Sexta-feira, Abril 30, 2010

Uns gananciosos, estes trabalhadores - crónica de Daniel Oliveira


in Expreso, 13 de Abril de 2010

A Galp propôs aos seus funcionários um aumento de 1,5 por cento. Os trabalhadores vão fazer uma greve. O presidente do conselho de Administração, Ferreira de Oliveira, acusou os trabalhadores de "falta de solidariedade para com o futuro da empresa".

Alguns dados:

1 - Ferreira de Oliveira recebeu, em 2009 , quase 1,6 milhões de euros, dos quais mais de um milhão em salários, 267 mil em PPR, quase 237 mil euros de prémios de desempenho (mais de 600 mil em 2008) e 62 mil para as suas despesas de deslocação e renda de casa. É um dos gestores mais bem pagos deste país.

2 - Os sete administradores da empresa (ex-ministros Fernando Gomes e Murteira Nabo incluídos) receberam 4,148 milhões de euros. Mais subsídio de renda de casa ou de deslocação, no valor de três mil euros mensais. Os 13 administradores não executivos receberam 2,148 milhões de euros. Entre os administradores não executivos está José António Marques Gonçalves, antigo CEO da petrolífera, que levou para casa uma remuneração total de 626 mil euros, incluindo 106 mil de PPR e 94 mil de bónus. No total, os 20 gestores embolsaram 6,2 milhões de euros, 2,9% dos lucros da companhia.

3 - Os trabalhadores pedem um aumento de 2,8 por cento no mínimo de 55 euros. Perante estas exigências de aumento, a administração que recebe estes salários diz que, tendo sido estes dois últimos dois anos "de crise", elas são "impossíveis de satisfazer".

4 - A Galp não está em dificuldades. Os lucros ascenderam, no ano passado, a 213 milhões de euros. No ano anterior foram de 478 milhões de euros. A empresa vai distribuir dividendos pelos accionistas. Mas ao contrário do que tem acontecido nos últimos cinco anos os trabalhadores ficam de fora. "Não é possível distribuir resultados que não alcançámos", diz Ferreira de Oliveira, que, tal como o resto da administração, não deixou de receber o seu prémio pelos resultados que não alcançou.

Os factos comentam-se a si mesmos. Por isso, ficam apenas umas notas:

A administração que suga (com uma grande contribuição do seu CEO) quase três por cento dos lucros de uma das maiores empresas nacionais acusa os trabalhadores de falta de solidariedade por quererem um aumento de 2,8 por cento. E que a greve "não defende os interesses nem de curto nem de longo prazo dos que trabalham e muito menos dos que aspiram a vir a trabalhar" na Galp.

De facto, ex-ministros pensarão duas vezes em escolher aquela empresa para dar conforto à sua reforma se os trabalhadores receberem 2,8 por cento de aumento. De facto, um futuro CEO que precise de receber mais de sessenta mil euros para pagar a sua renda de casa e deslocações (que um milhão nem dá para as despesas) pensará duas vezes antes de aceitar o cargo se os funcionários que menos recebem tiverem um aumento de 55 euros mensais. De facto, gestores que recebem prémios por "resultados não alcançados" não aceitarão dirigir uma empresa que distribui dividendos quando os lucros baixam.

A ganância destes trabalhadores desmoraliza qualquer homem de negócios mais empenhado. Assim este País não vai para a frente. A ver se os trabalhadores da Galp percebem: todos temos de fazer sacrifícios.

A maior ameaça ambiental actual

Em Portugal, uma das maiores ameaças ambientais actuais é o endividamento.
Mas se tivesse mesmo de escolher a maior, diria que é a qualidade do processo de decisão pública.
A próposito das grandes obras públicas, ouçamos a clarividência do ministro que as tutela, falando do inacreditável projecto das terceira auto-estrada Lisboa-Porto, já depois de reconfirmar TGVs, aeroportos, terceira travessia do Tejo e afins:
"«É um projecto que é benéfico e cujas receitas são seguramente superiores aos custos mas é um projecto que tendo em conta os objectivos mais gerais (…) será objecto de reavaliação no sentido de definir o seu objeto e definir prioridades», disse o ministro. "
henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Abril 29, 2010

COMER COM GOSTO

Deve haver poucas pessoas que não gostem de comer, e eu não sou uma delas. Gosto de experimentar receitas das sobremesas mais exóticas, amassar pão à procura do mais genuíno sabor, ficar-me esquecida nas livrarias a apreciar livros de cozinha recheados de resultados impossíveis de obter em casa. Mas não sou de olhar só para o resultado: os meus ingredientes escolho-os com cuidado e atenção porque é a minha família, a saúde e boa disposição de todos, que está em causa. E, neste capítulo, sou muito tradicional: procuro o melhor, sem compromisso. Por exemplo, se olho para a lista de ingredientes de uma embalagem de comida e vejo números além dos nomes... é porque foi feito no laboratório e não no campo. E o que sai do laboratório, pela minha lógica, não pode ser comida.

Mas mesmo eliminando o que inclui números ainda sobra muita coisa que não entra no meu carrinho de compras. Por exemplo, não aprovo ingredientes que, há cem anos apenas, ninguém usaria na cozinha, mesmo se começarem pela palavra Vitamina, ou jurarem que fazem bem aos intestinos. E depois ainda há aquelas comidas que se querem fazer passar por outras – chamo-lhes os travestis. Margarina e bolachas com "sabor" a chocolate são bons exemplos, mas os adoçantes que querem fazer de conta que são açúcar para poupar nas calorias são talvez daqueles a quem mais cuidadosamente barro a porta de casa. Quando tenho dúvidas, aplico uns testes muito simples: pode ser produzido numa quinta, ou pescado no mar? Percebo como passa do estado original para a embalagem final? Se a resposta é não, é porque não é para mim. Isso leva-me a passar ao lado de quase todo o pão dos supermercados e padarias, repleto que está de "melhorantes" e "enzimas", ou ainda da míriade de outros alimentos com espessantes, corantes, estabilizantes ou demais maravilhas da tecnologia alimentar.

Claro, a maneira como a comida é processada também conta, não basta escrutinar os ingredientes. A radioactividade, por exemplo, pode ter muitos fins úteis, mas comida irradiada rima com comida doente... e que nos põe doentes a nós. E a aplicação de radiação electromagnética (vulgo forno de microondas) garantidamente também não foi pensada para nos trazer mais saúde. Quanto ao leite UHT, o tal que ainda está igual a si próprio mesmo após seis meses de esquecimento no fundo do armário, bem, arranjem leite do dia pasteurizado, encham um copo de cada um e façam o teste à família toda, a ver se não distinguem o que ainda sabe a leite daquele que do leite já só tem o aspecto.

Na busca da comida como "nos bons velhos tempos", gosto de reparar também nos ingredientes "invisíveis". Prefiro, tal como a restante população europeia, que as minhas hortaliças sejam sem pesticidas, o meu leite sem antibióticos e a minha carne sem hormonas... mesmo se trouxerem o selo europeu de autorizado. Se for do campo e não de aviário ou de aquacultura, melhor. E sendo colhido e comido na época, melhor ainda.

E que dizer da mais moderna de todas as invenções alimentares, os alimentos geneticamente modificados, ou transgénicos? Já ouvi as sete maravilhas sobre eles: mais nutritivos, mais duradouros, mais limpos de pesticidas, muito estudados e seguros, até a fome no mundo e a crise energética (através de biocombustíveis) eles se preparam para resolver. Mas eu confesso: a primeira vez que comprei óleo de soja e depois verifiquei pelo rótulo que continha soja geneticamente modificada senti um aperto abaixo do estômago que nunca me engana. Esta comida transgénica pode ser apropriada para cobaias de laboratório, mas não é comida de gente. Mas claro, o problema é poder escolher. Para já anda por aí soja e milho transgénico, mas já este ano a Comissão Europeia pretende aprovar arroz transgénico. Arroz! O mais castiço dos cereais que comemos em Portugal!

Fui informar-me e fiquei a saber que os portugueses são os "chineses" da Europa: cada um de nós come em média 17 quilos de arroz por ano, enquanto que os italianos, que estão em segundo lugar atrás de nós, não comem mais que uns míseros sete quilos. Os dinamarqueses, coitados, não sabem o que é arroz doce e não vão além de quilo e meio por ano. E agora, querem abrir a nossa porta ao arroz transgénico?! Isso é, para a gastronomia, o mesmo que deitar abaixo o Mosteiro dos Jerónimos seria para a nossa história e cultura!

Senhor Ministro da Agricultura: espero que goste de arroz de ervilhas, de arroz malandro, de arroz de forno e de arroz de pato. Espero, em suma, que goste de arroz, porque ser português também é isso: durante a última grande guerra devemos em grande parte ao arroz a nossa sobrevivência alimentar. Quando se sentar em Bruxelas e chegar a vez de votar o arroz transgénico, Senhor Ministro, vote por nós.

Margarida Silva, bióloga

Por interposta pessoa

Dizem-me que o tretas tem invadido caixas de correio alheias com mails sobre a nossa troca de argumentos em matéria de custos de produção de energia.
Acontece que verifico que tretas não quer ouvir, nem quer explicar para que servem algumas contas que faz, das quais tira conclusões estapafúrdias como a da energia perdida de Alqueva.
Acaba aqui a minha discussão sobre o assunto com o tretas: é que eu acho que direito à asneira é sagrado (máxima que o professor Osório praticava e explicitava vezes sem fim) mas eu não tenho de participar nos rituais.
E termino transcrevendo um mail que me chegou à caixa de correio.
"Confesso que tenho dificuldade de entender qual a relevância do valor da energia perdida pelas comportas do Alqueva. Essa energia seria sempre perdida, independentemente de haver renováveis ou não. O Alqueva terá estado naturalmente a turbinar à potência máxima durante todo o período de excesso de caudal (suponho eu) sem bombar. Não faria qualquer sentido ... bombar energia para abrir comportas em vez de utilizar esse caudal em excesso. Alterar os ciclos só desgasta as máquinas e nem todas as horas do vazio tiveram custo zero. Seria economicamente mais interessante turbinar a preço ligeiramente superior a zero com água que seria desperdiçada, do que bombar energia a preço muito barato, mas com algum custo, quando em ponta existe água em excesso a preço zero. Ligar a bombagem ao aumento das descargas é passar um atestado de irracionalidade aos algoritmos de despacho.
Em boa verdade, só se poderia ter evitado esse desperdício que referem com mais potência em Alqueva. Mesmo que não existisse um único MW de eólica em todo o país.
Veja-se o dia 26 de Fevereiro ou outros em que se verificaram descargas em Alqueva. Nesse dia não houve qualquer bombagem e Alqueva funcionou a 87%, próximo do máximo.
A bombagem verificada no período ocorreu em dias sem descarga aproveitando energia muito barata e colocando-a em horas de ponta onde tinha valor económico, evitando o desperdício de energia e a sua exportação a preços muito baixos.
A bombagem evitou que desperdiçássemos energia no vazio e não o contrário conforme referido.
Os investimentos em termos de potência para efeitos de bombagem, estão também a criar maior capacidade de aproveitar o caudal em períodos extremos de hidraulicidade. E com racionalidade económica.
A dedução lógica deveria ser: devíamos ter mais bombagem!
Mas atenção que em termos económicos não faz sentido aproveitar esta água em excesso. Não podemos dimensionar as nossas barragens e as suas potências para a cheia milenar. O investimento ficaria lá à espera e só seria aproveitado de 1000 em 1000 anos. A descarga e o desperdício em anos atípicos de hidraulicidade é uma inevitabilidade. Não tem a ver com excesso de energia no sistema, mas com excesso de caudal para as condutas e turbinas instaladas e de volume para os reservatórios existentes.
Confesso que não percebo o raciocínio deturpado e irracional destas almas.
Há certas “tretas” sem relevância que às vezes não merecem que se lhes dê muita importância."

Simples e claro.
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Abril 28, 2010

Terça-feira, Abril 27, 2010

Serviço público

Da lista de discussão surge o pedido de colaboração num projecto de investigação.
"Está a decorrer um projecto de investigação na Universidade Nova de Lisboa que visa investigar a comunicação de mensagens ambientais via video - videoart. Se quiser participar siga o link http://www.dcea.fct.unl.pt/cense/projects/standby/ . veja o video (2 min) e depois responda ao inquérito (2 min). Obrigada"
Sofia Vaz
O video é este:

Pois canté!

Devo estar muito velho.
A enorme maioria das pessoas que conheço e que sabem o significado da expressão que uso no título do post conhecem-na apenas do excelente disco do Grupo de Acção Cultural Vozes na Luta, um dos melhores disco de música portuguesa que conheço (podem dar aqui um salto, sobretudo os mais novos). Entretanto uma notícia de ontem diz que os discos vão ser reeditados em CD. Um grande abraço a quem o fizer, só num país de tontos seria possível estes discos ficarem eternamente proscritos da rádio.
Mas de facto eu ainda ouvi usar a expressão em conversas correntes, da mesma forma que ainda conheci bastante gente que distinguia o ch do x apesar de serem analfabetos que nunca aprenderam a ler nada (Intchada morreu a tua avó, respondiam, quando um urbanita resolvia dizer entchada por ouvir dizer satchola). Hoje penso que já é difícil ouvir usar pois canté e distinguir na fala o ch do x.
Ouço com alguma frequência o dito disco, que me fez lembrar a história da água de Alqueva que o Ecotretas conta para justificar a irracionalidade da bombagem nas barragens.
Foi quando o José Mário Branco, num evidente tom de troça, mas sempre com a qualidade inultrapassável que o caracteriza, canta (a partir de certa altura ajudado pelo coro):
"tanta propaganda na telefonia
a falar da grande crise da energia
com tanto desempregado quem diria
fala o aldrabão
e ri-se o patrão
isto inté que há-de mudar um dia
pois canté!"
Não que eu esteja a chamar aldrabão ao Ecotretas (hesitei em transcrever essa parte) mas pelo mesma lógica de raciocínio do GAC em 1975: como pode haver crise de energia se há tanto desempregado. Ou na versão moderna, para quê fazer eólicas se a água de Alqueva é despejada sem ser turbinada.
Diz o Ecotretas que dois terços da água de Alqueva foi desperdiçada (ver aqui).
Comecemos por uns dados simples:
no primeiro trimestre de 2010 a energia usada em bombagem em barragens foi de 94 GWh. Acontece que no mesmo período de 2009 foram usados 148GWh, isto é, bastante mais. Nos mesmos períodos a energia eólica produzida foi de 2,8 TWh em 2010 e 1,7 TWh em 2009. Ou seja, apesar de uma produção eólica muito maior, houve muito menos bombagem no primeiro trimestre de 2010 em relação a 2009.
Poder-se-á argumentar que isso se deve ao facto das albufeiras estarem cheias e por isso não ser razoável bombar, o que justificaria a exportação a preço zero da energia produzida a mais, que o distribuidor está obrigado a comprar aos produtores eólicos mesmo que não tenha mercado para essa energia. Mas o que não se pode dizer é que a bombagem é feita porque há eólica a mais, porque parece evidente a falta de nexo de causalidade entre a produção eólica e a necessidade de bombagem (a fantástica teoria de Pinto de Sá sobre a coincidência entre chuva e vento está mais relacionado com bobagens que com bombagens).
Em qualquer caso parece-me fantasioso argumentar com a energia potencial não turbinada em Alqueva porque todos sabemos que ninguém dimensiona os equipamentos para turbinar caudais que são excepcionalmente elevados, seria completamente irracional porque implicaria usar essa potência num número ínfimo de dias, sendo pois impossível de obter retorno para o investimento.
A lógica da turbinagem não tem nada com a dimensão física da energia produzida (não vale a pena discutir em Wh) mas sim com a dimensão económica da coisa (ou seja, só faz sentido discutir em euros).
Comprar energia barata em horas de vazio para produzir menos energia, mas nas horas de maior consumo, faz sentido se o aumento de preço compensar a diminuição da quantidade física.
Parece-me um conceito rudimentar o mercado da energia que até um ignorante como eu é capaz de perceber e explicar.
É por isso que não entendo por que razão o Ecotretas, sempre preocupado com a dimensão económica do mercado da energia (e bem) de repente resolve discutir esta questão evitando discutir a sua racionalidade económica.
Parece o actual governo a discutir as renováveis apenas nos aspectos físicos ou na diminuição das importações, esquecendo-se de discutir os aspectos económicos associados aos preços, a uma política incompreensível de intervenção administrativa no preço e esquecendo a coluna dos custos em que incorremos para ter a poupança que é referida como um bem em si.
Eu, que não tenho biblioteca, continuo convencido de que ganhávamos todos em introduzir racionalidade na discussão em vez de querermos esmagar o adversário para facilitar a dominância deste ou daquele modelo de produção de electricidade.
Entre outras razões porque o problema da electricidade é um problema relativamente menor na política energética do país.
Adenda: a bombagem, ao repôr energia potencial no sistema a partir das horas de vazio, permite que a potência instalada para responder aos picos possa ser menor, aspecto que não sei se será despiciendo do ponto de vista económico e ambiental
henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Abril 26, 2010

Paraíso


O jardim é uma representação do paraíso, um esforço de ordem e equilíbrio resgatado ao caos da mata, do desconhecido e do não humano, mantido pelo esforço constante de domesticação dos elementos naturais que demonstram o triunfo da razão do homem sobre a irracionalidade aparente da natureza.
Por isso é tão difícil conciliar biodiversidade e jardins.
Mas ainda assim tenho dúvidas de que as árvores do paraíso se pareçam com o que aqui se vê.
henrique pereira dos santos

Domingo, Abril 25, 2010

Mistério

No painel que o Público lançou aqui há pessoas diferentes a dar respostas diferentes sobre perguntas que o Público vai colocando.
Não vou comentar as diferentes opiniões (embora seja muito curioso ver coincidências e divergências, quer de conteúdo, quer de forma) mas há uma afirmação da Presidente da QUERCUS, Susana Fonseca, que desde o primeiro dia em que este site sobre o ano internacional da biodiversidade está on-line que é para mim um verdadeiro mistério:
"um objectivo que não era, já de si, muito ambicioso".
Recorde-se, o objectivo era parar a perda de biodiversidade até 2010.
Sinceramente acho que a frase saiu mas verdadeiramente não traduz o que pensa a presidente da QUERCUS.
Bem sei que em vários dos comentários perpassa esta ideia de que não se atinge o objectivo porque alguém não quer, como se a vontade política fosse uma espécie de poção mágica que ou se toma ou não se toma (variando um bocadinho o alguém, de maneira geral a responsabilidade é atribuída a todos).
Mas acho que nenhum outro comentário foi tão longe nesta forma ligeira de tratar um problema dificílimo.
Parar a perda de biodiversidade em 2010 (mesmo num espaço relativamente limitado) é um objectivo pouco ambicioso?
Significa isso que é com uma perna às costas que se resolvem os problemas do crescimento da população, do consumo per capita, da satisfação das necessidades energéticas e alimentares, do financiamento do mundo rural, etc., sem perda de biodiversidade e numa democracia?
Não pode ser isso que se pretendeu dizer.
Por isso digo que esta frase é para mim um mistério, mas espero que o mistério seja apenas o da fomulação infeliz da frase.
henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Abril 23, 2010

Iniciativas

O Público tem um site sobre o Ano Internacional da Biodiversidade.
Aí, para além de outras coisas (como os artigos do bom suplemento publicado ontem) existe um painel com várias pessoas (Miguel Araújo e eu incluídos, aqui deste blog) que vão respondendo a perguntas do Público ao longo do tempo.
Já agora, o link também para o site do ICNB com o objectivo de divulgar as iniciativas para este ano.
henrique pereira dos santos

Tretas


Ecotretas, nos comentários a este post, traz dois argumentos para a discussão da racionalidade da produção de electricidade (que é uma pequena parte da discussão da política energética).
O primeiro argumento pode ser visto aqui e no essencial diz que a venda de electricidade a Espanha a custo zero não é pontual, mas pelo contrário, é frequente. Para o fundamentar apresenta quatro dias seguidos em que isso aconteceu: 3, 4, 5 e 6 de Abril.
Essse argumento merece alguns comentários:
O primeiro é o que de estamos ainda a falar de situações pontuais, continuo a não ver uma avaliação concreta e alargada de quantas horas e, sobretudo, que custo tem esta situação para o sistema eléctrico;
O segundo é a afirmação de que isso resulta do facto de não se poder parar as eólicas (que mantêm o preço de entrega na rede mesmo nestas circunstâncias), quando na verdade isso resulta também da produção base térmica e hidraulica. A primeira não pode ser desligada, a segunda pode, quando o caudal dos rios o permite, o que não tem acontecido este ano, excepcionalmente;
O terceiro resulta do que é dito no anterior sobre a produção hídrica: o que se está a verificar não pode ser avaliado apenas num ano excepcionalmente húmido em que as albufeiras estão muito acima da média do seu enchimento, mas no conjunto dos anos onde habitualmente há capacidade de encaixe que este ano, excepcionalmente, repito, existe apenas de forma muito limitada;
O quarto é que a análise que é feita não é uma análise económica séria, porque omite o facto de que quaisquer que sejam as fontes de energia usadas, é precisa uma capacidade instalada muito superior às necessidades de consumo das horas de vazio (que é quando ocorrem estas entragas de energia a preço zero, valendo a pena lembrar que o camarada tretas escolhe um fim de semana para fazer a análise), pelo que em quaisquer fontes de energia há custos associados à não produção de energia, que podem ser integrados na tarifa paga (como acontece nas outras fontes de energia) ou podem ser pagos com garantia de compra (como acontece nos eólicos). O que não há, seguramente, é almoços de borla, portanto é preciso, para todas as fontes de energia, ser claro na contabilidade;
O quinto, e mais relevante, é que não é feito o balanço de perdas e ganhos, porque seria preciso saber que custos teríamos nós para comprar ou produzir energia em horas de cheio, para perceber em concreto quanto é o sobrecusto das renováveis e se isso é aceitável.
Ora nada disso tem vindo a ser feito, tem-se apenas brandido o fantasma das horas que são pagas às eólicas e oferecidas aos espanhóis (e não estou aqui a falar no facto da península energeticamente ser uma ilha, e não uma península, porque a França e os seus problemas decorrentes da falta de flexibilidade do seu nuclear, nos impedir de ter um mercado de elctricidade bem mais aberto e dinâmico, tanto quanto me parece mas percebo pouco do assunto).
Contas gerais em vez de factos pontuais ajudariam bastante.
O segundo argumento é o de que se está a bombar para depois abrir comportas em Alqueva.
É um argumento ainda mais extraordinário que pressupõe que as barragens deveriam ser equipadas com potências preparadas para turbinar caudais com períodos de retorno alargados, como são os que actualmente enchem Alqueva. E esquece na bombagem a questão não é bem de energia (o que se produz bombando é sempre muito menos que o que se gasta a bombar) mas de economia (compra-se a preço de vazio para bombar, vende-se a preço de cheio, e a diferença de preço por unidade compensa largamente o défice energético negativo). Ou seja, este argumento, se analisado do ponto de vista económico, é totalmente diferente do que parece se analisado do ponto de vista da energia material envolvida.
E os argumentistas sabem disso muito bem.
A primeira pergunta é pois a seguinte: por que razão nuns argumentos usam unidades físicas (energia gasta e consumida) e noutros argumentos usam unidades económicas (custos e proveitos)?
A segunda pergunta é ainda a seguinte: por que razão se extrapolam conclusões gerais de dias particulares em vez de analisar os dados gerais?
henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Abril 22, 2010

O manifesto da energia no seu labirinto

Não vou transcrever integralmente o artigo de Mira Amaral sobre o manifesto para uma nova política energética que pode ser lido aqui.
Mas há coisas que gostaria de comentar.

"por isso eu e um conjunto de colegas Professores do IST começámos a preparar um texto que foi depois alargado a outros subscritores.Trata-se dum exercício de cidadania de pessoas conscientes, responsáveis, com grande competência técnica e económica,"
É completamente despropositado o uso de argumentos de autoridade deste tipo. E uma enorme demonstração de fraqueza e fanfarronice.
"devido ao medo de retaliações, tivemos pessoas que acabaram por desistir de subscrever o Manifesto…"
Mira Amaral acha que pessoas que têm medo de retaliações (quais? a quem? por quem?) por terem opinião em matéria de energia fazem falta no seu manifesto?
"Nós consideramos até que a biomassa e os biocombustíveis são o parente pobre da política (?) energética actual."
Cá se está outra vez a confundir política energética com política de produção de energia. O parente pobre desta política é mesmo a poupança, a eficiência e o uso de inteligência para diminuir consumos mantendo qualidade de vida (o solar térmico é talvez o mais emblemático dos parentes pobres, a par com a política de transportes de raiz ambiental). Mas no contexto actual vir dizer que os biocombustiveis são o parente pobre da política energética faz sentido para quem uma vez classificou o eucalipto como o petróleo de Portugal.
"O Manifesto não tratava da energia nuclear. Limitava-se a pedir que fosse feito um exercício de Planeamento Energético a Médio-Longo Prazo, normal em qualquer país civilizado, no qual se considerassem todas as formas de energia.Mas o Governo, o poderoso lóbi eólico e alguns jornalistas vieram logo usar o papão do nuclear para tentarem condicionar a discussão sobre os excessos eólico e fotovoltaico."
Não percebo. Mas o manifesto era sobre uma nova política energética ou era sobre os excessos eólico e fotovoltaico?
"A energia eólica é intermitente e volátil, e por isso a potência instalada apenas é aproveitada 25% do tempo para produzir energia."
Basta saber que o sistema tem de ser dimensionado para os picos, que existem em períodos curtos, para perceber que qualquer que seja a forma escolhida de produção de electricidade a capacidade instalada só vai ser usada em percentagens muito pequenas do que poderia. Não conheço solução para isto. Suponho que Mira Amaral também não.
"Essa volatilidade faz que durante a noite muitas vezes há vento e energia produzida em excesso em relação às necessidades de consumo e por isso vai-se acumular essa energia em centrais de bombagem. Ou vendemo-la a Espanha a preço zero, tendo nós, os consumidores, pago a mesma a um preço elevadíssimo, ou como aconteceu no Alqueva em Dezembro passado o excesso de produção alimentou bombagens na central do Alqueva para depois esta ter de abrir as comportas e deixar vazar sem préstimo essa água, e com ela a energia armazenada (e bem paga) por nós!"
Esta falácia tem vindo a ser repetida vezes sem conta sem que nem por uma única vez alguém diga qual a percentagem de energia vendida a preço zero, nem quanta energia potencial se perdeu com a abertura das comportas de Alqueva (que é determinada pela quantidade de chuva e não pela bombagem entretanto feita, pelo menos em quantidade significativa).
"Durante o dia, muitas vezes não há vento quando precisamos de energia e por isso lá têm que entrar em apoio à falta de vento as centrais térmicas de custos fixos elevados, como as de gás natural."
O uso de meias verdades é das formas mais insidiosas de mentir. Que as centrais têm de existir no mix e que têm produções base abaixo das quais não devem ser levadas, de acordo, mas Mira Amaral omite, e só pode ser deliberadamente face aos pergaminhos académicos que apresente no artigo, que esse é em grande medida o papel da hídrica: disponibilizar em muito curto espaço de tempo energia para satisfazer os picos (por isso a hídrica ainda trabalha uma percentagem de horas menor que a eólica, penso que por volta dos 9%, mas corrijam-me por favor que não sei porque tenho este número na cabeça).
"passar na nossa rede de 3.500 MW para 8.500 MW da eólica é um manifesto exagero que só tornará a electricidade cada vez mais cara."
Duas meias verdades numa afirmação tão curtinha: os novos contratos de eólicas são a preços mais baixos que os primeiros e, mais importante, tornam a electricidade mais cara ao actual preço do petróleo (aliás, ao actual preço do petróleo é quase ela por ela), que pode variar, coisa que não acontece com o preço da eólica. Quem acredita que o petróleo nos próximos quinze anos vai manter-se nestes preços, com certeza achará isto estúpido. Quem achar que não sabe e mais vale, dentro de limites razoáveis, ter alternativas, acha isto defensável.
"Tudo isto consubstancia um desvario e uma irracionalidade económica que todos já estamos a pagar, e que já é bem visível com o famoso défice tarifário, que terá um efeito bola de neve."
Se em relação ao fotovoltaico partilho parte das opiniões expressas por Mira Amaral, já em relação a esta conclusão não posso deixar de assinalar que é completamente abusiva: o défice tarifário existe porque o Governo adoptou uma política de tarifas estúpida, não real e que isenta as empresas do esforço de racionalização que o aumento de preço aconselharia. Isso é completamente independente da política de produção de energia.
"o total conjunto da rubrica "Eólica, Geotérmica e Fotovoltaica" em 2008 representou apenas 2,11% do consumo total de energia primária em Portugal, tendo-se mantido a dependência energética em redor de 83% ao longo dos últimos dez anos."
É muita desonestidade junta. Primeiro retira-se a hídrica das renováveis e depois inclui-se os 75% do consumo de energia que não são electricidade. Nem que 100% da electricidade fosse de origem renovável o dependência energética diminuiria muito porque 75% do consumo energético não dizem respeito ao uso de electricidade. Para quê ser desoneste se se está convencido da razão?
E já agora, em que é que consiste a tal nova política energética alternativa a esta?
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Abril 21, 2010

E porque não um cluster de cientistas portugueses produzirem um contra-manifesto?

Rui Curado Silva, investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra, identificou um documento difundido por mais de 400 investigadores do clima franceses denunciando a falta de ética científica dos niilistas do clima. Diz ainda que a reacção dos climatólogos franceses vem ao encontro do apelo lançado pelo editorial de Março da revista Nature em que se alerta a comunidade científica de que a estratégia de não resposta aos niilistas para não dar visibilidade a protagonismos individuais pseudo-científicos ter tido como resultado a ocupação do espaço mediático por estes indivíduos [fonte]

Foto: Central de Biomassa de Mortágua

1. para evitar que uma vez mais senhores como Henrique Neto, que na TV vem defender a política energética de Salazar (!!) e o primado das barragens - e Carlos Pimenta desmentiu-o e bem informando que os preços das energias por via hídrica são mais baixos porque não contabilizam o carbono e quanto às tecnologias, Portugal tem neste momento vantagens tecnológicas;

2. para aliviar e não atribuir excessivas responsabilidades às associações ambientalistas;

3. para retirar espaço de mediatização de saudosistas do fascismo, niilistas climáticos nacionais e dos defensores de mais barragens e nuclear;

Pergunto porque não um grupo de 100 ou mais cientistas do clima, energias, da mobilidade e economistas pós-carbono nacionais produzam um manifesto? Uma boa base de partida é a postagem do Henrique Santos ou eventualmente outra que possa surgir.

Porque ligamos o “complicometro”

Andava a procura de uma foto, para enviar a um amigo e tropecei com esta (tem uma história curiosa, mas fica para outro dia), que me fez reflectir sobre as discussões e temas dos últimos post. Porque é que a maior parte das vezes complicamos ou procuramos soluções para os problemas, quando muitas vezes estão mesmo à nossa frente?

Terça-feira, Abril 20, 2010

Os comerciantes de Bragança

O que muitos contribuintes da lista AMBIO previram mais que uma vez, há muito tempo atrás, parece estar a acontecer. Afinal, as contas dos estados são como as das grandes empresas, as contas das grandes empresas como as das mercearias, e as das mercearias como as das famílias. O mundo é governado pela interacção de múltiplas contabilidades de duas partidas: desde os sistemas económicos, aos balanços de azoto e fósforo no solo. Os sistemas económicos - como o solo - têm condensadores, pilhas, aqui ali: o capital é uma pilha de trabalho, e os solos têm poder tampão; mas a sua eficácia tem limites. Não precisamos de um Luca Pacioli para perceber que se a despesa ultrapassa os ganhos alguém terá que pagar a conta. Se as gerações vindouras forem mais prósperas do que nossa, é ético, parece-me, que cedam um pouco da sua riqueza em proveito dos seus ascendentes. Se assim não for, podem dormir descansados todos os não têm filhos, e não acreditam na vida eterna.

Na terra onde vivo, em Bragança, todas as semanas encerra um restaurante, e o comércio vive com a corda ao pescoço. O centro comercial – todo um símbolo do progresso – está às moscas; as lojas ou estão fechadas, ou não pagam a renda. As câmaras municipais, por seu lado, estão sobreendividadas, e cada vez mais dependentes do orçamento de estado (e.g. só 8 % do orçamento de Mogadouro, são receitas próprias).

Como o endividamento não é infinito – e as amortizações dos empréstimos empurrados para as gerações futuras afinal são descontados já manhã –, coloca-se uma questão urgente: como produzir riqueza?

Imagino um analista pago a peso de ouro, a fazer uma SWOT com uma plateia de autarcas e decisores intermédios. A primeira questão seria: – Meus senhores, onde estão as “forças” e as “oportunidades” da região? No turismo? «Pouco provável!» Na construção? «Acabou!». Na indústria? «Nunca existiu». Onde então, meus senhores? A medo alguém diria: – Isto foi sempre uma região agrícola … mas pouco sobra … a Europa … os preços … ninguém quer ser agricultor …

Não é bem assim, parece-me.

Na semana passada, enquanto admirava um rebanho de 200 ovelhas a pastar um pastagem de trevos subterrâneos dei por mim a fazer umas contas de cabeça. O vale onde me encontrava, tem cerca de 2.000 ha de superfície agrícola útil, repartidos por 5 aldeias, e pulverizados nuns bons milhares de parcelas. Os solos são razoáveis, mas sobretudo é possível uma integração eficiente entre os solos de sequeiro a meia-encosta, e os coluviões húmidos do fundo do vale. Por alguma razão os beneditinos aqui construiram um mosteiro, antes da fundação da nacionalidade. Rebanhos de ovelhas creio que são três, com perto 500-600 cabeças. Depois há uma vacaria, fenos e ferrejos, e, claro, bastante castanheiro. Produz-se alguma riqueza é certo, curiosamente mais nos relevos convexos de pouco valor num passado recente, do que no fundo do vale. Porém o abandono agrícola está em marcha. O monte avança, e as terras de cereal que sustentavam 2 almas por hectare na primeira metade do séc. XX, lentamente são tomadas pelas giestas. Os lameiros, esses, estão invadidos por infestantes pouco palatáveis; e até as hortas ficam de pousio.

Cada hectare deste vale pode sustentar, à vontade, 10 ovelhas; os australianos atingem estes encabeçamentos em áreas com 500 mm e precipitação. 2.000 ha, são então 20.000 ovelhas; metade do efectivo ovino de um pequeno concelho no alentejano. Uma prolificidade de 1,5, dá 30.000 borregos. A 40 euros o borrego, são quase 250.000 contos (sem contar com os subsídios).

Porque é, afinal, tão escassa a riqueza produzida neste vale?

A primeira causa está na posse da terra e nas estrutura da propriedade. Os donos da terra não se dão ao trabalho, e nem a alugam nem vendem. Como a propriedade está muito repartida também não vale a pena investir em meia dúzia de ovelhas aqui e ali; e em cereais muito menos. Cultivada a terra ou não, os impostos são sempre os mesmos! Sobra a pergunta: com que direito licenciados, polícias, militares, gente com emprego e reforma açambarcam a terra sem que dela, de algum modo, todos tiremos proveito? Que custo de oportunidade social têm os actuais direitos da terra?

As obras públicas são uma causa relevante do abandono agrícola, nunca referida. A construção surgiu como uma promessa de emprego relativamente bem pago, menos exigente do que o trabalho agrícola, e sustentado, embora sazonal. A procura de mão-de-obra nas obras públicas implementadas nas últimas décadas foi lida como uma mensagem para o abandono da terra. E milhares assim partiram ao engano.

Li nos jornais locais que os comerciantes de Bragança reivindicam apoios às suas débeis tesourarias. Deviam era manifestar-se em frente ao governo civil a reclamar a restituição do princípio da expropriação das terras, das sesmarias 1375. Para haver comércio, alguém tem que produzir riqueza.

Carlos Aguiar

[transcrição de um post enviado para a lista AMBIO em 16-IV-2010]

Segunda-feira, Abril 19, 2010

O Zé Pagante

Nos comentários deste blog há com frequência argumentações tipo benfica x sporting que deixam muito pouca margem à racionalidade.
O Zé Pagante, pessoa cuja integridade física e moral corre grave perigo por ter opiniões sobre política energética e que por isso tem de recorrer ao anonimato para se proteger, faz no seu comentário a este post uma boa demonstração do parágrafo acima.
Mas exactamente porque corresponde a um modelo mental muito difundido vale a pena procurar distinguir o que caracteriza este tipo de argumentação, evitando confundi-la com a expressão racional de opiniões divergentes e explicando por que razão é, pelo menos em parte, lixo argumentativo.
Zé Pagante responde ponto por ponto ao post e vou também manter essa estrutura que facilita (embora obrigue as pessoas interessadas a ir ver o post original para compreender os comentários, tem a virtude de reduzir muito a dimensão deste post).
1) À afirmação de reduzir a discussão da política energética à produção de electricidade é absurdo, face ao facto da electricidade representar uma parcela relativamente pequena no consumo energético e haver espaço de manobra para ganhos de eficiência, Zé Pagante responde que sem números o argumento vale zero. É uma típica técnica de desvalorização do argumento contrário que evita a sua discussão. Se Zé Pagante acha o argumento errado, pode dar uma volta na net e ver os números facilmente. Não o faz. Seja por preguiça, seja por malandrice evita uma discussão difícil com o argumento de que como não fiz uma demonstração da lei da gravitação universal não posso dizer que as maçãs caem. O facto é que caem, mesmo antes de Newton ter existido e portanto se quer demonstrar o contrário que trabalhe para isso em vez de desvalorizar um argumento de conhecimento comum (Einstein fez isso para explicar que a menor distância entre dois pontos poderia não ser uma recta, ao contrário do que é a nossa ideia de senso comum).
2) Segunda técnica, divagar. Apesar de serem vários os posts a defender o preço real quer da água quer da electricidade o Zé Pagante acha que se falar agora de água, quando se discute a electricidade, fragiliza o ponto de vista contrário. Não o elimina, apenas o fragiliza face a quem vai acompanhando a discussão sem grande atenção aos pormenores. O que se procura neste tipo de argumentações não é aproximarmo-nos o mais possível da verdade mas apenas dominar o outro.
3) Terceira técnica, fingir que não se percebeu o argumento e responder com um ataque sem qualquer relação com o argumento. Ao argumento de que é mentira que o défice tarifário seja inteiramente devido à produção de renováveis (argumento absolutamente incontestável) responde-se com fantasias sobre o futuro, totalmente impossiveis de verificar neste momento.
4) A mesma técnica anterior, embrulhada em paternalismo simpático. Ao argumento de que o manifesto dos nuclearistas é frágil tecnicamente, responde-se que é preciso não ser fundamentalista e há alternativas. A quê, se não era esse o argumento?
5) Incompreensível comentário face ao argumento de falta de honestidade por parte dos subscritores do manifesto nuclearista. Irrespondível face ao facto de não haver nada no comentário que tenha qualquer semelhança com o argumento em discussão.
6) Irrelevante
7) Concordando com o argumento (nesse caso uma crítica à APREN), usa-se agora a técnica da mistificação, puxando pelo apoio de que um terceiro que supostamente faz aquilo que deveria ser feito. O terceiro pega em situações excepcionais e vende-as como vulgares (caso da entrega de elctricidade a preço zero a Espanha) e pior, muito pior, para demonstrar que as renováveis não diminuem a importação compara valores de mercvado em vez de quantidades físicas, sabendo perfeitamente que está a comparar anos com preços substancialmente diferentes. Mas o Zé Pagante pelos vistos engole contas favoráveis aos seus argumentos com muito mais condescendência que as contas que os contrariam. O double standard no seu esplendor, um dos traços mais evidentes do lixo argumentativo.
O remate final é o do costume: uma rasteirita argumentativa sem nível. No caso, o não caso da falta de acesso de Steve McIntyre aos dados brutos do Phill Jones.
É que existem pelo menos três fontes de dados primários e em qualquer delas mais que 80% dos dados são públicos e mesmo assim o problema da eventual dificuldade de acesso aos 20% restantes de uma das fontes de dados é elevado a uma demonstração de que a razão está com o Sr. McIntyre.
Sobre a matéria (reconstrução paleo climática) o Sr. McIntyre publicou, que eu saiba, um único estudo. O que fez foi pegar nos dados de Phill Jones, fazer uma espécie de auditoria estatística, deitar fora os dados que na sua perspectiva não eram sólidos do ponto de vista estatístico (cerca de 80% dos dados foram desprezados) e fazer ele próprio uma reconstrução com os dados bons. O resultado é confrangedor com o Sr. McIntyre a garantir que estava um frio de rachar no mais que documentado período quente medieval e coisas do género.
O Sr. McIntyre, mas sobretudo a corte de negacionistas que o seguem, parecem não saber que a estatística não estabelece relações de causa e efeito, nem mede realidades, apenas detecta padrões nos dados obtidos pela ciência primária.
Tratar o estudo de realidades para as quais só existem dados inferidos, indirectos, fragmentários, descontínuos e de fiabilidade duvidosa como se houvesse amostras estatísticas consistentes e sólidas é de uma estupidez de tal maneira grande que evidentemente McIntyre não pode incluir-se nos que o fazem estupidamente. Seria preciso ser verdadeiramente estúpido, o que não parece ser o caso.
Infelizmente a alternativa disponível é apenas a de o considerar um escroque.
Como os relatórios que vão saindo (falta o da terceira investigação independente) vêm demonstrar.
Os imensos blogues que durante dias e dias linkaram tudo o que chamasse nomes a Phill Jones, mesmo sem a menor credibilidade, têm-se mantido, quase sem excepção, completamente fechados aos links para estes relatórios.
Como é impossível não saberem que existem, a conclusão possível é também só uma: são escroques também, que se apoiam mutuamente.
Mesmo que se arvorem em defensores dos supostamente pagantes.
henrique pereira dos santos

Domingo, Abril 18, 2010

Porque não...

Publicidade tirada aqui

Algo se passa na publicidade de atividades ambientalmente impactantes. Depois da campanha da EDP, que em primeiro lugar foi uma prova de força entre a empresa e o movimento ambientalista (ganho pela EDP, sem dúvida), vimos agora a Oliveira da Serra avançar com uma campanha, muito bem delineada no meu entender de consumidor (não sou especialista em publicidade), que assume a estratégia empresarial da marca de forma clara.

A marca afirma que quer plantar o maior olival do país, e passo a citar: "Todas elas (as quintas com olival - HF) fazem parte da nossa ambição em ter o maior olival do país e transformar Portugal num dos maiores produtores de azeite do mundo. Ou mesmo o maior. Porque não?". A mensagem é clara e ancorada em visões sobre o futuro desenvolvimento de Portugal: O nosso produto é bom e podemos fazer com que Portugal seja um grande produtor.
O crescimento da capacidade de produção passa pela plantação de olival (super) intensivo. As fotografias utilizadas na campanha mostram de facto esse tipo de olival, mas numa perspetiva romântica, com neblina matinal qb e aparentemente uma paisagem bonita. Essa imagem romântica contrasta com a realidade da cultura intensiva a base de rega, fertilizantes e pesticidas, cujo impacte ambiental ainda está por apurar e para o qual o movimento ambientalista está a começar a alertar.

Quando pergunta diretamente ao consumidor: Porque não?, torna o cúmplice de um objetivo que une empresa, consumidor e (brilhante) o País e retira espaço de manobra à crítica ambiental (algo de semelhante se passou com a energia eólica cujo capital de simpatia se baseia na ideia de contribuir para um bom comum: energias renováveis).

No entanto, a questão é mais complexa na perspetiva do consumo. Portugal é deficitário em azeite: consome muito mais que produz. O consumo de azeite está a aumentar ao nível mundial e isto coloca questões de sustentabilidade da sua produção. Para satisfazer este aumento de consumo, muito promovido devido à excelente qualidade do azeite como alimento e seus benefícios em termos de saúde, a solução passa pelo aumento da produção, quer isto dizer pela expansão do olival (super-) intensivo. Os azeites "gourmet", tanto na moda e porta-estandarte do alimente dos elites, nunca poderão satisfazer esta procura e mesmo esses são produzidos à base de azeitonas de olivais intensivas.

Como sempre, o mais fácil é dizer: "olival superintensivo em Portugal nem pensar". Assim ficamos com a bonita, tradicional e pobre paisagem alentejana e importamos, de consciência tranquila, azeite proveniente de olivais superintensivos Espanhóis, Gregos, Chineses (não tardará) ou seja lá donde for.

Mais difícil é: assumir que queremos consumir azeite, de preferência Português, portanto vamos lá discutir os impactes ambientais da cultura intensiva e ver como se pode conciliar os objetivos de produção e de salvaguarda de valores como o solo, a água e a paisagem. Eis um desafio interessante para os próximos tempos.

Henk Feith

Afinal os vigaristas são os outros

Porque corremos o risco de deixar esquecer a forma como os vigaristas trataram as pessoas de bem, aqui fica o link.

Adenda,
Não quis usar fontes secundárias, mas como o primeiro link não funciona, aqui fica o link para uma fonte secundária que permite o acesso à fonte primária de informação.
De qualquer maneira penso que já funcionam os dois links e obrigado a quem foi colaborando (começando pelo José M. Sousa, que deu a primeira indicação sobre o relatório).
henrique pereira dos santos

As minas do Portelo

Imagem de Miguel Barbosa tirada daqui
Ouvi um dia destes que as escombreiras das minas do Portelo, carregadas de elementos tóxicos, incluindo arsénio, tinham sido arrastadas para o Sabor no fim do ano passado, princípio deste, continuando a drenar para o rio, sentindo-se os efeitos da situação até à foz do rio.
Não faço a menor ideia da consistência desta alegação, por isso dei uma volta (pequena) na net para saber informações.
Encontrei duas notícias que partilho, uma de quando se romperam as barreiras que separavam as escombreiras do rio, outra já deste mês.
A primeira é extraordinária no passa culpas administrativo (como se não fosse ilegal um funcionário público não reportar formalmente uma irregularidade, com base no argumento de que é com o vizinho do lado).
A segunda muito tranquilizante na superfície, mas na verdade dizendo que vão pensar num plano que pense no que vai ser preciso fazer.
Alguém conhece a situação concreta? Alguém sabe se tem razão a administração, que diz que está tudo bem com as análises da água, ou a pessoa que ouvi num contexto mais que público dizer que pelo contrário, é uma situação gravíssima a que ninguém parece estar a dar a atenção devida?

"Terça-feira , 05 de Janeiro DE 2010
Bragança: Areias das minas de Portelo invadem rio Sabor
Toneladas de areia das antigas minas de Montesinho, em Bragança, estão a ser arrastadas pelas chuvas, destruindo campos agrícolas e a fauna piscícola no rio Sabor. Leito transbordou e transformou campos agrícolas em autênticos areais.
A situação é grave. Na aldeia de Portelo a areia entupiu e fez rebentar as condutas com cerca de 1,20 metros de diâmetro por onde passava o rio, cujo leito transbordou e alagou vários campos agrícolas que se transformaram num areal.
A areia das minas é considerada poluente, resulta da extracção do volfrâmio. "Tem silício, queima tudo. Os lameiros e hortas estão cobertos de areia, nem se vêem os muros, nem o caminho", lamentou Lurdes Rodrigues. Os habitantes querem que alguém se responsabilize.
O problema pode agravar-se. Na antiga área mineira estão depositadas centenas de toneladas de areia, na iminência de continuarem a ser arrastadas pela chuva. O rio subiu dois metros e chegou a uma habitação. "A cozinha e a sala estão alagadas", contou Lurdes Rodrigues.
Em 2007, a EDM - Empresa de Desenvolvimento Mineiro - estabeleceu um protocolo com o Câmara de Bragança com vista à reabilitação do espaço da mina, orçamentado em 1,7 milhões de euros. A primeira fase já foi executada, consistiu em trabalhos de segurança: protecção de poços, selagem de chaminés e de galerias. A segunda fase previa a reabilitação global da zona, incluindo a limpeza do rio. Não foi realizada. Fonte da EDM adiantou, ao JN, que surgiram várias dificuldades. "Não conseguimos entendimento com a pessoa que explora o areeiro", disse, esclarecendo que a empresa nada tem a ver com a mina, e que a responsabilidade da areia é de quem a explora e das entidades que lhe atribuíram a concessão.
O autarca de Bragança, Jorge Nunes, clarificou que a extracção de areia foi licenciada pela Câmara em 1995, mas que em Maio de 2009 a edilidade solicitou ao Instituto de Conservação da Natureza e ao Ministério da Economia que verificassem se o areeiro estava de acordo com a nova legislação. "O ICNB não respondeu, o Ministério da Economia explicou que o assunto era da responsabilidade do ICNB, que tem a obrigação de verificar se o licenciamento da extracção está de acordo com as características da zona", justificou. Hoje, técnicos da Câmara vão avaliar os estragos e verificar se há relação com o arrastamento de areias.
Fonte: JN"

"Plano para adoptar medidas de remediação nas minas do Portelo
Escrito por Informação, Sim 14-04-2010 09:00
Vão ser tomadas medidas de remediação para ultrapassar alguns malefícios decorrentes do arrastamento de areias das minas na aldeia de Portelo, em Bragança.
Uma decisão tomada numa reunião que juntou à mesma mesa a câmara municipal, juntas de freguesia de França e Aveleda, Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN), Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM), Direcção-geral de Energia e Geologia, Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), GNR e a Administração da Região Hidrográfica (ARH) do Norte.
Estas entidades vão primeiro fazer um plano para definir as medidas a tomar, como adianta o vice-presidente da câmara.
“A EDM, Direcção-geral de Energia e Geologia, ICNB e ARH do Norte vão elaborar um plano de remediação que será um plano de intervenção, o mais urgente possível, tendo em vista a minorização de algum impacto negativo causado pelo arrastamento das partículas finas que criaram um problema de colmatação do solo, deixando de haver arejamento” refere.
Estas medidas vão constar de um relatório que tem de estar pronto até 30 de Abril para que a intervenção seja feita o mais rápido possível.
Rui Caseiro acredita que a população pode cultivar os terrenos, mas aconselha a que se faça primeiro uma limpeza. “Penso que as pessoas poderão cultivar, embora haja um problema que é a colmatação do solo pelas pequenas partículas, embora não sejam tóxicas”. Por isso, “a limpeza desses detritos seria conveniente” sugere.
Em relação ao consumo humano da água, Rui Caseiro assegura que as análises garantem a sua qualidade e que ela pode ser utilizada através das antigas captações para o abastecimento público da cidade de Bragança.
“As análises feitas pela ARH deram valores sem problemas alguns da qualidade da água, por isso a esse nível não há problemas. O problema será a questão das partículas mas que eu penso que também serão minorizadas naturalmente” refere.
O autarca adianta ainda que este Verão poderão também ser tomadas medidas para resolver o problema em definitivo.
“A EDM está a trabalhar com a CCDRN para obtenção de financiamento necessário para resolver o problema em definitivo, o que poderá ocorrer neste Verão” adianta.
Segundo a autarquia, a CCDRN está também a avaliar a responsabilidade que assiste à empresa que faz a exploração de areias naquela zona com vista à implementação de medidas.
Escrito por Brigantia "

henrique pereira dos santos