quinta-feira, dezembro 31, 2009

É bom saber bem o preço do almoço


Estive a ler dois estudos da APREN: um sobre os benefícios das energias renováveis (impacto económico, impacto no emprego e impacto ambiental) e outro sobre a tarifa aplicada a estas energias.
Não sou especialista e confesso que fiquei com algumas dúvidas sobre a forma como o assunto é tratado, dúvidas essas que gostaria de partilhar.
A primeira opção que me faz confusão é a do estudo sobre os benefícios das energias renováveis incluir toda a grande hídrica, o que complica toda a análise, sem que se percebam as vantagens de discutir a grande hídrica neste contexto.
Só para dar um exemplo de como a análise se complica com esta opção, basta pensar nos impactos ambientais. No estudo apenas se discutem emissões, o que pode ser uma opção aproximada da realidade para a eólica, ou a fotovoltaica, cujos impactos ambientais directos são razoavelmente escassos. Mas para o fazer para a grande hídrica seria necessário entrar em linha de conta, por exemplo, com os impactos das barragens na linha de costa e no déficit de sedimentos, ou com os seus pesados impactos na biodiversidade, matérias em que o estudo nem sequer toca.
Da mesma forma, toda a discussão económica se complica porque a grande hídrica não tem tarifas especiais e existe desde meados do século XX, o que significa que muito do que se diga sobre o seu impacto económico é quase história.
Mas adiante, tentando fugir dos problemas que esta opção introduz.
No estudo é feito um cálculo da redução das importações que é bastante estranho. Em primeiro lugar apenas contabiliza as importações evitadas mas não as induzidas pelo investimento em renováveis (que as há, evidentemente, em tecnologias, equipamentos, energia, etc.). E depois contabiliza o valor das importações evitadas mas não explica a que preço. Por exemplo, com o estudo sobre a tarifa, em que não entra a grande hídrica, ficamos a saber que para poupar 290 milhões de euros em importações gastamos 662 milhões. É um conceito de poupança um pouco estranho, mesmo tendo em atenção que se está a substituir uma importação por uma produção interna.
Outra das coisas interessantes é que apesar da produção ter aumentado substancialmente, o peso das renováveis no consumo mantém-se estável, ou seja, o crescimento da produção de renováveis não tem servido para substituir consumos de combustiveis fósseis (e em todos os estudos se fala sempre apenas da electricidade quando no consumo energético a electricidade é apenas uma parte e nem sequer a maior) mas simplesmente para manter o mesmo grau de cobertura dos consumos, o que quer dizer que o crescimento do consumo (de electricidade, a situação é bem pior se incluirmos os outros consumos energéticos) anula grande parte da vantagem ambiental do crescimento da produção de renováveis.
O mais difícil de aceitar para mim é a análise do impacto macro-económico. A verdade é que o estudo não entra em linha de conta com o aumento do custo da energia na competitividade dos nossos produtos transacionáveis (quer na exportação, quer no confronto com produtos importados), o que não seria grave porque a maior parte do sobrecusto da produção de renováveis assenta nos consumidores não industriais, contra toda a lógica de uma política de eficiência energética. Mas, o que já me parece pouco compreensível, não entra também em linha de conta com o efeito da perda de rendimento nas classes médias induzido pelo sobrecusto do preço de electricidade induzido pelas renováveis (0,008 por Kwh em 2008, um pouco mais de 5% da factura eléctrica de cada consumidor, mas este foi um ano especialmente favorável, com o petróleo a preços muito altos. Em anos normais esse sobrecusto aumenta, provavelmente até aos 15%).
O cálculo da redução da dependência energética não é feito com base nos saldos de importação e exportação, mas apenas com base nos valores de energia produzida que é considerada integralmente como produção de substituição de importações, o que pode nem sempre ser verdade. Visto as centrais termo-eléctricas terem de manter uma produção mínima (que é relevante) muita da energia eólica produzida irá substituir a produção hidro-eléctrica. Dir-se-á que em qualquer caso isso se traduz num maior armazenamento a usar noutras alturas. Sim, poderá acontecer, mas na cascata do Douro, em que não há capacidade de armazenamento, não é bem assim. Ou seja, o estudo parece demasiado simplista nalguns aspectos relacionados com a redução da dependência energética (não discutindo sequer se vale a pena assumir como intrinsecamente boa essa redução, matéria em que os economistas não estão todos de acordo).
Note-se, em qualquer caso, que como nas renováveis se incluíram todas as hídricas, alguns destes factores actuam há cinquenta anos, se que se vislumbre bem de que forma reduziram a dependência energética de Portugal e o seu crónico endividamento.
Com tudo isto não quero dizer que não há razões para investir em renováveis, que as há, dentro de limites razoáveis.
O quero realçar é que não é escondendo o preço do almoço que se consegue almoçar com a melhor relação qualidade preço.
O preço de ter renováveis deveria, pelo contrário, ser bem explícito e evidente. Ao fazê-lo talvez começasse a poder comparar-se com os custos das várias alternativas, incluindo os custos de redução de consumos e de investimento em eficiência energética.
Pode ser que assim surgissem nestes estudos indicações sobre o custo e benefício da água quente solar. É escandaloso o uso de tarifas astronómicas para pagar electricidade em centrais fotovoltaicas ao mesmo tempo que a água quente solar continua a ter o apoio que lhe foi dado no programa absurdo que foi montado este ano.
Não resisto a referir que se a poupança de energia com a água quente solar fosse paga ao preço do Kwh fotovoltaico, o país rapidamente estaria a instalar paineis solares térmicos em todos os cantos e esquinas, com benefícios económicos e ambientais muito mais relevantes. É que nas contas da água quente solar as análises de custo/ benefício as poupanças são valorizadas pela tarifa final ao consumidor (consideremos por exemplo a tarifa de 0,13 euros por Kwh), o que implica o retorno do investimento na casa dos sete/ oito anos. Acontece que a tarifa de compra da electricidade solar fotovoltaica anda acima dos 0,30 euros pro Kwh (corrijam-me os dados por favor). Ou seja, calculando a energia poupada por painel de solar térmico, uniformizando-a em Kwh, e aplicando a valorização assim obtida aos estudos de custo/ benefício da instalação de paineis solares térmicos, o tempo de retorno do investimento seria pelo menos duas vezes menor. Se esse benefício que hoje existe ao tarifário fotovoltaico fosse transformado num subsídio à compra de painéis solares térmicos (digamos, a energia poupada em cinco anos, por exemplo), mesmo que se lhe juntasse o custo financeiro associado a antecipar todo o benefício de cinco anos para o momento da compra (por forma a evitar a ilusão financeira que leva as pessoas a optar por comprar mais barato agora, gastando mais a vida toda), era bem provável que o investimento em paineis solares térmicos explodisse e a poupança assim conseguida continuasse a ter efeitos económicos positivos no resto da vida útil dos painéis, em vez de pesar na conta da electricidade de todos durante pelo menos quinze anos, como acontece com a actual tarifa do fotovoltaico.
O mesmo se poderia dizer da poupança induzida por soluções mais eficientes energeticamente, quer nos edifícios, quer na produção.
Repito, para que não existam dúvidas, que sou fortemente favorável à produção de electricidade a partir de fontes renováveis. Mas não embarco em cenários cor de rosa em que os benefícios são empolados e os custos varridos para debaixo do tapete.
Com tudo o que tem sido feito para produzir a partir de fontes renováveis a importação de produtos petrolíferos continua a aumentar porque a política energética portuguesa é desastrosa, ambiental e economicamente.
Entre outras razões porque se foge da discussão económica do assunto, substituindo-a por uma propaganda agressiva sobre a produção de electricidade a partir de fontes de energia renováveis. Um exemplo típico de como boas intenções ambientais podem ser manipuladas para justificar opções económicas provavelmente erradas.
Os estudos da APREN, que tanto quanto sei irão ser disponibilizados no seu site, são instrumentos importantes para esta discussão, em especial o estudo sobre a tarifa e as razões que justificam a tarifa especial da eólica (em rigor, eu ainda não percebi o que justifica a tarifa especial da fotovoltaica tão elevada) que me parece bem mais sólido que o estudo da Deloitte sobre os benefícios da produção de energia a partir de fontes renováveis, quanto a mim excessivamente cor de rosa e omitindo questões demasiado relevantes.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, dezembro 30, 2009

A rolha e o boicote - parte 2

Dando continuidade a uma resposta minha a este post do HPS, resolvi enviar um e-mail à empresa que produz o vinho em causa (Quinta do Côtto), no dia 1 de dezembro. Recebi ontem a resposta do CEO da empresa (Sr. Miguel Champalimaud), datada de 16 de dezembro.

Penso que a resposta, aparentemente pública, é muito interessante, e surpreendente pela forma e conteúdo. Sendo bastante extensa, merece uma análise cuidadosa, mas para já não queria privar os leitores do Ambio da leitura da resposta.

Em breve procurarei transmitir a minha interpretação da resposta num terceiro post sobre esta matéria, que me parece muito relevante pela atualidade e pela visão sobre ambiente, comércio e conservação.

O texto do meu e-mail à Montez-Champalimaud foi o seguinte:

Ex.mos Srs.,
Recentemente foi publicado nos meios de comunicação escrita um anúncio do seu conhecido vinho Quinta do Côtto, no qual se destacava o facto da tradicional rolha de cortiça ser substituída por um vedante tipo "screwcap".
Este anúncio foi recebido por muitas pessoas com desagrado e reprovação, considerando o facto de a rolha ser um elemento importantíssimo na sustentabilidade económica de um ecossistema característico de Portugal e de elevadíssimo valor ambiental e social: o montado de sobro. Com o exemplo que a sua empresa está a dar, mostra a sua insensibilidade para a preservação do montado de sobro e, com ele, todo um sistema socio-económico das zonas rurais de Portugal.
Estou plenamente ciente das vantagens comerciais dos screwcaps, mas também estou em crer que a utilização da rolha como evidência do empenho ambiental e social da sua empresa e do contributo que dá à sustentação de um elemento que pertence à herança ambiental e cultural de Portugal. A rolha é, em vez de um problema meramente técnico, uma excelente oportunidade de comunicação com o exigente público consumidor dos seus (excelentes, que se diga) vinhos.
Para ver que o seu anúncio não ficou despercebido, veja: http://ambio.blogspot.com/2009/11/por-mim-boicoto.html
Com os meus melhores cumprimentos,
Henk Feith


Segue aqui a resposta:

Apreciadores de Vinhos e Outros

Assunto: ScrewTop /TampadeRosca /Quinta do Côtto

Na sequência da recente campanha publicitária ao vinho Quinta do Côtto, chegaram-me algumas reacções à mesma.

Sendo minha opinião que todo o debate de ideias, é útil, é com agrado que a ele me submeto, respondendo directamente àqueles que se me dirigiram e indirectamente àqueles que sobre a matéria, vinho e vedantes, têm curiosidade e opinião.

Para simplificação da elaboração dos meus comentários/resposta às reacções, dividi-os em quatro grandes tipos, a saber:

A. A gente da indústria corticeira, ex. APCOR, Ecologicalcork.com, Empregados das Corticeiras, etc, etc,.

B. A gente do Viva a Pátria, ex. cortiça produto nacional, a preservação do montado de sobro, do ambiente, de todo um sistema socioeconómico das zonas rurais de Portugal, ecossistemas únicos, etc, etc.

C. A gente da tradição dos costumes, do produto natural, etc, etc.

D. A gente da retaliação e boicote, etc, etc.


ROBERT PARKER disse:

“Acredito que em 2015, vinho engarrafado com rolhas será uma minoria. A indústria da cortiça não investiu em técnicas que evitem a transmissão ao vinho do sabor e aroma a rolha, que arruínam até 15% de todo o vinho engarrafado”.


Eu, MIGUEL CHAMPALIMAUD, digo:

“Sou a favor da inovação, da qualidade e modernidade do vinho”;

“sou a favor da verdade achando que chegou a altura de assumirmos, ao nível da indústria-vinícula, o que há mais de 40 anos, por razões óbvias, se usa em todas as universidades e ou centros de investigação vinícola, os screwtops/tampasderosca, único sistema vedante que garante eficazmente o não contágio do vinho que se encontra na garrafa, por produtos aromas e sabores que lhe são estranhos”;

“sou a favor da eficácia e produtividade e contra as falácias e os preconceitos que só defendem e servem aqueles que estão instalados à custa do bem-estar e pobreza de terceiros”;

“numa garrafa de vinho, a rolha é apenas uma matéria subsidiária, um vedante que deveria preservar o vinho que a garrafa contém e nunca arruiná-lo”;

“sou a favor dos ventos da História, recusar o progresso científico e tecnológico de nada serve, nem serviu então àqueles que, no seu tempo, foram a favor da destruição das máquinas a vapor”.


1. Dito o que, é minha convicção, sinto e penso, permitam-me deduzir e aduzir alguns argumentos e factos sobre a matéria, screwtops/tampasderosca versus rolhas de cortiça, a saber:

1.1 A gente da indústria corticeira é a única responsável pelas dificuldades com que se debate a rolha de cortiça e os produtores de cortiça. Ao não investirem há muitos anos na qualidade e fiabilidade do produto e aumentando desmesuradamente os preços das rolhas, abriram espaço aos novos vedantes nomeadamente às screwtops/tampasderosca. Os produtores de cortiça constituindo o elo mais fraco do sistema, não deixam de ser responsáveis de, pela sua falta de reacção, individualismo e passividade, terem permitido que se tenha constituído um quase monopólio no lado da industria que, abusando da sua posição dominante a montante e a jusante, sugou até ao tutano a industria vitivinícola nacional e internacional.

1.2 A gente do viva a Pátria como sempre e é próprio da História recente de Portugal, é um grupo social, reaccionário, que a coberto do amor dos outros pela pátria e do interesse dito nacional, se enriquece diariamente, empobrecendo todos os dias todo o país, pelo que nada mais há para lhe dizer, a não ser que há muito, ninguém acredita neles.

1.3 A gente da tradição dos costumes, do produto 100% natural, não resiste à realidade dos factos que todos vêem e eles não querem ver. Como todos sabemos na indústria vinícola, a rolha de cortiça como vedante de vinho, não é parte da tradição e costume. Há poucos anos (40 a 50), a tradição e o costume do vinho em todo o lado, era ser servido e bebido a partir da pipa, pelo que cai pela base a alegada ancestral tradição e costume de vedar as garrafas de vinho com rolhas de cortiça. Quanto ao 100% natural, não vêem nem querem ver o que todos na industria da cortiça e vinícola sabem há muito - todas as rolhas de cortiça são hoje tratadas com diversos produtos químicos, visando obter rolhas que em contacto com o vinho não lhe transmitam poeiras, odores e sabores alheios ao vinho que é suposto preservar, como vedante da garrafa em que são utilizadas.

Cito um pequeno exemplo constante do site Lusowine.com, António Amorim, defendendo como lhe compete a indústria da cortiça, falando das rolhas técnicas como a grande solução, diz: “Nas colagens são utilizados aglutinantes quimicamente estáveis, e mecanicamente muito resistentes”.

Diria, eu, pela indústria corticeira, são utilizadas colas químicas estáveis, segundo o Senhor António Amorim, o que não nos garante nada, na medida em que o Senhor António Amorim é interessado directo na afirmação de que tais aglutinantes ou melhor dizendo, colas, são quimicamente estáveis e não vão mais tarde ou mais cedo transmitir odores e sabores ao vinho com o qual por força das coisas estão em contacto.

1.4 A gente da retaliação e boicote, não representam mais do que a reacção de um grupo de pessoas com falta de informação e ou a mando e no interesse de terceiros que, na falta de argumentos sólidos para atacarem o moderno sistema dos screwtops/tampade rosca e defenderem o antiquado sistema de rolha de cortiça com o seu elevado deficit de fiabilidade/qualidade e custo 5 a 9 vezes mais elevado que o screwtops/tampaderosca, fazem consciente ou inconscientemente, o jogo de quem, ao abrigo de um quase monopólio e permanente abuso de uma posição dominante, usa e abusa da indústria vinícola nacional e internacional, enriquecendo ilicitamente à custa do empobrecimento daquela.


2. Antes de terminar, a título pedagógico e para reflexão de todos os interessados, deixo factos, comentários e perguntas que abaixo se transcrevem e que agradecia originassem reflexão, comentários e respostas:

2.1 a tampaderosca evita mão de obra penosa em casa e na industria hoteleira;

2.2 a água mineral com gás ou sem gás, há muito que deixou de usar cortiça como vedante;

2.3 a cerveja há muito que deixou de usar cortiça como vedante;

2.4 os medicamentos há muito que deixaram de usar cortiça como vedante;

2.5 os refrigerantes há muito que deixaram de usar cortiça como vedante;

2.6 uma tampa-de-rosca custa cerca de 1/5 a 1/9 de uma rolha de cortiça e a respectiva cápsula;

2.7 um produtor de vinho paga mais dinheiro por uma rolha de qualidade do que recebe pela venda a granel do respectivo vinho (refiro-me a 0,75 lt);

2.8 de acordo com dados da industria estima-se que cerca de 65% do vinho engarrafado vendido no mundo é comprado por mulheres;

2.9 estima-se ainda que 75% das mulheres que compram e bebem vinho têm dificuldade em abrir uma garrafa de vinho usando um saca rolhas;

2.10 de acordo com o norte americano Robert Parker, famoso apreciador e avaliador de vinhos, até 15% de todo o vinho engarrafado e vedado com rolhas de cortiça, está afectado com sabores e aromas estranhos ao vinho;

2.11 porque é que ninguém protesta ou boicota a industria de água mineral, cerveja, refrigerantes, medicamentos que deixaram de usar a cortiça como vedante?

2.12 porque será que todos aqueles sectores industriais deixaram de usar a cortiça como vedante?;

2.13 porque é que na indústria da construção não se usa, em Portugal ou no mundo, a cortiça como isolante?;

2.14 Porque é que na indústria da construção se usa, em Portugal e no mundo, como isolante produtos derivados do petróleo?;

2.15 Se for comprar uma garrafa de água mineral e tiver oportunidade de escolher entre uma garrafa vedada com rolha de cortiça e outra com tampaderosca, ao mesmo preço, qual delas compra?;

2.16 idem para garrafas de leite?;

2.17 idem para garrafas de cerveja?;

2.18 idem para garrafas de refrigerantes?;

2.19 Se comprar uma televisão para sua casa, compra também um armário para a pôr lá dentro, como fazia a sua avó ou avô nos anos 60?;

2.20 Quando vai comprar ou abrir uma garrafa de vinho fá-lo na expectativa de comer/beber a rolha?;

2.21 numa garrafa de vinho barato ou caro o que é mais importante, a qualidade intrínseca do vinho que lá está dentro, ou o vedante ser uma cara rolha de cortiça ou uma tampaderosca moderna barata, fiável e eficiente?


16 DEZ 2009

Aquecimento Global: Ser ou Não Ser e o que Fazer (eis as questões)!

O cenário apresentado nas televisões e jornais é por vezes apocalíptico: secas, desertificação, subida drástica dos oceanos, furacões, destruição e morte. Perante tais riscos ninguém em consciência pode ficar indiferente. E no entanto, compreende-se que sejam muito diversas as reacções ao problema: Há os que concordam; os que discordam; os que não sabem e os que não querem saber. Há os que criticamente concordam e os que criticamente discordam. Há os que aceitam o aquecimento mas que peremptoriamente excluem a influência humana. Há também os que ridicularizam as opiniões do "outros lados", os que não querem que se fale das opiniões diferentes das suas, os chamados cépticos, os chamados crentes. Há os que se refugiam na Ciência e os que a distorcem apenas para suportar a sua opinião pessoal.

Apesar de toda esta diversidade, há a tendência simplista de identificar apenas dois grupos: os a favor e os contra. Eu sou um dos que criticamente concorda com a possibilidade forte de existir um problema muito sério de aquecimento global, e que para tal pode estar a haver um contributo determinante das actividades humanas. Sou também um dos que separa claramente os dois aspectos fundamentais na abordagem ao problema: o aspecto científico e o aspecto político.

A Ciência ocupa-se com a compreensão do clima [1] e também, eventualmente, com o desenvolvimento de tecnologias que poderão (ou não) ajudar na minimização do problema. Em última análise, será esta a determinar a verdade das coisas (ou para ser cientificamente mais rigoroso: a que excluirá as conjecturas falsas).

A Política (no bom sentido do termo) será a que escolherá o caminho que se irá percorrer para lidar com o problema.

É muito importante compreender que muito embora a escolha de políticas (o que fazer) se deva basear no conhecimento científico existente, é também fundamental ter-se em conta as incertezas científicas existentes e os riscos associados às diferentes escolhas (incluindo a não escolha, ou seja, nada fazer). Se a política se fizesse apenas com base em certezas próximas do absoluto, pouco ou nada se faria. Todos nós na nossa vida do dia-a-dia fazemos escolhas (políticas) sem termos todo o conhecimento e informação disponível. Assim, por exemplo, num dia de nevoeiro cerrado, escolhemos conduzir o carro a uma velocidade moderada, mesmo sem termos a certeza de haver um obstáculo à frente. As escolhas que fazemos tentam minimizar o risco que corremos quando fazemos a escolha errada. Quanto maiores são os riscos envolvidos, mais tendemos a fazer isso mesmo.

Será então que todo este frenesim climático resulta de uma obscura conspiração internacional de inacreditável ignorância científica e paranóia colectiva, ou será que existem razões científicas fortes que justifiquem a preocupação com os gases de estufa antropogénicos em particular o dióxido de carbono (CO2)?

Poucas dúvidas haverá de que existem de facto razões para essa preocupação. Simplificando o problema eu identificaria quatro factos que desde logo me parece que justificam essa preocupação:
  1. O CO2 é um gás com efeito de estufa na atmosfera. É transparente no espectro da luz visível, deixando entrar a luz solar, e razoavelmente opaco no espectro dos infravermelhos, retendo o calor emanado da Terra;
  2. O tempo médio de permanência do CO2 na atmosfera é muito elevado (dezenas senão mesmo centenas de anos);
  3. O aumento da concentração de CO2 na atmosfera tem crescido significativamente desde o início da queima em grande escala de carvão, de petróleo e outros combustíveis fósseis. Neste momento essa concentração é a maior desde, pelo menos, os últimos 650 mil anos;
  4. Esse aumento tem claramente origem nas actividades humanas (queima de combustíveis fósseis e desflorestação).
Apesar destes factos é cientificamente importante chamar a atenção que o sistema climático é muito complexo não sendo o seu comportamento determinado somente pela existência de gases com efeito de estufa (dos quais, curiosamente, o mais importante não é o CO2 mas sim o vapor de água). Há uma influência absolutamente decisiva do Sol, quer nas variações que este vai tendo ao longo do tempo quer no tempo médio de exposição solar nas várias latitudes da Terra (esse tempo é afectado pela obliquidade do eixo da Terra).

Por outro lado, a complexidade é acrescida pelo facto de o sistema climático ter processos dinâmicos que contrariam alterações de clima (chamados por isso de realimentação negativa) e outros que, por outro lado, os reforçam (realimentação positiva). Os primeiros são benéficos para a estabilidade do sistema. Os segundos podem torná-lo instável e causar até mesmo mudanças bruscas de clima. Por exemplo, um aumento de temperatura faz com que aumente a quantidade de vapor de água na atmosfera. Como o vapor de água tem também efeito de estufa poderá aumentar a temperatura da atmosfera, resultando num processo de realimentação positiva. Por outro lado, mais vapor de água na atmosfera pode fazer com que apareçam mais nuvens, que por sua vez reflectem mais luz do sol para o espaço, o que reduz a quantidade de luz a chegar à Terra, resultando num processo de realimentação negativa.

Temos assim que o sistema climático é complexo e ainda não é compreendido o suficiente para termos uma quase certeza nas previsões climáticas. Sem dúvida que persistem incertezas quanto ao contributo do CO2 no clima. No entanto, também parece começar a haver um razoável consenso de que as dúvidas em sentido contrário (ou seja, sobre a sua não influência) são substancialmente maiores. Sempre achei curiosa a designação de cépticos relativamente aos que se opõem à influência humana no clima. O cepticismo - atitude essencial numa abordagem científica a qualquer problema - não é uma estrada de sentido único. Céptico é todo aquele que tem dúvidas. Sejam elas quais forem e em que sentido for. Eu sou céptico quanto à não contribuição humana no clima. Tenho também, cientificamente, uma atitude céptica na posição oposta. Mas as probabilidades que associo a ambas as conjecturas são muito, muito, diferentes. Por outro lado, reconheço sem dificuldade que os riscos associados a estarmos errados é muito diferente nos “dois” lados. Esse reconhecimento é absolutamente essencial nas escolhas políticas que se opta ter na abordagem ao problema.

Se as alterações climáticas forem para levar a sério, que escolhas devemos então fazer, quer como sociedade, quer como indivíduos?

Parece-me claro que um dos caminhos a seguir será o de reduzir o uso de combustíveis fósseis e de parar a desflorestação que tem ocorrido em larga escala. É necessário ter usos muito mais eficientes da energia (quer para nos transportar de um lado para outro, quer para aquecimento ou arrefecimento). É também necessário apostar forte na produção sustentável de energia (a muitas gerações). Ou seja: apostar nas energias renováveis.

Pergunto: Será que estas escolhas (urgentes) serão assim tão erradas MESMO QUE os (incorrectamente) chamados “cépticos climáticos” tenham razão quando dizem que a contribuição do CO2 para o aquecimento global é nula?

Será que não vamos ser confrontados com a mesmíssima necessidade de reduzir o uso de combustíveis fósseis tão só por estes serem finitos (não renováveis)? Não terá sido isso mesmo que se começou a verificar pouco antes de se iniciar a actual crise económica (cuja causa imediata terá sido financeira)? As subidas galopantes do preço do petróleo que então se verificaram (e que, certamente, se voltarão a verificar assim que esta crise vá passando), não serão uma evidência nesse sentido?

Por outro lado deixo também a seguinte interrogação (e imensa preocupação): E se o IPCC [2], os ambientalistas e os muitos cientistas que têm tomado posições públicas de preocupação climática tiverem razão, e nada tivermos feito, como sociedade, para prevenir, ou tão só minimizar o problema? Quem irá pagar a maior parte da factura serão os nossos filhos e netos! Quem é que se acha no direito de os obrigar a correr esse risco?

Miguel Oliveira e Silva
(Ambientalista)

(Republicação, com pequenas alterações, de um artigo publicado na sequência de um debate sobre Alterações CLimáticas realizado em Estarreja em 20 de Março de 2009)

[1] O clima é definido como sendo médias temporais alargadas (geralmente 30 anos) do estado do tempo

[2] Intergovernmental Panel on Climate Change (http://www.ipcc.ch)

terça-feira, dezembro 29, 2009

O elogio da ignorância (II)


Publicado na revista FreeSurf

Tem havido por aí um sururu porque alguém roubou uns mails privados a uns investigadores, publicou-os, retirou umas frases do seu contexto e com isso acusou os investigadores (e por arrasto todos os outros investigadores que não tinham nada com o assunto mas têm as mesmas ideias) de andarem a fabricar dados e teorias sobre as alterações climáticas na terra.
Fui acompanhando mais ou menos a discussão, apesar daquilo ter muita física, muita matemática, muita estatística para a minha pobre ignorância.
Mas o que mais me espantou foi a quantidade de gente, que sabendo tão pouco como eu, tinha opiniões absolutamente seguras sobre um assunto que é mais que muito complicado. Por isso fui tentar perceber e descobri a técnica: só lêem as opiniões que estão alinhadas com o que pensam e se por acaso tropeçam em alguma informação que os contrarie, ignoram-na dizendo que foi manipulada.
Confesso que fiquei fascinado com a inteligência desta opção: não só não temos de nos preocupar com a realidade para pensarmos de determinada maneira, como estamos sempre cheios de razão porque se não estivermos é porque os outros estão comprados e nos querem manipular.
É uma maneira desarmantemente simples de lidar com problemas complexos.
Fez-me lembrar uma conversa que há tempos tive com um surfista da Costa a quem perguntei se as ondas tinham melhorado ou piorado com os enchimentos da praia.
A diatribe que eu ouvi contra tudo e todos que tinham alguma coisa, por vaga que fosse, com os ditos enchimentos de praia. Quem pôs aqui a areia devia ser enforcado, pelo menos, garantia o rapaz. A questão é que a areia tem a estúpida mania de se mexer e demora algum tempo até atingir um equilíbrio dinâmico e naquela altura os fundos estavam maus, pelo que percebi da conversa, ou melhor dizendo, da irritação, que da conversa não percebo nada com agueiros, ondas tortas e outras coisas que tenho dificuldade em perceber bem o que são (para mim todas as ondas se entortam).
Mas ao contrário dos outros das alterações climáticas, que não querem ouvir nada com o qual não estejam de acordo, o rapaz ficou interessado quando lhe disse que talvez não fosse bem assim.
Apontei-lhe para a Serra de Sintra e expliquei-lhe que ali estava um esporão natural que impedia a foz do Tejo de se deslocar para Norte. Depois voltei-me para o outro lado e lembrei-lhe que o cabo Espichel era outro esporão natural. E que entre os dois estavam então extensas zonas de areias.
Em tempos estes areais eram alimentados pelo que o Tejo trazia. Mas com a quantidade de barragens que entretanto se tinham feito no rio, e com o aumento de cobertura do solo da bacia do Tejo, a quantidade de areias que o Tejo trazia tinham diminuído drasticamente.
E aqueles areais, que viviam de um sistema dinâmico de perdas e ganhos de areia, passaram a ter permanentemente um défice de sedimentos que as faria inevitavelmente recuar.
Como o défice é permanente, o mais natural é que as defesas costeiras, a mais ou a menos longo prazo, sejam também engolidas pelo mar, por mais fortes que se tentem construir.
Por isso a solução, também temporária, mas que alguns acreditam ser a melhor e mais barata, é ir buscar areia ao canal de navegação do Tejo, numa zona em que as areias já estão fora deste vai e vem que todos conhecemos, e despejá-la o mais a Norte possível, esperando que assim se resolva não só o problema destas praias como se evitem os problemas futuros das praias a Sul.
Confesso que achei que a reacção do surfista tinha sido tão serena que olhei com mais atenção.
Tinha adormecido com tanta explicação.
Talvez na práctica ficasse tão ignorante como estava antes, mas ao menos, ao contrário do pessoal da negação das alterações climáticas não é uma atitude orgulhosamente voluntária, é apenas um agudo sentido das prioridades dos momento.
E não havendo boas ondas, é razoável que a prioridade seja dormir.
henrique pereira dos santos

E se?


"E para terminar, o essencial:«me parece estranho que se queiram tomar decisões sem entrar em linha de conta com o risco, hoje claramente estabelecido, decorrente dos cenários de evolução do clima, simplesmente porque não existem certezas absolutas sobre o que vai suceder.»
Mas não vê o HPS que é exactamente isso que os cépticos disputam? Não vê que o seu argumento pode ser usado exactamente ao contrário do que pretende? E se for verdade que a temperatura média do planeta nos últimos dez anos até está a diminuir? E se for verdade que pelo contrário está a aumentar mas não é o CO2 o agente responsável ou, pelo menos, o mais importante? Ou acaso disputa que há eminentes cientistas que discordam em absoluto de muitas das teses do IPCC?"
Eduardo F. caracteriza bem o essencial.
E vale a pena discutir o essencial.
Primeiro caracterizemos uma ou duas discordâncias e depois concentremo-nos na discussão de fundo.
Ao contrário do que diz Eduardo F. os chamados cépticos (a que eu tenho chamado negacionistas) não são um bloco que pensa a mesma coisa, bem pelo contrário, há uma enorme gama de posições.
Há os que negam que exista aquecimento global, há o que entendem que esse aquecimento existe, mas não tem nenhuma relação com a actividade humana e ainda há os que admitindo que tem alguma coisa com a actividade humana, entendem que não há nada de útil que se possa fazer para contrariar o processo. Há ainda um grupo, que eu não coloco nos negacionistas, que aceitando que existe aquecimento global e que é provocado pelo homem, entendem que as soluções preconizadas no quadro da ONU são soluções pouco eficientes e querem discutir alternativas de solução.
O essencial, para esta discussão e para a tomada de decisão, não é quem está certo ou não, mas se existe risco, e de que dimensão, de que estejamos a provocar alterações no clima.
Se fizermos a pergunta com esta simplicidade, reduziremos muito o número de negacionistas, porque a aceitação de que existe risco é muito alargada, sobrando apenas os que entendem que não existe risco nenhum, nenhuma possibilidade de estar a ocorrer um aquecimento global. Com estes a discussão é difícil porque pura e simplesmente recusam toda a produção de conhecimento feita sobre a matéria com a alegação que se trata de uma gigantesca conspiração (que envolve cientistas, editores de publicações científicas, decisores políticos, ONGs, a ONU, a Academia Sueca que atribui os prémios Nobel, jornalistas e etc.).
Se sairmos desta visão paranóica do mundo, a discussão é possível, e a questão é a de saber o que fazer existindo risco, discutindo a magnitude do risco e discutindo os efeitos no caso de se verificarem alguns cenários em cima da mesa.
Começo por uma história que me contaram mas que não verifiquei. No entanto é boa como exemplo, independentemente da sua veracidade.
A autoridade portuária de Roterdão é confrontada com a seguinte decisão: sendo necessário fazer obras de fundo nas estruturas de protecção do porto, há quem proponha elevar a cota dessas infraestruturas 50 cm para precaver a eventual subida do nível do mar.
Elevar essa cota tem custos, mensuráveis e certos. Não elevar reduz portanto o custo da obra, no entanto se se verificar efectivamente a subida do mar, os efeitos dessa subida no porto serão desastrosos, fragilizando enormente a sua defesa.
O que faz sentido: fazer a obra agora, num quadro de incerteza que eventualmente a torna inútil se não se verificar qualquer alteração do nível do mar, ou fazê-la de emergência e especificamente com esse objectivo mais tarde, quando houver mais certeza, mas a um custo muitíssimo maior?
O mesmo se dirá de uma grande parte das medidas a tomar para reduzir as emissões de CO2. Aconselho vivamente a leitura de "Green and Competitive" de Michael Porter e Class Van der Linde, que não trata de nada que se relacione com alterações climáticas.
Trata sim da forma como se reflecte na competitividade das empresas a regulamentação ambiental.
E as conclusões são interessantes exactamente porque defendem que, em certas condições, a regulamentação ambiental não é apenas um custo mas um poderoso estímulo à competitividade das empresas.
Na realidade as emissões de CO2 reflectem, com demasiada frequência, um uso ineficiente do recurso energia.
Por exemplo, o que nos impede de investir num preço instantâneo da energia que reflicta a procura instantânea? Tem custos? Tem com certeza. Os benefícios ultrapassam os custos? Muito provavelmente sim. Vejamos, se o preço em vez de ser fixo for uma função do consumo em cada momento, eu posso instalar sistemas de redução do meu custo em função desse preço, por exemplo, nos sistemas de frio (e muitos de calor), que têm uma certa resiliência, podem ser ligados nos momentos em que a energia é mais barata, e desligados em alturas de energia mais cara. Globalmente qual é o resultado? A diminuição dos picos permite-me gerir a rede com menor capacidade instalada (a electricidade é um fluxo, não pode ser armazenada, portanto é necessário estar a produzir o mesmo ou mais que o necessário em cada momento, pelo que o sistema electro-produtor tem de estar dimensionado para os maiores picos expectáveis, resultando um sub-uso da capacidade instalada na grande maioria do tempo).
Do mesmo modo, cidades mais eficientes, com transportes mais eficientes resultam em ganhos ambientais, mas provavelmente em ganhos económicos também. O mesmo se dirá de edifícios mais eficientes.
E mais que tudo, é bem provável que na grande maioria dos processos produtivos seja possível introduzir ganhos de eficiência se houver suficiente incentivo para isso. Não se pense que se estará a falar de coisas do outro mundo, por exemplo, ainda hoje se continua a investir em restaurantes sem a menor preocupação de eficiência energética, quando com as tecnologias existentes, aos preços existentes, já se conseguem retornos muito interessantes em prazos relativamente curtos. O problema não é económico mas financeiro: exige-se investimento maior à cabeça, sendo que muitas vezes quem investe na infra-estrutura (ou numa casa) não é quem explora, havendo por isso um incentivo negativo à adopção de políticas de eficiência energética, apesar da sua racionalidade.
O caso evidente é o das casas de habitação, em que o sobrecusto de adoptar medidas de eficiência energética se reflecte no preço final da casa (crucial para o vendedor ter sucesso) e apesar dessas medidas se poderem pagar com poupanças em prazos inferiores a dez anos, muito poucos compradores estão dispostos a pagar mais inicialmente para ter um ganho diferido ao longo de dez anos.
Ou seja, caro Eduardo F., se a temperatura diminuir em vez de aumentar, ainda assim ganhámos usos mais eficientes dos recursos, ganhámos melhorias na poluição, ganhámos, provavelmente, alguns trocados.
A alternativa, pelo contrário, é que se o risco se verificar, as perdas são brutais.
Devo dizer que o que me faz mais confusão nesta estranha discussão (para além do elogio da ignorância a que os negacionistas fazem apelo constante desconfiando da ciência tal como a conhecemos) é ver engenheiros ligados às tecnologias, treinados a resolver problemas engenhosamente, treinados a inventar coisas novas para novos problemas, apavorados com o futuro e com a ideia de que não é possível ter novas soluções para problemas novos.
Confesso que esta estranha força reaccionária, que compreendo facilmente em outras formações treinadas para serem conservadoras (o que em si não é nenhuma hierarquização de valores, a inovação não é em si mesmo preferível ao conservadorismo), é para mim uma novidade em profissões de base tecnológica e francamente não a percebo.
henrique pereira dos santos

domingo, dezembro 27, 2009

"A linguagem é uma fonte de mal-entendidos"


Jorge Oliveira num comentário ao post anterior:
"O que não posso fazer é classificar o CO2 como poluente, quando sei que não é, acreditar que o CO2 tem todas as responsabilidades por ondas de calor e vagas de frio, por chuvas torrenciais e secas, por tudo e pelo seu contrário, e, em consequência, aceitar fechar as centrais térmicas convencionais porque emitem CO2, fechar as nucleares, que não emitem CO2 mas de que os ambientalistas não gostam e depois esperar calmamente que as ventoínhas me facultem a energia eléctrica de que necessito, a preços descabelados, que estão a dar origem a um défice tarifário descomunal que os meus filhos vão ter de pagar, e desta forma aniquilar o meu nível de vida, o dos meus filhos e netos e demais descendência. Acha que é isto que quer para os seus filhos?"
Discutir este parágrafo parece-me particularmente instrutivo.
Em primeiro lugar, notem-se as certezas firmes onde quem mais tem estudado o assunto fala em probabilidades e evidências parcelares, isto é, mantém dúvidas: o papel do CO2 no sistema climático.
Mas mais que isto, note-se depois a orientação política que decorre destas duas atitudes: quem tem dúvidas sobre esse papel prefere acentuar essas dúvidas, desenhar cenários e discutir os custos e os benefícos das diferentes soluções possiveis em cada cenário, procurando gerir o risco inerente à incerteza (veja-se, por exemplo, Lomborg e o consenso de Copenhaga) e Jorge Oliveira, da segurança das suas certezas, opta por eliminar o risco de se enganar em processos especialmente complexos como são os que comandam o clima.
A partir daqui o parágrafo descarrila e assume algumas coisas como factos e fundamento da sua posição política que convém revisitar.
"acreditar que o CO2 tem todas as responsabilidades por ondas de calor e vagas de frio, por chuvas torrenciais e secas, por tudo e pelo seu contrário".
O curioso é que Jorge Oliveira prefere argumentar contra o argumentário de idiotas ignorantes em vez de discutir o que diz quem produz conhecimento no tema. É que quem produz conhecimento sobre a matéria não diz nada disto. Diz simplesmente que o CO2 induz alterações no padrão natural de variação climática, sendo que os padrões se estudam com séries longas de dados e nenhum fenómeno particular (o que inclui toda a meteorologia) pode ser explicado com recurso ao CO2. Ou seja, para evitar discutir o padrão, que poderia introduzir dúvidas onde Jorge Oliveira tem a segurança das certezas, obrigando a discutir os riscos inerentes a essas dúvidas, Jorge Oliveira prefere dizer um lugar comum consensual: o CO2 não pode ser usado para explicar fenómenos meteorológicos pontuais.
"aceitar fechar as centrais térmicas convencionais porque emitem CO2".
Jorge Oliveira prefere fintar a discussão sobre as centrais térmicas convencionais, começando por não fazer as distinções que devem ser feitas, quanto à origem dos combustiveis e quanto à sua obsolescência para evitar discutir o custo/ benefício de cada decisão sobre cada central. É que as centrais a carvão com tecnologias antigas são efectivamente muito poluentes e não apenas por causa do CO2 (sobretudo se se tiver em conta todo o ciclo produtivo desde a mina à electricidade) e portanto pode muito bem acontecer que a sua substituição por outros combustiveis e outras tecnologias, mesmo que térmicas, tenham custos razoáveis para o benefício espectável, mesmo sem ter em atenção o CO2.
"fechar as nucleares, que não emitem CO2 mas de que os ambientalistas não gostam".
Depende dos ambientalistas, há os que gostam e os que não gostam, mas o problema é que são as pessoas comuns que não gostam: ninguém aceita ter uma central nuclear ao seu lado (experimente propor uma central nuclear no parque Eduardo VII e verá a reacção das pessoas). E isso não é uma questão de gosto, é uma questão de percepção de risco. Há uma tendência para as pessoas treinadas em confiar nas tecnologias desvalorizarem os riscos associados, mas felizmente nas democracias não são so técnicos que tomam as decisões, são os políticos. E digo felizmente porque o que não faltam são exemplos históricos de desastres provocados pelas certezas dos técnicos (com certeza, também existem avanços positivos gloriosos, mas é por isso que a decisão deve ser de natureza política e não técnica, para que as pessoas comuns as possam discutir).
"depois esperar calmamente que as ventoínhas me facultem a energia eléctrica de que necessito".
Não sei se por vontade se por distracção Jorge Oliveira distorce os argumentos dos que defendem opções políticas diferentes das suas. Não conheço ninguém que defenda uma produção de energia exclusivamente assente em ventoínhas, nem conheço nenhum ambientalista (não estou aqui a incluir a propaganda do anterior e actual Governo, que tem muito pouco de ambientalista na sua origem) que defenda que o problema da energia se resolve produzindo cada vez mais energia, mesmo que renovável. Jorge Oliveira com certeza, quando o calor da discussão tiver desaparecido, reconhecerá que a grande maioria do movimento ambientalista defende em primeiro lugar uma diminuição da intensidade energética (e como sabe várias das mais avançadas economias do mundo têm conseguido bons resultados na matéria, o que não é o caso de Portugal e Espanha, por exemplo) e, complementarmente, um aumento da produção de energias renováveis. O programa é pois bem diferente, e é isso que vale a pena discutir, não vale a pena protestar com um programa que só existe nas fantasias de alguns (nos quais se inclui, infelizmente, José Sócrates).
"depois esperar calmamente que as ventoínhas me facultem a energia eléctrica ..., a preços descabelados, que estão a dar origem a um défice tarifário descomunal que os meus filhos vão ter de pagar, e desta forma aniquilar o meu nível de vida, o dos meus filhos e netos e demais descendência".
Na realidade foi esta frase que me levou a escrever este post. Porque esta frase corresponde a atribuir ao movimento ambientalista uma política que é por ele contestada (quanto a mim, deveria sê-lo de forma mais firme e audível, já fiz alguns posts criticando o movimento ambientalista pelo seu low profile nesta discussão). Veja-se a minha posição aqui e aqui. Ou a posição de Pedro Martins Barata aqui. Se há coisa em que praticamente todo o movimento ambientalista está de acordo é na necessidade dos preços da energia reflectirem os custos directos e indirectos do seu uso, o que hoje não acontece em muitos combustiveis fósseis. Isso implica energia mais cara e não a criação de défices tarifários que têm muito pouca relação com as energias renováveis porque correspondem a uma opção populista e desastrosa do anterior e actual Governo em manter artificialmente baixos os preços ao consumidor (tal como em Espanha). Uma parte virá de não reflectir na tarifa ao consumidor o preço real das renováveis, é certo, mas uma outra grande parte decorre de outras parcelas de formação do preço que os Governos entendem não reflectir no preço final do consumidor (e em particular do consumidor da indústria). Esta é uma opção errada dos Governos que vai exactamente ao arrepio de toda a lógica de gestão energética sustentável: fazer reflectir no preço ao consumidor todos os custos reais, directos ou indirectos, associados ao seu uso.
Isto implica provavelmente menos rendimento hoje para quase todos nós? Sim, provavelmente sim, mas não vale a pena meter aqui filhos e netos, porque estes perdem de facto com a política de preços artificialmente baixos da energia hoje mas é bem possível que ganhem com preços reais no consumidor.
Por isso, caro Jorge Oliveira, se a sua preocupação são os filhos e os netos, o melhor mesmo é juntar-se ao movimento ambientalista na defesa de preços reais para a energia (e, já agora, também para a água, em vez dos preços políticos, por exemplo, para a água de Alqueva).
Aliás estou convencido que se quiser olhar com atenção para as posições ambientalistas mais sustentadas (que nem sempre coincidem com as mais audiveis) estou convencido de que ainda acaba do nosso lado, preocupado com a herança que vamos deixar aos que por aí estão para vir.
henrique pereira dos santos

sábado, dezembro 26, 2009

Um estranho desentendimento

Ao longo destas semanas, nos comentários aos posts sobre alterações climáticas, aparecem um conjunto de pessoas que insistem na tese de que como o CO2 subiu na última década e as temperaturas não, não há relação entre subida de concentração de carbono e subida de temperatura.
Naturalmente explicou-se que o clima é o resultado de um número muito grande de factores que não só actuam autonomamente, como têm relações de interdependência que o tornam uma coisa extremamente complexa, e que por isso o seu estudo, e o estudo da sua evolução, exige séries longas de observação.
Explicou-se também que o clima tem variações naturais muito relevantes e que a questão não é avaliar se é o CO2 o responsável por cada uma dessas variações (em rigor, por cada uma das variações meteorológicas) mas sim se a quantidade de CO2 presente na atmosfera é responsável por desvios em relação ao que seria a evolução natural do clima (sim, com certeza que definir o que é variação natural do clima é objecto de discussão), desvios esses que podem ser relativamente pequenos face às variações naturais, mas podem forçar alterações climáticas que nos são mais desfavoráveis que seriam as alterações naturais.
O mais extraordinário não é a discussão até este ponto, essa é razoável e como estamos no domínio da interpretação de sistemas complexos discutindo probabilidades de evolução é natural que haja controvérsia. No caso das alterações climáticas essa controvérsia ultrapassou os limites da controvérsia científica, dirimida pelos meios normais da ciência, para se tornar uma controvérsia social face ao que está em jogo para todos nós: um uso colossal e eventualmente inútil de recursos no caso das alterações climáticas não serem significativamente influenciadas pelo homem, um desastre ambiental, social e económico no caso dos cenários mais desfavoráveis sobre a influência humana no clima se confirmarem.
O extraordinário é a persistência na repetição de ideias simples que pura e simplesmente não constituem argumentos lógicos.
Não falo sequer do ar escandalizado que fazem os negacionistas militantes por Phil Jones dizer num mail que se for preciso altera o sistema de peer review (coisa que aliás nunca estaria sequer ao seu alcance) ao mesmo tempo que passam o tempo todo a negar a importância do peer review e o facto de raramente assentarem o que dizem em papers com peer review. Isto faz parte da retórica normal de uma discussão ideológica e não vale um caracol.
O extraordinário é, por exemplo, insistir em confundir (voluntária ou involutariamente, não faço ideia) o efeito de alteração acrescida no clima que possa ter o CO2, e o facto do CO2 ser eventualmente decisivo nesse efeito acrescido, com a ideia de que o CO2 é o único responsável por todas as alterações meteorológicas (coisa que ninguém no seu perfeito juízo diz, pesem embora as muitas distorções que tendem a olhar para a meteorologia com o filtro do que se pensa sobre as alterações climáticas).
E por isso, quando se diz que pode haver diminuições de temperatura resultantes de outros factores que não o CO2, e o efeito do CO2 manifestar-se no facto de não descerem tanto como seria espectável com concentrações menores deste gás, aparece sempre alguém a repetir o estribilho de que isso não passa contorcionismo para não reconhecer o óbvio: não há relação entre a subida de temperatura e a concentração de CO2.
O curioso é verificar como, com frequência, o vício de raciocínio implítico nesta observação (a omissão de que há muitos outros factores que influenciam o clima, evitando admitir-se que é possível que o CO2 provoque elevação do padrão de variação da temperatura, não eliminando esse padrão, que tem e sempre terá subidas e descidas) é escondido atrás de uma barragem de insultos sobre a falta de coerência, de vergonha, etc., dos aldrabões que pensam de maneira diferente.
henrique pereira dos santos

quarta-feira, dezembro 23, 2009

O CO2 e a caça furtiva


Há na lista de discussão que deu origem a este blog uma discussão em curso sobre a importância da caça furtiva na conservação de algumas espécies.
Eu penso que a caça furtiva (e todos os outros métodos de perseguição directa) têm pouca importância na conservação da grande maioria das espécies em Portugal porque me parece que os factores relacionados com o refúgio, mas sobretudo com a disponibilidade alimentar, têm muito mais peso na determinação das tendências populacionais.
Isso não significa que a caça furtiva não tenha relevância, significa apenas que em determinadas condições, por exemplo, quando existe uma tendência regressiva acentuada, a caça furtiva pode ser o factor que faz a espécie passar o limite de sobrevivência a cuja proximidade os outros factores a levaram. Mas isso não faz da caça furtiva uma força modeladora.
Ao ler alguns comentários sobre o CO2 e as alterações climáticas fico com a impressão de há raciocínios que impedem algumas pessoas de construir argumentos sólidos (se são verdadeiros ou não, é outra discussão em que não me meto).
Eu não faço a mínima ideia se o CO2 é ou não a principal força de empurra as temperaturas para fora dos limites normais e naturais da variação climática (o que está em causa não é a variabilidade climática, o que está em causa é se estamos a empurrar essa variabilidade para limites que nos são desfavoráveis).
Sou ignorante na matéria, a atmosfera é muito complicada e a quantidade de factores, por si só, mas também com retroacções imensas, é de tal forma grande que está completamente fora do meu horizonte ter opinião própria sobre o assunto.
Mas isso não me impede de ter opinião sobre a consistência do argumento que refere o facto de haver aumento de CO2 num determinado período, relativamente curto, não havendo subida simultâna de temperaturas como demonstração de que o CO2 não pode ter o papel que lhe é atribuído.
Este argumento pura e simplesmente não tem qualquer sentido, por si só e num período relativamente curto.
É que existindo muitos outros factores que influenciam o clima, que dão origem a variações naturais importantes, o argumento de cima só poderia ser considerado demonstrativo se todos os outros factores que comandam o clima se mantivessem iguais.
Não sendo assim, duas hipóteses existem: ou de facto o CO2 não tem o efeito que dizem (pelo menos com o peso que lhe é atribuído); ou efectivamente tem e a estabilidade (ou mesmo abaixamento) das temperaturas em períodos relativamente curtos deve-se a outros factores que conduziriam a temperaturas ainda mais baixas na ausência de CO2.
Não basta por isso apontar um facto e exibi-lo como prova, se ele não tiver uma explicação consistente e única.
Insisto que não sei quem tem razão, não tenho capacidade para fazer esse juízo autonomamente, o que quero realçar é que o argumento, por si só, só demonstra que os que o utilizam se portam como caçadores furtivos que disparam sobre cada facto controverso (ou ainda sem explicação) sem se darem ao trabalho de encontrar os argumentos que o explicam.
Um bocado como o rapaz que querendo demonstrar a inconsistência da reconstrução das temperaturas do passado acaba a descobrir alguns erros estatísticos e de digitação, mas quando os corrige faz uma reconstrução de temperaturas que está inegavelmente errada.
Questão diferente é o facto dos modelos de clima usados não serem capazes de integrar estes períodos de estabilidade, o que significa que ou são ainda imperfeitos (o que toda a gente dá como adquirido) ou estão errados (o que alguns garantem sem que ao mesmo tempo proponham modelos melhores).
É complicada a atmosfera, não vai lá com meditações de fim de tarde.
henrique pereira dos santos

terça-feira, dezembro 22, 2009

Pinóquio


Eu sou inegavelmente favorável às energias renováveis, mas gosto de saber quanto tenho de pagar por isso porque não acredito que haja almoços grátis.
Como tinha de desossar uma galinha, uma actividade que ocupa as mãos e liberta o cérebro, deu-me para pensar que se mais de 50% do nosso déficit anual está relacionado com o petróleo, então as energias renováveis devem resolver o assunto e ajudar a pagar as nossas dívidas, libertando crédito para a economia, que bem precisa.
Entusiasmei-me com a ideia e deixei correr o argumento, só que logo me lembrei que défice energético e défice de electricidade não são a mesma coisa, portanto pelo menos no que não é electricidade (e é muito) as renováveis não servem para resolver.
Mas há o carro eléctrico, pensei. Mas de facto temos de comprar os carros lá fora (ou pelo menos as partes com maior valor acrescentado) e voltei a esmorecer um bocadinho.
Para a frente e nada de negativismo, fazer parques eólicos em força para reduzir a dívida. Aqui corei um bocadinho, percebi a infantilidade do argumento, porque não só a construção de eólicos e barragens é actividade de capital intensivo (o que obriga a criar dívida e não a diminuir, pelo menos no curto prazo), como temos de comprar uma boa parte das coisas que precisamos lá fora, o que aumenta o défice com o exterior.
Não faz mal, é investimento e paga-se com o retorno da operação desses equipamentos. Ooops, parece que a operação é deficitária, pelo menos para já, e tem de ser financiada com tarifas especiais, mais altas, o que quer dizer que temos de pagar o custo suplementar para a economia através da energia mais cara. E se assim é, os nossos produtos perdem competitividade e os produtos de quem tiver a energia mais barata ganham competitividade em relação aos nossos. Provavelmente importamos mais e exportamos menos, e aumentamos outra vez o défice que queríamos diminuir.
Dei graças por estar sozinho, não ter tido a oportunidade de me entusiasmar a explicar a alguém o raciocínio simples e genial de que parti (se o défice é energético, ter energias renováveis é diminuir o défice) e retornei realisticamente à minha posição base:
renováveis é bom, com conta, peso e medida, eficiência energética é muito melhor e os dois têm custos que é preciso quantificar em cada momento.
Agora percebo porque não passa pela cabeça de ninguém responsável e sério responder que se combate o endividamento com energias renováveis.
No fundo, no fundo era o que eu já tinha dito aqui.
E nem sei por que razão me lembrei outra vez disto hoje.
henrique pereira dos santos

Bom senso no reino florestal


Num ato inesperado, foi decidido suspender a entrada em vigor do novo Código Florestal
, conforme notícia publicada no Avante no dia 17 de dezembro.

Nasceu assim a esperança que a nova direção da Autoridade Florestal Nacional venha a corrigir as falhas do código existente, com base numa reflexão séria sobre que legislação o setor precisa, que legislação é possível cumprir e que legislação é possível fiscalizar. E espera-se que a consulta à sociedade civil sujeita ao seu cumprimento seja igualmente séria e que os seus resultados sejam considerados na elaboração final de um código revisto.

O facto desta decisão da comissão parlamentar de Agricultura ainda não ser mencionada no sítio da AFN, a escassos dias da suposta entrada em vigor do código (23 de dezembro), não é, no entanto, bom sinal.

Henk Feith

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Meteorologia e clima


Meteorologia é a ciência que estuda os meteoros, isto é, os fenómenos da atmosfera. A sua mais conhecida aplicação prática é a previsão do tempo, em diferentes escalas, mas sobretudo em pequenos períodos de tempos. Na realidade as previsões a mais de três dias, embora tenham sofrido progressos notáveis, são ainda relativamente pouco fiáveis.
O clima estuda o padrão das variações meteorológicas, ou seja, avalia estatístiscamente os elementos meteorológicos num período suficientemente grande para permitir avaliar padrões para lá da elevada variação meteorológica de curto prazo. O período considerado mínimo para a análise climática são trinta anos, sendo a média das observações ao longo de trinta anos que define a normal climatológica.
De um lado e do outro da discussão sobre alterações climáticas tende a esquecer-se esta diferença essencial entre meteorologia e clima.
Há os que não têm clara esta diferença, e por isso apontam para um dia especialmente quente ou especialmente frio como demonstração do seu ponto de vista e há os que sabendo muito bem esta diferença usam o tempo presente simplesmente para enganar tolos.
Aos primeiros é útil explicar mais uma vez esta diferença e realçar que nenhum valor, por mais extremo que seja, diz rigorosamente nada sobre uma tendência de trinta anos.
Aos segundos é útil explicar que não vale a pena ir por aí.
henrique pereira dos santos

O urso e a conservação


Imagem retirada daqui
Ontem, na revista do Público, vinha um extenso artigo sobre o regresso dos grandes mamíferos. Algures pelo meio falava-se na hipótese do regresso do urso pardo.
Aí por 1983/ 84, não sei bem, no meu relatório de estágio de fim de curso tenho ideia de que já dizia qualquer coisa sobre a hipótese (que devo ter considerada teórica na altura) de reintrodução do urso, porque ao contrário do que eu penso que era uma ideia comum na altura (a extinção do urso em Portugal no séc. XVI) eu dizia, baseado na leitura da integral do que escreveu o Abade de Baçal, que provavelmente no Nordeste só se teria extinto no século XVIII (ou melhor, no século XVIII ainda por lá andava).
Sei que durante o estágio discuti esta questão mas não posso verificar exactamente o que disse nesse relatório de estágio porque está perdido.
Vale a pena olhar um bocadinho para este "está perdido" (não é que o relatório valha grande esforço, é verdade, mas a questão não é este relatório mas o conjunto de coisas produzidas no ICNB em circunstâncias semelhantes).
Na altura em que fiz o relatório (ainda sem computadores), entreguei pelo menos um exemplar no PN de Montezinho, penso que dois para a biblioteca da Universidade de Évora, penso que três ou quatro para os membros do Júri (não tenho a certeza, mas seriam Ribeiro Telles, Fernando Pessoa e Alexandre Cancella de Abreu), provavelmente um para o meu orientador (Robert de Moura) e fiquei com um.
Por qualquer razão emprestei o meu exemplar a alguém que não mo devolveu. Fui um dia à biblioteca de Évora, para arranjar uma cópia para mim, os exemplares tinham sido requisitados e não devolvidos, não se sabia por quem, procurei em Montezinho, havia uma técnica que o tinha levado porque tinha estado a trabalhar no Plano de Ordenamento e fui encontrá-lo um dia em Esposende, porque a técnica entretanto tinha assumido a direccção da área protegida e levado para lá "os seus papéis", ou coisa do género, mas quando o procurei outra vez, tinha desaparecido de novo.
Quando Paula Abreu, no ICNB, estava a fazer o notável e solitário trabalho que culminou na biblioteca digital, também não encontrou o dito relatório. (Verifiquei agora, ao procurar o link, que o logotipo da biblioteca digital desapareceu dos destaques no lado direito da Homepage do ICNB).
O que aqui descrevo aconteceu a dezenas de relatórios sobre isto e aquilo, cada um deles não valendo nada de especial, mas que representariam um acervo de informação insubstituível no seu conjunto. Felizmente Paula Abreu resgatou muitos destes relatórios às catacumbas onde estavam espalhados pelo país, digitilizou-os e foram disponibilizados no site do ICNB.
Infelizmente Paula Abreu pediu uma licença extraordinária, o chefe que tinha na altura e que combateu o perfeccionismo da Paula para só publicar tudo quando estivesse pronto e perfeito, em vez de ir publicando o que já existia da forma como existia, que venceu as resistências da informática à disponibilização de documentos frequentemente pesados, que se esteve nas tintas paras as discussões bizantinas sobre os direitos dos autores sobre a informação (embora a Paula tivesse desencadeado muitas iniciativas diplomáticas autónomas para evitar os conflitos emergentes desta postura e apenas uma pessoa tenha recusado a publicação do seu trabalho, isto foi feito contra a opinião da chefia que entendia que quem pagou os dados foram os contribuintes e portanto eram dados públicos e não era precisa autorização de ninguém para os disponibilizar on-line) também pediu uma licença extraordinária e, tanto quanto sei, este trabalho de resgate de informação parou completamente e duvido que seja retomado sem que entretanto se percam mais e mais documentos.
É trágico que os responsáveis do ICNB pela informação e divulgação, ou comunicação e outras coisas do género, se tenham, com poucas excepções, preocupado mais em fazer publicações com mais ou menos interesse e sem qualquer objectivo estratégico que em conservar e salvaguardar a memória colectiva contida em milhares de documentos, incluindo a herança fantástica do arquivo da circunscrição florestal do Gerês, com mais de cem anos.
"Let's sing another song, boys, this one has grown old and bitter"
Retomemos então a questão do urso.
Lembro-me da anterior presidência do ICNB querer fazer da reintrodução do urso um projecto estratégico, tendo toda a estrutura técnica do ICNB (eu incluído) a dizer, por outras palavras, que o Presidente precisava de descanso para retomar a integralidade das suas faculdades.
Na realidade uma coisa é discutir a chegada do urso, eventualmente a adopção a prazo de medidas que explicitamente têm esse objectivo, outra coisa é assumir-se a bandeira política de reintroduzir o urso em Portugal, que continuo a achar que seria um suicídio político.
Mas o mais relevante nisto tudo é que verdadeiramente o quadro geral de alteração da situação, com fortes ganhos para os grandes mamíferos selvagens, deve menos a políticas de conservação da natureza que à alteração do contexto económico e social.
Quase se poderia dizer que, com excepção de medidas de emergência em situações críticas, é bem possível que a situação actual não estivesse longe do que é hoje, mesmo que não existissem políticas de conservação.
Eu sei que não é bem assim, eu sei que existem efeitos complexos, quer de percepção pública, quer de gestão de questões críticas, mas tenho cada vez mais dúvidas que se justifique todo o aparato regulamentar e administrativo necessário, por exemplo, para remover ninhos de cegonha ou ninhos de andorinha.
Por isso as críticas de Bjorn Lomborg à eficiência no uso dos recursos de muitas opções ambientais não devem ser descartadas a correr só porque Bjorn Lomborg comete erros, voluntários ou involuntários, importantes. Aliás, se isto fosse critério, o que não faltam são erros de todos os lados.
Tenho poucas dúvidas que a análise da eficiência das medidas a adoptar será um campo de debate crescente na área da conservação.
Por exemplo, tenho a ideia que para o urso o melhor é deixar correr o marfim. E para o lobo a opção com melhor "value for money" é recriar a conectividade entre o Norte e o Sul do Douro.
Bem entendido, são só exemplos intuitivos para explicar o tipo de discussão que provavelmente vamos ser obrigados a fazer à medida que os recursos disponiveis para a conservação, quer públicos, quer privados, se tornem, como é provável, mais escassos.
henrique pereira dos santos

domingo, dezembro 20, 2009

O discurso que Obama não fez


“Your excellencies, ladies and gentlemen,

Everyone in this room is confronted by voices urging us not to act. There are those whose immediate interests would be damaged by the action we need to take. There are those who do not wish to confront the uncomfortable truths we must discuss. But the threat of climate breakdown transcends the usual political demands.

All those of us who are elected to high office dream of a time when we might do what is right, rather than what is expedient. All of us dream of being statesmen, rather than mere politicians. But when those opportunities arrive, all too often we duck them. There are too many political favours to return, too many powerful interests to appease. We cannot allow this to be one of those occasions.

Most of us have agreed on the ultimate goal: to prevent more than two degrees centigrade of global warming. But it should not be left to the poorer nations to remind the rich world of what its own scientists say. Even the most ambitious cuts the wealthy nations have proposed cannot meet our goal. They are likely instead to deliver three or four degrees of warming, threatening many of the world’s people.

So I have come here to propose two policies which could meet the challenge our scientists have identified. This is the first. I hereby commit the United States to cutting greenhouse gases by 50% against our 1990 levels by 2020. I commit to this cut regardless of what other nations might do, but I urge you to compete with me to exceed it. We should be striving to outbid each other, not to undercut each other.

I recognise however that even this measure cannot guarantee that we stay within the two degree limit. Eventual global temperatures will be set by the accumulation of carbon dioxide in the atmosphere. The best scientific estimate is that we can afford to burn a maximum of 60% of the carbon stored in the world’s current reserves of fossil fuels(1). A safer proportion would be 40%.

When I arrive home I will commission a task force to identify which of the fossil fuel reserves of the United States will be left in the ground. I will commission a second task force to identify the conservation and renewable energy projects needed to cover the gap.

These policies will present the United States with a formidable challenge. But my country, with its great wealth and deep reserves of ingenuity and enterprise, is better placed to respond than any other. When the United States entered the Second World War, it was unprepared for the challenge presented by its enemies. But within six months we turned the economy around to meet it. By the middle of 1942, more than 1000 automobile plants in the US had been converted to manufacture weapons. Ford was soon turning out a B24 bomber every 63 minutes, GM took just 90 days from a standing start to begin the mass production of amphibious vehicles(2).

Today a similar technological revolution is required. Just as in 1941, we can rise to it, but, with the benefit of modern methods and materials, even more quickly. No longer will the United States, which has long been in the forefront of every one of the world’s technological revolutions, be left behind in the most important race of all.

The transformation I have announced today will not be painless. Some people will lose their jobs, some companies will lose the value of investments they have made. But, as with all such revolutions, this is likely to create more jobs than it destroys.

I have no illusions about the resistence these proposals will encounter. This will be the political battle of my life. But I know it is a battle worth fighting. If I duck it, future generations will never forgive me, just as they will not forgive anyone in this room for failing to rise to our greatest challenge. This is the battle we owe to our children and to their children. This is the time to do not what is expedient, but what is right.”

Texto de George Monbiot

sábado, dezembro 19, 2009

Mitos Climáticos


Chamaram-me a atenção para uma interpelação que me teria sido feita aqui, no blog Mitos Climáticos.
Directo ao assunto, o que me é pedido tem pelo menos uma resposta aqui (é possível que procurando mais tempo encontrasse mais referências mas não vale a pena).
Quanto ao resto, confesso que tenho pouca paciência para o proselitismo e portanto raramente vou ao Mitos Climáticos, entre outras razões porque pior que o proselitismo em si mesmo é o proselitismo que foge do confronto de opinões e não admite contraditório como acontce no Mitos Climáticos (esta frase é uma boa ilustração: "Quanto ao facto de o MC não admitir comentários, trata-se de uma opção que, de forma alguma, pode ser criticada.").
Há no entanto um aspecto concreto em que Rui Moura tem razão: "Finalmente, a asserção de HPS de que “Usá-lo [a Rui Moura, autor do MC] como referência no debate não eleva o debate” constitui uma afirmação de mau gosto". É verdade, e devo desculpas por esta frase a Rui Moura.
Um comentário ao enorme enquadramento para tão pequena interpelação:
Rui Moura trunca o enquadramento da minha referência ao peer review para me acusar de obsessão com o peer review, como se fosse proibido ter opinião, acrescenta Rui Moura por outras palavras. Para quem ler o contexto, rapidamente percebe que se tratava de uma resposta a quem tinha usado Rui Moura como climatologista e caução científica. Ora uma opinão pode estar certa ou errada mas para ser ciência tem de seguir determinados critérios. Daí a minha referência. Seria aliás ridículo que eu, que nunca publiquei nada com peer review, tivesse alguma obsessão e usasse esse tipo de argumentos para desvalorizar a opinião, enquanto opinião. Evidentemente ninguém usa a minha opinião como caução científica e fazem muito bem. Onde fazem mal é achar que o que escreve Rui Moura no Mitos Climáticos é ciência. Não que seja melhor ou pior que a ciência, não que seja mais certo ou errado que a ciência, mas não é ciência.
henrique pereira dos santos

Haverá super heróis ? (III)


Vencedores:
Obama - chegou, falou e saiu de cena com o que queria (e com o que podia);
China - Mostrou ser impossível qualquer acordo sem ela;
Brasil (Lula) - Tornou-se uma potência mundial e o interlocutor privilegiado dos US para os países do Sul (em particular na América Latina) - parece que por cá, ainda há poucos anos, havia a intenção de sermos aqueles que iriamos abrir as portas da geopolítica ao nosso "irmão"...
Perdedores:
Europa - mostrou a sua crescente irrelevância a nível mundial. Gordon Brown será o que mais perdeu (jogava aqui um dos trunfos para tentar manter o poder em Julho. Cameron não se esquecerá de referir que é o mais verde quando a altura chegar);
ONU - mostrou que não é esta a forma de se fazer política internacional neste século;
Dinamarca - o desastre.
Os restantes: fizeram número e tirando aqueles que esperavam um totoloto (e que não sabiam que não há almoços grátis) talvez tenham conseguido no futuro um cheque mais gordo (em particular a África).
Quanto ao tema, parece que se descutiam as Alterações Climáticas, ficou tudo como é normal nestas questões da Nações Unidas, ou seja, "business as usual". Contudo, e como já aqui referi não há outro caminho que não seja alterar o nossa paradigma energético, só que ainda não é o tempo para muitos dos actores que estiveram na COP15.
João Menezes

Climate Denial Crock of the Week - II

Climate Denial Crock of the Week - I

Um interessante exercício de desmistificação combinado com humor.

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Haverá super heróis? (II)


Parece que de facto ainda há Super Heróis, mas lá tal como cá as "pilhas" estão gastas e a velocidade já não é o seu forte. Mas, lá, mesmo assim ainda chega para pôr à margem as UN e tornar irrelevante a Europa...

O MIT discute o "climategate"


quinta-feira, dezembro 17, 2009

haverá super heróis?



Depois do total falhanço da estratégia da Dinamarca em Copenhaga, será que o Super Herói ainda chega a tempo de salvar o Planeta??

Sócrates, Portalegre e Beja (ou coisas do ambiente que até parecem nem ser)


Li algures que ontem José Sócrates chegou atrasado a vários sítios e a outros nem chegou.
E li também que responsabilizou pelo atraso de duas horas na chegada a Beja um dos membros do seu gabinete que estava convencido de que uma hora bastaria para ir de Portalegre a Beja.
Se este fosse um blog de comentário político eu comentaria o facto de haver um primeiro ministro que parece não saber que tarefas se delegam, mas responsabilidades não, e o facto de haver um chefe que se justifica com erros dos seus subordinados.
Como não é, fico sem perceber se deverei comentar a ignorância do Primeiro Ministro sobre o país (mesmo sendo da Beira Baixa e de já ter feito inúmeras campanhas pelo país, quer em eleições, quer como governante o Primeiro Ministro não tem a noção do tempo que demora a ir de Portalegre a Beja), se o desfasamento do seu gabinete face à realidade (não têm noção do tempo que demora ir de Portalegre a Beja), se a pura incompetência (na preparação de uma deslocação são incapazes de ir ao googlearth ver quanto tempo se demora cumprindo os limites de velocidade, 2h e 41m, diz o google).
Ou então há outra explicação: foram ao google e como de costume olharam para os quilómetros e não para o tempo da viagem. E acharam que era razoável estimar uma hora para a comitiva do primeiro ministro fazer 181 kms, e ainda sobrava algum tempo para os troços em que não era mesmo possível ir a mais de duzentos à hora.
Pelo menos Manuel Pinho, Ministro da Economia, quando apanhado pela GNR a mais de 200 achou normal e contestou a multa (por essa altura houve mais uma mão cheia de carros oficiais apanhados a mais de duzentos, mas esses não contestaram a multa). Pelo menos o chefe da segurança nacional acha normal ir a alta velocidade na Avenida da Liberdade, sem cinto de segurança, simplesmente porque tem a faculdade de não o usar e de não cumprir os limites legais se assim entender.
Tal como o primeiro ministro tem a faculdade de andar a 250 se assim o entender.
Lembro-me de uma ministra que vencida pelo cansaço dormitava numa deslocação para uma cerimónia para que tinha saído atrasada deLisboa e de vez em quando, abrindo os olhos, admoestava o motorista, aflito para chegar a horas, porque já lhe tinha pedido muitas vezes para nunca ir a mais de 200.
A lei, e bem, permite isto tudo.
A ética, essa que é individual, deveria ser suficiente para que todos estas pessoas responsáveis soubessem que a sua obrigação é nunca usar as excepções da lei sem ser absolutamente necessário. Deveriam saber que os privilégios concedidos pela lei pressupõem que as pessoas tenham a noção clara dos seus deveres, começando pelo dever da pontualidade (a virtude dos reis) e acabando no dever de ser mais cumpridor da lei que os cidadãos comuns.
Mas cumpridor da lei nas suas normas gerais, e não cumpridor da lei através das normas excepcionais que existem para situações excepcionais e que em Portugal qualquer pessoa com o mínimo de poder entende como sendo para usar corriqueiramente (há excepções, claro, conta-se que João Cravinho, Ministro que tutelava uma boa quantidade de empresas públicas e juntas autónomas, costuma viajar sempre em turística nos aviões, cumprimentando de passagem os seus tutelados que viajavam quase todos em primeira, porque as regras permitiam, como evidentemente permitiam a João Cravinho).
Penso que até os mais negacionistas das alterações climáticas concordarão comigo que a enorme quantidade de emissões resultantes deste tipo de atitude de quem não sabe o significado da palavra ministro (servidor, servo) são completamente injustificadas.
E não se pense que é uma questão lateral. O aumento de produtividade em Portugal seria real apenas com o cumprimento de horários e com a atitude mental a que obriga.
E os ganhos ambientais seriam inegáveis.
Adenda: A hipótese de neste caso a comitiva ter excedido os limites de velocidade deve naturalmente ser descartada. Visto que o atraso se deveu ao facto de um dos membros do gabinete ter previsto uma hora de viagem, a viagem terá demorado a hora prevista, mais o atraso de duas horas. A comitiva terá então demorado três horas entre Portalegre e Beja, seguramente por ter adoptado uma condução de baixo consumo e baixas emissões, abaixo do limite legal que implicaria 2h e 41m de viagem
henrique pereira dos santos