sábado, julho 31, 2010

Não contem comigo

Notícia no Expresso de hoje:

"Derretidos O consumo de energia elétrica nos meses de verão este ano bateu recordes. A REN diz que as pessoas estão a instalar mais sistemas de ar condicionado. Não é preciso explicar porquê."

Isolei a minha casa com cortiça em sistema "Capotte", com o objetivo
(entre outros) de dispensar aparelhos de ar condicionado. As últimas semanas foram uma prova e peras para a solução adotada e posso responder que a casa aguenta muito bem o calor sem necessidade de arrefecimento artificial do ambiente interior (leia-se ar condicionado). Em dias onde lá fora chega a 40 ºC, o interior da casa mantém se nos 25-26ºC. Prefiro bem a temperatura interior da minha casa, que as salas de reunião gélidas onde passo uma parte significativa do meu tempo de trabalho, resultando em constipações regulares ao longo do verão.

Antes de explicar porquê, se calhar devia se perguntar porquê...

Henk Feith

quinta-feira, julho 29, 2010

Boas intenções, inferno e drama


Ouvi o comandante Gil Martins, que conheço e por quem tenho respeito, dizer que o problema destes dias de fogos eram as mais de 400 ignições diárias.
É uma ideia simples, convincente, mas errada.
As ignições registadas pela protecção civil não são as ignições quimicamente consideradas (isto é, o input de energia necessário para desencadear a reacção química exotérmica que caracteriza um incêndio) mas sim as ignições que progrediram o suficiente para serem registadas no sistema.
Isto é, as ignições não passam de 100 para quatrocentas em poucos dias. O mais natural é que todos os dias sejam mais ou menos as mesmas, mas em alguns dias rapidamente ganham uma dimensão que as torna adminsitrativamente registáveis.
Portanto o problema não é o número de ignições mas o facto delas progredirem facilmente até se tornarem visiveis (por isso o seu número varia consideravelmente apesar dos comportamentos culturais serem os mesmos todos os dias e por isso se agrupam geograficamente como acontece com os fogos, que desta vez se concentraram entre Aveiro e Caminha, na faixa litoral).
Pretender que o número de ignições tem alguma relação com a área ardida, como é frequente, é um erro que não tem qualquer base objectiva empírica.
Por isso apagar muitos fogos nascentes é uma vitória de Pirro.
As boas intenções inegaveis de Gil Martins desmbocarão forçosamente num inferno quando as condições forem efectivamente favoráveis ao desenvolvimento dos fogos.
Repito o que tenho dito vezes sem conta: o problema não é discutir como começam os fogos, mas porque razão não param em alguns dias.
Li também uma notícia notável no Público de hoje, em que finalmente se começa a dizer o que disse aqui no blog: os efeitos do derrame da BP afinal parecem ser muito menores que o previsto.
É assim, temos tendência para o dramatismo. Daí não viria mal ao mundo se não se desse o caso de gastarmos demasiados recursos no teatro que depois nos fazem falta na vida real.
Os comentários do Henk e do Luís Lavoura nos posts sobre fogos levam-me a querer escrever sobre a questão de combustiveis e a gestão do fogo. Mas fica para outro dia, espero eu.
Mas ainda tenho espaço para dizer que embora o tempo se vá manter quente, os fogos vão passar a ser controlados sem dramas, porque o vento mudou.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, julho 28, 2010

Catalunha proíbe touradas

A partir de Janeiro de 2012 deixarão de ver-se touradas na Catalunha. Continuarão a ver-se no sul de França, no resto de Espanha e em Portugal. Vitória para os animalistas? Sem dúvida que sim. Mas convém não esquecer que com esta decisão a Catalunha cria mais uma diferença com o resto de Espanha. É o acumular de diferenças (linguísticas e culturais) entre esta região e o resto do território Espanhol que constitui a verdadeira agenda política. O movimento animalista é o pretexto mas o motor da decisão é nacionalismo Catalão. Convém não esquecer isto para não perder a perspectiva e saber enquadrar o que se está a passar no extremo nordeste da Península Ibérica.

As barbas a arder


Duarte Caldeira, presidente da liga dos bombeiros ou coisa do género, um dos mais lídimos representantes do pessoal que acha que os fogos são com os bombeiros, veio ontem dizer que apesar das condições meteorológicas serem as mesmas de 2003, o dispositivo está a controlar tudo porque agora as coisas funcionam bem.
Eu percebo-o. A actual conjuntura nesta matéria é realmente favorável a quem vive do fogo: tudo para o combate, os restos para fingir que se faz alguma coisa no resto.
Ora estas condições meteorológicas, que Duarte Caldeira forçosamente sabe muito bem que estão muito longe de ser iguais às de 2003 (o vento é fraco, a humidade tem alturas em que sobe, são ainda três ou quatro dias e não quinze, por aí fora), demonstram facilmente que não é pelo dispositivo de combate que se vai lá.
Todos queremos um dispositivo eficiente (e de preferência custo eficiente também) mas um dispositivo eficaz sem gestão de combustiveis é uma boa receita para o desastre.
Mas o desatre social não é o mesmo que o desastre para Caldeira e para quem vive do fogo. Para estes últimos o desastre é desviar os recursos do combate para a gestão de combustiveis. Mais eficiente e mais criador de riqueza.
henrique pereira dos santos

terça-feira, julho 27, 2010

O Leste e as alterações climáticas

Ontem e hoje parece que a coisa vai caindo para as características mais típicas das condições meteorológicas associadas ao vento Leste. A partir de amanhã o vento parece-me que muda e os incendiários tirarão algum descanso. Razão tinha o Almodovar.
Previsivelmente para estas condições meteorológicas, a coisa está complicada, 14 fogos registados a esta hora no site da protecção civil, metade deles vindos de ontem (lá se vai a teoria da extinção nas primeiras fases e o ataque rápido e fulminante, com meios aéreos, que nos explicaram que eram responsáveis pelo êxito dos anos passados).
A esta hora (e estamos nas primeiras horas da manhã), nas regiões com mais fogos a humidade atmosférica já ronda o 30%. Felizmente o vento tem sido fraco.
Continuo a achar que os índices de risco de incêndio deveriam ter um plus nos dias de vento Leste.
Pois sendo tudo isto previsível e de acordo com os cânones, lá vêm os jornais em parangonas de primeira página a falar de ondas de calor e etc., e pelo menos o Público com referências ao aquecimento global.
Da mesma forma que protestei com os tontinhos que escarneciam do aquecimento global porque estava frio no Inverno, protesto com o absurdo de associar estas condições meteorológicas ao aquecimento global.
Tempo é tempo, meteorologia é meteorologia e clima é outra coisa.
Mas a sensação que me fica é que anda muita gente a Leste do paraíso.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, julho 26, 2010

Nem preto, nem branco, nem antes pelo contrário

Durante toda esta semana fui hesitando em fazer um post sobre fogos, de tal maneira as previsões do vento eram confusas e voluveis.
De forma consistente apareciam indicações de vento Leste, mas ao mesmo tempo de falta de consistência em relação à clara situação de vento Leste típico.
De facto é isso que temos tido: um tempo quente, com "componentes" de vento Leste, mas sem a dureza da situação de típicas condições meteorológicas do vento Leste responsável pelos grandes fogos.
Esta situação provavelmente significa muito trabalho para os bombeiros, bastantes êxitos, alguma área ardida e alguns sustos. Mas estamos numa fronteira, pede have localmente uma situação que fuja de controlo e pode haver uma evolução meteorológica para situações mais típicas da lestada.
O número de fogos diários aumentou imediatamente (não deixo de assinalar que a fama de pirómanos doidos que os portugueses têm, e que ouvi ser tomada muito a sério por um investigador americano conceituado, das maiores autoridades mundiais em fogos, considerando-o essa característica cultural como um dos factores a resolver para gerir o fogo, ser uma característica cultural que se manifesta em função das condições meteorológicas, mas adiante que o post não é sobre isso), as notícias sobre fogos aumentaram e toda a gente de repente, apesar da enorme confiança num dispositivo de combate que resolveu o problema dos fogos nos últimos anos (so they say), foi a correr pôr uma velinhas a Fátima.
Esta situação, não tendo ainda a dramaticidade de um vento Leste puro e inequívoco tem um efeito de médio prazo bastante forte ao diminuir a humidade nos combustiveis e tornando tudo mais difícil se nos próximos tempos vier mesmo uma lestada.
Mas chega de pessimismo, um video fantástico que o Paulo Barros assinala na lista de discussão e que mesmo para quem, como eu, tem muitas reservas às lógicas de florestação que têm sido usadas em Portugal, é um bom exemplo de boa propaganda florestal (há quem ache que também será ambiental, e eu admito que sim).



henrique pereira dos santos

domingo, julho 25, 2010

e o doido sou eu!



Na última sexta-feira, em debate televisivo emitido transmitido pela SIC Notícias, um dirigente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP) considerou que a possibilidade de abertura de grandes hipermercados aos domingos à tarde responder ao interesse dos cidadãos não é uma boa justificação. Como exemplo, afirmou que apesar de poder dar muito jeito a muita gente, não passaria pela cabeça de ninguém que, por exemplo, as repartições de finanças passassem a abrir ao sábado.
Pois… eu bem sentia que as minhas ideias de que o Estado serve os cidadãos e não o contrário eram grosseiro despautério :S
Gonçalo Rosa

sábado, julho 24, 2010

a nostalgia da mercearia de bairro


sacado do blogue Humor Antigo

A decisão da abertura de hipermercados com superfície superior a 2000 metros quadrados ao domingo à tarde passa para as mãos das autarquias (ver aqui). Esta possibilidade que agora se abre, e que vem no sentido do que desde há muito defendo, parte do princípio liberal de que os interesses dos cidadãos devem ser atendidos e de que o Estado, em defesa do comércio tradicional (basicamente, tem sido esse o principal argumento dos agentes políticos), não deve criar regulamentação que distorça o mercado.      
A ideia de defender o comércio tradicional em detrimento dos grandes hipermercados, é fundamentalmente sustentada pelo pressuposto de que o comércio tradicional emprega mais trabalhadores que as grandes superfícies (se compararmos o que faz algum sentido comparar, ou seja, número e diversidade de lojas mais ou menos equivalentes entre os dois conceitos) e alicerçada na opinião de uma considerável parte da população que padece do que vulgarmente chamo de “nostalgia da mercearia de bairro”, maleita essa que é suficientemente sentida para que se delibere sobre a vida dos outros, apoiando a proibição legal da abertura de grandes hipermercados aos domingos à tarde, mas suficientemente suave para que, mesmo que pagando preços mais elevados entre outras desvantagens, se compre no comércio tradicional.
Para muitos de nós, hipermercados e grandes superfícies comerciais apresentam-se muito mais atractivos que o comércio tradicional. E não é difícil perceber porquê. Preços globalmente mais baixos, enorme variedade de produtos e serviços oferecidos concentrados numa área fácil percorrer a pé (sendo isto válido para o grandes hipermercados, é-o a maior escala para os grandes centros comerciais onde muitos daqueles se inserem e onde habitualmente existem lojas diversas, agências bancárias, cinemas, restauração, etc.), facilidade de acesso e de estacionamento, horários ajustados às necessidades dos clientes, maior conforto em dias com condições climatéricas adversas (chuva, temperaturas extremas) parecem compensar o serviço tendencialmente mais personalizado das pequenas lojas do comércio tradicional.
Alguns partidos, como o PCP e o BE, reforçam a ideia de um eventual menor número de postos de trabalho (mais uma vez, comparando o que faz algum sentido comparar), proporcionado pelos grandes hipermercados relativamente ao pequeno comércio, pressuposto este contrariado pelos grandes grupos económicos que beneficiam com esta medida e que defendem exactamente o oposto. Apesar de não conhecer estudos que analisem este ponto, parece fazer sentido que, balanço feito, se percam postos de trabalho. Mas o que contesto é a lógica de distorcer o mercado, regulamentando-o, de forma a salvaguardar postos de trabalho em prejuízo dos interesses do cidadão comum que até aqui não podia optar por fazer compras num hipermercado ao domingo à tarde. Aliás, esta tentação é análoga à justificação de alguns agentes políticos para a execução de algumas obras públicas, de interesse público questionável, mas que, na sua fase de execução, garantem emprego.
Há ainda quem argumente que esta liberalização representa um apelo ao consumo. Se, por um lado, não duvido que a nossa sociedade é tremendamente consumista, com todos os problemas – nomeadamente ambientais - que isso implica, tenho muitas dúvidas que passe a consumir muito mais por causa da abertura de grandes hipermercados aos domingos à tarde. Em boa verdade, a enorme maioria dos portugueses não consegue, sequer, aforrar dinheiro, pelo que, no essencial, o que esta abertura implicará será uma transferência do consumo no pequeno comércio para os grandes hipermercados. Aliás, é este pressuposto que está na origem das preocupações de quem opera no comércio tradicional.
Por fim, ouço preocupações com a eventual destruição da instituição Família que, desta forma, ao fim-de-semana, se arrastaria para os grandes hipermercados aos domingos à tarde, dispensando um saudável e caseiro convívio familiar ou mesmo num qualquer jardim da sua aldeia, vila ou cidade. Acontece que tenho tremendas dificuldades em estabular pessoas, preferindo, por isso, deixar ao critério de cada um a forma como usa a sua liberdade. Se prefere recorrer ao comércio tradicional em vez de comprar em grandes superfícies, se decide passar a tarde de domingo com a família, amigos, sozinhos, em convívio ou andar às compras num qualquer hipermercado. Enfim… tentações liberais.
Gonçalo Rosa

sexta-feira, julho 23, 2010

A conservação voodoo

“Desta vez completou-se o ciclo de reprodução, as crias nasceram e já estão a voar”, disse por telefone ao PÚBLICO Samuel Infante da Quercus. Os abutres fizeram o ninho em azinheiras, colocaram o ovo, as crias nasceram e hoje já batem as asas. Um fenómeno que deixou de acontecer em 1970 devido à morte das aves, à desflorestação, e aos insecticidas usados no campo."
Ele há coisas que me intrigam sempre.
Vem isto a propósito da notícia do abutre negro ter reprodução confirmada em Portugal este ano, como se pode ler nesta notícia (um pouco confusa, aliás).
Retirei este parágrafo extraordinário que o jornalista atribui a Samuel Infante da QUERCUS e que assume como uma verdade revelada que não precisa de confirmação. Poderia ter retirado outras afirmações, como a de que a deposição de carcassas no campo foi proibida por causa da doença das vacas loucas, mas adiante.
Concentremo-nos neste pequeno extracto: "Um fenómeno que deixou de acontecer em 1970 devido à morte das aves, à desflorestação, e aos insecticidas usados no campo".
Ora aqui temos um verdadeiro artista (não sei se o Samuel Infante, se o jornalista). Alguém que não tem dúvidas sobre as razões quer do desaparecimento do Abutre Negro, quer da sua recuperação.
O que aqui é dito pressupõe que houve desflorestação até 1970 e recuperação da florestação entre 1970 e hoje. Dados? Não é preciso, aparentemente. O facto de haver uma recuperação da área florestal do país, contínua e forte, desde os fins do século XIX até aos anos 90 do século XX com alguma estabilização a partir daí é irrelevante para a história contada.
O mesmo se deveria dizer dos insecticidas, deve ter havido um aumento forte no seu uso até 1970, com uma diminuição, também forte, a partir daí. Dados? Não é preciso. Até porque os que existem não confirmam nada disto.
Poder-se-á dizer que as espécies reajem com algum desfasamento à alteração dos factores de ameaça, portanto teríamos de deslocar a linha de alteração dos factores de ameaça mais uns anos para trás, mas nem vou fazer isso porque a fundamentação seria ainda mais frágil.
aqui falei de afirmações deste tipo, por exemplo, para o sisão, com efeitos reais na atribuição do estatuto de ameaça das espécies e, consequentemente, nas políticas de conservação (e na afectação dos recursos, parece que a QUERCUS está envolvida num projecto internacional para a conservação do abutre preto que está a recuperar em largas partes do território, como se pode ver aqui).
Os problemas de conservação são bastante mais fluidos que esta procura incessante de razões únicas e, sobretudo, politicamente correctas que sentam no banco dos réus processos que consideramos prejudiciais globalmente.
É sempre bom poder dizer mal de desflorestação (que não existe em Portugal há cinquenta anos, e que nos últimos duzentos é um complexo processo de perdas e ganhos locais), ou dos insecticidas, ou dos caçadores, ou das linhas eléctricas, ou dos olivais intensivos, ou dos rebanhos, ou do regadio, mas a verdade é que tudo isso é muito menos importante, na maior parte dos casos, que as transformações económicas e sociais de "um simples mundo, onde tudo [tem] apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural" e cujos efeitos se manifestam em todo o território "mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus" (Jorge de Sena).
É por isso que ao discutir estes assuntos vou sempre cair no cadastro do valores naturais, de que falei aqui mais longamente.
Ora precisamente amanhã faz dois anos que foi publicado o diploma que contém esta norma:
"Artigo 52.º Cadastro Nacional dos Valores Naturais Classificados O primeiro Cadastro Nacional dos Valores Naturais Classificados é aprovado no prazo máximo de dois anos a contar da entrada em vigor do presente decreto -lei."
Este post é para dizer que estou feliz porque o Conselho de Ministros da próxima semana vai com certeza aprovar o decreto regulamentar que institui o cadastro nacional dos valores naturais classificados.
Infelizmente distraí-me e não prestei atenção à necessária discussão pública que naturalmente foi feita sobre a proposta que irá ser aprovada, e que reunirá os contributos da sociedade civil, como sejam as ONGAs e as Universidades que tanto criticavam antes as propostas do ICNB (por exemplo, em relação à rede natura), mas que agora, finalmente libertas da dependência das propostas do ICNB, porque a lei permite que qualquer pessoa apresente propostas, terão acorrido em massa ao processo com propostas concretas para a classificação da Maculinea alcon, ou com a delimitação de habitats específicos, ou com a proposta de um novo estatuto de ameaça de alguma espécie esquecida, o que terá tornado a proposta de decreto regulamentar bem mais sólida.
Durante dois anos a estruturas técnicas das maiores ONGAs fizeram propostas fundamentadas, os grupos de investigação fizeram propostas fundamentadas e o ICNB coligiu e fez uma proposta final, naturalmente baseada quer no livro vermelho existente, quer na informação que coligiu para dar cumprimento ao artigo 17º da Directiva Habitats, e colocou as propostas em discussão pública.
Tenho já no frigorífico uma garrafa de champagne para comemorar uma longa luta pela possibilidade de termos clareza no que efectivamente está protegido, fundamentação para o que efectivamente é preciso fazer, racionalidade e consenso nas razões de ameaça e um direito de protecção das espécies que não é apenas subsidiário das prioridades de países terceiros.
Viva o cadastro que será aprovado na próxima semana e viva o Governo que assume seriamente o cumprimento da lei em matéria de conservação.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, julho 22, 2010

Devem os mosquitos ser eliminados?



Interessante artigo na revista Nature

(...)
There are 3,500 named species of mosquito, of which only a couple of hundred bite or bother humans. They live on almost every continent and habitat, and serve important functions in numerous ecosystems. "Mosquitoes have been on Earth for more than 100 million years," says Murphy, "and they have co-evolved with so many species along the way." Wiping out a species of mosquito could leave a predator without prey, or a plant without a pollinator. And exploring a world without mosquitoes is more than an exercise in imagination: intense efforts are under way to develop methods that might rid the world of the most pernicious, disease-carrying species. (...)



Já podemos mudar de mau da fita

A China, mesmo com um consumo per capita de um terço do da OCDE, passou a ser o maior consumidor de energia, acima portanto dos Estados Unidos.
henrique pereira dos santos

domingo, julho 18, 2010

A propósito do post anterior

Tirado daqui.
henrique pereira dos santos

Perplexidade

Fotografia de L. Seixas, tirada daqui
Vejo hoje na Pública uma professora da Universidade Nova, especialista em desertificação, dizer que o Alentejo o olival intensivo pode conduzir à desertificação (Maria José Roxo faz muita questão de deixar claro que desertificação e despovoamento são coisas muito diferentes, o que até é verdade mas é uma verdade inútil porque o significado das palavras é estabelecido pelas pessoas que as usam e não pelas academias).
No seguimento fala da vocação do Alentejo para outras produções alternativas dando, entre outros, o exemplo da produção de cereais.
Fiquei perplexo.
Alguém sabe de algum estudo comparativo dos efeitos de deplecção da fertilidade do solo com o olival intensivo (ou mesmo super intensivo) e com a cultura de cereais no Alentejo?
O mito de que o Alentejo tem um enorme potencial de produção cerealífera dura há pelo menos 150 anos e tem sido responsável, pelo menos parcialmente, por políticas agrícolas erradas e fortemente degradadoras dos solos do Alentejo.
O olival intensivo (e super intensivo) é matéria que me interessa porque vejo ali ameaças e potencialidades mal estudadas do ponto de vista da biodiversidade e não percebo as afirmações feitas que me parecem mais ideológicas que assentes em medições empíricas.
henrique pereira dos santos

sábado, julho 17, 2010

Curiosidades VIII


Outro mapa muito interessante (clicar para aumentar e poder perder alguns minutos a ver coisas que para mim são novas).

henrique pereira dos santos

sexta-feira, julho 16, 2010

Com a verdade me enganas tu


Prometi fazer um post sobre a forma como um discurso ambiental sem coisas erradas pode na verdade ser um discurso catastrofista, provavelmente distorcido.
Vinha isso a propósito do derrame da BP (parece que finalmente conseguiram estancar provisioriamente o derrame) e de um artigo no Scientific American que roubei daqui e pode ser lido aqui integralmente. Mas o Público veio em minha ajuda e lá fez também o seu artigo catastrofista.
Note-se que não estou a dizer que os artigos têm erros. O que estou a a dizer é que os artigos induzem os leitores a pensar erradamente.
Repare-se.
"More than 20 years after the Exxon Valdez foundered off the coast of Alaska, sea otters still dig up oil in their hunt for clams in Prince William Sound. Nearly 25 years after an oil storage tank ruptured near mangrove swamps and coral reefs of Bahia Las Minas in Panama, oil slicks still form in the water. And some 40 years after the fuel-oil barge Florida ran aground off Cape Cod, the muck beneath the marsh grasses makes the area smell like a gas station."
Assim começa o artigo que pretende demonstrar como um derrame é uma ameaça que persiste. E de facto durante anos permanecem vestígios de petróleo nos locais afectados. Até aqui nada de novo.
Depois vem explicado por que razão o petróleo é uma ameaça:
"The toxic compounds in oil vary, but the most worrisome are polycyclic aromatic hydrocarbons (PAHs), such as napthalenes, benzene, toluene and xylenes. All can sicken humans, animals and plants. “These hydrocarbons are particularly relevant if inhaled or ingested,” says environmental toxicologist Ronald J. Kendall of Texas Tech University. “In the bodies of organisms such as mammals or birds, these aromatic hydrocarbons can be transformed into even more toxic products, which can affect DNA.” The mutations that might result could lead to reduced fertility, cancer and other problems."
Nada de novo, é de facto por estas razões que o crude é uma ameaça.
A seguir uma informação relevante mas sobre a qual se passa como gato por brasas:
"Not all the PAHs become an environmental threat, though. Thanks to evaporation, oil that reaches the surface loses at least 20 to 40 percent of the original hydrocarbons. “Evaporation is good; it selectively removes a lot of compounds we’d rather not have in the water,” says marine chemist Christopher M. Reddy of the Woods Hole Oceanographic Institution. The oil also emulsifies, forming mousse—a frothy mix of hydrocarbons and water—or clumps into so-called tar balls."
Depois vem o truque habitual de falar da imensa riqueza e dos milhares de espécies que existem no golfo do México (a grande maioria em áreas não afectadas pelo derrame, aliás), falando-se do risco potencial (não do verificado até ao momento).
E por fim um parágrafo dúbio sobre o petróleo que é apanhado pelos sedimentos e continua a aparecer durante décadas.
O leitor pensa aterrorizado: os valores naturais estão feitos ao bife. Excepto se reparar que o artigo fala dos efeitos do crude tal como ele sai do poços e que os compostos perigosos desaparecem em muito pouco tempo (como de facto diz o artigo, mas não o relacionando com os efeitos de longo prazo) e portanto o crude que vai ficando durante décadas não tem o efeito descrito no parágrafo que fala dos compostos voláteis.
O artigo do Público tem mais ou menos a mesma lógica, falando por exemplo da importância natural de áreas da costa do Golfo que não foram afectadas (e é muito pouco provável que o sejam) pelo derrame (que só chegou a uma pequena parte da costa da Luisiana, sendo quase tudo o resto pontual ou negligenciável. Podem ver aqui os mapas. E já agora comparem com o mapa catastrofista treehugger com que ilustro o post.
Sempre que vos falarem de previsões do futuro o melhor mesmo é darem um salto a este blog que linko abaixo que é bom para dar perspectiva.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, julho 15, 2010

Curiosidades VII

Clicar para ver melhor. Gráfico muito interessante para discutir tendências de biodiversidade em Portugal.
Para mim é surpreendente o crescimento relativo da população portuguesa, tanto mais que até esta altura a urbanização ainda incipiente não chega para explicar o que se vê.
As crises entre as duas guerras mundiais, incluindo a grande depressão de 1929 e depois a segunda guerra mundial em que Portugal se manteve neutro, fecharam a porta tradicional do reequilíbrio populacional de Portugal: a emigração. Bem pelo contrário, o forte refluxo da migração das primeiras décadas do século vinte provocado pela crise económica entre guerras, traz de volta milhares de pessoas, não atraídas pela prosperidade portuguesa mas à procura de ao menos ter uma talisca de terra que as alimentasse depois do fracasso da sua experiência migradora.
O resultado é um campo cheio de gente com fome e uma pressão sobre os recursos naturais sem paralelo na história (por isso sorrio sempre que me falam no aumento da pressão humana sobre o território para explicar modernas tendências populacionais de espécies selvagens).
henrique pereira dos santos

quarta-feira, julho 14, 2010

Curiosidades VI

Clicar para ver melhor. Do tempo em que a produção de milho era mais importante que a construção.
henrique pereira dos santos

terça-feira, julho 13, 2010

L'État c'est moi

Lembrei-me desta frase, atribuída a Luís XIV, aparentemente sem razão, ao ler o Regulamento de Gestão do Fundo para a Conservação da Natureza e da Biodiversidade publicado hoje.
O fundo tem algumas coisas no sentido certo, por exemplo, a proibição do ICNB ser seu beneficiário, e tem bastantes coisas no sentido errado.
O modelo de gestão é unipessoal.
Tudo passa pelo director do fundo, por inerência o Presidente do ICNB, como elaborar o plano de actividades, autorizar abertura de concursos, analisar as propostas a concursos, submeter à tutela as decisões sobre a atribuição ou recusa do de apoios, acompanhar, avaliar e controlar os projectos apoiados, até esta coisa extraordinária: "2 — Os resultados obtidos com a implementação de todos os projectos, investimentos e acções apoiadas devem ser obrigatoriamente apresentados ao director do Fundo previamente à sua publicitação".
Embora o ICNB não possa ser beneficiário do Fundo, o resto do Estado pode, pelo que o resultado expectável não será melhor que o do Fundo Florestal Permanente, transformado em grande parte na fonte inesgotável de financiamento da paranóia dos fogos (aposto cem contra um como daqui a meia dúzia de anos esta paranóia, se entretanto não for temperada por um ano de fogos violentos que obrigue a repensar o sistema, estará a ser financiada pelo Fundo de conservação dentro das áreas protegidas, não através do ICNB, se a boa regra se mantiver, mas de juntas de freguesias, câmaras, bombeiros, associações várias).
O processo concursal para atribuição dos apoios não é obrigatório, existem lá uns protocolos, que dão suporte a umas parcerias, reservados ao Estado, associações e afins (não fosse alguma empresa ou proprietário de uma área importante para a conservação querer fazer uma parceria com o ICNB para produzir voluntariamente biodiversidade) que por decisão exclusiva do director do fundo (homologada pela tutela, que é preciso dividir responsabilidades sem perder o controlo da coisa) podem ser feitos sem concurso nenhum (mais uma vez a história do Fundo Florestal Permanente é a este título notável).
A comissão de 3% para o ICNB gerir o fundo parece razoável, mas se existe esta fonte de suporte para a gestão não percebo porque não se adoptou um modelo de gestão efectivamente independente e autónomo, mas isso sou eu, um perigoso liberal a pensar. E sendo assim, também não percebo a previsão de mais um ordenado para um gestor do fundo, que está fora destes 3%.
Penso que o artigo 13º do fundo traduz bem a postura ideológica em que assenta este regulamento. Este artigo tem um título: "Publicitação dos apoios". Qualquer pessoa normal, mesmo não conhecendo a convenção de Aarhus (a meu ver evidentemente violada por este regulamento) pensará que um artigo com este título serve para criar uma obrigação de transparência na gestão do fundo, obrigando à publicitação dos apoios prestados. Engano, meus caros, o artigo serve para criar nos beneficiários a obrigação de publicitação do apoio dado pelo Fundo, usando o logótipo do Fundo (a aprovar pelo Director, by the way), mas com a ressalva do seu número 2, que já citei acima, de que os resultados passam previamente pelo director do fundo.
Talvez no artigo 16º, sobre Acompanhamento e controlo, se estabeleçam os mecanismos de transparência e escrutínio público que seriam normais na gestão de um fundo financeiro público, sobretudo quando os seus orgãos de gestão se resumem a um director, sem intervenção de rigorosamente mais ninguém a não ser pessoas por si nomeadas. Engano, vós não conheceis a natureza da coisa no que toca a dinheiro. O acompanhamento e controlo a que o artigo diz respeito é o acompanhamento e controlo dos beneficiários, sujeitos a acções de acompanhamento, controlo e auditoria, "a realizar pelo director do Fundo ou por entidade designada para o efeito", para citar directamente o texto do regulamento. Os beneficiários têm de apresentar relatórios de execução, o que é razoável, mas curiosamente a gestão do fundo não.
Relatórios de gestão obrigatórios, publicitação das decisões, acompanhamento público? Minudências a que o regulamento não se dedica.
Saí do ICNB sem gosto quando percebi, felizmente cedo, que uma cortina de ferro se iria abater sobre a sua gestão.
Infelizmente cada tiro, cada melro, confirmando uma mentalidade pré 25 de Abril na gestão da coisa pública. Preferia ter-me enganado.
É caso para usar a velha frase anarquista: e quem nos defende dos polícias?
As ONGAs, claro, tinha-me esquecido de como têm estado atentas e activas em relação a este modelo de gestão cada vez mais fechado, obscuro e sem qualquer relação com prioridades reais de conservação da biodiversidade.
henrique pereira dos santos

A demagogia do bloco central

Vejo esta notícia sobre a isenção de taxas do residentes das áreas protegidas e não consigo entender.
Por exemplo, Jorge Coelho tem uma casa no Parque Natural de Sintra Cascais. Imaginemos que declara essa como a sua residência. Não deve pagar taxas pelos serviços prestados pelo ICNB porquê? E por que razão mantém o pagamento das taxas aos outros serviços da administração (nomeadamente às câmaras que tanto contestam as taxas do ICNB?).
Mas admitamos que sim, que não devem ser pagas taxas. As mesmas resoluções da assembleia da república determinam o reforço do financiamento do ICNB ou fazem como na lei do lobo que determina o pagamento da indeminizações mas não diz onde se vai buscar o dinheiro?
Não há paciência para a forma infantil como é tratado o financiamento das áreas protegidas em Portugal.
As ONGAs? Pois, parece que não acham bem as taxas, mas não acham mal algumas taxas, mas os residentes não podem ser prejudicados, mas alguns residentes depende, enfim, isto também são questões de mercearia, não são coisas verdadeiramente importantes como passar o parque do sudoeste a parque nacional.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, julho 12, 2010

Um país milionário

Tenho alguma contenção nos comentários sobre a actuação da actual presidência do ICNB, sobretudo em matérias que foram da minha responsabilidade.
Mas acho que há contenção que a manter-se se transforma em cumplicidade e para isso não estou disposto.
Ao longo do fim de semana fui lendo aqui e aqui e aqui sobre a visitação na RNET.
Talvez valha a pena lembrar meia dúzia de coisas anteriores.
Há já bastante tempo foi lançado um concurso público para desenvolver um estudo sobre a comunicação e visitação nas áreas protegidas.
Esse concurso levou à adjudicação a uma das sete equipas concorrentes (seis delas integrando antigos presidentes e vice-presidentes do ICNB), adjudicação essa que foi ferozmente atacada no Diário de Notícias por suposto favorecimento de antigos governantes do PSD. A jornalista que fez a peça é uma conhecida fretista próxima do PS e nunca conseguiu provar uma única das suas insinuações (mais jornalistas atraídos pelo cheiro a sangue consultaram o processo sem encontrarem uma única irregularidade ou mesmo estranheza no processo de concurso. A única coisa estranha parece ter sido o facto de ser um concurso importante feito de forma linear, transparente e completamente limpo).
Foi pelos vistos o primeiro round do aparelho do PS para conseguir entregar mais algum dinheiro público a gente do regime, mas que circunstâncias particulares impediram que desse resultado.
Não vou falar dos resultados da adjudicação porque estão claramente visiveis na página do ICNB, abertos ao escrutínio de qualquer pessoa.
Mais tarde uma pequena comissão de pessoas do Instituto do Turismo, dos hoteleiros, da equipa do estudo e do ICNB (espero não me esquecer de ninguém) desenvolveu um trabalho de aplicação concreta procurando envolver os principais agentes fundamentais para aplicação do estudo.
Durante todo este processo houve intensa discussão interna e externa sobre as opções de visitação e comunicação do ICNB.
O estudo não é seguramente perfeito e tem opções discutíveis (eu que participei no seu acompanhamento e aprovação seguramente teria meia dúzia de coisas sobre as quais gostaria de ter mais certezas) mas no essencial é um bom estudo, bastante exaustivo e com uma lógica muito consistente.
Mal mudou a Presidência do ICNB o estudo deixou de ser critério para a definição dos investimentos do ICNB nesta matéria, passando a vigorar o altíssimo (e seguramente aberto, transparente e democrático) critério do Director do Departamento respectivo, sem qualquer articulação entre os diferentes directores e os diferentes critérios (mesmo com cada director não é seguro que o critério seja o mesmo para todo o departamento).
De forma insidiosa e sistemática se foi fazendo crescer a ideia de que o estudo não servia, que não tinha sido exaustivo (leiam o link que deixo acima para aferir esta patetice), que as pessoas não tinham sido ouvidas (uma pura mentira, tanto mais indigna quanto era muitas vezes usada por pessoas que tinham estado muito envolvidas no estudo e o conhecem perfeitamente mas que sentindo o vento a mudar acharam melhor mudar rapidamente de cavalo).
Agora vejo que finalmente, sob o alto patrocínio do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Sr. Dr. António Costa, um rapaz sem qualquer influência no PS, parece que vão começar tudo de novo.
Tudo está bem quando acaba bem.
Finalmente o aparelhismo do PS parece estar em condições de conduzir a aplicação do dinheiro público que possa vir a estar disponível para a visitação das áreas protegidas, de forma a que não haja percalços e seja entregue a quem o merece.
Uma manobra que parece ter o também alto patrocínio do Sr. Presidente do Turismo de Portugal, antigo chefe de gabinete de Guterres e Sócrates e, ao que me dizem, um dirigente político que tem conduzido a sua carreira política mantendo a promessa que terá feito quando perdeu a única eleição a que concorreu: a presidência da Juventude Socialista.
Aos anos que isso foi. E a derrota ter-lhe-á sido tão amarga que terá prometido nunca mais concorrer a nenhum cargo electivo (pelo menos daqueles em que a eleição não é garantida, porque há lugares de deputado, por exemplo, que sendo em teoria electivos são na verdade nomeações). O que parece que tem cumprido.
O que o tem habilitado a uma carreira política sempre em ascenção, sem percalços de maior.
É assim, somos um país milionário, que nos damos ao luxo de desperdiçar o dinheiro dos contribuintes apenas para satisfazer birras pessoais e partidárias que todos conhecemos do tempo em que alguns donos da bola só deixavam os outros jogar se fossem eles a escolher a equipa em que jogavam, para terem a certeza de que ganhavam sempre.
E vale a pena acrescentar que se a relação de forças fosse a inversa é bem provável que tudo se tivesse passado apenas trocando PSD e PS onde aparecem escritos no post.
As ONGAs?
Parece que não sabem de nada. Desconhecem o que seja uma área protegida, nunca pensaram que as áreas protegidas precisavam de ser geridas, não lhes passou pela cabeça ter ideias sobre o que deve ser a visitação das áreas protegidas, nunca ouviram falar do programa de visitação e comunicação das áreas protegidas, nunca pensaram que seria bom não desperdiçar recursos na gestão de áreas protegidas, enfim, para sermos francos, seria pedir muito que as ONGAs em Portugal escrutinassem minimamente a gestão das áreas protegidas.
Elas existem para as grandes questões do nosso tempo, não para obrigar o Estado e a Administração a prestar publicamente contas sobre a forma como os interesses das pessoas são garantidos na aplicação dos recursos públicos gastos na gestão das áreas protegidas.
Uma choldra, um pardieiro, um curral, é que isto é. Alguns é que pensam que é um país.
Coitados, vivem amargurados pelas desilusões constantes.
henrique pereira dos santos

Viva a Ballantine's


henrique pereira dos santos (segundo um link de um comentário feito pelo Nuno)

sábado, julho 10, 2010

Agricultura urbana

Aconselho vivamente a leitura da discussão que se pode ver neste link.
Depois aconselho a ler sobre a campanha "eat the view", aqui ou aqui.
Talvez seja tempo de pensar mais consistentemente na integração dos sistemas produtivos primários (agricultura, pastorícia) nas funções urbanas.
Não estou a falar apenas de espaços urbanos, estou a dizer que as funções urbanas sempre incluíram a produção de alimentos e não há razão nenhuma para manter a separação criada pela revolução industrial e que é hoje dominante da gestão urbana. É certo que de vez em quando se cede a umas iniciativas mais ou menos folclóricas à roda das hortas urbanas, criando a ideia redutora de que a agricultura e pastorícia urbana é um mero arrebique decorativo.
Eu não estou de acordo.
Se quiserem ver mais de perto coisas relacionadas perguntem ao meu colega Jorge Cancela, que tem um trabalho notável de mobilização na Alta de Lisboa (já lhe sugeri que se candidatasse a presidente de Câmara com um programa baseado em meia dúzia de ideias de bom senso que transmitiu num inquérito que o Público faz aos Domingos, mas riu-se, infelizmente. Teimoso como sou, não perdi a esperança mesmo assim).
Este é o trabalho de base, começando na horta da varanda. Um dia chegaremos outra vez a ver olivais e trigais em Lisboa. Sem com isso estarmos a falar de espaços rurais, estaremos com certeza a falar de outros olivais e outros trigais, que se integram nas cidades como partes de pleno direito e contribuindo para cidades melhores, e não como resquícios de educação ambiental sem sustentabilidade e sem sentido.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, julho 09, 2010

Faça você mesmo

Desempregado? Com gosto pelo trabalho ao ar livre?
Leia com atenção e seja dos primeiros a entrar num negócio do futuro.

About City Grazing
Special thanks to the City of Denver for their great work in the field of raising city goats.
Why use goats in San Francisco?
There have been various approaches to weed control, none fully satisfactory nor efficient. Using goats is an efficient, holistic, environmentally healthy approach to weed control allowing us to restore degraded land in a shorter period of time. This is a novel, common sense approach that puts Denver on the cutting edge.
How do goats help restore natural areas?
Using goats is based on a natural process, like bison grazing the prairie.
Goats eat dried and fresh above- ground plant parts.
They break plants down into digestible pieces by their saliva.
Their hoof action also tramples plants into smaller pieces.
Plants slowly decompose releasing nutrients into the soil.
Goats also work desired seeds into soil with their hooves.
Goats can restore large areas in a shorter time period than people.
Why is using goats environmentally healthy?
Grazing is an alternative to mowing and herbicides.
Goats eat plants, eliminating debris and recycling nutrient elements.
They maintain beneficial soil organisms.
Goats exclude the use of heavy equipment minimizing soil disturbance and compaction.
Goats trample dried brush, create a natural mulch and add organic matter to the soil.
Why use goats instead of other methods?
Goat grazing is not a replacement, but another methods of weed control and land restoration. They can cover large areas in a shorter period of time than most manpower. Fifty goats average 1/2 acre per 8 hour day).
Goats are best used:
a) In sensitive areas near waterways, rivers and lakes where chemicals are prohibited.
b) On steep embankments difficult for people.
c) On ditches, canals, rocky and wooded areas where mowing or spraying are difficult or inadvisable.
d) In large areas where manpower is unavailable and costly.
e) On very degraded land where human efforts would take years.
Goats:
a) Do not bring weed seeds to the surface.
b) Do not disturb the soil organisms.
c) Do not extract soil nutrients.
d) Are not a potential risk to ground water.
Hand weeding:
Disturbs soil bringing more weed seeds to the surface.
Creates plant debris that goes to landfills.
Extracts nutrients from the soil.
Disturbs soil organisms.
Is labor intensive.
Mowing:
Uses heavy equipment that compacts soil.
Creates air pollution.
Leaves stubble, does not eliminate plant.
Herbicides:
May contaminate ground water.
May kill or disturb soil organisms.
Do not allow seeding at same time.
May damage desired vegetation.
May have risk to personnel.
How will using goats work?
We will use a small goat herd, 75 to 100 head of mostly Cashmere bred goats. They are easy to handle and friendly to people. Areas are enclosed by fence panels and protected with an Anatolian shephdeing dog.
In the spring, goats are used to:
1) Remove top growth, eat dried brush from previous year and early cool season weeds that either over wintered or recently emerge.
2) Work in desired seeds with their hooves while they graze.
Once an area is clean, the goats are moved to the next area and the process is repeated. Placing the goats in strategic areas and managing their time in the area are key factors. Babi Yar Park (Yale Street side is an example of how much can be accomplished with goats. There are numerous wildflower species now emerging.
In summer or fall the goats feed on emerging annuals and perennials:
1. Managing their time to feed on the perennials minimizes food reserves in the unwanted plants and prevents plants from going to seed.
2) Continuous grazing stresses the plants.
3) Reseeding at this time allows desired vegetation in late summer to compete.
4) On Cherry Creek we are using goats incombination with small beetles to reduce the invasion of leafy spurge.
Reseeding areas is necessary to:
1) Stabilize disturbed sites.
2) Replant with desired species.
How do we keep goats and people safe?
Safety is critical to the success of this program. The following condition will be put in place
1) The herder remains with the goats at all time.
2) Goats are enclosed panel fences with an Anatolian dog inside the fence and border collie outside the fence.
3) There is direct radio contact with Natural Areas, Parks staff, Animal Control and the goat herder.
4) Communities are kept informed including Parks staff, police and City Council.
5) Goats are not placed in dangerous situations e.g. where chemicals are in use.

City Grazing Goat Facts
Here are some interesting facts on goats, grazing, raising feeding and caring for goats!
Special thanks to Jean-Marie Luginbuhl of NCSU.
REPRODUCTIVE ASPECTS
FEMALE
Age of puberty 7-10 months
Breeding weight 60-75% of adult weight
Estrous cycle
Length 18-22 days
Duration 12-36 hours
Signs Tail wagging, mounting, bleating
Ovulation 12 to 36 hrs from onset of standing heat
Gestation length 146-155 days
Breeding season August-January
Seasonal anestrous February-July
Buck effect on estrous Positive
MALE
Age of puberty 4-8 months
Breeding age 8-10 months
Breeding season All year
Breeding ratio 1 buck : 20 to 30 does
PHYSIOLOGICAL DATA
Temperature 101.7-104.5 F
Heart rate 70-80/minute
Respiration rate 12-15/minute
Ruminal movements 1-1.5 /minute
RULES FOR GOAT HEALTH
* Provide proper housing
* Practice good sanitation
* Provide adequate nutrition
* Provide clean water
* Observe how much feed (hay, minerals, concentrate) is left over
* Observe your animals daily
* Observe the feces of your animals
* Clean pastures and exercise lots
* Become familiar with the common diseases
* Investigate the source of strange smells
* Use your veterinarian for diagnosis
A HEALTHY GOAT
* Eats well
* Chews its cud
* Has a shiny coat
* Has strong legs and feet
* Is sociable
* Has bright and clear eyes
SIGNS OF ILLNESS
Off feed, water Diarrhea
No sign of cud chewing Runny eyes
Standing apart from group Limping
Rough hair coat Hair falling out
Abnormal temperature Swelling on any part of body
Heavy mucous in nose and mouth Pale mucosa of eyes and mouth
PURCHASED ANIMALS
Upon arrival on farm,
* Isolate animals for a month
o Vaccinate
o Deworm
o Test for certain diseases
o Coccidiosis control program
o Identification tag
o Other
HERD HEALTH PRACTICES
Vaccination program
If possible always weigh animals prior to vaccination to 1) calculate and inject the correct dosage of the vaccine(s) and 2) assess body condition
Enterotoxemia and tetanus - Clostridium perfringens C, D + T
Adult males
Once a year
Breeding females
Once a year (4 to 6 weeks before kidding) or twice a year: 4 to 6 wk before breeding, then 4 to 6 wk before kidding
Kids
Week 8, then booster on week 12
Deworming program
If possible, always weigh animals prior to deworming to 1) calculate and inject or drench the correct dosage of the dewormer and 2) assess body condition. Underdosing of goats because of failure to weigh the animals or because of underestimating their live weight is a very common but costly mistake because this may lead to parasite resistance to dewormers. Therefore, determine dose according to heaviest animal in the group. On the other hand, overdosing of certain dewormers can cause health problems. If deworming animals before kidding, make sure that dewormer is safe for pregnant does.
Adults
* 2 to 3 weeks prior to breeding
* Avoid early pregnancy (20 to 60 days)
* 2 to 3 weeks prior to kidding or at kidding
* Strategic
Kids
* Day 30
* Day 60
* Strategic
During warm, wet weather it is advisable to take fecal samples 10 days after deworming in order to determine fecal egg counts and effectiveness of dewormer
Coccidiosis control
Coccidiosis usually strikes young animals during periods of stress such as weaning. Level of control depends on the level of infestation
At weaning
* Coccidiostat drench
* Coccidiostat in water tank
At other times (if necessary)
* Mineral with Bovatec
* Decoquinate in feed
KID HEALTH PRACTICE
* At birth
o Dip navel in iodine
o Kids should ingest 10% of their live weight in colostrum during first 24 hours of life. Colostrum should be ingested or bottle-fed (in case of weak kids) as soon as kids have a suckling reflex. In cases of extremely weak kids, they should be tube-fed. The producer must be certain that all newborn kids get colostrum soon after birth (within the first hour after birth, and certainly within the first 6 hours) because the percentage of antibodies found in colostrum decreases rapidly after parturition.
* Castration
o Knife
o Emasculator
o Elastrator
(The question is: why castrate if you will sell your buck kids for meat at 4 to 5 months of age?).
If not castrated, buck kids should be seperateed from doe kids at weaning.
FLUSHING
Feeding strategy to increase ovulation rate
Starting 3-4 weeks before the breeding season, and throughout the breeding season, increase the plane of nutrition of does to be bred
* Switch them to high quality pasture or
* Supplement them with 1/2 lb cracked corn/head/day or 1/2 lb whole cottonseed
AFTER BREEDING
To insure proper embryo development
During the first month of pregnancy
* Keep the plane of nutrition similar to that of flushing period
IMPORTANT PRODUCTION TRAITS
* Adaptability
o Ability to survive in given environment
o Ability to reproduce in given environment
o Is a lowly heritable trait
* Reproduction
o Conception rate
o Kidding or prolificacy rate
o Non-seasonality
* Growth rate
o Pre-weaning gain
o Post-weaning gain
* Carcass characteristics
o Dressing percent
o Lean:fat:bone
o Muscle distribution
BODY CONDITION SCORE
* To monitor and fine tune nutrition program
* To "head off" parasite problem
* Visual evaluation is not adequate, has to touch and feel animal
* Areas to be monitored
o Tail head
o Ribs
o Pins
o Hocks
o Edge of loin
o Shoulder
o Back bone
o Longissimus dorsi
* Scale
o
Thin 1 to 3
o
Moderate 4 to 6
o
Fat 7 to 9
* Recommendations
o
End of pregnancy 5 to 6
o
Start of breeding season 5 to 6
o Animals should never have a body condition score of 1 to 3
o Pregnant does should not have a body condition score of 7 or above toward the end of pregnancy because of the risk of pregnancy toxemia
o A body condition score of 5 to 6 at kidding should not drop off too quickly
FENCING
PERIMETER FENCE
* Smooth electrified wire
o At least 42 inches tall
+ 6 to 8 inches near the ground
+ 8 to 12 inches at the top strands
# Example (inches from the ground): 6 - 14 - 22 - 32 - 42 - (52)
PERIMETER FENCE
* Woven wire (6" X 6")
o Effective
o Costs at least twice as much as 5 strands of smooth electrified wire
o Horned goats can get caught
+ Place an electric wire offset about 9 inches from the woven wire fence and about 12 to 15 inches from the ground
+ Reduces control of forage growth at fence line
* Woven wire (6" X 12")
o Effective
o Cheaper
o Horned goats usually do not get caught
INTERIOR FENCES
* Two to three wires (braided or tape) with tread-in posts
* Electronet
GRAZING MANAGEMENT
In a pasture situation, goats are "top down" grazers. They start to eat seedheads or the top of the canopy and progressively take the forage down. This behavior results in uniform grazing. Goats do not like to graze close to the ground. Grazing goats have been observed to 1) select grass over clover, 2) prefer browse over grazing, 3) graze along fence lines before grazing the center of a pasture, 4) refuse to graze forage that has been trampled and soiled. These observations have been put to use in the grazing management of goats: it is preferable to give them a daily allowance of forage and to move the fence accordingly rather than to let them roam freely in a large pasture. This type of management, called control grazing, was developed in Europe and is implemented very successfully in New Zealand and numerous other parts of the world. Control grazing results in better animal performance, higher stocking rates, and increased pasture productivity.
SO, YOU WANT TO GET IN THE GOAT BUSINESS
Are you really, really ready?
* Are your fences, pens, chutes goat proof
* Is your grazing land adequate
* Do you have sufficient supplemental feed on hand
* Is your predator controller in place
* In your medicine cabinet, do you have
o Dewormers
o Vaccines
o Iodine
o Antibiotic ointment
o Insecticidal powder
o Thermometer
o Stomac tube
o Hoof trimmers
* Have you discussed your new venture with your local veterinarian?
* Have you alerted your next door neighbors to the possibility of excessive noises, exotic odors, sexual activity during the breeding season, animals getting out, and allayed their fears of the spreading of diseases?

henrique pereira dos santos (com os meus agradecimentos a quem me mandou o link)

quinta-feira, julho 08, 2010

Sobre consensos e credibilidade dos especialistas climáticos

Vale a pena ler o artigo que saiu hoje na prestigiada revista PNAS da Academia de Ciências dos EUA:

Although preliminary estimates from published literature and expert surveys suggest striking agreement among climate scientists on the tenets of anthropogenic climate change (ACC), the American public expresses substantial doubt about both the anthropogenic cause and the level of scientific agreement underpinning ACC. A broad analysis of the climate scientist community itself, the distribution of credibility of dissenting researchers relative to agreeing researchers, and the level of agreement among top climate experts has not been conducted and would inform future ACC discussions. Here, we use an extensive dataset of 1,372 climate researchers and their publication and citation data to show that (i) 97–98% of the climate researchers most actively publishing in the field surveyed here support the tenets of ACC outlined by the Intergovernmental Panel on Climate Change, and (ii) the relative climate expertise and scientific prominence of the researchers unconvinced of ACC are substantially below that of the convinced researchers.


Ver artigo completo aqui

Gondramaz, a chanfana e o resto

Clicar para ler o texto delirante que retrata melhor os mundos idílicos que existem na cabeça de quem o escreve que a verdadeira realidade da aldeia retratada
"Miranda do Corvo
Locais a visitar
Aldeia do Gondramaz
O Gondramaz é uma pequena aldeia de xisto encravada na serra de Vila Nova, cuja origem se perde nos tempos. Com meia dúzia de habitantes fixos, a aldeia é actualmente alvo de um programa de reabilitação por estar inserida na Rede das Aldeias de Xisto. A tipicidade das suas casas e dos seus moradores - de onde sobressai o escultor Carlos Rodrigues - faz deste pedaço de paraíso natural um local a visitar e descobrir. Com a evolução dos tempos e a busca de melhores e mais dignas condições de vida, a Aldeia foi sendo substituída pela Cidade, e a estas comunidades onde fervilhava gente deram lugar os largos abandonados de conversas, onde aqui e ali se sentam os que ficaram e esperam lentamente que o ponteiro dos segundos passe, ansiando que o Verão chegue e traga de volta aqueles que o vento levou para longe. Durante a subida da montanha vamo-nos apercebendo de vários pontos de miragem sobre a vila de Miranda do Corvo e das encostas das montanhas de uma beleza rara de vegetação que vai escorrendo e envolvendo a íngreme depressão até ao sopé, terminando numa euforia de verde. A fauna, esconde-se no embrenhado da flora, mostrando-se aqui e ali de uma forma tímida. Veados e javalis dividirão com o aventureiro os caminhos pedonais que se abrem diante dos seus olhos e que o guiam neste passeio pedestre. Chegados ao cimo da montanha, deixando para trás a aldeia do Cadaval, abandonada, pinta-se perante os nossos olhos, um quadro feito pelos deuses. As elevações e depressões, as várias tonalidades de verde, toda a paisagem parece não ter fim. O percurso continua, sobre os caminhos de terra batida, levando-nos à explosão de beleza máxima e ao terminus do percurso: a aldeia do Gondramaz. Ergue-se do solo uma aldeia que de uma forma envergonhada se mostra por detrás da vegetação. A sensação é esmagadora. A sinaléctica indica-nos os pontos de referência da aldeia e dá-nos a conhecer os seus segredos. A audição é envolta de um som forte, por uma música de uma pauta escrita pelas asas das abelhas. O cheiro é extasiante, de um odor de verde da natureza. O sabor está envolto no gosto delicioso das castanhas que envolvem o chão. A aldeia do Gondramaz é um exemplo puro de várias vidas que se perdem no tempo e no espaço. Para além da sua localização, afastada do mundo do século XXI, do corrupio das vidas agitadas, no Gondramaz o relógio parou há muito. Os seus habitantes envelhecidos, alimentam as horas do dia com a refeição da solidão. O Gondramaz é, sem dúvida, o símbolo da adequabilidade ao local, da natureza, da arquitectura popular que, felizmente, se preservou ao longo das gerações. Aqui os únicos cinco residentes vivem da pastorícia e da agricultura, a que, de uma forma tão apaixonada, dedicam a vida, os dias."

Gondramaz vale a visita, sem dúvida.
Mas não sei de que mais me espantar, se do texto delirante sobre a duríssima vida das aldeias isoladas com que as terras do xisto promovem a aldeia (tipicamente publicidade enganosa), se do texto contraditório que a Câmara de Miranda usa na sua promoção, mas apesar de tudo bastante mais realista.
A produção primária destas aldeias está entalada entre as visões idílicas das terras do xisto, assente na ideia de que é possível um turismo que resgate este mundo gerindo aparências, e a resignação dos responsáveis que não acreditam que o trabalho da sua terra possa ser competitivo.
Só isso parece explicar que um município, ao mesmo tempo e no mesmo cartaz, se intitule capital da chanfana e defensor estrénue da floresta que depende de todos e foi erguida contra as cabras.
Aparentemente não passa pela cabeça dos munícipes (sim, dos munícipes, não apenas dos responsáveis) que a chanfana depende de um sistema competitivo de produção de cabras que é preciso reinventar, investindo em conhecimento e inovação, para o conciliar com a floresta, a escassez de braços e os novos contextos sociais.
Aparentemente ser capital da chanfana não traz responsabilidades sobre a sustentabilidade da produção de cabra.
Aparentemente ser capital da chanfana significa investir milhões na defesa da floresta de onde a cabra é afastada, significa investir milhares em programação cultural para criar um turismo que substitua a produção de cabra como base económica, mas não significa o menor esforço a pensar e investir na cabra.
Miranda do Corvo é apenas um exemplo, não é substancialmente diferente de grande parte do resto do país.
E repito, Gondramaz vale a visita.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, julho 07, 2010

Sschiuu!





henrique pereira dos santos

Fogos e conservação de Quirópteros



Nos últimos anos foram investidos recursos financeiros na construção e melhoramento de pontos de água para o combate a incêndios. O principal objectivo destes pontos de água é aumentar a disponibilidade de água para as viaturas de combate a incêndios e para os meios aéreos (helicópteros), contudo, estas estruturas representam uma mais-valia para os morcegos. No Norte de Portugal, estas estruturas estão normalmente instaladas em locais bastantes arborizados, altos e isolados (hidrologicamente), aumentando assim a disponibilidade de água potável para este grupo faunístico beber. Estes pontos de água são locais propícios para a inventariação e o estudo da sua diversidade, uma simples sessão de captura num deste pontos de água pode resultar na inventariação de 7-8 espécie apenas numa noite, que por si só expressa a importância deste tipo de estrutura para este grupo faunístico.
Apesar de esta medida (construção melhoramento de pontos de água para incêndios) não ter o objectivo de beneficiar os Quirópteros, esta, representa uma óptima medida de conservação de Quirópteros (das pouca implementadas com este âmbito), principalmente para as espécies florestais, foi pena que a avaliação concreta do benefício da construção destas estruturas para a conservação de Quirópteros não tenha sido devidamente avaliada.
A degradação destes pontos de água em alguns locais é evidente, dificultando a acessibilidade dos morcegos a estas estruturas, os bichos agradeciam a sua manutenção...