Com frequência a questão das ignições é considerada fulcral na gestão do fogo, com base numa falácia: se não houver ignições não há fogos.
O que é falacioso é pensar que será possível algum dia não haver ignições.
Esta falácia é muito ampliada por outra menos evidente: a ideia de que as ignições registadas pelo sistema de defesa da floresta contra incêndios (um nome completamente errado que é todo um programa ideológico) são as ignições que realmente ocorrem no território, o que está longe de ser verdade. Naturalmente só são registadas as ignições que ganham dimensão suficiente para serem registadas.
Por último, e como corolário, defende-se que diminuindo o número de ignições se diminui a área ardida, profissão de fé, totalmente assente num raciocínio lógico mas sem qualquer fundamento empírico.
Vejamos alguns dados.

Eu sei que o gráfico é complicado e é melhor clicar para ampliar. No essencial tem dois tipos de dados, referentes aos seis primeiros meses de 2000 a 2009: dois índices que inventei (fogachos sobre incêndios, que permite perceber em que anos há muitas ignições que são rapidamente extintas, e área ardida sobre o total de ignições, que põe em destaque o facto deste dado variar de 1 a 8, o que me parece demonstrar que não há razão nenhuma para acreditar que há uma relação directa entre o número de ignições e a área ardida) e área ardida total (dividi por cinco para não abafar vivualmente as variações do número de ignições total, que estão na mesma escala da direita do gráfico) e número total de ignições.
Para qualquer período de tempo que isto se faça é clara a falta de relação entre área ardida e número de ignições registadas. Ou melhor, existe uma relação muito mitigada, isto é, em anos especialmente benignos, como 2007, há uma diminuição tanto de ignições como de área ardida (e um aumento exponencial de fogachos face aos incêndios com mais de um hectare), mas nos anos em que arde mais área não há relação nenhuma com o número de ignições (2003 é o exemplo maior disso).
Se em vez de usarmos os dados de seis meses do ano usarmos os dados do ano total, eliminando os índices que inventei só para mostrar o que se passou em 2006, 2007 e 2008, o gráfico que compara áreas ardidas com ignições totais é ainda mais expressivo.
Em todo o seu esplendor 2006, 2007 e 2008 aparecem aqui na sua anormalidade climática. Antigamente eram usadas médias rolantes de cinco anos, mas dá muito jeito manter 2003 e 2005 nas médias do passado para poder fazer comparações sempre favoráveis, por isso a média rolante agora usada é de dez anos, mas discutir médias com séries tão curtas em fenómenos com uma variabilidade tão grande é simplesmente inútil. (já falei disso aqui e aqui)A questão é ainda mais óbvia se em vez de usarmos o ano civil como referencial, usarmos tempos curtos que permitam olhar para os dias diferentes em cada ano.
Por exemplo, este ano, nos primeiros seis meses, houve 22 fogos que queimaram pelo menos 100 hectares. Esses 22 fogos são responsáveis por 58% da área ardida. Ou dito de outro modo, os outros 8 731 fogos são responsáveis por 42% da área ardida.
Qualquer gestor que tivesse o seu negócio assente na diminuição da área ardida estaria era preocupado em estudar estes 22 fogos e não em diminuir para um décimo os outros 8731 fogos. O argumento para não se fazer isto é que qualquer pequeno fogo se pode transformar num grande fogo.
Esta é a mais perigosa das falácias do nosso sistema de Defesa da Floresta Contra Incêndios. Pura e simplesmente isso não é verdade. Para que um fogo pequeno cresça é preciso que tenha condições para isso. Dos 22 grandes fogos, 19 ocorreram entre 20 e 31 de Julho, mas muito mais relevante, 10 foram no dia 26 de Julho, o mais típico dos dias de vento Leste, sendo que mais três foram no dia seguinte, 27, ou seja mais de metade dos grandes fogos dos primeiros meses do ano ocorreram em dois dias. Nesses dois dias, só nestes 13 grandes fogos, está mais de 45% da área ardida nos primeiros seis meses do ano.
O que têm esses dois dias de diferente dos outros?
Essa seria a pergunta normal de quem olhasse desapaixonadamente para o assunto.
Claro que esses dois dias (juntamente com 28, em que apesar de tudo se começou a conseguir fazer parar os fogos) têm o recorde de ignições registadas mas pretender que é esse número de ignições o problema é confundir causas com consequências: as razões pelas quais arde muito nesses dias e não se consegue parar o fogo são exactamente as mesmas razões pelas quais um número enorme de pequenas ignições que todos os dias existem se transformam em ignições suficientemente grandes para serem registadas.
A questão é mesmo muito simples de enunciar (mas muito difícil de resolver): com a quantidade de combustível acumulado, quaisquer meia dúzia de dias com as condições destes dois (ou se quiserem, com condições piores, isto é, condições mais típicas de vento Leste e vento mais forte, ou então com efeitos em áreas menos favoráveis ao combate, como é a fachada atlântica do Noroeste onde se fizeram nestes dias sentir os efeitos da meteorologia desfavorável aos fogos) rebentam com qualquer sistema de defesa da floresta contra incêndios.
Reparem como voltou a conversa dos incendiários, da falta de meios e por aí fora. Volta sempre nestes dias.
E no entanto o problema é outro e a sua solução está noutro lado.
Está na forma como se encara o mundo rural e o problema da acumulação de combustiveis.
A propósito, alguém ouviu o Sr. Ministro da Agricultura falar do assunto por estes dias? E explicar como o PRODER está a apoiar a gestão de combustiveis?
Estes dias têm sido pequenos avisos. Complicados, desagradáveis, mas pequenos avisos.
O sistema de defesa da floresta contra incêndios é completamente inútil quando verdadeiramente importa: quando dias especiais como o próximo sábado (a manterem-se das previsões) se prolongarem por mais de três dias vão morrer pessoas, vão destruir-se infra-estruturas, vai perder-se riqueza.
Não se vão perder grandes valores de conservação, mas perde-se confiança no Estado, o que é muito mais grave.
Pode não ser neste ano nem no próximo, mas pode dizer-se dos fogos imparáveis o que Jorge de Sena disse da morte "é de todos e virá".
Até lá haverá milhares de contos a procurar diminuir o número de foguinhos e fogachos que não valem um caracol, alguns dos quais mais valia que os deixassem fazer o trabalho de limpeza que a miopia política dos responsáveis não lhes permite compreender que nos beneficia a todos.
henrique pereira dos santos

henrique pereira dos santos








