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terça-feira, julho 12, 2005

Entrevista ao DN sobre alterações climáticas

DN - Gostaria de saber quais os sinais que indicam que as alterações climáticas estão (ou vão) afectar a flora e a fauna do sul da Europa, mais concretamente da Península Ibérica e de Portugal?

Há duas formas complementares para analisar o impacte das alterações climáticas sobre a biodiversidade. A primeira consiste na observação directa; a segunda na modelação. Cada uma destas abordagens tem vantagens e desvantagens. A observação directa permite a constatação de factos reais. Por exemplo a extinção local de uma espécie ou a migração para outros locais. O problema das observações é que pode ser difícil tomar "a árvore pela floresta". Ou seja, perceber em que medida é que observações realizadas num dado contexto, raramente controlado, representam um padrão geral ou constituem uma realidade particular. Mesmo quando as observações são fiáveis e representam padrões de carácter geral nem sempre é fácil atribuir uma causa inequívoca ao que é observado.

A modelação tem características diferentes. Partem-se frequentemente de cenários do tipo "o que aconteceria se?" e exploram-se os possíveis resultados dos cenários traçados. Por comparação dos modelos com a realidade vão-se ou excluindo hipóteses menos plausíveis e apoiando hipóteses mais realistas.

Esta introdução ao procedimento científico é importante pois o cidadão comum tem geralmente uma ideia ténue sobre o processo de construção de conhecimento nesta área.

Assim e respondendo concretamente à sua pergunta devo dizer que, tanto quanto conheço, não existem estudos, em Portugal ou Espanha, que, de forma sistemática, procurem acompanhar a dinâmica das populações de animais e plantas no território. Desta forma é difícil identificar sinais de resposta da biodiversidade a fenómenos de alteração ambiental quer sejam eles de origem climática, de evolução do uso do solo, ou outros. As informações que existem são pontuais e fragmentadas. Por exemplo, sabe-se que as Cegonhas brancas, há cerca de 20 anos, restringiam a sua presença no território nacional ao período de reprodução, sendo que agora existem populações residentes que ficam cá durante o inverno. Será este um sinal de resposta às alterações climáticas? É possível.

Existem estudos, realizados a nível Europeu, que avançam com observações claros de movimentos migratórios de espécies de animais e plantas que se dirigem para norte e para altitudes mais elevadas. O que se conhece menos é o impacte das alterações climáticas no extremo sul da Europa, ou seja nas regiões mais quentes e secas.

DN - Que espécies estão ameaçadas? Os anfíbios também estão em causa?

Na ausência de observações sistemáticas no terreno, a resposta a essa pergunta tem de ser baseada no resultado de estudos que utilizam modelos. A equipa com a qual tenho trabalhado, primeiro em França e Portugal e depois no Reino Unido (Oxford) efectuou o primeiro estudo alargado do impacte das alterações climáticas sobre a biodiversidade na Europa. Para o efeito foram realizados mais de 245.000 modelos para a totalidade da fauna de vertebrados terrestres e cerca de 20% da flora Europeia. Devido à grande incerteza associada às projecções climáticas realizamos modelos tendo em conta 7 cenários climáticos futuros que tomam em linha de conta com diferentes cenários de emissão de gases de estufa.

A análise dos resultados deste estudo, financiado pela Comissão Europeia (projectos ATEAM e ALARM), continuam em curso mas já extraímos alguma informação relativamente às plantas, répteis e anfíbios.

Relativamente às plantas a tendência mais significativa é a vulnerabilidade acrescida das áreas montanhosas do sul da Europa assim como das zonas mais húmidas do sul o que incluí, por exemplo, a região lusitana, ou seja o norte de Portugal e noroeste de Espanha.

Relativamente aos répteis e anfíbios destaca-se a vulnerabilidade da Península Ibérica, no seu conjunto, assim como de área da região central de França. Esta tendência contrasta, em quase todos os modelos efectuados, com uma tendência inversa projectada para o sudeste, centro e norte da Europa onde os modelos indicam uma possível expansão de distribuições para norte sem, no entanto, se verificarem perdas assinaláveis nas distribuições do sul. A razão para esta tendência prende-se com o aumento de aridez prevista para a Península Ibérica que, a verificar-se, poderá atingir condições semelhantes ao que existe actualmente em algumas zonas do norte de África onde persistem poucas espécies de anfíbios.

É preciso notar que estas projecções têm incertezas elevadas e que a interpretação destes resultados deve ser acompanhada de um conhecimento aturado do terreno e das espécies estudadas. É minha convicção que os
répteis estarão em condições bastante mais favoráveis que os anfíbios para adaptar-se às alterações climáticas que estão projectadas para a Península Ibérica pois a sua tolerância à aridez é superior. Os anfíbios estão completamente dependentes da água, por exemplo, para completar o seu ciclo reprodutor. Não só precisam de água como precisam de água em momentos concretos do ano e em condições muito específicas. Por exemplo a maior parte das albufeiras não oferece condições adequadas à reprodução de anfíbios devido ao efeito da predação por parte de peixes. O habitat ideal destas espécies são as pequenas charcas e ribeiras temporárias que são as mais vulneráveis a uma redução de precipitação, especialmente no inverno e na primavera.


De entre os anfíbios constatamos uma tendência de maior vulnerabilidade entre salamandras e tritões o que, tendo em conta que estes organismos contam entre as mais aquáticos de entre os anfíbios, é consistente com a observação de que a escassez de água, mais do que o aumento da temperatura, pode constituir o factor crucial para a persistência de espécies animais e vegetais na Península Ibérica.

DN - A seca está a dar um contributo a esse processo ou é um fenómeno que não tem implicações?

É sabido que nas regiões frias do norte da Europa o factor que limita a distribuição das espécies é a energia. No sul da Europa, onde a energia é abundante, o factor limitante é a água. Há menos espécies adaptadas a climas quentes e secos do que espécies adaptadas a climas quentes e húmidos pelo que um aumento da aridez terá um efeito quase inevitável de perda de número de espécies no Mediterrâneo.

Por outro lado é importante notar que além de uma tendência média para aumento da aridez os modelos prevêem um aumento das oscilações na temperatura e precipitação. Este é um factor que não estudámos ainda mas que tem potencial para aumentar a gravidade do impacte das alterações climáticas sobre a biodiversidade.

DN - Está alguma coisa a ser feita para inverter esta situação, ou seja, no sentido de proteger as espécies?

Em Portugal as políticas sobre alterações climáticas têm-se restringido quase exclusivamente à questão da "mitigação". Ou seja, a preconização de políticas de redução de concentração de gases de efeito de estufa. Estas medidas decorrem das nossas obrigações no âmbito do Protocolo de Quioto.

No entanto, se formos sérios relativamente ao objectivo de conservação da biodiversidade, muito mais terá de ser feito ao nível da adaptação. Por exemplo, os resultados dos nossos modelos indicam que os impactes das alterações climáticas sobre a biodiversidade, para o período anterior a 2050, seriam pouco afectados pelos diferentes níveis de emissão de gases de estufa. Só a partir deste período é que os modelos indicam impactes diferenciados em função de diferentes níveis de implementação de Quioto.

Infelizmente, no que diz respeito a biodiversidade, não tenho conhecimento de que tenham sido medidas práticas para permitir uma mais fácil adaptação às alterações climáticas.

DN - O desaparecimento é um processo para demorar quanto tempo?

Sim nada será imediato até porque o território não é homogéneo e a paisagem oferece micro refúgios que podem permitir que algumas espécies persistam em horizontes temporais diferenciados e em baixas densidades em alguns locais estratégicos. O impacte destes micro refúgios infere-se pelo conhecimento que se tem de alterações climáticas no passado mas não têm sido incorporados nos estudos que procuram projectar os impactes para o futuro. É uma linha de investigação que nos começa a interessar agora.

DN - E que impacto vai ter nos habitats e na paisagem?

Paisagem é um conceito no qual a sociedade humana não pode ser excluída. Sendo assim é uma questão difícil de responder pois a "resposta" da sociedade às alterações climáticas é uma área de estudo - que não é a
minha - e sobre a qual pairam incertezas ainda maiores do que aquelas que temos vindo a abordar.


No entanto é natural que havendo uma tendência para a aridez se espere um aumento da área ocupada por espécies vegetais típicas de climas áridos - geralmente jovens do ponto de vista evolutivo - em detrimento de espécies que requerem maiores níveis de humidade - mais antigas do ponto de vista evolutivo. Essa alteração terá, necessariamente, efeitos em "cascada" sobre outras espécies dependentes da vegetação.

quinta-feira, março 31, 2011

Efeito das alterações climáticas nas redes de áreas para conservação

Foi publicado hoje um artigo que me ocupou durante quase 10 anos. Poucos trabalhos em que me envolvi tardaram tanto em ver a luz do dia. É uma avaliação exaustiva do efeito que as alterações climáticas projetadas para a Europa poderão ter na biodiversidade das suas áreas protegidas e da Rede Natura 2000.

O artigo pode ser visualizado aqui.

Trechos do comunicado de imprensa que será enviado hoje pode ser lido em baixo:

Até 2080, 58% dos vertebrados terrestres e das plantas poderão perder condições climáticas adequadas à sua ocorrência nas áreas protegidas da Europa. Estas perdas poderão atingir 63% das espécies prioritárias presentes na Rede Natura 2000. Estas e outras conclusões são obtidas num estudo coordenado por Miguel Araújo. O estudo analisa, pela primeira vez, a eficácia das políticas de conservação, num contexto de alterações climáticas, para 75% dos vertebrados terrestres e 10% das plantas presentes na Europa.

A equipa liderada por Miguel Araújo estudou a distribuição potencial de 1883 espécies, 585 vertebrados terrestres e 1298 plantas que ocorrem nestas redes de conservação, em função de vários modelos climáticos. “De acordo com os cenários climáticos disponíveis, as áreas protegidas preservam espécies da fauna e flora Europeias melhor que o território não conservado mas a Rede Natura 2000 é mais vulnerável às alterações climáticas e poderia preservar espécies prioritárias, na Europa, em condições menos propícias que outros territórios não conservados”.

A melhor capacidade de retenção de espécies nas áreas protegidas deve-se ao facto destas se situarem primordialmente em zonas de montanha que têm tendência a actuar como refúgios climáticos. No entanto, além de regiões montanhosas, a Rede Natura 2000 inclui regiões com relevo pouco acidentado, como é o caso das áreas agrícolas, onde os impactes das alterações do clima na distribuição das espécies se intensificam.

Este estudo confirma que o sul da Europa será mais afectado pelas alterações climáticas e que a Escandinávia e as regiões de alta montanha afectarão, negativamente, um conjunto menor de espécies. “Muitas espécies com ampla distribuição na Europa e presentes na Europa central e setentrional beneficiarão da subida de temperaturas. Porém, as espécies mais tolerantes ao frio e que vivem no extremo norte e em maiores altitudes serão expostas a pressões climáticas que poderão afectar seriamente a sua persistência”, diz Miguel Araújo.

Mudança nas políticas de conservação
Segundo os autores do estudo é necessária uma alteração de fundo nas políticas de conservação na Europa, já que estas não consideram as consequências das alterações climáticas na abundância e distribuição das espécies. O carácter fortemente dinâmico da distribuição das espécies, num contexto de alterações climáticas, poderá forçar uma revisão do estatuto actual de algumas áreas protegidas e induzir a classificação de novas áreas. Também se sugere o aprofundamento de mecanismos de gestão integrada da paisagem de modo a facilitar a mobilidade das espécies entre áreas protegidas. “Ainda hoje vigora a ideia de que as estratégias de conservação implicam o isolamento das áreas protegidas face a factores de ameaça externos. Porém, para que sejam eficazes, estas áreas devem mitigar os efeitos das alterações climáticas além de proporcionar uma gestão sustentável dos habitats e ecossistemas locais”. Segundo Miguel Araújo, seria importante rever os mecanismos de gestão das áreas protegidas de modo a contemplar planos para períodos de 20 a 50 anos em função da velocidade das transformações em cada ecossistema. Estes planos deveriam ser revistos regularmente e ser concebidos a escalas relevante para minimizar os impactes do clima.

domingo, janeiro 25, 2009

Alterações globais, biodiversidade e cépticos

No verão passado a revista Mais Ambiente fez-me uma entrevista pela pena de Luís Galrão. Entretanto problemas internos à revista impediram que esta fosse publicada e ainda não se sabe se tal acontecerá. Desta forma, decidi publicar, após consulta com o editor da revista, em primeira mão, uma parte da entrevista que versa sobre alterações globais, biodiversidade e cépticos climáticos, um tema aqui discutido com alguma assiduidade.

O que são as alterações globais? Estamos só a falar do clima?
Não. Estamos a falar de todas as modificações planetárias que decorrem da acção humana e que incluem, à cabeça, o aumento demográfico. O clima é um dos fenómenos globais associados a esta acção humana e um dos fenómenos com contornos mais complexos e perigosos.

O que dizes aos cépticos nesta questão do aquecimento global?
Eu próprio sou céptico. Mas uma coisa é ser-se céptico, outra é negarmos as evidências. Ora, as pessoas que se apresentam como “cépticas climáticas” não trabalham em climatologia nem sequer acompanham a literatura da especialidade. Os ditos “cépticos” não frequentam as revistas científicas de climatologia e preferem ler e escrever em “sites” e “blogues” onde, regra geral, se usam fontes secundárias e não se permite contraditório. Ora, nunca se estudou tanto o clima do planeta, nem se soube tanto sobre a sua dinâmica, como actualmente. Os modelos de circulação do oceano e da atmosfera (AOGCM na sigla Inglesa), possuem um nível de complexidade que os torna impróprios para consumo popular. Não obstante, estes modelos têm sido usados com sucesso para prever variações do clima do século XX. Os paleo-climatólogos também têm sido capazes de simular períodos climáticos no Quaternário e no Terciário recorrendo a projecções que são depois validadas com o registo fóssil. Podem perguntar: existem incertezas? Existem fenómenos que são difíceis de prever? Ninguém o nega. Mas ignorar os progressos que têm sido feitos no últimos anos, em matéria de ciência climática, é pouco construtivo. E reduzir os mecanismos que governam o clima a dinâmicas caóticas, ou ridicularizar a climatologia por analogia à dificuldade que os meteorologistas têm de prever o tempo daqui a uma semana é pouco sério.

Por outro lado, há que reconhecer que as consequências das alterações climáticas colocam o tema num patamar diferente da discussão simplesmente académica. Estamos perante um fenómeno que pode afectar a vida de centenas de milhões de pessoas e a sobrevivência de nações inteiras (o caso de nações insulares). Portanto, há que ser responsável na gestão das incertezas e assegurar que as decisões adoptadas sejam as que minimizem o risco de cometer erros graves. Ora as medidas de mitigação que se propõem são, na grande maioria dos casos, de tipo “win-win”. Ou seja, são políticas que são positivas quer hajam alterações climáticas ou não e o custo social que advém de lhes conferir prioridade é bastante inferior ao custo social de não as implementar num cenário provável de alterações climáticas.

É um tema onde continua a existir alguma contra-informação. Porquê?
Parece-me óbvio que existe contra-informação patrocinada por grupos conservadores avessos à transformação do modelo de elevado consumo de combustíveis fósseis. Os neo-conservadores nos Estados Unidos eram um desses grupos mas recentemente o próprio George Bush veio reconhecer que existe um problema climático. Mas também existem lobbies ambientalistas que representam a ciência climática de forma pouco rigorosa e que tendem simplificar os seus resultados de forma a melhor fazer passar uma mensagem catastrofista. Este alarmismo alimenta, inevitavelmente, o cepticismo de quem está menos predisposto a acreditar neste tipo de mensagens ou de mensageiros. Por outro lado, a imprensa gosta de vender boas histórias e uma boa história tem polémica. Há, portanto, uma tendência natural para dar uma importância desproporcionada aos ditos cépticos. Pode-se discordar desta forma de fazer jornalismo mas é pouco provável que tais práticas venham a mudar pelo que é mais importante reconhecer que em virtude das implicações sociais da ciência climática é normal que exista politização dos seus resultados. E neste processo de politização é importante que os profissionais da ciência mantenham uma posição de alguma equidistância face a posturas extremas e que resistam à tentação de usar argumentos de autoridade para fazer vingar as suas posições pessoais. O que é importante é acrescentar racionalidade ao debate pois a racionalidade é a base de qualquer democracia avançada.

Alguns cépticos criticam sobretudo algumas “previsões” mais catastrofistas e o grau de incerteza dos modelos climáticos. Qual a diferença entre uma previsão e uma projecção?
Como dizia o famoso estatístico, George Box, “os modelos estão todos errados e a questão é saber quais são úteis”. Portanto, acusar os modelos climáticos de estarem errados é uma banalidade. A questão é saber se os modelos climáticos fornecem informação útil. Ou seja, se nos permitem antever o futuro com maior precisão do que a simples aceitação do status quo como modelo para o futuro. Ora, até à data, não existe qualquer evidência de que o clima actual seja um bom indicador do clima nos próximos 50 anos. Tanto mais que os modelos climáticos projectados para século XX oferecem ajustes mais próximos à realidade do que modelos que assumem variação natural do clima sem interferência humana. Em todo o caso, é mais correcto falar de projecções do que previsões. As primeiras assumem que o resultado dos modelos é baseado em assumpções de tipo “what if”, ou seja, são afirmações condicionais, enquanto que as previsões assumem um carácter taxativo. Enfim, talvez seja um preciosismo académico com pouco alcance fora das muralhas da ciência.

Um dos teus projectos consiste na elaboração de um Atlas europeu sobre os efeitos do aquecimento global na distribuição de mais de 3000 espécies de vertebrados e plantas. Que cenários são esperados?
Os cenários variam de um grupo biológico para outro mas a tendência geral é a de deslocação de espécies do Mediterrâneo para o centro e norte da Europa, assim como de zonas baixas para zonas mais elevadas em altitude. A nível Europeu esperam-se impactes mais acentuados na Península Ibérica, SW de França e nas montanhas do sul da Europa, como sejam os Alpes e Pirineus. Também se esperam impactes importantes nas regiões boreais do norte da Europa, com comunidades de espécies adaptadas ao frio a reduzirem as suas distribuições de forma significativa.

O aquecimento global é uma ameaça para a biodiversidade?
Qualquer fenómeno que provoque uma alteração das condições actuais tem potencial para constituir uma ameaça à persistência das espécies. Não obstante, é bom compreender os mecanismos de ameaça que operam com as alterações climáticas pois, em última análise, o clima nunca deixou de mudar e nem sempre os impactes dessas alterações foram catastróficos. Até há pouco tempo dizia-se que um dos problemas das alterações climáticas residia na sua velocidade. Porém, resultados de uma investigação, recente, publicada na revista “Science”, demonstraram que as alterações climáticas do passado poderão ter sido extremamente rápidas: da ordem dos 1 a 3 anos em vez das esperadas centenas ou milhares de anos. Estes resultados forçam-nos a reconsiderar a ideia de que a adaptação rápida da biodiversidade a alterações do clima é improvável. A biodiversidade que possuímos resulta de um período conturbado do ponto de vista climático. A grande maioria das espécies que conhecemos terá sobrevivido a ciclos glaciares e interglaciares do Quaternário (o último período máximo glaciar terá sido há 21.000 anos). Estas representaram mudanças climáticas mais acentuadas do que as que se projectam para este século. Portanto, poderíamos supor que estas espécies teriam a capacidade de resistir às alterações climáticas actuais.

Acontece que o período de mudança climática que registamos possui outras peculiaridades. Uma delas é o elevado nível de concentração de CO2 – 380 partes por milhão (ppm) – que encontra paralelo apenas à 650.000 anos prevendo-se que possa alcançar os 450-550 ppm em 2050, ou seja, os níveis registados à 24 milhões de anos (em pleno Mioceno). Ora é muito difícil prever os mecanismos que acção e retroacção que poderão estar associados a estas elevadas concentrações de CO2. Outra peculiaridade, é o elevado nível de fragmentação de habitats que muito provavelmente impedirá a adaptação de muitas espécies por via da migração; o mecanismo mais provável de adaptação às alterações climáticas do passado. Outro aspecto a realçar é presença de espécies invasoras, cuja expansão se espera poder vir a ser potenciada pelo aumento de temperaturas e cujas consequências podem ser devastadoras para as faunas e floras locais. Finalmente, existe a expansão de algumas doenças com a “tropicalização” do clima. Por exemplo, pensa-se que a devastação global das populações de anfíbios se deve a uma interacção entre alterações do clima e propagação de um fungo letal entre espécies de anfíbios. O estudo destas interacções é extremamente complexo e prever o seu impacte a médio e longo prazo constitui um dos maiores desafios que temos entre mãos.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

As alterações climáticas desviam a atenção de problemas ambientais urgentes

Com a conferência de Copenhaga a decorrer penso ser apropriado fazer uma pequena reflexão sobre a forma como o movimento ambientalista, os media, e até a sociedade em geral têm focado toda a sua atenção nas alterações climáticas. Para alguns, como Achim Steiner (Director da UNEP) é bom que as alterações climáticas tenham captado a atenção da sociedade pois agora outras questões ambientais podem ser comunicadas ao público por associação às alterações climáticas. Para outros, nos quais me incluo, o foco excessivo nas alterações climáticas desvia perigosamente a atenção da sociedade de vários problemas ambientais graves, como a perda da biodiversidade, a poluição do ar das nossas cidades, a sobreexploração de recursos biológicos, entre outros. Darei um exemplo muito concreto associado à qualidade do ar.
Hoje qualquer cidadão em Portugal que decida comprar um automóvel encontrará no prospecto publicitário do veículos à venda informações sobre emissões de CO2. Para carros com característica semelhantes, por exemplo em termos de potência ou de dimensão, poderá então ser levado a adquirir aquele que apresenta menos emissões de CO2 convencido que está a tomar a melhor decisão para o ambiente. Infelizmente é muito provável que tal não aconteça. Considere-se dois veículos com emissões na casa dos 100 g-120g CO2/km, um a gasóleo e outro a gasolina (veja-se por exemplo a base de dados em http://www.vcacarfueldata.org.uk/downloads/). O veículo a gasóleo poderá emitir 0.025 g PM10/km e 0.25 g NOx/km. O veículo a gasolina terá emissões nulas de PM10 (partículas), e emissões de NOx (óxidos de azoto) tipicamente dez a vinte vezes inferiores. Estes são precisamente os poluentes na base dos problemas de qualidade do ar das nossas cidades (ver o Relatório do Estado do Ambiente 2007, APA), associados a ultrapassagens dos valores considerados seguros para PM10, NO2 e Ozono (o ozono troposférico é resultado de reacções fotoquímicas do NOx)!
Aliás, dá-se um fenómeno curioso na Europa. Apesar de os standards de emissões de veículos automóveis terem vindo a ser cada vez mais apertados (o actual é o Euro V), em muitos casos não tem havido uma melhoria significativa na qualidade do ar. Alguns especialistas atribuem este facto precisamente ao aumento da percentagem de veículos com motores a gasóleo. Em Portugal o problema é particularmente grave dado o gasóleo ter uma taxação inferior à gasolina, fazendo os carros "amigos do ambiente" ainda mais atractivos.
E quais são os problemas causados por uma má qualidade do ar? São uma maior incidência de doenças do foro respiratório, tais como a asma, de doenças cardiovasculares, e de cancros. A mortalidade anual na Europa associada a estes problemas de qualidade do ar será da ordem das dezenas de milhares (ver por exemplo J Epidemiol Community Health 2004;58:831-836), já para não falar nos impactes na qualidade de vida dos cidadãos europeus. Penso que se os media não tivessem tão concentrada no problema das alterações climáticas, já teriamos feitos mais progressos no sentido de resolver os problemas associados às emissões poluentes dos automóveis, incluindo a correcção da taxação do gasóleo em relação à gasolina, o desenvolvimento de standards de emissões ainda mais apertados para os carros a gasóleo, e a proibição de circulação de veículos a gasóleo antigos (ainda mais poluentes) nas zonas centrais das cidades. Aliás, certamente que muitos não escolheriam o carro com menos 10% de CO2 mas vinte vezes mais poluente em termos de NOx e partículas.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Uma resposta aos cépticos climáticos

O blogue Mitos Climáticos oferece uma tradução da carta que um conjunto de pessoas de vários Países enviaram ao Secretário-geral das Nações Unidas Ban Kin Moon por ocasião da Conferência climática da ONU em Bali. Essas pessoas estão agrupadas no que se convencionou apelidar de "cépticos climáticos". O peso destas pessoas na Internet é muito superior ao seu peso fora dela mas a repetição incansável de inverdades e meias verdades em meios populares tem como consequência a sua consolidação como verdade popular. E como estes locais onde se veícula informação climática raramente permite contraditório (p.e. o blogue dos mitos climáticos não permite comentários) torna-se necessário, de tempos em tempos, vir a terreiro contradizer a prosa noutros espaços [de liberdade]. Abaixo seguem frases da carta com comentários feitos por mim.

"É impossível deter as alterações climáticas, um fenómeno natural que tem afectado a humanidade através dos tempos. Os testemunhos históricos, geológicos, arqueológicos, orais e escritos provam todos os desafios fundamentais que as sociedades antigas tiveram de enfrentar perante alterações imprevistas de temperatura, de precipitação, de vento e de outras variáveis climáticas. Devemos consequentemente preparar as nações para resistir a todos estes fenómenos naturais promovendo o crescimento económico e a criação de riqueza."

1. Sou dos que têm afirmado que os esforços de adaptação às alterações climáticas devem ser uma prioridade. Tenho vindo a dizer isso desde os tempos em que apenas a palavra "mitigação das alterações do clima" estava na agenda internacional. No entanto, é sabido que os esforços de adaptação serão tanto mais caros (e irreversíveis) quanto maior for o grau de alteração do clima. Logo, é defensável, como defende a comunidade internacional, adoptar as duas estratégias em simultâneo.

2. A afirmação inicial de que é impossível deter o clima é demasiado simplista e como tal inatacável. É óbvio que é impossível, no quadro actual, controlar o clima (ainda que haja quem esteja a estudar soluções de engenharia para o efeito que, no meu entender, poderiam criar mais problemas no longo prazo do que os que ajudaria a resolver) mas sabe-se que mais CO2 na atmosfera aumenta o processo de aquecimento por via do efeito de estufa e menos CO2 diminui esse aquecimento. Pode-se discutir a magnitude da contribuição dos gases de efeito de estufa na dinâmica climática do planeta mas dificilmente se pode defender que um dos elementos da estratégia para mitigar as alterações do clima não deve passar pelo controlo de emissões.

"O Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) tem publicado conclusões cada vez mais alarmistas sobre a influência climática do CO2 de origem humana, um gás não poluente que é essencial à fotossíntese das plantas. Embora compreendamos os argumentos que levaram a considerar as emissões de CO2 como perigosas, as conclusões do IPCC são absolutamente injustificadas e não devem conduzir a políticas que vão reduzir significativamente a prosperidade futura. Em especial, não foi estabelecido que seria possível modificar significativamente o clima global reduzindo as emissões humanas de gases com efeito de estufa. Acima de tudo, porque as tentativas de reduzir emissões vão retardar o desenvolvimento, a abordagem actual da ONU sobre a redução do CO2 é susceptível de agravar o sofrimento humano devido às alterações climáticas futuras em vez de o reduzir."

O argumento faz pouco sentido. Mais tarde ou mais cedo vamos ter de reverter o uso intensivo de combustíveis fósseis porque o tempo do petróleo barato está a chegar ao fim e novas alternativas vão ter de ser implementadas. Quanto mais cedo racionalizarmos o uso do petróleo mais tempo, como sociedade, ganhamos para utilizar o petróleo nos segmentos da economia (p.e., aviação) onde é mais difícil substitui-lo por outras fontes energéticas. Também estamos a diminuir a dependência face aos pouco mais de uma dúzia de Países produtores de petróleo. Muitos deles são instáveis politicamente e usam o petróleo como elemento de chantagem política. Finalmente, o argumento de que os pobres é que pagam os custos do Protocolo de Quioto é um rotundo disparate. Se assim fosse os Países em vias de desenvolvimento não teriam sido tão céleres a assinar o protocolo. Os créditos de carbono que ganharam (e venderam) e os mecanismos de financiamento que se estão a discutir para remunerar a conservação de florestas tropicais são políticas concretas com vista a beneficiar muitos destes Países.

"O Resumo para os Decisores Políticos do IPCC é o documento mais consultado pelos políticos e pelos não-cientistas e está na base da maior parte das decisões políticas sobre as alterações climáticas. Contudo, este resumo é preparado por um núcleo relativamente restrito de redactores e a sua versão final é aprovada linha a linha por representantes dos governos. A grande maioria dos contribuintes e revisores do relatório [geral do IPCC] e das dezenas de milhares doutros cientistas qualificados que comentam sobre esta matéria não estão implicados na preparação deste documento [do Resumo]. O Resumo não pode por conseguinte ser considerado como representativo de um consenso de especialistas."

O resumo é isso mesmo: um resumo. Não conheço nenhuma decisão política tomada em virtude de afirmações dos resumos que não estão apoiadas por dados nos relatórios completos. Tendo sido autor do relatório do IPCC, tendo usado este blogue para criticar algumas afirmações contidas nos ditos resumos do relatório, e tendo sugerido varias vezes, em público, a leitura dos relatórios completos por oposição aos resumos estou perfeitamente à vontade para contestar o alcance da afirmação destes autores.

"Contrariamente à impressão dada pelo Resumo para os Decisores Políticos, do IPCC:
· As observações recentes dos fenómenos como a retracção dos glaciares, o aumento do nível do mar e a migração das espécies não testemunham uma alteração climática anormal porque nenhuma destas alterações está para além dos limites da variabilidade natural que conhecemos.
· O ritmo médio de aquecimento de 0,1 ºC/década a 0,2 ºC/década registado pelos satélites nas últimas décadas do século XX está dentro dos limites de aquecimento e de arrefecimento observado nos últimos 10 mil anos.
· Cientistas de primeiro plano, incluindo representantes importantes do IPCC, reconhecem que os modelos informáticos actuais não podem prever o clima. Assim, e apesar das projecções dos computadores de um aumento de temperatura, não tem havido aquecimento global desde 1998. O patamar de temperatura actual que se seguiu a um período de aquecimento no final do século XX está de acordo com ciclos naturais multidecenais ou milenários.
· Exactamente oposto à afirmação frequentemente repetida que na ciência do clima “terminou o debate”, um número importante de novas publicações em revistas com revisão pelos pares coloca cada vez mais em dúvida a hipótese de um aquecimento perigoso de origem humana. Mas como os grupos de trabalho do IPCC tiveram instruções para examinar as publicações [somente] até Maio de 2005 (cf. instruções IPCC) as posteriores conclusões importantes não estão incluídas no seu relatório; o que quer dizer que os relatórios de avaliação do IPCC são baseados em resultados já obsoletos."

1. Estas afirmações não constam do relatório do IPCC. Noto que o argumento original é de que os políticos usam o resumo (politizado) e não o relatório (científico) mas as afirmações aqui produzidas vão muito além de uma crítica ao resumo dos relatórios: pura e simplesmente avançam com afirmações que não estão apoiadas pelo cerne da literatura científica na matéria e que se encontra resumida nos relatório do IPCC (dezenas de milhar de artigos).

2. As afirmações avançadas são, na maior parte dos casos, tendenciosas. Por exemplo, 1998 representou um pico de calor (devido ao "el niño") seguido vários outros bastante superiores às tendências verificadas nas décadas anteriores (ver figura 3.1.). O ano de 2007 registou picos de degelo no árctico (20 km por oposição aos 5 km dos últimos anos) pelo que se percebe mal as afirmações feitas. Ao não qualificar variabilidade natural permite todo o tipo de comparações incluindo as que derivam de alterações climáticas, passadas, motivadas pela colisão da Terra com cometas, erupções vulcânicas, alterações da órbita planetária, etc. Quando diz que as migrações das espécies não diferem da variação natural está-se a referir a quê? Ao século 20 ou às Eras geológicas dos últimos 500 milhões de anos?

3. É óbvio que os modelos estão errados. Todos estão. A questão não é se estão certos ou errados mas se são úteis. E os modelos climáticos utilizados para fazer as simulações climáticas que todos conhecemos têm sido capazes de prever climas passados e presentes (é com estes processos de validação que são afinados) com um rigor suficiente para ser defensável a sua utilização num processo político de relevo como é o que estamos a falar. Nunca tanta e tão boa informação científica foi usada para suportar decisões políticas pelo que se percebe pouco esta teimosia de alguns em tentar denegrir o processo. O que pretendem? Que se decida em função do senso comum ou contrariando a evidência acumulada durante décadas de trabalho sério de milhares de cientistas?

4. É falso que só tenham sido analisados estudos anteriores a Maio de 2005. Basta verificar a literatura citada para encontrar vários estudos com datas de 2006 e 2007 (a dificuldade com estes últimos é que não estavam publicados quando o relatório foi escrito pelo que só os estudos não publicados, que eram do conhecimento dos autores do relatório [muitos de autoria própria ou de autoria de colegas] é que foram citados no relatório actual).

"A conferência sobre o clima de Bali foi destinada a conduzir o Mundo pelo caminho de uma restrição severa de CO2, ignorando as lições evidentes que se podem tirar do malogro do Protocolo de Quioto, o caos no mercado de transferências de CO2 estabelecido pela Europa e a ineficácia de outras iniciativas dispendiosas destinadas a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. Análises custo-benefício objectivas desacreditam a introdução de medidas globais destinadas a limitar e a reduzir o consumo de energia para reduzir as emissões de CO2.

Misturam-se alhos com bugalhos nesta afirmação, i.e., a necessidade de reduzir o CO2 com os mecanismos económicos e políticos para atingir o fim. Como os autores deste texto são contra os esforços de redução de CO2 compreende-se dificilmente que sejam entusiastas das medidas preconizadas pelos acordos internacionais que visam a redução deste gás na atmosfera. Depois criticam-se medidas globais, mas quais? O mercado de carbono, ou a taxa global sobre o carbono?

"Além disso, é irracional aplicar o “princípio da precaução” porque numerosos cientistas reconhecem que um arrefecimento ou um aquecimento são ambos procedentes e realistas para o clima a médio prazo."

A demagogia não tem limites. Mais uma vez não se qualifica o horizonte temporal. O que quer dizer médio prazo? O século 21? Se for, então a probabilidade de arrefecimento está calculada em menos de 1% e, pasme-se, seria resultado de um aquecimento do planeta mais acelerado do que o que é previsto pela maior parte dos modelos. Logo, nunca poderia servir de argumento para não procurar mitigar as alterações do clima mas sim como argumento para reforçar a urgência nesta mitigação.

"O esforço actual da ONU para “combater as alterações climáticas”, como é apresentado no Relatório sobre o Desenvolvimento Humano do Programa de Desenvolvimento da ONU, de 27 de Novembro de 2007, desvia a atenção dos governos para a ameaça de alterações climáticas inevitáveis sob as suas diferentes formas. É necessária a planificação nacional e internacional perante tais mudanças, ajudando prioritariamente os cidadãos mais vulneráveis a adaptar-se às condições futuras. Tentar impedir o clima de se alterar é fútil e constitui uma má e trágica aplicação de recursos que seriam bem melhor utilizados para resolver os problemas verdadeiros e mais prementes."

Os argumentos usam-se consoante a conveniência. Depois de se tentar demonstrar (sem qualquer tipo de dados) que o clima não está a mudar tenta-se convencer o leitor de que afinal não vale a pena tentar impedir a mudança. Estamos de acordo que a adaptação é essencial pois faça-se o que se fizer será inevitável vivermos num mundo mais quente nas próximas décadas. Mas um aumento de 1.6 graus tem consequências diferentes de um aumento global de 2.5 ou 4. E essas diferenças têm custos, monetários e de vidas humanas e não humanas, muito diferentes pelo que seria uma irresponsabilidade não considerar estas diferenças na planificação do nosso futuro.

sábado, dezembro 26, 2009

Um estranho desentendimento

Ao longo destas semanas, nos comentários aos posts sobre alterações climáticas, aparecem um conjunto de pessoas que insistem na tese de que como o CO2 subiu na última década e as temperaturas não, não há relação entre subida de concentração de carbono e subida de temperatura.
Naturalmente explicou-se que o clima é o resultado de um número muito grande de factores que não só actuam autonomamente, como têm relações de interdependência que o tornam uma coisa extremamente complexa, e que por isso o seu estudo, e o estudo da sua evolução, exige séries longas de observação.
Explicou-se também que o clima tem variações naturais muito relevantes e que a questão não é avaliar se é o CO2 o responsável por cada uma dessas variações (em rigor, por cada uma das variações meteorológicas) mas sim se a quantidade de CO2 presente na atmosfera é responsável por desvios em relação ao que seria a evolução natural do clima (sim, com certeza que definir o que é variação natural do clima é objecto de discussão), desvios esses que podem ser relativamente pequenos face às variações naturais, mas podem forçar alterações climáticas que nos são mais desfavoráveis que seriam as alterações naturais.
O mais extraordinário não é a discussão até este ponto, essa é razoável e como estamos no domínio da interpretação de sistemas complexos discutindo probabilidades de evolução é natural que haja controvérsia. No caso das alterações climáticas essa controvérsia ultrapassou os limites da controvérsia científica, dirimida pelos meios normais da ciência, para se tornar uma controvérsia social face ao que está em jogo para todos nós: um uso colossal e eventualmente inútil de recursos no caso das alterações climáticas não serem significativamente influenciadas pelo homem, um desastre ambiental, social e económico no caso dos cenários mais desfavoráveis sobre a influência humana no clima se confirmarem.
O extraordinário é a persistência na repetição de ideias simples que pura e simplesmente não constituem argumentos lógicos.
Não falo sequer do ar escandalizado que fazem os negacionistas militantes por Phil Jones dizer num mail que se for preciso altera o sistema de peer review (coisa que aliás nunca estaria sequer ao seu alcance) ao mesmo tempo que passam o tempo todo a negar a importância do peer review e o facto de raramente assentarem o que dizem em papers com peer review. Isto faz parte da retórica normal de uma discussão ideológica e não vale um caracol.
O extraordinário é, por exemplo, insistir em confundir (voluntária ou involutariamente, não faço ideia) o efeito de alteração acrescida no clima que possa ter o CO2, e o facto do CO2 ser eventualmente decisivo nesse efeito acrescido, com a ideia de que o CO2 é o único responsável por todas as alterações meteorológicas (coisa que ninguém no seu perfeito juízo diz, pesem embora as muitas distorções que tendem a olhar para a meteorologia com o filtro do que se pensa sobre as alterações climáticas).
E por isso, quando se diz que pode haver diminuições de temperatura resultantes de outros factores que não o CO2, e o efeito do CO2 manifestar-se no facto de não descerem tanto como seria espectável com concentrações menores deste gás, aparece sempre alguém a repetir o estribilho de que isso não passa contorcionismo para não reconhecer o óbvio: não há relação entre a subida de temperatura e a concentração de CO2.
O curioso é verificar como, com frequência, o vício de raciocínio implítico nesta observação (a omissão de que há muitos outros factores que influenciam o clima, evitando admitir-se que é possível que o CO2 provoque elevação do padrão de variação da temperatura, não eliminando esse padrão, que tem e sempre terá subidas e descidas) é escondido atrás de uma barragem de insultos sobre a falta de coerência, de vergonha, etc., dos aldrabões que pensam de maneira diferente.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, junho 19, 2006

As alterações climáticas poderão ameaçar os anfíbios e répteis do Sudoeste da Europa

Número de espécies de anfíbios cujas condições climáticas poderão ser desfavoráveis em 2050. Cores quentes representam números elevados de espécies com condições desfavoráveis.

Comunicado de imprensa:

As alterações climáticas previstas poderão causar contracções substanciais nas distribuições de anfíbios e répteis do sudoeste da Europa, de acordo com um novo estudo publicado na revista "Journal of Biogeography". A equipa liderada pelo investigador Miguel Araújo projectou as distribuições de 42 espécies de anfíbios e 66 espécies de répteis, nos próximos 20-50 anos, utilizando 4 cenários de emissões de gases de estufa propostos pelo Painel Inter-governamental sobre Alterações Climáticas assim como 2 modelos climáticos (HadCM3 e CSIRO2). Os investigadores descobriram que os aumentos previstos temperatura não seriam causa provável de declínio das espécies de anfíbios e répteis na Europa. Um cenário de arrefecimento global seria, na realidade, bastante pior.

No entanto, o aumento de aridez previsto para o sudoeste da Europa poderá causar reduções acentuadas na área de distribuição de quase todas as espécies de anfíbios e répteis que ocorrem actualmente em Portugal, Espanha e França. Os impactes que se prevêem para estes Países não são triviais dado o facto de albergarem 62% de todas as espécies de anfíbios e répteis que ocorrem na Europa. A elevada percentagem de anfíbios e répteis que ocorrem nestes três Países deve-se ao facto da Península Ibérica ter constituído um importante refugio para a sobrevivência de espécies de anfíbios e répteis durante os períodos glaciares que antecederam o período quente actual. Segundo Miguel Araújo a verificarem-se as alterações climáticas previstas, "estas regiões que foram chave para a sobrevivência dos anfíbios e répteis poderão transformar-se em regiões com elevadas taxas de extinção".

Pode aceder ao artigo completo aqui

Notícias sobre esta notícia: Blackwell Science; Ciência Hoje; Diario Siglo XXI; Jornal de Notícias; Metro Espanha, MNCN, Rádio Renascença

Respostas a eventuais perguntas sobre este artigo serão dadas no espaço de comentários deste “post”

quarta-feira, julho 11, 2007

Os Verdes e o rigor

Transcrevo um take da lusa:

Setúbal, 10 Jul (Lusa) - O Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV) anunciou hoje que vai pedir o prolongamento da consulta pública do Plano de Ordenamento da Reserva Natural do Estuário do Sado (PORNES) para permitir a participação da população na discussão do documento.

"Aquilo que nós exigimos é que a consulta pública seja feita num período em que os cidadãos possam, calmamente, com grande sentido de participação e de responsabilidade, olhar com tempo para um documento estruturante desta natureza", disse hoje a deputada Heloísa Apolónia, que considerou "inadmissível que o período de consulta pública coincida com o período de férias".

"O governo, como teve uma grande contestação na discussão pública do Plano de Ordenamento do Parque Natural da Arrábida [POPNA], provavelmente aquilo que quer é calar vozes relativamente à contestação neste Plano de Ordenamento da Reserva Natural do Estuário do Sado [PORNES)]", acrescentou Heloísa Apolónia, em conferência de imprensa realizada em Setúbal.

Para que o período de discussão pública do PORNES seja alargado até ao próximo mês de Outubro, o PEV promete interpelar o ministro do Ambiente na Assembleia da República, para saber da disponibilidade do governo para "prolongar o período de discussão pública até Outubro".

A versão final do documento só deverá ser aprovada no próximo dia 16 de Julho e submetida a discussão pública, durante um mês e meio, a partir do início de Agosto, mas o PEV adverte desde já que há três aspectos essenciais para a salvaguarda do estuário do Sado: "adaptação às alterações climáticas, preservação da comunidade residente de golfinhos-roazes e medidas concretas para minimizar os efeitos da poluição".

Heloísa Apolónia lembrou que um estudo publicado em Janeiro de 2006 e que incidiu justamente sobre a região do estuário Sado - Alterações Climáticas em Portugal - Cenários, Impacto e Medidas de Adaptação -, "já alertava para a necessidade de um plano de adaptação da região às alterações climáticas".

De acordo com o estudo efectuado no âmbito do projecto SIAM (Climate Change in Portugal. Scenarios, Impacts and Adaptation Measures), cerca de 75 por cento das espécies que vivem na região estão ameaçadas pelas alterações climáticas e os humanos também serão afectados com uma maior taxa de mortalidade associada ao calor, doenças respiratórias e outras.

Por outro lado, a deputada do PEV defendeu que é necessário equacionar medidas que possam contribuir para inverter o desaparecimento da comunidade residente de golfinhos do estuário do Sado, que, nos últimos 20 anos, passou de 40 para apenas 24 elementos.

Por último, Heloísa Apolónia defendeu que o PORNES deveria também estabelecer medidas concretas para minimizar os efeitos da poluição proveniente da zona industrial da península da Mitrena, "indicando os equipamentos necessários ao tratamento de efluentes que chegam ao estuário do Sado".

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Começo por fazer a minha declaração de interesses: eu sou o Presidente da Comissão Mista de Coordenação que acompanhou a elaboração deste plano. Não sou portanto um comentador isento, mas parte no processo.

E continuo reconhecendo a injustiça que vou fazer ao partido os Verdes: critico-os porque se pronunciaram, em vez de criticar todos os outros que não se pronunciam.

Feitas estas duas ressalvas comento então esta extraordinária posição política do partido os Verdes.

A senhora deputada, que não conheço mas a quem enviarei este texto, começa por afirmar, de acordo com a lusa, que é incrível que o Governo ponha à discussão pública este plano em período de férias. E logo a seguir insinua que é porque o governo ficou escaldado com a contestação ao plano da Arrábida e portanto quer calar as vozes dos contestatários o plano da RNES.

Com todo o respeito pela Sr.ª Deputada o que diz nesta passagem da notícia não tem ponta por onde se lhe pegue. A Sr.ª Deputada deverá saber, porque um dos membros do seu grupo parlamentar até esteve numa das sessões públicas da discussão do Plano de Ordenamento do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, que este não é um plano isolado.

Desde Março já estiveram em discussão pública o PO do PNSAC (fortemente contestado, como é natural, nomeadamente pelos agentes do sector de extracção de pedra), o PO da Ria Formosa, também bastante contestado, entrará em discussão esta semana o PO do Tejo Internacional (depois de duas discussões públicas de alteração de limites) e entrarão em discussão pública proximamente, quer o PO da RNES, quer o da RNET, quer o do Sapal de Castro Marim, quer o do Parque do Litoral Norte, quer o de Montezinho, todos eles exactamente na mesma situação processual que o da RNES: foi aprovado o parecer final das comissões que os acompanham e estamos na fase de concertação.

A Sr.ª Deputada deve saber, porque foi matéria de um debate político na Assembleia da República, exactamente suscitado pelo grupo parlamentar da Sr.ª Deputada, que o Governo tem vindo a ser criticado (já agora, este e os anteriores) por haver áreas protegidas sem plano de ordenamento há anos sem fim. E que este Governo, aliás como os anteriores, têm assumido compromissos com calendários de execução desses planos.

No quadro dessas orientações políticas o ICN apresentou calendários de execução há já meses. Os últimos desses calendários foram da minha responsabilidade directa enquanto director de serviços que tutelava essa área no ICN (com a reestruturação do ICN deixei de ter essa responsabilidade). Os compromissos que eu assumi perante as minhas chefias, e as minhas chefias perante a tutela com base na minha garantia, era o que de que todos os planos dos parques, com excepção de Montezinho e Litoral Norte por razões específicas, estariam tecnicamente terminados (isto é, prontos para entrar em discussão pública) até ao fim de 2006 e os restantes (todas as outras áreas protegidas, incluindo as reservas e paisagens protegidas), excluindo a Paisagem Protegida da Serra do Açor, até ao fim de Março.

Não cumprimos nós, os serviços que dependiam de mim, estes calendários. A responsabilidade é portanto minha.

Eu não faço parte do Governo, não sou funcionário do Governo, não tenho nenhum cargo de confiança política, portanto não faz sentido nenhum responsabilizar o Governo por este incumprimento de prazos (o que em teoria se poderia admitir que se fizesse na medida em que a tutela é em última análise responsável por tudo o que se passa, mas nesse caso era preciso demonstrar que a tutela não fez tudo o que podia para que fossem cumpridos estes prazos), mas sobretudo atribuir-lhe uma intenção com base num falhanço dos serviços que não cumpriram aquilo a que se comprometeram.

Mas o mais curioso é que grande parte destes prazos deslizaram exactamente porque face aos prazos draconianos impostos para o desenvolvimento dos planos, foi necessário alargar prazos para emissão de pareceres de entidades terceiras, aumentar a interacção com os parceiros públicos e privados envolvidos, etc.. Ou seja, a derrapagem de prazos resulta de processos mais participados e negociados e não da vontade de calar vozes discordantes, que aliás foram convidadas a participar nos processos (como no caso da RNES, em que nas reuniões da CMC participaram grande parte dos interesses envolvidos na gestão do estuário, incluindo os representantes dos sectores potencialmente mais contestatários, talvez com a excepção da náutica de recreio, e da SONAE que ontem se queixou de ter sido provavelmente o único proprietário de áreas significativas da RNES a não ser convidado).

A mera consulta das actas de acompanhamento dos planos permitiria verificar que de facto os atrasos foram surgindo dos percalços do processo e alheios à vontade dos serviços e sem qualçquer intervenção, como é óbvio, do Governo.

Mas passemos das partes processuais para as questões de substância.

Os verdes criticam o plano por não conter as medidas necessárias à conservação dos golfinhos, por não incorporarem os resultados dos estudos de alterações climáticas e medidas concretas para minimizar a poluição.

Quanto ao último aspecto nem percebo o que se pretende: um plano de ordenamento é um regulamento administrativo e dificilmente poderá actuar sobre as medidas concretas para minimização da poluição a não ser pelo zonamento do espaço. Como esta questão na RNES não se põe (grande parte das fontes poluidoras estão muito para lá dos limites da RNES e a questão não é a das novas instalações mas a gestão das que existem) talvez fosse útil que os Verdes explicassem em concreto o que gostariam de ver no plano.

A história das alterações climáticas é ainda mais estranha: critica-se um plano que pode ser revisto dentro de três anos, mas cuja duração típica será entre cinco a dez anos, por não incorporar as conclusões (fortemente afectadas pela incerteza) de um estudo que estima o que se poderá verificar daqui a noventa anos. Mais uma vez, seria bom que se explicasse o que se pretende em concreto ver consagrado no plano.

Quanto as golfinhos, a questão é aburda, na forma como é posta. Tanto quanto se sabe, as principais ameaças à população de golfinhos são a poluição, matéria já tratada, e a perturbação causada pela náutica de recreio, com especial destaque para as motas de água.

Ora o plano prevê medidas para disciplinar o uso do plano de água, medidas essas que serão provavelmente o ponto mais contestado do plano. O que pretende então o partido os Verdes? Outras medidas? Quais? Se não pretende novas medidas e está de acordo com estas, está disponível para manifestar publicamente e com destaque o seu apoio a estas medidas impopulares?

Todas as críticas são úteis, eu sei que os deputados portugueses têm pouco apoio técnico (e as possibilidades que têm gastam-nas a contratar assessores políticos em vez de as usar para contratar apoio técnico especializado) mas que diabo, é fácil contactar os serviços, qualquer pessoa que telefone para o sítio onde trabalho obtém o meu telemóvel, será assim tão difícil elevar o debate político dando-lhe um bocadinho mais de consistência técnica?

henrique pereira dos santos

domingo, novembro 08, 2009

Áreas protegidas e alterações do clima: que fazer?

Respondendo a uma solicitação do secretariado da Conselho da Europa para a Convenção de Berna (sobre vida selvagem e habitats naturais na Europa), elaborei um relatório sobre os desafios das áreas protegidas Europeias face às alterações climáticas globais. Quem estiver interessado em consultar o relatório poderá fazê-lo aqui.

O relatório oferece um diagnóstico dos impactes potenciais das alterações climáticas sobre a biodiversidade nas áreas protegidas e áreas da Rede Natura 2000 na Europa. Uma versão ampliada deste diagnóstico será publicada (espero eu) em breve. Com base no diagnóstico são discutidas estratégias de adaptação para a biodiversidade, nomeadamente no que respeita a conservação "in situ" em áreas protegidas e em áreas da matriz circundante. Mecanismos políticos e de gestão para fazer frente aos desafios impostos pelas alterações climáticas são também revistos e discutidos.

Saliento que para fazer face aos desafios impostos pelas alterações climáticas (ou quaisquer outros), se preconizam três estratégias complementares e frequentemente tidas como pertencendo a espectros ideológicos distintos:

Regulamentos e proibições (p.e., onde se dá como exemplo a Reserva Ecológica Nacional). Esta é uma perspectiva ideológica socializante já que assume que o Estado tem o direito de intervir impondo condicionantes à gestão privada do território

Incentivos directos para conservação em terrenos privados (p.e., as medidas agro-ambientais). Esta é uma perspectiva ideológica de inspiração social-democrata em que se reconhece o papel do Estado como mediador dos interesses públicos e privados e agente de compensação dos privados pelo desenvolvimento de políticas de interesse público nas suas propriedades.

Criação e melhoria de mecanismos de mercado com vista à mercantilização de valores de conservação (p.e., a iniciativa BioBanking na Austrália). Esta é uma perspectiva ideológica de inspiração liberal em que se procura corrigir disfunções do mercado pela introdução, ainda que artificial, de valores de conservação numa "bolsa de valores".

Nos debates sobre soluções para a crise ambiental é frequente assistirmos a discussões polarizadas em função do espectro ideológico dos interventores. Passados vários anos de assistência a estes debates, em formato oral e escrito, cada vez mais me convenço que o pragmatismo ecléctico é a postura mais apropriada para resolver problemas. Nada impede que os regulamentos e proibições coexistam com estratégias de tipo liberal. Por outras palavras, nada impede que se instituam RENs e ao mesmo tempo se procurem criar mecanismos que confiram mais racionalidade ambiental ao mercado. Se o objectivo for dar centralidade à política de ambiente todos os esforços são poucos.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Alterações climáticas e financeiras


Resolvi interromper a série de posts sobre ordenamento e gestão de áreas protegidas para falar de dois assuntos de que percebo pouco: alterações climáticas e finanças.
E é por perceber muito pouco que tenho algumas perplexidades face à actual crise económica que gostaria de trazer aqui.

Há já algum tempo que me pergunto o que deveria ser uma leitura ambientalista da actual crise económica. Infelizmente não tenho tido grande ajuda do que passa nos jornais onde não me lembro de ter visto qualquer perpectiva ambiental do que se está a passar, com excepção da opção por investimentos públicos na eficiência energética e, eventualmente, nas infra-estruturas de transporte ferroviário.

Ao contrário da perspectiva ética, de que tenho ouvido ecos, nomeadamente situando a origem última da crise na perda de valores essenciais, o que acabou por minar a confiança de toda a gente em toda a gente e, consequentemente a confiança nas instituições.

Com o consequente efeito de fazer desaparecer a circulação do dinheiro no sistema financeiro. Para se ter a ideia do que isto significa, um destes dias um responsável de um dos grandes bancos explicava que os depósitos que cativava representam cerca de 60 a 70% do dinheiro que o banco tem emprestado. O restante teria de vir dos capitais próprios e de empréstimos do exterior. Como ninguém empresta com medo da exposição a activos tóxicos porque ninguém acredita nas contas de ninguém, implica que o banco tem de reduzir a sua exposição, cortando o crédito.

Se eu tiver uma empresa de sapatos com uma encomenda interessante mas precisar de pagar os salários dos trabalhadores até poder satisfazer a encomenda e receber o valor contratado, ou tenho capitais próprios (e consequentemente só posso aceitar encomendas até ao limite das minhas disponibilidades financeiras próprias) ou vou ter problemas graves porque o banco não tem para emprestar.

O estímulo directo para este post foi o artigo que li ontem no Público de Paul Krugman, prémio Nobel da economia em 2007.

O que me chocou foi o facto de toda a ênfase do artigo estar centrada na necessidade dos Estados apoiarem a economia estimulando o mais possível o consumo, indiscriminadamente.

E no entanto, numa perspectiva ambiental (e, no meu caso, de ignorante em economia), tal significa menos aforro e poupança (curiosamente um dos riscos das políticas de disponibilização de capitais públicos aos bancos para evitar a falta de liquidez do sistema que é apontado pelos eeconomistas é o risco dos bancos reterem o dinheiro em vez de o fazerem chegar às empresas e às famílias) o que, a prazo, nos impede de ter disponibilidade de investimento.

A resposta clássica dos economistas é a de que no longo prazo estamos todos mortos, portanto para já é preciso injectar capital e confiança na economia e depois se verá.

Há de facto alguma razão nesta postura já que as consequências sociais do abrandamento económico serão muito dificeis para muita gente.

E é aqui que me parece que poderia entrar uma perspectiva ambiental e, já agora, social.

Eu ganho 2000 euros por mês (a partir do próximo acho que passo a cerca de 1000). Faço parte de uma classe média que se incomodará muito se deixar de ganhar 2000 euros e passar a ganhar, digamos, 1 200. Mas perco alguma coisa de essencial com esta redução? Passo fome? Não tenho dinheiro para o aquecimento? Se calhar tenho de mudar para uma casa pior, mas de básico perco alguma coisa? Provavelmente não.

E há muita gente que ganha mais do que eu.

Por outro lado há muito mais gente que ganha bem menos que eu e para quem a redução de rendimento, mesmo marginal, é dramática e são muitas destas pessoas as mais vulneráveis ao desemprego decorrente do arrefecimento económico.

Aparentemente têm pois razão os economistas em defender o estímulo ao consumo como motor para assegurar o status quo que permite limitar os efeitos sociais da crise.

Mas e se resolvêssemos deixar a crise ir fundo?

Se na verdade esta não fosse apenas uma crise financeira mas uma verdadeira crise de escassez de recursos (os preços altos da alimentação e do petróleo que precederam a crise poderão ter alguma coisa relacionada com a perda de rendimentos dos sectores mais vulneráveis, aquelas que exactamente eram os clientes do sub-prime) não faria sentido estimular o consumo, sobretudo o consumo da classe média dos países industrializados, que somos nós.

Na discussão sobre o que fazer prioritariamente face às alterações climáticas podem ter-se duas perspectivas: a aparentemente mais racional, diminuir as emissões e a aparentemente mais pragmática que defende a lógica de mitigação dos efeitos das alterações climáticas, onde se for justificando. Todos sabemos que nestas dicotomias não existem posições puras de cada uma das perspectivas mas sim diferentes misturas das duas posições, mas para ilustrar o que pretendo é mais fácil assumir as posições extremadas. O que me interessa é que na posição mitigadora se vai incoporando racionalmente o custo associado às alterações climáticas, o que permite que a própria economia se vá adaptando.

Ora se as consequências sociais da crise são o verdadeiro problema (isto é, se a economia em si mesma não for o foco mas sim as pessoas) o que faria sentido não seria estimular o consumo de toda a gente mas mitigar os efeitos sociais de um abrandamento económico que, do ponto de vista ambiental, tem muitos aspectos virtuosos, começando exactamente pela diminuição de emissões (provavelmente o efeito será muito mais rápido e eficaz que todos os protocolos de Quioto que pensássemos).

Isso significaria apoiar todas as pessoas que fosse necessário para que tivessem um rendimento mínimo definido como alvo.

Dir-me-ão que o efeito económico seria desatroso. Penso que sim, que implicaria um longo processo de readaptação a uma economia mais próxima dos recursos efectivamente disponíveis. Sim é verdade que neste processo seria destruído valor, como dizem os economistas. Que os rendimentos de muitas pessoas seriam profundamente afectados. Que seria necessário muito bem senso e sensibilidade para dosear mitigação social e estímulo económico em cada momento.

Mas há anos que o movimento ambientalista reclama da insustentabilidade da economia que temos. E há anos que prevê um reajustamento em que todos ficaremos um pouco mais pobres.

Do ponto de vista ambiental é isto uma crise ou uma oportunidade?

henrique pereira dos santos

sábado, janeiro 02, 1999

O equilíbrio de Aldo Leopold

Aldo Leopold é uma referência fundamental. O seu livro “Sand County Almanac”, escrito em 1949, é, para o bom e para o mau, fonte de inspiração de muito do pensamento conservacionista contemporâneo. A sua escrita tem o condão suscitar a adesão de quem o lê. Quem não terá, algum dia, pensado algo de semelhante ao que Aldo escreve no último parágrafo da sua obra?

“We are remodeling the Allambra with a steam-shovel (= escavadora), and we are proud of our yardage. We shall hardly relinquish the shovel, which after all has many good points, but we are in need of gentler and more objective criteria for its successful use.” (p. 226)

Talvez o aspecto mais inovador da obra de Aldo tenha sido a conjugação de dois olhares num só: o olhar de um investigador da gestão da fauna silvestre e o olhar de um pensador sobre, o que ele próprio apelida de, a “ética da terra”. Aldo é percursor de um movimento que valoriza o espaço rural (e/ou natural) do ponto de vista de valores relacionados com o usufruto do espaço para o lazer, inspiração e sanidade mental (“amenity values”). O reconhecimento (e afirmação) destes valores são, no meu entender, um dos contributos mais marcantes da sua obra e uma das sementes para a atitude actual em conservação da natureza. Uma atitude marcadamente antropocêntrica.

Porém, “não à bela sem senão” e Aldo Leopold é - conjuntamente com Rachel Carston e muitos outros - percursor de uma visão da Ecologia normativa - termo que uso para referir-me ao uso da ciência ecológica como sustentáculo para a criação de normas sociais - baseada no dogma do equilíbrio. Para que não restem dúvidas de terminologia, quando me refiro a equilíbrio refiro-me à ideia de equilíbrio dinâmico (não o estático, como sugeriu o Miguel Oliveira e Silva, que está associado a “constância” - Egerton, 1973), isto é, à ideia de que um ecossistema sujeito a uma perturbação regressa ao seu estado de equilíbrio inicial (Pimm, 1984).

A consequência mais conspícua - e nociva - da transposição do dogma do equilíbrio para o campo dos valores sociais é a ideia de que existe um referencial natural teórico a alcançar. A ideia de que haja uma espécie de lei científica, universal e inquestionável (como a lei da gravidade) que determine uma escala de valor associado aos ecossistemas naturais. Algo que apoie uma afirmação do género: - “Este ecossistema é melhor do que aquele porque é mais estável, mais complexo, mais resiliente, etc.” Nas palavras de Aldo Leopold:

“A thing is right when it tends to preserve the integrity, stability, and beauty of the biotic community. It is wrong when it tends otherwise” (p. 224-25).

Infelizmente, na hora de justificar uma opção em detrimento de outra, ninguém sabe muito bem o que seja a integridade de um ecossistema. A instabilidade é mais regra do que excepção num planeta cuja história se caracteriza pela mudança, adaptação e substituição mais do que pelo retorno. O que é belo para um pode não o ser para outro.

Não que não entenda a intenção de Aldo Leopold quando escreve o que escreveu. Não que não entenda o contexto em que o escreveu; um contexto de uma América com paisagens extraordinárias em que a intervenção humana do passado deixou marcas subtis ao olhar do Homem contemporâneo (isto é diferente de dizer pouco profundas como tentei demonstrar na última mensagem dos “mitos”). Como conservacionista partilho o mesmo tipo de inquietudes. As que Aldo resume no último parágrafo da sua obra e as que David Hales (in Conservation for the XXI Century, pp.139-44, 1989) refere num belo excerto de prosa:

“It has been said that, if we do not preserve wild nature, our children will never forgive us. That may be true, but an even worse fate is in store: our great-grandchildren will not care - they will have no way to comprehend what was lost” (...)

“The stakes could not be higher, for if we fail, there may be no children to ‘come out and wonder’, or worse, children, but no sources of wonder”

Porém, não é de equilíbrio ecológico que Leopold fala; nem de América natural que Rachel Carston fala. Tanto eles, como o Hales, como eu próprio e provavelmente como os que estão neste momento sentados em frente ao écran do computador, o que lhes/me/vos preocupa é o equilíbrio emocional - a necessidade que temos de saber que a realidade que conhecemos e com a qual nos habituamos a viver permanecerá imutável -. Não é a ciência ecológica que nos pode informar sobre quais os ecossistemas a preservar. A ciência ecológica ajuda-nos a classifica-los e a compreende-los mas não necessariamente a valoriza-los. Leopold roça esta perspectiva quando diz que: “our ability to perceive quality in nature begins, as in art, with the pretty. It expands through successive stages of the beautiful to values as yet uncaptured by language” (p. 96). Aqui ele reconhece que o processo de apreciação dos ecossistemas naturais tem uma forte componente estética (subjectiva). Apenas falta reconhecer, explicitamente, a origem do valor não capturado pela linguagem. Para ele é algo de exterior a nós; algo que se poderá encontrar nas “leis” da Ecologia (o dito equilíbrio). Para mim é algo de puramente emocional (domínio da noosfera). Algo em que se confundem o nosso “background” cultural e experiências pessoais (sistemas de valores e preferências), a nossa racionalidade (percepção utilitarista de valores naturais) e a componente inata do nosso sistema de preferências que faz com que, por exemplo, tenhamos mais “simpatia” por recriar parques (árvores dispersar tipo pomar) do que por florestas densas e desertos (há teorias que sugerem que o nosso sistema de preferências é condicionado pela nossa história evolutiva como caçadores recolectores nas savanas Africanas e que por isso temos uma preferência inata por paisagem que se lhes assemelhem).

Como é que esta conversa se relaciona com o tema tão discutido das alterações climáticas? O problema é o mesmo mas a escala é outra. A constatação de que o clima está em constante mudança é elementar. Há cerca de 6 mil anos o clima na Europa era mais quente do que actualmente, com valores médios 2º C superiores aos actuais e 5º C superiores em altitudes elevadas (Huntley & Prentice. Science, 687-90, 1988). As tendências regionais - face aos padrões actuais - eram de maior aquecimento no norte da Europa e de maior arrefecimento na região Mediterrânea. Ainda que bastante semelhante às previsões do IPCC que apontam para um aquecimento global de 1-3.5º C até 2100 com o mesmo tipo de variação altitudinal e regional, este aquecimento em nada se deveu às emissões antropogénicas de CO2. Tão somente ao ciclo inter-glaciar do momento.

As flutuações climáticas foram então - e provavelmente hoje (ver excelente revisão por Hughes, Trends of Ecology and Evolution 15, 56-61, 2000) - factor de extinção de muitas espécies. A questão que coloco é a seguinte? Com ou sem emissões de CO2 o clima altera-se (a um ritmo que ainda hoje desconhecemos). Para mais quente ou para mais frio existe uma mudança e uma mudança implica riscos. Esses riscos foram e serão sempre encarados de forma pragmática. Isto é, a nossa espécie fará tudo o que estiver ao seu alcance para minimizar as perdas materiais que daí advirem. Falo de perdas materiais porque é pouco provável que, qualquer que seja o cenário de alterações climáticas, a sobrevivência da humanidade esteja em causa. Como espécie sobrevivemos, no passado, a temperaturas mais frias (nos Glaciares) e temperaturas mais quentes (em certos inter-glaciares). Isto num tempo em que a nossa tecnologia era a pedra e o fogo e a nossa capacidade para prever os acontecimentos era a do dia seguinte. Hoje, somos a espécie mais cosmopolita do planeta demonstrando que a nossa capacidade de adaptação desafia os climas mais rigorosos.

Quero com isto relativizar o risco inerente às alterações climáticas? Criticar a redução de emissões de CO2? A resposta é um não rotundo às duas perguntas. Quanto ao risco, defendo que deva ser encarado com pragmatismo. Se há risco importa quantifica-lo e adoptar as medidas concretas que o minimizem. Numa das minhas mensagens anteriores pasmava-me pela apatia dos centros de decisão face, por exemplo, à esperada subida dos níveis do mar. Quanto às emissões de CO2 sou totalmente a favor da sua redução. Como dizia o Joanaz de Melo e o Miguel Oliveira e Silva, existem mil e umas razões para os reduzir. A única dúvida que coloco - e que me parece legitima - é se entre essas mil e umas razões as alterações climáticas sejam a mais - ou das mais - importantes. Não é óbvio que esta seja a causa principal - ou sequer uma das causas - dos padrões climáticos actuais, como não é óbvio que uma redução, hoje, das emissões tivesse algum efeito imediato na regulação do clima i.e. na redução do risco. Logo questiono que esta seja a grande bandeira a acenar face ao problema sério que pode ser uma mudança rápida e acentuada das condições climáticas. Reconheço que nesta minha posição possa estar algo de ingenuidade política. Não creio, porém, que seja um posicionamento disparatado como se tem, por vezes, querido fazer crer por aqui.

Quanto à biodiversidade. Sim é de esperar que, a haver uma alteração climática substancial, se operem processos de extinção acelerados. Sempre foi assim e sempre será. Esta é a história de uma planeta que já perdeu mais de 99.99999999% das espécies que o povoaram. Este processo pode, agora, ser agravado devido aos padrões de fragmentação de habitats que impedem ou dificultam os processos de migração, necessários para a persistência das espécies. Porém, esta é apenas uma gota no oceano. O processo de extinções actuais é um facto irreversível, com ou sem alterações climáticas. A magnitude exacta deste processo é desconhecida mas prevê-se que seja grande. É falso, porém, que as extinções antropogénicas sejam atípicas no quadro da história do planeta. É frequente afirmar-se que o que distingue este processo de extinções, em relação a outros, seja a sua magnitude e rapidez. Porém as reconstruções de padrões de extinção no passado indicam processos estocásticos de extinção, a nível global, com perdas muito elevadas de espécies (Lawton & May eds. Extinction Rates, 1995):

Ordoviciano (439 milhões de anos) ---------------- ~85% perda de espécies
Devoniano (367 milhões de anos) ------------------ ~83% perda de espécies
Permiano (245 milhões de anos) -------------------- ~95% perda de espécies
Triássico (208 milhões de anos) -------------------- ~80% perda de espécies
Cretácio (65 milhões de anos) ---------------------- ~76% perda de espécies

O único dado que podemos usar para distinguir o processo contemporâneo de extinções, do passado, é a causa. Mesmo assim esta não é recente, já que desde antes do neolítico os humanos foram responsáveis por extinções em massa nos novos continentes que povoava. Apenas o continente Africano parecem ter escapado ao grande processo de extinção de origem antropogénica do tardo-Pleistoceno.

Devemos por isto relativizar o processo de extinções e cruzar os braços? Mais uma vez a resposta é não. A minha mensagem é simples e repetitiva. Devemos travar tanto quanto possível o processo de extinção porque tal nos reconforta (eu incluído). É possível que em escalas de tempo que nos escapem ao controlo da razão, as acções de hoje tenham um retroacção negativa sobre nós próprios. Porém, também é possível que tal não aconteça. Nada poderá garantir que assim não seja já que depois de termos extinto, p.e., mais de 95% da fauna de mamíferos da Europa nos últimos 6.000 anos, continuamos felizes e contentes, cada vez mais gordos, cada vez mais altos e a viver mais cada vez mais tempo. Estes são os factos que indicam que não estamos nada mal na corrida da evolução. Estes mesmos factos podem despertar uma argumentação tão sólida quanto a oposta sugerindo que, afinal, existe uma correlação positiva entre extinção das espécies no passado e bem estar humanos. O cerne desta questão é de origem estética (numa primeira fase) e ética (numa última fase). Aí deve estar a nossa batalha: consolidar as bases éticas do movimento ambientalista contemporâneo. Parece-me bem mais relevante que tentar convencer as pessoas de que sem esta ou aquela espécie - em geral espécies perfeitamente redundantes para os ecossistemas actuais e.g. Lince, Lobo, Rinoceronte, etc. - os ecossistemas entrarão em colapso ou que a saúde humana será afectada. Esta linha de argumentação tem os seus dias contados.

Ponhamos as nossas causas no contexto devido. Questionemo-nos sobre a natureza genuína das nossas motivações. Abandonemos os dogmas do equilíbrio e variantes do mesmo tema. E o poder da nossa mensagem será reforçado. Vozes como a do P. Stott deixarão sequer de ter razão de existir.

quarta-feira, março 22, 2006

Sobre biodiversidade, refúgios e alterações climáticas

A jornalista Helena Geraldes fez-me recentemente uma entrevista para um artigo no jornal “o público”. Como já começa a ser tradição disponibilizo o conteúdo completo da entrevista neste blogue.

1) Como comenta o trabalho realizado em Portugal no que respeita à prevenção das extinções locais? Que instrumentos de conservação poderiam ser utilizados?

Não conheço com detalhe o que tem sido feito em matéria de gestão de habitates e populações em Portugal. Reconheço, no entanto, que têm sido feitos progressos assinaláveis no âmbito da preparação do plano sectorial da Rede Natura 2000. Porém, esses progressos não escamoteiam o facto de continuarmos a ter uma visão parcial e incompleta da nossa biodiversidade.

2) O actual conhecimento científico da biodiversidade em Portugal possibilita essa prevenção?

O estado do conhecimento é muito limitado. Portugal não possui um Museu de História Natural e um Jardim Botânico que tenham o enquadramento institucional, orçamental e de massa crítica, necessários para fazer a mais básica das tarefas relativas à biodiversidade: o seu catálogo e cartografia. Esta lacuna limita o acesso à informação por parte dos responsáveis pela condução de políticas de conservação. As universidades, por teu turno, continuam amarradas a políticas que favorecem o “in breeding”. Uma das consequências é que se favorece a contratação de estudantes e docentes “da casa”, que dominam áreas do conhecimento bem representadas nas universidades que os contratam, em detrimento da contratação de pessoas com formações complementares, possivelmente obtidas no estrangeiro, que poderiam trazer novas perspectivas e conhecimentos à academia. Este sistema induz, inevitavelmente, um empobrecimento da massa crítica das universidades que, infelizmente, se repercute no perfil dos licenciados que são contratados pela administração pública. Estamos, portanto, num ciclo vicioso cuja resolução implica medidas corajosas por parte do Governo.

Agir com acesso a boa informação dá garantias de que estamos a gerir os recursos afectos à conservação com eficácia e eficiência. No entanto, é importante referir que a falta de informação não deve servir de pretexto para não conservar o que se conhece.

3) Considera que Portugal carrega um "fardo pesado" no que concerne às extinções locais, passadas e estimadas? Temos sido negligentes?

Portugal carrega uma responsabilidade pesada pois, segundo os meus cálculos, inclui, no seu território, 43% da fauna de vertebrados terrestres existentes na União Europeia, Noruega e Suíça. É o quarto país Europeu com maior número de endemismos vegetais (espécies de distribuição restricta) e o terceiro em espécies ameaçadas. O investimento em conservação, seja ele oriundo de fontes nacionais ou Europeias, não acompanha a importância de Portugal para a conservação da biodiversidade.

4) Acha que as extinções locais devem ser encaradas como fenómenos naturais da evolução ou como factura a pagar por crimes ambientais?

As extinções são um fenómeno natural, necessário para a evolução da vida. Por exemplo, se os dinossáurios não tivessem sido extintos é provável que a humanidade, assim como as formas de vida que conhecemos hoje, não tivessem aparecido. Mas a evolução é um processo que não controlamos. Portanto, quando interferimos nos processos evolutivos, à escala planetária, estamos a despoletar processos cujos contornos são desconhecidos mas potencialmente perigosos.

5) Como pensa que Portugal se deveria preparar para as possíveis extinções causadas pelas alterações climáticas? Que espécies merecem especial atenção?

Portugal precisa de incorporar a variável “alterações climáticas” na forma como pensa e ordena o seu território. Tal implica, por exemplo, identificar os principiais corredores de dispersão necessários para permitir a adaptação das espécies a alterações das condições favoráveis à sua persistência. Igualmente importante é a identificação dos locais com potencial para constituição de refúgios para a biodiversidade. Os refúgios são locais cujas condições micro-climáticas se destinguem da matriz envolvente e que permitem albergar espécies que deixam de poder sobreviver na matriz dominante por virtude de alterações no clima. Tradicionalmente, estas áreas de refugio localizam-se nos vales encaixados dos rios, zonas costeiras e montanhas. Muitos dos vales encaixados em Portugal estão comprometidos devido ao represamento das águas (o Rio Sabor, por exemplo, constituiu e tem potencial para voltar a constituir-se como um refúgio importante para a conservação das espécies) e as zonas costeiras continuam a ser encaradas como recurso fundamentalmente turístico. Temos, portanto, um conflito evidente entre os interesses de conservação da biodiversidade, no longo prazo e os interesses de desenvolvimento de algumas actividades económicas, no curto prazo. Estes conflitos têm de ser mediados por via da integração do binómio “alterações climáticas” e “biodiversidade” nos instrumentos de planeamento e ordenamento do território.

6) Qual a sua posição quanto à reintrodução de espécies já extintas em território nacional (como a águia-pesqueira, o lince-ibérico...)?

Penso que a questão crucial não é se devemos reintroduzir espécies mas qual a melhor forma de gerir os recursos escassos por forma a maximizar o resultado das políticas de conservação. Essa análise não se faz de ânimo leve pois há muitas variáveis em jogo. Mas cingindo-me aos dois exemplos da sua pergunta eu diria que a águia pesqueira näo deveria ser objecto de prioridade absoluta porque é uma espécie cosmopolita, ou seja, existe em vários continentes, não estando globalmente ameaçada. Pode-se argumentar que pertence a um grupo genético diferenciado mas se avançarmos com prioridades de conservação que procurem, explicitamente, manter a diversidade genética dentro de cada espécie será difícil saber onde parar com este processo. E se tivermos que escolher entre manter uma variedade ou uma espécie, é óbvio que a escolha recai sobre a espécie pois esta representa informação genética mais individualizada. Quanto ao lince temos um problema sério pois a espécie é endémica da Península Ibérica e está à beira da sua extinção global. Não creio que devamos alimentar visões paroquiais relativamente ao lince defendendo, por exemplo, a sua reintrodução, a todo o custo, em Portugal. O que devemos fazer, isso sim, é colaborar, técnica e financeiramente, para o programa de reprodução em cativeiro do lince actualmente a decorrer em Espanha e estudar a forma mais racional de restaurar populações saudáveis de Lince no terreno. Tal poderá, ou não, passar pela reintrodução do lince em território Português.

7) Normalmente temos a ideia de que as extinções só aconteceram no passado ou então noutro ponto do mundo. Há espécies que estão a desaparecer de Portugal sem que a comunidade se aperceba?

Como não possuímos um catálogo completo das espécies animais e vegetais que ocupam o território português e não acompanhamos de forma sistemática a dinâmica das suas populações é difícil apresentar dados conclusivos. Porém temos conhecimento que algumas espécies emblemáticas desapareceram, recentemente, como é o caso da águia pesqueira e do lince ibérico. O mais provável é que as extinções documentadas representem apenas a ponta de um “iceberg”.

8) Considera realista o objectivo do Milénio para a Biodiversidade, até 2010? O que deveria estar a ser feito?

Não sei se será realista mas é certamente louvável. O que deveria ser feito seria 1) uma identificação precisa de prioridades, ou seja, a definição de quais as espécies que requerem acçäo imediata por forma a evitar a sua extinção, 2) a implementação de actividades de gestão para a conservação das espécies prioritárias, e 3) a avaliação contínua dos resultados das acções de gestão por forma a permitir correcções ou reavaliações sobre as actividades a tomar. Para que um processo destes aconteça é necessário, entre outros factores de carácter mais político, profissionalizar as políticas de conservação.

domingo, janeiro 11, 2009

O frio e o aquecimento



Neste post do blog Quarta República, Pinho Cardão faz uma piada inocente sobre o aquecimento global. Mas depois os comentários revelam que a questão é menos inocente do que poderia parecer.
Não querendo abusar da hospitalidade do Quarta República resolvi que seria melhor trazer aqui algumas ideias que me foram suscitadas pela pequena discussão em que participei.
A primeira, e mais preocupante, é verificar que aparentemente cidadãos com actividade política relevante acham que a questão do aquecimento global não é uma questão central da sociedade sobre a qual devam ter um mínimo de informação que lhes permita ter uma posição sobre o que fazer, ou não fazer, face ao problema.
A segunda é verificar como é fácil ir buscar o sucesso mediático de Al Gore para desvalorizar as suas posições sobre as alterações climáticas, esquecendo toda a sua história de envolvimento ambiental anterior à sua Vice-Presidência dos Estado Unidos.
A terceira é ver como é fácil pegar em meia dúzia de ideias simples sobre um problema complexo para concluir que os milhares de cientistas que trabalham pelo mundo e que estão preocupados com as consequências das alterações climáticas são todos tótós ou vendidos.
A quarta é perceber como com meia dúzia de afirmações sobre a insignificância da quantidade de carbono que lançamos para a atmosfera, se comparada com a dimensão do sistema, se consegue convencer muito boa gente de que toda a discussão sobre as alterações climáticas é uma patetice de histéricos que querem é ganhar dinheiro e são responsáveis pelo aumento do preço da energia, esquecendo o efeito de Lorenz e o dinamismo e complexidade dos sistemas associados ao clima e à meteorologia onde pequenas alterações podem influenciar dinâmicas poderosas.
O resultado destas, e doutras, ideias, quando contaminam o processo de decisão, pode ser muito bem avaliado nas dificuldades do sector automóvel americano que, negando a necessidade de racionalizar consumos energéticos, com base em ideias semelhantes, continuou a investir tudo na produção de carros que hoje se revelam dificilmente vendáveis. Bem sei que a crise do sector é global mas muito, muito acentuada nos estados unidos onde as três grandes marcas pedem aos contribuintes que as salvem ao mesmo tempo que a volkswagen aumenta o seu investimento nos estados unidos para tirar partido da situação.
Outro bom exemplo de como andamos alheados desta história e não a levamos a sério na decisão diz respeito aos programas de investimentos públicos de combate à crise (ou melhor dizendo, aos efeitos da crise). Se Obama explicitamente tem referido o seu programa de melhoria da eficiência energética dos edifícios públicos, em Portugal, pelo menos que eu tenha dado por isso, nem sequer o famoso programa dee investimento nas escolas assume como central a eficiênia energética e a obrigatoriedade de todos os consumos de água quente serem suportados em sistemas de aquecimento de água por energia solar passiva.
Quer o governo, quer a oposição, quer mesmo o movimento ambientalista não disseram uma palavra sobre a facilidade de execução, o seu efeito no emprego e o retorno financeiro em sete a dez anos que poderia ser obtido por um programa sério de intervenção em edifícios colectivos (não falo sequer de pavilhões e etc., estou mesmo a falar dos prédios de habitação) no sentido de melhorar a sua eficiência energética (o que facilmente se obtém com um programa de disponibilização de assistência técnica, que é barato e ajuda à inserção de jovens licenciados no mercado de trabalho) e no sentido de garantir a instalação macissa de sistemas de aquecimento de água com base em energia solar passiva, não só para banhos (o que já seria excelente) mas também para diminuição dos consumos das máquinas de lavar.
É um programa relativamente barato, com retorno financeiro e ambiental garantido, assente em mão de obra intensiva, ou seja, favorável à criação de emprego e com tecnologias nacionais simples e existentes, com base numa fileira industrial que pode ter base nacional.
A única razão para isto não constar do programa de combate à crise, para alem da visibilidade mediática da coisa, é mesmo o nosso alheamento e a forma leve com que olhamos para o problema da sustentabilidade.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Bem vindo, Delgado Domingos

Esta imagem roubei-a daqui, para onde transbordou parte da discussão que se desenrolou (timidamente) no Expresso mas sobretudo aqui na Ambio
O Público de ontem tem um artigo de opinião de Delgado Domingos sobre alterações climáticas.
É um artigo crítico em relação às opções políticas da União Europeia na matéria.
A crítica assenta na ausência de fundamentação científica para relação quantitativa entre o CO2eq na atmosfera e o aumento da temperatura média global do ar junto à superfície.
Mas o que me pareceu mais notável no artigo é o que me parece (e sublinho o parece, apesar de já ter usado a palavra duas vezes numa frase tão curtinha) que há uma evolução na posição de Delgado Domingos desde a última troca de argumentos que ocorreu no espaço público sobre o assunto, nomeadamente aqui na Ambio.
Delgado Domingos não fala em fraude científica a propósito das alterações climáticas, insurgindo-se apenas contra o alarmismo (bem vindo), não contesta o aquecimento global antropogénico mas a atribuição de todas as alterações apenas ao CO2eq (bem vindo), faz uma referência ligeira ao climagate a propósito da contaminação do debate científico por opções políticas mas sem o associar imeditamente a qualquer fraude (bem vindo), afirma taxativamente que a União Europeia deve estar preocupada com as alterações climáticas de origem humana (bem vindo), e conclui que os outros efeitos que resultam dessas emissões chegam para se fazer opções políticas, não sendo necessário dramatizar o seu efeito no aquecimento global (bem vindo).
Ou seja, o que sobra de discordância é o velho argumento de que é preciso ter certezas para agir e o de que os efeitos do corte de emissões e do mercado do carbono é catastrófico social e economicamente.
Como se vê, nada de ciência, tudo de política com base em argumentos não demonstrados mas a necessitar de discussão séria.
Há tempos concluí, pelo meu próprio exemplo, que o climagate arriscava-se a ser um grande contributo para o consenso social à volta do aquecimento global: não só põe algum travão no alarmismo, o que é bom, como sobretudo muitas pessoas que evitavam a discussão, por demasiado complexa, foram obrigadas a entrar nela, a ler a informação primária e, por isso, reduziram muito as dúvidas sobre a solidez científica que suporta a tomada de decisão política.
Parece-me ser o caso de Delgado Domingos, tal como aliás foi também o meu caso (com a distância de conhecimento científico que nos separa, evidentemente, eu não percebo nem um quarto do que leio sobre a matéria).
Bem vindo ao campo da discussão que se pretende mais racional e menos contaminada por posições pré-definidas por critérios externos ao essencial do que está em causa.
henrique pereira dos santos