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quarta-feira, agosto 04, 2010

O erro das ignições

Com frequência a questão das ignições é considerada fulcral na gestão do fogo, com base numa falácia: se não houver ignições não há fogos.
O que é falacioso é pensar que será possível algum dia não haver ignições.
Esta falácia é muito ampliada por outra menos evidente: a ideia de que as ignições registadas pelo sistema de defesa da floresta contra incêndios (um nome completamente errado que é todo um programa ideológico) são as ignições que realmente ocorrem no território, o que está longe de ser verdade. Naturalmente só são registadas as ignições que ganham dimensão suficiente para serem registadas.
Por último, e como corolário, defende-se que diminuindo o número de ignições se diminui a área ardida, profissão de fé, totalmente assente num raciocínio lógico mas sem qualquer fundamento empírico.
Vejamos alguns dados.
Eu sei que o gráfico é complicado e é melhor clicar para ampliar. No essencial tem dois tipos de dados, referentes aos seis primeiros meses de 2000 a 2009: dois índices que inventei (fogachos sobre incêndios, que permite perceber em que anos há muitas ignições que são rapidamente extintas, e área ardida sobre o total de ignições, que põe em destaque o facto deste dado variar de 1 a 8, o que me parece demonstrar que não há razão nenhuma para acreditar que há uma relação directa entre o número de ignições e a área ardida) e área ardida total (dividi por cinco para não abafar vivualmente as variações do número de ignições total, que estão na mesma escala da direita do gráfico) e número total de ignições.
Para qualquer período de tempo que isto se faça é clara a falta de relação entre área ardida e número de ignições registadas. Ou melhor, existe uma relação muito mitigada, isto é, em anos especialmente benignos, como 2007, há uma diminuição tanto de ignições como de área ardida (e um aumento exponencial de fogachos face aos incêndios com mais de um hectare), mas nos anos em que arde mais área não há relação nenhuma com o número de ignições (2003 é o exemplo maior disso).
Se em vez de usarmos os dados de seis meses do ano usarmos os dados do ano total, eliminando os índices que inventei só para mostrar o que se passou em 2006, 2007 e 2008, o gráfico que compara áreas ardidas com ignições totais é ainda mais expressivo.
Em todo o seu esplendor 2006, 2007 e 2008 aparecem aqui na sua anormalidade climática. Antigamente eram usadas médias rolantes de cinco anos, mas dá muito jeito manter 2003 e 2005 nas médias do passado para poder fazer comparações sempre favoráveis, por isso a média rolante agora usada é de dez anos, mas discutir médias com séries tão curtas em fenómenos com uma variabilidade tão grande é simplesmente inútil. (já falei disso aqui e aqui)
A questão é ainda mais óbvia se em vez de usarmos o ano civil como referencial, usarmos tempos curtos que permitam olhar para os dias diferentes em cada ano.
Por exemplo, este ano, nos primeiros seis meses, houve 22 fogos que queimaram pelo menos 100 hectares. Esses 22 fogos são responsáveis por 58% da área ardida. Ou dito de outro modo, os outros 8 731 fogos são responsáveis por 42% da área ardida.
Qualquer gestor que tivesse o seu negócio assente na diminuição da área ardida estaria era preocupado em estudar estes 22 fogos e não em diminuir para um décimo os outros 8731 fogos. O argumento para não se fazer isto é que qualquer pequeno fogo se pode transformar num grande fogo.
Esta é a mais perigosa das falácias do nosso sistema de Defesa da Floresta Contra Incêndios. Pura e simplesmente isso não é verdade. Para que um fogo pequeno cresça é preciso que tenha condições para isso. Dos 22 grandes fogos, 19 ocorreram entre 20 e 31 de Julho, mas muito mais relevante, 10 foram no dia 26 de Julho, o mais típico dos dias de vento Leste, sendo que mais três foram no dia seguinte, 27, ou seja mais de metade dos grandes fogos dos primeiros meses do ano ocorreram em dois dias. Nesses dois dias, só nestes 13 grandes fogos, está mais de 45% da área ardida nos primeiros seis meses do ano.
O que têm esses dois dias de diferente dos outros?
Essa seria a pergunta normal de quem olhasse desapaixonadamente para o assunto.
Claro que esses dois dias (juntamente com 28, em que apesar de tudo se começou a conseguir fazer parar os fogos) têm o recorde de ignições registadas mas pretender que é esse número de ignições o problema é confundir causas com consequências: as razões pelas quais arde muito nesses dias e não se consegue parar o fogo são exactamente as mesmas razões pelas quais um número enorme de pequenas ignições que todos os dias existem se transformam em ignições suficientemente grandes para serem registadas.
A questão é mesmo muito simples de enunciar (mas muito difícil de resolver): com a quantidade de combustível acumulado, quaisquer meia dúzia de dias com as condições destes dois (ou se quiserem, com condições piores, isto é, condições mais típicas de vento Leste e vento mais forte, ou então com efeitos em áreas menos favoráveis ao combate, como é a fachada atlântica do Noroeste onde se fizeram nestes dias sentir os efeitos da meteorologia desfavorável aos fogos) rebentam com qualquer sistema de defesa da floresta contra incêndios.
Reparem como voltou a conversa dos incendiários, da falta de meios e por aí fora. Volta sempre nestes dias.
E no entanto o problema é outro e a sua solução está noutro lado.
Está na forma como se encara o mundo rural e o problema da acumulação de combustiveis.
A propósito, alguém ouviu o Sr. Ministro da Agricultura falar do assunto por estes dias? E explicar como o PRODER está a apoiar a gestão de combustiveis?
Estes dias têm sido pequenos avisos. Complicados, desagradáveis, mas pequenos avisos.
O sistema de defesa da floresta contra incêndios é completamente inútil quando verdadeiramente importa: quando dias especiais como o próximo sábado (a manterem-se das previsões) se prolongarem por mais de três dias vão morrer pessoas, vão destruir-se infra-estruturas, vai perder-se riqueza.
Não se vão perder grandes valores de conservação, mas perde-se confiança no Estado, o que é muito mais grave.
Pode não ser neste ano nem no próximo, mas pode dizer-se dos fogos imparáveis o que Jorge de Sena disse da morte "é de todos e virá".
Até lá haverá milhares de contos a procurar diminuir o número de foguinhos e fogachos que não valem um caracol, alguns dos quais mais valia que os deixassem fazer o trabalho de limpeza que a miopia política dos responsáveis não lhes permite compreender que nos beneficia a todos.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, maio 21, 2010

Ignições

Luis Lavoura diz na segunda ou terça feira, comentando este post:
"Agora não arde nada, Henrique. A terra ainda está totalmente húmida das últimas chuvas, como pude constatar ainda este sábado".
Penso que na quarta, terei respondido:
"Veremos se a previsão se mantém (para já mantém) e veremos os resultados no fim da semana. Estou convencido de que nada de muito relevante se passará, mas que o efeito (do episódio de vento Leste em curso até sexta ou sábado) se notará.".

Os valores não são muito relevantes, é certo, mas gostaria de fazer notar alguns aspectos (revisão da matéria dada tendo em vista a época de fogos que agora começa).
No dia 14 de Maio, há zero fogos registados em Portugal, o que só acontece em dias de chuva. No dia quinze Domingo há 10 fogos registados, normal, dadas as circunstâncias (chuva recente, ano húmido e por aí fora, como bem fez notar o Luís Lavoura). Ao fim do dia de Domingo (15 de Maio) começa a sentir-se o tempo característico das condições meteorológicas associadas ao vento Leste.
Mas só ao fim de segunda feira, se bem me lembro, se sente a verdadeira secura associada a estas condições meteorológicas. É nessa altura que escrevo o post acima citado (quase às onze da noite).
O número de fogos na segunda feira é pouco maior que o número de Domingo, mas terça e quarta há um aumento de 30% mais ou menos em cada dia e ontem, quinta, um aumento de quase 50%. E do momento em que escrevi o post até ontem o aumento acumulado do número de fogos é de 650% (partindo dos dez fogos de Domingo como 100%, os 65 de ontem representam 6,5 vezes a mais, em cinco dias). E, também relevante, um aumento muito mais acentuado do número de bombeiros envolvidos no combate.
Perguntaram-me um dia qual era o interesse de olhar para o número de bombeiros envolvidos no combate (ou para a relação número de bombeiros/ número de fogos). Acredito que esta é uma forma fácil, embora imperfeita e aproximativa, de medir a dificuldade de extinção dos fogos. Se eu tiver razão, então ontem a dificuldade de extinção subiu e muito: em relação ao dia anterior há mais que uma duplicação do número de bombeiros, embora o número de fogos apenas tenha aumentado 50%.
O que é relevante nestes números não são os valores absolutos, mas sim o efeito da entrada de condições meteorológicas como as que estamos a ter. Partindo de condições como as descritas pelos Luís Lavoura, o resultado absoluto é perfeitamente gerível. Mas partindo de condições como as que se encontram em Agosto e Setembro, episódios de cinco dias seguidos destas condições rebentarão facilmente com a estratégia oficial de extinção do fogo em fases iniciais baseada na rapidez da primeira intervenção porque o número de fogos diários passará facilmente dos 300 fogos, e em alguns deles a primeira intervenção falhará, levando à ruptura da doutrina de intervenção.
Tudo isto me leva à discussão da relevância do número de ignições (uma questão importantíssima para alguns que nos consideram um povo de pirómanos irresponsáveis) na estratégia de gestão do fogo em Portugal.
Confesso que não vejo onde esteja a evidência, ou pelo menos o indício, da relevância do número de ignições para a discussão.
Por um lado o mapa do número de ignições está desfasado do mapa da área ardida (há ignições no Noroeste povoado, mas há área ardida no interior centro despovoado). Por outro, como demonstro neste post, mas já o fiz muitas outras vezes, o número de ignições, com os mesmos pirómanos irresponsáveis, varia enormememente em função das condições meteorológicas de cada dia, pelo que esta correlação apontaria mais para causas meteorológicas (ou se preferirmos, edáfo-climáticas) que sociais como estando na origem da nossa elevada contabilidade de número de fogos (para os fanáticos das especificidades portuguesas que demonstram a nossa inferioridade como povo aconselho a olhar para as Espanhas e verificar que mais de 50% dos fogos em Espanha se localizam na Galiza).
O argumento seguinte é o de dizer que ainda que assim seja seria bom reduzir as ignições porque isso reduz a probabilidade de termos incêndios de grande dimensão.
Este argumento é errado.
É errado porque a probabilidade da existência de grandes incêndios não está relacionada com o número de ignições, mas sim com uma ignição concreta em determinada condições meteorológicas
Ou seja, é irrelevante a probabilidade de ocorrência da ignição porque basta uma (e haverá sempre ignições, pelas mais variadas razões) para que exista um forte impacto se as condições meteorológicas estiverem favoráveis ao desenvolvimento do fogo.
Estamos perante um fenómeno em que a estatística Gaussiana é inútil.
Não estamos perante Cisnes Negros porque as condições de ocorrência são perfeitamente previsiveis, mas estamos perante fenómenos que nada têm que os relacione com o tratamento estatístico de eventos com distribuições de ocorrência próxima de curvas de Gauss.
Para quem leu o livro, facilmente reconhecerá aqui a leitura recente do Cisne Negro, aconselhada por um dos meus orientadores.

Adenda
Como se pode ver no gráfico abaixo, a alteração das condições meteorológicas que se começaram sentir a partir de Sábado pararam a subida do número de fogos diário. Note-se no entanto que os efeitos destes cinco dias de vento Leste como que colocaram as coisas num patamar diferente, o que é natural pelo efeito de secagem que estas condições meteorológicas induzem. A partir daqui dependerá das condições que se forem encontrando, mais vento, menos vento e por aí fora. Mas nada de muito dramático até aparecerem novos episódios de vento Leste, cujo efeito dependerá da velocidade do vento e do número de dias seguidos nessas condições meteorológicas. Note-se a imediata descida do número de bombeiros envolvidos no combate, apesar da manutenção do número de fogos, indiciando uma muito maior facilidade na extinção dos fogos. Verdadeiramente o que está em causa é mais o problema da extinção dos fogos, que o das suas ignições, pouco relevantes para uma gestão de fogo socialmente útil.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, agosto 16, 2010

Por que razão não tem ardido o pinhal interior?

Esta pergunta já motivou algumas trocas de argumentos nas caixas de comentários deste blog.
Para mim é a pergunta chave para testar os modelos de interpretação do fenómeno dos fogos em Portugal e, consequentemente, definir linhas de política de gestão de fogos consistentes.
Mariana Oliveira, na sua peça de Domingo que ecoa a perfeita estratégia de comunicação do Governo sobre esta época de fogos (e quando digo que ecoa não estou a dizer que Mariana Oliveira está a fazer um frete ao Governo, estou só a constatar um facto cujos fundamentos não discuto) diz no sub-título de um destaque:
"Valor económico poupa Pinhal Interior"
Para afirmar isto Mariana Oliveira (corrijo, embora peça principal seja de Mariana Oliveira, esta caixa sobre o pinhal é de Helena Geraldes) serve-se de alguns factos (nenhum deles directamente relacionado com o valor económico do Pinhal Interior) e de declarações de dois especialistas: Paulo Fernandes seguramente um especialista de fogo, e Helena Freitas, uma especialista de botânica (desconheço os seus trabalhos sobre fogo mas admito que existam. Este comentário não contém nenhuma crítica ao facto de se ouvirem outras pessoas que não os especialistas, é simplesmente o reflexo da minha perplexidade pela facilidade com que muitos jornalistas recorrem à autoridade de especialistas ao falar de um assunto, convidando especialistas que o são, sem dúvida, mas noutros assuntos).
Paulo Fernandes reafirma o que aqui tem dito e de que eu tenho discordado: a meteorologia não está a ajudar o Pinhal Interior. O Paulo tem a seu favor o facto de saber muito mais que eu do assunto e ter muito mais informação. Eu tenho a meu favor o atrevimento da ignorância e o facto de ter previsto que com as condições de vento que via nas previsões meteorológicas o Pinhal Interior não me parecia que fosse arder.
Quanto ao meu argumento há factos que o prejudicam: essas condições de vento só são relevantes na medida em que traduzem condições meteorológicas específicas, o que se deveria reflectir nos dados das observações meteorológicas, o que não me parece que esteja a acontecer.
Sigamos portanto a argumentação do Paulo Fernandes que parece ter mais razão que eu nesta discussão.
O Paulo fala sobretudo dos índices, não tanto dos elementos meteorológicos elementares (passe o pleonasmo). Ora os índices contêm em si uam interpretação dos fenómenos que valoriza uns elementos e desvaloriza outros. No caso em concreto vamos então admitir que os índices traduzem o risco de fogo e tentemos então explicar por que razão sendo eles mais altos não ardeu o Pinhal Interior.
Diz o Paulo, por interposta jornalista Mariana Oliveira (corrijo, Helena Geraldes):
"O investigador tirou as conclusões depois de analisar o número de ignições por cada 10 km quadrados a partir de Julho. Os distritos do Pinhal Interior, Castelo Branco e Santarém, tiveram apenas duas ignições cada. "Uma diferença enorme em relação a Aveiro, com 16 ignições", por exemplo. O Porto registou 79 ignições."
Confesso que fiquei surpreendido com esta argumentação do Paulo que repetidamente tem dito que não há qualquer relação entre área ardida e número de ignições.
E acho que esta argumentação não cola. Vejamos este gráfico que fiz:

Este gráfico contraria frontalmente a argumentação de Helena Freitas ao não identificar uma grande diferença de fogos por habitante do pinhal interior para o Norte:
"Ao contrário do que acontece no Norte, os concelhos do Pinhal Interior têm hoje a percepção do valor económico da floresta e criaram mecanismos de prevenção". A Região Centro tornou-se "a mais apetecível" para novos valores florestais, como por exemplo a biomassa, ao passo que o Norte enfrenta uma situação de "abandono [da floresta] gravíssima".
Independentemente de eu não perceber onde foi a Helena Freitas buscar a ideia de que em cinco anos a floresta do Pinhal Interior ficou muito mais bem gerida que a do Norte, com base aliás em dois não factos (não existe nenhuma utilização de biomassa séria na região e a floresta do Noroeste é muito mais lucrativa que a da generalidade do Pinhal Interior) e na impossibilidade de mudar estruturalmente uma floresta em cinco anos (para cuja verificação basta um passeio na região, pelas áreas ardidas em 2003), a verdade é que a relação das populações com as ignições não se mede no número de fogos por hectare, mas sim no número de fogos por habitante.
É essa a linha verde mais grossa do gráfico, que identifica uma clara anomalia em Viana do Castelo (o distrito que melhor traduz a zona que está a arder), um pico secundário em Vila Real mas com um nível semelhante de ignições por habitante em Braga, Porto e Viseu e um nível um pouco mais baixo no limite Sul da região que está a arder (Aveiro, Guarda e Castelo Branco) e depois níveis mais baixos.
Se alguém me conseguir explicar as diferenças entre os Minhotos do Norte e os do Sul que justifiquem a anomalia do número de fogos por habitante, eu dar-me-ei por vencido.
Até lá eu tenho de concluir, que tal como resulta da análise das variações diárias e etc., é na meteorologia que estão as diferenças.
Ontem, numa conversa telefónica com outro dos especialiastas do fogo em que eu tentava perceber melhor o que se está a passar, ouvi contar que um meteorologista tinha feito uma pergunta inteligente: se 97% dos fogos resultam de causas humanas, como se explica que se verifique uma tão grande associação aos factores meteorológicos? A resposta parece ser que o território está saturado de ignições, como diz o Paulo Fernandes no artigo que aqui comento, apenas para o Noroeste, mas penso que é válido para todo o território, pelo que nunca são factor limitante para os fogos. Os factores limitantes são de facto as condições meteorológicas.
O que nos conduz a uma questão: ou os índices não reflectem o verdadeiro risco meteorológico de incêndio (que é o meu ponto de vista, ainda que não tenha nada de mais consistente a apresentar em alternativa que não seja a direcção do vento), ou o número de ignições por habitante pode ser explicado por diferenças culturais e, consequentemente, se verifica mesmo noutras condições meteorológicas, hipótese que me parece absurda face aos dados existentes.
Resumindo: o Pinhal Interior não ardeu por estes dias porque condições de meteorológicas que não sei definir não se verificaram.
Corolário: quando entrar vento Leste a sério no Pinhal vai arder, se entretanto não ouver programas de gestão de combustiveis sérios, consistentes e alargados.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, julho 29, 2010

Boas intenções, inferno e drama


Ouvi o comandante Gil Martins, que conheço e por quem tenho respeito, dizer que o problema destes dias de fogos eram as mais de 400 ignições diárias.
É uma ideia simples, convincente, mas errada.
As ignições registadas pela protecção civil não são as ignições quimicamente consideradas (isto é, o input de energia necessário para desencadear a reacção química exotérmica que caracteriza um incêndio) mas sim as ignições que progrediram o suficiente para serem registadas no sistema.
Isto é, as ignições não passam de 100 para quatrocentas em poucos dias. O mais natural é que todos os dias sejam mais ou menos as mesmas, mas em alguns dias rapidamente ganham uma dimensão que as torna adminsitrativamente registáveis.
Portanto o problema não é o número de ignições mas o facto delas progredirem facilmente até se tornarem visiveis (por isso o seu número varia consideravelmente apesar dos comportamentos culturais serem os mesmos todos os dias e por isso se agrupam geograficamente como acontece com os fogos, que desta vez se concentraram entre Aveiro e Caminha, na faixa litoral).
Pretender que o número de ignições tem alguma relação com a área ardida, como é frequente, é um erro que não tem qualquer base objectiva empírica.
Por isso apagar muitos fogos nascentes é uma vitória de Pirro.
As boas intenções inegaveis de Gil Martins desmbocarão forçosamente num inferno quando as condições forem efectivamente favoráveis ao desenvolvimento dos fogos.
Repito o que tenho dito vezes sem conta: o problema não é discutir como começam os fogos, mas porque razão não param em alguns dias.
Li também uma notícia notável no Público de hoje, em que finalmente se começa a dizer o que disse aqui no blog: os efeitos do derrame da BP afinal parecem ser muito menores que o previsto.
É assim, temos tendência para o dramatismo. Daí não viria mal ao mundo se não se desse o caso de gastarmos demasiados recursos no teatro que depois nos fazem falta na vida real.
Os comentários do Henk e do Luís Lavoura nos posts sobre fogos levam-me a querer escrever sobre a questão de combustiveis e a gestão do fogo. Mas fica para outro dia, espero eu.
Mas ainda tenho espaço para dizer que embora o tempo se vá manter quente, os fogos vão passar a ser controlados sem dramas, porque o vento mudou.
henrique pereira dos santos

terça-feira, agosto 24, 2010

Incendiários: muitos mas muito estúpidos

Quando por estes dias ruiu o conto de fadas sobre os fogos construído pelo Governo nestes últimos anos, de que o dispositivo tinha melhorado muito e por isso tinha descido a área ardida, como demonstravam não só os números globais como ainda a relação entre o número de fogos e a área ardida total, foi preciso rapidamente encontrar novas linhas de comunicação.
A tecla agora era que o dispositivo aguenta 250 ignições por dia (se não forem muito concentradas) mas Portugal tinha um enorme problema de ignições a que era impossível responder.
Esta linha de comunicação traduziu-se em variadíssimas notícias sobre incendiários, detenções e outras coisas que tal, culminando neste fim de semana com o Expresso a publicar uma entrevista com Gil Martins (de resto, interessante) titulada "A floresta não arde sozinha" e as quatro lamentáveis páginas do Público, totalmente governamentalizado nesta área, que incluem esta delicada subtileza de raciocínio de Manuel Carvalho "é certo que uma fatia importante dos fogos tem mão humana e criminosa, como atesta o facto de 38% das ignições acontecerem durante a noite" (aparentemente Manuel Carvalho nunca ouviu falar de ignições retardadas, mas isso é lógico para um jornalista que só acompanha o sector florestal há mais de dez anos).
Como corolário a Autoridade Nacional de Protecção Civil passou a incluir na informação diária não só o número de fogos, como também o número de fogos diurnos e o número de operações dos meios aéreos, para as pessos perceberem bem que está tudo bem do lado do dispositivo, mas não se pode governar este povo de pirómanos infrenes.
Ora foi com essa informação que construí o gráfico que se segue.

Principal conclusão?
Não só há muitos incendiários como são estúpidos como uma porta, porque a percentagem de ignições nocturnas dispara quando não há condições para grandes fogos (havendo inclusivamente previsão de chuva).
henrique pereira dos santos

segunda-feira, julho 30, 2012

Já me falta a paciência para a conversa da redução das ignições

O gráfico não é brilhante, mas quem quiser pode ver o original nos relatórios da AFN (ou clicar no gráfico que já fica bastante visível).
O que me interessa é contestar veementemente a ideia de que a redução de ignições é uma questão importante na gestão do fogo em Portugal.
O gráfico tem o número de ocorrência no eixo dos XX e a área ardida no eixo dos YY. Cada ponto represente a combinação das duas variáveis para cada ano.
Em torno das vinte mil ignições temos quatro anos (2004, 2006, 2007 e 2010) mas as áreas ardidas variam entre cerca de 33 mil hectares (2007) e mais de 130 mil, uma variação  do simples para mais do triplo.
Em torno das 26 mil ignições temos cinco anos (2001, 2002, 2003, 2009 e 2011) com variações da área ardida entre os 73 mil hectares de 2011 e os 420 mil de 2003.
Alguém me explica como com evidências destas nos relatórios oficiais ainda se ouve permanentemente a conversa de que para gerir racionalmente o fogo em Portugal é fundamental diminuir as ignições?
henrique pereira dos santos

segunda-feira, agosto 09, 2010

Fazendo de Zandinga

O fogo de Lagoaça de sexta-feira passada, no momento em que um fogo de superfície passa a um fogo de copas. Nas condições de vento Leste é impossível extinguir um fogo assim com mangueiras e água, mesmo que lançada de aviões e helicópteros, enquanto houver continuidade das copas para arder. Fotografia de António Monteiro
Como nesta matéria dos fogos o mundo me parecia diferente do que me pintavam, eu tinha três hipóteses: ou mudava de ideias, deixando-me convencer; ou fazia uma tese de doutoramento sobre o assunto e ao fim de seis anos, milhares de referências e etc., demonstrava num parágrafo perdido no meio de muitos outros necessários ao formalismo académico o que eu via; ou eu fazia de Zandinga.
Tem sido esta última a minha opção porque as outras não estavam ao meu alcance. A primeira porque a realidade me entrava pelos olhos dentro, a segunda por estar fora do meu horizonte de vida.
Comecei por falar do vento Leste, quando ninguém falava do assunto, não como um fetiche, mas como uma espécie de proxy que traduzia condições especialmente favoráveis ao desenvolvimento dos fogos. Apesar de alguns falhanços rotundos (o mais difícil de entender para mim foi um vento Leste no Algarve que é acompanhado com chuva e que evidentemente não corresonde às condições gerais que habitualmente se associam ao vento Leste, mas com algumas leituras percebi a especificidade meteorológica daquelas condições) o saldo é de tal maneira positivo que hoje ninguém questiona a identificação do vento Leste com condições favoráveis aos fogos. O que eu fiz não foi nada de original, apenas fui muito simples a dizer o que quase todos os investigadores do fogo em Portugal diziam de forma complicada sobre as condições sinópticas de ocorrência dos incêndios rurais excepcionais (e são esses que interessam).
Isso levou-me (com um grande empurrão de quem andava a estudar o assunto há anos) a dizer que com o combate, ou melhor, sobretudo usando o combate, não vamos lá.
Subsistiam duas linhas de discussão: o que fazer das ignições; o que fazer da acumulação dos combustiveis.
Sobre a acumulação de combustiveis já escrevi tanto que não vou agora reppetir-me.
Quando comecei a olhar para o assunto das ignições uma evidência me surgiu: as explicações que são dadas para a sua existência existem todo o ano, todos os dias do ano, mas só em alguns, muito poucos, aliás, o problema das ignições é verdadeiramente um problema (ontem foram mais de 500). A minha perplexidade é a seguinte: se todos os dias as pessoas são as mesmas, se todos os dias a sua relação com o fogo é a mesma, por que razão em meia dúzia de dias se passa de cem ignições para mais de quatrocentas.
Neste gráfico (nem foi preciso escolher o período de tempo em análise, são os últimos 19 dias disponiveis no site da protecção civil) o primeiro dia 21 de Julho tem perto de cem fogos e o dia 27 de Julho tem mais de 450, depois, rodando o vento e não chovendo mas mantendo-se as temperaturas altas, há uma queda mais ou menos brusca de 150 fogos diários até 31 de Julho, onde começa uma nova subida que terá culminado ontem e hoje provavelmente irá descer (assim parece).
E eu, Zandinga aqui sentado, direi que a manterem-se as previsões, teremos de novo uma queda ao longo da semana e uma subida acentuada lá para quinta feira, culminando talvez no Domingo (não sei o que se passa depois). Haverá sempre alguém que dirá que são os fins de semana, quando as pessoas têm tempo mais livre, mas isso é uma idiotice facilmente desmontável com a análise de inúmeros períodos anteriores (e mesmo neste último período a subida começa antes do fim de semana, sexta feira passada já estávamos com quase 450 fogos).
Ora todas as explicações que usem as causas humanas para explicar estas variações, que são importantes, teriam de explicar em que é que as causas humanas se alteraram em seis dias de 21 para 27 de julho, o que me parece impossível (já agora, 26 e 27 foram Segunda e Terça, só para lembrar quem ainda usa esse argumento absurdo do fim de semana).
Da mesma forma me têm levantado o problema de saber por que razão sendo o índice de risco de incêndio maior no Pinhal interior, ou estando Santarém há três semanas com um calor de ananazes (penso que tem sido a zona mais consistentemente com temperaturas acima dos 35 graus há mais tempo) está a arder em Entre-Douro-e-Vouga e no interior minhoto (interior relativo, mas apesar de tudo interior).
Pois eu não sei explicar, mas sei que esse padrão de concentração regional se verifica todos os anos (embora possa abranger mais que uma região, sobretudo em períodos distintos de tempo). O que sei é que usando o proxy do vento Leste tenho conseguido prever (mais ou menos, mas com bastante mais precisão que o índice usado oficialmente) essas áreas de inferno temporário (ou seja, de purgatório, ou local de purgação das penas que permite aceder à perfeição celeste. Espero que a metáfora esteja certa e que de purgatório em purgatório consigamos aceder a niveis maiores de perfeição).
O que me parece é que estamos a usar elementos meteorológicos imprecisos, ou limites desses elementos que não discriminam suficientemente o risco de incêndio.
Para os organismos oficiais era simples tirar isto a limpo: medir detalhadamente as condições meteorológicas nas áreas que estão efectivamente a arder e perceber o que as distingue das outras onde há fogos, mas que se dominam, com maior ou menor esforço.
Era importante sabermos em que condições sabemos que não conseguimos dominar os fogos e discriminar muito bem, com antecipação, onde existe maior risco de ocorrerem fogos desastrosos (do ponto de vista social e económico, insisto que do ponto de vista dos valores naturais é duvidoso que estes fogos sejam desastrosos).
Como penhor da pertinência do que digo declaro aqui, qual Zandinga: descansem bem hoje, amanhã e quarta, porque na quinta feira recomeça o fado dos fogos impossiveis de controlar, aparentemente da mesma linha Guarda/ Aveiro para Norte (mas ainda não sei se não vai descer um bocadinho para Sul). A mim parece-me que é provável, mas não tenho nenhuma segurança na afirmação. Tanto mais que uma intuição me diz que a localização geográfica dos fogos, de ano para ano, se relaciona com a posição do anti-ciclone dos Açores, e por isso existe alguma estabilidade na localização geográfica das áreas que ardem em cada ano, sobretudo se arderem em períodos de tempo próximos. Mas isto já nem é fazer de Zandinga, é pura especulação mesmo.
Espero que este ano, com avisos sérios mas apesar de tudo apenas avisos (na sua sabedoria dizia-me hoje de manhã a minha madrinha, que mora à ilharga da serra da Gralheira, que sim, que estavam as coisas mais calmas, mas que eu devia compreender que a gente se habitua a viver com isto), sirva para definitivamente esclarecer que a discussão não é entre os defensores do deixa arder e os defensores de Portugal sem fogos. Como diz o Paulo Fernandes no comentário ao post anterior, deixar arder é isto que se está a passar, mesmo que seja involuntário.
A discussão é portanto entre quem defende o deixa arder voluntário, escolhido e gerido, e quem defende este deixa arder caro e ineficiente, correndo atrás da utopia do Portugal sem fogos.
Se o ano servisse para que finalmente houvesse algum consenso na admissão de que o fogo não é um inimigo que se vence, mas um elemento natural que se gere, seria um grande ano para a gestão do fogo em Portugal.
Mas não acredito nisso.
Deslocar a gestão do fogo de uma abordagem militar para uma abordagem técnica, em Portugal, é uma miragem.
Há tanto comandante por aí cujo reconhecimento social depende exactamente de ser comandante e o Estado está tão fraco e tão captivo dos grupos de interesse que infelizmente vamos ter de esperar por um segundo 2003 para ver mudar mais alguma coisa.
A menos que o Ministro das Finanças, à conta da falência do Estado, passe a ser o verdadeiro decisor em matéria de fogos.
No curto prazo é a única esperança.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, agosto 25, 2008

Será nesta semana?

Neste post no estrago da nação Pedro Vieira refere que até agora tudo bem em relação aos fogos. E refere que as ignições têm estado anormalmente baixas (sim, tal como no ano passado).
Do meu ponto de vista o que se passa é apenas que a situação meteorológica tem sido muito favorável (e nessas circunstâncias a mlhoria do combate pode produzir melhorias na área ardida).
Ainda assim as ignições começaram a subir e, ontem, Domingo, foram 175. Para 27 e 28 há uma previsão confusa que ao mesmo tempo fala de aguaceiros e vento Leste.
Se de facto se verificar o vento Leste a ignições subirão rapidamente.
E como o Pedro diz muito bem, a estratégia de ataque imediato aos fogos com meios aéreos vai sendo menos eficiente à medida que o número de fogos em simultâneo cresce.
Veremos então o que nos espera a semana que está a entrar.
henrique pereira dos santos

terça-feira, setembro 07, 2010

Demagogia

A fotografia é da minha filha Maria
A análise do discurso oficial sobre fogos (e convenhamos, também do não oficial dominante, quer venha da oposição, quer venha nos jornais) ajuda a compreender por que razão não há esperança de resolver satisfatoriamente o problema da gestão do fogo em Portugal nos próximos tempos (coisa que de resto não tem nada com a tolice do "Portugal sem fogos depende de todos").
Vai ser preciso esperar por um novo óbvio ululante como o de 2003 para haver espaço político, social e mediático para redefinir outra vez o problema (esperemos que desta vez melhor que da última).
O último relatório provisório sobre fogos diz no seu sumário executivo: "A área ardida até à data (31 de Agosto) é inferior em cinco dos dez anos da última década (2000, 2002, 2003, 2004 e 2005) no período homólogo, num contexto de agravamento continuado do risco meteorológico de incêndio florestal durante este mês e que, neste momento, posiciona o ano de 2010 apenas abaixo de 2005."
Estou como o outro: não gosto de ser tomado por estúpido, é uma coisa que me chateia. O erro de Português dou-o de barato. Como é evidente para quem consultar o relatório a frase deveria ser "inferior à de cinco" e não "inferior em cinco", não é pois o português que me dá esta sensação de estar a ser tomado por parvo.
Qualquer pessoa que alguma vez se tenha debruçado sobre o assunto sabe que as condições meteorológicas em 2003 foram de risco máximo de incêndio (quase quinze dias de vento seco e forte), sem paralelo em qualquer outro ano para que existem registos. Pois apesar disso, o Instituto Meteorológico ou a AFN ou lá quem é, continua a insistir na ideia de que este ano é o pior meteorológicamente falando, só ultrapassado em 2005. Com base em quê? Num índice que diz que 2003 não foi assim um ano tão mau. É apenas o quinto ano em severidade meteorológica medida da forma escolhida pelos relatórios da AFN (2005, 2010, 2006 e 2004 são, por esta ordem, anos meteorologicamente piores que 2003, de acordo com este maravilhoso índice).
Mas vamos admitir que o burro sou eu e que sim, a realidade é um pormenor e o que verdadeiramente deve balizar o que fazemos é o tal índice que diz que 2003 foi um ano meteorologicamente médio do ponto de vista do risco de incêndio.
Em 2005 tinham ardido nesta altura 301 mil hectares, em 2010 (este ano) 105 mil, em 2006, 70 mil, em 2004, 115 mil, em números redondos. Conclusão possível, usando a lógica do parágrafo citado: de 2006 para cá o desempenho piorou.
É isto que me irrita, a esperteza de quererem usar lógicas diferentes em cada momento de análise e esperarem que as pessoas não reparem que no parágrafo citado bastaria acrescentar no fim, " e logo acima de 2006" para que todo o parágrafo passasse de um elogio ao desempenho para uma acusação evidente, sempre usando meias verdades.
Toda a informação produzida segue a lógica da propaganda e não a lógica da caracterização objectiva dos problemas. Como dizia um director de comunicação de uma grande empresa, na publicidade competente não se mente, mas isso não quer dizer que se diga tudo o que se sabe.
Por isso este ano se deixou de fazer comparações com o objectivo estabelecido no programa da Defesa da Floresta contra Incêndios, como se fez nos últimos anos, ou seja, 100 000 hectares ardidos anualmente, para passar a usar de novo a média dos últimos dez anos (123 000 hectares em período homólogo, 150 mil se no ano inteiro).
É claro que a escolha da média dos últimos dez anos também não é inocente: passou-se de cinco para dez anos quando 2003 ia sair da média rolante, mas não mais de dez (apesar de haver dados) para que os anos excepcionais de 2003 e 2005 não se diluam mais. Bastaria usar a mediana em vez da média, para diluir o peso dos extremos, opção perfeitamente razoável face a fenómenos de grande irregularidade, para concluir que os valores deste ano, em período homólogo, são 15 mil hectares acima da mediana dos últimos dez anos.
Mas como o ano ainda não acabou e não se sabe o que nos reserva o Outono, o Governo e a Administração já preparam um novo bode expiatório: as ignições nocturnas como demonstração de uma intensa actividade de fogo posto. Até se mudou o quadro das estatísticas da página da protecção civil para explicar melhor isto.
O resultado é este:
Por mais voltas que se dêem, as ignições nocturnas andam no essencial entre as 30 e 40% do total diário, qualquer que seja o número de fogos do dia (com desfasamentos pontuais em alguns dias, provavelmente por alteração das condições meteorológicas a meio do dia. Convém lembrar que as ignições nocturnas apanham dois períodos distintos de duas noites consecutivas, separados portanto por um dia inteiro, e não o conjunto de uma noite). Ou os incendiários coordenam muito bem a sua actividade, ou a meteorologia é que explica as variações e essa conversa dos fogos postos serve apenas para tapar o sol com uma peneira.
E o essencial permanece: o dispositivo de combate custa agora três vezes o que custava em 2005, aparentemente funciona muito melhor no ataque inicial e talvez no combate demorado, mas os resultados são essencialmente os mesmos: de acordo com as condições meteorológicas (que foram dificeis, mas não excepcionais, este ano) arde o que sempre ardeu.
Apesar disso tenho lido declarações de reforço dos meios. A Ministra do Ambiente diz que vai reforçar os meios do ICNB em matéria de fogos e eu deito as mãos à cabeça: com tanto problema sério de conservação e gestão das áreas protegidas ainda se vai concentrar mais os recursos numa matéria que, do ponto de vista de conservação dos recursos naturais, é marginal? Deus nos acuda e defenda das almas bem intencionadas que não estudam suficientemente os problemas com mais de duas incógnitas.
Por mim já tinha concluído há muito mas este ano foi uma boa demonstração: é tempo de procurar a solução noutro lado que não o reforço do dispositivo de combate.
henrique pereira dos santos

domingo, agosto 08, 2010

Portugal sem fogos e o deixa arder

O sr. Ministro da Administração Interna resolveu ir ver o fogo da Serra da Gralheira. E como tinha de falar, lá disse o que achou que tinha de dizer:
"O nosso lema é 'Portugal sem fogos depende de todos' e, portanto, apelo aqui também ao procedimento cuidadoso de todos os portugueses", ... "Temos tido mais de 400 fogos por dia, devido às condições climatéricas mas também devido a actos ou negligentes ou dolosos. Toda a gente sabe que a maioria dos incêndios tem origem humana", acrescentou."Mesmo à noite há vários fogos que começam a deflagrar, o que prova que não existe comportamento cuidadoso por parte de todos", frisou o ministro.
Já li a frase várias vezes para perceber o que tem o facto de haver incêndios a começar de noite com a demonstração de que não existe comportamento cuidadoso por parte de todos mas continuo sem perceber.
Percebo uma afirmação recorrente: deflagrações de noite só podem ser de origem humana e provavelmente fogo posto porque não há ninguém a fazer trabalhos agrícolas e outros de noite.
É uma afirmação lógica, mas o facto de ser lógica não quer que seja verdadeira.
Esta diferença deve ser sublinhada e explicitado de forma muito clara que não há, que eu saiba, qualquer estudo ou evidência sobre o que está na origem das ignições nocturnas.
Dou apenas quatro exemplos: 1) a projecção a longa distância de materiais incandescentes em alturas especialmente favoráveis ao desenvolvimento dos fogos. Devo dizer que entre os dias 28 de Julho e 3 de Agosto encontrava todos os dias folhas de carvalho queimadas nas caminhadas que fazia a distâncias superiores a um quilómetro da frente de fogo mais próxima; 2) Os rescaldos mal feitos. Devo dizer que cinco dias depois de terminado, numa propriedade minha, um dos grandes fogos do dia 26 e 27 de Julho, uma boa parte do perímetro do incêndio extinto continuava com fumarolas; 3) Trabalhos e actividades susceptiveis de deixar para trás coisas que parecem apagadas mas que se vão mantendo larvarmente até encontrar condições favoráveis à deflagração que seja suficientemente grande e visível para ser registada no sistema como um fogo iniciado a meio da noite; 4) Qualquer outra situação do mesmo tipo como um cigarro que é largado a meio da tarde e vai ficando por ali até aparecer uma chama detectável.
Ou seja, essa coisa das ignições nocturnas serve para justificar as mais descabeladas teorias da conspiração sobre os fogos mas tem o problema de não estar estudada e não haver sobre o fenómeno evidência empírica.
O problema de fundo é a ideia de Portugal sem fogos.
É uma ideia irrealista como estes dias têm mostrado (hoje até com uma violência que me espanta). Repare-se que estamos longe, muito longe das condições de 2003 e o que estes dias demonstram é que não é possível extinguir todos os fogos em fases iniciais e, quando o fogo escapa, o dispositivo de combate não dá conta do recado.
Não porque seja incapaz (não discuto isso porque sinceramente não sei o suficiente de técnicas de combate e porque sei que o fogo é um elemento que pela sua força bruta retira racionalidade às pessoas no contacto directo com um incêndio) mas porque por mais capaz que fosse haveria circunstâncias em que nada haveria a fazer a não ser preparar a evolução do fogo e limitar os seus estragos.
Pela enésima vez repito que na base disto tudo está uma acumulação de combustíveis mal gerida.
Por isso tenho defendido que fogos, em alguns dias e circunstâncias devem deixar-se evoluir de forma acompanhada (o Paulo Fernandes tem dado bons contributos para a discussão deste assunto com o exemplo americano).
Ora bem, foi o que fiz neste post.
António Monteiro, que manifestamente leu erradamente o que escrevi, chamou-me irresponsável por estar a falar agora em deixar arder.
Ora o que eu disse, e quero frisar para que não exista qualquer dúvida sobre isso, é que deixar arder agora é irresponsável e por isso é também irresponsável não deixar arder quando não há nada de essencial em causa nos dias em que isso não tem risco de maior (o que evidentemente não é o caso nestes dias), como é completamente irresponsável continuar a falar de Portugal sem fogos.
O mito de uma alteração do sistema de defesa contra incêndios muito melhorado e responsável pelos bons resultados dos últimos anos (menos do ano passado, mas ainda aceitável, e excelentes nos outros dois anos) caiu nestes dias.
Isto não quer dizer que o sistema não está melhor, quer apenas dizer que por melhor que seja, não resolve nestes dias.
E é nestes dias que arde a maior parte da área no ano. Já agora, a talhe de foice, direi que já escrevi aqui que discordo inteiramente do uso da área ardida como indicador do bom ou mau desempenho em relação ao fogo: o objectivo deve ser minimizar perdas, não pode ser diminuir a área ardida, uma boa parte dela sem que se perca rigorosamente nada com o fogo.
Quem devia estar a falar de fogos era o ministro do mundo rural, e não o ministro das polícias. Porque os fogos são uma questão de economia rural, não são uma questão de polícia.
E sim, é verdade que mais fogos que numa série de países juntos tem o mesmo significado de mais cortiça (e pinhões) produzida em Portugal que nesses países todos: as nossas condições edafo-climáticas são ideais para fogos, cortiça, pinheiro manso e eucalipto.
Nenhum destes factos diz nada sobre a nossa sociedade e a sua cultura.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, setembro 09, 2010

Testando pela enésima vez


O gráfico de cima mostra como anteontem e ontem o número de fogos diário foi muito baixo (menos de vinte em cada dia). E já agora mostra como a percentagem de ignições nocturnas se mantém, salvo aquele pico de 50% anteontem, provavelmente porque começou a chover de dia e não de noite. Mas não tem significado. O único significado é o de demonstrar que só com incendiários muito, muito estúpidos, tão estúpidos que já teriam sido todos apanhados, é que se pode continuar a interpretar as ignições nocturnas como demonstrações da actividade dos incendiários, que insistem em pôr fogos em dias em que manifestamente não vai arder.
Dir-se-ia que com esta chuva se alteraram muito as condições de ignição.
Pois, eu acredito que sim, que dificilmente se chega nos próximos dias aos 500 fogos num dia. Mas se as previsões estiverem certas, eu diria que entre amanhã e terça feira haverá alterações importantes no número de fogos diários.
Porque comando uma organização de terroristas incendiários?
Não, simplesmente porque tudo me leva a crer que a meteorologia tem muito mais importância que os incendiários, quando o combustível existe.
É ela que explica quase tudo nos números dos fogos, volto a repisar, quando o combustível está disponível.
Claro que a previsão do que acontecerá em matéria de fogos nestes dias só é válida se se concretizarem as previsões de que o vento vai mudar e começar a soprar de Leste outra vez.
As precisões não são muito claras quanto ao momento e ao espaço em que se sentirá esse vento e não me parece que haja previsões de mais de três dias deste vento, que é verdadeiramente quando ele se torna perigoso. Também é verdade que apesar da direcção do vento estão previstas humidades atmosféricas maiores que o que é costume com vento daquela direcção. Mas as várias previsões que vi foram consistentes a assinalar um ou dois dias, pelo menos em alguns sítios, de vento Leste.
O suficiente para o número de fogos diário dar outro salto.
Tanto de dia, como de noite.
Adenda
henrique pereira dos santos

domingo, agosto 15, 2010

Conversa de café em salão de chá

Raramente compro o Expresso. Mas ontem fi-lo e percebi, pela enésima vez, por que razão raramente o compro.
Um dos temas de fundo eram os fogos: uma reportagem, um editorial e um comentário de Fernando Madrinha. Os criminosos dos incendiários, a mais inútil maneira de discutir o assunto, era a trave mestra de todos os textos.
Comento aqui partes do texto de Fernando Madrinha porque é exemplar de como a conversa de café sobre fogos ganha facilmente carta de alforria para se passear em salões que a caucionam como coisa intelectualmente aceitável.
O texto chama-se "O fogo e o crime".
Tem por isso a vantagem de não enganar ninguém ao dizer logo ao que vem.
"Não se sabe quantos são ateados com intenção criminosa, embora suceda, como sempre, que muitos deflagram em vários pontos simultaneamente o que, só por si, indicia crime organizado".
O esplendor da conversa de café reflecte-se nesta frase. Fernando Madrinha esquece-se que a sua ideia de que muitos fogos deflagram em pontos simultâneos é de fontes de maneira geral muito pouco fiáveis (por exemplo, bombeiros em stress de combate ao fogo), esquece-se que as condições de propagação do fogo tem padrões locais muito marcados, o que facilita a ocorrência de fogos na mesma altura em locais muito próximos e esquece-se, finalmente, que um fogo que deflagra, mesmo em fase iniciais, pode provocar projecções de material incandescente que criam novos focos na proximidade. E esquecendo tudo isso tira uma conclusão definitiva cuja fundamentação é, na realidade, nenhuma. Mas vai mais longe e fala em criminalidade organizada, coisa que nenhuma investigação sobre fogos até hoje detectou. E nem se percebe para que é preciso organização para um indivíduo que queira deitar fogo num lado qualquer o faça em vários pontos com intervalos de poucos minutos. Ou seja, a ideia de crime organizado não está suportada em lado nenhum e a fundamentação apresentada é pueril.
"Metade que sejam os fogos postos - e basta ouvir os bombeiros para se perceber que esta é uma avaliação por defeito -". Um jornalista experimentado acha que bombeiros em stress de combate ao fogo são uma fonte mais fiável que a investigação específica e racional do fenómeno? Pelos vistos acha, o que é extraordinário. Provavelmente também acha que os taxistas são uma fonte muito mais fiável para discutir a criminalidade urbana que a investigação especializada.
Depois faz umas contas verdadeiramente delirantes: "teremos 3320 [fogos criminosos] em 20 dias. Agora repare-se: as autoridades detiveram 10 suspeitos, alguns deles já seus conhecidos. Cinco foram mandados em paz. Serão os outros cinco os autores dos 3320 fogos espalhados por dois terços do território nacional? Claro que não. Falta prender muito criminoso. E falta, sobretudo, descobrir os seus mandantes."
Insisto, isto que transcrevi não vem de um anónimo da caixa de comentários de um blog ou jornal, é mesmo escrito por um jornalista experiente e supostamente informado.
É só por isso que vou perder tempo a desmontar este parágrafo sem a menor aderência à realidade.
A teoria da conspiração mais básica começa na existência de uns mandantes que não se identificam, cujo móbil credível ninguém percebe qual seja e de cuja existência nunca nenhuma investigação séria identificou o mínimo traço. É exactamente assim que se discute futebol em qualquer tasco do país, mas com a vantagem de que todos sabem que ninguém está verdadeiramente a falar a sério. Depois fala-se em dois terços do país a arder quando o que está a arder é apenas uma faixa oblíqua entre Guarda e Coimbra e que exclui grande parte de trás-os-montes. Depois ignora-se esta diferenciação regional que deita por terra a teoria dos incendiários (ou será que se deslocam em grupo de uns anos para os outros, onde vai ardendo em diferentes regiões de acordo com diferentes condições meteorológicas?). E perante o absurdo de ter 3220 fogos para cinco incendiários em vez de concluir o óbvio, que é preciso procurar a explicação das ignições noutro lado, Fernando Madrinha força uma teoria conspirativa, que implica que há centenas de incendiàrios à solta associados numa ou várias organizações, teoria essa sempre desmentida pelas investigações e bem caracterizada neste post de Helena Matos, que se esqueceu das famosas teorias de Armando Vara, quando responsável pela área, que teimava em dizer que ardia sempre que havia eleições.
Por fim, o pormenor do costume: "velhíssimos fatores de desleixo - matas por limpar...".
É curioso como alguém que tem obrigação de ter um mínimo de informação engole a ideia de que os proprietários são desleixados com as matas e deixam-nas por limpar só porque sim.
Mas quem vê os fogos como um caso de polícia é natural que nunca tenha pensado na economia associada à gestão de combustíveis.
Por isso é natural que adopte uma conversa de café sem qualquer consistência e nenhuma aderência à realidade.
O grave disto é que este modelo mental está por todo o lado (é tão apelativo, tão fácil e tão desresponsabilizante), e já hoje é o Público a ceder à central de comunicação do Governo e a repetir que as condições são semelhantes às de 2003, concluindo que foi feito um grande trabalho que pode não ser perfeito mas que agora o que é preciso é aprofundá-lo (note-se bem como o conteúdo geral, incluindo do editorial do Público, é semelhante ao que um adjunto do Governo aqui disse nos comentários a este post há alguns dias. Quer isto dizer que foi o Governo que escreveu a peça do Público? Não, evidentemente, quer simplesmente dizer que o Governo definiu muito bem a linha de comunicação, todos os ministros a seguiram à risca, e que por muitas vezes repetida ganhou uma credibilidade insuspeitada. Apesar dos índices usados dizerem que 2003 foi um ano mau, mas nem foi o pior, o que diz bastante da sua aderência à realidade, para efeitos de identificação da dificuldade de extinção dos fogos, não nego a sua utilidade para outras utilizações).
Ou seja, para sairmos de onde estamos em matéria de fogos, a receita é melhorar a eficácia do combate e convencer as pessoas a fazer menos ignições, que é, de acordo com o que o Público diz que o Paulo Fernandes diz, o que está a resultar no Pinhal Interior.
Claro que quando vier um vento de Leste e o Pinhal Interior arder que nem um fósforo já ninguém se lembrará da lamentável peça feita hoje pelo Público e por Mariana Oliveira.
É que mesmo que tudo o que dizem fosse verdade, a supressão do fogo é a receita para o desastre.
É bom que quando ele vier, e um dia virá, volto a dizer, este ano é uma brincadeira de crianças comparado com o que acontecerá com uma semana de vento Leste típico (esta madrugada havia humidades atmosféricas acima dos 90% na área que tem estado a arder, mais que suficiente para que os combustiveis finos adquiram baixa combustibilidade por algumas horas, permitindo controlar os fogos quase todos com relativa facilidade), os senhores jornalistas responsabilizem quem quiserem entre os políticos, mas não se esqueçam das suas responsabilidades na criação de um ambiente favorável à adopção de políticas erradas.
henrique pereira dos santos

terça-feira, outubro 19, 2010

Previsões certas e erradas

O gráfico acima, traduz na sua parte final, a entrada de uns dias de vento Leste, desde este fim de semana até amanhã ou quinta feira, e confirma a previsão feita na legenda do primeiro gráfico publicado neste post.
Depois do fim de semana de 9 e 10 de Outubro, em que choveu todo o dia em todo o território, o que deu origem a dois raros dias seguidos sem um único fogo, tivemos uma semana com fogos a começar na dezena (chuva aqui e ali mas menos persistente que no fim de semana), que rapidamente passam para o patamar dos trinta a quarenta fogos diários quando pára a chuva. O vento Leste começa a fazer-se sentir no Domingo, segunda o número de fogos subiu para 65 (mais de 50% de aumento num dia) e ontem, terça, foram 100 fogos. Veremos o que nos espera o resto desta semana, se a previsão de vento Leste se concretizar até quarta ou quinta.
Algumas notas:
1) Como mais uma vez se comprova, o vento Leste é uma espécie de potenciador das condições existentes, favorável ao fogo. Ou seja, por si só não representa um risco de especial, mas induz um risco maior de fogo às condições existentes, seja em que altura do ano for. Para mim é incompreensível que não entre formalmente na avaliação de risco que é feita.
2) Ao contrário do que era a minha previsão, o número de fogos nocturnos não voltou à percentagem de trinta a 45% onde esteve na grande parte do Verão para o qual existe informação. As fracas condições de propagação podem ser as responsáveis por isso, havendo uma diminuição das ignições diferidas, que é a minha explicação principal para os fogos nocturnos. É um chamado "educated guess" não é uma conclusão com base em dados empíricos. Outra explicação possível são as características amplitudes térmicas dos episódios de vento Leste de Outono/ Inverno, com noites francamente frias e mais húmidas que contrastam com os dias bastante solarengos, luminosos e secos. Mas o que é lógico não é necessariamente verdadeiro, pelo que mais informação empírica seria aqui necessária.
3) Nas estatísticas fornecidas pela protecção civil verifica-se que durante a semana anterior, em dias com trinta e tal fogos, havia mais de dez intervenções de meios aéreos, apesar de ter chovido abundantemente há menos de uma semana, o que ajuda a explicar por que razão gastamos agora 100 milhões anuais em vez dos trinta milhões de há cinco anos. Ontem, para 100 fogos, não houve intervenções de meios aéreos. Espera-se que esta opção corresponda a uma correcção táctica perfeitamente justificável. O ataque inicial com meios aéreos é caríssimo (e, já agora, ambientalmente desastroso no consumo de recursos) e parece-me incompreensível que para condições gerais de fácil extinção e progressão lenta dos fogos, como são as actuais, pese embora o vento Leste, se estejam a desperdiçar recursos em meios aéreos. Acresce que arder nesta altura, com estas temperaturas e com vento fraco, não é problema nenhum, a menos que existam valores como casas, povoamentos, infra-estruturas, em risco real. A doutrina táctica deveria ser adaptada a estas condições e não manter a obsessão da extinção no menor tempo possível. Essa é uma das razões pelas quais a área ardida é um péssimo indicador. Nas actuais condições, os fogos trazem mais benefícios que prejuízos, apesar de não serem fogos controlados, e representam poderosos instrumentos de gestão de combustíveis, pelo que o papel do dispositivo de combate aos incêndios deveria ser simplesmente o de conduzir o fogo em função dos valores presentes, e não o de o extinguir. Com algum risco se poderá dizer que, nestas condições, quanto mais arder, sobretudo fora de povoamentos, melhor ficaríamos preparados para os dias de condições verdadeiramente difíceis.
henrique pereira dos santos

sábado, agosto 07, 2010

Francamente, camarada Vasco

Para quem não tenha dado por isso, Vasco Franco é o secretário de Estado da Protecção Civil. Até há pouco tempo o seu desempenho caracterizava-se por uma atitude inteligente: estava calado.
Com o Ministro algures, o Secretário de Estado apareceu a falar dos fogos, inevitavelmente.
Bem sei que a protecção civil, a juventude e o instituto do emprego são locais privilegiados para políticos desempregados e funcionários para quem o importante é tratar da vidinha, sendo mais ou menos indiferente o que fazem profissionalmente. Note-se que não estou a dizer que toda a gente que trabalha nestes sítios é assim, bem pelo contrário, estou é a dizer que são sítios onde há uma percentagem inusitada destes dois tipos de servidores públicos.
O que diz então Vasco Franco?
Deixemos de lado algum desfasamento em relação à realidade nesta caracterização e notemos que o que Vasco Franco diz é mais ou menos o que diria um vendedor de jarros de vinho a um comprador renitente: "repare, 99% do jarro está perfeito, há aqui uma excepção no fundo, mas é só um buraquinho".
Será que ninguém explica ao Sr. Secretário de Estado que o problema são exactamente as excepções? Será que ninguém lhe explica que, como diz o Paulo Fernandes num comentário a este post, 80%, às vezes mais de 90% da área ardida resulta de menos de 5% das ignições, isto é, das excepções?
Eu sei que ninguém considera necessário saber nada de um assunto para se ser governante de uma área específica (e é, em grande medida, verdade) mas convinha explicar que nessas circunstâncias é bom ouvir quem sabe e não apenas o pessoal da comunicação e propaganda.
henrique pereira dos santos

terça-feira, julho 01, 2008

Fogo e estatística

Todos os anos nos confrontamos com um número impressionante de números que pretendem traduzir a realidade dos fogos rurais. E com base nesses números há toda uma construção estatística que pretende avaliar o problema.
Os números e as estatísticas são fundamentais para nos ajudar a pensar mas não são a realidade.
Vem isto a propósito de alguns comentários recentes de Pedro Vieira sobre os fogos rurais no seu blog.
Neste, que comentei, Pedro Vieira anuncia para o meio desta semana o início de fogos a valer se não chover e neste outro Pedro Vieira defende a tese de que a eficácia do combate este ano é a mais baixa dos últimos seis anos.
Tenho mantido com Pedro Vieira uma dicussão longa sobre o assunto porque acho que o Pedro sobrevaloriza a estatística e porque o Pedro acha que a minha relativização da estatística é uma forma de desresponsabilizar os responsáveis pelo estado de coisas.
Nesta discussão provavelmente nenhum de nós continua exactamente onde começou: o Pedro tem integrado mais a estatísticas na interpretação qualitativa do problema, eu tenho sido obrigado a olhar mais para os números do que teria intenção.
Apesar das temperaturas altas destas últimas semanas, da falta de chuva, das humidades atmosféricas baixas e mesmo de alguns avisos do Instituto de Meteorologia o que tem ardido continua a ser pouco (e a manter-se o vento continuará a ser pouco nos próximos dias), não tendo chegado, até hoje, aos mais de cem fogos num dia e os poucos incêndios têm sido pequenos e controláveis.
Foi aliás nesse sentido que comentei o primeiro post do Pedro que referi.
Repare-se que aqui na Ambio se falava em no ínício de Abril de fogos mais complicados (um pouco acima dos cem diários, chegando aos 126) apesar de ter chovido há menos tempo e de temperaturas a rondar os vinte graus, por contraste com os mais de trinta destes últimos dias.
Daí que aplauda o Pedro quando usa um indicador de eficácia em vez da área ardida para avaliar o que estamos a fazer.
Mas discorde do facto desse indicador de eficácia (número de ignições que não chegam a ser incêndios) seja meramente estatístico. É que este ano a situação até ao fim de Abril foi bastante mais complicada que em muitos anos anteriores (qualquer surfista lembrará este Inverno por muitos anos pela combinação perfeita de swell e vento leste). O que quer dizer que o dispositivo até pode ter actuado melhor mas contra condições mais desfavoráveis (não estou a dizer que tenha sido o caso, estou apenas a dizer que esta é uma hipótese que a mera análise estatística não exclui).
O mesmo tipo de questões se levantam na comparação de áreas ardidas anuais, que é um indicador muito pouco indicativo. E que dizer das médias rolantes dos últimos cinco anos, de que se usa e abusa para fazer análises sobre fogos? É que para o ano que vem esta média rolante de cinco anos vai cair estrondosamente (vai sair o ano de 2003) e portanto estar abaixo da média dos últimos cinco anos em 2008 pode bem ser um resultado pior que estar acima da média em 2009, quando a média der um trambolhão exclusivamente por continuarmos a querer usar séries temporais curtas na interpretação de fenómenos complexos e muito variáveis.
No caso dos fogos a questão é mesmo bastante mais complexa: o que arde depende em grande medida da existência de condições climatéricas extremas. Ora se há circunstância em que a estatística deve ser usada com muita prudência é exactamente na caracterização dos fenómenos extremos.
Mas a ideia de que um número é objectivo é demasiado apelativa. E por cedermos a esse canto de sereia temos perdido anos na gestão racional do fogo em Portugal.
É pena.
henrique pereira dos santos

terça-feira, agosto 10, 2010

Uma mentira inaceitável

Só agora li as declarações de Rui Pereira, Ministro da Administração Interna.
Eu sei que a situação está difícil mas a afirmação de que as condições que se vivem são idênticas às de 2003 é uma mentira que o Ministro não pode deixar de saber que é mentira e que é dita por puras razões de propaganda.
É uma mentira totalmente inaceitável por parte de um Governo que sempre tratou este assunto sobretudo como um pretexto para propaganda e que agora, vendo ruir o castelo de mentiras levantadas sobre o assunto, tenta esta fuga em frente:
"O ministro garantiu também que actualmente “o sistema de protecção civil é muito mais competente, eficiente e eficaz do que era há uns anos”, ressalvando que, em condições de severidade tão duras como em 2003 e o número de ignições idênticas, a área ardida é um décimo”."
O que é mentira não é a primeira parte das afirmações, de que o sistema está melhor. O que é mentira é atribuir a isso os bons resultados dos anos anteriores. E sobretudo querer agora intrujar toda a gente dizendo que as condições são as mesmas de 2003.
Não são e o ministro tem de saber que não são.
Um nojo.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, agosto 23, 2012

Mais uma cortesia do Paulo Fernandes...


... com quem tive uma interessante discussão sobre prioridades na política de gestão de fogos, na caixa de comentários do post sobre ignições.
"The choice is not whether or not these forests burn. The choice is how they burn.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Um balanço possível dos fogos

Do público de segunda feira:

""Estamos melhor porque há menos focos e os que se iniciam estão a apagar-se rapidamente", avaliou o Ministro". O comentário diz respeito a Espanha/ Galiza.

Do público de terça feira:

"Por enquanto a prioridade da Xunta é combater os incêndios que ainda se mantêm activos, pelo que não há cálculos da área ardida. Contudo, baseando-se nas suas fotografias de satélite, os norte americanos da Nasa admitem que mais de 170 mil hectares terão sido pasto das chamas"

Há ainda a informação relevante de que cerca de 50% das ignições em Espanha são na Galiza (não este ano, em vários anos). Tendo a Galiza cerca de 2 milhões de hectares, tendo Portugal cerca de 9 milhões de hectares e sendo a Espanha cinco vezes maior que Portugal, facilmente se percebe como podem ser enganadoras quaisquer comparações entre Portugal e Espanha nesta matéria.

Penso pois que facilmente se conclui, sem margem para dúvidas, o seguinte:

Há uma evidente relação entre área ardida e condições meteorológicas conjunturais (geralmente associadas às condições meteorológicas em que o rumo dominante do vento é Leste). Repare-se como o vento soprou desse rumo (enfim, mas nordeste menos nordeste de vez em quando) durante nove dias, em que ardeu a fachada atlântica da península a norte do Tejo (aparentemente agravando-se à medida que se caminha mais para Norte). Houve alguns fogos importantes no meio do Alentejo, mas parecem pouco significativos na intepretação do que se passou.

É evidente que essa relação das condições conjunturais com o fogo pressupõe condições estruturais de vulnerabilidade, decorrentes da acumulação de combustíveis, matéria que depende essencialmente das condições sócio-económicas de uso do território.

Parece-me ainda evidente que a fachada atlântica da península ibérica é especialmente vulnerável à combinação de condições estruturais e conjunturais que provocam estes episódios dramáticos para as populações e para a economia florestal (e também turística).

Continua sem haver evidência de afectação significativa do património natural, mas naturalmente este tipo de análises só podem ser feitos a partir da próxima Primavera.

Diz-se agora que diminuições de área ardida resultam sobretudo de não ter ardido em anos anteriores. Sendo certo que esse é um factor a ter em atenção, sobretudo na extensão de áreas contínuas ardidas pela eventual existência de descontinuidades de combustíveis, convém no entanto não sobrevalorizar este aspecto: Portugal tem cerca de nove milhões de hectares, destes cerca de um terço arde pouco, e cerca de 30% do restante também é menos atreito ao fogo. O que significa que cerca de 4,2 milhões de hectares são potencialmente vulneráveis ao fogo. Mesmo admitindo que nos últimso anos ardeu cerca de um milhão de hectares (contas generosas), mesmo admitindo que quatro anos não são suficientes para repôr grande parte do potencial de fogo (o que dou de barato que seja parcialmente verdade), o certo é que sobram mais de três quartos de áreas potencialmente vulneráveis que não arderam nos últimos anos.

Pois é sobre isso que um dias destes falarei, procurando explicar por que razão esse não é um problema de política florestal, mas um problema de desenvolvimento rural.

henrique pereira dos santos

terça-feira, agosto 08, 2006

A desgraça dos galegos seria «boa» em Portugal

O Governo português irá, concerteza, «aproveitar-se» da «onda de incêndios» na vizinha Galiza para justificar a actual destruição em Portugal. Até irá, por certo, defender que nos estamos a portar melhor, dado que as notíciasque se vão transmitindo revelam a ocorrência de uma centena de incêndios activos, dos quais 60% não circunscritos.

Convém, porém, relativizar estes números. Para a situação «normal» da Galiza, está-se perante, de facto, casos anormais. Mas essa «anormalidade» não se compara à situação nacional. E por uma simples razão: o mais extenso fogo na Galiza, ocorrido no ano 2000 em Ourense, causou uma destruição de 2.850 hectares. Em Portugal, o maior incêndio devastou, em 2003, uma área contínua de 41 mil hectares.

Pelas notícias terão ardido, em toda a Galiza e durante os últimos dias, cerca de 5.000 hectares (os valores obviamente são muito provisórios). E por isso, numa região que, apesar de ter tido sempre muitos fogos, atingirem-se aqueles valores é sempre um motivo de alarme. Além disso, a existência de tantos fogos activos na Galiza também é enganador quando comparamos com Portugal. Embora na página do nosso SNBPC raramente tenha surgido mais de 20 incêndios activos por dia, é certo que esse número é muito superior durante o dia; apenas não surge elencado por durar menos de duas horas a ser extinto e/ou ter tido menos de coinco veículos a combater. Se no domingo tivemos, oficialmente, mais de 500 fogos, significa que, em algumas horas, terão estado activos mais de uma centena. Aliás, em muitos dias, só no distrito do Porto são contabilziados mais de uma centena de ignições! E ninguém parece ter ficado muito preocupado com isso, tanto assim que aquele distrito é o que menos investiga as causas dos fogpos (0,2% nos últimos cinco anos).

Em suma, quase tenho a certeza que, no final do ano, quando olharmos para a área ardida na Galiza e a compraramos com Norte Litoral de Portugal concluíremos que até gostaríamos de ter a «desgraça» dos galegos...

segunda-feira, julho 10, 2006

Aprender com a tragédia

Artigo de opinião, da minha autoria, publicado hoje no Diário de Notícias sobre a morte de seis bombeiros no incêndio da Guarda.

No dia 5 de Julho, o ministro António Costa felicitava-se com o balanço "positivo" da época dos fogos por apenas terem ardido até finais de Junho pouco mais de seis mil hectares, atribuindo esse desempenho "à boa detecção e intervenção no controlo das ignições". Esta atitude assemelhou-se à de um treinador de uma equipa de futebol que se congratula por não ter sofrido ainda qualquer golo aos 10 minutos de jogo. Na verdade, o Verão ainda agora vai no início. E lançar foguetes antes da festa quase nunca dá bons resultados. E assim aconteceu, mais uma vez: um dia depois das afirmações do ministro, o avião de extinção russo Beriev - a coqueluche do Governo para esta época dos fogos - quase se estatelava e, ironicamente, causou incêndios na subsequente operação de emergência. Quatro dias após as declarações do ministro, eis que surge uma catástrofe: seis bombeiros morrem num incêndio, rodeados pelas chamas. Infelizmente, não é uma surpresa. Em Portugal, a tragédia espreita ao virar da esquina.

Embora seja ainda prematuro apontar as causas para estas mortes, espera-se que não se caia no erro de culpar o incêndio e as condições meteorológicas. O vento e o fogo são imprevisíveis e traiçoeiros - e isso é algo que se deve assumir sempre - e sobretudo inimputáveis. Mesmo que, como assume o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, o fogo tenha rodeado os bombeiros devido a uma mudança brusca do vento, algo de estranho se terá passado na Guarda. Por duas razões: os bombeiros chilenos eram bastante experientes e somente em circunstâncias anómalas um fogo faz um cerco completo de 360 graus sem que ninguém, em tempo útil, se aperceba.

Este acidente e o inquérito que o Governo e a Afocelca anunciaram deveria assim levar a uma profunda reflexão sobre as tácticas de combate e a coordenação dos meios humanos, tanto mais que Portugal apresenta, infelizmente, uma tenebrosa sucessão de tragédias do género, inigualável a nível mundial. Por exemplo, em Setembro de 1966, morreram 25 militares em Sintra. Em 1985, 14 bombeiros em Armamar. Um ano depois, 12 bombeiros em Águeda. E nas últimas décadas, faleceram, em acidentes pontuais, mais de uma dezena de bombeiros e mais de meia centena de populares. É demais!

Na verdade, grande parte destas mortes poderia - e deveria - ser evitada se em Portugal se "respeitasse" o inimigo. Ou seja, se se assegurasse sempre a existência de uma rápida evacuação dos bombeiros que estão na frente de fogo, prevendo as tais situações de alteração brusca dos ventos. Para isso, em todas as situações de fogo, deveria existir uma rede portátil de medição dos ventos e um sistema individual de comunicações e alerta de urgência (veja-se, por exemplo, o método que as equipas de arbitragem do Mundial de futebol usaram). Além disso, seria fundamental que os bombeiros soubessem, antes de irem para a frente de fogo, quais as "saídas de emergência" nos casos de mudanças bruscas das condições do incêndio. Ou seja, para isso, deveria existir cartografia actualizada e disponível. E, de igual modo, a coordenação operacional terá de melhorar a sua eficácia. Basta observar como estes aspectos são levados ao pormenor em outros países (o exemplo da Andaluzia, na Espanha, é paradigmático).

Em suma, um incêndio deve ser combatido sempre de pé atrás, com profissionalismo e tecnologia; sem heroísmo nem voluntarismos, que dão em tragédia. Já nos basta chorar a floresta que arde todos os anos; não queiramos continuar todos os Verões a chorar também os mortos.