domingo, janeiro 31, 2010

Conspiração?

imagem do artigo em causa e criticada aqui.
Olympus Mons sugeriu, há já algum tempo, quando este blog parecia um blog sobre alterações climáticas, que analisasse uma conversa de comadres que eu já tinha lido há algum tempo.
Demorei algumtempo a pegar nisto, não só por ter outras prioridades mas porque realmente já tinha lido a história e francamente não me interessava por aí além.
Mas o prometido é devido e aqui fica.
A alegação é a de que os famosos emails demonstravam uma deturpação do processo de peer review por parte de um "team", como o apelidam as putativas vítimas.
Convém ter em atenção que o artigo científico em causa era uma segunda tentativa de demonstrar o mesmo que já tinha sido dito uns anos antes (embora desta vez de forma mais limitada dada a crítica fundamentada a que tinha sido submetido o primeiro artigo com o mesmo tipo de alegações).
Vejamos os factos essenciais.
Em 5 de Dezembro de 2007 o artigo em causa é publicado on-line e só 11 meses depois é publicado em papel, no mesmo número onde é publicado um outro artigo que pretende rebater o primeiro.
Sobre isto convém dizer que qualquer director de jornal (e as publicações científicas são também publicações com objectivos de comunicação com o seu público) se pela por ter uma polémica a decorrer no seu jornal, portanto até aqui nada de novo.
A 30 de Novembro de 2007 (uma semana antes da publicação on-line) um jornalista manda as provas para alguns cientistas. Também aqui nada de novo: é normal os jornalistas terem informação previamente (muitas vezes com embargos de publicação até uma altura definida) e é normal que procurem suscitar o contraditório.
Alguns dos cientistas envolvidos acham o artigo muito mau e irritam-se com o facto de uma revista importante de climatologia o ter publicado. Independentemente de quem tem razão, este tipo de opiniões não é crime nenhum e acontece todos os dias.
Os cientistas que estão convencidos de que o artigo nunca deveria ter sido publicado por ter opções indefensáveis (esta é a sua opinião, e não discuto se é certa ou errada) procuram definir qual a melhor forma de responder e repôr o que acham que é a verdade. Normal, nada de novo.
Há depois uma troca de mails em que transparece uma certa proximidade entre o editor e os cientistas (inevitável dado serem investigadores de topo da área da revista) e em que os ditos cientistas pretendem criar uma posição mais favorável para o seu paper de resposta. Tenho dúvidas sobre a elegância deste procedimento mas não vejo nenhuma entorse fundamental do processo de peer review (o que existe sim é uma preocupação com prazos para que os dois papers sejam publicados em igualdade de circunstâncias na versão papel da revista. Como digo tenho dúvidas sobre a forma como este objectivo é perseguido, dúvidas no campo da ética, mas tenho poucas dúvidas de que coisas semelhantes se passam todos os dias neste mundo).
Tenho sobretudo dúvidas sobre a actuação do editor em alguns passos, incluindo o facto de não informar os autores do primeiro paper sobre o que está a acontecer, mas é muito forçado transformar estas eventuais falhas do editor da revista num problema de manipulação de dados e do processo de publicação por parte do dito team.
Francamente a maior parte do artigo do American Thinker que Olympus Mons me pede para comentar é uma conversa de comadres sem qualquer relação com a suposta "fabricação" de dados científicos: em nenhum momento esteve em causa a publicação do primeiro artigo (excepto o facto de ter sido rejeitado noutras revistas, mas isso acontece todos os dias e é a vida). Pelo contrário, apesar de rejeitado noutros lados foi possível publicá-lo, demonstrando que o sistema tem escapatórias suficientes.
E em nenhum momento o team foge ao confronto científico, pelo contrário, vai ao encontro dele escrevendo um artigo para rebater o primeiro.
O mais curioso que os mails demonstram é que apesar do team entender que o paper nunca deveria ser publicado ele efectivamente foi publicado.
Se há coisa que fica demonstrada é que não é verdade que o team tenha capacidade para sufocar a divergência.
henrique pereira dos santos

sábado, janeiro 30, 2010

A gestão do Parque Natural das serras de Aire e Candeeiros


Este post é bastante interessante porque corresponde a uma opinião bastante comum nos meios da conservação sobre a gestão do PNSAC (a fotografia é retirada também do mesmo blog).
Vale por isso a pena analisá-lo no que ele tem de essencialmente correcto e no que ele tem de essencialmente errado.
No que diz respeito à forma como são tratados os visitantes, à sinalização, à falta de indicação (ou pior, à indicação errada) de horários o post está essencialmente correcto. É um diagnóstico de problemas antigo e consensual. O difícil está no que fazer a partir deste diagnóstico. Não é no entanto essa a matéria que vou tratar neste post, apenas referindo de passagem que existia uma estratégia claramente definida sobre este assunto, cujo estudo base está no site do ICNB, mas que, como de costume, é letra morta.
Já quanto à questão da integração da extracção de pedra na gestão da área protegida vale a pena perder algum tempo.
O post tem um retrato desencantado e comum: "o actual cenário é já dificilmente aceitável numa área com um estatuto de protecção mínimo. Se as coisas vão ainda mudar para pior (como permite o Ministério do Ambiente) ou para muito pior (como exigem os autarcas), então é melhor acabar com a farsa de que isto é um parque natural. Se só as pedreiras são importantes, se o esforço de preservação da natureza não traz qualquer proveito à região nem aos seus habitantes, então extinga-se o Parque Nacional das Serras de Aire e Candeeiros, e deixem de se atrair visitantes com o engodo de que esta é uma área protegida".
No entanto este retrato tem bastantes imprecisões e equívocos.
O primeiro (sem qualquer ordem de prioridade ou importância) equívoco é o de que as áreas protegidas existem para os visitantes e que se os visitantes não saem de lá satisfeitos, então mais vale extinguir a área protegida. Isto não é verdade. As áreas protegidas existem enquanto instrumento administrativo de conservação de valores. Este é o ponto a partir do qual faz sentido discutir a classificação ou não de uma área protegida. Dito isto, é verdade que a visitação é uma questão estruturante porque a política de conservação da natureza depende do apoio do público e isso pressupõe uma gestão cuidada da comunicação, o que implica o desenho de modelos de visitação que tenham como objectivo aumentar o apoio do público às políticas de conservação.
O segundo equívoco, bem mais sério, é o de confundir as áreas de extracção com a totalidade da área protegida. As áreas de extracção, que são importantes sob bastantes pontos de vista, representam uma percentagem pequena da área total do Parque, e é tendo em conta esse peso relativo que deve ser analisada a sua influência na gestão da área protegida.
O terceiro equívoco é o de que as áreas de extracção de pedra são desertos patrimoniais. Isso não é de todo verdade. Não só existe património geológico e espeleológico que é tido em conta na gestão das áreas, embora as pessoas possam não se aperceber facilmente desse aspecto, como há património mesmo nas áreas de extracção. Por exemplo, as escombreiras das pedreiras são provavelmente os sítios onde é mais fácil encontrar Inula montana (não sei se ainda tem este nome). Do mesmo modo, algumas áreas hoje recuperadas (e que não são percebidas pelas pessoas como áreas de antiga extracção) são excelentes laboratórios de evolução e mesmo de construção de novos habitats. Por exemplo, é fácil fazer pontos de água numa área com fortes limitações de água à superfície, e na verdade o enchimento de áreas com escombros consegue criar bolsas de solos mais fundos numa zona onde o substrato de rocha firme está geralmente a escassos centímetros das superfície.
Quarto equívoco é esquecer que existem interacções importantes entre pessoas e património natural que não são tidas em atenção no parágrafo que citei. Por exemplo, a gralha de bico vermelho é dependente de áreas de vegetação muito rasteira e, preferencialmente, com utilização pelo gado, o que implica perturbação permanente, com gado e com fogo. Ora se não houver pessoas para fazer isso é muito complicado parar a sucessão ecológica. Dir-se-á que isso em si não é um problema. Eu direi que sendo em parte verdade, também não deixa de ser verdade que as pessoas não estão disponíveis para a perda de património que isso implica. As pedreiras, ao criarem riqueza e emprego são geradoras de recursos importantes para a conservação (incluindo o trabalho agrícola em tempo parcial).
Quinto equívoco é considerar-se que do ponto de vista da gestão do território se estaria melhor desclassificando a área, o que está longe de ser verdade. Foi nestas áreas que foram impostas pela primeira vez cauções sistemáticas para a recuperação de pedreiras, o licenciamento destas pedreiras e a fiscalização associada, muito maior que no resto do país, influenciou decisivamente a gestão e o enquadramento legal do sector, muitas áreas foram retiradas da exploração, foi muitas vezes imposto um modelo de gestão que implica a recuperação simultânea de áreas já esgotadas das pedreiras e também aqui se desenvolveram muitas técnicas e modelos de gestão que culminaram em recuperações de extensas áreas de pedreiras pelos seus exploradores. Retirar as áreas de pedreira da área protegida não tinha tido qualquer benefício, e mantê-las dentro da área protegida permitiu uma gestão muito mais cuidada (o que não é o mesmo de dizer que é isenta de erros, muitos foram cometidos, e por alguns deles sou o responsável directo, dizendo com clareza que provavelmente há património natural que hoje não existe por minha responsabilidade).
Muitas vezes vi negadas propostas minhas para desenvolver programas de visitação orientados para as áreas de exploração de pedra exactamente porque se entendia (provavelmente com alguma razão) que canalizar visitação para essas áreas criava mais problemas à gestão da área protegida que os que ajudava a resolver.
Mas continuo convencido de que é preciso levar as pessoas a essas áreas, discutir o que lá se faz, discutir as razões de cada um e permitir aumentar o grau de compreensão do público face à gestão de situações limite como esta, onde o conflito de interesses públicos divergentes é muito agudo.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Prioridades no Ambiente

Saiu esta semana o Índice de Desempenho Ambiental das Universidades de Yale e Columbia (The 2010 Environmental Performance Index - EPI). Este Índice analisa dez categorias de políticas ambientais em 163 países com base em 25 indicadores (ver http://epi.yale.edu/). Portugal, embora recuando face à posição do ano passado situa-se, no segundo grupo de desempenho ambiental numa relativamente confortável 19ª posição, em linha com a maioria dos países Europeus.

(http://epi.yale.edu/file_columns/0000/0045/alphacountryprofiles_epi2010_complete.pdf)

Os dados mostram aquilo que em princípio já sabíamos. Nas políticas relacionadas com a água, o saneamento básico e actividades associadas está praticamente tudo feito (falta repensar a eficiência do modelo institucional de gestão, mas isso a este nível são detalhes), assim como nas políticas de protecção da Biodiversidade e redução de impactos sobre os Ecossistemas estamos ao nível do pior que é conseguido pelos nossos parceiros da União (e mesmo atrás de muitos países em desenvolvimento…).

Daqui, torna-se óbvio (se é que já não o era) que pensar numa política de Ambiente em Portugal obriga a equacionar prioritariamente o que fazer para garantir o reforço da Vitalidade dos Ecossistemas no território nacional. Bom desafio para o Ano Internacional da Biodiversidade que agora começa.

João Menezes

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Preservando um lugar para a ciência na era da democracia


Sugestão de leitura: "How should scientific advice be incorporated into the political decision making process? Even experts can't keep up with the torrent of studies published in their own field, and, supposedly, scientific issues—from climate change to biodiversity loss—have obvious political components. How is advice treated in an age when experts are increasingly viewed with suspicion and distrust?"

Ler notícia completa aqui

"Hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável"

Ler hoje o Público, depois de ter escrito o post de ontem, poderia ter-me dado alguma satisfação decorrente de aparentemente não ter dito muitas asneiras numa área que não é a minha.
Mas não, foi um nó na garganta que foi crescendo.
O défice que se reduz com as receitas extraordinárias das concessões das barragens (e o movimento ambientalista a falar de património natural importante que desaparece, a discutir a racionalidade económica de investir em produzir mais em vez investir em ser mais eficiente, mas a deixar de lado a questão essencial da opção política pelo endividamento) e venda de património (explicitamente edifícios, terrenos, habitações e outros bens de investimento).
A dívida, com juros a crescer nos próximos anos, das obras não essenciais muitas vezes contestadas pelo movimento ambientalista apelidado de inimigo do desenvolvimento pelos que prometiam o paraíso na Terra através de Alqueva (mais 11% da verbas do PRODER para afundar neste lago), auto-estradas para desencravar o interior (encravado também pelo desvio dos 11% das verbas do PRODER gastas em Alqueva), Pólis e outras coisas.
Discussões sobre o excesso de construção na Matinha e o destino dos hospitais de Lisboa, com o Estado central a pedinchar 9,5 hectares de terreno às autarquias, como se a localização de um novo hospital fosse uma questão de disponibilidade de terrenos em abstracto e não de necessidade de pessoas concretas.
O pior ano da procura na aviação comercial em mais de cinquenta anos, que não levanta dúvidas aos que se recusam a discutir a proposta de manter a Portela e ir crescendo noutros lados à medida das necessidades, como há muito propõe a generalidade do movimento ambientalista, porque o futuro só será risonho com mais uma obra fundamental e estruturante. Provavelmente porque isso pode não ser do interesse da TAP e o Estado precisa do dinheiro da sua privatização, em mais uma demonstração da captura do Estado pelos interesses sectoriais.
A empresa que fazia os despejos que cortaram a CREL por semanas e que ao mesmo tempo construía e pagava uma estrada para a Câmara Municipal da Amadora (a quem com certeza falta o dinheiro para fazer as estradas necessárias nos sítios adequados).
Mas o que verdadeiramente me arrumou foi ver o gráfico que reproduzo acima e ver como os efémeros ocupantes do poder negociaram as concessões das estradas de forma a que até 2013 as contas sejam baixinhas e simpáticas e depois das eleições que se farão nesse ano quem as ganhar (provavelmente por falta de comparência dos adversários) que resolva a súbita e incompreensível subida das rendas, que liquidarão qualquer hipótese do Estado decidir do destino dos nossos impostos durante muito tempo.
Nessa altura será inútil votar porque não há liberdade para decidir: quem quer que seja o incumbente só terá como alternativas pagar as dívidas das obras dos outros (se tiver com que), independentemente de cumprirem os objectivos para que foram construídas ou abrir falência.
No fundo deixámos de nos preocupar em viver com o que temos e alguma coisa que herdámos (isto é, o que sobrou da riqueza que antes de nós foi criada) e passámos a usar os recursos dos nossos filhos prometendo-lhes que com o que lhes tiramos hoje lhes vamos deixar uma herança fabulosa.
Com este passe de mágica livramo-nos da responsabilidade dos riscos que assumimos, empurrando o risco para os nossos filhos, o que aliás é muito conveniente porque eles não podem protestar.
Escolhi uns versos de Jorge de Sena para título e fui simplesmente verificar como o desespero e a angústia podem apesar de tudo ser tão bonitos. Especialmente quando a música ouvimo-la nós mas o desespero é o dos outros.
Infelizmente parece ser exactamente o contrário do que nos espera daqui a poucos anos.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, janeiro 27, 2010

A ambiente e as contas do Estado


A cada novo Orçamento de Estado procura-se uma análise ambiental.
Infelizmente essa análise costuma partir de dois princípios que estão por demonstrar:
  1. o Estado é o grande actor em matéria ambiental;
  2. o carácter ambiental do Estado pode ser aferido pela dimensão e conteúdo das rubricas estritamente ambientais.
Há muito tempo que penso que a abordagem da generalidade do movimento ambientalista ao processo de decisão pública é deficiente.
Comecei a ter mais consciência desse facto na discussão sobre as razões que levaram Cavaco Silva a optar pela ponte do Montijo em detrimento da ponte do Barreiro (uma decisão ambiental e territorialmente completamente errada).
A generalidade do movimento ambientalista protestou contra os interesses obscuros e coisas que tal. Eu procurei argumentar que a questão decorria da falência progressiva do Estado português (na altura não usei esta ideia de forma explícita, mas o que disse na altura é para mim enquadrável neste processo).
O que estava em causa era a necessidade que o Governo sentia de fazer a obra, mas ao mesmo tempo não agravar o défice, razão pela qual aquela ponte foi a primeira feita em project finance (que agora se identifica melhor como parcerias público privadas). Nesse tipo de projectos o risco é uma questão central e a certeza (técnica e de tráfego) associada à construção da ponte no Montijo (exclusivamente rodoviária) era muito maior que em relação à ponte (rodo-ferroviária) do Barreiro.
Mais tarde tentei por diversas vezes influenciar posições ambientalistas sobre projectos, nomeadamente de estradas, por via da discussão da sua fundamentação económica (incluindo as delirantes previsões de tráfego em que muitas se baseiam).
E repetidamente tenho chamado a atenção para o facto da opção por parcerias publico privadas depender cada vez menos do value for money que da necessidade política de obra sem agravamento do défice (na realidade só se justifica fazer parcerias publico privadas quando a eficiência da gestão privada de um projecto é superior ao custo suplementar do crédito, por via do risco menor do Estado, da remuneração dos capitais e por aí fora. Para isso acontecer todo o risco tem de estar do lado do privado porque é esse risco que o leva a ser o mais eficiente possível na aplicação dos recursos).
Ora o que tem acontecido é que nós fazemos parcerias publico privadas por razões políticas e orçamentais, sem que daí resulte outra coisa que não seja o aumento da capacidade de fazer obra (uma questão politicamente importante) porque atiramos com o pagamento para as calendas (quem vier atrás que apague a luz).
Não se pense que este processo não tem efeitos reais na nossa capacidade de decidir sobre a qualidade do nosso quotidiano.
Só para dar um exemplo, o garrote do endividamento que liquida toda a liberdade de escolha no investimento público, traduz-se no facto do Estado prescindir de usar os seus bens imobiliários para garantir qualidade do espaço urbano, transformando-os no que a cidade precisa, para, pelo contrário, passar a patacos, os quartéis nas melhores localizações, os hospitais que abandona, as escolas de que não precisa, as lisnaves, as siderurgias, as cufs que tem nas mãos.
A fraude do Pólis, um programa de especulação urbana disfarçado de qualificação ambiental é, desse ponto de vista, paradigmático.
Por isso o Estado se entretém a vender licença, isto é, autorizações em sítios e circunstâncias que não o aconselhariam, com o argumento do desenvolvimento económico.
Desse ponto de vista, este Orçamento do Estado é tenebroso para a política ambiental do país, mesmo que tenha benefícios fiscais para os vidros duplos e para o isolamento dos telhados, que é bom, sem dúvida, mas é muito menos que dar um chouriço em troca de uma vara de porcos inteira.
A dívida do Estado é a maior ameaça ambiental que o país tem.
henrique pereira dos santos

terça-feira, janeiro 26, 2010

Erradicar para conservar

Foto de Jan Buys, tirada no Alvão em 2003


A semana passada, recebi de um amigo um e-mail com uma listagem das espécies que tinha observado durante uma saída de campo que tinha feito às lagoas de Chaves, existente junto ao Rio Tâmega, entre algumas espécie como a Andorinha-do-mar, o Mergulhão-pequeno, a Garça-real ou Aves-frias, apareceu um mamífero, o Visão-americano (Mustela vison).

É sempre bom ver uma espécie rara, contudo esta é uma espécie exótica e o seu carácter invasor e oportunista poderá ter um impacto negativo nos sistemas aquáticos. Não me admirava nada que muitas espécies de aves que nidificam nesta zona (regionalmente uma área importante para avifauna aquática), possam vir a sofrem impactos directos (e.g. predação) ou indirectos (e.g. perturbação ou efeito repulsa) face à sua presença.

Não sendo eu especialista em aves, a minha maior preocupação é sobre o impacto que esta espécie exótica e invasora possa provocar sobre a Toupeira-de-água (Galemys pyrenaicus) espécie de mamíferos classificada como Vulnerável (LVVP), pertencente ao anexo B-II e B-IV da Directiva Habitats, endémica da Península Ibérica e Pirenéus e presente na Bacia do Tâmega.De facto uma das ameaças identificada no PSRN200 é a introdução e expansão de espécie animais não autóctones, nomeadamente os potenciais predadores da Toupeira-de-água (e.g. Visão americano e Lúcio), deste modo uma das orientações de gestão referida no mesmo Plano é controlar introduções furtivas de espécies animais exóticas e controlar ou erradicar as populações já introduzidas.

A erradicação de qualquer espécie (de fauna, já a flora é outra conversa) é sempre questionável e polémica, mas será que vamos perder a oportunidade para resolver o problema em quanto temos algum controlo?


Paulo Barros

o polvo



Acerca de teorias da conspiração em geral, que parecem fazer algum sucesso, também no meio ambientalista; e de uma em concreto, particularmente rebuscada, publicada ontem na lista Ambio sobre um suposto sismo (?) que recentemente abalou o Haiti...

Este mês, é a segunda vez que me roubam galinhas. Decidi montar guarda, para ver se descubro o culpado. Ou melhor, eu sei quem é o culpado... apenas quero provar quão certo estou, para não se rirem mais da minha cara, na tasca da aldeia. Coitados. Boa gente, sempre pronta a acreditar em respostas simplistas para tudo o que acontece. Não veem para lá do visível! A meio da noite, o inusitado e frenético cacarejar vindo do galinheiro faz-me saltar da poltrona. Da janela embaciada, nada se vê. Saio em passos corridos rumo à escuridão, por entre a pequena vinha, e vejo raios de luz riscarem o céu. Estrelas cadentes, chamam-lhes alguns, mas eu sei lá o que mais inventaram... dos aviões auto-pilotados que espiam tudo, aos satélites que, do céu, conseguem ler as páginas dos jornais que eu, no alpendre da casa, folheio... Eu sei lá! O imperialismo usa os mais maquiavélicos meios de controlo para tudo e todos vigiar. É como um enorme polvo, inócuo, com infinitos tentáculos que percorrem cidades, vilas e aldeias de todo o mundo, abrem portas, ouvem as mais silenciosas conversas, matam incómodas personagens. Move supostos poderes, que mais não são do que seus testas de ferro. Pinta de diabo os santos que escolhe aniquilar. Monta o cenário e, com bombas ocultas no fundo do mar, ceifa agora a vida a muitas dezenas de milhares de inocentes. Os seus tentáculos percorrem agora as ruas de Port-au-Prince. Por entre corpos inertes, entulho e desgraça, sugam o fruto do seu veneno.

O breu da noite sem luar não me deixa ver para além do escuro. Volto para casa. Embrulho-me em dois cobertores. Tenho frio. Muito frio. A luz dos carros, que fazem a curva da estrada, penetra pela janela da pequena sala. As paredes brancas da sala, são pontualmente percorridas por pequenos mas assustadores quadrados iluminados. Parecem olhos que me observam e não me deixam dormir. De madrugada, menos duas galinhas no meu galinheiro. Na vinha, coberta de geada da invernia, nem o cantar dos pássaros se ouve. Silêncio. Apenas um vulto de uma raposa que corre como se tivesse visto o diabo, por entre as videiras já podadas. Um dia destes provo a certeza da minha suspeita. Aos simplistas, porque para mim há muito que deixou de ser preciso.

Gonçalo Rosa

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Fabricar caro ou importar barato?

neste post me tinha referido ao facto da importação de electricidade implicar menos custos que a sua produção a partir de eólicas (em rigor com quase todas as outras fontes também, em grande parte do dia), pelo menos aos níveis actuais dos preços de petróleo.
Acho que vale a pena discutir isso, clarificar isso, não embarcar na propaganda de que se pouparam não sei quantos milhões em importações quando de facto se gastou mais para produzir a mesma quantidade de energia.
Mas também acho que vale a pena combater a ideia do outro extremo de que se está perante um absurdo mais que demonstrado e coisas que tal, como faz o ciência não é neutra.
Há um preço, convém defini-lo com clareza, trocamo-lo por um almoço e o que temos a discutir é se o almoço vale o preço, com racionalidade e frontalidade.
A demonstração (pelo menos é assim que o seu autor lhe chama) do absurdo eólico é feita com base em preços de uma situação concreta que o autor extrapola com base em inferências mais que duvidosas, usando correlações climáticas escandinavas, por exemplo, usando dias concretos para tirar ilações gerais e coisas do género.
Não pretendo demonstrar que o autor da demonstração está errado.
Só pretendo expor dúvidas sobre os seus cálculos, deixando aqui dois gráficos e uma figura: o primeiro gráfico compara a situação demonstrativa usada (um dia concreto, a azul) com a média dos preços ao longo do ano (para ver a sua representatividade), o segundo dá uma visão dos preços spot de todo ano de 2009 e mais uns dias de 2010 (os dias mais próximos estão à esquerda, como a situação dita representativa, o dia 1 de Janeiro de 2009 está à direita) para se ter a noção do que representa a situação que se pretende demonstrativa e a figura mostra a situação das albufeiras em Dezembro de 2009, que se pretende que seja demonstrativa da tal situação absurda, quando na verdade está bastante acima da média.
Volto a repetir, são dúvidas de ignorante.




henrique pereira dos santos

Ano Internacional da Biodiversidade

Artigo publicado no Público de 24 de Janeiro, com alterações pontuais, sobretudo no primeiro parágrafo, que a minha negligência deixou que saísse para publicação com um português horrível
Ex.ma Srª Ministra do Ambiente e cara Dulce Pássaro (espero que não se ofenda com este tratamento em memória do tempo em que nos cruzámos no Ministério do Ambiente quando eu insistia em que o aterro do Caldeirão deveria ser precedido de uma análise de incidências ambientais à luz do direito comunitário. Do seu lado respondiam que não havendo ainda transposição da directiva habitats, embora por responsabilidade do Estado Português, não era obrigatório ouvir o sector onde eu trabalhava pelo que se avançaria com o projecto, sem análise de incidências ambientais, para cumprir o calendário político).
Li com atenção o seu artigo do Público de 15 de Janeiro apelando a que todos os que queiram assinalar este Ano Internacional da Biodiversidade se juntem à sua aposta.
Respondendo a esse apelo aqui estou.
Nos muitos anos que passei no Ministério do Ambiente, reparei que a falta de sensibilização para a Biodiversidade de que fala, e bem, a Sr.ª Ministra não era um grande problema no público, não o era, salvo algumas excepções, nos promotores, mas era muito evidente nos decisores públicos aos mais variados níveis.
Conhece tão bem como eu essa situação, portanto não preciso de lhe lembrar o efeito de se ter contratado especificamente um Presidente da Comissão de Avaliação de Impacte Ambiental da Barragemdo Sabor cuja sensibilidade está bem expressa nos comentários que foi fazendo aos pareceres técnicos emitidos.
Não preciso também de lhe lembrar a falta de sensibilidade do decisor da barragem de Odelouca, que com a pressa do calendário político lançou um concurso de concepção construção de uma barragem (foi a primeira vez que tal vi), muito antes de decididos todos os aspectos em discussão em matéria de biodiversidade, do que resultaram atrasos e custos brutais para o processo.
Não preciso de lhe lembrar as mentiretas dos responsáveis pelas Estradas de Portugal, que com falta de dinheiro para fazer uma estrada em Vimioso decidiram inventar que o problema era o rato de cabrera.
Não preciso de lhe lembrar as várias auto-estradas com concessões atribuídas sem estarem acabados os estudos ambientais, de que resultaram alterações de traçado em que a posição negocial do Estado estava completamente enfraquecida, optando os responsáveis por culpar os lobos, em vez da sua incompetência, para justificar os milhões de sobrecusto.
Não preciso de lhe lembrar as campanhas públicas do Sr. Presidente da AICEP (e organismos antecedentes) responsabilizando a biodiversidade pelos atrasos na aprovação de projectos que, tal como foram apresentados, violavam grosseiramente a lei, com o objectivo de pressionar a decisão e enfraquecer os organismos e os técnicos responsáveis pela salvaguarda da biodiversidade.
Não preciso de lhe lembrar os anúncios públicos de projectos, protagonizados pelo Sr. Primeiro Ministro, mesmo antes das avaliações ambientais, numa clara demonstração da insensibilidade que tão bem caracteriza no seu artigo:
Não é que alguém se afirme contra a natureza ou não amigo da biodiversidade. Em abstracto todos a apreciam. Mas quando em concreto se trata de fazer as dificeis opções entre outros valores, outros projectos, e a biodiversidade, aí surge facilmente a rejeição da opção de conservar.”
Dificilmente se poderia dizer de melhor maneira.
Por isso venho oferecer-lhe a minha proposta: organizar umas sessões de sensibilização no início do Conselho de Ministros para a qual levarei um caso concreto e o seu desenvolvimento após a decisão, o seguimento no contencioso comunitário e o que a falta de sensibilidade para a biodiversidade custou ao uso eficiente dos recursos, ao bolso dos contribuintes e, sei que para si não é um detalhe, à biodiversidade.
Não sei de acção mais barata que tenha um potencial positivo tão grande como esta dirigida exactamente para onde a falta de sensibilidade é mais evidente e onde mais falta faz.
Seria uma belíssima maneira de assinalar o Ano Internacional da Biodiversidade.
henrique pereira dos santos

domingo, janeiro 24, 2010

U.S. Feeds One Quarter of its Grain to Cars While Hunger is on the Rise

by Earth Policy Institute on January 22, 2010

The 107 million tons of grain that went to U.S. ethanol distilleries in 2009 was enough to feed 330 million people for one year at average world consumption levels. More than a quarter of the total U.S. grain crop was turned into ethanol to fuel cars last year. With 200 ethanol distilleries in the country set up to transform food into fuel, the amount of grain processed has tripled since 2004.

The United States looms large in the world food economy: it is far and away the world’s leading grain exporter, exporting more than Argentina, Australia, Canada, and Russia combined. In a globalized food economy, increased demand for food to fuel American vehicles puts additional pressure on world food supplies.

From an agricultural vantage point, the automotive hunger for crop-based fuels is insatiable. The Earth Policy Institute has noted that even if the entire U.S. grain crop were converted to ethanol (leaving no domestic crop to make bread, rice, pasta, or feed the animals from which we get meat, milk, and eggs), it would satisfy at most 18 percent of U.S. automotive fuel needs.

Ethanol Demand, Rising Food Prices, and Hunger

When the growing demand for corn for ethanol helped to push world grain prices to record highs between late 2006 and 2008, people in low-income grain-importing countries were hit the hardest. The unprecedented spike in food prices drove up the number of hungry people in the world to over 1 billion for the first time in 2009. Though the worst economic crisis since the Great Depression has recently brought food prices down from their peak, they still remain well above their long-term average levels.

The amount of grain needed to fill the tank of an SUV with ethanol just once can feed one person for an entire year. The average income of the owners of the world’s 940 million automobiles is at least ten times larger than that of the world’s 2 billion hungriest people. In the competition between cars and hungry people for the world’s harvest, the car is destined to win.

Continuing to divert more food to fuel, as is now mandated by the U.S. federal government in its Renewable Fuel Standard, will likely only reinforce the disturbing rise in hunger. By subsidizing the production of ethanol, now to the tune of some $6 billion each year, U.S. taxpayers are in effect subsidizing rising food bills at home and around the world.

For more information on the competition between cars and people for grain, see Chapter 2 in Plan B 4.0: Mobilizing to Save Civilization (New York: W.W. Norton & Company, 2009), on-line for free downloading with supporting datasets.

Neutro, seguramente não, ciência, talvez



O blog nuclearista A ciência não é neutra é um blog a que vou de vez em quando aprender umas coisas.

Vou menos do que iria se não tivesse alguma dificuldade em lidar com pessoas que insultam os outros com a maior das facilidades mas demonstram uma hiper-sensibilidade à menor crítica que lhes seja feita.

Como acontece com a generalidade dos nuclearistas, a crítica às energias renováveis é uma constante. É uma crítica muitas vezes justa, e partilho com aquele blog alguma apreensão pela ideia instalada de tudo o que é renovável é bom e o que é preciso é andar (talvez por ouvir no fundo dessa argumentação o eco do para Angola em força que a pátria não se discute, agora substituído por renováveis).

Também acho que é preciso discutir o preço dessa política e tenho poucas dúvidas de que na sua base não está qualquer preocupação ambiental mas sim o facto das renováveis serem um meio fácil de captar investimento sem aumentar o défice. E embora com algum prejuízo da competitividade, a política compensa porque isso da competividade é coisa mais difícil de dar por ela e pode sempre dizer-se que são os empresários que são maus.

Mas o conjunto de posts sobre o facto de pontualmente se estar a produzir energia a um preço de 9 cents o kWh e a entregar de graça a Espanha merece alguns comentários de um ignorante como eu, que não comento lá no sítio dada a tendência do dono do blog se sentir insultado por dá cá aquela palha.

O essencial da questão é que em algumas alturas chove muito, venta muito e há pouco consumo. Nessas alturas, como o comprador está obrigado a comprar toda a electricidade eólica produzida, ele é obrigado a entregá-la em qualquer lado. Como não há consumo suficiente em Portugal, entrega ao lado. Mas como ao lado estão com o mesmo problema, e não precisam da energia, aceitam-na, mas de graça.

Onde começam as minhas perplexidades?

Em primeiro lugar no facto do autor do blog deixar entender que toda essa energia está a ser produzida a 9 cents por kWh, o que me parece que não será bem assim porque aqui estará incluída alguma energia produzida de outra forma (hídrica, por exemplo).

Depois, porque daria a impressão de que durante todo o tempo em que isso acontece a exportação seria a custo zero (enfim, num post mais à frente lá se fala da exportação em horas de cheio, que será a 5 cents, e há pelo meio um diagrama que mostra variações diárias).

Também não percebo por que razão se escolhe como diagrama demonstrativo um que diz respeito a um Domingo.

E tenho ainda dificuldade em perceber como se tiram conclusões gerais de uma situação particular (todos os dias há produção de muitos outros bens que não se vendem, desde bilhetes de avião, a quartos de hotel a outros menos perecíveis, como bananas), em vez de se fazer a análise global da questão.

Reparo ainda, que com certeza por distracção, quando se demonstra a correlação entre precipitação e vento se esquece a frase final do gráfico: essa correlação é particularmente verdadeira para barragens sem albufeira. Claro que pegar em correlações climáticas escandinavas e aplicá-las em Portugal é um detalhe, no meio disto tudo, incluindo essa coisa da irregularidade das chuvas nas nossas condições, que faz com que haja muitos anos em que faz vento, chove, mas ainda assim muitas albufeiras (que muitas vezes são de regularização inter-anual) estão muito menos que cheias.

Enfim, estou de acordo na necessidade de discutir o preço da política das renováveis (nomeadamente face à apatia perante a eficiência energética), estou de acordo na necessidade de introduzir racionalidade económica e etc..

Mas quando vejo tantas coisas a levantar-me dúvidas sobre a forma como um nuclearista lida com as renováveis fico com a sensação de que talvez as renováveis sejam mais competitivas do que parece à primeira vista, sobretudo face ao nuclear.

Mas isto é um ignorante a falar, claro.

henrique pereira dos santos

business as usual ?



Há algumas semanas atrás, a SPEA lançou um inquérito ao sócios sobre qual deveria ser a ave do ano. Existiam três propostas disponibilizadas, uma das quais a Cegonha-preta. Como existiam vários erros na página daquela espécie, publicada no website da SPEA, entendi contactar o Director Executivo da SPEA, Luís Costa. Eis a troca de e-mails:

04.01.2010
Olá,
Para além de outras incorrecções/imprecisões no texto aqui publicado, chamo à atenção que o nome ciêntífico da Cegonha-preta não é, evidentemente, Phoenicopterus ruber...
Gonçalo Rosa

05.01.2010
Obrigado, Gonçalo, já mandei rectificar o nome, e a o parágrafo das ameaças fica assim, vê lá o que achas:
A Cegonha-preta encontra-se em perigo?
Esta espécie está classificada com o estatuto de ameaça de “Vulnerável”, pelo Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, enfrentando algum risco de extinção na natureza.
As maiores ameaças à sua sobrevivência são a perturbação humana, especialmente devido a actividades de recreio e de turismo em áreas de nidificação. A colisão com linhas eléctricas é também uma ameaça a considerar.
Abraço
Luís

05-01-2010
Olá,
Não há nenhuma informação que suporte a afirmação que a colisão com linhas eléctricas é uma ameaça a considerar. As principais ameaças são a perda de habitat de nidificação (p. ex. construção de barragens) e a perturbação humana em áreas de nidificação e de concentração pós-nupcial (p. ex. actividades de recreio e de turismo, actividades florestais, entre outras).
1 abraço,
Gonçalo

Depois deste email, não recebi resposta/contestação ao que afirmei. O primeiro erro que apontara foi corrigido, o restante, não.

Hoje, no Público (ver aqui), fiquei a saber que a Ave do Ano eleita pela SPEA foi mesmo a Cegonha-preta. A notícia cita a SPEA, referindo que “A maior ameaça à sua sobrevivência é a perturbação humana, especialmente devido às actividades de recreio e de turismo em áreas de nidificação. A colisão com linhas eléctricas, a florestação com espécies exóticas e a poluição dos rios e ribeiras são também ameaças consideráveis”.

Tendo trabalhado vários anos, enquanto técnico do então ICN, precisamente com Cegonha-preta, não seria razoável a SPEA questionar a pertinência da minha correcção contrapondo-a com evidências ou provas do contrário, assim sustentando o que insistem em afirmar? Em busca de resposta para esta insistência e silêncio, não encontro nada de muito agradável. Deve ser da minha mente perversa, ferina e sempre desconfiada da candura natural das coisas...

Gonçalo Rosa

sábado, janeiro 23, 2010

Para quê estar a moer a QUERCUS?


"Para que serve este post?"
José Rui, num comentário ao post, não se conforma com o facto de eu criticar a QUERCUS, quando para dizer mal da QUERCUS há tanta gente.
Eu diria que esta análise da utilidade da crítica em função de uma hierarquia de objectivos é tipicamente leninista. Ou melhor, nunca começando por aí, serve muito bem qualquer totalitarismo.
Para mim a crítica não tem outro objectivo que não seja corrigir um erro, não entro com outro tipo de considerações, como seja o facto de quem faz asneiras ser meu amigo, me dar geito ou ter objectivos semelhantes aos meus.
Portanto o post não serve para realmente mais nada que não seja manifestar a minha discordância em relação ao abuso da utilização dos fenómenos meteorológicos para discussões climáticas.
Digo-o em relação ao Insurgente e digo-o em relação à QUERCUS.
Para moer a QUERCUS?
Não, para que a QUERCUS não moa o esforço de racionalidade na discussão.

henrique pereira dos santos

sexta-feira, janeiro 22, 2010

QUERCUS e Insurgente: a mesma luta, a mesma falta de juízo


Este comunicado da QUERCUS é de fazer chorar as pedras.
Anda para aqui uma pessoa a ver se põe um bocadinho de juízo na cabeça dos negacionistas que confundem meteorologia com clima e a QUERCUS entretem-se a dar-lhes argumentos com parágrafos de antologia como estes:
"Na opinião da Quercus, as últimas semanas em termos meteorológicos em Portugal são sinais ou sintomas de uma alteração climática caracterizada por eventos meteorológicos extremos. O que se passou imediatamente antes do Natal na Região Oeste, o facto de Dezembro ter sido o mês mais chuvoso deste século, o ter-se passado de uma situação de seca meteorológica e de valores relativamente baixos de armazenamento das albufeiras, em comparação com a média, para uma situação de pleno armazenamento em muitos casos, são uma demonstração de uma maior irregularidade do clima.
Soube-se também agora que de acordo com a Direcção Geral de Saúde, no Verão de 2009 - ano em que as ondas de calor tiveram o seu início mais cedo – morreram precocemente mais mil pessoas. Os custos, só para o Estado, parecem ascender a mais de 80 milhões de euros, sem contar com os enormes prejuízos em termos de agricultura, edificações e infra-estruturas."
Francamente.
Amanhã estará bom para surfar de manhã ou as alterações climáticas mudaram o swell para a tarde?
henrique pereira dos santos

quinta-feira, janeiro 21, 2010

A avó do Eduardo


Neste post, Eduardo F. fez um comentário muito interessante:
"E não há dúvida que o pão que a minha avó materna fazia, com o trigo que ela ajudava a semear, na terra previamente arada com a ajuda do macho em terra de sequeiro e que ela própria depois ceifava, pão cuja massa ela mesma amassava à luz da lamparina de azeite, no forno de lenha que ela própria apanhava, era incomparavelmente melhor que qualquer sucedâneo hoje existente.Os seus netos adoravam o pão que fazia. Eu era um deles. Era, não haja dúvidas, um pão ambientalmente sustentável.Tenho, naturalmente, uma nostalgia especial por aquele pão (e filhó, e folar!) - oh, como gostaria de comer um bocado agora mesmo! -, mas ainda bem que aos meus pais e à minha geração não coube sorte igual à da minha avó. Tudo farei para que o mesmo continue a acontecer aos meus filhos."
O primeiro comentário é de que é muito interessante esta ideia maniqueísta de que temos de optar pelo que existe agora ou pelo que existiu antes. Nem por uma vez Eduardo F. parece vislumbrar duas hipóteses alternativas a estas: o que existe hoje ser impossível de manter; o que virá amanhã de diferente poder não ir no sentido do que já existiu. Ou dito de outra forma: o futuro é mesmo incerto e a única certeza é a de que não será apenas a projecção do passado.
O segundo aspecto interessante é a ideia de que a miséria (ou, sendo menos radical, a frugalidade) é sempre sustentável. Nada de mais incerto. Tudo se poderia passar exactamente como o descrito e o passado ter sido insustentável, bastando para isso que a lavoura fosse feita nos sítios errados, com as técnicas erradas, que o consumo de lenha estivesse acima da capacidade de reposição natural (situação frequente em muitos países pobres e que, a espaços, terá acontecido em algumas zonas de Portugal no tempo da avó do Eduardo), etc..
Terceiro e mais interessante: a avó do Eduardo só podia competir no mercado pelo preço, porque ninguém valorizava o que resultava do seu esforço, mas hoje seria possível que Eduardo estivesse disposto a pagar a diferenciação do produto, remunerando de forma totalmente diferente o trabalho de quem hoje esteja disposto a fazer de forma diferente. Sim, é um nicho de mercado muito pequeno, mas para o produtor que não pode competir pelo preço porque as suas condições naturais (ou sociais, mas apesar de tudo estas podem resolver-se de outra maneira) não lhe permitem ter elevadas produtividades, ter o Eduardo disposto a pagar a elevada diferenciação pode ser a diferença entre persistir ou desistir (off topic, desistir nas nossas condições não significa parar, significa evoluir de forma diferente, por exemplo, com um padrão de fogo socialmente muito mais complicado).
Quarto aspecto interessante: no longo prazo o preço da energia tenderá a subir. Isso vai implicar a reformulação da economia, beneficiando a produção que incorpora menos energia e prejudicando a que incorpora mais energia. Significa isto que vamos todos retornar ao modelo de produção da avó do Eduardo? De maneira nenhuma, hoje sabemos mais do que sabíamos sobre como produzir diminuindo a intensidade energética (os romanos já conheciam o moinho hidráulico mas nunca o usaram de forma extensa porque o trabalho escravo era um entrave à sua expansão, que só se deu na Idade Média quando a escassez de braços para a produção criou as condições para integrar totalmente esta inovação no processo produtivo).
Sendo assim, o que resultará desse processo?
O futuro.
Mesmo que algumas pessoas queiram ficar agarradas a um passado de grandezas reais e imaginárias que se tornaram entretanto impossiveis de sustentar.
Há tantos exemplos na história sobre o futuro dos reaccionários (sem juízos de valor, reaccionários no sentido etimológico, os que reagem à mudança).
henrique pereira dos santos