho vicinal ancestral de acesso a um rio cortado pelo proprietário. E que isso resulte nisto:
Um caminho (ou devo dizer, dois caminhos separados por uma vedação?) alternativo para o acesso de terceiros ao rio. Mas com estas consequências?:
Um fraguedo, em cima de um rio, em Rede Natura, em zona de várias espécies protegidas, na prioridade das prioridades nacionais de conservação do lince, é um interesse público menor que o do proprietário poder gerir a sua propriedade como entende? E tendo como consequência isto:
Uma fúria de fechar que implica o que se vê nestas fotografias será apenas uma necessidade de gestão razoável e um adequado equilíbrio de interesses? Claro que se pode perguntar onde estava o Estado que autorizou ou, no mínimo por omissão, no máximo com financiamento, permitiu isto. Mas antes de qualquer consideração sobre a actuação do Estado a pergunta chave é para o proprietário: o que se passa na sua cabeça para ter tanta necessidade de se defender do mundo?
Eu sei que não é o único, outros por ali também querem furiosamente fechar o que nunca ninguém se tinha lembrado de vedar.
Em si concentra-se a necessidade de se defender e a capacidade para obter do Estado uma alteração de limites desta ZPE para que a sua propriedade ficasse de fora (pelo menos até a Comissão Europeia ter obrigado o Estado português a repôr os limites anteriores).
O que se passa consigo, José Guilherme, para ter assim tanto medo da liberdade?
Seja ela a liberdade dos seus vizinhos, seja a liberdade dos seus veados, seja a liberdade dos nossos linces?
Tem a certeza de que o que ganha com estas vedações e caminhos o compensa de se saber responsável por naquele troço já não ser possível um começo de noite como este, onde as fragas ainda são fragas que chegam ao rio?
henrique pereira dos santos

flash: dénicheur d'oursons

Jardin des Plantes, Paris, França
Março de 2010
(clique na foto para ampliar)

Um caçador de ursos luta com a ursa que acaba de descobrir a pequena cria morta nas mãos do caçador. A estátua eterniza o momento e decora um jardim parisiense.

Gonçalo Rosa

Sexta-feira, Março 19, 2010

A mobilização das pessoas comuns e o movimento ambientalista

Spencer Tunik consegue mobilizar multidões para estarem nuas na rua (neste caso, em Portugal) e nós não conseguimos mobilizá-las para coisas muito mais simples, como fazer uma acção ambiental?

Diz o Público de hoje que a iniciativa "Limpar Portugal" reunirá amanhã cerca de cem mil pessoas (curiosamente havia um ministro do ambiente que exibia como um dos seus grandes sucessos o facto de ter acabado com as lixeiras em Portugal, há já alguns anos).
Esta iniciativa é o resultado do esforço de três amigos (três praticantes de todo o terreno) em meia dúzia de meses.
A iniciativa "Plante uma árvore" da representação da Comissão Europeia em Portugal envolve centenas de pessoas.
O que isto parece querer dizer é que a sistemática invocação da impossibilidade de mobilizar pessoas como explicação para a fragilidade do movimento ambientalista em Portugal parece carecer de demonstração.
O que me parece é que o movimento ambientalista ficou preso nos fantasmas ideológicos dos mais activos e barulhentos dos seus dirigentes e membros. O que torna o movimento ambientalista hostil a praticantes de todo o terreno, a caçadores, a empresas e seus quadros, a comedores de carne compulsivos, a gastadores de combustiveis fósseis, enfim, a todos os que não cabem na estreita definição do verdadeiro ambientalista.
Tenho pensado no assunto e vou avaliar bem a minha capacidade para lançar uma nova ONG na área do ambiente que seja uma verdadeira organização de sócios, que tenha meia dúzia de princípios ambientais, que tenha meia dúzia de regras de transparência e democraticidade e que consiga ter como seus sócios pessoas com posições muito divergentes sobre a vida mas com pontos de contacto em questões ambientais concretas, onde a divergência seja bem vinda e a crítica não seja imediatamente reprimida com as perguntas sacramentais: e tu, não achas que podias fazer muito mais? e tu, se achas que está mal chega-te à frente? e tu, não vês como se sacrificam os que criticas?
Pessoalmente tenho muita dificuldade em meter-me nisto, estou completamente falido, devo dinheiro a meio mundo e preciso de tempo para dedicar a outras coisas (entre elas ganhar dinheiro para pagar as dívidas).
O que eu gostaria era mesmo de conseguir criar (ou ajudar a criar) uma organização para as pessoas comuns, que de maneira geral estão como eu: falidas, sem tempo e amargamente desiludidas com o que se passa à sua volta.
Se decidir fazê-lo pode ser que finalmente me convença de que a mobilização dos portugueses é impossível.
Porque seguramente, até agora, não estou convencido disso.
henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Março 18, 2010

Biodiversity4all



Há algum tempo que eu trabalhava no projecto de uma base de dados aberta e a que qualquer pessoa tivesse acesso, quer consultando, quer contribuindo com os seus dados de observação na área da biodiversidade.
Tentei fazê-lo no contexto do ICNB (em parceria com terceiros), tentei apoiar a base de dados lançada pela BIO3 no contexto do seu compromisso Business and Biodiversity, mas o ICNB roeu a corda, estava agora à procura da solução institucional e financeira que garantisse o aparecimento e sustentabilidade da dita plataforma de biodiversidade para todos.
Desisti ontem dos meus projectos nesta área.
Desde sexta feira, em regime experimental essa base existe aqui, feita por pessoas que eu não conheço de lado nenhum e com quem tive ontem o prazer de conversar sobre a convergência de interesses na matéria.
Desde ontem larguei o meu projecto e passei a apoiar a associação que tem como único objecto criar e gerir esta base de dados.
Dizem-me que há ainda problemas, o principal dos quais seria o facto das pessoas se registarem e não receberem, como seria suposto, um mail de volta com indicações. Ontem registei-me e recebi o dito mail segundos depois, mas parece que isso não será garantido.
Continuo à procura de reforçar as componentes institucionais e de financiamento de uma base de dados de observações em matéria de biodiversidade, totalmente independente, aberta e acessível. Só que passei a usar esse esforço para reforçar o que existe porque o país é demasiado pequeno para cada um ter os seus pequenos projectos.
Estas pessoas foram mais eficazes e chegaram primeiro, eu acho que isso demonstra o seu mérito e mais vale ajudar quem merece que procurar ter uma solução perfeita noutro lado.
Registem-se, registem as vossas observações e dentro de algum tempo talvez tenhamos se não o que achamos melhor, pelo menos o que nos ajuda.
Aqui ficam os Rolling Stones a dizer o que eu gostaria de saber dizer sobre o assunto.



henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Março 17, 2010

Os processos de discussão pública em ambiente


Recentemente assistimos ao processo de discussão pública do Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês. A cobertura da imprensa desse processo ilustra bem os problemas de que este tipo de processos padece. Repetidamente eram ecoadas para a imprensa críticas de representantes de movimentos cívicos locais sem nenhum trabalho jornalístico de verificação dessas mesmas críticas. O problema é mais genérico. Eu já estive em várias sessões públicas de discussões de planos de ordenamento, e o que seria supostamente uma sessão de informação e discussão torna-se rapidamente num fórum para alguns indivíduos (incluindo autarcas) tentarem ganhar visibilidade política às custas de explorarem algum aspecto menos bem explicado do regulamento ou por forma a defenderem uma certa agenda de desenvolvimento (caso das eólicas). E é uma luta desigual do ponto de vista da opinião pública local. De um lado os representantes do Estado, com fama de centralizador e opressor, e doutro lado os supostos defensores das populações locais.
Penso que a solução passa por melhorar a comunicação com o público das questões que estão em causa nestes processos de discussão pública. Nas Avaliações de Impactes Ambientais existe o Resumo Não Técnico que serve de suporte à discussão pública e que põe em linguagem acessível as questões essenciais. Talvez se devesse fazer o mesmo para as discussões públicas dos planos do ordenamento, um Guia do Plano de Ordenamento, que explicasse de uma forma simples o que é que o plano de ordenamento traz.
Bem, à falta disso temos por agora o Biosfera, que fez uma reportagem excepcional sobre a revisão do Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês. O programa pode ser visto a partir desta ligação . E faz aquilo que a imprensa escrita local e nacional não fez durante vários meses: tenta verificar se a proposta de regulamento do plano de ordenamento faz as proibições/limitações que tanta celeuma levantaram junto dos representantes locais. E conclui, que com excepção da questão das eólicas e das barragens, a proposta de plano é em vários aspectos mais permissiva do que o plano em vigor. Há outros aspectos em que não o é, por exemplo ao aumentar-se a área de ambiente natural, aumenta-se a área de não caça. Mas o que é extraordinário e
assunto de reflexão, é como é que foi possível que tanta desinformação veiculada pela imprensa ganhasse o estatuto de verdade.

A energia e o movimento ambientalista

Imagem do site da EDP, esses malandros

Na sequência deste post, e comentários subsequentes, resolvi hoje dar uma volta pelos sites das três principais ONGA nacionais (a propósito de um comentário sobre o plural de Onga existe consenso no sentido do apóstrofo no plural onga's estar inequivocamente errado, existe alguma dúvida sobre ONGA não tem plural porque é uma sigla, ou se o tem por já ser um acrónimo, penso eu).
Ontem foi apresentada pelo Governo a Estratégia Nacional da Energia 2020 e seria por isso natural que perante uma das mais relevantes questões ambientais que temos pela frente houvesse opinião estruturada por parte do movimento ambientalista.
No Geota o último comunicado da associação que se encontra no seu site diz que o GEOTA fará parte do Júri do concurso das sete maravilhas naturais de Portugal. Tanto quanto me apercebi, não existe nada no site referente à estratégia nacional de energia.
Na LPN o último comunicado que existe diz que a LPN se associa à iniciativa "Plante uma árvore" da representação permanente da Comissão Europeia em Portugal. Esta iniciativa, que a mim me parece meritória nas intenções e processos, tem sido criticada pelo uso de espécies exóticas nas acções de vários parceiros (não o caso da LPN, mas vale a pena ver com que se entretem a LPN a propósito da biodiversidade), para além da estranha bizarria da autoridade nacional para a biodiversidade não fazer parte dos parceiros na iniciativa. Tanto quanto me apercebi, não existe nada no site referente à estratégia nacional de energia.
A QUERCUS tem posição sobre a estratégia nacional para a energia nos próximos dez anos. Está aqui a posição para quem a queira ler sem intermediários.
E vale a pena ler. A ideia principal está naturalmente no título que a QUERCUS dá ao comunicado: "um bom começo, mas contradições nas prioridades".
Importam-se de repetir? Um bom começo? Começo, ao fim de não sei quantos anos de decisões?
Lembro-me de quando o Governo anterior tomou a decisão de contrariar o regulador, não aumentando o preço da electricidade para resolver o défice tarifário, ter perguntado a um dos principais dirigentes da QUERCUS, e directamente envolvido nesta matéria, se a QUERCUS não tinha posição sobre isso. A resposta é que era uma questão de mercearia, não fazia sentido a QUERCUS envolver-se nisso. Verifico que de facto é assim que a QUERCUS pensa: o preço, o tarifário e esses pormenores, que traduziriam o princípio básico do utlizador pagador, estão ausentes da posição da QUERCUS. Não são por isso uma questão central para a QUERCUS (aparentemente o desenvolvimento sustentável, para a QUERCUS, não inclui o pilar da economia). Registo que a QUERCUS pretende discutir uma estratégia de energia omitindo a discussão dos preços.
O lead do comunicado, tirando a primeira parte que não interessa nada, reza assim:
"A Quercus considera que a referida estratégia continua a não criar um novo paradigma de coerência das políticas governamentais em matéria de energia, na medida em que as políticas dos últimos anos continuam a ser muito contraditórias, com investimentos programados nos transportes, principal área da nossa dependência energética."
Ou seja, a QUERCUS está a dizer que a política do Governo é incoerente, mas isso não a coíbe de a classificar como um bom começo. A quadradatura do círculo no seu esplendor, que retrata bem o comunicado emitido pela QUERCUS como procurarei fazer notar e que é de facto a marca de água da QUERCUS nas suas posições públicas há muito: criticar sim, em questões pontuais até fortemente e com acções jurídicas, mas nunca em caso algum dizer alto e bom som, com a clareza que seria exigível, que este Governo é o maior embuste ambiental que se possa imaginar.
Dizer que esta política energética não tem nada de ambiental, é apenas filha da falência do Estado e do desespero financeiro que obriga o Estado a empenhar os recursos naturais numa política suicidária de captação de investimento, isso a QUERCUS nunca fará nas actuais circunstâncias.
O que a QUERCUS faz é tocar e fugir, brincar permanente ao gato e ao rato da crítica, neste comunicado.
"Muitas das áreas abrangidas têm sido parte de planos e intenções anteriores, sem que Portugal tenha conseguido cumprir objectivos iniciais (ex. água quente solar e biomassa), e principalmente tenha visto reduzir de forma continuada o seu consumo de electricidade e a sua intensidade energética (indicador nunca referido durante todos os discursos da apresentação)".
Ou seja, a QUERCUS diz que o mais provável é ser tudo aldrabice, mas isso não a coíbe de considerar a estratégia um bom começo.
O melhor é que depois de passar esta medalha de aldrabice ao Governo (este e os anteriores), refere como o primeiro aspecto positivo:
"- Metas apresentadas em diferentes áreas (redução da dependência externa dos combustíveis fósseis; aumento das energias renováveis, aumento do emprego, e aumento do peso do PIB associado ao sector energético) são significativas, bem como a identificação da área da energia como crucial para o desenvolvimento sustentável do país;".
Ou seja, o que o Governo diz não é para levar a sério e o mais positivo da estratégia é o que o Governo diz, mesmo não sendo para levar a sério. Pergunto na minha ingenuidade: se os planos e intenções anteriores demonstram a sua inutilidade, como podem ser metas e coisas que tal ser consideradas como elementos positivos da estratégia?
Coerente com o seu princípio de que os preços são questões de mercearia, a QUERCUS afirma como segundo aspecto positivo:
"- Aumento em dez vezes da potência a instalar para produção de electricidade renovável de origem solar;"
Extraordinário, depois de considerar que a água quente solar é um bom exemplo de como as intenções ambientais do Governo não são para levar a sério, a QUERCUS acha bem que a estratégia opte por aumentar em dez vezes a produção eléctrica de energia solar que é, por enquanto, ruinosa. Não seria normal a QUERCUS dizer que o Governo se devia deixar de parvoíces com a produção eléctrica solar enquanto não levasse ao limite as potencialidades da água quente solar?
O terceiro aspecto positivo é a recusa da energia nuclear, que não vale a pena comentar. Não porque o assunto não seja importante, mas porque considerar positivo que não esteja em cima da mesa o que o Governo (e já agora, quase toda a oposição) sempre disse que não deveria estar, não deixa de ser sintomático.
O primeiro dos aspectos negativos:
"- Prioridade maior às energias renováveis em relação à redução de consumos e eficiência energética (quer no conteúdos das medidas apresentadas, quer em investimento previsto);"
Finalmente de acordo com a QUERCUS. Mas, pergunto eu, não é este aspecto negativo, por si só a demonstração de que o que está em causa nesta estratégia não tem nada, mas rigorosamente nada, de preocupação ambiental. Não é esta a pedra de toque que separa uma estratégia energética de base ambiental de uma estratégia energética de captação de investimento à custa da justificação moral ambiental que torna politicamente aceitável um tarifário que todos pagaremos em ineficiência e desemprego, sem ganhos ambientais reais?
"- Os investimentos em energias renováveis arriscam-se a ser demasiado extensos e a agravar fortemente os conflitos com o ambiente, nomeadamente através de barragens e eólicas onde as áreas disponíveis são cada vez menores."
Ou seja, a QUERCUS considera entre os aspectos positivos as metas estabelecidas para as energias renováveis, mas considera nos aspectos negativos o excesso de investimento nas duas principais e mais competetivas fontes de energia renovável. Resumindo, o que quer afinal a QUERCUS? Não quer discutir os preços e os custos, não quer o nuclear (eu também não), não quer barragens nem eólicas em excesso (faltaria definir o que é o excesso mas a QUERCUS depois pensa nisso) e quer aumentar dez vezes o eléctrico solar (a mais irracional das apostas de produção a partir de fontes renováveis, neste momento), querendo ainda melhorias de eficiência (eu também) embora não explique bem como.
O ponto seguinte mostra bem a vocação actual da QUERCUS para o contorcionismo:
"- No sector dos transportes, nomeadamente o papel do transporte colectivo, esteve completamente ausente. A prioridade foi para o automóvel eléctrico que apesar das suas inegáveis virtudes ambientais deverá ser apenas um eixo de uma política mobilidade que não está a funcionar (veja-se as Autoridades Metropolitanas de Transportes), bem como um visão integrada em termos de ordenamento do território. A redução da necessidade de utilização do transporte individual é fundamental para as famílias portuguesas reduzirem custos e o país reduzir a sua dependência energética;"
Tal como no primeiro ponto, esta é mais uma demonstração cabal da falta de perspectiva ambiental nesta estratégia. Mas ainda assim a QUERCUS ganha ânimo para incluir uma frase sobre as "inegáveis virtudes ambientais" do carro eléctrico? Inegáveis? Depois de se criticar a aposta nas barragens e eólicas? Depois de querer pôr a tónica na redução de consumos ainda se consegue vislumbrar inegáveis virtudes ambientais no carro eléctrico? Tudo isso no mesmo parágrafo em que "en passant" se diz, como se de coisa menor se tratasse, que os transportes colectivos estão ausentes da estratégia?
E por fim, num tique próprio da QUERCUS, o comunicado acaba com uma conversa de comadres sobre os meandros internos do Governo, dizendo que o ambiente vai ceder à economia. Francamente, acham que é mesmo uma questão importante? Se há coisa que Sócrates tem feito bem é manter a consistência interna dos seus Governos, e eu também acho que assim deve ser. Não há políticas do Ambiente e da Economia, há políticas do Governo. Não é o ambiente que vai ceder, é o Primeiro Ministro que define essa política.
Seria pedir muito à QUERCUS que explicitasse de forma clara e inequívoca que esta estratégia corresponde à opção política do Primeiro Ministro:
empolar artificialmente o investimento no sector da energia durante o próximo ciclo eleitoral, justificar enganadoramente essa opção com razões ambientais, as quais na verdade estão completamente ausentes das suas preocupações políticas, e deixar a factura a pagar em competitividade, desemprego e dívida nacional para quem vier depois.
Meus caros dirigentes do movimento ambientalista,
podem com certeza acusar-me pela enésima vez de eu ser anti-onga, mas francamente, quando numa questão ambiental estratégica como é a energia, a LPN e o GEOTA dormem placidamente, e a QUERCUS faz um dos mais indecorosos exercícios de contorcionismo político que tenho vito em matéria ambiental eu respondo-vos que se há alguém que está de facto a matar as ONGA são vocês, não sou eu.
Mesmo que estejam, como creio que na maioria estarão, cheios de boas intenções.
henrique pereira dos santos

Terça-feira, Março 16, 2010

O trigo e o petróleo

Em 1916 António de Oliveira Salazar publicou a sua tese "A questão cerealífera. O trigo", que não li mas um dia lerei. O que li foram alguns comentários sobre o que pensava em 1916 o académico Oliveira Salazar. Aparentemente pensava que o país não era particularmente vocacionado para a produção de trigo e que a sua agricultura se deveria orientar, a prazo, para "culturas hortícolas e pomícolas, isto é, para a produção de legumes, frutas, flores, videiras e oliveiras", para citar a leitura que dele faz Pedro Lains.
Mas, e a questão não é irrelevante, isso seria a prazo, porque no imediato havia problemas estruturais na agricultura que a impediam de cumprir a sua vocação e um défice alimentar que seria preciso colmatar por razões estratégicas.
Terá sido por isso que o político Oliveira Salazar, mais tarde, cerca de 1930, reforça o regime de protecção da produção de trigo.
Lembrei-me disto quando li hoje no jornal o Ministro Vieira da Silva a fazer umas contas à poupança de petróleo no sector energético:
"Prevemos aumentar para 8 600 MW de capacidade instalada para a hídrica, 8 500 MW de eólica e atingir os 1 500 MW de solar de todas as dimensões (térmico e fotovoltaico). Este mix significa uma poupança/ ano de cerca de trinta milhões de barris de petróleo equivalente, mais ou menos 2 000 milhões de euros, a preço de hoje."
A jornalista que o entrevista, da secção de política ou de economia, com certeza, não lhe faz as perguntas que seria razoável esperar:

1) Porque se fala em capacidade instalada em vez de energia produzida expectável?

2) Como é que o solar térmico entra na produção de electriccidade?

3) A que preço fica a dita poupança em barris de petróleo no sobrecusto do tarifário de electricidade e em custo de oportunidade para os investimentos necessários a essa poupança.

Salazar, muito melhor economista e político que a maioria dos que por aí andam (sem que isso signifique qualquer concessão em relação às suas opções políticas, muito piores que as de muitos dos que por aí andam), não justificaria economicamente, que eu saiba, a campanha do trigo, mas sim com a soberania da nação.
Se o que se pretende é justificar economicamente a política energética do Governo seria bom começar por deixar de lado a propaganda e avaliar realmente a questão tal como ela é, com todas as suas virtudes e defeitos.
Na prática o Governo está empenhado numa campanha do trigo (neste caso substituído por petróleo), com custos económicos e ambientais que escamoteia permanentemente.
Do outro lado existe também uma campanha de sinal inverso, que pretende que todo o sobrecusto actual de produção de electricidade a partir de renováveis é injustificado e economicamente ineficiente, e que conclui sempre que a solução está na energia nuclear.
Os preços do petróleo são demasiado voláteis e incorporam mal o longo prazo e as suas externalidades ambientais negativas para que se ponham de lado todas as formas de apoio à produção alternativa de electricidade a partir de fontes renováveis, para já não falar da eficiência energética cujo principal motor será, com certeza, o facto do consumidor suportar preços reais de produção e não preços martelados politicamente (incluindo o preço da água de Alqueva, por exemplo, completamente irrealista do ponto de vista dos custos de disponibilização aos utilizadores).
Não é possível a produção responder de imediato às condições instantâneas de mercado, pelo que haverá sempre alguma ineficiência aceitável para que possamos garantir a capacidade de resposta numa situação de escalada dos preços do petróleo e outros combustiveis fósseis (que, ao contrário do que pretendem os nuclearistas, influenciará também os preços da electricidade produzida pelo nuclear).
Clarificar economicamente a política de produção de electricidade é pois uma questão central para a racionalidade das decisões.
Olhar para os efeitos negativos da campanha do trigo talvez nos ajude a perceber os riscos destas campanhas patrióticas de poupança de barris de petróleo, a um preço que se esconde na propaganda.
É que poupar cem euros de petróleo porque gastei 300 a construir um sistema alternativo de abastecimento de electricidade não é a coisa mais economicamente racional. Embora possa haver outras razões, não económicas, como era o caso da soberania nacional defendida por Salazar a propósito do trigo. O que de qualquer modo o levou a desvalorizar os efeitos na fertilidade dos solos decorrentes da opção política tomada, que agravaram os problemas estruturais da produção agrícola por muitos anos (mesmo que inicialmente disfarçados pelo crescimento exponencial do uso de adubos).
Havendo razões não estritamente de economia de curto prazo, e eu acho que há algumas, convém explicitá-las e pôr-lhe o preço bem à vista, deixando às pessoas a possibilidade de escolher o que querem para o seu futuro.
henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Março 15, 2010

Reservas mundiais de surf



Têm vindo a crescer os movimentos de conservação das ondas, como se pode ler aqui.
Vale a pena o movimento ambientalista não perder de vista estes aliados potenciais (e também potenciais degradadores) para a discussão racional do uso sustentável da costa.
henrique pereira dos santos

abandono


foto de Gonçalo Elias

Na última década ouço, recorrentemente, comentários sobre a desorçamentação a que o Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade tem sido sujeito. Em diversas áreas protegidas e departamentos, é enorme a escassez de meios humanos e materiais essenciais à execução das variadas tarefas que lhes são destinadas. Em algumas áreas protegidas não há vigilantes da natureza, noutras não existem viaturas ou dinheiro para as pôr a funcionar. Material de secretaria, combustível e ajudas de custo têm dotações orçamentais exíguas. O dinheiro disponível para acções de conservação é pouco e muito menos o aqui aplicado.

O gráfico que se segue, representa as dotações orçamentais para o ICNB provenientes dos orçamentos gerais do Estado de 2001 a 2009, e dá substância à percepção de desorçamentação daquele instituto, que muitos de nós temos. 

(clicar no gráfico para ampliar)

Da sua leitura, tiro as seguintes conclusões:

1)      as dotações orçamentais têm sofrido um decréscimo, relativamente contínuo; em 2009, a dotação orçamental do ICNB representava cerca de metade do valor nominal da dotação orçamental de 2001;

2)      entre 2001 e 2006, as despesas de funcionamento – salários, manutenção da frota automóvel, combustível, rendas, consumíveis diversos, etc. – decresceram, ainda que entre 2006 e 2008 tenham registado um aumento; apesar do decréscimo contínuo do número de funcionários e do congelamento dos salários da função pública; em 2009, e após novo decréscimo, as despesas de funcionamento foram orçamentadas em cerca de 97% do valor de 2001;

3)      o valor orçamentado para investimento (PIDDAC) – medidas de conservação, estudos, etc - sofreu um decréscimo quase contínuo, com excepção do registado de 2005 para 2006; em 2009, o valor orçamentado para o investimento representava apenas 15% do proposto 8 anos antes;

Estes decrécimos são ainda mais evidentes se falarmos de valores reais, dada a inflação registada.

O decréscimo dos valores do PIDDAC é particularmente preocupante, pois representa a verba destinada, por exemplo, à execução de medidas de conservação da natureza propriamente ditas, ainda que, ao que parece mas o gráfico não mostra, boa parte dessa verba seja usada para construir sedes e outras coisas que a bicharada, ao que parece, não usufrui. O valor atribuído em sede de PIDDAC têm ainda a vantagem de, quando bem gerido, permitir aceder a alguns fundos comunitários tendo, por isso, algum potencial multiplicativo.

Ser-me-ia aceitável tal desorçamentação, se uma quantidade significativa de serviços prestados tradicionalmente pelo ICNB tivessem transitado para outros departamentos do Estado ou para privados o que manifestamente nunca sucedeu.

Para além do orçamento geral do estado, o ICNB depende também de receitas próprias que resultam, por exemplo, da aplicação de diversas taxas. Dado o estatuto de Instituto Público e a necessidade de gerar receitas próprias – opção política, aliás, com riscos não negligenciáveis - não duvido que, no futuro, estas venham a apresentar uma tendência de crescimento. Todavia, a realidade presente é confrangedora e a diferença entre a promessa eleitoral do PS para 2005-2008 – “promover a reorganização do Instituto da Conservação da Natureza, devolvendo-lhe dignidade e superando, progressivamente, a situação de grave estrangulamento financeiro em que se encontra”- e o que o gráfico acima publicado representa é a diferença entre o que se diz e o que se faz, resultando de uma clara opção política dos últimos governos do PS e, em abono da verdade, também do PSD (2003-2005).

Dissimulada por um discurso contrário, a forma lenta e discreta com que os últimos governos vão estrangulando o ICNB e a Conservação da Natureza em Portugal conta, finalmente, com o silêncio de todas as organizações ambientalistas nacionais que, na melhor das hipóteses, apenas muito pontualmente se parecem preocupar com o assunto.

Gonçalo Rosa