sexta-feira, julho 31, 2009

CERVAS


Este é um post um bocado egocêntrico.
A propósito de uma notícia sobre o CERVAS gostaria de sublinhar a minha satisfação pelo que vejo neste site.
A razão da minha satisfação prende-se com o facto de raramente ver resultados favoráveis de processos em que me empenhei quase sozinho por acreditar numa ideia (umas vezes porque tinha más ideias, outras vezes por incompetência minha na sua execução, outras vezes porque sim).
No caso dos centros de recuperação de fauna do ICNB há anos que defendia sua gestão em outsourcing como única forma de quebrar o ciclo vicioso de falta de recursos e má gestão que lhes estava associado.
Tive a oposição de muito conservacionista (é uma obrigação do Estado), de muito técnico do ICNB (só nós garantimos os objectivos), de muito gestor (o que faço às aves que as pessoas me entregam) e por aí fora.
Quando no âmbito do Business and Biodiversity a ANA (aeroportos) demonstrou a vontade de apoiar a gestão dos centros de recuperação tive mais um braço de ferro para manter o princípio de que dos processos de BB não deveriam resultar entradas de dinheiro no ICNB.
E vi aí a oportunidade para lançar um concurso para a gestão dos centros, ao qual estaria associado o financiamento que a ANA estava disponível para entregar.
Depois foram mais não sei quantas discussões internas a propósito dos problemas administrativos e formais que existem na cabeça de muita gente sempre que qualquer processo sai do trilho habitual.
Fez-se por fim a concessão da gestão dos centros (por concurso público e não por afinidade electiva) e hoje é possível verificar que as coisas correm, que a associação que gere os centros tem capacidade para mobilizar outros apoios e espero que um dia se possa dizer que os centros funcionam muito melhor que antes.
E se não se puder dizer isto, que o ICNB, que conserva o poder de reverter a gestão para si próprio em caso de incumprimento contratual, faça o seu papel de acompanhamento e fiscalização com flexibilidade e rigor.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, julho 30, 2009

Faia Brava

A imagem é da ATN, eventualmente do excelente fotógrafo de natureza que tem colaborado com a associação, o João Cosme, mas é enganadora porque uma das características centrais da reserva é a secura, mesmo se atravessada pelo rio Côa como aqui se vê

O projecto Faia Brava, da ATN, que é uma reserva natural privada, foi ontem notícia:

"Secretário de Estado visita projecto pioneiro de Área Protegida Privada em Figueira de Castelo Rodrigo29.07.2009Lusa (via Público/ Ecosfera)
O Secretário de Estado do Ambiente, Humberto Rosa, esteve ontem na Faia Brava (Figueira de Castelo Rodrigo), para conhecer a reserva que deu origem à primeira manifestação de interesse em classificar-se como Área Protegida Privada.
Com esta visita "passamos a ter um caso concreto com o qual dialogar, articular e ver quais as necessidades que esta nova figura - Área Protegida Privada - possa colocar", disse à Lusa Humberto Rosa na visita, que coincidiu com o Dia Nacional da Conservação da Natureza. A Associação de Transumância e Natureza (ATN), organização não governamental da área do ambiente, sediada em Figueira de Castelo Rodrigo, apresentou recentemente ao Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB) um pedido de classificação da Faia Brava como área protegida privada, ao abrigo do Decreto-Lei n.º 142/2008, de 24 de Julho. "O classificativo em si não garante nenhum tipo de apoio financeiro, o que se trata é de um caso em que o privado e o Estado se põem de acordo sobre certas regras de gestão de uso e manutenção da natureza", explicou o secretário de Estado. "Temos vindo a buscar fontes diversas de financiar a conservação, e uma delas é o Fundo de Conservação da Natureza e Biodiversidade, que está previsto no regime jurídico da conservação, faltando-nos aprovar a portaria que regulamenta a gestão do fundo em concreto, mas que visa não dar recursos ao Estado, mas disponibilizar aos gestores activos da natureza uma forma de financiar essas actividades", acrescentou. "Esta visita veio demonstrar que não foi uma aposta vazia, porque corremos o risco de prever áreas protegidas privadas, sem ter nenhum privado com esse interesse", disse Humberto Rosa. "Queremos, por exemplo, que num Parque Natural, o privado possa ser estimulado, para além do uso do solo que faça, com um projecto adicional, financiando a gestão dos parques através de projectos privados", explicou. Segundo o secretário de Estado, o regulamento que suporta o decreto-lei das áreas protegidas privadas deverá ser concluído ainda nesta legislatura."

Fico muito satisfeito de que a ATN tenha conseguido chegar até aqui e haja áreas protegidas privadas, concretas, a aparecer. Se têm êxito ou não, será um assunto a ver mais tarde mas os quase seiscentos hectares adquiridos já para a conservação são seguramente uma boa base.

henrique pereira dos santos

Declaração de interesses: colaboro profissionalmente com a Associação Transumância e Natureza desde há alguns meses, embora todo o trabalho que foi feito até chegar ao ponto a que se refere a notícia não tenha a minha participação, pelo que nenhum mérito tenho no assunto. A motivação para o post não tem nada com esta actividade profissional mas com mais um exemplo, depois das áreas protegidas locais, das virtudes do novo regime jurídico da conservação, em que trabalhei quando estava no ICNB

terça-feira, julho 28, 2009

A logística e as causas ambientais

Eu também teria ido ... ideia inspiradora e de extraordinária concretização logística na Estónia: http://www.youtube.com/watch?v=T7GzfMD6LHs

e as linças???


O Público de hoje noticia que, lá para meados de Setembro, chegarão os primeiros linces ao Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico. Serão os primeiros de um grupo de 20 animais a ser enviado por centros de reprodução espanhóis, ao abrigo de um protocolo assinado hoje, entre o Governo Português e Espanhol.

O que mais estranho na notícia - a mim, um comum mortal que nada percebe de linces - é que serão recebidos 14 machos e 6 fêmeas. Certamente haverá lógica neste sex ratio... mas escapa-me. Alguém consegue explicar?

Gonçalo Rosa

quem paga o quê?

Janeiro de 2006

Julho de 2008

Abril de 2009

Durante vários anos e até 2007, 15 ou 20 casais de cegonha-branca nidificavam numa linha com cerca de uma dúzia de cedros, plantados para ornamentar e dar sombra a um pequeno monte, nas proximidades de Castro Verde. Lentamente, os cedros foram sendo queimados pela urina e excrementos das cegonhas, acabando por morrer.
Em 2008, um grupo de 100 ou 200 casais de garças-boeiras juntou-se às cegonhas. Nidificou nos cedros e nalgumas das poucas laranjeiras existentes nas proximidades. No Verão, quando as crias abandonaram os ninhos, aquelas laranjeiras estavam queimadas.
Já em 2009, o número de casais de garças aumentou muito consideravelmente (400 a 600 ninhos ocupados). A colónia espalhou-se por todo o laranjal nidificando ainda num pequeno canavial. No final da época de nidificação, todo o laranjal estava destruído (infelizmente não tenho fotos). Não falei com o proprietário do terreno, mas tenho fortes dúvidas que esteja radiante com o sucedido. Desconheço se procurou apoio junto da administração pública para resolver a situação.

Eis um bom exemplo de danos consideráveis e visíveis causados por fauna selvagem.

Em todos os casos em que existam danos consideráveis e inusitados, deve ser dado o apoio necessário ao proprietário, por forma a mitigar conflitos entre conservação da natureza e actividades humanas. E esse apoio deve considerar a relevância dos valores em causa em termos de conservação da natureza. Nalguns casos, em que os valores naturais teem pouca relevância, é aceitável uma posição mais "agressiva", que pode passar, por exemplo, pela remoção de ninhos ou espantamentos. Noutros, o apoio deve passar por um busca activa de soluções de compromisso, ou mesmo pelo pagamento de compensações pelos danos causados, à semelhança do que acontece exclusivamente para os prejuízos causados pelo lobo.

O Estado, ou seja, todos nós, não podemos deixar de assumir os custos da conservação da natureza que tanto (e tão justamente) defendemos. Não é aceitável assobiarmos para o ar, esperando que um punhado de desafortunados assumam uma parcela desproporcionada da factura, escudando-nos na ilegalidade e na imoralidade de um qualquer acto desesperado para perpetuar a situação, ano após ano.

Gonçalo Rosa

segunda-feira, julho 27, 2009

denúncias de crimes ambientais aumentam 23% em 2008


O Serviço de Protecção da Natureza e Ambiente (SEPNA) da GNR registou 5877 denúncias de crimes ambientais em 2008, mais 23% que no ano anterior (noticia aqui). O Major Jorge Amado, autor do relatório, refere que este incremento revela "uma maior sensibilização do cidadão para as questões do ambiente".

As áreas ambientais em que foram registadas mais denuncias foram os resíduos ilegais (989 queixas), recolha de aves selvagens debilitadas/cativeiro ilegal (385), poluição de águas (375), ruído (278) e contaminação atmosférica (234).

Gonçalo Rosa

FALHAS DE ESTADO

A troca de palavras efectuada a semana passada no Ambio sobre o posicionamento de Associações Ambientalistas versus decisões em tribunal sobre projectos com fortes impactos ambientais, no seguimento do que se passou sobre o Costa Terra, fez-me recordar uma conferência de Vaclav Havel a que assisti em 2007 em Berlim.

Mas comecemos pelo essencial e este não se situa entre o reconhecimento de ilegalidade ou não versus negociações com promotores. A questão essencial é a patente “Falha de Estado” que estes processos tornam visíveis sem que ninguém, pelo menos aparentemente, se apresente minimamente incomodado.

Falhas de Estado são aquelas que levam a que o Estado não consiga garantir e distribuir recursos de forma a assegurar bens essenciais, como a segurança, a educação e os cuidados de saúde. A incapacidade de controlar o seu próprio território, a existência da corrupção e a incapacidade de Governação são igualmente Falhas de Estado.

Ora, face a um dado projecto de investimento de dimensão, o Estado tem a responsabilidade, seguindo determinados procedimentos, de verificar dos seus impactos ambientais e eventualmente identificar e fazer cumprir medidas compensatórias conducentes com a avaliação efectuada, a discussão pública havida e a decisão tomada. É pressuposto que essas medidas sejam proporcionais (com maior ou menor latitude) aos danos causados. Contudo, quatro situações anormais podem acontecer.

Primeira, o Estado actua de forma a que o promotor aceita sobre - compensações muito para além do que o projecto e a avaliação de impacto ambiental permitiriam equacionar (para mim, exemplo disto é caso do Sabor pós interrogações da Comissão) visando a aceitação política do projecto nas várias instâncias. Segunda, o Estado aceita do promotor sub - compensações (caso inicial do Sabor, igualmente na minha opinião) normalmente aceitando que o projecto não gera receita suficiente para suportar este custo, mas que o mesmo é importante para o desenvolvimento local/regional.

Pode acontecer também que o Estado, embora assegure do promotor a execução das medidas compensatórias adequadas, actue posteriormente no sentido de o levar a aceitar envolvimento em acções e custos que estão para além daquilo que tinha sido definido como o razoável em termos de compensações (frequente na esfera do poder local).

Por último, o Estado, embora não actuando directamente sobre os promotores, permite que outros, nomeadamente privados (e as associações ambientalistas são entidades privadas), o façam como forma de não vir a ter problemas futuros durante a execução do projecto.

Em qualquer das situações descritas, que parecem ser comuns nos nossos processos de ordenamento do território, estamos perante a presença de falhas de Estado graves, ou porque não existem recursos, informação e organização que permita determinar e fazer cumprir o decidido em sede de avaliação de impactos ambientais, ou por incapacidade em afirmar o ordenamento do seu próprio território, ou, o que é ainda mais grave, porque existe captura do poder de decisão pelo interesse privado, ou finalmente, porque o Estado aceita pura e simplesmente a “extorsão mais ou menos oficializada” sobre privados.


Ora, recordando a conferência que referi no inicio, foram exactamente estas algumas das muitas razões que levaram a que Vaclav Havel afirmasse que a principal medida para os ministérios do ambiente não era dotá-los de recursos e organização, mas sim transformá-los em verdadeiros “Ministérios da Decência”.

sábado, julho 25, 2009

O génio egoísta?

Richard Dawkins é um dos intelectuais mais proeminentes dos nossos tempos. Além de ser um interprete e divulgador da moderna teoria da evolução (destaca-se, entre outros, a publicação do livro "The Selfish Gene") tem tido a coragem, rara, de assumir publicamente um ateísmo militante que culminou na escrita do seu livro "The God Delusion".

"when one person suffers from a delusion it is called insanity. When many people suffer from a delusion it is called religion".

Quem se mete nestas andanças não pode, naturalmente, pretender passar despercebido e a polémica gerada em torno da sua argumentação contra as religiões não surpreende.

Mas é interessante ver que alguns dos seus críticos aparecem do lado que menos se esperava, ou seja, dos biólogos. Um livro recentemente publicado por Fern Elsdon-Baker, "The Selfish Genius: How Richard Dawkins Rewrote Darwin’s Legacy", oferece uma interpretação diferente - algo criativa - do Darwinismo para depois a usar como arma de arremesso contra os argumentos ateus de Dawkins. Vale a pena ler o livro de Dawkins para depois melhor seguir o debate. Uma interessante recensão sobre o tema foi publicada pela revista "The Economist".

Comboios em Espanha de vento em poupa

Notícia extraída do El País:

"Renfe obtuvo en 2008 un beneficio bruto de explotación de 240,5 millones de euros, un 75,5% más que el ejercicio anterior. Los ingresos crecieron un 17%, sobre todo por la puesta en servicio de nuevas líneas de alta velocidad, y los gastos se incrementaron un 13%, según informó ayer la empresa pública.

La crisis económica mermó el número de viajeros un 1% (hasta los 499,7 millones), sobre todo en Cercanías y media distancia, y afectó más a las mercancías. El gasto en diésel aumentó un 22,7%, mientras que la factura energética total subió un 5%, hasta los 245 millones."

Sexta feira sem carne


Salvador Massano Cardoso, no Quarta República, propõe que se retome a tradição católica da sexta feira sem carne por razões ambientais.
Independentemente da discussão que seja necessária em relação à necessidade de também reduzir o consumo de peixe, parece-me que vale a pena não deixar cair a proposta.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, julho 23, 2009

Ganhos de causa




Num comentário a este post, Francisco Ferreira diz, respondendo à minha pergunta:

A QUERCUS negoceia minimizações depois de considerar a autorização do projecto ilegal?
"Sim, se o entendimento do tribunal for diferente do da Quercus como foi em termos de providência cautelar e as obras possam prosseguir e se os ganhos em causa forem significativos."

Esta lógica parece-me a mim irmã da lógica que leva o actual Ministro do Ambiente a falar de sobre-compensação numa primeira fase, de ganhos de conservação numa segunda e de um novo modelo de financiamento para a conservação numa terceira quando fala de projectos com fortes impactos negativos na conservação (como Odelouca e o Sabor, por exemplo).
A ideia base é a de que já que o projecto se vai fazer, vamos tentar ganhar o máximo para o ambiente.
Em primeiro lugar isto é objectivamente uma lógica de extorsão do Estado aos promotores (eles próprios são por vezes o Estado) e é, do meu ponto de vista, ilegal.
A lógica das medidas compensatórias não é a de sacar o mais possível dos projectos para o ambiente, é a da compensação proporcional dos efeitos do projectos (havendo, com certeza, margem de discussão sobre até onde vai essa proporcionalidade).
Eu sei que a ideia base é popular, mas é profundamente perversa e sobretudo abre o flanco para processos muito pouco transparentes de troca de favores. E sei também que é uma lógica fortemente impulsionada pela Comissão Europeia para reduzir as queixas ambientais que recebe (na lógica de que se os promotores se entenderem com as ONGAs se reduzem as queixas e os processos).
Pegando no processo concreto da Costa Terra não deixo de ficar arrepiado com o que diz o Francisco no fim de elencar o número de coisas que se ganharam (e que discutirei já a seguir): "Manutenção da queixa junto da CE por não ter havido avaliação estratégica e não estar em vigor plano de gestão do sítio e até esta situação ser ultrapassada".
Estamos pois perante uma verdadeira negociação em que se discute a manutenção ou retirada das queixas feitas anteriormente pela QUERCUS em troco de vantagens ambientais dos projectos? O que tem isto de diferença conceptual dos processos de extorsão de donativos em troco de segurança dos estabelecimentos usados por outras organizações bem pouco recomendáveis? Não estou a fazer um paralelismo entre essas organizações e a QUERCUS, seria uma estupidez sem nome, estou apenas a procurar discutir o que é estruturalmente diferente para além do uso da violência física substituída aqui pela ameaça do Tribunal Europeu?
Pondo de parte este lado mais assustador deste tipo de processos, concentremo-nos no elenco dos ganhos de causa que justificam isto tudo, analisando um por um:

"a não construção na área de Rede Natura do sitio Comporta-Galé excepto perímetros urbanos"

Como se assegura isto? Evidentemente alterando os planos (mesmo assim a garantia é temporária porque os planos podem ser mudados). Uma vez arquivado o contencioso comunitário o que vai suceder se já antes foi aprovado (ou estava para ser, ou um dia será) um projecto de seiscentos hectares (penso eu) na herdade da Comporta. Mas sobretudo como vai ser possível explicar que por causa dos projectos já aprovados todos os outros proprietários são chamados a suportar os custos da sua execução sem nenhum proveito? Alguém acredita que qualquer que seja a administração, local ou central, essa injustiça primordial se vai manter? Não que eu defenda que todos os proprietários tenham os mesmo direitos de construção que os dos projectos aprovados, mas que não acredito em soluções que são intrinecamente injustas em que uns comem os figos e aos outros lhe rebenta a boca, ai isso não acredito seguramente. Ou seja, uma declaração de intenções razoavelmente inútil, até porque os promotores esfregam as mãos de satisfeitos porque se quebrou o vínculo de responsabilidade entre promotor e medida compensatória.

"carga máxima para Pinheiro da Cruz limitada ao nº presos+funcionários e área actual"

Esta faz-me lembrar um parecer que uma vez emiti em que condicionava a aprovação de uma pedreira à legalização da britadeira que ela continha, o que permitiu à entidade licenciadora aprovar a pedreira com o argumento de que em relação à pedreira o parecer era positivo e não era legalmente admissível condicionar a aprovação de um projecto a condicionantes impostas a outro completamente diferente. Quem garante isto? Onde está o vínculo jurídico que obrigue quem quer que seja a cumprir isto?

"redução de nº de camas ou área (CostaTerra a redução seria de 35 mil metros quadrados)"

Em quê e com que ganho ambiental?

"gestão activa de habitats para além das condições do EIA na forma de área protegida privada ainda em moldes a definir e integrando Pinheiro da Cruz para além de Pinheirinho e Comporta"

Isto é o que se chama uma charada. O que quer dizer para além das condições do EIA? O que trás a classificação de área protegida de novo? Essa classificação implica a posse dos terrenos, o que significa que só aplicável às propriedades dos promotores cuja gestão estava já fortemente condicionada pelas condições de aprovação, implicando gestão activa de áreas concretas e com objectivos concretos. O que se ganha com esta nova formulação para além da integração de Pinheiro da Cruz (que evidentemente ninguém pode garantir a não ser no processo de avaliação e aprovação de projectos que eventualmente venham a ser previstos para lá).

Ou seja, a QUERCUS mete-se por caminhos escusos de negociar queixas de processos que considera serem aprovados ilegalmente a troco de uma mão cheia de nada e outra cheia de vento.
Tendo na raiz disto tudo uma boa intenção profundamente perversa: a de que havendo ganhos de causa se justifica negociar opiniões.
Eu acho um caminho errado.
Tenho sobre aprovação destes processos uma opinião bem menos agressiva que a da QUERCUS como já expliquei em vários posts, e acho que globalmente, com as medidas de compensação adoptadas formalmente e vinculadas juridicamente, os seus efeitos na conservação são marginais, mas não é a substância da coisa que me preocupa mas sim a adopção de procedimentos pouco transparentes, pouco sustentados tecnicamente e pouco sustentados adminstrativamente.
Mais vale perder no tribunal e assumir com clareza que se perdeu que procurar pequenas sobras disfarçadas de ganhos de causa que pouco mais são que uma capa de respeitabilidade ambiental para processos que podem acabar muito mal.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, julho 22, 2009

Negociar a Costa Terra



Declaração de interesses: durante muito tempo acompanhei este processo e representei o ICNB em muitos dos seus passos processuais
aqui comentei a actuação da QUERCUS num aspecto concreto deste processo.
Ontem li no jornal que o tribunal tinha autorizado a retoma das obras na Costa Terra e ainda estas declarações:
"O vice-presidente da QUERCUS, Francisco Ferreira, reconheceu que a decisão judicial "constitui uma derrota", mas frisou que a providência cautelar "permitiu desencadear negociações com os promotores, a autarquia de Grândola e o Governo, no sentido de minimizar os impactos ambientais na região".
Talvez o jornalista não tenha traduzido bem a ideia mas se o fez fico perplexo:
A QUERCUS interpõe uma providência cautelar para desencadear negociações?
A QUERCUS negoceia minimizações depois de considerar a autorização do projecto ilegal?
A QUERCUS negoceia com os promotores e o Governo apesar de considerar que a ausência de soluções alternativas torna nula qualquer decisão?
A QUERCUS apresentou melhores e adicionais soluções que as previstas nas pesadíssimas condicionantes de execução do projecto ou trocou algumas condicionantes legalmente imperativas por acordos de cavalheiros desconhecidos?
Provavelmente não se passa nada e tudo isto não passa de equívoco (como o que dizer que se vai fazer uma área protegida privada como compensação, sem que ninguém perceba o que isso quer dizer) e ou o jornalista escreveu mal, ou o Francisco se expressou mal, ou eu li mal.
Provavelmente tudo isto é razoável e normal em Portugal.
E todos sabemos o que foi negociado e todos nos pudemos pronunciar sobre o conteúdo dessas negociações que talvez alterem o que resulta dos processos administrativos normais de decisão, que incluem longos períodos de discussão pública.
E todos concordamos que os processos judiciais são a forma ideal de desencadear negociações.
henrique pereira dos santos

terça-feira, julho 21, 2009

mais barato de bicicleta :)))

foto sacada daqui

A notícia é verdadeiramente deliciosa. Um bordel de Berlim está a oferecer um desconto de 5 euros a quem provar utilizar a bicicleta como meio de transporte!

Segundo o seu dono, «é bom para os negócios, é bom para o meio ambiente e é bom para as meninas». O que eu não duvido. O propritário confirma ainda que a promoção tem ajudado a aliviar o trânsito e o estacionamento em redor do bordel Maison d'Envie, assim como tem ajudado a empresa a conquistar novos clientes. «Nós temos cerca de três a cinco novos clientes que chegam diariamente para aproveitar o desconto».

Cá está uma simpática ideia para alargar a outros negócios :)))

Gonçalo Rosa

segunda-feira, julho 20, 2009

Carros eléctricos


"Primeiros cinco mil carros eléctricos terão cinco mil euros de incentivo cada"

Esta foi a promessa de hoje de Sócrates. Não pretendo discutir se é boa ou má mas simplesmente perguntar se alguém que saiba suficientemente do assunto me pode explicar se do ponto de vista ambiental faz sentido ter muitos ou poucos carros eléctricos.
Do ponto de vista do ambiente micro, isto é, da qualidade do ar e do ruído nas cidades, sem dúvida.
Mas do ponto de vista global?
O que significa o ciclo de vida destas baterias? O que significa aumentar a percentagem dessa forma nobre de energia que é a electricidade? O que significa de pressão para novos centros de produção eléctrica (barragens, eólicos, térmicas, nuclear?).
Conheço pessoas que querem ter um carro eléctrico porque produzem a sua própria electricidade e isso permitiria melhorar a sua perfomance do ponto de vista da pegada carbónica.
Mas não será isso que estará em causa com a generalização dos carros eléctricos assente numa rede de abastecimento pública que será, penso eu, inveitavelmente alimentada pelos grandes centros de produção.
Confesso que não percebo nada disto mas gostava de ouvir opiniões descomprometidas sobre o assunto.
E insisto, estritamente do ponto de vista ambiental (que do ponto de vista global de sustentabilidade, que inclui as vertentes económicas e sociais a medida é desastrosa. Basta ter em atenção que o incentivo do Estado, que resulta também do dinheiro dos pobres, vai ser aplicado a apoiar quem pode comprar carros acima dos 20000 euros, em vez de ser aplicado em sistemas mais eficientes de transportes públicos).
henrique pereira dos santos
Adenda: encontrei este link, pode ser que ajude. Colocarei outros se os encontrar e com pontos de vista diferentes e que me pareçam minimamente crediveis (sim, numa base de opinião pessoal, não tenho outra base). Para além do comentário do Francisco que está na respectiva caixa.

Silly em qualquer estação


Em verdade se diga que o mais silly é mesmo o jornalista que faz estes três parágrafos (salva-se o último que dá alguma esperança de que o discurso ecológico sobre os fogos se vá alterando à medida que a realidade se impõe ao preconceito).

henrique pereira dos santos

"QUERCUS SUSPEITA DE INTERESSES IMOBILIÁRIOS
A Quercus suspeita de que haja interesses imobiliários por detrás do incêndio que destruiu mais de cem hectares de floresta na Herdade da Apostiça, em Sesimbra. "Sabemos que as zonas ainda verdes de Seixal e Almada são muito apetecidas e há muitos anos que existem interesses de urbanização na zona ardida", diz ao CM Carla Graça, presidente do núcleo de Setúbal da associação ambientalista, frisando não poder "apontar nada de específico". De qualquer forma, o CM sabe que a PJ de Setúbal está atenta aos fogos na Margem Sul.
Recorde-se que em 2003, quando Isaltino Morais era ministro das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente, esteve para nascer na Mata de Sesimbra um megaprojecto imobiliário de 5200 hectares. O projecto da Pelicano previa investimentos de 800 milhões de euros em vários aldeamentos turísticos com capacidade para trinta mil pessoas. Foi o actual Governo que em 2007 chumbou o plano.
Quanto ao impacto ecológico do incêndio, a dirigente da Quercus desdramatiza. "Os incêndios fazem parte do clima mediterrânico e a vegetação regenera-se. Não é um desastre ecológico, mas coloca questões ao nível da gestão florestal", diz, apontando "problemas clássicos" como "perímetros urbanos mal definidos, com o mato a entrar em casas das pessoas"."

Outra vez a mesma boa ideia

O Henk Feith e a família tiveram uma boa ideia: partilhar com quem queira a construção da sua casa com grandes preocupações de sustentabilidade.
Não demora muito e vale a pena dar um salto aqui.
henrique pereira dos santos

sábado, julho 18, 2009

Meus caros colegas biólogos de conservação, interessados na vida dos morcegos



Por razões que não vêm ao caso descobri este texto antigo que escrevi no quadro de uma discussão com colegas meus sobre impactos de projectos nos morcegos. É um texto irónico e deliberadamente provocatório depois do último argumento anterior a ser invocado por um dos meus colegas ter sido a minha ignorância que me impedia de compreender algumas coisas mais ou menos básicas na dinâmica das espécies.
Ao relê-lo achei que dava um post, não mais que isso, um post.
(em verdade, em verdade vos digo, estou cada vez mais convencido de que o que realmente fascina os biólogos da conservação é a morte, a perda e o desaparecimento de que estão sempre a falar e não a vida que precede a morte “que é de todos e virá” (Jorge de Sena). O meu conselho é de que quando ligarem os computadores comecem logo por se concentrar na música que estou a ouvir:
“Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece que ela regresse, porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade, a realidade é que sem ela não há paz
Não há beleza, é só tristeza e a melancolia que não sai de mim,
Não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar, do que os beijinhos que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim, Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é prá acabar com esse negócio de viver longe de mim”
Porque vos faria bem ter uma visão da conservação apesar de tudo feliz por estar centrada no que está para além da possibilidade ou inevitabilidade da perda.)
Acabando este prólogo (e não é ele que me faz escrever-vos sendo evidentemente uma brincadeira assente numa generalização abusiva da tristeza intrínseca à condição de biólogo de conservação), vamos então ao assunto que aqui me trouxe.
Após várias horas de concentração no espaço confinado do habitáculo de um carro, como aliás já tinha acontecido com o povo do Lobo noutra viagem a Montemuro (“a mais desconhecida serra de Portugal” dizia o Amorim Girão), a quantidade de informação trocada é incomparavelmente maior (mas mais imprecisa) que em meses de trabalho conjunto no ICN. E como eu funciono como a polícia americana (tudo o que me disserem sobre conservação pode ser usado contra as vossas ideias de conservação), retive um aspecto que, se percebi bem, me parece relevante do ponto de vista da conservação dos morcegos:
com frequência quando, por razões fortuitas, aparecem abrigos artificiais eles são colonizados por morcegos. É caso da torre de Tróia, é o caso do buraco na barragem Alqueva, é o caso das minas abandonadas, das casas abandonadas, etc. (ou as sondagens geológcas do Sabor, acrescento eu hoje)
Ora do meu ponto de vista, tendo o cuidado de saber que este processo não será, com certeza, extensível a todas as espécies, este aspecto poderia ter uma papel bem mais relevante numa estratégia activa de conservação dos morcegos deixando de ser encarado apenas no quadro das medidas compensatórias para a destruição de abrigos conhecidos, mas como uma linha de acção e pensamento consistente e consciente de diminuição dos riscos de destruição dos abrigos actualmente existentes, sobretudo os considerados mais importantes e críticos.
Na realidade é possível que alguns dos abrigos mais importantes o sejam não só porque têm boas condições, mas também por falta de alternativas para os bichos.
Isto é válido para as espécies cavernículas mas também para as fissurículas. Admito (começando por admitir que não percebo nada da biologia das espécies o que significa que estou a meter a foice em seara alheia) que o exemplo de Tróia seja a demonstração de que as espécies fissurículas (consideradas de maneira geral raras e com populações mais ou menos descontínuas) estão muito menos ameaçadas do que supúnhamos.
Há já vários anos que venho tentando vender o meu peixe afirmando, sempre que posso, que estou convencido de que muitas espécies que consideramos ameaçadas por terem populações pequenas, de baixa densidade e descontínuas estão na realidade a reflectir a raridade e descontinuidade natural dos habitats de que dependem, tendo pois desenvolvido mecanismos de adaptação para prevalecer nessas circunstâncias. E para estas espécies só a informação da dinâmica populacional pode ser critério de atribuição do estatuto de ameaça e não a caracterização da população existente, naturalmente rara, esparsa, descontínua e de distribuição limitada.
Ora as fissuras (tal como as cavidades) tenderão a ser relativamente raras e descontínuas na natureza (que tem horror ao vazio) e por isso constituirão um factor limitante do crescimento das populações fissurículas muito mais relevante que qualquer outro e logo que, como aconteceu em Tróia, disponibilizamos fissuras em quantidade e qualidade, criamos as condições para ter uma notável população.
O que significa que as populações “naturais” têm uma grande capacidade de expansão, no caso de encontrarem as condições de abrigo para isso, o que convenhamos que é um sintoma de vitalidade e não de ameaça.
E se assim for, o corolário do que afirmei é o de que todas as espécies que têm vindo a colonizar novos abrigos (considerando novos, todos os que artificialmente foram criados nos últimos cinquenta anos, como a grande maioria das minas) dificilmente poderão ser consideradas ameaçadas e o essencial da política de conservação que as tem como objecto deveria concentrar-se sobretudo na gestão da disponibilidade de abrigo.
Claro que nalgumas circunstâncias todos estaremos de acordo que outros factores serão mais relevantes que a disponibilidade de abrigo, como será o caso do Maciço Calcáreo Estremenho onde há uma enorme oferta de abrigo e se dever, por isso, trabalhar a hipótese da capacidade de suporte do território para as espécies cavernícolas presentes estar limitada por outros factores. Mas convenhamos que essas são situações particulares, já que se todo o território fosse como o Maciço Calcáreo Estremenho ninguém falaria, em termos gerais, de elevados graus de ameaça dos morcegos cavernícolas mas sim de espécies concretas que poderão estar fora desta lógica e sobre as quais, provavelmente, teremos de desenvolver estratégias específicas de conservação.
Ora o que gostaria não era que me dissessem, mais uma vez, que eu tenho umas ideias estranhas sobre conservação, o que eu dou de barato, mas onde é que o meu raciocínio está errado ou onde é que os dados existentes o contrariam.
E é por isso que vos escrevo, meus caros colegas biólogos de conservação, sempre com “a angústia do guarda redes antes do penalty”, que vos dificulta a visão de uma natureza em profunda (e arriscada) mutação, mas cheia de oportunidades de possibilidades para sermos nós, às vezes, a marcar o penalty.

henrique pereira dos santos

sexta-feira, julho 17, 2009

e porque não?

algumas das mais de 150 reservas privadas do Royal Society for Protection of Birds (Inglaterra)
(imagem sacada do site do RSPB
via Google Earth)
(clicar no mapa para ampliar)

O Estado tem gerido de forma danosa as áreas protegidas? Sim. Ninguém no BE, acho eu, defenderia o contrário. Mas como pode acreditar que uma empresa, com fins lucrativos, pode fazer melhor? Alguém acredita que quem opera hotéis, campos de golfe, shoppings, etc., está minimamente preocupado com a conservação da natureza? Claro que não. Então porque havemos de abrir as áreas protegidas a estes privados?
Pode-me responder, uma vez mais, que o Estado também não tem demonstrado grande empenho pela conservação da natureza. Mas há uma diferença fundamental: é que o governo é eleito por nós e é a nós, cidadãos, que deve obedecer. Se achamos que as áreas protegidas estão a ser mal geridas, temos o direito de exigir, enquanto cidadãos, que a situação melhore. Já não temos o direito de exigir que uma empresa faça o que queremos. Uma empresa obedece apenas aos interesses do lucro.


Este texto foi parte de um comentário que um militante do Bloco de Esquerda que faz parte da sua Comissão de Ambiente fez, em resposta a um post que, há alguns dias atrás, aqui publiquei - Programa de Governo do Bloco de Esquerda.

Em boa verdade, falava eu da falta de sentido de ser o Estado a prestar serviços na área do Turismo de Natureza, tendo aquela resposta sido ao lado, por questionar a privatização da gestão das áreas protegidas. E ainda bem, pois funcionou como lembrete para escrever este post, há quase tanto tempo pensado quanto adiado. É que em boa medida, o trecho acima publicado salienta grande parte dos medos de muitos dos que, ao longo dos anos, fui ouvindo, acerca da contratualização da gestão privada de áreas protegidas. Fará sentido pensar na gestão privada de áreas protegidas da actual rede nacional?

O autor daquele comentário bipolariza a discussão em Estado e empresas como se outras formas de organização social não existissem. É que há sectores da nossa sociedade tão obcecados com as supostas más intenções das empresas, com os enormes lucros que algumas teem e com o "grande capital", que infectam, à partida, esta e outras discussões. As ONGAs e as fundações foram literalmente retiradas da discussão, entendendo eu que são entidades que, por excelência, poderiam prestar aquele serviço à sociedade. De resto, a gestão privada de uma área protegida com objectivos estratégicos devidamente protocolados com o Estado seria óptima oportunidade para, por exemplo, as ONGAs mostrarem ao Estado "como se faz".

Acontece que, por princípio, também não vejo porque é que a contratualização da gestão de áreas protegidas não pode ser interessante, sobre o ponto de vista da conservação da natureza, quando realizado com empresas.

Não se trata do Estado passar a empreitada a terceiros a troco de algum apoio financeiro e borrifar-se no assunto. Trata-se de protocolar com objectivos claros - como o Estado, grosso modo, não tem - e de verificar o seu posterior cumprimento. A possibilidade de obtenção de lucro - nomeadamente, através de actividades de turismo de natureza - deve estar intimamente ligado ao cumprimento de objectivos de conservação da natureza, sendo sempre possível revogar um contrato por incumprimento unilateral ou, puro e simplesmente, não o renovar. E é precisamente esta tónica, de ligação do cumprimento de objectivos de conservação da natureza ao lucro, a chave do sucesso de uma eventual privatização da gestão de áreas protegidas. Neste contexto, o Estado poderia assumir exclusivamente um papel de controlo do cumprimento dos pressupostos do contrato, mantendo apenas algumas funções administrativas.

O autor, com responsabilidades na Comissão de Ambiente do BE, afirma que "o Estado tem gerido de forma danosa [termo que me parece claramente excessivo] as áreas protegidas? Sim. Ninguém no BE, acho eu, defenderia o contrário", mas quer no seu comentário e, muito mais grave que isso, quer no programa do BE,não existem propostas concretas e, na prática, executáveis, para inverter a actual situação. O que é uma pena e bem demonstrativo der um problema de amplos sectores da nossa sociedade, alguns partidos políticos incluídos, muito mais eficazes a apontar problemas genéricos do que a formular soluções.

Ter uma visão de que existem duas posições extremas, por uma lado ambientalistas e Estado, angélicos e puros nas suas intenções pela conservação da natureza e, por outro, empresários vorazes, ávidos e cegos pelo lucro, é ter uma visão muito pobre do mundo. E importa-me muito pouco a suposta pureza dos estímulos e objectivos pessoais de cada um de nós, de cada entidade. Interessa-me muito mais se a conservação da natureza pode ou não ganhar com isso. E fazer coincidir objectivos da conservação da natureza com pessoais e organizacionais é a forma mais eficaz e inteligente de conservar o que quer que seja.

Gonçalo Rosa
ambientalista e empresário

Metodologias quantitativas para conservação da biodiversidade

Para os interessados nestas coisas aqui fica a publicidade: um livro recentemente publicado e que resume o "state of the art" na ciência do "systematic conservation planning" ou "spatial conservation prioritization (terminologia mais recente). Para quem trabalhar profissionalmente em planificação do território com vista à conservação é uma leitura obrigatória, assim como será para estudantes universitários de 2 e 3 ciclo na área da biologia da conservação.

Sou autor de um dos capítulos que versa sobre alterações globais e áreas para conservação. Fica aqui um em excerto da introdução do capítulo:

"In this chapter, I discuss some of the challenges to spatial conservation planning (...). A focus on climate change is given, but the issues raised and the methodologies proposed could be extended and applied to any type of environmental change. I examine existing approaches for forecasting climate change impacts on species distributions, and assess the relative merits of conventional spatial planning methodologies to identify conservation areas that will conserve species under changing climate conditions. It is argued that progress in conservation planning requires a reassessment of conventional views on persistence, namely that local extinctions and colonisations are best characterized by metapopulations in a quasi-equilibrium state. A range of spatial conservation planning methodologies that could be implemented to help mitigate the impacts of climate change on species is also discussed. Finally, a summary of the main issues discussed in the chapter is provided. The need for a greater emphasis on interdisciplinary research in spatial conservation prioritization is stressed."

Mais informação sobre o livro pode ser encontrada aqui.
Declaração de interesses: Infelizmente não ganho qualquer comissão pela venda deste livro pelo que esta publicidade não tem como propósito o benefício financeiro pessoal.

quinta-feira, julho 16, 2009

O Estado, a informação e a biodiversidade


Mantive uma conversa de surdos com o Miguel Araújo em posts e comentários anteriores já que eu estava a pretender discutir o que devo e posso fazer eu agora no que diz respeito à produção e sistematização da informação sobre biodiversidade e o Miguel pretendia discutir o que o Estado deve fazer.
A razão pela qual não quis seguir o Miguel no caminho a dar à discussão é simplesmente porque me parece razoavelmente estéril discutir o que terceiros devem fazer, onde provavelmente estaremos todos mais ou menos de acordo.
Mas porque sistematicamente nessa conversa senti que a minha posição não estava a ser correctamente explicitada no que diz respeito à responsabilização do Estado resolvi fazer este post sobre o que penso ser a sua responsabilidade na produção e gestão de informação sobre biodiversidade.
A política de conservação da natureza é política necessariamente pública e suportada em recursos públicos. Do meu ponto de vista deveria fazer parte das funções básicas do Estado, como a diplomacia, as forças armadas ou a segurança pública.
A política de conservação da natureza é uma política de conhecimento intensivo.
Resulta destas duas afirmações que evidentemente reconheço a responsabilidade do Estado na produção e sistematização da informação de biodiversidade.
Tornado isto claro vejamos um detalhe que inquina a discussão.
Há uma manifesta confusão entre as responsabilidades do Estado e as responsabilidades do ICNB. Quase sempre os produtores profissionais de informação de biodiversidade, nas sua larguíssima maioria pagos pelo erário público, descartam as responsabilidades próprias (enquanto agentes do Estado, não estou ainda a falar nas suas responsabilidades privadas e de cidadania), descartam as responsabilidades da academia, dominantemente pública neste sector, descartam as responsabilidades da FCT (ou de quem a substitua na gestão da política científica), descartam as responsabilidades dos museus com componentes de história natural e dos jardins botânicos, descartam as responsabilidades do fisco no tratamento dos assuntos de biodiversidade, descartam as responsabilidades do Ministério da Agricultura na gestão dos dinheiros para o mundo rural, nos quais se incluam grandes valores para a produção de informação descartam as responsabilidades das autoridades de tutela do ordenamento do território e do planeamento e por aí fora, concentrando-se na crítica fácil ao ICNB como responsável pela ausência de informação de biodiversidade no País.
Do meu ponto de vista, e dizendo desde já que o ICNB tem com certeza responsabilidades e muitas, podendo com os mesmos recursos fazer muito melhor, esta desresponsabilização do Estado no seu todo e hiperresponsabilização do ICNB serve a todos menos ao ICNB e esquece um princípio fundamental: nunca se deve esperar de uma pessoa (neste caso, de uma instituição) aquilo que ela não pode dar.
E nunca será expectável que o ICNB possa responsabilizar-se por tudo o que é preciso que o Estado faça nesta matéria. Daqui resulta que não existe pressão para resolver o problema onde deveria e existe uma pressão de tal forma impossível de satisfazer sobre o ICNB que se torna completamente ineficaz.
A política de conservação é uma política transversal e não pode ser remetida para uma instituição que é um mero executor de opções políticas de terceiros com legitimidade para fazer opções políticas. O ICNB não é um produtor de políticas.
Enquanto o Estado falhar nesta matéria é o primeiro ministro e a assembeia da república que falham, não é, no essencial, o ICNB.
Apenas para dar um exemplo que todos os que trabalham na matéria conhecem de certeza por já terem sido confrontados com ele: em Portugal a informação é informalmente reconhecida como propriedade do investigador que a produz, que a esconde, escamoteia ou vende se quiser (e muitas vezes não quer, é certo).
Ora para mim é de meridiana clareza a ideia de que a informação produzida com dinheiros públicos é pública, sem mais nada, nem sequer pedidos de autorização para a usar, que a identificação da sua origem.
Quase toda a informação estruturada que é produzida em matéria de biodiversidade é-o com recurso, total ou parcial, a dinheiros públicos, mas simplesmente isso não a torna imediatamente acessível ao público.
É isto uma matéria que caiba ao ICNB resolver? Claro que não (há uma pequena parte que lhe cabe resolver, mas é quase marginal).
Resumindo, estou inteiramente de acordo que o Estado deveria criar um sistema central, aberto e participado de registo de dados biológicos, dou de barato que poderia ser o SIPNAT, mas isso implica uma orientação política forte no Governo que implique todo o Estado e não apenas o ICNB.
Talvez valha a pena lembrar aqui, como exemplo das opções políticas do actual Governo, que no novo regime jurídico da conservação não há quase nada de concreto sobre o financiamento da política de conservação e o pouco que há ou é vago ou está ao nível da inacreditável opção de considerar as medidas compensatórias que projectos que têm efeitos negativos na biodiversidade como uma fonte de financiamento da política de conservação.
Resumindo, este Governo está-se nas tintas para a conservação, não porque parte dos seus membros não achem isso importante, mas porque o primeiro ministro tem um forte partis-pris contra a conservação.
Mas nada na discussão política que vai havendo indica que isso se altere com outro Governo qualquer pela simples razão de que a discussão política sobre conservação, quando existe e tem peso político, pouco mais além vai que a discussão sobre o ICNB e coisas que tal.
Isto é o que penso e, consequentemente, pergunto-me o que se pode fazer em concreto pela produção e sistematização de informação?
Uma coisa é continuar, como nos últimos trinta anos, à espera que a pressão política dê resultados palpáveis, discutindo modelos, o que está escrito nos diplomas legais sobre competências e responsabilidades, as pessoas certas e erradas nos lugares do Estado e essa cangalhada toda que todos vamos fazendo. E muito bem, também dou para esse peditório de exigir aos outros.
Outra, que em Portugal sistematicamente se desvaloriza, é esquecer o que não posso fazer porque o Estado é incompetente, malandro, ignorante e essas coisas todas, e concentrar-me no que posso fazer autonomamente, à semelhança do que se faz pelo mundo fora.
Claro que esta segunda coisa não resolve o assunto nem nunca vai criar os sistema de registo de dados biológicos de que o País precisa.
Mas, meanwhile, provavelmente estaremos um bocadinho melhor com o que faremos a partir dos recursos que é possível mobilizar fora do Estado.
E de caminho faremos com certeza uma pressão mais eficaz sobre o Estado ao demonstrar o que se pode fazer quando se quer.
É isto desresponsabilizar o Estado?
Eu acho que não.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, julho 15, 2009

diz que é uma espécie de justiça



Infelizmente, não foi por falta de oportunidades que ainda não havia repescado este "tesourinho muito deprimente", mas a condenação de Fernando Ruas, Presidente da Câmara Municipal de Viseu e da Associação Nacional de Municípios Portugueses, por ter incitado correr à pedrada funcionários do Estado em pleno exercício das suas funções, pareceu-me excelente razão para reviver este pequeno vídeo.

Há políticos que não parecem ter quaisquer problemas em chamar os outros de parvos, para, quando entre a espada e a parede, cobardemente, desmentirem o óbvio. Brincam com a Lei e gozam com a Justiça, pontas-de-lança do chico-espertismo nacional. E a malta aplaude. Aplaude à saída do tribunal com o ar desafiante com que enfrentam o Estado de Direito. Em último caso, está até disposta a fazer uma “vaquinha” para uma qualquer multa nem doer, e pagar tudo em moedinhas pretas de um cêntimo para achincalhar quem condena. Premeia este estilo de camisa aberta, língua afiada, peito às balas, seja lá de quem fôr, seja lá de onde vier. Borrifa-se para os meios, e dispõe-se a trocar torradeiras, micro-ondas e "desenvolvimento" em betão armado por votos. Muitos votos. E vota massivamente nestes personagens que, afinal, mais não são do que herois, mais ou menos locais, emergidos do meio da populaça, sangue do seu sangue, feitos, em certa medida, por aqueles que de alguma forma os contestam. E eles, que tantas vezes procuram nas urnas legitimar o que os tribunais condenam, agradecem.

A verdadeira mudança está na educação e nas mentalidades. Não nas leis, nem na Justiça.

Gonçalo Rosa

Qualidade dos dados Portugueses de biodiversidade


Não vou repetir os argumentos expostos nos comentários a este post mas gostaria apenas de ilustrar o que digo com um mapa que produzimos no meu laboratório há pouco tempo. O que vêm é a conjugação dos dados de distribuição de mamíferos existentes nas bases de dados (Estatais) Portuguesas e Espanholas. As cores reflectem diversidade biológica de mamíferos. Podem ser feitas duas interpretações: 1) a diversidade é maior em Espanha que Portugal; 2) a ausência de diversidade em Portugal reflecte a ausência de dados. Esta última interpretação é a correcta.

A discussão sobre quem tem de recolher os dados é mais ou menos inútil porque a questão de fundo é que para tomar decisões em matéria de conservação, é necessário ter dados sobre os objectos que se pretendem conservar e tanto a obtenção de dados como o processo de decisão em matéria de conservação se encontram claramente definidos:

"O Instituto [ICNB] prossegue atribuições do Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional, sob superintendência e tutela do respectivo ministro. São suas atribuições:

a ) Exercer as funções de autoridade nacional para a conservação da natureza e da biodiversidade;

b ) Assegurar a preservação da conservação da natureza e da biodiversidade e a gestão sustentável de espécies e habitats naturais da flora e da fauna selvagens, promovendo a elaboração e implementação de planos, programas e acções, nomeadamente nos domínios da inventariação, da monitorização, da fiscalização e dos sistemas de informação;

(...)"

Também poderia produzir um mapa equivalente para invertebrados mas a humilhação para Portugal seria ainda maior.

Este blog é uma porcaria


Pelo menos é o que penso em alguns dias menos solares.
Mas quando verifico que um curto post com um título de porcaria como este acaba por ter bastante informação, nos seus comentários e continua a motivar mais informação, sobre grupos de espécies tão mal-amadas tenho mesmo de concordar que não tenho jeito para títulos mas o blog vale a pena.
Obrigado Pedro Cardoso, Henriques, José Carlos Carvalho, Pedro Gomes, Israel Silva e nos comentários a outros posts subsequentes, Eduardo Marabuto por demonstrarem que sempre é possível falar de invertebrados para os não iniciados que foram também comentando e ser ouvido.
henrique pereira dos santos
PS Os bichos acima devem ser brasileiros mas é que procurando imagens de Buprestídeos não aparece uma única referência que não seja de sites brasileiros. Porque será?

A pedrada e a responsabilidade política


Num país em que a responsabilidade democrática fosse levada a sério o problema de Fernando Ruas não seria um julgamento mas a assunção da sua responsabilidade política.
A notícia, já antiga, que reproduzo abaixo é um triste retrato de um país que num dia demite um ministro por causa de uns cornos e noutro acha que a incitação à violência contra os agentes do Estado tendo por base a resistência de responsáveis políticos ao cumprimento da lei (com sentido figurado ou não do que foi dito é este incitamento à resistência no cumprimento da lei que é o mais grave de tudo) é uma coisa que não vale mais que 2000 euros.
Num país em que a responsabilidade política fosse o contrário do passa culpas e das desculpas de mau pagador, Fernando Ruas teria pedido a demissão quando se apercebeu do que disse.
E que é inequivocamente grave, diga o julgamento o que disser sobre a sua gravidade jurídica.
O problema é político antes de ser jurídico.
O problema é o do Estado e da Lei.
Fernando Ruas demonstrou a maior falta de respeito pela Lei e pelo Estado.
O que é inaceitável num responsável político.
henrique pereira dos santos

Ruas arrependido por sugerir correr fiscais "à pedrada"
14 Maio 2009
O presidente da Câmara de Viseu, Fernando Ruas, admitiu em tribunal que "se fosse hoje teria utilizado outra expressão" para demonstrar "o seu desagrado" para com os fiscais do ambiente, reafirmando que usou a frase em sentido figurado.
Na primeira sessão de julgamento, que decorreu durante a manhã de hoje, no Tribunal de Viseu, Fernando Ruas alegou que "se soubesse que esta expressão era vista com tanta gravidade, teria utilizado outra".
Fernando Ruas está acusado de instigação pública ao crime, por declarações feitas na Assembleia Municipal de 26 de Junho de 2006, onde afirmou que a população devia "correr à pedrada" os fiscais do Ministério do Ambiente.
A polémica frase - que fez com que o Ministério Público de Viseu movesse uma acusação - surgiu após o presidente da Junta de Freguesia de Silgueiros, António Carlos Coelho (PSD), ter voltado a acusar os vigilantes da natureza de "excesso de zelo" nuns casos e de não darem tratamento às situações realmente importantes.
Sentado pela primeira vez no Tribunal de Viseu enquanto arguido, Fernando Ruas disse que "se fosse hoje, teria demonstrado na mesma seu desagrado, embora com outras palavras. Os aborrecimentos que isto trouxe, não são agradáveis".
"Podia ter dito, dêem-lhes uma malha, não seria tão grave", sustentou, reafirmando que a polémica frase foi proferida "em sentido figurado" e "num fórum (Assembleia Municipal) onde as discussões são sempre acaloradas".
Admitiu que o deputado do PS na Assembleia Municipal, Ribeiro Carvalho, lhe fez um reparo à expressão proferida" e que ainda nessa reunião ficou esclarecido que o fez "em sentido figurado". O também presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses sublinhou que "teria sido mais cómodo ter aceite a proposta de fazer um pagamento a uma instituição e ainda um esclarecimento público".
No entanto, defende que não o fez porque "isso seria confessar a culpa", que acha que não tem.
Fernando Ruas esclareceu ainda que no final das reuniões da Assembleia Municipal, é normal ser abordado para falar de assuntos mais quentes, mas "este não se colocou".
"O assunto nem veio publicado na comunicação social no dia seguinte. Veio mais tarde a público por um jornalista que nem esteve presente na Assembleia Municipal", sustentou, frisando que era "incapaz de incitar alguém à violência".
Durante a manhã de hoje foram ouvidos o presidente da Junta de Freguesia de Silgueiros, António Carlos Coelho, e o deputado do PS, Ribeiro Carvalho, que o Ministério Público arrolou como testemunhas.
O autarca de Silgueiros sustentou que entendeu as expressões de Fernando Ruas como sendo "um alerta", sublinhando ao facto de este ter "um discurso muito particular".
"Só nessa reunião (o presidente da Câmara de Viseu) utilizou por 11 vezes a ironia e por 18 vezes o recurso a frases feitas", acrescentou.
O deputado do PS, Ribeiro Carvalho, considerou que as palavras do autarca de Viseu foram "despropositadas" e "um excesso de linguagem".
"Faz parte da luta política e na luta política o alvo nem sempre é para onde se atira a seta, às vezes é um bocadinho mais ao lado", referiu, explicando que Fernando Ruas "atirou a seta aos fiscais, embora fosse mais para quem os dirige".
Foi também ouvido, por vídeo-conferência, José Apolinário, presidente da Câmara de Faro (PS), que sublinhou "a forma de ser cordial de Fernando Ruas" e deu ainda como exemplo "uma frase muito usada no Algarve, que é a do atira-te ao mar", que no seu entender tem um significado semelhante ao da expressão polémica.
A última testemunha ouvida durante a manhã foi Artur Trindade, secretário-geral da ANMP, que sublinhou que Fernando Ruas "tem por hábito utilizar muitas expressões do tipo, em sentido figurado, pela sua origem Beirã".
A sessão de julgamento retoma por volta das 14:30.
CMM.
Lusa

terça-feira, julho 14, 2009

pêssegos, preconceito e sugestibilidade


pequenos pêssegos marroquinos em comparação
com um típico pêssego made in Portugal


Há um par de dias atrás, encontrei uma pequena caixa com uns pêssegos bizarros - pequenos e de forma muito achatada - no expositor de um supermercado alentejano. Como gosto de experimentar novos sabores, comprei uma dúzia dos ditos pêssegos, com aroma mais do que aprovado à primeira. Levei-os para o fim-de-semana na praia constatando que a dúzia e meia dos pequenos pêssegos não durariam nem o sábado (sabem como é, o calor, os perigos da desidratação e os gulosos pêssegos eram efectivamente pequenos... e bons :)

De regresso, decidi passar pelo supermercado e comprar o resto de caixa. O preço era bastante aceitável (apenas 0.99€ por kg) e, para além de um inusitado consumo de pêssegos que antevia fazer cá por casa (e que, ao que parece, não me enganei), pretendia oferecer uma parte a alguns amigos. Na viagem, pensei, no entanto, "rentabilizar" o investimento e fazer uma pequena experiência contado com os meus amigos - de quem eu espero um complacente perdão - como cobaias.

Assim, ofereci os pêssegos a 9 amigos e incentivei-os a provarem-nos de imediato. Note-se que quase todos são biólogos ou ligados à área da conservação da natureza. Todos exaltaram o seu doce aroma, mas a 5, mesmo antes de os provarem, informei-os que eram geneticamente modificados. Invariavelmente, quiseram devolver os pêssegos, alguns deles soltando comentários pouco elogiosos como "que horror!" e coisas que tais. Os restantes 4, que provaram os pequenos frutos antes de serem informados, elogiaram o seu sabor e textura, a forma fácil como saía a casca, o tamanho diminuto do seu caroço. No entanto, quando informados que se tratavam de pêssegos geneticamente modificados, relativizaram com uma rapidez surpreendente todas aquelas qualidades há minutos discriminadas. O sabor, afinal, passara a ser fantástico para incaracterístico, e as demais qualidades deixaram de o ser, posto que, afinal, nem se importavam com o tamanho dos caroços, da textura mais fibrosa ou de comer a casca dos pêssegos ditos normais.

Na verdade, aqueles pequenos pêssegos foram produzidos do centro de Marrocos e não eram OGMs ou, pelo menos, nada disso indicava a etiqueta que vinha na caixa.

É fascinante de como o preconceito e o sugestibilidade (neste caso, OGM = mau) pode, per si, influenciar toda uma opinião. E de como, a este respeito, nos devemos vigiar, sob pena de , por exemplo, liquidarmos à partida qualquer discussão em que nos envolvemos. Pelo menos no que eu entendo ser uma discussão, que é coisa bem diferente de uma missa ou de uma conversa de surdos.

Gonçalo Rosa

PS - realço que este post não é sobre OGMs, assunto sobre o qual sou um vulgar ignorante, mas sobre preconceito e sugestionamento... e pêssegos, claro :)

Corram-nos à pedrada

A notícia abaixo foi retirada do Público e é meio doce meio amarga para mim.
Meio doce porque Fernando Ruas foi condenado, meio amarga porque a condenação é pouco mais que simbólica para um acto que, para além revelar o paupérrimo nível das elites em Portugal, é gravíssimo.
Um dirigente público eleito, que é simultaneamente o Presidente da Associação Nacional de Municípios, no exercício das suas funções não só dá cobertura ao não cumprimento da lei como ainda apela à violência sobre os agentes do Estado que apenas cumprem a sua obrigação de fiscalizar o seu cumprimento e tudo se resolve com uma ninharia de 2000 euros e não se fala mais nisso.
Na altura procurei mobilizar meia dúzia de pessoas para entrar com uma acção popular contra o senhor mas não consegui. E eu não tenho dinheiro para entrar por aí sozinho.
Espero que as agora as mesmas ONGs que boicotaram o fundo EDP de biodiversidade boicotem os financiamentos autárquicos até a Associação Nacional de Municípios se demarcar claramente desta atitude lamentável (tanto mais que vários presidentes de Junta estão a organizar uma coleta para pagarem a multa). Ou será que isto é menos grave que a campanha da EDP?
henrique pereira dos santos

"Autarca de Viseu sentenciado dois mil euros de multa
Fernando Ruas condenado por ter incitado a "correr à pedrada" vigilantes da natureza
13.07.2009 - 15h39 Lusa
O presidente da Câmara de Viseu e presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), Fernando Ruas, foi hoje condenado a 100 dias de multa, à taxa diária de 20 euros, por ter incitado a "correr à pedrada" os vigilantes da natureza.Ruas foi, assim, condenado a um total de dois mil euros de multa, uma decisão da qual o seu advogado, Marçal Antunes, prometeu recorrer.Hoje, na leitura da sentença, Fernando Ruas não esteve presente por ter sido dispensado devido a um compromisso no Brasil em representação da ANMP. Na sessão anterior, o Ministério Público havia pedido a condenação do autarca a uma pena de multa não inferior a 120 dias. No julgamento estiveram em causa declarações feitas na Assembleia Municipal de 26 de Junho de 2006, onde o presidente da Junta de Freguesia de Silgueiros fez queixas dos vigilantes da natureza, o que levou Fernando Ruas a afirmar: "Arranjem lá um grupo e corram-nos à pedrada. A sério, nós queremos gente que nos ajude e não que obstaculize o desenvolvimento. Estou a medir muito bem o que estou a dizer". No mesmo dia, perante a intervenção de um deputado do PS, que disse a Fernando Ruas ser "grave" o que estava a afirmar, este justificou que falava em "sentido figurado", como se pôde ouvir na gravação áudio daquela reunião levada a tribunal. No entanto, o procurador da República disse nas alegações finais que nunca foi explicado o sentido real da expressão "corram-nos à pedrada"."

domingo, julho 12, 2009

A burocracia da ciência


O post sobre os invertebrados e o fogo suscitou vários comentários que diziam que os factos que eu tinha visto e relatado não significavam nada.
Não liguei muito a este argumento porque por um lado nunca pretendi ter demonstrado nada (apenas publicitar indícios) e por outro, o que hoje me apetece tratar, parece-me razoavelmente consensual admitir que factos sem contexto raramente querem dizer o que quer que seja.
Já reagi, admito que excessivamente, a quem põe na minha boca um argumento que não usei ("A questão levantada pelo Henrique, sobre o não recurso aos invertebrados como indicadores") para depois dar uma aula sobre o assunto, completamente ao lado do que estava em causa, e de caminho sugerir, paternalmente, que a minha ignorância é ainda maior do que de facto é. Não é pois por aí que vou agora.
Há anos que vou às mesmas praias, raramente mudando.
Numa dessas praias foram feitos vários enchimentos com areia para resolver problemas de erosão costeira. A linha de costa entre dois paredões é razoavelmente extensa o que aproveito para verificar empiricamente como vai evoluindo ao longo do ano.
Há tempos reparei que numa zona do paredão que por lá existe onde o mar bate quase sempre na base rochosa, ou fica pouco tempo a alguma distância na maré baixa, estava um bando de pássaros que não é habitual ver por ali (sim, eu sei que no rigor da linguagem científica são aves que não pertencem ao grupo dos passeriformes mas a mania dos cientistas quererem impôr à linguagem comum os seus critérios é apenas uma das suas manifestações habituais de desfasamento em relação à realidade).
Aproximei-me para ver o que lhes interessava ali, vi como estava a evoluir a cobertura por algas e coisas que tal das rochas, reparei na evidente presença de insectos (faço lá ideia se eram tudo insectos ou outros invertebrados) e coisas que tal.
Noutro dia lá atravessei a praia de uma ponta à outra e fiquei ali um bom bocado a olhar para os camarões que por lá andavam, com alguma abundância (aves nem vê-las e insectos assim assim).
E ontem nem rasto de camarões, embora tenha reparado mais na colonização por lapas e outras coisas gelatinosas com casca dura (depois de num dia anterior me ter distraído e quando lá cheguei a maré estava alta demais para ver aquele bocadinho de praia pouco usado por falta de areia usável por banhistas), e vi ainda mais uns insectos entre saltitantes e corredores meio rastejantes pelas rochas, logo acima da linha de água.
Nenhum destes factos tem nenhum significado para um ignorante como eu (e em matérias de litoral ainda mais ignorante que noutras) e não diz coisa nenhuma, excepto, talvez, que eu gosto de passear na praia.
Mas se eu registasse como deve ser estes factos num sítio onde qualquer um os pudesse usar talvez um dia tivessem significado quando alguém os integrasse num contexto qualquer.
Um dia destes falaram-me de um homem que mandou para um organismo oficial umas fotografias porque há cinco anos que percorria uma zona e nunca lá tinha visto a planta cuja fotografia mandava. O facto em si diz nada, mas se alguém quiser olhar para ele e o souber integrar num contexto, pode um dia valer alguma coisa.
Não falo sequer do indivíduo que mandou um mail a dizer que tinha visto uma planta assim assado num determinado sítio e quando se verificou a informação era uma nova população de uma espécie endémica de distribuição restrita e relativa raridade. Este facto, integrado no contexto do conhecimento da espécie, tem significado por si.
O que me faz ficar fora de mim é o facto de haver tanto burocrata da ciência em Portugal que despreza tudo o que está fora do desenho experimental não por estar certo ou errado mas porque está fora do desenho experimental.
Ao contrário de muito gente eu não tenho nada contra a burocracia que acho uma das grandes criações da civilização. Eu mesmo me defino, sem ironia, como burocrata. Mas exactamente por saber distinguir a burocracia inteligente do cumprimento mecânico de regras é que tenho tão pouca tolerância para a burocracia que não conhece os objectivos das regras e as aplica cegamente.
A burocracia da ciência (as citações, o peer review, o desenho experimental e toda essa tralha burocrática) é fundamental para permitir que o trabalho de muito cientistas se integre mais facilmente no aumento progressivo do conhecimento, evitando caminhos errados, fraudes, repetições sistemáticas das mesmas ideias e por aí fora.
Mas a burocracia da ciência é só a burocracia da ciência é uma mera questão processual, não define o conhecimento científico e muito menos o conhecimento existente.
E mesmo para uma pessoa como eu para quem os processos são, quase sempre, mais importantes que os resultados, a informação produzida por outros meios não deveria ser desperdiçada pelo simples facto de que os cientistas serão sempre uma pequena minoria que em domínios como os da biodiversidade, vastos, virtualmente ilimitados e sem domínio das variáveis para as quais o conhecimento produzido é válido, nunca darão conta do recado.
A academia portuguesa tem dezenas de doutores, doutorandos, mestres, mestrandos, alunos e outros produtores de investigação em áreas claramente ligadas à biodiversidade (embora pelo avanço anual do conhecimento nem sempre isso se note).
Mas com a jactância que a caracteriza desqualifica e desconsidera o número dez vezes maior de outros produtores de informação que apenas gostam de dar grandes passeios ao Domingo.
E esse é mesmo um grande problema na gestão da conservação da natureza em Portugal.
henrique pereira dos santos

sábado, julho 11, 2009

reflex: proibir, proibir, proibir

numa rotunda, à entrada de Mora
Junho de 2009


Estes são apenas 6 dos 11 (!) sinais de sentido proibido que se encontram a uma distância máxima de 100 metros, numa das entradas da vila alentejana de Mora. Ao fazer esta foto, lembrei-me de algumas das nossas áreas protegidas, da facilidade com que, não raras vezes, proibem e restringem actividades, não demonstrado a mesma capacidade de empreenderem uma actitude construtiva e activa na preservação dos seus maiores valores naturais.

Gonçalo Rosa

O custo das previsões de tráfego

Vale a pena, agora que se discute o plano estratégico dos transportes, ver este video.
É só fazer as contas ao que nos custam estas previsões sistematicamente erradas para o mesmo lado.
henrique pereira dos santos
PS É impressão minha ou não houve qualquer boicote ao financiamento da biodiversidade pela BRISA por causa desta campanha (e de outras)?