Sexta-feira, Julho 31, 2009
CERVAS
Quinta-feira, Julho 30, 2009
Faia Brava
A imagem é da ATN, eventualmente do excelente fotógrafo de natureza que tem colaborado com a associação, o João Cosme, mas é enganadora porque uma das características centrais da reserva é a secura, mesmo se atravessada pelo rio Côa como aqui se vêO Secretário de Estado do Ambiente, Humberto Rosa, esteve ontem na Faia Brava (Figueira de Castelo Rodrigo), para conhecer a reserva que deu origem à primeira manifestação de interesse em classificar-se como Área Protegida Privada.
Com esta visita "passamos a ter um caso concreto com o qual dialogar, articular e ver quais as necessidades que esta nova figura - Área Protegida Privada - possa colocar", disse à Lusa Humberto Rosa na visita, que coincidiu com o Dia Nacional da Conservação da Natureza. A Associação de Transumância e Natureza (ATN), organização não governamental da área do ambiente, sediada em Figueira de Castelo Rodrigo, apresentou recentemente ao Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB) um pedido de classificação da Faia Brava como área protegida privada, ao abrigo do Decreto-Lei n.º 142/2008, de 24 de Julho. "O classificativo em si não garante nenhum tipo de apoio financeiro, o que se trata é de um caso em que o privado e o Estado se põem de acordo sobre certas regras de gestão de uso e manutenção da natureza", explicou o secretário de Estado. "Temos vindo a buscar fontes diversas de financiar a conservação, e uma delas é o Fundo de Conservação da Natureza e Biodiversidade, que está previsto no regime jurídico da conservação, faltando-nos aprovar a portaria que regulamenta a gestão do fundo em concreto, mas que visa não dar recursos ao Estado, mas disponibilizar aos gestores activos da natureza uma forma de financiar essas actividades", acrescentou. "Esta visita veio demonstrar que não foi uma aposta vazia, porque corremos o risco de prever áreas protegidas privadas, sem ter nenhum privado com esse interesse", disse Humberto Rosa. "Queremos, por exemplo, que num Parque Natural, o privado possa ser estimulado, para além do uso do solo que faça, com um projecto adicional, financiando a gestão dos parques através de projectos privados", explicou. Segundo o secretário de Estado, o regulamento que suporta o decreto-lei das áreas protegidas privadas deverá ser concluído ainda nesta legislatura."
Terça-feira, Julho 28, 2009
A logística e as causas ambientais
e as linças???

O que mais estranho na notícia - a mim, um comum mortal que nada percebe de linces - é que serão recebidos 14 machos e 6 fêmeas. Certamente haverá lógica neste sex ratio... mas escapa-me. Alguém consegue explicar?
Gonçalo Rosa
quem paga o quê?

Durante vários anos e até 2007, 15 ou 20 casais de cegonha-branca nidificavam numa linha com cerca de uma dúzia de cedros, plantados para ornamentar e dar sombra a um pequeno monte, nas proximidades de Castro Verde. Lentamente, os cedros foram sendo queimados pela urina e excrementos das cegonhas, acabando por morrer.
Em 2008, um grupo de 100 ou 200 casais de garças-boeiras juntou-se às cegonhas. Nidificou nos cedros e nalgumas das poucas laranjeiras existentes nas proximidades. No Verão, quando as crias abandonaram os ninhos, aquelas laranjeiras estavam queimadas.
Já em 2009, o número de casais de garças aumentou muito consideravelmente (400 a 600 ninhos ocupados). A colónia espalhou-se por todo o laranjal nidificando ainda num pequeno canavial. No final da época de nidificação, todo o laranjal estava destruído (infelizmente não tenho fotos). Não falei com o proprietário do terreno, mas tenho fortes dúvidas que esteja radiante com o sucedido. Desconheço se procurou apoio junto da administração pública para resolver a situação.
Eis um bom exemplo de danos consideráveis e visíveis causados por fauna selvagem.
Em todos os casos em que existam danos consideráveis e inusitados, deve ser dado o apoio necessário ao proprietário, por forma a mitigar conflitos entre conservação da natureza e actividades humanas. E esse apoio deve considerar a relevância dos valores em causa em termos de conservação da natureza. Nalguns casos, em que os valores naturais teem pouca relevância, é aceitável uma posição mais "agressiva", que pode passar, por exemplo, pela remoção de ninhos ou espantamentos. Noutros, o apoio deve passar por um busca activa de soluções de compromisso, ou mesmo pelo pagamento de compensações pelos danos causados, à semelhança do que acontece exclusivamente para os prejuízos causados pelo lobo.
O Estado, ou seja, todos nós, não podemos deixar de assumir os custos da conservação da natureza que tanto (e tão justamente) defendemos. Não é aceitável assobiarmos para o ar, esperando que um punhado de desafortunados assumam uma parcela desproporcionada da factura, escudando-nos na ilegalidade e na imoralidade de um qualquer acto desesperado para perpetuar a situação, ano após ano.
Gonçalo Rosa
Segunda-feira, Julho 27, 2009
denúncias de crimes ambientais aumentam 23% em 2008
O Serviço de Protecção da Natureza e Ambiente (SEPNA) da GNR registou 5877 denúncias de crimes ambientais em 2008, mais 23% que no ano anterior (noticia aqui). O Major Jorge Amado, autor do relatório, refere que este incremento revela "uma maior sensibilização do cidadão para as questões do ambiente".
As áreas ambientais em que foram registadas mais denuncias foram os resíduos ilegais (989 queixas), recolha de aves selvagens debilitadas/cativeiro ilegal (385), poluição de águas (375), ruído (278) e contaminação atmosférica (234).
Gonçalo Rosa
FALHAS DE ESTADO
A troca de palavras efectuada a semana passada no Ambio sobre o posicionamento de Associações Ambientalistas versus decisões em tribunal sobre projectos com fortes impactos ambientais, no seguimento do que se passou sobre o Costa Terra, fez-me recordar uma conferência de Vaclav Havel a que assisti em 2007 em Berlim.
Mas comecemos pelo essencial e este não se situa entre o reconhecimento de ilegalidade ou não versus negociações com promotores. A questão essencial é a patente “Falha de Estado” que estes processos tornam visíveis sem que ninguém, pelo menos aparentemente, se apresente minimamente incomodado.
Falhas de Estado são aquelas que levam a que o Estado não consiga garantir e distribuir recursos de forma a assegurar bens essenciais, como a segurança, a educação e os cuidados de saúde. A incapacidade de controlar o seu próprio território, a existência da corrupção e a incapacidade de Governação são igualmente Falhas de Estado.
Ora, face a um dado projecto de investimento de dimensão, o Estado tem a responsabilidade, seguindo determinados procedimentos, de verificar dos seus impactos ambientais e eventualmente identificar e fazer cumprir medidas compensatórias conducentes com a avaliação efectuada, a discussão pública havida e a decisão tomada. É pressuposto que essas medidas sejam proporcionais (com maior ou menor latitude) aos danos causados. Contudo, quatro situações anormais podem acontecer.
Primeira, o Estado actua de forma a que o promotor aceita sobre - compensações muito para além do que o projecto e a avaliação de impacto ambiental permitiriam equacionar (para mim, exemplo disto é caso do Sabor pós interrogações da Comissão) visando a aceitação política do projecto nas várias instâncias. Segunda, o Estado aceita do promotor sub - compensações (caso inicial do Sabor, igualmente na minha opinião) normalmente aceitando que o projecto não gera receita suficiente para suportar este custo, mas que o mesmo é importante para o desenvolvimento local/regional.
Pode acontecer também que o Estado, embora assegure do promotor a execução das medidas compensatórias adequadas, actue posteriormente no sentido de o levar a aceitar envolvimento em acções e custos que estão para além daquilo que tinha sido definido como o razoável em termos de compensações (frequente na esfera do poder local).
Por último, o Estado, embora não actuando directamente sobre os promotores, permite que outros, nomeadamente privados (e as associações ambientalistas são entidades privadas), o façam como forma de não vir a ter problemas futuros durante a execução do projecto.
Em qualquer das situações descritas, que parecem ser comuns nos nossos processos de ordenamento do território, estamos perante a presença de falhas de Estado graves, ou porque não existem recursos, informação e organização que permita determinar e fazer cumprir o decidido em sede de avaliação de impactos ambientais, ou por incapacidade em afirmar o ordenamento do seu próprio território, ou, o que é ainda mais grave, porque existe captura do poder de decisão pelo interesse privado, ou finalmente, porque o Estado aceita pura e simplesmente a “extorsão mais ou menos oficializada” sobre privados.
Ora, recordando a conferência que referi no inicio, foram exactamente estas algumas das muitas razões que levaram a que Vaclav Havel afirmasse que a principal medida para os ministérios do ambiente não era dotá-los de recursos e organização, mas sim transformá-los em verdadeiros “Ministérios da Decência”.
Sábado, Julho 25, 2009
O génio egoísta?
Richard Dawkins é um dos intelectuais mais proeminentes dos nossos tempos. Além de ser um interprete e divulgador da moderna teoria da evolução (destaca-se, entre outros, a publicação do livro "The Selfish Gene") tem tido a coragem, rara, de assumir publicamente um ateísmo militante que culminou na escrita do seu livro "The God Delusion"."when one person suffers from a delusion it is called insanity. When many people suffer from a delusion it is called religion".
Comboios em Espanha de vento em poupa
"Renfe obtuvo en 2008 un beneficio bruto de explotación de 240,5 millones de euros, un 75,5% más que el ejercicio anterior. Los ingresos crecieron un 17%, sobre todo por la puesta en servicio de nuevas líneas de alta velocidad, y los gastos se incrementaron un 13%, según informó ayer la empresa pública.
La crisis económica mermó el número de viajeros un 1% (hasta los 499,7 millones), sobre todo en Cercanías y media distancia, y afectó más a las mercancías. El gasto en diésel aumentó un 22,7%, mientras que la factura energética total subió un 5%, hasta los 245 millones."
Sexta feira sem carne

Quinta-feira, Julho 23, 2009
Ganhos de causa

Quarta-feira, Julho 22, 2009
Negociar a Costa Terra

Terça-feira, Julho 21, 2009
mais barato de bicicleta :)))
A notícia é verdadeiramente deliciosa. Um bordel de Berlim está a oferecer um desconto de 5 euros a quem provar utilizar a bicicleta como meio de transporte!
Segundo o seu dono, «é bom para os negócios, é bom para o meio ambiente e é bom para as meninas». O que eu não duvido. O propritário confirma ainda que a promoção tem ajudado a aliviar o trânsito e o estacionamento em redor do bordel Maison d'Envie, assim como tem ajudado a empresa a conquistar novos clientes. «Nós temos cerca de três a cinco novos clientes que chegam diariamente para aproveitar o desconto».
Cá está uma simpática ideia para alargar a outros negócios :)))
Gonçalo Rosa
Segunda-feira, Julho 20, 2009
Carros eléctricos

Silly em qualquer estação

A Quercus suspeita de que haja interesses imobiliários por detrás do incêndio que destruiu mais de cem hectares de floresta na Herdade da Apostiça, em Sesimbra. "Sabemos que as zonas ainda verdes de Seixal e Almada são muito apetecidas e há muitos anos que existem interesses de urbanização na zona ardida", diz ao CM Carla Graça, presidente do núcleo de Setúbal da associação ambientalista, frisando não poder "apontar nada de específico". De qualquer forma, o CM sabe que a PJ de Setúbal está atenta aos fogos na Margem Sul.
Recorde-se que em 2003, quando Isaltino Morais era ministro das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente, esteve para nascer na Mata de Sesimbra um megaprojecto imobiliário de 5200 hectares. O projecto da Pelicano previa investimentos de 800 milhões de euros em vários aldeamentos turísticos com capacidade para trinta mil pessoas. Foi o actual Governo que em 2007 chumbou o plano.
Quanto ao impacto ecológico do incêndio, a dirigente da Quercus desdramatiza. "Os incêndios fazem parte do clima mediterrânico e a vegetação regenera-se. Não é um desastre ecológico, mas coloca questões ao nível da gestão florestal", diz, apontando "problemas clássicos" como "perímetros urbanos mal definidos, com o mato a entrar em casas das pessoas"."
Outra vez a mesma boa ideia
Sábado, Julho 18, 2009
Meus caros colegas biólogos de conservação, interessados na vida dos morcegos

“Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece que ela regresse, porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade, a realidade é que sem ela não há paz
Não há beleza, é só tristeza e a melancolia que não sai de mim,
Não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar, do que os beijinhos que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim, Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é prá acabar com esse negócio de viver longe de mim”
Porque vos faria bem ter uma visão da conservação apesar de tudo feliz por estar centrada no que está para além da possibilidade ou inevitabilidade da perda.)
Após várias horas de concentração no espaço confinado do habitáculo de um carro, como aliás já tinha acontecido com o povo do Lobo noutra viagem a Montemuro (“a mais desconhecida serra de Portugal” dizia o Amorim Girão), a quantidade de informação trocada é incomparavelmente maior (mas mais imprecisa) que em meses de trabalho conjunto no ICN. E como eu funciono como a polícia americana (tudo o que me disserem sobre conservação pode ser usado contra as vossas ideias de conservação), retive um aspecto que, se percebi bem, me parece relevante do ponto de vista da conservação dos morcegos:
com frequência quando, por razões fortuitas, aparecem abrigos artificiais eles são colonizados por morcegos. É caso da torre de Tróia, é o caso do buraco na barragem Alqueva, é o caso das minas abandonadas, das casas abandonadas, etc. (ou as sondagens geológcas do Sabor, acrescento eu hoje)
Ora do meu ponto de vista, tendo o cuidado de saber que este processo não será, com certeza, extensível a todas as espécies, este aspecto poderia ter uma papel bem mais relevante numa estratégia activa de conservação dos morcegos deixando de ser encarado apenas no quadro das medidas compensatórias para a destruição de abrigos conhecidos, mas como uma linha de acção e pensamento consistente e consciente de diminuição dos riscos de destruição dos abrigos actualmente existentes, sobretudo os considerados mais importantes e críticos.
Na realidade é possível que alguns dos abrigos mais importantes o sejam não só porque têm boas condições, mas também por falta de alternativas para os bichos.
Isto é válido para as espécies cavernículas mas também para as fissurículas. Admito (começando por admitir que não percebo nada da biologia das espécies o que significa que estou a meter a foice em seara alheia) que o exemplo de Tróia seja a demonstração de que as espécies fissurículas (consideradas de maneira geral raras e com populações mais ou menos descontínuas) estão muito menos ameaçadas do que supúnhamos.
Há já vários anos que venho tentando vender o meu peixe afirmando, sempre que posso, que estou convencido de que muitas espécies que consideramos ameaçadas por terem populações pequenas, de baixa densidade e descontínuas estão na realidade a reflectir a raridade e descontinuidade natural dos habitats de que dependem, tendo pois desenvolvido mecanismos de adaptação para prevalecer nessas circunstâncias. E para estas espécies só a informação da dinâmica populacional pode ser critério de atribuição do estatuto de ameaça e não a caracterização da população existente, naturalmente rara, esparsa, descontínua e de distribuição limitada.
Ora as fissuras (tal como as cavidades) tenderão a ser relativamente raras e descontínuas na natureza (que tem horror ao vazio) e por isso constituirão um factor limitante do crescimento das populações fissurículas muito mais relevante que qualquer outro e logo que, como aconteceu em Tróia, disponibilizamos fissuras em quantidade e qualidade, criamos as condições para ter uma notável população.
O que significa que as populações “naturais” têm uma grande capacidade de expansão, no caso de encontrarem as condições de abrigo para isso, o que convenhamos que é um sintoma de vitalidade e não de ameaça.
E se assim for, o corolário do que afirmei é o de que todas as espécies que têm vindo a colonizar novos abrigos (considerando novos, todos os que artificialmente foram criados nos últimos cinquenta anos, como a grande maioria das minas) dificilmente poderão ser consideradas ameaçadas e o essencial da política de conservação que as tem como objecto deveria concentrar-se sobretudo na gestão da disponibilidade de abrigo.
Claro que nalgumas circunstâncias todos estaremos de acordo que outros factores serão mais relevantes que a disponibilidade de abrigo, como será o caso do Maciço Calcáreo Estremenho onde há uma enorme oferta de abrigo e se dever, por isso, trabalhar a hipótese da capacidade de suporte do território para as espécies cavernícolas presentes estar limitada por outros factores. Mas convenhamos que essas são situações particulares, já que se todo o território fosse como o Maciço Calcáreo Estremenho ninguém falaria, em termos gerais, de elevados graus de ameaça dos morcegos cavernícolas mas sim de espécies concretas que poderão estar fora desta lógica e sobre as quais, provavelmente, teremos de desenvolver estratégias específicas de conservação.
Ora o que gostaria não era que me dissessem, mais uma vez, que eu tenho umas ideias estranhas sobre conservação, o que eu dou de barato, mas onde é que o meu raciocínio está errado ou onde é que os dados existentes o contrariam.
E é por isso que vos escrevo, meus caros colegas biólogos de conservação, sempre com “a angústia do guarda redes antes do penalty”, que vos dificulta a visão de uma natureza em profunda (e arriscada) mutação, mas cheia de oportunidades de possibilidades para sermos nós, às vezes, a marcar o penalty.
Sexta-feira, Julho 17, 2009
e porque não?
algumas das mais de 150 reservas privadas do Royal Society for Protection of Birds (Inglaterra)(imagem sacada do site do RSPB via Google Earth)
(clicar no mapa para ampliar)
O Estado tem gerido de forma danosa as áreas protegidas? Sim. Ninguém no BE, acho eu, defenderia o contrário. Mas como pode acreditar que uma empresa, com fins lucrativos, pode fazer melhor? Alguém acredita que quem opera hotéis, campos de golfe, shoppings, etc., está minimamente preocupado com a conservação da natureza? Claro que não. Então porque havemos de abrir as áreas protegidas a estes privados?
Pode-me responder, uma vez mais, que o Estado também não tem demonstrado grande empenho pela conservação da natureza. Mas há uma diferença fundamental: é que o governo é eleito por nós e é a nós, cidadãos, que deve obedecer. Se achamos que as áreas protegidas estão a ser mal geridas, temos o direito de exigir, enquanto cidadãos, que a situação melhore. Já não temos o direito de exigir que uma empresa faça o que queremos. Uma empresa obedece apenas aos interesses do lucro.
Este texto foi parte de um comentário que um militante do Bloco de Esquerda que faz parte da sua Comissão de Ambiente fez, em resposta a um post que, há alguns dias atrás, aqui publiquei - Programa de Governo do Bloco de Esquerda.
Em boa verdade, falava eu da falta de sentido de ser o Estado a prestar serviços na área do Turismo de Natureza, tendo aquela resposta sido ao lado, por questionar a privatização da gestão das áreas protegidas. E ainda bem, pois funcionou como lembrete para escrever este post, há quase tanto tempo pensado quanto adiado. É que em boa medida, o trecho acima publicado salienta grande parte dos medos de muitos dos que, ao longo dos anos, fui ouvindo, acerca da contratualização da gestão privada de áreas protegidas. Fará sentido pensar na gestão privada de áreas protegidas da actual rede nacional?
O autor daquele comentário bipolariza a discussão em Estado e empresas como se outras formas de organização social não existissem. É que há sectores da nossa sociedade tão obcecados com as supostas más intenções das empresas, com os enormes lucros que algumas teem e com o "grande capital", que infectam, à partida, esta e outras discussões. As ONGAs e as fundações foram literalmente retiradas da discussão, entendendo eu que são entidades que, por excelência, poderiam prestar aquele serviço à sociedade. De resto, a gestão privada de uma área protegida com objectivos estratégicos devidamente protocolados com o Estado seria óptima oportunidade para, por exemplo, as ONGAs mostrarem ao Estado "como se faz".
Acontece que, por princípio, também não vejo porque é que a contratualização da gestão de áreas protegidas não pode ser interessante, sobre o ponto de vista da conservação da natureza, quando realizado com empresas.
Não se trata do Estado passar a empreitada a terceiros a troco de algum apoio financeiro e borrifar-se no assunto. Trata-se de protocolar com objectivos claros - como o Estado, grosso modo, não tem - e de verificar o seu posterior cumprimento. A possibilidade de obtenção de lucro - nomeadamente, através de actividades de turismo de natureza - deve estar intimamente ligado ao cumprimento de objectivos de conservação da natureza, sendo sempre possível revogar um contrato por incumprimento unilateral ou, puro e simplesmente, não o renovar. E é precisamente esta tónica, de ligação do cumprimento de objectivos de conservação da natureza ao lucro, a chave do sucesso de uma eventual privatização da gestão de áreas protegidas. Neste contexto, o Estado poderia assumir exclusivamente um papel de controlo do cumprimento dos pressupostos do contrato, mantendo apenas algumas funções administrativas.
O autor, com responsabilidades na Comissão de Ambiente do BE, afirma que "o Estado tem gerido de forma danosa [termo que me parece claramente excessivo] as áreas protegidas? Sim. Ninguém no BE, acho eu, defenderia o contrário", mas quer no seu comentário e, muito mais grave que isso, quer no programa do BE,não existem propostas concretas e, na prática, executáveis, para inverter a actual situação. O que é uma pena e bem demonstrativo der um problema de amplos sectores da nossa sociedade, alguns partidos políticos incluídos, muito mais eficazes a apontar problemas genéricos do que a formular soluções.
Ter uma visão de que existem duas posições extremas, por uma lado ambientalistas e Estado, angélicos e puros nas suas intenções pela conservação da natureza e, por outro, empresários vorazes, ávidos e cegos pelo lucro, é ter uma visão muito pobre do mundo. E importa-me muito pouco a suposta pureza dos estímulos e objectivos pessoais de cada um de nós, de cada entidade. Interessa-me muito mais se a conservação da natureza pode ou não ganhar com isso. E fazer coincidir objectivos da conservação da natureza com pessoais e organizacionais é a forma mais eficaz e inteligente de conservar o que quer que seja.
Gonçalo Rosa
ambientalista e empresário
Metodologias quantitativas para conservação da biodiversidade
Para os interessados nestas coisas aqui fica a publicidade: um livro recentemente publicado e que resume o "state of the art" na ciência do "systematic conservation planning" ou "spatial conservation prioritization (terminologia mais recente). Para quem trabalhar profissionalmente em planificação do território com vista à conservação é uma leitura obrigatória, assim como será para estudantes universitários de 2 e 3 ciclo na área da biologia da conservação.Sou autor de um dos capítulos que versa sobre alterações globais e áreas para conservação. Fica aqui um em excerto da introdução do capítulo:
Mais informação sobre o livro pode ser encontrada aqui.
Quinta-feira, Julho 16, 2009
O Estado, a informação e a biodiversidade

Quarta-feira, Julho 15, 2009
diz que é uma espécie de justiça
Infelizmente, não foi por falta de oportunidades que ainda não havia repescado este "tesourinho muito deprimente", mas a condenação de Fernando Ruas, Presidente da Câmara Municipal de Viseu e da Associação Nacional de Municípios Portugueses, por ter incitado correr à pedrada funcionários do Estado em pleno exercício das suas funções, pareceu-me excelente razão para reviver este pequeno vídeo.
Há políticos que não parecem ter quaisquer problemas em chamar os outros de parvos, para, quando entre a espada e a parede, cobardemente, desmentirem o óbvio. Brincam com a Lei e gozam com a Justiça, pontas-de-lança do chico-espertismo nacional. E a malta aplaude. Aplaude à saída do tribunal com o ar desafiante com que enfrentam o Estado de Direito. Em último caso, está até disposta a fazer uma “vaquinha” para uma qualquer multa nem doer, e pagar tudo em moedinhas pretas de um cêntimo para achincalhar quem condena. Premeia este estilo de camisa aberta, língua afiada, peito às balas, seja lá de quem fôr, seja lá de onde vier. Borrifa-se para os meios, e dispõe-se a trocar torradeiras, micro-ondas e "desenvolvimento" em betão armado por votos. Muitos votos. E vota massivamente nestes personagens que, afinal, mais não são do que herois, mais ou menos locais, emergidos do meio da populaça, sangue do seu sangue, feitos, em certa medida, por aqueles que de alguma forma os contestam. E eles, que tantas vezes procuram nas urnas legitimar o que os tribunais condenam, agradecem.
A verdadeira mudança está na educação e nas mentalidades. Não nas leis, nem na Justiça.
Qualidade dos dados Portugueses de biodiversidade

Não vou repetir os argumentos expostos nos comentários a este post mas gostaria apenas de ilustrar o que digo com um mapa que produzimos no meu laboratório há pouco tempo. O que vêm é a conjugação dos dados de distribuição de mamíferos existentes nas bases de dados (Estatais) Portuguesas e Espanholas. As cores reflectem diversidade biológica de mamíferos. Podem ser feitas duas interpretações: 1) a diversidade é maior em Espanha que Portugal; 2) a ausência de diversidade em Portugal reflecte a ausência de dados. Esta última interpretação é a correcta.
A discussão sobre quem tem de recolher os dados é mais ou menos inútil porque a questão de fundo é que para tomar decisões em matéria de conservação, é necessário ter dados sobre os objectos que se pretendem conservar e tanto a obtenção de dados como o processo de decisão em matéria de conservação se encontram claramente definidos:
"O Instituto [ICNB] prossegue atribuições do Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional, sob superintendência e tutela do respectivo ministro. São suas atribuições:
a ) Exercer as funções de autoridade nacional para a conservação da natureza e da biodiversidade;
b ) Assegurar a preservação da conservação da natureza e da biodiversidade e a gestão sustentável de espécies e habitats naturais da flora e da fauna selvagens, promovendo a elaboração e implementação de planos, programas e acções, nomeadamente nos domínios da inventariação, da monitorização, da fiscalização e dos sistemas de informação;
(...)"
Também poderia produzir um mapa equivalente para invertebrados mas a humilhação para Portugal seria ainda maior.
Este blog é uma porcaria

A pedrada e a responsabilidade política

14 Maio 2009
O presidente da Câmara de Viseu, Fernando Ruas, admitiu em tribunal que "se fosse hoje teria utilizado outra expressão" para demonstrar "o seu desagrado" para com os fiscais do ambiente, reafirmando que usou a frase em sentido figurado.
Na primeira sessão de julgamento, que decorreu durante a manhã de hoje, no Tribunal de Viseu, Fernando Ruas alegou que "se soubesse que esta expressão era vista com tanta gravidade, teria utilizado outra".
Fernando Ruas está acusado de instigação pública ao crime, por declarações feitas na Assembleia Municipal de 26 de Junho de 2006, onde afirmou que a população devia "correr à pedrada" os fiscais do Ministério do Ambiente.
A polémica frase - que fez com que o Ministério Público de Viseu movesse uma acusação - surgiu após o presidente da Junta de Freguesia de Silgueiros, António Carlos Coelho (PSD), ter voltado a acusar os vigilantes da natureza de "excesso de zelo" nuns casos e de não darem tratamento às situações realmente importantes.
Sentado pela primeira vez no Tribunal de Viseu enquanto arguido, Fernando Ruas disse que "se fosse hoje, teria demonstrado na mesma seu desagrado, embora com outras palavras. Os aborrecimentos que isto trouxe, não são agradáveis".
"Podia ter dito, dêem-lhes uma malha, não seria tão grave", sustentou, reafirmando que a polémica frase foi proferida "em sentido figurado" e "num fórum (Assembleia Municipal) onde as discussões são sempre acaloradas".
Admitiu que o deputado do PS na Assembleia Municipal, Ribeiro Carvalho, lhe fez um reparo à expressão proferida" e que ainda nessa reunião ficou esclarecido que o fez "em sentido figurado". O também presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses sublinhou que "teria sido mais cómodo ter aceite a proposta de fazer um pagamento a uma instituição e ainda um esclarecimento público".
No entanto, defende que não o fez porque "isso seria confessar a culpa", que acha que não tem.
Fernando Ruas esclareceu ainda que no final das reuniões da Assembleia Municipal, é normal ser abordado para falar de assuntos mais quentes, mas "este não se colocou".
"O assunto nem veio publicado na comunicação social no dia seguinte. Veio mais tarde a público por um jornalista que nem esteve presente na Assembleia Municipal", sustentou, frisando que era "incapaz de incitar alguém à violência".
Durante a manhã de hoje foram ouvidos o presidente da Junta de Freguesia de Silgueiros, António Carlos Coelho, e o deputado do PS, Ribeiro Carvalho, que o Ministério Público arrolou como testemunhas.
O autarca de Silgueiros sustentou que entendeu as expressões de Fernando Ruas como sendo "um alerta", sublinhando ao facto de este ter "um discurso muito particular".
"Só nessa reunião (o presidente da Câmara de Viseu) utilizou por 11 vezes a ironia e por 18 vezes o recurso a frases feitas", acrescentou.
O deputado do PS, Ribeiro Carvalho, considerou que as palavras do autarca de Viseu foram "despropositadas" e "um excesso de linguagem".
"Faz parte da luta política e na luta política o alvo nem sempre é para onde se atira a seta, às vezes é um bocadinho mais ao lado", referiu, explicando que Fernando Ruas "atirou a seta aos fiscais, embora fosse mais para quem os dirige".
Foi também ouvido, por vídeo-conferência, José Apolinário, presidente da Câmara de Faro (PS), que sublinhou "a forma de ser cordial de Fernando Ruas" e deu ainda como exemplo "uma frase muito usada no Algarve, que é a do atira-te ao mar", que no seu entender tem um significado semelhante ao da expressão polémica.
A última testemunha ouvida durante a manhã foi Artur Trindade, secretário-geral da ANMP, que sublinhou que Fernando Ruas "tem por hábito utilizar muitas expressões do tipo, em sentido figurado, pela sua origem Beirã".
A sessão de julgamento retoma por volta das 14:30.
CMM.
Lusa
Terça-feira, Julho 14, 2009
pêssegos, preconceito e sugestibilidade

Há um par de dias atrás, encontrei uma pequena caixa com uns pêssegos bizarros - pequenos e de forma muito achatada - no expositor de um supermercado alentejano. Como gosto de experimentar novos sabores, comprei uma dúzia dos ditos pêssegos, com aroma mais do que aprovado à primeira. Levei-os para o fim-de-semana na praia constatando que a dúzia e meia dos pequenos pêssegos não durariam nem o sábado (sabem como é, o calor, os perigos da desidratação e os gulosos pêssegos eram efectivamente pequenos... e bons :)
De regresso, decidi passar pelo supermercado e comprar o resto de caixa. O preço era bastante aceitável (apenas 0.99€ por kg) e, para além de um inusitado consumo de pêssegos que antevia fazer cá por casa (e que, ao que parece, não me enganei), pretendia oferecer uma parte a alguns amigos. Na viagem, pensei, no entanto, "rentabilizar" o investimento e fazer uma pequena experiência contado com os meus amigos - de quem eu espero um complacente perdão - como cobaias.
Assim, ofereci os pêssegos a 9 amigos e incentivei-os a provarem-nos de imediato. Note-se que quase todos são biólogos ou ligados à área da conservação da natureza. Todos exaltaram o seu doce aroma, mas a 5, mesmo antes de os provarem, informei-os que eram geneticamente modificados. Invariavelmente, quiseram devolver os pêssegos, alguns deles soltando comentários pouco elogiosos como "que horror!" e coisas que tais. Os restantes 4, que provaram os pequenos frutos antes de serem informados, elogiaram o seu sabor e textura, a forma fácil como saía a casca, o tamanho diminuto do seu caroço. No entanto, quando informados que se tratavam de pêssegos geneticamente modificados, relativizaram com uma rapidez surpreendente todas aquelas qualidades há minutos discriminadas. O sabor, afinal, passara a ser fantástico para incaracterístico, e as demais qualidades deixaram de o ser, posto que, afinal, nem se importavam com o tamanho dos caroços, da textura mais fibrosa ou de comer a casca dos pêssegos ditos normais.
Na verdade, aqueles pequenos pêssegos foram produzidos do centro de Marrocos e não eram OGMs ou, pelo menos, nada disso indicava a etiqueta que vinha na caixa.
É fascinante de como o preconceito e o sugestibilidade (neste caso, OGM = mau) pode, per si, influenciar toda uma opinião. E de como, a este respeito, nos devemos vigiar, sob pena de , por exemplo, liquidarmos à partida qualquer discussão em que nos envolvemos. Pelo menos no que eu entendo ser uma discussão, que é coisa bem diferente de uma missa ou de uma conversa de surdos.
Gonçalo Rosa
PS - realço que este post não é sobre OGMs, assunto sobre o qual sou um vulgar ignorante, mas sobre preconceito e sugestionamento... e pêssegos, claro :)
Corram-nos à pedrada
Fernando Ruas condenado por ter incitado a "correr à pedrada" vigilantes da natureza
13.07.2009 - 15h39 Lusa
O presidente da Câmara de Viseu e presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), Fernando Ruas, foi hoje condenado a 100 dias de multa, à taxa diária de 20 euros, por ter incitado a "correr à pedrada" os vigilantes da natureza.Ruas foi, assim, condenado a um total de dois mil euros de multa, uma decisão da qual o seu advogado, Marçal Antunes, prometeu recorrer.Hoje, na leitura da sentença, Fernando Ruas não esteve presente por ter sido dispensado devido a um compromisso no Brasil em representação da ANMP. Na sessão anterior, o Ministério Público havia pedido a condenação do autarca a uma pena de multa não inferior a 120 dias. No julgamento estiveram em causa declarações feitas na Assembleia Municipal de 26 de Junho de 2006, onde o presidente da Junta de Freguesia de Silgueiros fez queixas dos vigilantes da natureza, o que levou Fernando Ruas a afirmar: "Arranjem lá um grupo e corram-nos à pedrada. A sério, nós queremos gente que nos ajude e não que obstaculize o desenvolvimento. Estou a medir muito bem o que estou a dizer". No mesmo dia, perante a intervenção de um deputado do PS, que disse a Fernando Ruas ser "grave" o que estava a afirmar, este justificou que falava em "sentido figurado", como se pôde ouvir na gravação áudio daquela reunião levada a tribunal. No entanto, o procurador da República disse nas alegações finais que nunca foi explicado o sentido real da expressão "corram-nos à pedrada"."
Domingo, Julho 12, 2009
A burocracia da ciência

Sábado, Julho 11, 2009
reflex: proibir, proibir, proibir
Estes são apenas 6 dos 11 (!) sinais de sentido proibido que se encontram a uma distância máxima de 100 metros, numa das entradas da vila alentejana de Mora. Ao fazer esta foto, lembrei-me de algumas das nossas áreas protegidas, da facilidade com que, não raras vezes, proibem e restringem actividades, não demonstrado a mesma capacidade de empreenderem uma actitude construtiva e activa na preservação dos seus maiores valores naturais.
Gonçalo Rosa
O custo das previsões de tráfego
Sexta-feira, Julho 10, 2009
400 páginas depois...
sector. Na ausência desta discussão, o PET não pode constituir-se como um documento que legitimize opções isoladas para cada uma das modalidades, como parece fazer..."
Programa de Governo do Bloco de Esquerda

Declaração de interesses (ou de falta deles): não sou filiado em nenhum partido político nem sou votante assíduo de nenhum deles.
Há poucos dias atrás, foi apresentado o Programa de Governo do Bloco de Esquerda. Tal como pretendo fazer para os restantes partidos com assento parlamentar, achei interessante aqui discutir o Programa do BE no que à conservação da natureza diz respeito.
Desde já assinalo que tenho algumas discordâncias doutrinais de fundo com toda a esquerda, sendo que nesta discussão, assume particular relevo a posse e a presença da mão do Estado em tudo e mais alguma coisa, que a esquerda muito preconiza e eu não.
O Programa aborda a conservação da natureza em dois (?) curtos capítulos. Na forma e estilo, desde já refiro que não sou particular adepto do discurso inflamado e negativista que normalmente caracteriza a intervenção política do BE. Pelo menos na área da conservação da natureza, a maioria do "Programa de Governo" do BE não o é, pois centra-se fundamentalmente numa crítica assanhada à actual governação PS e anteriores, nalguns casos justa, noutros muito pouco séria.
No primeiro capítulo - Ordenamento do Território e Conservação da Natureza (página 71) - os primeiros dois terços do texto são gastos em críticas, sem quaisquer propostas concretas. Apenas na parte final se referem as seguintes propostas:
- alargamento do património público de solos florestais e selvagens;
[não sei bem o que entende o BE por "solos florestais e selvagens" mas, como já referi, tenho enormes dúvidas que a solução de comprar terrenos para fazer conservação da natureza seja a melhor opção, na grande maioria das situações, para além de economicamente viável se estivermos a falar de compra ou expropriação de acordo com o actual quadro legal... estamos, não estamos?]
- o fim do regime dos PIN;
[não me parece que o problema esteja no "regime dos PIN" propriamente dito, creio que a aplicação da figura de PIN é que tem sido abusiva, particularmente no últimos anos, tornando o que deveria ser excepção em regra]
- a elaboração de um quadro de referência que estabeleça parâmetros de monitorização, em conjugação com os departamentos de investigação das universidades e politécnicos, e defina um programa a desenvolver pelos municípios e organismos do Estado
[tenho enormes dúvidas que tal seja aplicável em Portugal, tendo em conta os quadros disponíveis nos municípios e organismos do Estado e discordo totalmente que se passem estas competências para o poder autárquico]
- a criação de um programa de investimento para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico na área da conservação da natureza;
[haja dinheiro e faça-se]
No segundo capítulo dedicado à conservação da natureza - Conservação da Natureza e Biodiversidade (página 72) - após três parágrafos pincelados com uma boa dose de demagogia e populismo, o BE propõe:
Defendemos a reversão da propriedade privada para o Estado dos parques e reservas naturais sempre que, de acordo com a sensibilidade dos valores ecológicos a proteger, os contextos locais e concretos e a ponderação dos custos envolvidos, tal seja fundamental à preservação ambiental e usufruto das populações. Também apoiamos a maior transferência de verbas do poder central para o poder local para apoiar a gestão destas áreas e minimizar conflitos.
[para além da questão doutrinal de fundo que tenho com o BE e a esquerda e que referi no início do texto, questiono-me sobre a dimensão dos custos envolvidos na reversão da propriedade privada para o Estado e em que exemplos de gestão estatal é que o BE se apoia para entender que o Estado é bom gestor dos bens públicos e de que a contratualização ou estabelecimento de protocolos com terceiros não pode servir tão bem ou melhor os interesses do Estado; já quanto "à transferência de verbas do poder central para o poder local" não sei bem como é que o BE pretende, em particular com o "minimizar conflitos"; entendo que o papel de protocolar com terceiros o apoio, por exemplo, a determinadas práticas agrícolas, deveria ser assumido por outras entidades estatais, nomeadamente, pelas áreas protegidas, houvesse vontade política e, consequentemente, dinheiro para tal]
Nas áreas de reserva ambiental em que seja desejável a implementação ou continuação de actividades que beneficiem ou mantenham os elementos a preservar, como certas práticas agro-florestais, devem ser concedidos incentivos (além da mera obrigação coerciva). Eles permitiriam evitar o abandono destas áreas e a possível degradação ambiental das mesmas. Devem, no entanto, permitir compatibilizar os objectivos de protecção com os de desenvolvimento local, tornando os conflitos em oportunidades de sustentabilidade.
[de acordo, haja dinheiro para tal; no entanto, a frase "além da mera obrigação coerciva" tem contornos, para mim... assustadores, pois discordo totalmente que se obrigue coercivamente quem quer que seja a manter determinada cultura, salvo, obviamente ao abrigo do previamente protocolado; se os incentivos forem suficientes, os grande maioria dos agricultores responderá positivamente]
Quanto ao Turismo da Natureza, a legislação actual que autoriza hotéis, apartamentos, resorts e centros comerciais nas áreas protegidas deve ser mudada. O Bloco defende outro conceito para as actividades de lazer que podem ser praticadas nas áreas protegidas, assentes em equipamentos e serviços prestado pelas entidades públicas compatíveis com a conservação da natureza e o usufruto destes espaços.
[Quanto ao nacionalizar o Turismo de Natureza, discordo, como já referi várias vezes, deste princípio de nacionalizar tudo e mais alguma coisa tão querido à esquerda. Por princípio não tenho nada contra que se construam hotéis, apartamentos, resorts e centros comerciais nas áreas protegidas; tudo depende do que se pretende e aonde, sendo certo que no concreto, existem diversas situações de total incompatibilidade; mas será aceitável, por princípio, não autorizar a construção de um hotel, de apartamentos para turismo, de um centro comercial, nomeadamente numa vila qualquer dentro de uma área protegida? É isso que o BE defende?]
Mergulhado num mar de críticas muito pouco construtivas, o Bloco esquece-se, por exemplo, de dizer qual o modelo de gestão que defende para o ICBN, seus departamentos, rede nacional de áreas protegidas, rede Natura 2000? Como inverter a baixa execução da Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade? Este silêncio significa que, para o BE, estará tudo bem? Será o caso Freeport, com que abre as hostilidades no segundo capítulo que referi, mais relevante sobre o ponto de vista da conservação da natureza?
Esqueceu-se também do facto que o Estado, ao longo de décadas, tem dado péssimos exemplos de gestão, nomeadamente na gestão da rede nacional de áreas protegidas. Ao invés de nada propor nesta área, fará algum sentido somar o turismo de natureza às competências do Estado?
Ainda quanto à questão doutrinal de fundo, nacionalizar, à luz da legislação actual, tem custos. Custos elevados, se estivermos a falar de áreas consideráveis. E eu costumo dizer que podemos ser de esquerda, do centro ou de direita. Podemos até não ser de nada. Mas no final "as contas teem que bater certo". E Francisco Louçã sabe disso melhor que ninguém.
Era bom que o Bloco de Esquerda optasse de vez por deixar de se apresentar como um pequeno partido político, semelhante aos que estiveram na sua génese, em que a crítica muito pouco construtiva, per si, bastava. Era bom para o país que tivesse uma proposta política para a conservação da natureza, robusta, concreta e executável e deixasse de apresentar conjuntos de ideias soltas, desgarradas e, na minha opinião, sem sentido.
Gonçalo Rosa







